Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe) uns, resgatados das páginas de antigos livros das prateleiras de alfarrabistas... outros, rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais, e ainda outros, fundados em testemunhos vivos e em experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os mesmos erros so passado, sejamos capazes de progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 6 de março de 2012

O navio português do século XVI de Oranjemund, Namíbia


A marca dos Fugger
via, No Arame
Um navio português do séc. XVI, descoberto em Abril, ao largo da Namíbia, Oranjemund, por uma equipa de geólogos que procuravam diamantes [ver arquivo do blog].

Este navio de 300t viajaria de regresso a Portugal quando naufragou espalhando pela costa africana a sua preciosa carga. As moedas em ouro e prata estão agora no banco da Namíbia, em Windoek. O resto da carga que consistia em toneladas de ouro, prata, marfim e metais ainda não identificados estão armazenados à espera de poderem ser estudados. As bolas do cobre encontradas têm a marca dos Fugger (o tridente) o que corrobora a tese de que o navio era português, uma vez que os banqueiros alemães eram os fornecedores de metais à casa real portuguesa.
Entre os objectos pessoais recuperados encontra-se um rosário propriedade de um dos marinheiros.
Mas em breve o oceano reclamará aquilo que é seu. Pensa-se que no início de Outubro (c. de 10 de Outubro) a parede artificial de areia que foi construída à volta do sítio será destruída e o local voltará a ficar submerso. Por isso a equipa de arqueólogos trabalha a contra-relógio.

O achado resultou na recuperação de c. de 13 toneladas de lingotes de cobre, 8 toneladas de estanho, 600 Kg de marfim, 21 Kg de ouro, 2000 moedas de ouros (70% das quais espanholas, as restantes portuguesas), c. de 1 Kg de moedas de prata.

De acordo com o arqueólogo responsável o barco, de origem portuguesa teria três mastros e cerca de 30 metros de comprimento e teria viajado da Europa do Norte para a Ásia. Bruno Werz, supõe que o naufrágio se terá ficado a dever a um choque com uma rocha. O que os arqueólogos agora encontraram foi o próprio local do acidente onde ficaram retidos os materiais mais pesados. As correntes oceânicas terão dispersado pela área os materiais mais leves.

O arqueólogo português Francisco Alves afirmou que a descoberta do padrão circular nas moedas de ouro foi determinante para datar o achado como posterior a Outubro de 1525, data em que esse tipo de padrão começou a ser utilizado.

quinta-feira, 1 de março de 2012

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Angola nos séculos XVII e XVIII foi "uma província portuguesa do Brasil". (Jaime Cortesão)


"....Durante os séculos XVII e XVIII, a política portuguesa em Angola era dirigida do Brasil e as relações poticas e económicas entre os dois países eram tão estreitas, com tantas personagens e factos históricos comuns  que o historiador Jaime Cortesão não hesitou em  considerá-la "uma província portuguesa do Brasil". Mais ou menos como Benin, Togo e Nigéria, Angola também recebeu africanos e descendentes retornados do Brasil. Fixados notadamente em Moçâmedes, actual Namibe, eram sobretudo Ambundos e chegaram portanto, uma cultura própria, cristianizada, eivada de hábitos brasileiros. Tanto, que na língua dos cuanhamas o termo que os define  e bali (também lwimbali ou vimbali), que significa, literalmente, "aqueles que andam com os brancos". Inicialmente os retornados eram escravos acompanhando os seus patrões portugueses, que haviam saido de Pernambuco, em face das hostilidades nativistas, em Maio de 1849, a bordo do brigue Douro e da barca Tentativa Feliz , chegando à recém-fundada Moçãmedes em 4 de Agosto. Em Novembro do ano seguinte, mais uma leva chegava a Angola, a bordo do mesmo Douro e da barca Bracarense. Depois desses, outros chegaram vindos do Rio de Janeiro e da Bahia.

Mesmo antes da abolição da escravatura no Brasil, começaram a emigrar voluntariamente, para o sul de Angola, africanos e descendentes que, orgulhosamente, procuravam se conservar "brasileiros" não se deixando integrar de todo no ambiente cultural africano. Assim como os portugueses já abrasileirados, os retornados tornaram-se vetores de um significativo abrasileiramento de populações, paisagens e culturas.  Deste modo, a construção de casas-grandes e de senzalas, o cultivo de algodão e de cana-de-acucar, pinturas de baus, ex-votos, tabuletas comerciais, bandeiras de santos, estardantes de clubes de carnaval, e, principalmente os cemitérios afro-cristãos, constituem marcas definidoras dessa presença. Nos cemitérios, e nítida a diferença entre os túmulos dos brasileiros brancos e dos afro-brasileiros. Os primeiros são graves, solenes, neoclássicos, e os segundos ostentam esculturas rústicas, coloridas, como as encontradas no Nordeste,   em outros pontos do Brasil, tocados pelo influxo africano; contam ainda com ex-votos e vasos com oferendas, símbolos alusivos aos ofícios e profissões dos ali sepultados".
Fonte:  RIO DE JANEIRO, Imigrantes Angolanos.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

LIVRO: As colonias portuguezas no seculo XIX (1811 a 1890) Pinheiro Chagas




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As colonias portuguezas no seculo XIX (1811 a 1890).
Author: Manuel Pinheiro Chagas
Publisher: A.M. Pereira
Year: 1890


Indice para Moçâmedes: Pgs 236 a 276

Partes do Indice com interesse para a costa de Moçâmedes:

255 Lucira Pequena
256 Lucira Grande
257 Cabo Santa Marta
257 Baía das Matilhas
257 Rio Carunjamba
258 S. Nicolau
258 Morro do Chapéu Armado
258 Emseada do Chapé Armado
259 Peambo
259 Baía do Mucuio
259 Baía das Pipas
260 Rio Giraul
260 Baía de Moçâmedes
260 Ponta do Giraul
261 Ponta Redonda
261 Saco do Giraul
261 Ponta Negra
261 Fortaleza
261 Torre do Tombo
261 Ponta do Noronha
261 Ponta da Anunciação
261 Baixo Amélia
261 Praia Amélia
262 Moçâmedes
262 Bero
263 Mesas dos Cavaleiros
266 Três Irmãos
266 Cabo Negro
266 Rio dos Famingos
267 Manga das Areias
267 Porto Pinda
268 Aldeia do Coroca
269 Rio Coroca
269 Ponta Albina
269 Baía dos Tigres
272 Praias Baixas
272 Rio Cunene
272 Cabo Frio


Inclui para além de outros aspectos, observaçoes gerais sobre a costa de Moçâmedes: estações, ventos, correntes, marés, banco de sondas, calemas, nevões, etc.

 


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: o Obelisco a Sá-da-Bandeira


 
Vista parcial da cidade de Moçâmedes nos anos 1970, com a Praça e o Obelisco a Sá da Bandeira
 
O obelisco a Sá da Bandeira



Este obelisco que em 1975 se encontrava no centro da Praça que aqui vemos, entalada entre a Rua das Hortas, Rua Calheiros e Rua Mendes Leal,  tinha vindo para alí trazido da Avenida da República, nos anos 1940, onde se encontrava colocado em frente ao edifício da Alfândega, na parte que servia os Correios Telégrafos e Telefones, como abaixo podemos ver, e fez-se transportar sobre vagonetas, deslizando sobre linhas férreas que, para o efeito, haviam sido temporariamente estendidas nas ruas da cidade, entre os dois locais.
 
 O edifício da Alfândega, em 1935, o obelisco e o primitivo coreto no Jardim da Avenida da Republica
 
Este obelisco foi erigido em  1869,  ao centro da Praça Sá da Bandeira,  em Moçâmedes, em memória do Ministro Sá da Bandeira, do Partido Progressista Português, que em 1836  tomou importantes medidas legislativas sobre a abolição da escravatura e a protecção do comércio entre as colónias e Lisboa. A Praça Sá da Bandeira era uma enorme praça que ocupava todo um quarteirão, e  que tinha por centro o  local mais tarde ocupado pela Escola Portugal.

Encontrámos  uma referência àquela que foi a primitiva "Praça Sá da Bandeira" e a este Obelisco,  num artigo publicado por Manuel Júlio de Mendonça Torres no Boletim Geral do Ultramar  XXX - 348 e 349, de Junho-Julho de 1954,  págs. 125 a 129, na parte  dedicada aos edifícios e obras municipais existentes neste ciclo, sob a designação "Conspecto imobiliário do Distrito de Moçâmedes no ciclo de 1850 a 1879",  que passamos a transcrever:

"...Consta no Relatório do governador Costa Cabral, de 19 de Junho de 1877, que  num dos ângulos da Praça Sá da Bandeira se erguia um pequeno prédio,  já concluido, "servindo de Casa da Câmara". Supomos  que a casa a que se refere Costa Cabral  é aquela em que hoje está instalada a Administração do Concelho. Só muito mais tarde é que a Câmara Municipal  fora definitivamente instalada no edifício em que funciona hoje os serviços  dos Paços do Concelho. Devia ter ficado pronto e a funcionar, segundo o
Graça,  de 13 de Julho de 1869, no dia 1 de Janeiro de 1870. Outro ângulo da Praça estava ocupado pela casa, já em paredes e telhado,  destinada a "Casa do Tribunal". 

Observava Costa Cabral  que esta casa, cuja conclusão já pouco importaria era indispensável,  por ser Moçâmedes sede de comarca. E informava que as dimensões desta casa eram acanhadas para ter o destino que lhe estava dado; faltavam divisórias, como sala para julgamento, gabinete para juiz e delegadi, dois cartórios, sala para réus e outra para testemunhas; para tudo isto não tinha capacidade. Só pelas informações que nos dá Costa Cabral ignoramos se foi nesta casa que funcionou o primeiro tribunal da comarca.  No terceiro ângulo, alvitrava o governador fosse construida uma casa com consições de "Escola para o sexo masculino". Mas nada se fez. Sobre o assunto já expuzemos o que bastava no capítulo "Os serviços de instrução".

No  quarto ângulo fora construida uma casa, que já estava em paredes, destinada a "Cadeia".  Era impróprio o lugar porque nessa casa se haviam de aglomerar indivíduos de hábitos desmoralizadores, sendo, portanto, inconvenientíssima a vizinhança, se na mesma praça fosse construida a Escola, como se pensou.

Segundo o relatório do governador Graça, de 13 de Julho de 1869, a "Praça de Sá da Bandeira" media 14.000 metros quadrados. Parece-nos exagerada tal área. Presumimos que esta praça tivesse sido limitada pelo gradeamento colocado tempo depois, ficando, por este motivo, situados fora dela os edifícios construidos em cada um dos seus ângulos.

A Praça Sá da Bandeira , de vastas dimensões e confinada pelo seu aparatoso gradeamento, fora aberta no local onde hoje se erguem a "Escola Portugal" e algumas outras edificações. No centro via-se, erecto, um obelisco dedicado à memória do estrénuo libertador dos escravosd nos nossos domínios ultramarinos.
Há muitos anos, mas ainda nos nossos tempos, efectuara-se definitivamente a retirada dos gradeamentos e fora, outrossim, transladado o obelisco para a Avenida da República. próximo do sítio quase fronteiro ao antigo edifício dos Correios. E, ultimamente, há bem poucos anos, determinou a Câmara a deslocação daquele monumento para uma praça que havia sido aberta a Nascente da cidade, entre as ruas Calheiros, Hortas e Mendes Leal.

O monumento erigido à memória de Sá da Bandeira compõe-se de uma coluna quadrangular de pedra, adelgaçada na extremidade, assente sobre um pedestal, também de pedra, em cujas faces se lêem as inscrições seguintes:


AO DEFENSOR DA LIBERDADE
1869
ATAQUE AO ALTO DA BANDEIRA EM 8 DE SETEMBRO DE 1832
AO PROTECTOR DAS COLÓNIAS O GENERAL SÁ DA BANDEIRA  "


Pesquisa e texto de MariaNJardim



domingo, 12 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: a comunidade luso-brasileira fundadora e a sua influência ao nível da população


Eis Moçâmedes tal como era no início do século XX. Uma pequena cidade, a cujo estatuto ascendera no ano de 1907,  por ocasião da visita do príncipe real D. Luís Filipe, 34 anos após a morte do seu fundador, Bernardino Freire Figueiredo de Abreu e Castro, ocorrida em 17 de Novembro de 1871.


Tudo começou quando vinda de Pernambuco, Brasil, chegou a Moçâmedes a  04 de Agosto de 1849, na Barca brasileira"Tentativa Feliz" acompanhada do Brigue da marinha portuguesa, "Douro", a primeira colónia de emigrantes portugueses e luso-brasileiros, chefiada por Bernardino Freire Figueiredo de Abreu e Castro, para dar início ao povoamento branco da região. Fugiam à onda de antilusitanismo que tinha levado aos mais hidiondos  crimes contra a comunidade lusa, que por despreso denominavam de "marinheiros", sem outra razão senão a de terem praticado o "crime" de quererem continuar a ser portugueses.

Sobre os colonos que aportaram em Moçâmedes nos anos 1849 e 1850, Manuel Júlio de Mendonça Torres, na sua obra «Moçâmedes», 1º volume, avança qualidades que na sua óptica enformavam carácter dos colonos fundadores: honestidade, amor da pátria, sentimento religioso, energia da vontade e  paixão exaltada, qualidades que em grande parte explicam  também a rapidez com que a povoação começou a ser erguida das areias do deserto, bem como o  modelo de vida que ali se estabeleceu que a  legenda "Labor Omnia Vincit" impressa no Brasão de Armas dae Moçâmedes tão bem representa.
 
Moçâmedes foi elevada à categoria de vila, em 1855, apenas seis anos após a sua fundação,  e    já nessa altura exibia dois alinhamentos de habitações, paralelos à praia com uma rua de permeio, de 400 metros de comprimento. Sabe-se também que em 1865, a vila e os subúrbios, contavam já com 207 habitações erguidas, e em 1868, com 543.
 Vejamos o que a este respeito nos dizem alguns autores:

«...É um bolício Mossamedes. Uns edificam casas na povoação que escolheram para habitar; outros nas faldas da serra dos Cavaleiros, no sítio chamado dos Namorados...».  «45 dias em Angola», de autor anónimo. 1862.

" Em dez anos (espaço de tempo diminuto na História de um povo), esses bravos pioneiros, muitos de entre os quais haviam deixado para trás o conforto de uma vida citadina onde nada lhes faltava, abriram ruas, rasgaram avenidas, construiram pequenas habitações, lançaram os fundamentos de uma ...agricultura, lançaram ao mar as primeiras redes abriram o distrito à mais fecunda das suas indústrias, a indústria de pesca. Como trabalharam duro!"   Visconde Giraúl

«Como colónia portuguesa, esta localidade distingue-se pelo asseio. Não é próspera, mas é limpa. Não fornece borracha, nem marfim, nem cera ou café. Em compensação, produz crianças , belas e sadias crianças, como é custoso crer que as tolere o sol ardente de África.  A sua população é branca e o interior das suas casas, pintadas a cal, a oca, a anil, a vermelhão, guarda na disposição dos móveis, na colocação dos quadros, a tradição dos nossos interiores familiares de Portugal. Quando aqui vim pela primeira vez, achei isto encantador , mas o que sobretudo me captou, foi este asseio, este ar de «coqueterie» , que não exis em nehuma terra de África» João Chagas, in «Diário dum condenado político», 1892, 1893, a pg 46 e 47.  

  «O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a 4 de Agosto de 1859, ao festejarem o seu 10º aniversário, verificaram haver feito: nas margens do Bero que tiveram que conquistar e defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraul, três; no Bumbo, duas: em S. Nicolau, três: no Carunjamba, uma; no Coroca, três: na Huila, sete; e, ainda, a ocupação comercial dos Gambos, da Camba, do Humbe e do Malondo, percorrendo o Sul de Angola emtodas as direcções, com as suas caravanas. e levando a sua penetração, até além Cunene aonde iam buscar o marfim. Pela Alfândega de Moçâmedes tinham exportado em 1858 e 1859: vinte e oito toneladas de cera, vinte e um mil couros; cento e oitenta bois, quatro mil e quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe, sete mil novecentos e cinco quilos de marfim, seiscentos e quarenta toneladas de peixe seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze toneladas de batata e dezasseis toneladas de carne seca. Que mais queriam que fizessem ? Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a comoção dum sacerdote, ao abrir o Relicário, para mostrar a Hóstia Sagrada. Faço-o perante o Altar da Pátria, com a mesma unção com que os sacerdotes o fazem perante Deus.»  Alfredo Felner

«...os colonos que em meado do século XIX se transferiram do Norte do então Império brasileiro para a África, tornaram em alguns anos Moçâmedes uma imagem viva e doce da Pátria, isto é, de Portugal, pela introdução de usos e hábitos nacionais".  1º volume. Manuel Júlio de Mendonça Tôrres, em O Distrito de Moçâmedes nas Fases da Origem e da Primeira Organização (1485-1859)

Quanto à configuração do traçado das ruas e do seu casario de Moçâmedes, levantados de acordo com o projecto de Fernando da Costa Leal (o seu 5º Governador), de facto, tal como refere Manuel Júlio de Mendonça Tôrres no citado livro, tem todas as características de uma cidadezinha portuguesa, com as suas ruas rectilíneas, as perpendiculares em quadrícula quase simétrica de blocos rectangulares de casas (ou quarteirões), a sua extensa avenida paralela ao mar, onde sequer faltava ao centro o tradicional Coreto, onde aos domingos bandas iam tocar. Mas havia algo que escapou a Mendonça Torres. Eram como referiu Gilberto Freyre, as influências brasileiras detectáveis quer na paisagem  quer na vegetação, quer nos modos de ser e de estar das pessoas, inclusive no modo de lidar com os serviçais africanos, alojando-os em senzalas complementares de casas-grandes, alimentando-os, vestindo-os, iniciando-os nas práticas e ritos católicos:

"A verdade é que êsses "colonos" introduziram em Moçâmedes não apenas usos e costumes do Portugal europeu como do Brasil; e nessa obra de transculturação parecem ter sido auxiliados de modo nada desprezível pelos brasileiros, quer brancos - espôsas, filhos, parentes, etc. - que os acompanharam, quer pelos criados e serviçais. De alguns daqueles colonos sabe-se que se especializaram, como Bernardino de Figueiredo, em cultivar muito brasileiramente, em Moçâmedes, algodão e cana de açúcar; e com tal sucesso que amostras de algodão da fazenda e do açúcar do engenho do mesmo Figueiredo figuraram em 1865 na Exposição Internacional do Pôrto. De modo igualmente brasileiro parecem ter se requintado êsse e outros "colonos", idos do Norte do Brasil, em receber com mesa lauta amigos e estranhos em suas casas-grandes de feitio patriarcalmente pernambucano: casas-grandes completadas por senzalas. Daí terem se tornado famosos os banquetes na casa-grande da Fazenda dos Cavaleiros, de propriedade de Figueiredo; e em visita há poucos anos a Moçâmedes tive notícia de terem sido essas fazendas centros de irradiação não só da lavoura de algodão e da de açúcar, como de outras lavouras brasileiras, de alimentação e de gôzo; e de costumes e ritos luso-brasileiros de agricultura e de vida rural". Gilberto Freyre

Gilberto Freyre refere ainda:

"Um dos elementos que concorreram para a transculturação, de valores brasileiros em áreas ou entre populações africanas, através de agentes que do Brasil regressaram à África ou ainda aí se transferiam foi o colono português ou o brasileiro branco, proprietário de escravos no Brasil, ao deslocar-se do Basmera a África juntamente com êsses escravos - além de móveis de jacarandá, vasilhas de barro, rêdes do Ceará, balaios e cestas de feitio ameríndio, mudas de plantas, papagaios; ou apenas com idéias ou noções ou métodos, adquiridos na América Portuguêsa, de lidar com escravos, alojá-los em senzalas complementares de casas-grandes, alimentá-los, vesti-los, iniciá-los em capelas particulares ou em oratórios das mesmas casas, mas práticas, e ritos luso-Católicos, fazê-los trabalhar em lavouras tropicais, com objetivos europeus.
Houve vários casos dessa espécie - de transferência às vêzes como que global de colonos estabelecidos no Brasil para a África - entre os quais casos de brasileiros, filhos de portuguêses, e portuguêses casados com brasileiras de famílias antigas e de velhos habitos patriarcais-rurais ou patriarcais-agrários. Alguns dêsses portuguêses e brasileiros transferiram-se na primeira metade do século XIX de Pernambuco para Moçamedes. Aí se encontram em cemitério aristocrático, túmulos de estilo convencionalmente luso-Católico, de vários brasileiros, alguns de famílias fidalgamente rurais; e são vários os descendentes dêles, na população atual de Moçâmedes.   Ainda hoje se encontram, também, nas "hortas" ou fazendas pequenas ou médias de descendentes de "brasileiros" naquela parte da Angola fortes traços de influência brasileira, não só sôbre a paisagem ou a vegetação africana - abrasileirada pela presença da mandioca, do tabaco, do cajueiro - como sôbre os estilos luso-africanos de vida, de economia e de comportamento. Inclusive o comportamento de serviçais africanos, alguns dêles continuadores de escravos africanos ou de descendentes de africanos que, ou acompanharam seus senhores na aventura de deixar o Brasil pela África, em face de surtos brasileiros de anti-lusismo; ou foram influenciados pelos métodos brasileiros de assimilação dos escravos a uma terceira cultura, nem européia nem ameríndia, porém luso-brasileira, com possibilidades de generalizar-se fàcilmente naquela cultura geral que venho denominando luso-tropical. A generalização de cultura luso-brasileira em cultura luso-tropical ocorreu, com alguma freqüência, através de regressos quer involuntários - de escravos que acompanharam senhores do feitio dos que se estabeleceram em Moçâmedes, em suas transferências do Brasil para outras áreas de colonização portuguêsa ou européia - quer voluntários: de ex-escravos ou de descendentes de escravos que se deslocaram do Brasil para essas outras áreas, maternalmente africanas, conservando-se, porém, com certo brio étnico-cultural, "brasileiros"; e não se deixando reintegrar de todo nas culturas ou sociedades maternas da África".

Também Gilberto Freyre encontrou no Cemitério de Moçâmedes destinado à população "indígena" aquilo que considera ser "uma das expressões mais dignas de estudo da situação intermediária de cultura - cultura afro-cristã - característica de considerável subgrupo da população de Moçâmedes, repita-se que é a que se nota naquele cemitério a um tempo cristão e africano, em cujos túmulos, aos símbolos cristãos se juntam, com valor simbólico ora menos, ora mais evidente, não só desenhos de traço africano como urnas e receptáculos destinados menos a flôres, dentro do ritual cristão de culto aos mortos, que a ofertas de outro gênero - alimento, inclusive - como em rituais fúnebres africanos. Talvez o referido cemitério seja, neste particular, uma das expressões biculturais mais interessantes que hoje se encontram em qualquer parte.


Debruçemo-nos então sobre alguns desses usos e costumes levados pelos portugueses e luso-brasileiros para Moçâmedes e que se mantiveram constantes, pelo menos até meados do século XX.  Um deles  foi o da "romaria"  ou "romagem" que se fazia anualmente, com grande afuência, à capelinha da Nossa Senhora da Conceição do Quipola, nos arredores da cidade. 

Esta foto, datada de no dia 8 de Dezembro de 1928, retirada de um dos livros de Paulo Salvador,  mostra-nos precisamente uma dessas "romarias" à capelinha de Nossa Senhora do Quipola,  num tempo em que o comboio (que se pode ver ao fundo) era já o transporte de eleição para este tipo de peregrinações anuais. Trata-se de um interessante elenco de cavalheiros, senhoras, senhorinhas, meninos e meninas, em ameno convívio,  cuja indumentária sugere  tratar-se não de gente humilde, mas de uma determinada classe, que beneficiava na época já de certo desafogo: as senhoras exibindo largos chapéus e bonitas toilettes, os homens de fato, gravata, chapéu, etc, em todos, eles e elas, uma certa preocupação com o bem estar e com o bem parecer... À esq. e um pouco mais atrás, alguns africanos que se pressupõe serem serviçais. Ao fundo, estacionado, o comboio que circulou pela primeira vez em 1907.






Mas as "romarias" tiveram o seu início numa fase anterior ao comboio, numa altura em que as pessoas para se deslocarem a médias distâncias como era o Quipola, as "Hortas", etc,  serviam-se de machilas, tipoias e carroças de madeira, de estilo boer, puxadas por manadas de bois. A foto acima, tirada no início do século XX na rua da Praia do Bonfim,  paralela à Avenida da República, mostra-nos um gracioso grupinho de meninos e  de meninas, e alguns adultos, preparados para uma viagem que poderia bem ser rumo ao Quipola, mas também às "Hortas" existentes nas margens do rio Bero, ou talvez, quem sabe, um simples passeio pela vila.  As carroças de madeira foram introduzidas pelos boers, e foram durante bastante tempo o meio de transporte utilizado em Moçâmedes,  para pessoas e mercadorias, antes da inauguração do Caminho de Ferro  em 1907.  Sabe-se que com a inauguração do comboio em 1907,  os Caminhos de Ferro passaram a colaborar na romaria ao Quipola,  disponibilizando  transporte gratuito á população, da Estação ao Quipola e vive-versa.
 
 


Repare-se nesta foto, através da qual podemos ver,  encostadas à parede lateral da capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, algumas das atrás referidas machilas. 

As romagem à Capelinha do Quipola era como todas das romagens ou romarias praticadas em Portugal, uma mistura de religião cristã com cerimónias pagãs (não cristãs),  incluia «missa campal» seguida de uma longa procissão na qual toda a gente participava, percorrendo todo o recinto, serpenteando por através da profusão de mastros embandeirados implantados no local, até chegar de novo ao ponto de partida.  Finda a procissão, cumpridos os deveres religiosos, começava o arraial ali mesmo ao lado, em recinto de terra batida devidamente enfeitado e apetrechado, onde à boa maneira portuguesa se erguiam pavilhões e barracas que de tudo um pouco se vendia, desde «comes e bebes» a estatuetas, objectos diversos, rifas, etc. Enfim, uma mistura de sagrado e profano para que todos pudessem manifestar a sua fé e orar à sua Santa, cumprir os seus deveres religiosos e acabar o dia, à boa maneira portuguesa, petiscando, bailando e divertindo-se, de início ao som da concertina, mais tarde, ao som do gramofone e seus altifalantes. Na foto acima podemos ver, para além da Capela e das machilas, o pavilhão, o recinto embandeirado, e o estrado de erguido em frente ao pavilhão, rodeado de folhas de bananeiras e de palmeiras, e destinado ao bailarico.

 Elegantes em  passeio às "Hortas"

Desde a fundação de Moçâmedes, as "Hortas" implantadas ao longo das margens do rio Bero, depressa se constituiram num ponto de encontro domingueiro de muitas famílias da terra, que se manteve consistente, pelo menos, até finais dos anos 1950.

A "ida às Hortas" começou por ser um hábito burguês cultivado em Portugal metropolitano e no Brasil a partir da segunda metade do século XIX, que se foi democratizando, e que, como tantos outros, foi transladado para Moçâmedes pelos colonos que iam chegando, e  aconteciam geralmente no Verão, sendo as "Hortas" do Torres e a do Venâncio Guimarães (Benfica) eram as preferidas, por ficavam do lado de cá do rio Bero (1), o que facilitava os transportes, sobretudo em época  de chuvas antes da construção da ponte,
quando das enxurradas tornavam problemático a travessia do rio, mas também porque eram acolhedoras. Havia outras «Hortas» nas margens do rio Bero, também interessantes de se visitar,  como a de João Martins Pereira, a da Boavista no Quipola (Venâncio), a do Costa Santos, etc. etc.

Uma  "ida às Hortas" juntava em amena confraternização, aos domingos, no Verão, grupos de pessoas de todas as idades e de todos os parentescos, avós, pais, filhos, netos, bisnetos, tios, primos, sobrinhos, e até compadres e amigos. A partir dos anos 1960 este culto começou a declinar com o declíneo do modelo de família extensa que deu lugar ao modelo de família nuclear,  restrita, reduzida ao pai, à mãe e a não mais que dois ou três filhos, mais individualista, mais autónoma e mais íntimista. Contribuiram também para o recuo dessas grandes reuniões de familiares que animaram os velhos tempos  as novas e diversificadas formas de lazer e de  entretenimento que entretanto foram tendo lugar em Moçâmedes e vieram  alterar  usos e costumes antigos que em breve não passariam de gratas recordações.

Convém contudo lembrar que não foi fácil erguê-las e cultivá-las, devido às prolongadas secas que levaram à abertura cacimbas (poços), ao cavar de regos por onde  haveriam de correr as águaa encontradas, a um trabalho árduo, paciente e pertinaz, no decurso do qual os primitivos colonos foram aprendendo com os próprios erros a lidar com as situações, a saber quais as épocas próprias para as sementeiras, a rasgar progressivamente o vasto areal seco areal do Namibe. Desde 1849, que a várzea do rio Bero, a poucos quilómetros da foz, havia sido toda retalhada e entregue a cada um dos colonos pioneiros, com a obrigação de a arrotearem e prepararem para a cultura da cana-de-açucar e produtos hortícolas. Eles não sabiam que o Bero ao qual chamavam o "Nilo" de Moçâmedes não possuia a capacidade de inundar regularmente as terras, para que os meses de colheita e descanso fossem a compensação das canseiras na preparação das plantações... Logo no primeiro ano, o rio não trouxera água suficiente para inundar as margens cultivadas e baldados foram todos os sacrificios. As colónias de 1849 e 1850 não sucumbiram no raiar da sua existência, graças a uma subscrição pública aberta pelas Câmaras de Luanda e de Benguela. 



Um trecho do luxuriante jardim da Avenida da Repúblic, mais tarde Avenida da Praia do Bonfim


Elegantes passeando na Avenida...1907, ano da subida de Moçâmedes a real cidade


Um outro hábito burguês, espécie de actividade lúdica, que constituiu num rito social muito em voga, aos domingos, em Moçâmedes foi o do "passeio público". Dir-se ia que o belo jardim da Avenida da República em Moçâmedes, que tinha por epicentro o "mítico" Coreto (visível nos três postais acima) que chegou incólome aos tempos da minha infância para em seguida ser demolido, fora o local escolhido por uma determinada "elite" da terra para o seu passeio domingueiro, numa transposição, ainda que reduzida à dimensão da terra, do "passeio público" que se desenrolava em finais do século XIX na Metrópole, na Avenida da Liberdade, onde a menina casadoira se ia mostrar exibuindo a  boa aparência da sua "toilette" ou,  mais singelamente, para ouvir no coreto a banda tocar... Na  foto acima, tirada em 1907, quando da visita do princípe D. Luis Filipe a Moçâmedes e da subida da até então vila a real cidade, podemos ver sentadas em bancos corrido do  jardim,  junto ao Coreto, algumas «damas» da época exibindo requintados vestidos compridos e chapéus de abas largas, como era moda na época, tendo a seu lado as suas crianças, também elas graciosamente vestidas. De pé, vêm-se «cavalheiros» envergando fatos brancos e chapéus, e descontraidamente caminhando ao longo do jardim vêem-se outros elementos da população e  um ou dois jovens com as suas bicicletas. Do alto do Coreto sobressai uma figura que parece ser a de um elemento de alguma banda musical a preparar-se para tocar. À direita  um estrado suportando um toldo sugerindo ter alí havido alguma cerimónia oficial, talvez dedicada à visita do Principe. Aliás este jardim era a sala de visitas de Moçâmedes, local de desfiles, comemorações e até arraiais, onde  barracas e pavilhões eram erguidas, onde senhoras da terra erguiam quermesses, faziam exposições, organizavam sorteios, rifas, tômbolas, etc, como sempre ouviramos contar as nossas avós.  
 
Estou a lembrar-me das barracas e pavilhões erguidos nas laterais da vasta Avenida quando do Centenário da cidade em 04 de Agosto de 1940, e dessa famosa década de 1950, em que num repente a pacata cidade de Moçâmedes (que desde há uns anos tinha passado a dispôr do seu Rádio Clube e do seu Cine Teatro), passou a contar com um grande número de pessoas,  homens e mulheres, jovens e adultos,  intensamente envolvidos em eventos sociais de toda a ordem: programas radiofónicos de variedades organizados pelo mesmo RCM;  "Programas da Simpatia" (o grande sucesso de Carlos Moutinho) que cativaram gente de todas as idades; passeios na Avenida, transformada numa espécie de "picadeiro",  após as sessões da tarde (matinées) no Cine Moçâmedes, onde altifalantes pendurados em frondosas árvores transmitiam para quem quizesse ouvir (e curiosos não faltavam), música a pedido,  entrevistas ocasionais, concursos infantis, etc, etc., tendo como epicentro o velho Coreto, onde de quando em quando bandas de música iam tocar...
  


Recuemos de novo no tempo. Esta foto foi tirada em 1905 quando da visita do Conselheiro Governador Geral,  Dr. Ramada Curto a Moçâmedes. Também aqui junto do Piquete da Guarda Fiscal podemos notar a presença requintada de elementos de uma determinada "elite" local ou visitante.



 




Através desta foto, tirada por volta de 1885, que fomos encontrar no Livro "Moçâmedes" de Manuel Júlio de Mendonça Torres,  vislumbra-se um serão familiar de elementos femininos no interior de uma das casas mais antigas de Moçâmedes, a casa de Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres, ambos componentes da 1 ª colónia ida de Pernambuco ( Brasil) para Moçâmedes. Tanto o mobiliário como a indumentária mantêm as características dos lares burgueses ocidentais aristocratizados da época, onde não faltavam os quadros pendurados nas paredes, os retratos de familia, os espelhos em talha dourada, os móveis de estilo, o piano, instrumento que fazia parte da educação de uma menina prendada, tal como o bastidor, a máquina de costura, o bordado, as leituras, etc etc.  Deste grupo de sete senhoras, naturalmente já descendentes, em 1991  três ainda viviam:  a que está sentada à máquina de costura, e a que está sentada ao piano, conforme refere Carlos Cristão no Livro "Memórias da Angras do Negro - Moçâmedes-Angola".

Não seria por acaso que um viajante estrangeiro deixara  registado em livro a agradável surpresa que tivera quando ao passar por uma das ruas de Moçâmedes, em finais do século XIX,  lhe soaram, vindos do interior de uma das casas, sons de uma melodia ao piano tocada por uma jovem enquanto outra cantava...

No livro de António Cristão, «Memórias da Angra do Negro-Moçâmedes-Angola» encontramos a seguinte passagem sobre o tipo de educação que recebiam as raparigas em Moçâmedes por volta de 1920:

«A psicologia de vida alegre e atraente da população deve-se, por altura de 1920, em parte, senão muito, à elite da época, constituida por um interessante elenco de Senhoras já dali naturais, que no exterior, e, especialmente em Londres, concluiram umas o curso de alta-costura, outras o do conservatório de música e dança, formação que, então, passaram a ministrar às jovens dali naturais. A beleza e o fino porte destas jovens encantavam todos aqueles com elas conviviam. Este facto, podia, até há bem pouco tempo, ser atestado pela Senhora Celeste Kressmann Rosa, descendente do Capitão José da Rosa Alcobaça, recentemente falecida com cerca de 100 anos. Neste livro, entre outros, são destacados nomes, como: Francisca Reis, casada com o Dr. Luiz Bobela da Mota, juiz da comarca; Judith Reis, casada com José Manuel da Costa, Governador Civil de Moçâmedes; Alice Reis, casada com Rogério Morgado, proprietário e filho de emigrante da 2ª colónia, Constantina Reis, casada com Júlio Rogado Leitão, importante comerciante na terra; Maria Sales Lane, casada com Eduardo de Mendonça Torres, economista; Ema Zuzarte Mendonça, solteira, diplomada com o curso do Conservatório de Música de Lisboa, que em Mossamedes até à década de 50 foi professora particular de Música, etc., etc.. Várias destas senhoras uniram-se a ilustres figuras de Moçâmedes.»

Também  fomos encontrar  no Livro de António A. M. Cristão «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», cap. II.4-EDUCAÇÂO, pg.221, algumas passagens que apontam para a preocupação  existente na época, em determinados sectores da população, na educação das suas filhas, chegando a recorrer  a educadoras estrangeiras, a servirem-se de colégios particulares, como o de Miss Herriet Deehan,  que terá aceite também um certo número de rapazinhos, à semelhança do que acontecia também no colégio das religiosas de S. José de Cluny :

"...Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem...

 Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas.

Também a este respeito, em 23 de Março de 1882, era publicado num dos jornais de Luanda, O Mercantil, um anúncio em que se dizia que “Miss” H. Deehan, professora com longa permanência na Inglaterra e na França, e com algum tempo de estada em Lisboa, tinha aberto na cidade de Moçâmedes um colégio para meninas, onde ensinava Inglês, Francês, Português, Gramática, Geografia, História, Desenho, Costura, Piano, Órgão, Canto Coral, e tudo o mais que completava uma boa educação. Aquele anúncio repetiu-se algumas vezes, no mesmo periódico.

Manuel José Martins Contreiras no seu relatório de 19 de Junho de 1894, refere que esta senhora estava encanecida nas lides do ensino, e leccionava em Moçâmedes havia mais de catorze anos, imprimindo o seu cunho particular à educação das crianças das famílias mais abastadas. Era o estabelecimento de ensino, em toda a Província, que ministrava mais vasto programa educativo. Rivalizava com o que havia de melhor na Metrópole, se o não excedia! Era professora única das suas alunas, preenchendo só ela o lugar de muitas mestras. Além do programa do ensino primário, leccionava as matérias do ensino secundário, que já indicámos, dando a tudo grande importância, seriedade e intensidade... havia desenhos e bordados que podiam colocar-se a par dos melhores que apareciam em exposições, tanto no nosso País como no estrangeiro. Embora a maior parte dos educandos fossem alunas do sexo feminino e já bastante crescidas, admitia alguns rapazinhos, o que acontecia também no colégio das religiosas de S. José de Cluny. Em regra, as meninas saíam do colégio desta senhora para constituírem família, para casarem... O nome de Henriqueta Deehan surge no mapa estatístico de 1885, indicando a frequência no seu colégio nesse ano lectivo, de quatro meninos e nove meninas, apresentava em ortografia original, o nome Herreeth, talvez por erro de transcrição, escrito Herriet.

Ainda sobre Miss Herriet Deehen (aqui traduzido para Henriqueta Deehen) encontramos em  http://reocities.com/Athens/troy/4285/ensino12.html as seguintes passagens:

 «...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Moçâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam...  In

"...Para encerrar este capítulo, faremos referência muito especial a uma ilustre senhora católica, de origem irlandesa mas educada na França e cujo nome é Henriqueta Deehan. Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas.

Por tudo isto não admira que em Moçâmedes por volta das décadas 20 e 30 do século passado, senhoras mais preocupadas com o seu aspecto tivessem ao seu dispor peças de vestuário importadas dos conhecidos Armazéns «Printemps» de Paris. De Paris vinham os vestidos de noiva de algumas moçamedenses, o pronto-a-vestir para as acompanhantes, fatos casaca bordados a vidrinhos e a fita de gorgurão, chapéus com véu de tule, fatos e chapéus para homem,  sapatos, luvas, joias, colares, artigos de toilette, etc... A loja que os importava e vendia ficava no rés-do-chão do edifício  à época ocupado em parte pelo Hotel Central, na Rua dos Pescadores, junto do edifício da Alfândega, propriedade da familia Mendonça Torres. É claro o "Printemps" a só vestia um determinado estrato social. É necessário que não se confunda nunca o todo com a parte. Não admira também que as jovens casadoiras de Moçâmedes tivessem fama de serem  jovens prendadas, sendo caso raro alguma que ficasse por casar... Elas tinham tido boas mestras, como referiu António Augusto Martins Cristão no seu livro «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes» quando nos fala da "a psicologia de vida alegre e atraente da população" e de uma elite constituida por senhoras já dali naturais, por volta de 1920, que haviam adquirido fora de portas cursos de alta-costura, de conservatório de música e dança, beleza, fino porte, etc., e passaram a ministrar às jovens da terra...

Referir-me-ei ainda a mais um desses usos e costumes que eram cultivados pelas senhoras de Moçâmedes e que perduraram, pelo menos, até finais dos anos 1940. O da "visita semanal a uma amiga", acompanhado do tradicional  do chá das 5h. Era como que um sagrado dever social religiosamente cumprido, um ritual que fazia parte da gestão do tempo de uma dona de casa, nesse tempo em que a maioria das mulheres se encontravam investidas no papel único e  tradicional de donas de casa, esposas e mães, antes do ingresso em massa da das mulheres  no mundo do trabalho. Numa terra onde as oportunidades de exibir a suas toilettes não seriam muitas, uma ou outra senhora chegava a preparar-se para a visita semanal a uma amiga,  com tal rigôr e elegância, que não dispensava luvas e chapéu, parecendo aprontadas para um qualquer que  casamento.  Era ainda criança, mas tenho presente algumas visitas desse género efectuadas pela minha mãe a amigas e familiares. Esperava a visitante uma mesa muito bem posta, onde sobre uma alva toalha branca bordada a crivo e bainhas abertas, se encontrava o serviço de chá, sandwiches, variados bolos confeccionados em casa, bombons, etc. etc. Escusado será dizer que estas visitas eram importante para a pequenada na medida em que para além das gulodices sempre bem vindas possibilitavam o encontro com primos, primas e amigos, e obviamente, momentos propícios aos mais diversos jogos e brincadeiras.
Enfim, eram estes usos e costumes transplantados por de portugueses para aquele cantinho de África,  que  iam permitindo suprir a nostalgia da distância, ao mesmo tempo que proporcionavam  momentos de entretenimento e ritualidades que ajudavam a passar o tempo e a viver, aliviando a carga do dia a dia. Como poderia ser de outro modo, num tempo em que não havia cinema, televisão, electricidade, etc., em que as casas eram iluminadas a petróleo (quando não a óleo de cetáceos produzidos pela fábrica de noruegueses existente na Praia Amélia), os aparelhos de rádio se os houvesse, eram alimentados a bateria, e às 8/9 horas da noite já estava toda a gente na cama! Moçâmedes só teve luz electrica a partir de finais dos anos 1940, e foi a partir daí que começaram a   surgir no pacato burgo, outros entretenimentos, outras formas de lazer, de viver e  de conviver!

Ficam mais estas recordações algumas das quais devo à minha tia Maria do Carmo Paulo Matos, actualmente com 85 anos de idade, mas com uma memória ainda muito viva de factos passados em Moçâmedes, a terra onde nasceu algures no ano de 1925.  

MariaNJardim
Este texto, escrito em 2005, foi publicado pela primeira vez no blog em 2007, e está sendo agora republicado


Alguma bibliografia consultada:
«O Distrito de Moçâmedes nas Fases da Origem e da Primeira Organização (1485-1859), de Manuel Júlio de Mendonça Tôrres António
A. M. Cristão «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», cap. II.4-EDUCAÇÂO, pg.221
Manuel José Martins Contreiras, no seu relatório.
http://reocities.com/Athens/troy/4285/ensino12.html

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Angola 1914-15 Forças Expedicionária Sul de Angola


 
Sul de Angola - Campamha de 1914. Augusto Casimiro "Naulila"

Foi logo após a implementação da República, a18 de Agosto de 1914, que o General Pereira de Eça, Ministro da Guerra, convidou o Tenente-coronel do Corpo do Estado Maior Alves Roçadas a aceitar o comando da primeira força expedicionária para Angola.
O Tenente-coronel Alves Roçadas, era conhecedor da região de destino da expedição, por ter sido anteriormente governador do distrito de Huíla, no Sul de Angola. Em 20 Agosto, por intermédio do Ministério das Colónias, solicitou informações sobre os recursos existentes na província e mandou proceder a vários trabalhos de preparação de infra-estruturas militares e à mobilização de unidades indígenas e europeias locais.
A missão que lhe foi confiada tinha o objectivo de assegurar a obediência do gentio local e vigiar a fronteira Sul nos pontos estratégicos mais importantes. Para tal, atribuíram-lhe uma força expedicionária composta por: 61 oficiais, 1.464 praças e 335 solípedes.
Esta força expedicionária partiu de Lisboa nos dias 10 e 11 de Setembro 1914, a bordo dos vapores "Cabo Verde" e "Moçambique" respectivamente, as quais desembarcaram a 1de Outubro 1914 em Mossâmedes no Sul de Angola. 

A 22 de Outubro as forças expedicionárias encontravam-se implantadas no terreno, em Lubango no planalto de Mossâmedes, em posição para defender o Sul de Angola de uma ofensiva investida alemã que viesse da "África Alemã do Sudoeste" (Damaralândia), em direcção a Mossâmedes.

Entretanto, aconteceu um incidente de fronteira, em Naulila, a 19 de Outubro, onde foram mortos três alemães, parte de uma missão, que tinha entrado na província sem autorização, e acampado na margem esquerda do Cunene, em território português. 
 

A 30 de Outubro dá-se um ataque alemão ao posto militar de Cuangar, na margem esquerda do rio Cubango, no Sul de Angola. Foi um ataque de surpresa comandado pelo Capital de Cavalaria Lehmann com  20 praças de cavalaria com apoio de fogo de  metralhadoras, 10 guardas fronteiriços europeus, um grupo de polícia indígena e um numeroso contigente de indígenas autóctones. 

Ilustração Portuguesa, n.º 462, Ano 1914


 O Forte localizava-se a 900 Km de Mossâmedes  e 400 Km de Naulila, sem comunicações telegráficas. 




 Continua....

Ver texto integral AQUI

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Mosamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes. BIOGRAFIA


O busto de Bernardino
"Museu Etnográfico da cidade do Namibe"

No Livro " Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes" do Padre José Vicente (Gil Duarte), em ponto 2. e, " Itinerários de uma Juventude Audaciosa",  fomos encontrar os seguintes elementos biográficos referentes quer à genealogia  de Bernardino, quer ao seu percurso de vida, intelectual e político, decorrido quer em Portugal quer no Brasil, até ao momento em que , no ano de 1849, aos 40 anos de idade,  decide partir para Angola:

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, natural de Nogueira do Cravo,  era filho de Alexandre Campos de Abreu e Vasconcelos e de D. Rita de Figueiredo, neto materno de Francisco Abranches Freire de Figueiredo e de D. Josefa Maria Abreu e Castro, da Casa da Torre de Nogueira do Cravo, e neto paterno de Manuel Nunes de Campos e D. Joaquina de Campos.

Bernardino tinha mais um irmão, de nome Alexandre Freire de Figueiredo Desconhece-se o registo de nascimento de Bernardino mas conhece-se o de baptismo , pois no “Livro de  Baptizados, Recebimentos e Defuntos  da Freguezia de Nogueira do Cravo, de 1806 a 1830” guardado no Arquivo da Universidade de Coimbra, encontrámos o assento seguinte: “Em os quatorze dias do mês de Dezembro de de mil oitocentos e nove, foi baptizdo Bernardino, solenemente, filho legítimo de Alexandre Nunes e de sua mulher, D. Rita de Figueiredo, desta vila de Nogueira, neto paterno de Manuel Nunes de Campos, natural de Sobral, Bispado de Viseu,  e de D. Joaquina, desta vila, e materno de Francisco de Abranches, de vila de Avô, , e de sua mulher, A. Josefa Maria, do mesmo lugar e vila. Foram padrinhos Bernardino José e sua filha Ana Julia, do lugar de Santa Ovaia, e para constar fiz este assento. Dia, mês e era ut supra. O Prior – José Joaquim Coelho de Faria.”

Dada a índole  profundamente religiosa da família, é de crer que, segundo os costumes tradicionais, Bernardino fosse baptizado pouco tempo após o nascimento. Aceitamos pois a hipótese (muito provável)  de Bernardino ter nascido no próprio ano de 1809.

Em Nogueira do Cravo  Bernardino  terá feito os primeiros estudos, modelado o seu carácter segundo os princípios cristãos. Foi depois para Coimbra com o objectivo de se formar em Direito. No “Livro de Matrículas do Primeiro de Leis” Ano , do Arquivo da Universidade de Coimbra, referente ao ano de 1829, nele se lê a folhas 30: “Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, filho de Alexandre Nunes de Campos de Abreu, natural de Nogueira do Cravo,  comarca de Arfanil,  foi admitido à matrícula do primeiro ano jurídico em 31 de Outubro de 1829.”  Não aparece já matriculado no 2º ano. Porquê?

Sabe-se que, anos atrás em Janeiro de 1818, se fundara no Porto a Associação secreta denominada de Sinédrio par fomentar a Revolução Liberal. Pode dizer-se que era o início da discórdia entre liberais e miguelistas que atirou o país para a sangrenta guerra civil. Os acontecimentos foram-se  desenrolando. Bernardino alinhava por D. Miguel associando-se ao coro dos que clamavam:  Real!! Real!! Por El-Rei de Portugal o Sr. D. Miguel  I !

No dicionário histórico de Portugal, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues faz-se referência a Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro : “ Era estudante de Coimbra, quando, levado levado pelos princípios e sentimentos de sua família, se alistou nos voluntários realistas, seguindo o partido de D. Miguel, e fazendo toda a campanha às ordens dum seu próximo parente, general das armas da província.”

Deixou de ser estudante para se alistar como tenente de caçadores do exército de D. Miguel. Mas não perdeu o amor aos livros, às letras. Chegaria até a publicar várias obras, como  adiante veremos.

Em 26 de Maio de 1834 – tinha Bernardino 25 anos de idade – assinava-se a Convenção de Évora-Monte, de que D. Miguel e o seu partido saiam derrotados. O monarca via-se coagido a sair de Portugal no prazo de quinze dias, tendo de comprometer-se a nunca mais voltar, nem a interferir de qualquer forma, na vida política do país. Os seus regimentos seriam dissolvidos. D. Miguel partiu para o exílio no dia 1 de Junho.

Bernardino passou a viver em Lisboa, na clandestinidade. Na clandestinidade se publicava o jornal “Portugal Velho”, defendendo ainda os princípios do absolutismo. Bernardino fez-se jornalista, danso a esse jornal o valioso estímulo de uma colaboração assídua. Mas era impossível remar contra a maré. Em Portugal acabara a guerra mas não principiara a paz. Joaquim António de Aguiar – O Mata-Frades – então Ministro da Justiça, extingue as Ordens Religiosas, Conventos e Mosteiros, por decreto de 28 de Maio de 1834. Os partidos políticos fomentam discórdias. D. Pedro morre a 24 de Setembro desse mesmo ano. D. Maria II consegue sustar tremendas lutas políticas que se haviam de prolongar durante 19 anos. Não logram bons resultados várias tentativas miguelistas. A agricultura, o comércio, a industria, definham. Portugal vive um período difícil.

Desalentado, Bernardino resolve emigrar para o Brasil. Sai de Lisboa em 1839. Fixa-se em Pernambuco. Renuncia a toda a actividade política. Dedica-se exclusivamente ao ensino no Colégio Ternambucano, regendo as cadeiras de História, Geografia e Latim. Escreve livros de carácter didáctico, como a História Geral, em seis volumes. O Primeiro volume sobre a “História Sagrada do Antigo Testamento”; o segundo sobre a “História da Vida de Jesus Cristo” e dos Apóstolos, e História dos Judeus desde a dispersão stá aos nossos dias “; o terceiro a  “ História Antiga e Grega”; o quarto sobre a “História Romana e da Idade Média”, o quinto sobre a “História Moderna”; e o sexto sobre a “História de Portugal e do Brasil”.
Bastaria este trabalho para se aquilatar do esforço e da capacidade e da disciplina intelectual de Bernardino.  Mas o erudito professor não se ficou por aqui. Escreveu outros livros dos quais destacamos “Nossa Senhora de Guararapes – romance histórico, descritivo, moral e crítico”.  Este livro tem por fundo os encontros sangrentos entre portugueses e holande3ses, em 1648 e 1649, nos altos montes dos Guararapes, na região do Recife.

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro  impunha-se pelas suas qualidades, no Brasil. Mas o Brasil era já – ao tempo – um país independente. Bernardino sonha , cheio de saudades, com a sua pátria. Tanto mais que, em Pernambuco, as coisas iam mal desde 1817. Em 1844, na Assembleia Provincial de Pernambuco, propõe-se que “se expulsem da cidade (ou da província) todos os portugueses solteiros”- (E Bernardino era solteiro). E, 1947 arruaceiros espancam pelas ruas da cidade “quantos portugueses encontravam ou que supunham tais”. 

Mendonça Torres explica que, por esta altura, os portugueses eram conhecidos em Pernambuco pelo apodo de “marinheiros” , designação que lhes dava por injúria, zombaria e desprezo. As turbas, amotinadas, buscando-os por toda a parter, aos gritos impiedosos e ultrajantes de “Mata-marinheiros”, “não escape um só”, entravam, desenfreadas, nos estabelecimentos comerciais, arrombavam a machado em presença da autoridade, as portas das habitações; arrancavam-nos, indefesos, ao seio das famílias, feriam-nos ou matavam-nos com paancadas de chuços e golpes de facas e de baionetas: roubavam-lhes os haveres; e arrastavam-lhes pelas vias públicas os cadáveres lacerados, tintos de sangue.

Bernardino, repetimos, sonha com a sua pátria na província de Angola. E decide-se, e decide outros compatriotas a embarcarem para lá. Estava-se em Maio de 1849 – Tinha Bernardino 40 anos de idade.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: a Fortaleza de S. Fernando




Fortaleza de S. Fernando 

As fortalezas de S. Fernando e de Capangombe  e outras construções fortificadas

Sobre as construções fortificadas, existentes e que depois se criaram no distrito, e seu consequente quartelamento no periodo de 1860 a 1879,  vamos expor as diversas transformações por que passaram esses assuntos, segundo os relatórios dos sucessivos governadores distritais. 

A "Fortaleza de S. Fernando" foi o primeiro tetemunho material da ocuopação do distrito, autenticado pelo pacto de amizade e de comércio de 14 de Agosto de 1840,    entre o representante do Governo Geral e os sobas distritais, e comprovado pelas ininterruptas nomeações dos comandantes dos presídios, e od governadores distritais legitimamente incumbidos da superior ingerência da administração local.

Afirmando a soberania, a "Fortaleza de S. Fernando" fora, simultaneamente para os habitantes do distrito, sustentáculo de defesa e condição de amparo.

Era a principal construção fortificada do distrito,  a que se seguiram outras tais como do forte da Boa Esperança, o dos Cavaleiros, o da União, o da Conceição, o da Boavista, todos do concelho de Moçâmedes, e ainda a "Fortaleza de Capamgombe", no distrito do Bumbo.




Informações segundo o relatório do Governador Joaquim da Graça:


A "Fortaleza de S. Fernando", - segundo informava o governador Joaquim da Graça, no seu relatório de 7 de Janeiro de 1868, estava situado mum ponto elevado, 30 metros acima do nível do mar, dominando a caía de Moçâmedes com uma bateria guarnecida de 12 peças de calibre 12, sobranciava a vila com 7 de vários calibres, e tinha assestadas mais duas na direcção S.E.,  que defrontavam com uma "sanzala" (comjunto de moradas de pretos).


Tinha suficientes acomodações para alojamento, casernas e arrecadações destinadas ao batalhão nº 3, permanentemente ali aquartelado, visto que havia sido adquirido por compra e expropriação um grupo de casas ao sul, à distancia de 100 metros, em que foi estabelecida uma companhia de degredados, adidos do mesmo natalhão, empregado nas Obras Públicas.

Quanto aos "fortes" não há que descrevê-los porque não passam de "postos avançados", de ligeiríssima construção, erguidos nas imediações da vila, , nos quais se mantinham uma ou duas peças em cada um,  acautelando um possível ataque do gentio, que, de tempos a tempos, efectuava correrias para roubar gados e incendiar habitações. Constituiam, em dado momento, refúgio de pessoas e armazéns de provisões. 


Fortaleza de Capangombe


Relativamente à "Fortaleza de Capangombe", distante de Moçâmedes 145 quilómetros, era um recinto quadrado de 80 metros de lado, cujas trincheiras, formadas de terra que se extraiu do fosso,  não satisfaziam as indispensáveis consições da mais simples fortificação. O governador mandara levantar uma planta, e fizera um projecto para a sua reconstrução, com as muralhas de pedra, destinando-lhe os alojamentos, oficinas, etc. Esta fortaleza estava guarnecida com seis peças do Batalhão de Caçadores n.º 3.


Informações segundo o relatório do governador Costa Cabral:

De harmonia com a exposição do Governador Costa Cabral , constante no seu relatório de 19 de Junho de 1877,  a "Fortaleza de S. Fernando" construida sobre um morro próximo da vila,  a sudoeste, dominava esta,  o porto e grande área, além do Rio Bero.  Havia, para o sul e leste, montes elevados de areia e pedreiras. A posição afigurava-se-lhe boa.  Era formada de pedra solta, mas grossa. As paredes tinham bastante espessura. Poderia durar longos anos, sendo preservada da acção do tempo.

Não estava porém, colcluida.  Faltava-lhe a parte superior da muralha dos lados norte e leste, algum aterro no seu interior,  outros melhoramentos internos e reparos nas habitações.  Tinha uma grande caserna, pequenas habitações para oficiais, , uma boa cozinha, ainda que pessimamente colocada,  calabouço, paiol para a pólvora, outras arrecadações e casa para a guarda. 

Montava 24 peças de calibre 12,  8 e 6, em reparos de madeira, que estavam, na máxima parte, em bom estado. Algum material achava-se em consições de servir.

A força militar aquartelada na "Fortaleza", compunha-se do Batalhão nº.  5 (agora era o nº. 5).; destacava o distrito de Benguela uma força superior a 100 praças, achando-se o restante do seu efectivo em Moçâmedes e dividido pelo concelho de Capangombe (60 peças) e da Huila (28), era quanto bastava se se atendesse ao estado de sossego em que estava o distrito. Devia notar-se, porém, que a máxima força do Batalhão nº. 5, ao tempo na vila, era composta de recrutas; conauqnto j´bastante adiantados nos exercícios, , não estavam dados prontos para todo e qualquer serviço militar de maior importância; os que se achavam subdivididos pelo concelho eram soldados antigos e mais experientes.

Observava que Moçâmedes nunca teve quartel militar; era, porém, a sede do Batalhão nº. 5, e não havia motivo para que a vila e o seu digno Batalhão não merecessem a posse de um regular edifício para quartel militar em proporção de aquartelar, pelo menos, 200 praças.  Lembrava que o edifício poia ser construido, primeiramente, para metade da força total do Batalhão; para o futuro, quando os meios o permitissem,  concluir-se-ia o plano geral: por este meio viria a ser muito menos oneroso para os cofres da província, e remediado ficaria o inconveniente de habitar o Batalhão diversas casas particulares, pelas quais os cofres da província pagavam arrendamento. Material, pedra e cal abundavam, e fabricava-se esta nas proximidades da vila; pouco mais se requeria para se leventar as paredes de uma casa-barraca; o sistema era rápido de construir, e poder-se-iam reunir as consições higiénicas indispensáveis, além de outras de harmonia com as necessidades para que era destinada.
 Informações segundo o relatório do governador Ferreira do Amaral:

 Em conformidade  com o que devlarava o governador Ferreitra do Amaral, em seu relatório de 13 de Janeiro de 1879,  as "fortalezas de Moçâmedes e Capangombe" eram recintos murados sem condições nenhumas exigidas pelo mais elementares principios de fortificação, estando a de "Moçâmedes" incompleta e precisando de concçuir os muros, para não dar nas vistas a falta de continuação da muralha, que , em parte, se observava.


A "Fortaleza de Capangombe" tinha tido ultimamente uma reparação importante, e havia-se alí construido uma abarracamento  para soldados, que deveria concluir-se em Abril de 1879, segundo o disposto na arrematação das obras.


Outros "pequenos fortes" existiam, construidos de adobe, e que pertenciam a particulares, sendo para senhtir que não se tivesse animado o prosseguimento destas construções, de resistência ao gentio, , pois que, não possuindo estes artilharia, eral aquelas, além de cómodas, "apoios de importância incalculável", para depósitos de mantimentos e lugares de espera.


Noticiava o governador que, enquanto estivera no distrito, havia lembrado esta espécie de construções, e esperava conseguir dos particulares o necessário auxilio para a realização de tal ideia em maior escala, que agora ( na época do seu governo), e em plena paz, parecia indiferente mas que num possível futuro hostil, por parte do gentio,  seria muito apreciado, como refúgio de inapreciável alcance.

Quando o governador aqui chegara o seu antecessor fez-lhe ver as dificuldades que se apresentavam quanto ao aquartelamento de Caçadores 5, que estava alojado em propriedade do cidadão João Duarte de Almeida, o qual, precisando da sua casa para seu uso, intimara a saída no dia 1 de Janeiro de 1879. + Não havendo casas para arrendar em condições semelhantes, não havia que hesitar; er necessário comprar a única que, pela sua proximidade da Fortaleza, estava em condições de servir para  a secretaria, gabinete do comandante, aula regimental, repartição de quartel-mestre, refeitórios dos sargentos e arrecadações provisórias, etc., e construir um abarracamento no espaço livre da Fortaleza, que alojasse os soldados.


Em vista de tal urgência, e existindo uma ordem do governador-geral para resolver o governador do distrito esta dificuladade como melhor parecesse, não duvidou este tomar a construção do abarracamento, como obra imediata, a que se procedeu, e completou esse pensamento comprando a casa do major António Joaquim Guerra.


Tendo-se dignado o governador-geral da Província aprovar este procedimento, esperava o governador do Distrito que, no dia 1º de Março as coisas estivessem organizadas de maneira a que os soldados do Batalhão n. 5, em vez do barracão imundo e infecto em que até então tinham vivido, fossem habitar casernas sem luxo, mas com ar e luz precisos para a vida.


A "Fortaleza de S. Fernando", etguida em 1840, data da Fundação do Presídio e Estabelecimento de Moçâmedes, como atestação oficial da soberania portuguesa sobre a antiga "Angra do Negro" e territórios circunjacentes, foi, recentemente, considerad, por decreto, "monumento nacional".
Cont...


Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: o Palácio do Governador


  
O Palácio do Governador, a Igreja matriz e as casas térreas, de madeira, 
dos funcionários publicos, na Rua Felner.
 



 O Palácio do Governo

Pela ostentosa e venerável antiguidade do "Palácio do Governo" destinado a "Residência do Governador" e sua "Secretaria Militar e Civil" competia-nos a descrever neste livro  o trabalho de construção do sumptuoso Palácio cuja referência iniciámos.
O "Palácio do Governo" destruido por um incêndio em 1899, e resconstruido, anos depois, sob o alto comissariado do Sr. General Norton de Matos,  acha-se situado a sudoeste da vila de Moçâmedes, nuja colina que se eleva uns vinte metros acima do nível do mar, desfrutando posição privilegiada, por dominar o porto, a antiga vila e as fazendas marginais do Bero, um panorâma exuberante e dilatado, que, em dias de plena nebulosidade, surpreende e deslumbra.

Os trabalhos de contrução, encetados em 1858, no tempo de Fernando Leal, foram suspensos durante largos anos, e só recomeçaram em 1872, quando dirigia o governo do Distrito o primeiro-tenente Costa Cabral.
 As madeiras para o "Palácio" e, bem assim as chapas de vidro, portas, janelas, gradeamentos, ferragens, tabuado e vigas, foram de Lisboa.
Algum deste material (como  traves, pranchões e pregadura) teve aplicação diversa, mas de manifesta e urgente utilidade. Destinaram-se à ponte, construida em 1873, porque se receava haver grande demora na conclusão das obras do "Palácio". 
Os trabalhos da construção do "Palácio" foram continuados naquele ano, segundo um risco, várias vezes alterado, do Dr. Lapa e Faro. 
Sofreram depois uma interrupção, também , por alguns anos, e foram recomeçados em 1866. Supomos haverem concluido 1889. 
A fachada do "Palácio" foi dividida em três corpos, sendo o principal encimado por um frontão triangular, no meio do qual haviam de ser assentes as quinas portuguesas.
Mediam os três corpos, 40m,80 x 12m,6, de altura até à cimalha, de ordem jónica e sem decoração, que corre ao longo de todo o edifício. 
O corpo central tinha  3 janelas de sacada, com varanda em curva. As bandeiras das portas e janelas eram semi-circulares. Em cada um dos corpos lateria havia 4 janelas de varanda no primeiro andar,  e três de peitoril, e uma porta em cada extremo do rés-do-chão.
Abriam-se, nos quatro lados do edifício, quarenta janelas, sendo onze de sacada, e dez portas, das quais sete davam saída para o projectado jardim. 
O telhado era dividido ao meio, no sentido da fachada, por um terraço de dois metros de largura, feito de betão aglomerado, para o qual convergiam as duas abas interiores do telhado; ao meio do terraço, e interrompendo-o, elevava-se um mirante de 3 metros de altura, com uma superfície de 55 metros quadrados,   e havia de ser gradeado em volta e ter ao centro uma claraboia envidraçada de 3,m 30 de alto em forma de prisma octogonal, terminado por uma pirâmide.
Entrando no vestíbulo ficavam em frente três arcos de ordem dórica. A escada era de madeira de S. Tomé , polida de três cores diferentes. 
O ré-do-chão e o primeiro-andar estavam divididos em dez compartimentos cada um , destinados a servirem para repartições públicas. 
A despesa, até 1889, ano em que supunham estivessem concluidos todos os trabalhos de construção,  foi calculada em oitenta contos.
Para a época o "Palácio" era, pelo custo e pela importância, uma autêntica maravilha.  
A notícia informativa da construção encontrámo-la em duas publicações de autores presenciais: - no Relatório de Junho de 1887 de Costa Cabral; e no Album fotográfico descritivo "África Ocidental" de Cunha Morais. 
ALBUMINAS & ETC
De Conspecto Imobiliario do Distrito de Moçâmedes no ciclo de 1860 a 1879, por Manuel Júlio de Mendonça Torres

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