Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 10 de maio de 2018

A BAÍA DOS TIGRES E A SUA COLONIZAÇÃO PISCATÓRIA PELO DR CARLOS B. CARNEIRO



Mossâmedes-1935.

Quási no extrêmo sul do litoral de Angola abre-se, enorme e profunda, uma baia a que um listrado regular e geométrico que se desenha ao longo de uma imponente muralha de dunas que se eleva no lado continental, dizem uns, dar o nome de Baia dos Tigres e que, segundo outros, tal designação tem origem num ruido ennervante como uivo de féra molestada que o redemoinhar da areia provoca no cóne superior das dunas.
E' desoladora a paisagem. E' areal, de uma côr terrosa e mortificante, tudo o que nos cerca. A meio da restinga, língua de areia saliente à superfície azul das águas atlânticas, ergue-se um pequeno aglomerado de edifícios, sem simetria e sem estética., onde se alberga uma sacrificada colónia de pescadores.
São pequenas casas feitas com bordão e areia calcinada, rebocadas a cal e de tectos em bordão unido, e coberto por uma ligeira camada ele cimento ou vedado a feltro. Perto do mar, as suas rudimentaríssimas instalações de pesca. Não há locais pavimentados, para escalar· peixe, nem tanques feitos cm cimento para o salgar. Nem é possível havê-los.
A areia, num movimento constante que o vento provoca, sotérra em minutos um edifício, ou descobre despojos de edifícios outrora soterrados. Entre o homem e a areia há uma luta constante, sem tréguas. Para dela se defender, resgüarda a sua cabana. com sébes mortas, ante-dunas contra as quais a, areia vem bater imobilizando-se.
Mas se o sudoeste é rijo, se a garrôa é violenta, a duna forma-se enorme, tremenda, e faz desaparecer dentro de si o que o homem, com tanto sacrifício e com tão árduo trabalho, edificou.
O mar, que também tem os seus caprichos, ora cede terreno, alargando a. estreita facha de areia onde poisa, tristonha, aquela pobre povoação de pesca.dores, ora avança em fúria, pela terra dentro e chama a si as míseras instalações de pesca, daquela, gente mártir.
O lado continental é dominado por grandes dunas caprichosamente feitas pelo vento do sudoeste que sopra sempre, descolando massas colossais de areia que tomam disposições geométricas regulares e majestosas.
A vida parece ter desaparecido daquêle pedaço assustador do Kalaári.
Desenham se, a medo, os leitos dos rios sempre secos, porque não há água que sacie a sêde destas areias calcinadas. A vegetação desapareceu totalmente debaixo de arenosas muralhas intransponíveis nem se atrevo a aparecer nos recantos mais sossegados e menos batidos pelo vento porque a areia, sempre em movimento, não permite tais desejos de vida.
Só está de pé, pescando sempre, sempre trabalhando, o homem que foi fadado para. mostrar aos fracos, aos pusilânimes da espécie, até onde chega uma vontade firme, do que é capaz um temperamento rijo de lutador que desafia, altivo, a intempérie e que não receia o mar, quando embravecido.
E' ouvir-lhe a sua história; não há no curso da sua vida uma recordação feliz, uma saüdade pungente por um amor distante, uma infância desassossegada, tranqüila, cujos incidentes sempre cheios de ingenuidade e de maravilha, a nossa memória retem com avareza.
Há só tristezas, desalentos, perigos. Foi a sua casinha que desapareceu outrora, vitima da fúria dos elementos: recorda, cheio de amargura, essa pequena cabana que foi o seu berço; a luta titânica para se salvar da derrocada, para não ser absorvido, como a casa querida, por aquela areia assassina.
Depois, já moço, nas lides do mar, vem o naufrágio. A garrôa imprevista apanhou-o sôbre as ondas, dentro de um pequeno barco que desmantelou, que desfez, e êle, já homem do mar, lutou com as vagas alterosas que o despejam, exausto, quasi morto, na praia salvadora.
E' o escorbuto que, de quando em vez, o atira, febricitante, para cima dum catre, dilacerando-lhe as gengivas anémicas, abafando-lhe os dentes, roídos pelo tártaro, convulsionando-lhe os intestinos.
E a água, com que matar a sêde que o domina, falta-lhe, como bàrbammente lhe falta o citro que lhe caustique as gengivas doridas e os vegetais que normalizem a sua função gástrica e intestinal.
E' uma vida cheia de heroísmos, prenhe de sacrifícios a do colono pescador a quem o destino lançou, sem piedade, para as areias mordentes da Baía dos Tigres.
Há quási meio século reuniam-se representantes de todos os países coloniais para se estabelecer o "modus faciendi" que haveria de fixar os limites do algumas colónias do Continetnte Africano.
Nos arquivos ministeriais e nas Chancelarias da Europa. falhavam os documentos que afirmassem onde terminava, ao sul, o território de Angola.
Até então nunca interessou a ninguém a ocupação e a posse da zona desértica que se estende, arenosa, sêca, improdutiva, desde o litoral ao lago Etocha, no Ovampo e que constitúe o deserto kalaariano.
Havia, no entanto, informações seguras que numa língua de areia que formava, a cem milhas a sul de Mossâmedes, a grande Bafa dos Tigres, existia um aglomerado
de gente branca que, através de todos os perigos e de tôdas as inclemências, ali vivia da pesca.
A nacionalidade dêsse povo garantiria a posse de território ao país a que pertencesse.
Eram portugueses, vindos de algarvias terras, aquêles que, heróis e mártires, se agarraram estoicamente às areias calcinadas da Bala dos Tigres e ao mar que a contorna e que tão rico é em peixe.
Mais tarde, fixava-se como limite sul do território de Angola, o rio Cunéne que desagúa no Atlântico a quarenta milhas a sul daquela baía.




'O MAR DE ANGOLA', de Carlos Carneiro (Luanda 1949)








Angola - As riquezas do mares da antiga colónia portuguesa


'O MAR DE ANGOLA'
De Carlos Carneiro
Edição Empresa Gráfica de Angola
Luanda 1949


Livro com 246 páginas e em muito bom estado de conservação.
De muito difícil localização.
Muito raro.

O autor revela as formas de uso dos mares e as suas riquezas nas costas de Angola, nos meados os século passado.

Uma raridade pelo tema em abordagem e pela escassa tiragem.


Do ÍNDICE:
- Prefácio - F. Morais Sarmento;
- PORQUE ME SEDUZIU O MAR DE ANGOLA;
- A INTELIGÊNCIA DOS PEIXES;
- OS PEIXES OUVEM;
- AS MIGRAÇÕES DOS PEIXES;
- BALEIAS E CACHALOTES;
- O BÓTO, CETÁCEO EQUATORIAL;
- TONINHAS E ROAZES;
- OS ESQUALOS;
- O ATEM DE ANGOLA;
- A PESCADA DO REINO;
- SERPENTES DO MAR;
- OS CEFALOPODOS - O POLVO;
- OS CRUSTÁCEOS;
- OS ESPONJIÁRIOS;
- HÁ ENGUIAS NOS RIOS DE ANGOLA;
- A EDUCAÇÃO TÉCNICA DO PESCADOR;
- A PESCA, SOB O PONTO DE VISTA SOCIAL;
- INDUSTRIA DA PESCA;
- A INDUSTRIA PISCATÓRIA ANGOLANA PÓS-GUERRA;
- A INDUSTRIA DA PESCA NO CONGO BELGA (Apesca no Lago Alberto);
- A PESCA EM KATANGA;
- AS OVAS DOS PEIXES;
- COMERCIALIZAÇÃO DO PEIXE SECO (Peixes novos e peixes velhos);
- O PEIXE SECO E OS SEUS MERCADOS;
- ATENÇÃO, CONSERVEIROS !;
- AASIM NASCEU, EM ANGOLA, A INDUSTRIA DE FARINHA DE PEIXE;
- O VALOR DA FARINHA DE PEIXE NA INDUSTRIA AÇUCAREIRA;
- A HIDROGENIZAÇÃO DOS ÓLEOS DE PEIXE;
- O ABASTECIMENTO DE PEIXE A LUANDA;
- PORUQE NÃO SE FABRICAM, NO SECTOR PISCATÓRIO DE LUANDA, A FARINHA E O ÓLEO DE PEIXE?;
- A CHÁVEGA E O PALANGRE;
- OS ARRASTÕES;
- A PESCA AO CANDEIO;
- A PESCA NO LOBITO;
- MUITA CHUVA, POUCA PESCA...;
- O QUE ANGOLA DEVE À SUA NAVEGAÇÃO MOTORIZADA;
- JÁ ESTÃO PESCANDO, EM ANGOLA, DUAS TRAINEIRAS MOTORIZADAS;
- ANGOLA NECESSITA DE DOCAS E ESTALEIROS;
- A "AVITAMINOSE" NOS HOMENS DO MAR;
- HÁ PÉROLAS EM ANGOLA;

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O toponímio Mossâmedes com "ss"



Mossâmedes com dois "ss", assim se escrevia à época o nome da povoação capital de Distrito que tinha por limites a norte, o Distrito de Benguela,  a sul o rio Cunene, a oeste o Oceano Atântico e a  este os rios Cunene e e Cubango.

 O toponímio Mossâmedes com "ss" foi atribuido à  velha "Angra do Negro pelo geógrafo e oficial da Marinha, José Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado, que o propôs, em 1790, em homenagem ao Governador Geral de Angola (de 1784 a 1790), José de Almeida Vasconcelos Soveral de Carvalho da Maia Soares Albergaria, Senhor da Terra do Celeiro de Mossãmedes, na Ribeira da Cruz, Póvoa do Concelho do Distrito de Vizeu -Beira Alta, "por relevantes serviços prestados à Nação".
A partir de 1944, Mossâmedes com dois «ss» passou a escrever-se com «ç», alteração ortográfica introduzida pela Sociedade de Geografia de Lisboa, talvez com o propósito de a conciliar com a ortografia de Moçambique que sempre se escrevera com «ç».  Assim reza o artº 1.0 da Portaria N. 269D, de 23 de Agosto de 1919, assinado pelo Governador Geral de Angola, Francisco Coelho do Amaral Reis, (Visconde de Penalva) e publicada no Boletim Oficial da Província de Angola, 1ª série n. 34, de 26 de Agosto de 1919.


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Ponta do Noronha em Moçâmedes

[Eu,+Betinha+e+Gracietinha+no+mirante.jpg]


«...Por sobre a terra alta visinha da fortaleza, e pelo areial para E. da ponta Negra, se avista a villa de Mossâmedes.»

«...Ja no areial é que fica a maior parte das casas, bem alinhadas, quasi todas de um andar so e em ruas espaçosas. Entre a fortaleza e a Torre do Tombo estão a egreja, um hospital militar, pequeno mas aceiado, e outros edificios.»
Ponta do Noronha, ou Pau do Sul 



Para a maioria "PONTA DO PAU DO SUL", para os entendidos "PONTA GROSSA OU DO NORONHA" 


 
Ponta do Giraúl


As pescarias, a baía e a cidade como pano de fundo. 1955


«...Fica a bahia de Mossamedes (nome que lhe foi posto em 1785 pelo tenente-coronel de engenheiros L. C. C. P. Furtado, quando foi estudar toda essa costa), antiga Angra do Negro, e em lingua do gentio Mussungo Bittoto, entre as pontas do Girahúlo, (cabo Euspa) e a Grossa ou do Noronha.

«...Estende-se a ponta do Girahúlo, que é rasa, pouco saida e muito cortada a pique, em 15° 11' 30'' S. (1). e 21° 12' 30" E. Muito perto dessa ponta, e em linha que vae d'ella á fortaleza, se pruma em 30m,5, e se encontram depois, successivamente, 24, 82, 92, 99, 55, 238 e 293 metros.

«...Segue d'alli a heira-mar, toda pedrada e negra, obra de 3 milhas para SE 4 1/4 S. até á ponta Redonda, a qual tira o nome do feitio que tem, e é tão alta e tão ingreme, que se acham 36 metros, fundo de pedra, nas suas visinhanças; cresce muito rapidamente o fundo para 84 SE. d'essa ponta, e tanto que se pruma em 261 metros a milha d'ella; mais para S., n'esse mesmo alinhamento, se acham 20 c 14 metros perto da costa meridional.

«...Pouco para E. da ponta Redonda se abre o Saco do Girahúlo, enseada com praia de areia, e depois se vae arqueando a bahia para S., e formando um reconcavo, todo guarnecido tambem de praia de areia, até á ponta Negra. Sobre esta, que é alta, pedregosa e escura, se levanta a fortaleza de S. Fernando, começada a construir em 1840, e que pode montar 8 peças.



O morro da Torre do Tombo e pescarias primitivas em finais do século XIX


«...Vae arenosa e de meã altura toda a costa desde a ponta Negra, e se encurva para formar o Saco do S., enseada que termina pela banda de 0. na ponta Grossa ou do Noronha. No recanto do Saco, onde começa a terra de subir, se levanta a chamada Torre do Tombo, morro argilloso, macio e talhado a pique para a banda do mar, onde se lêem os nomes de vários navios que tem aportado a Mossamedes, e os de muitas pessoas que visitaram aquelle sitio 2.



Na base da falésia (Morro*) da Torre do Tombo, com as obras do cais e marginal e aterros em execução. 1956. Vê-se à esquerda uma das famosas grutas nas inscrições do Morro da Torre do Tombo.



«...Segue-se a ponta do Noronha, que é alta, pedregosa, cortada a prumo, amarellada e sita a 2 milhas e tres decimos da ponta Grossa; sobre ella, e em 15° 13' 30", torreia uma guarita com o seu pau de bandeira. 

«...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, e forma uma enseada, que termina da banda ponta da Annunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e so a custo se percebe do mar. Fica esta em 15° 16'.

[Amilcar+Betinha+e+Gracietinha+Pau+do+Sul.jpg]

Sobre a ponta do Noronha (Pau do Sul), familiar e amigas vislumbrando o Canjeque e a Praia Amélia... 1956

«...Milha e seis décimos para O1/2 NO. da ponta de Noronha fica o extremo septentrional do baixo da Amélia (nome que lhe foi posto por ter naufragado alli, em 1842, a escuna de guerra portugueza Amélia), muito perigoso por quebrar so de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns tres metros de agua, e 0m,9 em alguns sitios, É todo de rocha e argila, tem na falda Occidental 2m,2, 3m,5, 4m,5 de agua, e 7m,9 e 11 na septentrional; perto d'elle e da banda do O. se encontram 22 metros e mais, e separa-o do continente um canal por onde so devem navegar lanchas. Ha, porém, quem afirme ter visto navios de guerra inglezes passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira: julgámol-o, porém, muito arriscado, assim por poder acalmar alli o vento e encostarem as aguas para cima do baixo, como por haver sempre seu rolo de mar.


O Canjeque e pescarias, por ocasião das grandes calemas de 1955

«...Dilata-se o baixo da Amelia por entre 15° 14' e 15° 18' S., e vae até a umas tres milhas da costa.

«...Afoitamente se pode navegar por aquellas paragens, em quanto estiver a ponta Negra descoberta da do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito decimos de milha para N. d'elle.
A ponta do Canjeque, entre a Ponta do Noronha e a Praia Amélia

«...Indo do S. em demanda do ancoradoiro de Mossamedes, monte-se a ponta da Annunciação á distancia de 3 milhas e meia, e siga-se para N., sem chegar á terra, até descobrir a ponta Negra; deite-se depois para esta, ou um tanto para N. d'ella, a fim de ir pelos 24 metros de fundo nas visinhanças da do Noronha, e não por menos, porque póde acalmar o vento á sombra da ponta.

«...Indo do N. deve-se dar resguardo à ponta do Girahúlo, por encostarem muito para lá as aguas e não se poder fundear.
 
A ponta do Noronha (Pau do Sul), a baía, a ponte, navios de carga, palhabote, batelões, barcos de pesca. Início do século XX

«...Ha quatro ancoradoiros na bahia de Mossamedes: o dos navios de guerra e navios em franquia, em 26 metros, no alinhamento das pontas Grossa e do Noronha, a egual distancia das duas, e a meia milha da terra mais proxima: é bom sitio para velejar, pois se póde sair de bordada. Diminue muito gradualmente a fundura desde esse surgidoiro até a uns dois decimos de milha da terra, onde se encontram 5m,4.»

«...Embarcacões que tencionem demorar-se muito podem fundear a quarto de milha da praia, pouco para N. da Torre do Tombo, e.em 9 metros ou 6m,4.»

«...Acha-se terceiro ancoradoiro, bom para os navios mercantes que tiverem de carregar ou descarregar, em 16 ou 18 metros perto da praia onde se levanta a povoacão.»


As antigas pescarias em 1950

«...Há, finalmente, o fundeadouro das embarcações de pesca, e outras de pequeno lote, quasi no rolo da praia fronteira á villa.»


De Brito Aranha in Archivo pittoresco, Volume 10, p. 11

* O morro da Torre do Tombo, famoso pelas grutas escavadas a punho na rocha branda, e pelas inscrições ali deixadas impressas em tempos remotos por mareantes que por ali passavam e ali vaziam aguada, ou seja, abasteciam-se de agua e descansavam, e que mais tarde serviram para abrigar alguns colonos fundadores da cidade, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e1850, bem como algarvios que a partir de 1861 deram início a umas corrente migratória que se estendeu por todo o século XX .

domingo, 22 de abril de 2018

Ainda sobre Moçâmedes e o seu feriado...










Capitaneados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, há quem afirme que primeiros colonos chegaram a Moçâmedes a 03 de Agosto de 1849,  servindo-se como fundamento  das suas argumentações  da existência de um ofício que de Moçâmedes fora dirigido ao Governador-Geral de Angola pelo Major Herculano  Ferreira Horta, homem que fora designado para dirigir a recepção aos colonos. Porém outros registam o dia 4 de Agosto desse mesmo ano, fazendo uso das afirmações de Bernardino  numa das suas crónicas publicadas Boletim Oficial Angola, referindo que a 01 de Agosto chegara a Moçâmedes  o Brigue Douro e no dia 04 a Barca brasileira "Tentativa Feliz",  após 74 dias viagem. 

Sabe-se porém que anos mais tarde Bernardino teria sido incumbido pela edilidade de Moçâmedes a narrar  em livro que registasse os mais releventes factos históricos do Município,  a mando do Governador Geral, e  que havia chamado  a atenção das Câmaras Municipais para que com base portarias Minsterio Marinha e Ultramar criasse em cada município tais livros designados Anais do Municipio.  Aí Bernardino ao abordar o problema da data chegada, aponta o 4 de Agosto, repetindo a afirmação quando das comemorações pela passagem do décimo aniversário da fundação da colónia em 1850.  Aliás esta data foi sempre aceite pelos colonos incontestavemnete,  e nesse dia foi sempre comemorada a festa municipal.

Pesquisa e texto por MariaNJardim

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O edifício inacabado da sede do Rádio Clube de Moçâmedes





O projecto de um sonho irrealizado...

 Foto Salvador

A ideia da formação do Rádio Clube de Moçâmedes surgiu pela primeira vez  no jornal "O Lobito" de 11/06/1938, onde se anunciava a formação de uma Comissão organizadora para angariar fundos com vista à criação da sua emissora. Com uma verba de apenas 153 contos, a Comissão viu aprovados os Estatutos do Rádio Clube em Fevereiro de 1945. No entanto, a data oficial da sua criação é 20 de Novembro de 1944, e foi para o ar com um emissor de 50 W, em 1945.
O Rádio Clube Moçâmedes como todos os Rádios Clubes de Angola, nasceu como uma  associação clubística, e por tal necessitada de suporte financeiro,  daí que tendessem a tornar-se em verdadeiras empresas para através da publicidade e da comercialização dos seus programas caminharem no sentido duma crescente profissionalização dos seus colaboradores eventuais e não remunerados.Até lá havia que sobreviver com os proventos que giravam à volta da publicidade, e tal como os clubes desportivos da cidade, também das quotizações mínimas dos seus associados, que não eram muitos, para além do produto de algumas festas que levavam a cabo pelo carnaval, fim de ano, Programas da Simpatia, subscrições, etc. Muita coisa se ia fazendo graças à carolice de uns quantos habitantes da cidade que dela se orgulhavam e se esforçavam por a melhorar. Inda assim, o Rádio Clube Moçâmedes foi sem dúvidas, um grande impulsionador do desenvolvimento da cidade, naqueles 40 anos em que o território angolano superou todos os índices de crescimento, tendo a sua actividade, para além do campo informativo,  cultural  e lúdico se  expandido ao desporto através da promoção regular de relatos de futebol, de hóquei em patins e de basquetebol masculino e feminino.

Salientam-se algumas  figuras pioneiras na história do Rádio Clube de Moçâmedes, nomes como o de Augusto Cantos de Araújo, de Carlos Cristão, Joana Campina (senhora de vasta cultura, licenciada em Letras e conhecida como declamadora de grande mérito) , Sebastião Coelho (foi contratado pela primeira vez, em 1951, para chefiar a produção do Rádio Clube de Moçâmedes, facto memorável logo pela razão de ser o primeiro radialista natural de Angola que se tornava profissional da Rádio) 1. E ainda Maria Manuela, Costa Pereira, Carlos Moutinho (Chefe de produção) , Carlos Meleiro (Chefe de produção), Ernesto de Oliveira, José Manuel Frota, Arlete Pereira, Rui Rodrigues Costa. Rui Bauleth de Almeida , António José Carvalho Minas, Edgar Teixeira, etc,etc.

Outros que deram a sua contribuição na fase do arranque da associação foram Magalhães Monteiro, Adriano Parreira,  Norberto Gouveia, Ana Liberato, Rui de Mendonça Torres, Celeste Gouveia (a Néné Carracinha), Herondina Mangericão, José Roberto, Cruz Almeida, Evaristo Sena Fernandes, Alfredo Falcão, Carlos Cristão, Raul de Sousa (Lico),  Rodolfo Ascenso,  César (electricista do RCM), Luciano Sena, Sousa Santos, Soares e Silva, Domingos Barra, etc, etc.


O Rádio Clube de Moçâmedes (CR6RM) “nasceu” numa casa que dividia com o Sindicato dos Empregados do Comércio (SNECIPA), frente ao Caminho de Ferro de Moçâmedes, ao lado da loja de tecidos, a Casa Pinheiro (Pirilau). Dada a proximidade, quando havia relatos de futebol
estendiam um cabo que ligava o relator à “regie”. Era assim que faziam as transmissões. O mesmo se passava quando havia jogos de interesse para Moçâmedes, em Sá da Bandeira, que eram transmitidos através da linha telefónica do C.F.M. No exterior utilizavam uma carrinha emprestada pelo Sindicato de Pesca, conduzida por Domingos Alves Figueiras, da qual existe uma foto.

 
No início dos anos 50, a famosa década que mobilizou toda uma população desde os mais jovens até aos de meia idade, quandofoi lançada a ideia da organização de um conjunto ou "orquestra do Rádio Clube de Moçâmedes", tendo à cabeça o fotógrafo e músico amador, José Antunes Salvador, saxofonista e chefe da orquestra, para além dos pianistas Afra Leitão, Arminda Alves de Oliveira, Rosa Bento e Martins da Alfândega, dos violinistas Santos César e Fernando Osório (do Banco de Angola), do acordeonista, Raúl Gomes Filho (que também tocava guitarra e viola), e dos bateristas Firmo Bonvalot e Albertino Gomes, não esquecendo o trompetista, Anselmo de Sousa que há época trabalhava na empresa de Abilio Simões.  E quanto a vozes que abrilhantaram programas de "Variedades", citaremos as de Isabel Maria Sena Costa, Noelma de Sousa (Velim), Maria Emilia Ramos (que se destacou no dia em que cantou La vien Rose), Octávia de Matos com as suas marchinhas brasileiras (a Carmen Miranda do Namibe). De destacar a grande fadista do Namibe, Júlia Gomes, filha do Raúl Gomes, o guitarrista oficial da cidade que nos surpreendia em todas as actuações acompanhadas à viola pelo seu irmão "Baía" e pelo seu pai, à guitarra. No rol dos cançonetistas do RCM que dia a dia aumentava, recorde-se, ainda, as bonitas vozes de Rosa Bento, Nélinha Costa Santos, Lili Trabulo com o seu cantar lânguido, Néne Evangelista "Boneca" que casou com o Turra, o romântico José Luis da Ressureição que nos deliciava com o reportório do saudoso Francisco José. Sobre o Zé Luis, está ainda na minha memória o lindo e sentido fado, com musica e letra do juiz da Comarca Dr. Marques Mano, intitulado NAMIBE. O José Luis entregava-se de alma e coração cantando este fado com o estilo "Coimbrão" . Também cantava fados de Coimbra, o amigo Estevão que trabalhava na Robert Hudson. Não quero esquecer a voz de Adriano Parreira, o Mário Lanza do Namibe, sempre presente nestes programas de variedades.
O Rádio Clube de Moçâmedes, como todos os Rádios Clubes da época, pela sua natureza associativa clubistica, com direções democraticamente eleitas, como bem dizia Leonel Cosme. "eram o único espaço de relativa autonomia onde se manifestava a "opinião pública" das populações angolanas.  Mas havia um sonho difícil de concretizar: a construção da  futura sede do Rádio Clube de Moçâmedes, obra que teve como seu grande impulsionador o radialista e Chefe de produção, Carlos Moutinho, e um punhado de "carolas" que  graciosamente dirigiam aquela associação radiofónica, nunca chegou a ser concluída, e no ano da independência de Angola, devido à carência de verbas, reflexo da penúria dos meios e da ausência de ajuda do Estado à altura de projectos deste género, já se encontrava paralisada. 

Em 15/08/1952 foi  lançada a 1ª pedra a sede do Rádio Clube de Moçâmedes, um edifício a construir exclusivamente para o efeito. Eram sonhos que falavam demasiado alto,  e  não chegaram a ser concretizados, devido à carência de meios e à ausência de ajudas oficiais

Quem viveu em Angola naquele tempo sabe bem que este tipo de iniciativas dependia sempre da boa vontade das populações mais que de ajudas estatais, e que neste campo, o campo dedicado ao lazer das populações, tudo era conseguido a ferros e a toque de subscrições públicas. Foi o que aconteceu com o Complexo Desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, outra obra inacabada que já foi por nós abordada, através de uma postagem.

Numa Angola riquíssima, Moçâmedes chegou-se à independência como uma cidade harmoniosa e com belas vivendas, em grande parte, graças aos esforços dos seus moradores.  Ao nível da habitação, não fosse Mariano Pereira Craveiro e outros "carolas" fundadores da sociedade cooperativa "O Lar do Namibe", Moçâmedes chegaria a 1975 reduzida ao velho casario do  seu centro histórico ou pouco mais, pois sequer havia créditos bancários destinados a habitação. O próprio Clube Nautico conseguiu completar o seu edifício, graças à ajuda dos industriais de Pesca, grande número dos quais a residir no bairro da Torre do Tombo, que contribuíram para tal com uma determinada percentagem que lhes era descontada por cada mala de peixe seco que entregavam no Grémio da pesca de Moçâmedes.


Ruínas que entristecem... Foto Salvador

As novas e inacabadas instalações ficavam para os lados da "Sanzala dos Brancos"


Visita do Governador Nunes da Ponte à antiga sede do Rádio Clube de Moçâmedes, em 1956/7 ?  tendo à sua esq. e à sua dt, Albérico Sampaio e Mário Rocha, ambos elementos da Direcção do RCM na altura. A antiga sede ficava na Rua da Praia do Bonfim, ao fundo, próximo do velho campo de futebol, em frente da Avenida.


Vem referida nesta foto a visita Governador do Distrito Salles Grade às novas instalações do RCM em 1956, acompanhado pelo "Capitão do Porto",  comandante Marrecas Ferreira,  Joyce Chalupa, Newton da Silva, Mário Rocha e Ferreira da Silva. Orlando Salvador e Sousa Jr. dão conta das modernas características dos novos gira-discos.

Na verdade já parecia uma praga, essa história das obras inacabadas: edifício do Rádio Clube de Moçâmedescuja planta prometia uma obra de valor e de grande embelezamento para aquela zona da cidade; Cine-Estúdio Satélite; Cine Estúdi "Satélite", o inacabado de arquitectura futurista revestido de belos painéis alusivos às actividades do Distrito, à cidade, ao deserto e ao mar, construido na zona alta da cidade, que fazia lembrar uma nave espacial pousada na "Cidade do Deserto"; complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, também na cidade alta. Ficou-se pelo campo de jogos, a aguardar por melhores dias para a sua conclusão...

Em meio a tanta carolice, alguns projectos surgiram em termos de  organização e gestão do RCM, mas que não passaram de sonhos. O projecto do Rádio Clube de Moçâmedes foi um desses projectos que não passou disso mesmo: Projecto!

MariaNJardim


(1) Sebastião Coelho, à frente da emissora de Moçâmedes, dá guarida e colabora, em parceria com Leston Martins, então naquela cidade, num programa de divulgação dos jovens poetas angolanos, que era igualmente apresentado no Rádio Clube de Benguela, em colaboração com a jornalista Helena Soeiro (Mensurado, por casamento com outro jornalista, José Mensurado também ele um dos dinamizadores da Mensagem. Na pequena e mais puxada ao Sul cidade de Angola - fundada, só na segunda metade do século XIX, por colonos luso-brasileiros fugidos de Pernambuco às defenestrações nativistas e sem assinaláveis tradições culturais - tem particular significado a acção quase "missionária" de Sebastião Coelho, apoiando a entronização, no Namibe, de um Movimento  da "novi-angolanidade", que os seus promotores já queriam ver distinto do "lusotropicalismo teorizado pelo brasileiro nordestino Gilberto Freyre, aproveitado pelo regime colonial e, ainda hoje, como que travestido numa difusa "crioulidade" que é, no fundo, um desvio da "angolanidade" defendida pelos "mensageiros" com o sentido de afirmação de uma personalidade autónoma e prospectivamente africana. (Leonel Cosme)


Ainda sobre o RCM: OUTROS SONHOS...



RÁDIO CLUBE NÁUTICO DE MOÇÂMEDES


Houve um tempo em que um grupo de amigos teve um sonho que ficou sempre no segredo dos deuses. Já não sei se a idéia terá sido minha, se do Mário , se do Andrade, que fazia parte do corpo directo do Rádio Clube, se do Alegria, locutor com o programa “O Calhambeque”, se a memória não me atraiçoa. Éramos todos amigos e colegas no Banco, o que por si só era meio caminho andado para transformar o sonho em realidade. Para lá do próprio projecto em si, o plano para a sua concretização era engenhoso, mas muito simples, e imbuído de boa fé e de um genuino idealismo que só existe enquanto a juventude não nos foge.

Mas, afinal, qual era o nosso sonho?

Se bem se lembram, a construção do edifício do Rádio Clube de Moçâmedes foi uma iniciativa, a todos os títulos louvável, do locutor Carlos Moutinho, professional competente que revolucionou a rádio da cidade. Simplesmente, por falta de apoios e vontade política, que era coisa que não existia naqueles tempos, o edifício acabou por ficar a meio, transformando-se num autêntico escarro no coração de uma zona que se estava a transformar num bairro bonito, graças à Cooperativa “O Lar do Namibe”.


Por outro lado, o Clube Náutico tinha sido projectado, de raíz, para levar um 1º andar, destinado aos seus serviços administrativos, coisa que viria a não se concretizar por falta também de verbas.
O nosso sonho era, pois, vender ao Lar do Namibe o inacabado prédio do Rádio Clube, com os seus terrenos adjacentes, e com os proventos daí resultantes construir o 1º andar do Casino, nome popular do Clube Náutico, e ali instalar o Rádio Clube. Ora, para se obter esse desiderato era necessário, obviamente, conseguir-se a fusão dos dois clubes. que passaria, então, a designar-se por “Rádio Clube Náutico de Moçâmedes”. Mas essa fusão era o principal problema a ser ultrapassado, pois havia interesses instalados que tinham de ser removidos . A maioria das pessoas não se dava conta, mas a gestão do Rádio Clube girava à volta da publicidade, fonte substantiva das receitas, que era facultada de modo pouco transparente e pro bono a algumas, muito poucas, empresas da cidade; no Casino, o problema era de outro cariz e de muito mais fácil resolução: o clube tinha poucos associados, a maioria dos quais nem as quotas mensais pagava e estava entregue a uma vintena de sócios, apaixonados pela sala de jogos e pelo poquer. Os proventos resumiam-se às receitas originadas pela utilização do salão de festas por ocasião do carnaval, fim de ano e matinés dançantes aos fins de semana, suficientes para uma gestão equilibrada.

Havia, pois, necessidade de “tomarmos de assalto” de uma forma legal as duas direccões, o que se presumia fácil dado que, pela nossa experiência de sócios de ambos os clubes, sabíamos que nas assembleias gerais anuais as presenças resumiam-se sempre a meia dúzia de sócios. E no que toca ao Clube Náutico, era extremamente fácil vencer as eleições. O mais complicado, e que exigia uma maior cautela na manutenção do segredo, era o Rádio Clube, que possuia uma grande massa de sócios facilmente manipulada com as conhecidas procurações de última hora.

Era preciso, pois, que o nosso núcleo se expandisse em segredo absoluto apenas e tão só até a um número mínimo que nos garantisse a vitória na eleição do Rádio Clube. E sem nunca reveler o propósito final nem qualquer ligação com a Assembleia Geral do Clube Náutico, no qual detínhamos a maioria face ao irrisório número de sócios nele existente. Era um plano talvez maquiavélico, mas de uma pureza impoluta face ao idealismo que emanava da nossa juventude. E tínhamos a forte convicção de que iríamos não só engrandecer os dois clubes, como valorizar o edifício do Casino, em termos arquitectónicos, com reflexos directos para toda a envolvência da Praia das Miragens.
Mas naquela noite não houve nem lua cheia nem luar e o nosso sonho se esboroou quando, ao cair do pano, apareceram na assembleia geral do Rádio Clube as famigeradas procurações.

Sonhávamos um “Rádio Clube Náutico de Moçâmedes” como verdadeiro ex-líbris da cidade do sol, sal e mar, fundada por uns sonhadores que ali chegaram na Tentativa Feliz e a erigiram a partir do absolutamente nada.

Mas, desgraçadamente, a história mostra-nos que em todos os lados e em todas as latitudes existe sempre um Miguel de Vasconcelos à mão de semear.
E nós tivemos o nosso. Por um prato de lentilhas

(ass) Arménio Jardim

quinta-feira, 15 de março de 2018

Casa de um colono. Lubango 1908.






Foto: Casa de um colono. Lubango. Uma família de colonos madeirenses e alguns elementos da etnia muhuíla.. Corrua o ano 1908. Estava-se na fase crítica dos conflitos...


Fotos dizem mais que palavras....

Segundo René Pélissier “de 1885 a 1915, "o sul de Angola foi a guerra”. "Por toda a parte havia conflitos, mas a situação era particularmente grave no sul de Angola. A guerra acabou, porque as tropas europeias foram substituindo as mulas, os cavalos e os bois, por veículos motorizados, e, sobretudo porque foram substituindo as carabinas e as espingardas por uma arma temível que os negros aguerridos não possuíam  a metralhadora."
 

Tentando uma leitura desta foto direi que, em meio a uma situação de conflitos que perpassavam à época o sul de Angola, e que se estenderam desde 1885 a 1915, esta, tal como outras famílias de madeirenses, que viviam isoladas e conviviam harmoniosamente com africanos muhuilas, marcaram bem a diferença de atitude perante a vida. Uma coisa eram as demandas do regime, outra coisa eram as pessoas. 

São estes aspectos da isso História dos povos que a História não devia ocultar, mas que oculta quando mete tudo e todos no mesmo saco. E é esse um dos grandes erros de quem escreve História.  A maldade existe, basta escutarmos os pacotes de notícias que jornais e TVs nos oferecem todos os dias. A maldade existe e não escolhe povos, nem fronteiras. As pessoas são boas ou  más por natureza e por educação, nada a ver com quantidade de melanina (pigmentação) presente na sua pele. A História não pode nem deve ser encarada a preto e branco. Só por ignorância ou má fé tal tem sido possível!

Entre os primeiros povoadores do sul de Angola estavam os madeirenses, simples emigrantes,  na maioria, à época, gente analfabeta ou muito pouco letrada,  gente humilde que desconhecia a História, e que para o sul de Angola partiu influenciada por campanhas de propaganda que os conseguiu persuadir. Iam em busca de uma vida melhor, e instalaram-se no planalto da Huíla, nos anos 1884 e 1885. Precisamente na altura em que na Europa decorria a Conferência de Berlim, a célebre Conferência que teve como principal resultado a "Partilha de África" entre as potências europeias industrializadas, e a definição das regras para a colonização, assunto a que eram alheios, ou que até mesmo desconheciam.O acordo final saído daquela Conferência impôs o “princípio da posse efectiva”, ou seja, uma potência só poderia reclamar o controle de uma determinada região se estivesse em condições de ocupar com gente da Metrópole, e de a desenvolver. Outros direitos, como os direitos históricos que Portugal reclamava sobre várias regiões de África, deixaram de ter validade. No caso particular de Angola, quando a Conferência de Berlim chegou ao fim, a 26 de Fevereiro de 1885, ainda havia grandes extensões do território angolano onde nenhum português tinha ainda posto os pés.  Desde logo começou a corrida para a ocupação de África. Esta levou ao envio maciço de tropas para as regiões a defender, e provocou o agravamento da escalada dos conflitos entre as concorrentes europeias, e principalmente com as tribos africanas. Na partilha, Portugal teve que se confrontar com as pretensões da Inglaterra e da Alemanha, as potências cobiçosas do território que por direito histórico reclamava, e teve que desenvolver acções de pacificação do gentio revoltado que estavam em marcha, e foram levadas a cabo sem grande consideração pelos pequenos núcleos de famílias de origem europeia, que recentemente ali se haviam estabelecido, e que pacificamente coexistiam com as populações negras de diferentes etnias, no sul de Angola.

No Distrito de Moçâmedes, mais propriamente no planalto da Huila,  em finais do século XIX, encontravam-se estabelecidos, e dedicados à agricultura, os boeres e os madeirenses. Em Moçâmedes, desde 1849 viviam dedicados à agricultura e à pesca, os luso-brasileros de Pernambuco, e uma comunidade de colonos algarvios que ali começaram a chegar a partir de 1861. Todos juntos, estes povoadores foram essenciais para que Portugal, através da ocupação efectiva e de meios pacíficos, os do trabalho, merecesse o respeito das nações competidoras.  Aliás, acabaram por ser o garante da ocupação daquela fatia de Angola. Sem eles, o mapa de Angola muito provavelmente teria sido diferente daquele que é hoje, dada a cobiça de potências estrangeiras. Talvez os alemães do Sudoeste africano (actual Namíbia) tivessem avançado pelo Distrito de Moçâmedes adentro, e tivesse  anexado o cobiçado território  a sul de Benguela. Respeitando as  regras então estabelecidas para a  ocupação, com a sua presença, teriam sido o travão para esse ambição.

 MariaNJardim



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Na foto: uma casa isolada no território da Huíla habitada por uma família madeirense, que ali podemos ver acompanhada por autóctones da região. 1908. Estava-se na fase crítica dos conflitos.

quinta-feira, 1 de março de 2018

AÍ ESTÃO ELES. OS TIGRES DA BAÍA DOS TIGRES...






"Transcreveremos aqui os apontamentos que a respeito d'essa tentativa nos ministrou o sr. P. Craveiro Lopes, um dos officiaes da expedição.

Saimos de madrugada e andámos por terra até ás duas horas e meia da tarde, caminhando uns para N. e outros para S., sem jámais encontrarmos agua, lenha ou gente. So vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes, e immensidade de aves, taes como pandas, pellicanos, patos e africanos; estas ultimas aos bandos de cem, e fazendo de longe como regimentos de soldados inglezes de fardas vermelhas e calças brancas; é muito bravia toda essa caça, e por isso custosa de apanhar.
Tanto nas vizinhanças do mar como para o sertão, recobrem o solo grandes dunas de areia, cuja superficie, açoutada do vento, está em constante movimento ondulatorio, exactamente analogo ao que tem as camadas conductoras das vibrações sonoras. Tão alentadas são algumas das dunas sertanejas que olhando do topo para a base, da banda de sotavento, isto ê, proximamente da banda do NE., para onde a inclinação é de uns 45° a 55°, turva-se a vista. Não são raras as que vingam a altura de um sexto andar de Lisboa, e deixando cair um corpo de bastante peso e superficie no cume de um d'esses outeiros, ouve-se como o estampido de uma arma de fuzil.

Por segunda vez descemos a terra ao romper da manhã de 23 de dezembro de 1854, e ao cabo de andarmos 4 ou 5 leguas encontrámos um preto, pescando na borda do mar e junto a umas pedras. Interrogado pelo nosso interprete soubemos que pertencia a uma tribu errante, para a qual estava pescando e que acampára nas proximidades. Procurámo-la e vimos que se compunha de 4 homens, 3 mulheres, 6 crianças e 19 cães, tudo accommodado em 2 barracas e um cercado feito de costellas e outros ossos de baleia; sustentavam-se de peixe, secco ao sol; bebiam agua tão pessima que, apesar de ardendo em sede, não podémos entrar com ella, e vestem-se apenas com trapos que lhes tapam as verilhas. Caso raro, rejeitaram a aguardente que se lhes offereceu, e sob pretexto de ser muito fria não aceitaram da nossa agua doce; comeram porém com avidez farinha de pau, e estimaram muito o tabaco. Por elles soubemos que ao cabo de 3 ou 4 dias de marcha para S. encontrariamos o rio Cunene».

Descripção e roteiro da costa occidental de Africa desde o cabo de Espartel até o das Agulhas
by Castilho, Alexandre Magno de, 1834-1871
Publication date 1866

https://archive.org/details/descripoeroteir00castgoog

PRAIA AMÉLIA: TANTAS HISTÓRIAS PARA CONTAR...

               Várias fotos da Praia Amélia no inicio do séc XX, no tempo da pesca à baleia feita por noruegueses



Hoje quem visita Moçâmedes e se desloca 5 km a sul na direcção da PRAIA AMÉLIA, já poucos vestígios do passado encontra, mesmo de um passado recente, com que possa ilustrar suas narrativas, porque tudo quanto era História vem sendo dali varrido com rodar do tempo. No entanto quem ali viveu decerto não se cansou de ouvir histórias contadas pelos antepassados sobre acontecimentos que tiveram lugar na PRAIA AMÉLIA, e que ficaram a marcar a História daquela praia.



Porquê PRAIA AMÉLIA? A ORIGEM DO NOME:

A PRAIA AMÉLIA era assim chamada porque em l842 ali encalhou a "escuna Amélia" da Marinha de Guerra Portuguesa no banco de pedra ali existente. A zona do banco era uma zona perigosa para a navegação marítima pois na baixa mar ficava a descoberto, e com a maré cheia era uma armadinha para os barcos de grande calado, que ousassem por ali passar. Os barcos mais pequenos, como as embarcações, traineiras, etc, podiam passar pelo canal existente entre a ponta da PRAIA AMÉLIA e o banco , mas os maiores tinham que passar ao largo do referido banco. Por alturas do ano de 1840, houve quem afirmasse ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passarem por entre o baixo e a praia da Amélia, ou seja pelo canal, que lhe fica fronteira, algo arriscado. Na escuna naufragada que deu o nome à PRAIA AMÉLIA viajava Joaquim Antonio Menez autor do livro "Demonstração geográfica e política do território portuguez na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."   publicado em 1848.



A CAPTURA DE BALEIAS E A GRANDE FÁBRICA DOS NORUEGUESES ...



Decerto os que ali viveram ouviram falar de uma fábrica de grandes proporções para a época, de capitais noruegueses, que ali se instalou, no início do século XX, com seus barcos de pesca dedicados à captura de baleias.

A caça à baleia XIV teria sido iniciada em princípios do século XV, no golfo da Gasconha, por pescadores idos da Bretanha e das Vascongadas, em perseguição dos gigantescos mamíferos, que acabaram por fugir para as costas de Portugal e da Espanha, e daí para os mares da América do Norte. Era então a França era nessa  a maior potência marinheira do mundo, mas por volta de 1870, a liderança passou a caber à Inglaterra, seguida da Noruega e da América, que ganharam prioridade na matança de baleias, que se faziam desde a Geórgia do Sul à África Equatorial. Em 1910 a matança de baleias tomou grandes proporções, até que em 1914 se procurou legislar o extermínio destes animais através de acordos internacionais, com regulamentos severos, protetores da espécie, que obrigavam os industriais ao aproveitamento dos despojos, mas todas estes esforços acabaram por perder o interesse com a deflagração da Guerra de 1914-1918. 

Foi por esta altura que, face às grandes necessidades de matéria gorda em todo o mundo, a Noruega resolveu organizar frotas para caça aos cetáceos no Artico, e é dessa época a instalação na Praia Amélia, a 6 km a sul do centro da cidade de Moçâmedes (Namibe), para onde a Knut Knut & Sons OAS, fez desviar uma flotilha, e fundou uma fábrica de óleos e guanos de grandes proporções para a época, dedicada à industrialização da carne e da gordura de óleos e guanos de cetáceos (baleias, cachalotes, golfinhos), que a sua frota abatia.  Enquanto a captura dos cetáceos se fazia em zonas marítimas limitadas, as instalações fabris eram construidas em terra, porém, com a necessidade de caçar mais longe, uma vez que os cetáceos afugentados da costa com a perseguição que lhes era feita se desviavam para outras zonas, houve que adoptar navios-fábrica , onde se realizava todo o trabalho de transformação dos despojos, desde os óleos aos torteaux alimentares. Foi então que os noruegueses instalados na Praia Amélia resolveram abandonar a fábrica, e servindo-se dos navios da flotilha levaram consigo toda a produção da caça aos cetáceos feita em águas angolanas. E como não tinham pago os direitos aduaneiros atribuídos a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio daquelas instalações fabris.

Enquanto os noruegueses ali trabalhavam praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro, canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso. As instalações encerraram, mas os noruegueses que ali trabalhavam marcaram para sempre uma época em Moçâmedes. Partiram e não voltaram. As gentes pacíficas da terra não perderam as esperanças de um breve regresso. Mas em vão. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram memórias desses tempo romântico nas ossadas desses grandes animais espalhadas por todo o litoral, especialmente pela «Praia das Conchas».

Anos mais tarde, em 1936, utilizando os navios da flotilha, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul, desde o Ilhéu das Rolas a Porto Alexandre, abatendo baleias e levando-as para o navio-fábrica, onde faziam a industrialização de toda a sua produção.   Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca, ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. 

Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim. 
 


AS PESCARIAS DE JOÃO DUARTE E DO VENÂNCIO


Em meados do século XX duas grandes empresas dedicadas à indústria pesqueira encontravam-se intimamente ligadas ao nome da PRAIA AMÉLIA, a de Venâncio Guimarães e a de João Duarte, tendo ambas por sua vez ligadas, respectivamente, à fabricação de conservas de peixe e à fabricação de guanos, que deram a sua grande contribuição para o avanço do Distrito.

João Duarte era, sem dúvida, o mais bem sucedido morador do Bairro da Torre do Tombo, o bairro onde vivia. Foi com 15 anos para Angola (Moçâmedes) e transformou-se num industrial de pesca, começando por comprar uma pequena embarcação a gasolina (baleeira ou sacada?), depois mais uma, mais outra e por aí adiante. A sua pescaria na Praia Amélia, com a gestão familiar, e a participação de todo um conjunto de trabalhadores, brancos, negros e mestiços, gente de terra, gente do mar, mestres contra-mestres, motoristas, pessoal auxiliar (contratados), capataz, etc etc, foi evoluindo, e em 1968 quando faleceu tinha uma fábrica de farinha e óleo de peixe totalmente automatizada, e 3 traineiras de bom porte, que garantiam a matéria prima -  a João de Deus, a Zita Lourdes e a Maria Margarida, e ainda instalações para salga e seca para os peixes mais nobres, uma ponte, várias casas para o pessoal e  até uma bonita Capela onde aconteceram cerimónias de casamentos de familiares abençoadas pela sua Santa Padroeira - a Nossa Senhora dos Remédios.


 Ao fundo, a ponte da pescaria de João Duarte. Na praia trabalhadores lavando as redes. Foto Salvador


Traineira de João Duarte. Foto da família Duarte


 A fartura do pescado. Pescaria de João Duarte




O tempo das almoçaradas familiares na Praia Amélia


A pescaria de João Duarte situada mais a sul da Praia Amélia, a dar para a zona funda da praia de banhos, junto da ponte, (zona que permitia a atracagem de traineiras e de barcos de certo calado), para além da grande contribuição para o desenvolvimento de Moçâmedes, era a pescaria ideal para onde aos domingos pela manhã, no Verão, se deslocavam familiares e amigos para ali passarem o dia em ameno convívio e confraternização, quer tomando banhos de mar na zona funda mais próxima da ponte, quer na  mais afastada, sem fundão, mas com altas ondas, que se fosse hoje em dia dava para a prática do windsurf.  Outros preferiam a pesca à linha do cimo da ponte, ou em pequenos botes a remos (chatas), junto ao canal, caça submarina, pesca desportiva, etc. Eram encontros que tinham o seu ponto alto à hora do almoço, quase sempre uma caldeirada de peixe feita mesmo ali por baixo do telheiro da pescaria, lado a lado com os tanques de salga do pescado. As famílias carregavam consigo frutas e doces refrigerantes, bebidas, toalhas, guardanapos, louças, copos, talheres, etc. Cozinhavam ali mesmo sobre pedras e carvão, ou utilizando um fogão a petróleo desses que foram vedeta antes do surgimento dos fogões a gás. Estes passeios já vinham de um tempo em que os veículos automóveis em Moçâmedes eram inexistentes, e as deslocações para a Praia Amélia se faziam em baleeiras à vela, a partir de uma das várias pontes das antigas pescarias da Torre do Tombo, as que ficavam mais à mão, ou da velha ponte de embarque/desembarque da Praia das Miragens, para os moradores da baixa da cidade.

A Praia Amélia era a alternativa mais próxima, à Praia das Miragens, no centro da cidade, aquela que oferecia uma maior variedade de diversões, uma vez que para além dos banhos, ali se podia pescar e até fazer  as já citadas almoçaradas em agradável e alegre convívio. Sim, porque a outra praia, a "Praia das Conchas",  de "praia" apenas possuía o nome!

A prática das grandes almoçaradas perdurou forte, pelo menos até meados dos anos 1950, e foi desvanecendo com  o aumento populacional e as novas e diversificadas ofertas  ao lazer das populações nos anos 1960, a década em que tudo mudou. Esta década foi também a do início das "Festas do Mar" e a do "boom" populacional em Angola de que Moçâmedes beneficiou.
O tempo das almoçaradas na Praia Amélia, nos anos 1950. Foto cedida por Olimpia Aquino.


 
Finais da década de 1940, Maria Emília Ramos conduzindo uma motorizada em plena areia da praia, na Praia Amélia. Uma jovem de moto era naquele tempo coisa rara! Ao fundo, à direita, os giraus ou tarimbas para a secagem do peixe, e à esquerda, as instalações de João Duarte. Foto decida por Antonieta Bagarrão.


Esta geração de jovens mulheres nascidas na década de 1930, em Moçâmedes, podemos dizer sem receio de errar, foi aquela que rompeu com o modelo tradicional de suas mães e avós, secularmente reduzidas ao papel único de donas de casa, esposas e mães, com muito actividade quase nula na esfera pública, excepto na área do social ligada à paróquia. Aliás era normal que assim fosse dado o trajectória histórica da mulher portuguesa e a estrutura social num tempo de oferta escassa de trabalho, como foi Angola até 1950.


Foto decida por Antonieta Bagarrão. Em 1949 na Praia Amélia para uma banhoca...



O modelo dos fatos de banho denunciam a época.  Nesta altura as jovens usavam ainda fatos de banho com uma espécie de saia à frente, e bastante subidos no peito. Eram, aliás, as normas do Estado Novo. Para quem desconhece, importa lembrar que em 1941, na sequência da chegada a Portugal de muitos refugiados da Segunda Guerra Mundial que, pouco habituados aos pudores nacionais, aproveitavam as praias da Linha do Estoril para exibir os corpos, foi promulgada legislação com "várias disposições sobre o uso e venda de fatos de banho", instituindo e estabelecendo "o sistema de fiscalização e sanções a aplicar aos transgressores." As razões do Ministério do Interior estavam relacionadas com factos ocorridos durante a última época balnear que passaram a exigir "normas adequadas à salvaguarda da decência e dia valores morais estéticos que os povos civilizados ainda, felizmente, não dispensam", escrevia-se então.  Assim, trajes balneares de homens e mulheres passaram a obedecer a regras específicas, cabendo aos cabos do mar fiscalizar o seu estrito cumprimento quer em relação a  homens quer a mulheres. É claro que na década de 1960, ou até já mesmo a partir de meados dos anos 1950, já nada era assim. Com o fim da guerra 1939-45, ventos de mudança vindos do exterior penetraram em Portugal e chegaram às colónias de África onde eram mais facilmente acolhidos.  O biquini fez a sua aparição nos anos 1960, como que desafiando uma velha ordem  retrógada, beata e caduca! Diz-se que nas colónias a moda do biquini avançou mais rápida.



 A praia Amélia em dia calmoso

 
 Na Praia Amélia, numa manhã de Carnaval em 1953. Foto do meu álbum.

Na ponte.  Fito cedida por Ricardina Lisboa

Um passeio de bicicleta à Praia Amélia. Atrás as casas dos empregados 
da pescaria de João Duarte. Foto do meu álbum.



A prática desportiva na Praia Amélia: a pesca desportiva e a caça submarina. Os concursos das "Festas do Mar" 


A pescaria de João Duarte servia também de base para concursos de pesca desportiva por ocasião das "Festas do mar" e outras que as antecederam, enquanto a ponte era invadida uma multidão se espectadores, gente de ambos os sexos e de várias idades, interessadas na modalidade.


 
 As Festas do Mar e os concursos de pesca desportiva e caça submarina na Praia Amélia. Ponte da pescaria de João Duarte. Do meu álbum.
 
 As Festas do Mar e os concursos de pesca desportiva e caça submarina na Praia Amélia. Ponte da pescaria de João Duarte. Do meu álbum.



A Capela da Praia Amélia 




A determinada altura, por volta dos anos 1950, João Duarte mandou construir na Praia Amélia uma capela, para a qual importou da Metrópole uma imagem da Santa da sua devoção, e onde se tiveram lugar ao longo de 2 décadas cerimónias religiosas, para além de baptizados e de casamentos. Eram geralmente baptizados e casamentos ligados à familia de João Duarte. A capela da Praia Amélia foi o que escapou à voragem das demolições que tiveram lugar há uns anos atrás, e que se desenrolaram num abrir e fechar de olhos...





Ficam estas recordações.


Pesquisa e texto de
MariaNJardim