Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 17 de novembro de 2017



 O primitivo  Padrão do Cabo Negro


Porque o Padrão do Cabo Negro tem inegavelmente o seu lugar na História da Humanidade!



Texto de: Manuel João de Pimentel Teixeira

“Um facto inegável que tem ajudado a enriquecer este trabalho é a contribuição que se recebe da família, de amigos, de e - amigos e de pessoas anónimas. São os moçamedenses que mais têm colaborado. Reconhecidamente orgulhosos da sua terra, jamais perdem a oportunidade de dá-la a conhecer. E está correcto! É quase uma obrigação de quem provém de uma cidade que tem por seus eternos companheiros, de um lado o mais antigo deserto do mundo, o Deserto do Namibe, do outro o mar, o Atlântico Sul... 

 
 A réplica do Padrão do Cabo Negro



 



“Um canto da nossa terra tão desconhecido e com tanta História.”

“A frase faz parte do relato que me foi feito por Manuel João de Pimentel Teixeira sobre a sua ida ao Cabo Negro, no Sul de Angola, Província do Namibe, no passado mês de Julho desse ano (2003). O que me contou assim como as fotografias que me enviou do local sensibilizaram-me: foi-me dado conhecer, ainda que virtualmente, um local que é História.

Chocou-me ver a destruição a que o símbolo que o Homem lá instalou há mais de 5 séculos tinha mais uma vez sido objecto. O símbolo que não diz respeito somente a Angola e a Portugal. Porque faz parte de feitos que mudaram o mundo. É, portanto, um símbolo que ultrapassa fronteiras, atravessa o tempo.

Em Angola, a terra que nos viu nascer, passados que estão os tempos de ânimos exacerbados, de lutas fratricidas, deve também ter-se em conta que nem tudo o foi feito estava errado, nem tudo o que se faz é correcto.

Assim foi e será sempre porque o Homem não é perfeito. Mas Deus concedeu-lhe a capacidade de discernir, de se sensibilizar. Se quiser, saberá que, se aproveitar o que foi/é bom, deixando que a História faça o seu julgamento, o povo será o grande beneficiado, a nação será engrandecida. E porque assim sinto e vejo “as coisas”, querendo partilhar as imagens e a mensagem do Cabo Negro, pedi e obtive a anuência do autor para aqui reproduzir o que me descreveu. Importa, também, que recordemos o que a História nos relata sobre este local.

As páginas finais desta crónica disso darão conta. Basear-me-ei na obra “O Distrito de Moçâmedes”, da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, edição da Agência -Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950). São dois volumes e o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe.

Deve, todavia, ter-se em conta que esse escrito reflecte o pensamento da época, o sentimento de nação, de patriotismo, de posse de terra. Como já uma vez escrevi, as ideias e os ideais alteraram-se, a História reescreveu-se. Não pode, todavia, modificar-se o que foi escrito e que, independentemente dos ideais de cada um, transmite ensinamentos preciosos. Este símbolo possa um dia ser reconstruído.
Os dois relatos, infelizmente, não se completam, mas é preciso que se tome conhecimento de ambos. Na esperança de que se acordem consciências. Para que Porque o Padrão do Cabo Negro tem inegavelmente o seu lugar na História da Humanidade!

Visita ao Cabo Negro no dia 27 de Julho de 2003


Estava muito cacimbo, a estrada de asfalto molhada e escorregadia. Uma viagem agradável e serena. O ar limpo e húmido. Pouco vento. Nas praias que cercam o cabo e nas suas proximidades, tudo vazio, sem vivalma.
Subimos ao Cabo Negro. É uma marca inconfundível. Visto de longe, a Norte, percorrendo a estrada batida de terra, depois de deixar o asfalto, na direcção do mar, assemelha-se a um barco de pedra, enorme, pronto a entrar no oceano, a meio de praias rasas, solitário.
O carro avança com calma, até um ponto a quase 3/4 da altura das rochas, pela areia. Chegámos. Dirigimo-nos pelo topo, a pé, na direcção do local do Padrão, bem acima do mar, no pequeno "plateau", ponto mais elevado, mas sem grandes socalcos. Ao longe, mais a norte, a Rocha Magalhães, com as salinas que foram as mais produtivas de Angola.
A placa de mármore cravada na rocha de formas estranhas, que se vê nas fotos, tem cerca de 50 cm altura por 60 cm de largura, e um corte em forma de ranhura funda como moldura, a dois centímetros das margens e podia ler-se ainda, mas com dificuldade, mas sempre do lado direito no fim da primeira linha,
em cima .................. oyses Pinho
no meio, ......................... Sagres.
depois, mais afastada destas linhas, lia-se por baixo, ............ nove
As letras entalhadas, muito esbatidas já. A data mencionada talvez fosse de - ou por volta de - 1939, 1949 ou mesmo 1959. Será necessário confirmá-la, possivelmente em relatos escritos sobre alguma comemoração no local.
Qualquer coisa me diz ser possivelmente uma data dessas, não sei por que causa histórica, mas parece-me já ter lido algo sobre isso há muito tempo.....em criança talvez, até relativamente á Mocidade Portuguesa, á história de Gago Coutinho, ou de qualquer coisa assim.
Creio até que foi Setembro, o mês do meu aniversário.
Seria Dom Moisés Alves de Pinho?? Cardeal, Arcebispo, creio eu!!!!!! Para lá ir, pode chegar-se com o automóvel (4X4, obviamente), tirando-se algum ar das câmaras - de - ar dos pneus, de todos igualmente, para melhor se conduzir na areia, como se faz no deserto, e indo pelo Sul para a parte mais alta, em declive macio. Depois caminha-se bem a pé, sem qualquer problema, cerca de 50 metros. Vasculho com os olhos toda a área... Vou-me aproximando e, como num filme, em zoom, tristemente confirmo o que jamais imaginei: encontro-me perante o que restou do Padrão de Diogo Cão.
A sua história, todos a conhecemos, devidamente fundamentada e largamente difundida, para quem se interessa pela História da Humanidade. O toco, deixado por vândalos da inconsciência e das paixões políticas levadas ao extremo, nada mais é que a sua base com cerca de 40 cm de lado por cerca de 25 cm de altura até ao chão, aonde se eleva, quebrado de Poente para Nascente, num ângulo de 50 graus, com 60 cm no ponto mais alto do corte. O tronco do Cruzeiro tem cerca de 24 cm de diâmetro.
Possivelmente foi construído com algum tipo de calcário granulado, como aliás se vê no Cabo Negro, e está muito desgastado pela acção do tempo. Quando me propus visitar o Cabo Negro, que não conhecia, perguntei a muita gente, dali mesmo e de Porto Alexandre, se sabiam aonde era a cabeça do Diogo Cam, e ninguém soube informar-me. Foi a minha teimosia e a certeza de que o que o meu Avô escrevia era absolutamente EXACTO, que me fez e ao motorista Fernando, de Benguela, escalar pedras e a falésia, perigosa, e depois, por fim, decidir-me a ir por baixo, pela praia, até um ponto mais dentro do mar... mas não muito, quando há baixa-mar (não era baixa-mar na altura).
Teimosamente, dizia a mim próprio: “Se o meu Avô disse e fotografou como sendo aqui, TEM QUE SER AQUI!” (Há os que, dizendo-se conhecedores da região, se referem à “Ponta Negra” como se fosse um outro local, muitíssimo mais a Norte, e a Norte de Moçâmedes!).
Para se ver o "busto de Diogo Cam" ou a "cabeça de Diogo Cão", deve sair-se sempre duas horas antes da baixa-mar, a partir de Porto Alexandre - ou Tombua, como erradamente se lhe designa hoje aquela angra tão bela (o nome usado pelos habitantes do Deserto para designar a welwitschia mirabilis é tumbo) - pelo Sul e pela praia junto do Cabo, até aonde o carro puder ir, o que se faz sem problema, mas tomando-se sempre as devidas e acima mencionadas precauções, até uma distância de cerca de cem metros da ponta do cabo.
É claro que é necessário saber-se dirigir em areia, fugindo sempre das curvas muito apertadas - quanto mais largas melhor, pois numa curva fechada os pneus sem pressão poderão sair das jantes - e nunca forçando movimento algum, nem acelerando demais.
Instala-se o carro em ponto relativamente mais alto que as marcas da maré-alta anterior deixadas na praia, e desloca-se a pé, sem problemas, e como que em reflexão meditativa, até á base do Cabo Negro junto ao mar, pela praia molhada, na direcção Sul -Norte.
A chegada às rochas da base é feita sem o mínimo perigo, até para crianças, - com cuidado para não escorregar ao subir às rochas baixas - e tem-se a admirável visão que tantos outros antes de nós tiveram, maravilhados. O meu Avô, há 100 anos, inclusive, aquele apaixonado pelas terras que adoptou como suas, sem jamais haver regressado "à Metrópole" após ter vindo para Angola, concluído que teve o seu Curso em Coimbra e no Porto, e com toda a certeza, deleitado e sentindo-se sublimado também, como Diogo Cão ter-se-á sentido à 518 anos.
E alguns e poucos mais antes de mim, há menos tempo, mais recentemente, se é que tal viram. Era perigosa a descida, diziam. Mas há caminhos mais simples e menos abruptos. É preciso sabê-los. E saber ir em Paz. 

 

 Uma rocha única, uma obra natural, desconhecida como "arte" por África e pelo Mundo. Um ornamento natural para a História de Angola. Um monumento eterno. É realmente um espectáculo, observar-se tanta simplicidade e tanta nobreza, trabalho imponente criado pela Mãe Natureza, esculpindo com o mar, com o vento e com as areias, nas marés calmas ou no mar irado, um símbolo tão belo, como que elevando o Homem acima do mar e do tempo.




Escrito aos 23 de Agosto de 2003, em Luanda. "

















domingo, 12 de novembro de 2017






A ponte de cais de Moçâmedes


“Não obstante a extensão e a superioridade do fundeadouro, na baía de Moçâmedes os embarques e desembarques faziam-se aos ombros dos nativos que desastrados por vezes compeliam os passageiros a um banho forçado” . 


"A bahia de Mossamedes é uma das mais bellas que tenho visto—o seu fundeadouro é magnifico e vasto.



Como na maior parte das nossas possessões africanas, faz-se o desembarque aos ombros de barqueiros, o que sempre apresenta certo risco aos visitantes que se não acharem preparados para tomar um banho de choque."
 

Um caes bem construido, que nivelle a praia pela altura proximamente das construcções regulares que alli existem, com escadarias para os desembarques, e uma ponte de descarga para o serviço da Alfandega, são as obras mais urgentes.  


Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

 

Quando o autor anónimo publicou o livro «Quarenta e cinco dias em Angola», em 1862, ainda não existia  em Moçâmedes qualquer ponte de embarque e desembarque de pessoas e mercadorias, conforme assim deixou escrito.

Na realidade através desta foto que aqui publicamos, podemos aquilatar que antes da ponte, era sobre uma jangada que nativos descarregavam, na praia, as armas e munições e outras mercadorias mais, que eram trazidas pelos navios. Obviamente deveria acontecer o mesmo com os pessoas... 
No mesmo livro o mesmo autor aproveita para sugerir a necessidade urgente da construção de um cais que nivelasse a praia pela altura aproximadamente das construções regulares, com estacarias para embarque/desembarque de pessoas, e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega.

Refere também que já Fernando da Costa Leal (1), o 5º governador de Moçâmedes estava empenhado na construção de uma ponte que convergisse com a Alfândega, mas até 1873 esta continuava por construir por falta de verbas, com grande prejuízo para a economia do Distrito

In Archivo Pittoresco, Semanário Ilustrado, vol x, 1867, esta referência mostra bem a penúria da colonização portuguesa: "...Noticias posteriores dizem que o governador ultimamente nomeado, o sr. Graça, completando o pensamento do seu antecessor, o sr. Costa Leal, ia mandar construir o caes em frente da alfandega, para o que encontrara já alli amontoado não pouco material; mas, como lhe faltassem para isso os necessários meios, abrira uma suhscripçâo particular entre as pessoas mais abastadas e mais interessadas do municipio, e esta subscripçao  em alguns dias, produziu logo a quantia de 20000 réis. A construção do caes é de grande utilidade, pois torna mais commodo e menos perigoso o desembarque de pessoas e mercadorias." 

Dada a carência de meios, subscrições públicas eram um recurso muito utilizado pelos colonos quando o apoio estatal era ausente, como aliás se veio a verificar em Moçâmedes em várias situações e nas diferentes épocas.

Passaram ainda por Moçâmedes mais dois governadores, Estanislau de Assunção e Almeida (1870 até 1871) e Lúcio Albino Pereira Crespo (1871 até 1876) . 

Foi em 1873, 24 longos anos após a fundação de Moçâmedes, quando já muitos colonos fundadores vindos de Pernambuco (Brasil), em 1849 e em 1850 haviam perecido, que a primeira ponte em madeira, assente sobre estacas, foi inaugurada. Mas esta pouco tempo depois ruiu e se inutilizou, conforme o governador Costa Cabral (1877-1878) viria a informar superiormente o Governo de Luanda, solicitando a urgente substituição, e lamentando a inexistência no local de outros meios de embarque/desembarque, que se faziam em ocasiões de grandes calemas com perigosos riscos pessoais e sensíveis prejuízos para as mercadorias.

Segundo Manuel Júlio de Mendonça Torres, a actual ponte foi finalmente inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881, conforme mencionado in Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes, anos 1860 a 1879, Boletim do Ultramar.

Mas não termina aqui a história à volta desta ponte, pois já bem dentro do século XX o seu estado continuava precário, e há notícia de que não cessavam os pedidos ao Governo para que fosse reabilitada, uma vez que a ponte existente já não permitia escoar toda a mercadoria recebida e expedida através de navios nacionais e estrangeiros que demandavam o porto, dada a morosidade dos carregamentos, correndo-se o risco de ficar paralisada a navegação pelos prejuízos causados às agências.


No Boletim Geral das Colónias nr. 88 de 1932, dedicado à visita do Ministro das Colónias de Salazar, Dr. Armindo Monteiro, nem publicada uma petição ao Ministro em prol do melhoramento desta ponte. Salienta-se  

"o estado caótico da única ponte cais de existente em Moçâmedes, que embarcação alguma podia ali atracar, sendo as descargas das mercadorias importadas efectuadas por lanchas, de forma morosa, tendo que se aguardar a maré cheia, e mesmo assim correndo o risco de se despedaçarem de encontro a ela, bastando para tal um pouco de calema."
(...)
"a atenção para o facto de esta situação não se coadunar com o nível elevado de exportação do distrito à época, sendo o porto frequentado por regular navegação nacional e estrangeira, correndo-se o risco de se ficar, num futuro bem próximo, sem a navegação necessária que garanta a exportação normal dos produtos, dada a demora nos carregamento dos vapores que deixam de aceitar carregar por fretes por não compensam o dispêndio resultante da permanência no porto." Sugeria-se que se "poderia servir das estacas cimento armado que na época se encontravam dispersas pela praia desde há uns anos atrás, quando se pensou no prolongamento da ponte actual, bem assim como vigas ferro para assentamento do leito, um bate estacas e uma caldeira a vapor."

Moçâmedes vivia então praticamente da pesca e esta encontrava-se afundada numa grave crise por falta de escoamento o peixe que apodrecia nos armazéns, por escassez de encomendas. A agricultura estava arrasada e nada tinha a ver com tempos áureos criação da "Companhia de Mossâmedes". A precaridade de meios era tal que o próprio Memorial entregue ao Ministro Armindo Monteiro pela Câmara Municipal não deixa mentir.

Não conseguimos saber se entretanto foram efectuados melhoramentos nesta ponte quando do desembarque ali do Presidente da República, General Carmona, em 1938. Sabemos que havia um plano quinquenal a levar a cabo em Angola, mas que no período II Guerra Mundial (1939-45),  tudo paralisou ao nível de infra-estruturas, uma vez que o material era importado da Europa industrializada e as fábricas europeias nessa fase estavam inteiramente envolvidas na produção de material bélico. 
Falta explorar se no quadro desses mesmos planos quinquenais activados no pós guerra, foi feito algum melhoramento nesta ponte. 

O que sabemos é que foi através desta ponte, inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881, conforme mencionado por Manuel Júlio de Mendonça Torres, (in Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879), e que acabou por exercer a sua função benéfica para o desenvolvimento do Distrito e do Interland, que se procedeu durante 76 longos anos, até 1957, data da inauguração do 1º troço do cais acostável, ao embarque e desembarque de pessoas e mercadorias, num sucessivo e imparável movimento de  ir e vir, de import/export, conservas, óleo, farinha de peixe, sisal, peixe seco, mármores, gado, peles, etc. que o distrito de Moçâmedes produziadesde os tempos em que o fundeadouro permitia encostar à ponte, antes dos assoreamentos, até tempos mais próximos em que ficavam ao largo, fundeados a meio da baía, e a carga para ela convergia através de batelões, e os passageiros através de pequenos "gasolinas" .   Era por ali que escoava também o peixe seco, o sal, etc, através de caíques e palhabotes que faziam a cabotagem ao longo da costa angolana.

Fernando da Costa Leal foi um abnegado e competente governador de Moçâmedes entre 1854-1859 e entre 1863-1866




 

Visita do Conselheiro Governador-Geral da provincia, Dr. Ramada Curto para inauguração do C. F. de Moçâmedes - entre 28 de setembro e 1 de outubro de 1905]
 
 Dr. Ramada Curto para inauguração do C. F. de Moçâmedes - entre 28 de setembro e 1 de outubro de 1905]
Batalhão em Moçâmedes
 Passagem de revista a uma Companhia de Guerra na Avenida de Moçâmedes
Desfile de um batalhão desembarcado em Moçâmedes rumo à fronteira sul
 
 Navio descarregando material destinado ao Caminho de Ferro, na ponte de Moçâmedes


"Salvador Correia" descarregando material de guerra na ponte de Moçâmedes

 Batalhão desembarcado em Moçâmedes
 Batalhão desembarcado em Moçâmedes, rumo ao Cuamato



Por esta ponte que se manteve activa até à inauguração do cais acostável, em 1957, não passaram apenas pessoas comuns, gente de trabalho e de negócios,  mercadirias de toda a ordem, e até gado, que era introduzido em batelões através de guindastes, etc, etc, no ir e vir das partidas e chegadas.  

Testemunho silencioso da História de Moçâmedes, foi em finais do século XIX e inícios do século XX, ponto de desembarque de batalhões militares, armas e munições, no quadro das Campanhas Militares do Sul de Angola, que eram dirigidos para as zonas consideradas de fronteira, com a dupla missão de dominar as populações nativas insubmissas, e assegurar os contornos da fronteira sul face à cobiça da Alemanha, a quem na "partilha" coubera o Sudoeste Africano (actual Namibia), nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral, e das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações ali tinham vivido...


                                    Chegada do Bispo de Angola, D. António a Moçâmedes
O Presidente Carmona à chegada à baía de Moçâmedes, em 1938



Por ela passaram expedicionários, passaram exploradores em missão, passou um Principe real, passaram Presidentes da República, Governadores Gerais, Ministros, políticos, gente de negócios, gente da Igreja (missionários, padres, bispos, cardeais), militares, etc. etc. Gente que naquelas paragens longínquas contribuiu activamente para o desenrolar da História de Portugal e da História de Angola, e do mundo.

E até a imagem de Nossa Senhora de Fátima por ali passou, quando vinda Cova da Iria em peregrinação por terras de África, em 1948, esteve em Moçâmedes e na baía, onde teve lugar a cerimónia da "benção do mar" que reuniu grande número de embarcações, e até já algumas traineiras que tinham começado a surgir.

 




Esta ponte serviu também de mirante nas horas de lazer, a partir da qual as gentes de Moçâmedes podiam apreciar eventos vários, desenrolados nas águas calmas da baía, no decurso dos tempos, tais como regatas de barcos à vela, corridas de natação, etc etc. E mais recentemente, regatas de sharps e de snyps da Mocidade Portuguesa. Ou até mesmo de simples miradouro para curiosos que desse modo procuravam matar o tempo, olhando o movimento dos banhistas na Praia das Miragens...

E se de início o fundeadouro permitia aos barcos de um determinado porte acostar, com os posteriores assoreamentos que obrigaram ao aumento da extensão da ponte, passaram todos a ficar ao largo, fundeados a meio da baía, sendo a carga e os passageiros que para a ponte convergiam, no vai vem do para cá e para lá, transportados com a ajuda de guindastes em batelões (a carga), e através de pequenos "gasolinas" (passageiros, visitantes, tripulação). 


Mas também foi nesta ponte que em finais do século XIX e inícios do século XX, desembarcaram militares, armas e munições, que no quadro das Campanhas Militares do Sul de Angola. Iam para as zonas consideradas de fronteira com a missão de dominar as populações nativas insubmissas, bem como assegurar a demarcação da fronteira sul cobiçada por alemães do vizinho Sudoeste Africano.

Resta referir que a ponte de embarque/desembarque de Moçâmedes, inaugurada em 1881, tal como o Caminho de Ferro de  e o primeiro comboio inaugurado em 1905, que vinham sendo durante décadas solicitadas ao Governo pelos colonos, só avançaram, na data em que avançaram, porque imperativos estratégicos e militares assim obrigaram, e não tanto pelos benefícios que trariam às populações carecidas e ao desenvolvimento económico da região.


 
 A entrada no cais do 1º navio

                              A entrada no cais do 1º navio

 A entrega simbólica das chaves da cidade ao Governador Geral



 

 A partir de 1957 os embarques e desembarques passaram a ser efectuados através do cais acostável. Na foto, o cais de Moçâmedes em tempos de inauguração do 1º troço, numa altura em que os trabalhos se encontravam em curso, e as pescarias ainda se mantinham no lado norte da baía.

A inauguração do 1º troço do cais acostável, em 1957, marcou o início da decadência desta ponte, que foi deveras útil para a economia de Moçâmedes e do Interland, e que para nós já faz parte da paisagem, ainda que dela, hoje em dia, apenas reste o esqueleto.

Esta é a simbologia desta ponte que guarda tanta História, mas que parece ninguém querer salvar!

MariaNJardim.







https://princesa-do-namibe.blogspot.pt/2017/02/memorias-com-historia-mocamedes-do.html?m=1


domingo, 29 de outubro de 2017

FAMILIAS ANTIGAS DE MOSSAMEDES / MOCAMEDES (ANGOLA): 1915


1ª e 2ª fotos: os  bisavós paternos Agostinho Ferreira e Catharina Lopes Ferreira

Foto, tirada por volta de 1912, em Moçâmedes, Angola: os avós paternos João Nunes de Almeida e Beatriz Lopes Ferreira com os filhos mais velhos, Joao, Virgilio, Jesuina e Fernando.


Aqui já a avó Beatriz havia falecido. São: o avô João Nunes de Almeida com seis dos seus filhos, sendo os mais velhos o Virgilio e a Laura e os mais novos, o Angelo, o Eduardo (Anibal), o Arnaldo e a Beatriz. Faltam o João, a Jesuina, o Fernando, os mais velhos. Um total de 9 filhos.  Todos  nascidos em Moçâmedes a partir do início do século XX, e segundo legislação portuguesa do tempo do Estado Novo, todos euro-africanos ou «brancos de segunda», distinguindo-se dos próprios pais e de outros portugueses genuínos, os reinóis. Foto tirada na década de 30 do século XX.

João Nunes de Almeida era natural de Olhão, filho de Fernando dos Sanctos Almeida e de Maria dos Prazeres. Foto tirada por volta de 1924. Emigrou em 1887 e  faleceu em Moçâmedes em 1935, de cancro nos orgãos genitais.

Os quadro irmãos: Eduardo (Aníbal), Virgilio, Arnaldo e Ângelo com a sobrinha Henriqueta Almeida Barbosa. Pressupõe ter sido tirada por ocasião do falecimento da irmã dos quatro a Laura, que era casada com Manuel Barbosa

Todos de uma geração nascida em Moçâmedes a partir do início do século XX, e portanto, segundo legislação portuguesa do tempo de Salazar, todos euro-africanos, ou «brancos de segunda», distinguindo-se dos próprios pais e de outros portugueses genuinos, ou renóis. Foto tirada na década de 30 do século XX.
 A bisavó Catarina com netas e bisnetas, de uma 2ª geração nascida em Moçâmedes. Da esq. para a dt: Maria Etelvina Ferreira (filha de Álvaro da Cruz Ferreira e de Idalinda Lopes Ferreira), Maria do Carmo Bauleth de Almeida (filha mais velha de Alice Marta Bauleth de Almeida e de Armindo Bruno de Almeida) e Maria Lizette Ferreira, irmã de Etelvina. Foto tirada na década de 40, do século XX.



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Os bisavós paternos, Catharina e Agostinho, viviam em Lisboa, na Freguesia de Santa Catarina, numa rua paralela àquela onde a partir de 1892 passou a circular o elevador da Bica de Duarte Belo.

Na década de 1890, o bisavô Agostinho resolveu meter-se a caminho de Angola, levando consigo para Moçâmedes, o filho mais velho de nome Agostinho. Ia estabelecer-se em Porto Alexandre, talvez entusiasmado  pelas campanhas que na altura se faziam na Metrópole,  incentivando à emigração. Desconheço se viajou talvez num desses frágeis veleiros que levavam mais de um mês a lá chegar, ou se em algum paquete da Marinha Mercante,

Fazendo em resumo em traços breves da situação do Portugal na época, sabe-se que o ambiente sócio-político no último quartel do século XIX achava-se bastante agitado, com o republicanismo a ganhar força e protagonismo contra a Monarquia e o Rei, que era acusado de todos os males que levaram à decadência da sociedade portuguesa, desde a independência do Brasil. Não muito tempo atrás, tinha acontecido a Conferência de Berlim (1884-5), mais recentemente  o Ultimatum  Inglês (1992), intimamente ligados à colonização. No quadro daquela Conferência que levou à partilha de pelas potências estrangeiras, a nova estratégia para o continente africano passou a privilegiar a ocupação efectiva, através da exploração e colonização em detrimento dos simples direitos históricos, de que Portugal se achava detentor desde as Descobertas em 1482. Na verdade até 1884, a  presença portuguesa nas colónias era praticamente limitada à  ocupação administrativa de áreas estratégicas ao longo da costa e de pouca profundidade para o interior,  apenas dominadas por feitorias. A Conferência de Berlim deixara claro que apenas o direito histórico não garantia a permanência portuguesa das colónias e Portugal ou teria que proceder a uma ocupação de facto com famílias enviadas da Metrópole ou teria que as ceder a outra potência. Com a nova estratégia e a crescente presença inglesa, francesa e alemã  naquele continente que ameaçava a tradicional hegemonia portuguesa nas zonas costeiras de Angola e de Moçambique, Portugal teve que tomar uma posição. Foi por essa altura que  face ao crescente interesse das potências europeias por  África nesse final do século XIX, foi dado início às  campanhas de exploração destinadas a conhecer a zona que separava as colónias entre Angola e Mocambique, e em 1884-5, enquanto decorria aquela Conferência, a colonização das terras altas da Moçâmedes, a Huila.  Em 1891 o  Ultimatum inglês caiu como uma bomba no coração dos portugueses, ferindo de morte o orgulho nacional, e levantando uma onda de descontentamento aproveitada pelos republicanos para o abalar os alicerces da Monarquia, e que levou mais tarde, em 1910,  à implantação da República. A Inglaterra, uma das maiores maiores potências industriais e financeiras europeias, ávida de matérias-primas e de mercados consumidores,  reivindicava a posse dos territórios coloniais africanos situados entre Angola e Moçambique, consubstanciado no «Mapa Cor-de-Rosa».  Face à impotência  do governo português, enquanto na Metrópole a propaganda republicana contra a monarquia punha em polvorosa a população descontente, incentivava-se à emigração para as colónias de África.  Foi nesse ambiente de patriotismo exacerbado e apelo  à fixação de portugueses nas colónias que os  bisavós paternos resolveram partir para Africa. 

Aguardava-os a vila de Moçâmedes que havia sido fundada em  04 de Agosto de 1849 por colonos idos de Pernambuco (Brasil), fugindo ao clima de anti-lusitanismo gerado pela revolução praeeira. Ao contrário de Luanda e de Benguela, Moçâmedes tinha a seu favor a fama de possuir um clima que era comparado ao da Metrópole, onde até existia um Hospício, e para onde ia gente de toda a Angola se restabelecer. Começava-se a quebrar o mito da Angola como terra de febres, onde grassavam doenças mortais, verdadeiro cemitério para europeus, lugar de desterro e punição para onde iam degredados, pisioneiros de delito comum, prostitutas, para além de deportados como era costume na para se desenvencilharem de opositores politicos.

Como referido atrás, os primeiros a partir foram o bisavô Agostinho Ferreira na companhia do primogénito Agostinho. Em Portugal ficou a bisavó Catarina com as suas 5 filhas, a Júlia e a Maria do Carmo, e as trigémeas Beatriz (a minha avó), a Baptista e a  Lucinda, todas à espera de boas notícias para poderem avançar.

Numa primeira fase, o meu avô e o primogénito ficaram em Porto Alexandre, onde naturalmente se dedicaram às lides da pesca e ao mar. O mar de Moçâmedes famoso pela riqueza piscícola foi o grande atractivo, a promessa de uma vida melhor. Para mais, desde 1861 levas sucessivas de algarvios, maioritariamente olhanenses, tinham começado a fixar-se em Moçâmedes, encontrando-se a viver espalhados pelas praias do Distrito:  Moçâmedes, Porto Alexandre, Baia dos Tigres, Baba, Baía das Pipas, etc etc.  Viajavam por sua conta própria em caiques, palhabotes e outros barcos à vela,  homens,  mulheres, crianças e até bébés, pelo que encontraram ali familiares e amigos, devidamente aclimatados.

Algum tempo depois, a bisavó Catarina  foi ao seu encontro, levando consigo as suas 5 filhas: a Júlia; as gémeas Beatriz (minha avó), Baptista e Lucinda e a Maria do Carmo, e estabelecem-se definitivamente em Moçâmedes, primeiro em Porto Alexandre, onde nasceram mais dois filhos varões, Álvaro e o Eduardo. O Eduardo acabou por falecer ainda novinho, numa terra como Porto Alexandre, onde em termos de assistência nada deixava a desejar.  Estava-se num tempo em que só os mais fortes sobreviviam. Era a selecção natural.

Foi em terras de África que os filhos e filhas dos bisavós casaram. A avó Beatriz Lopes Ferreira casou com  o avô João Nunes de Almeida, que para lá emigrou aos 17 anos de idade.

A avó Beatriz era natural da Freguesia de Santa Catarina, Lisboa,  filha dos bisavós Catharina Lopes e de Agostinho Ferreira. O avo João Nunes de Almeida era natural de Olhão, filho de Maria dos Prazeres e de Fernando Sanctos Almeida. (O apelido Nunes foi adoptado do padrinho do avô. Era comum na época).

Quanto à actividade profissional dos filhos dos  bisavos Agostinho e Catharina, as raparigas como era normal na época, casaram e tornavam-se donas de casa, esposas e mães; os rapazes, o mais velho, Agostinho, teria enveredado pela pesca, o mais novo, Álvaro, já nascido em Angola foi funcionário dos Caminho de Ferro de Moçâmedes. Já os netos enveredaram  para as mais diversas actividades profissionais, uns ligaram se ao ramo da pesca e indústria de pesca e outras industrias(3), outros, ao comércio, contabilidade e gestão (2), outro a arte torneiro mecânico. As netas seguiram o percurso das mães. Apenas as netas por via do filho mais novo, o Álvaro, trabalharam em empregos fora de casa. Já as bisnetas dos bisavos Agostinho e Catharina, essas enveredaram pelo trabalho remunerador.  Isto apenas a partir década de 1950. A evolução de Moçâmedes foi muito lenta e os empregos não eram muitos, estiveram por muito tempo voltados para o sector masculino da população.

Mas há uma característica relacionada com a gentes de Moçâmedes, fruto do isolamento em que viviam, numa cidade pequena, entalada entre o deserto e o mar, nesses tempo de reduzida mobilidade, era o facto de em quase todas as famílias aconteciam casamentos entre primos e primas. Aconteceu que Arnaldo, o filho da minha avó Beatriz, que  casou com Etelvina, uma prima. filha de Álvaro e de Idalinda Ferreira. Também o pai da Idalinda tinha sido criado pela bisavó Catharina. Por isso se dizia que em Moçâmedes todos eram primos e primas...

Continuando a descrever a saga da minha familia, a  bisavó Catharina Ferreira  era conhecida como uma boa pessoa, cultora da Senhora dos Aflitos, frequentadora da Igreja, ainda em Portugal criou uma criança do sexo feminino cuja mãe era de Setúbal,  filha de uma família bem colocada na vida em Faro, e criou o pai de Idalinda,o pai da senhora que veio mais tarde a casar com o seu filho mais novo, o Álvaro. Seria na casa deste filho adoptivo, pai da Idalinda,  e sob os cuidados de sua mulher, a mãe de Idalinda, que José Martins Gaivota, que nunca foi para Angola, viria a falecer. Ali ele aprendeu a ler e a escrever com uma filha, uma irmã de Idalinda, de nome Etelvina, que viviam no Seixal.

Conheci a bisavó Catarina já muito velhinha. Era tão velhinha e magra que se dizia «ia com o vento». Faleceu nonagenária, tendo vivido com a filha Maria Baptista numa casa perto do antigo Colégio das Madres, nos últimos anos de sua vida.  Durante um tempo esteve em casa de António Bauleth, seu neto (filho de José Bauleth e de Maria do Carmo, uma das filhas da bisavó Catharina ). E um tempo mais longo este a viver com o neto Jaime Nunes, seu neto dilecto, que era casado com a Reis. O Jaime era filho do primeiro casamento da Maria Baptista Lopes Ferreira com Nunes e quando seu pai faleceu, e a avó Beatriz tambem faleceu, casou com o avo Joao Nunes de Almeida e ajudou-o a criar os filhos, seus sobrinhos. A avó Beatriz faleceu de parto. Ela que era uma de 3 gémeas faleceu dos bisavós Catharina e Agostinho, e veio a morrer de parto de gémeas, ao esvair-se em sangue por falta de assistência. Ela vivia junto da pescaria, num local próximo da base da falésia que termina na Ponta do Pau do Sul, conhecido por «Pedras», onde naquele tempo só se chegava lá  de embarcação. Foi assistida por uma parteira, mas quando ia ser acudida por um médico, já era tarde demais. Ela que era uma das trigémias, faleceu  em trabalho de parto de 2 gémeos nados mortos.   

O avô  João Nunes de Almeida tinha montado a sua pescaria ali e havia comprado o terreno do cimo da falésia que ia até à ponta do Pau do Sul, mas nenhum dos filhos sabia. Em 1973, com a abertura politica , veio a Moçâmedes um sul africano que ali pretendia montar uma indústria, dirigiu se ao Cartório Notarial, foi quando tiveram  do facto noticia. Entretanto por forca do 25 de Abril de 1974, foi desfeito o  negócio.


Foram famílias extensas como a minha, que constituiram o núcleo social e económico das cidades de Moçâmedes  e Porto Alexandre (actual Tombwa),  que começaram a erguer-se a partir de meados do século XIX. Simples emigrantes, elas fixaram se na terra, a terra deram filhos, netos, bisnetos,  , enraizaram-se nela, e pelos meios pacificos do trabalho, da poupança e do investimento na terra, ajudaram coma sua presença a criar condições de vida , a desenvolver e a manter a Angola una, de Cabinda ao Cunene.

Os bisavós Agostinho e Catharina (1ª e 2ª fotos) foram pais, avós e bisavós de uma das mais extensas e mais antigas famílias de Moçâmedes. A sua descendência deu origem a uma rede de famílias que cobria uma grande parte dos habitantes da cidade de Moçâmedes, e que numa terceira geração em época de maior mobilidade, acabaria por se espalhara por toda a Angola.

A bisavó Catharina bem como a avó Beatriz, sua filha, cumpriram bem a sua missão, contribuindo para a comunidade com nada menos que 7  e 11 filhos respectivamente. A bisavó Catharina 2 do sexo feminino e 5 do sexo masculino, a avó Beatriz 11 filhos, 3 do sexo feminino, e 8 do sexo masculino.


MariaNJardim




Nota:


1. Naquele tempo em Portugal pagava-se multas quando os nascimentos não eram registados e como resultado muitas datas de nascimento surgem distorcidas da realidade.








domingo, 22 de outubro de 2017

MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: O INCRÍVEL BURACO !

 





Durante anos e anos, Moçâmedes mergulhou num estúpido marasmo. Nada se construía e não se passava do mesmo ! ...

Depois, aos poucos, foi acordando e lá foram surgindo alguns bairros novos e um pouco mais de entusiasmo. Moçâmedes alindava-se e preparava-se para o futuro. Dentre outros melhoramentos surgiu a nova estrada Moçâmedes - Porto Alexandre ! ...Nasceu uma faixa de asfalto ligando as duas cidades, encurtando o percurso e trazendo mais progresso.
A nova estrada fez esquecer as atribulações passadas.

Na antiga, que praticamente não existia, pois cada um escolhia por onde queria ir, no deserto, os velhos camiões que faziam a travessia, gemendo e chorando, todos eles se torciam ameaçando partir o “chassi” e desfazerem-se, principalmente no famoso local chamado “Buraco”, levando todo o género de bens essenciais à vida de Porto Alexandre e principalmente lenha para alimentar as caldeiras das fábricas de farinha e óleo de peixe.

Era dura a vida de camionista !

O incrível Buraco era sempre satirizado por todos os palhaços das companhias de circo que passavam pelas duas cidades : - “Você, minha senhora, tem um pé em Moçâmedes e o outro em Porto Alexandre, o que fica no meio ? - O Buraco ! ...” Piadas de palhaços que nos ficam gravadas na memória !

Ao longo dos primeiros quilómetros da nova estrada estavam plantando, a espaços, uma fileira de árvores que eram religiosamente regadas pelo pessoal da Câmara, na esperança que se adaptassem a viver no deserto ! ...

Pouco antes do sítio onde se situava o famoso Buraco, uma Associação de senhoras religiosas cercou um pequeno, raquítico e resistente arbusto (tal como todas as plantas do deserto), colocando a imagem de uma santa ou santo, que já me não lembro qual, tendo o cuidado de adicionar uma placa, que além de identificar a espécie, informando que se tratava de um exemplar raro, do qual não existia outro muitos quilómetros em redor, pedia que a regassem ! ...

Muitas vezes lá parei para esvasiar uma garrafinha de água ! ...

Roberto Trindade

INDÍGENAS DO LIMITE DE MOSSAMEDES



MONDOMBES: USOS E COSTUMES


"....Eu não quiz regressar à Praia sem vêr uma das cousas talvez mais curiosas das nossas possessões: são diferentes familias de pretos gentios, que se deixaram ficar nas proximidades de Mossamedes quando os portuguezes alli se estabeleceram. Estas familias de pastores, a quem dão o nome de Mimdombes, vivem em cubatas de ramos séccos, do. feitio dos fornos que ha na provincia do Minho, em certos soutos onde se costumam fazer arraiaes, e para as quaes elles entram de rasto.

Cada familia compõe-se de um homem com três ou quatro mulheres, e um avultado numero de filhos. Estas creaturas, apesar de viverem já ha annos perto dos europeus, e estarem todos os dias em contacto com elles, em nada tem modificado os seus hábitos primitivos.

Os homens usam de um traje que se compõe de um panno d'algodão amarrado em volta do corpo, e outro lançado aos hombros como um manto, e trazem sempre um cajado na mão. São d'elegante estatura, e as suas posições e movimentos muito diferentes das dos pretos das outras tribus, que andam com acanhamento, e não perdem uma occasião em que possam estar de cócoras, ou sentados.

As posições dos Mundombes são nobres e altivas.Nas mulheres é que existe toda a originalidade
d'esta raça. Trazem sobre a cabeça um bocado de pelle de boi por curtir, levanta m-lhe as pontas de traz e de diante para cima da cabeça, de forma que aquelle adorno immundo e de cor escura, assemelha-se a um pequeno chapéo como o de Napoleão. Por vestuário apenas dous bocados de pelle, caliidos da cinta para baixo, um por diante, e outro por traz, e por cima d'elles, cobrindo- Ihes as nádegas e o ventre, uma quantidade enorme de missangas brancas, azues, e encarnadas. N'isto consiste todo o seu luxo: — aquella que tem o maior pezo de missanga é a mais feliz. Nas pernas e nos braços trazem grande quantidade de manilhas de ferro, que é o distinctivo das casadas; em volta do corpo uma correia lhes aperta os peitos, os achata, e estende ás vezes do comprimento de palmo e meio, o que dá a estas fêmeas o aspecto mais repugnante, — mas passa entre ellas por uma das maiores bellezas. Não se lavam nunca, e augmentam a immundicia em que vivem, untando o corpo e o cabello com manteiga de vacca fabricada por ellas.

Ás casadas só é permittido divertirem-se, ou por outra, dançarem, porque n'isso se resumem todos os seus divertimentos. As suas danças podem comparar-se aos passos desenfreados, que os antigos nos descrevem quando faliam das famosas Saturnaes.

Assisti ás danças dos Mundombes executadas por diversos grupos: — eram copia fiel umas das outras. Reunem-se sete ou oito mulheres, e formam um circulo, entoando uma cantiga de uma monotonia capaz de fazer morrer de spleen lodos os collaboradores do «Charivari;» acompanham este canto batendo as mãos, e levantando ora um pé, ora o outro. Ao cabo de cinco minutos pouco mais ou menos, e quando começam a electrisar-se, entra uma d'ellas para o centro, e desata a saltar como endemoninhada, fazendo passos e gestos incríveis, que vão crescendo conforme a approvaçao dos assistentes. As mais velhas são as que mais se saracoteiam ; não é difíicil acreditar, que são ellas também as que apresentam contracções de physionomia mais horrendas no delirio a que se entregam.

O que deduzi de tudo quanto presenciei, foi que o estudo principal d'aquellas mulheres é tornarem-se feias e immundas, porque as raparigas são quasi todas limpas, e bastante engraçadas. Estas usam em volta do corpo um panno d'algodão, como as demais pretas da costa, com a diíferença que lhes não passa abaixo dos joelhos; nas pernas trazem manilhas de vime, que é o signal de virgindade. Fácil é de comprehender quanto anhelam trocar estas manilhas pelas de ferro, que além d'outros gosos, lhes facilita o da dança, que ellas tanto apetecem.

Na occasião das danças as raparigas conservam-se em grupos a certa distancia, vendo-as com inveja. Os rapazes chegam-se para os velhos, e sempre n'uma posição académica, contemplam com seriedade todas aquellas desenvolturas.

As creanças andam inteiramente nuas até aos oito ou dez annos, mas já antes d'essa idade as raparigas trazem as manilhas de vime.

O sustento de toda aquella gente compõe-se de milho pisado com uma pedra, cozido em agua e leite : — é uma comida insipida que qualquer desdenharia sem ser gastronomo, mas a que dão grande apreço.

Os Mundombes pagam os tributos em géneros, como nos mais districtos da Província : são eleitores, e não sei se elegi veis. Note-se que nenhum sabe lêr, e que raros são os que faliam ou entendem o portuguez.

As mulheres não tendo nada mais em que se occupar do que em cozinhar a cachupa, sobrava-lhes tempo se prezassem a limpeza para destruir a immensa quantidade de bichos que trazem por entre as missangas; mas preferem dormir, fumar, e dançar. Este viver, que parece mais próprio d'animaes, do que de creaturas humanas, tem taes attractivos para quem foi creado n'aquelles hábitos, que ainda não ha muito, que uma rapariga que estava a servir uma familia da Praia, teve de a acompanhar á Europa, onde se demorou bastante tempo, parecendo ter adoptado os nossos costumes, e regressou a Mossamecles bem vestida e calçada, e de luva branca. Não tardou porém muito tempo que a mucamba não trocasse esses bellos atavios por manilhas de ferro, epor missangas !

Lá a vi entregue ao frenesi da 9ança, trazendo es- carranchado na anca uma creança, a quem fazia soffrer de certo grande martyrio, por causa dos solavancos oc- casionados pelas posturas desordenadas. Era curioso vêr as caretas que o moleque fazia, agarrando-se á mãe com medo de cahir. Esta maneira de trazer as crean-ças, a quem chamam crias, é usada pelas negras em to- da a Província, com a difíerença que as escravas e libertas trazem-as envolvidas n'uma segunda saia, que arregaçam e prendem em volta do corpo, de modo que só a cabeça da creança fica de fora.

Gomo ouvisse fallar muito nas sanzallas, quiz vér o que era: achei uma certa quantidade de cubatas em que vivem os negros, compostas só de ramos; fiquei desapontado, e voltei para a Praia.

Uma das cousas mais desagradáveis que encontrei em Mossamedes, e que sempre me causou repugnância, foi o gosto do fumo muito pronunciado em todas as comidas que vão ao lume; como não ha carvão vegetal, cozinham com lenha verde, e rara é a comida que não fique estragada.

"...Existem aqui três tribus de negros, e vem a ser: a denominada Mini-Quipóla, que habita no valle dos Cavalleiros, e nas proximidades da Boa Esperança; a Giraul, que vive nó rio do mesmo nome; e a Croque, que pertence ao rio do mesmo nome, sendo a mais afastada d'esta villa. Estas tribus terão novecentas pessoas de ambos os sexos; tem o nome de Mondembes os que pertencem ás duas primeiras, e também assim se chamam os indivíduos de mais algumas tribus do interior.

Pouca alteração toem tido os seus costumes do contacto com os brancos; apenas trocaram os vestidos de couros pelos das fazendas que usam em pannos.1 Antes da chegada da colónia plantavam só milho, feijão e abóboras; hoje cultivam também alguma mandioca, cará e batatas, devendo notar-se que, não obstante o terem-lhe sido tirados os melhores terrenos, colhem hoje mais mantimentos, e lêem mais gado do que d'antes; a rasão d'este augmento é obvia em relação aos alimenlos; quanto aos gados, provém o augmento de não terem sido roubados pelas guerras gentílicas, as quaes receiam os brancos aqui estabelecidos.

Um terço dos ditos Mondombcs anda errante com os gados em busca de pastos. As suas habitações são miseráveis, tem toda a similhança com un forno, c são por fora barradas cora excremento do gado. Como iodos os indígenas jle África a polygamia é usada entre elles, porém o perverso costume de escravisarem seus filhos lhes é desconhecido. O seu governo pouco differe do de todos os negros; têem um soba, que é o chefe, mas que decide as questões ouvindo os seus macotas (conselheiros).

É costume dar-se o nome de pannos a bocados de fazenda que os negros cingem ao corpo.

Esta gente lem idéa de um Ente Supremo, a que chama IIuco; mas pouca adoração lhe presta; o seu idolo são os gados, que cada celebra com cantigas e libações; não os vende, aproveita-se do leite que produzem; e muito os poupa por não malar. Acredita n'uma outra vida depois da morte, e que as almas lhe vem causar este ou aquelle damno.

Enfim esta mesma gente vive em harmonia com os brancos, c lhes presta alguns serviços já como carregadores, já como apanhadores de urzella, ele.

(...)

Não é possível por ora avaliar n'este paiz a longevidade da raça branca, porque só ha poucos annos esta o povoa. Este conhecimento não se pôde colher senão entre indivíduos creados e expostos em todos os períodos da vida á influencia do clima cm que nasceram. Apenas ha para notar que os velhos aqui existentes vivem em geral bem dispostos e gosam de boa saúde. Entretanto vé-se que entre os negros indígenas se apresentam alguns velhos centenários.


Estes indígenas são todos robustos, bem constituídos e de poucas doenças padecem; são mais sujeitos a constipações, pela circumstancia de andarem quasi nus, e de terem o habito de se aquecerem demasiadamente ao fogo.


Convém aqui fazer uma reflexão sobre a causa provável, que concorre para a sua robustez e boa constituição. Os povos civilisados podendo dispor de um grande numero de meios em favor da sua saúde, amparam a vida a um grande numero de indivíduos de fraca constituição, a qual é transmittida de geração em geração, bem como as moléstias hereditárias tão frequentes entre estes mesmos. Como os ditos indígenas se acham desfavorecidos dos recursos necessários para modificarem a acção dos excitantes naturaes, segue-se que elles não podem crear e conservar os indivíduos, que não tenham a robustez bastante para reagir contra os agentes que lhes são damninhos.


Transcrito do livro "45 Dias em Angola", de autor desconhecido, 1862