Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 21 de dezembro de 2019

O Observatório Metereológico «GOMES DE SOUZA», de Moçâmedes


  
O Observatório Metereológico «GOMES DE SOUZA», de Moçâmedes. Junto da janela do observatório podemos ler: "1903".
Enquadramento do Observatório Metereológico «GOMES DE SOUZA», de Moçâmedes, junto à praia e muito perto da Avenida da República. Colecção editada por ocasião da subida da "vila de Mossâmedes" a real-cidade, em  1907, com  a presença do Principe Real D. Luis Filipe, filho de D. Carlos e de D. Amélia,  o malogrado Príncipe que pouco após o regresso a Portugal viria a falecer, juntamente com seu pai, vítima do Regicídio.


O Observatório Metereológico de Mossâmedes, «GOMES DE SOUZA», foi assim denominado em homenagem aos trabalhos do ilustrado Director do Observatório de Luanda. A sua construção  ficou a dever-se a uma proposta dirigida ao Governo Geral de Angola pelo DR. JOSÉ PEREIRA DO NASCIMENTO, explorador naturalista que, para levar avante o projecto da sua construção, teve que recorrer a uma subscrição pública, na qual participaram alguns nomes sonantes de residentes na então vila,   como Serafim Simões Freire de Figueiredo, que foi presidente de uma anterior vereação da Câmara Municicipal, o Visconde do Giraul, Alfredo Duarte d'Almeida, Alfredo de Oliveira Luso, Hemry Guilmin, Augusto dos Reis Figueiredo, Filipe Castanheda, Torres & Irmão, Morgado & Morgado e António César Corrêa Mendes. As primeiras observações foram feitas no dia 1 de Janeiro de 1904 pelo ilustre naturalista, apenas com os poucos aparelhos de que dispunha.

A lembrança que tenho deste edifício é do início dos anos 1950. Ficava situado a poente do local onde foi construido o edifício dos Correios (CTT), e próximo do sítio onde nos anos 1960 foi construida uma gasolineira. Era um belo edifício em forma de Torre com alguns traços que nos fazem lembrar a Torre de Belém, salvaguardando é claro as devidas proporções. E por sinal até se encontrava bem enquadrado, como o postal testemunha.

Quanto  aos motivos que levaram à sua demolição, sabe-se que no decurso da visita à cidade do Ministro das Colónias, Dr. Armindo Monteiro, em 1932, quando Salazar era Ministro das Finanças,  a Câmara Municipal apresentou uma exposição em que chamava a atenção para questões tidas como da maior importância, e solicitava ao Governo, entre outras, autorização para reservar para «Praia de Banhos» a zona marítima,  que ia desde o Observatório Metereológico até à Fortaleza de São Fernando, fazendo-se desaparecer dali todas as construções.

"Que seja concedida ao Municipio a faixa maritima, desde o Observatório Metereológico até à Fortaleza, para a Câmara poder livremente embelezar essa faixa e promover uma praia de banhos dos recursos necessários para a segurança e comodidade dos banhistas."  (1)

O objectivo era, feita a concessão, arborizar tôda essa area, a fim de "tirar à cidade, o aspecto desolador que oferece vista do mar, e trazer-lhe uma maior concorrência de turistas na época balnear, notando-se já que êste melhoramento está despertando bastante interesse no Planalto da Huila, sendo natural que o mesmo venha a contecer ao norte, onde o clima não favorece iniciativas desta natureza."

(1) Boletim Geral das Colónias . VIII - 088, [Número especial dedicado à visita do Sr. Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola]

 Na realidade o que se concedia nesta época era que se libertasse a zona da praia «desde o Observatório Metereológico até à Fortaleza São Fernando», e não que o Observatório ou a Fortaleza fossem demolidos.

Sabe-se que muito tempo decorreu entre a referida exposição (1932) e o início das obras na zona. Obviamente, poupou-se a Fortaleza, mas a verdade é que estupidamente o Observatório Meteorológico acabou demolido. (ver AQUI)

Como foi possível tal ter acontecido? Grande distanciamento (cerca de 20 anos) entre a data da solicitação ao Ministro (1932) da autorização para o desimpedimento da área, e a data da concretização do mesmo?

Porque demoliram o Obervatório, um monumento histórico do início do século, mandado erguer  graças ao esforço e diligência do Dr José Pereira do Nascimento, explorador naturalista,  através de subscrição pública entre os moradores da Vila, com o apoio da própria Câmara, e dele próprio, que em grande parte concorreu para  a verba consignada a despesas,  com seus trabalhos de exploração, e mesmo com os seus vencimentos. 

Eis um documento que nos dá algumas pistas, um oficio enviado pela Câmara Municipal de Moçâmedes, em 08.04.1960, a uma munícipe que solicitara que lhe fosse cedido um espaço no interior do mesmo Observatório para um pequenino museu, ao qual o então Presidente, que era também Capitão do Porto na altura, respondeu nos seguintes termos, sobre a impossibilidade dessa cedência:

"Em resposta à carta de V. Excia, datada de 08 do mês corrente, cuja recepção acuso e agradeço, imformo que o pequenino museu não poderá ser instalado no antigo Observatório por se prever para breve a sua demolição em virtude daquele edifício se encontrar localizado no trajecto da futura avenida que ligará o largo fronteiro à Estação do Caminho de Ferro ao porto, prevista no Plano de Urbanização da cidade."







Construido com o apoio e auxílio do Governo Distrital, e da Câmara Municipal, e por subscrição pública entre os moradores da vila,  sob o apoio da Câmara, com a verba que o Governo consignou para as despesas dos trabalhos de exploração e os vencimentos de explorador naturalista da província
J. PEREIRA DO NASCIMENTO, Médico da Armada Real, a posse do edifício foi tomada em cerimónia que se realizou no dia 13 de Janeiro de 1904.




"Governo do Distrito de Mossâmedes - Exploração Científica da Província - Nº. 2


Illmo e Exmo. Senhor

Para conhecimento de S. Exa. o Sr. Governador do Distrito, e das estações superiores, tenho a honra de comunicar a V. Exa. que está concluído o edifício do “Observatório Meteorológico Gomes de Sousa”, em homenagem aos trabalhos do ilustrado Director do Observatório de Luanda, e que comecei a fazer as observações no dia 1 do corrente mês, com os poucos aparelhos de que disponho.

Por esta ocasião devo recordar que, tendo vindo a Mossâmedes retemperar a minha saúde, bastante deteriorada por três anos e meio de viagens de exploração, pelo interior dos Distritos de Luanda e Lunda, propus ao Governo Geral construir, por subscrição pública, um Observatório na Vila de Mossâmedes, onde há mais de 60 ano se fixou e radicou o elemento europeu que se tem progressivamente propagado até à quarta geração, mercê das suas boas condições climatéricas, criando um importante núcleo de irradiação da raça portuguesa em África.

Com o apoio e auxílio do Governo Distrital, e da Câmara Municipal, que patrioticamente perfilharam a minha ideia, abri uma subscrição entre os moradores desta Vila, que me forneceu os elementos necessários para iniciar a obra no fim do ano próximo passado. Para esta construção concorri em grande parte com a verba que o Governo consignou para as despesas dos meus trabalhos de exploração e com os meus vencimentos de explorador naturalista da província.

Dou por bem empregado o sacrifício que fiz, pela satisfação de ter contribuído para dotar com um estabelecimento científico esta bela Vila, a que me prendem a dedicação, estima e gratidão dos seus moradores pelos meus trabalhos de propaganda a favor do seu progresso material e moral.

Construindo à custa de uma subscrição pública sob o apoio da Câmara, era de justiça que o edifício pertencesse ao município. Assim o entendi, convidando a Câmara Municipal, como representante dos moradores, a tomar posse do edifício, cerimónia que se realizou no dia 13 do corrente mês.

Para seu regular funcionamento, carece este estabelecimento de um observador permanente, que pode ser um dos sargentos que tem adquirido prática de observação meteorológica no Observatório de Luanda, bem como carece de uma colecção de aparelhos, sendo de toda a vantagem que a sua direcção técnica fique subordinada ao Observatório de Luanda.

Para terminar cumpro o grato dever de citar os nomes de alguns beneméritos cidadãos que mais contribuíram para este melhoramento, que veio colocar Mossâmedes à altura de um centro de população civilizada, a par das melhores colónias estrangeiras. São os Exmos. Senhores SERAFIM SIMÕES FREIRE DE FIGUEIREDO, presidente da vereação transacta; VISCONDE DO GIRAUL, ALFREDO DUARTE DE ALMEIDA, ALFREDO DE OLIVEIRA LUSO, pela Companhia Comercial de Angola; HENRY GUILMIN, pela Companhia de Mossâmedes; AUGUSTO DOS REIS FIGUEIREDO; FILIPE CASTANHETA, TORRES & IRMÃO; MORGADO & MORGADO; ANTÓNIO CÉSAR CORRÊA MENDES.

Deus Guarde a V. Exa.

Illmo e Exmo. Senhor Secretário do Governo de Mossâmedes

Mossâmedes, 20 de Janeiro de 1904

O Naturalista-Explorador
(A) J. PEREIRA DO NASCIMENTO,
Médico da Armada Real


"Governo do Distrito de Mossâmedes - Exploração Científica da Província - Nº. 2

Illmo e Exmo. Senhor


Para conhecimento de S.Exa o Sr. Governador do Distrito, tenho a honra de comunicar a V.Exa que tendo vindo a este Distrito em missão de estudo para construir um observatório meteorológico com a aprovação do Governo Geral e para proceder a pesquisas mineralógicas a fim de completar os estudos das minas e da carta mineira deste Distrito, trabalho por mim iniciado em 1894 e de que dei conta ao Governo da Metrópole em um relatório que foi publicado sob o título “Exploração Geográfica e Mineralógica no Distrito de Mossâmedes”, fui surpreendido com a notícia da minha exoneração do cargo de naturalista na ocasião em que, já desembaraçado da construção do observatório, me dedicava à preparação e catalogação das colheitas geológicas e mineralógicas reunidas durante os dois últimos anos de exploração à zona central do Distrito de Luanda, Lunda e Mossâmedes, à elaboração do relatório e carta mineira deste Distrito e da carta geral dos terrenos por mim percorridos e estudados durante cinco anos de estudo nesta Província e à publicação de um dicionário de línguas africanas desta costa.

Para evitar que fiquem perdidos para a ciência a maior parte destes trabalhos, venho rogar a S. Exa. o Sr. Governador do Distrito se digne solicitar de S. Exa. o Governador Geral a minha permanência neste Distrito, por dois a três meses, tempo que julgo suficiente para a conclusão dos referidos trabalhos.


Deus Guarde a V. Exa.
Mossâmedes, 15 de Janeiro de 1904
Illmo e Exmo. Senhor Secretário do Governo do Distrito de Mossâmedes
O Explorador-Naturalista,
(A) JOSÉ PEREIRA DO NASCIMENTO,
Médico Naval de 1ª. Classe


ESTÁ CONFORME:- Secretaria do Governo de Mossâmedes, 16 de Janeiro de 1904 - O Secretário, (A) Francisco da Silva Ferreira.
Fevereiro de 1904 - O Secretário Geral Interino, (a) Ilegível




Pesquisa e texto de MariaNjardim


(1) Boletim Geral das Colónias . VIII - 088, [Número especial dedicado à visita do Sr. Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola]
PORTUGAL. Agência Geral das Colónias, Vol. VIII - 88, 1932, 708 pags.
 http://memoria-africa.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/BGC/BGC-N088&p=480

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Mossamedes in "Archivo Pittoresco". Os primórdios da Colonização de Moçâmedes, a actual cidade do Namibe: 1839 a 1850











A. PEREIRA DA CUNHA.


MOSSAMEDES 


A importante villa de Mossamedes, um dos mais recentes e interessantes estabelecimentos coloniaes portuguezes, está assentada ao sul de uma extensa praia arenosa, no litoral da ampla bahia ou Angra do Negro, como vem notada nas antigas cartas dos nossos navegadores, ou Little fish bay (Pequena bahia dos peixes) como a denominam os inglezes nos seus roteiros, em 15 graos e 12 minutos de latitude sul, e 21 graos e 11 minutos de longitude, na costa occidental da Africa, distando de Benguella 177 milhas maritimas, proximamente 354 kilometros, e 390 milhas ou 780 kilometros de S. Paulo da Assumpção de Loanda. capital de todas as nossas possessões na mesma costa

Já no seculo xvn a Angra do Negro era mui visitada de navios portuguezes, e ainda mais de corsarios estrangeiros: uns e outros, porém, somente a procuravam, ou para refrescar e fazer aguada, ou por ser ponto azado ás especulações de escravatura.

Exploração regular, ou sequer exame, ainda mesmo perfunctorio, do local e suas condições geologicas e hygienicas não se tinha feito, até que em agosto dè 1785, por ordem do capitão general barão de Mossamedes, alli se dirigiu para tal fim a fragata Loanda, a bordo da qual ia o tenente coronel Luiz Candido Cordeiro Pinheiro Furtado, a quem se commettêra a direcção dos respectivos trabalhos; em harmonia com a expedição naval marchara por terra o sargento-mór Gregorio José Mendes à frente de cerca de 1:000 negros molundos.

O modo como Furtado se desempenhou da melindrosa commissão que lhe fora encarregada, consta de documentos authenticos existentes no archivo da secretaria da marinha e ultramar. Mas, em despeito das informações mui favoraveis dadas por sujeito de tanta capacidade e competencia, apesar do empenho com que sollicitára a erecção de um presidio em sitio que já então se lhe afigurára como tão adequado para crear uma forte colonia europêa, as suas propostas foram deixadas de parte, ou por ignorancia e má fé, ou pelas vicissitudes do tempo e instabilidade da administração ultramarina.

Decorreram muitos annos, e quando porventura já se haveriam esquecido os projectos e trabalhos de Luiz Candido, segunda exploração a Mossamedes 

Ensaios sobre a estatistica das possessões ultramarinas, por J. J. Lopes de Lima, liv. tn, 1840, etc.
foi ordenada em 1839, pelo prudente governador. o vice-almirante Antonio Manoel de Noronha, e d'esta vez foi commettida a empreza ao estudioso capitão tenente Pedro Alexandrino da Cunha, então commandante da corveta nacional Isabel Maria, e depois governador geral da provincia de Angola, de saudosa e mui honrada memoria.

Ainda nos não parece bem averiguado a quem pertence ou de quem partiu a ideia incial d'esta exploração! Antonio Joaquim Guimarães Junior gerente da primeira feitoria que alli existiu, pertencente ao negociante Torres, de Benguella, a pretende arrogar a si em uma memoria que temos presente. 

Seja porém como for, o certo é que só depois de publicados os relatorios d'aquelle distincto official de marinha, de João Francisco Garcia, oficial do exercito provincial, que, nomeado regente do futuro presidio, auxiliara por terra os trabalhos da exploração, preparando ao mesmo tempo os indigenas a receberem com agrado os novos hospedes. e a memoria a que já aludimos, é que o governo começou de entender seriamente no plano de fundar uma povoação no local que unanimes informações apontavam como tão próprio.

Entretanto, por falta de meios do governo da metropole, e má vontade do da provincia, insignificantes foram os progressos de Mossamedes, e quasi que a colonia se reduziu por alguns annos a pequenas feitorias, alguns soldados e poucos degradados.

A dura perseguição movida aos portuguezes residentes no imperio do Brasil, mormente em Pernambuco, veiu inesperadamente favorecer a idéa da colonisação europea, encaminhando para Mossamedes uma porção avultada de concidadãos nossos.

Em 4 de agosto de 1849 aportou de feito á bahia de Mossamedes, no brigue de guerra Douro, e na barca Tentativa Feliz, um consideravel numero de colonos: em 13 de outubro de 1850 outra expedição similhante, composta do dito brigue Douro e barca Bracharense, saiu de Pernambuco com egual destino, indo surgir, passadas poucas semanas. na nossa bahia, onde largou outra porção de compatriotas, todos iuflammados no desejo de encontrar alli a fortuna, e a segurança de que haviam desesperado em terra estranha.

MOSSAMEDES 

Conclusão. Vid. pag. 160)

As despezas (festa segunda expedição foram satisfeitas pelo producto de uma subscripção promovida entre os portuguezes que continuaram residindo no Brasil; bem como ás da primeira se havia occorrido com os meios enviados de Lisboa, por auctorisação do corpo legislativo.

Infelizmente, porém, tantos esforços e sacrificios foram em grande parte perdidos. já pela incuria de quem cumpria velar pela execução das instruccões ua corte, ja pela incapacidade de muitos dos primeiros colonos, já pelo mal entendido ciume com que algumas auctoridades e pessoas conspicuas continuavam a considerar as coisas da nova colonia.

A todas estas circunstancias, já de si bem ponderosas, veiu juntar-se uma esterilidade espantosa, por falta de chuvas, e d'ahi, como natural consequencia, a desgraça de alguns colonos, o desalento de outros, e ganharem terreno os qne oppunham ao desenvolvimento de Mossamedes as especiosas allegações de que a fundação de tal presidio prejudicaria as praças de Loanda e Bengnella, de que a soa salubridade era mui contestavel, e de que os terrenos proximos eram totalmente incapazes de qualquer especie de cultura.

Pessoas interessadas na perda de Mossamedes escreviam ao mesmo tempo para o continente e para o Brasil: « O clima é pessimo, é um logar de degradados, onde somos tratados como taes; é peior que a ilha de Fernão de Noronha; não nos deixam d'aqui sair sem completar de  annos! 1 »

A constancia, porém, de alguns colonos, entre os quaes devem mencionar-se com o merecido lonvor os srs. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, e José Leite de Alhuquerque, e a tenacidade do governo em sustentar o seu empenho, venceram todos os obstaculos, as circunstancias foram pouco e pouco melhorando, a população crescendo, o commercio e a lavoura progredindo, a ponto tal que, sob representação dos habitantes, a humilde povoação de Mossamedes foi, por decreto de 26 de março de 1855, elevada á categoria de villa.

Todos estes e outros factos que importa conhecer, são excellentemente compendiados no seguinte trecho do relatorio do sr. visconde de Sá da Bandeira, apresentado á camara dos deputados èm março de 185».

« Tendo-vos fallado, diz o intrepido general e illustrado ministro, de alguns dos concelhos d'esta provincia (Angola)... tratarei agora do estado em que se acha a nova villa de Mossamedes... As vantagens que offcrece o seu porto, a salubridade do seu clima, e a dos sertões que se avisinham foram a verdadeira causa d'alli se fundar uma colonia... As contrariedades que ao principio experimentou, occasionaram a perda de dois annos continuos para os seus respectivos trabalhos, e para mencionar algumas d'ellas, direi que foram a falta de inundações do rio Béro, cujas varzeas os colonos cultivavam, a ignorancia dos tempos de semear, e a escassez das respectivas sementes. Felizmente a persistencia de alguns colonos tudo venceu, porque, passado aquelle tempo, os progressos da agricultura de Mossamedes tem ido em successivo augmento, particularmente depois que a pratica tem feito conhecer que as especulações commerciaes nem sempre são tão proficuas quanto ás do amanho das terras; o resultado d'estas ideas foi o estabelecerem-se já tres engenhos de assucar, um na villa de Mossamedes, outro no Bumbo, devendo assentar-se o terceiro no sitio da Bella Vista. Além da cultura da canna, os colonos de Mossamedes tambem se tem entregado á do algodão, cujas plantações se tem egualmente augmentado, sendo para notar, que a colheita dos outros generos necessarios ao seu sustento, não só já dá para o seu consumo, mas até mesmo para exportação, em vista das remessas que d'alli se tem ja feito para Loanda, e do que já se vende aos navios baleriros americanos, que em numero consideravel frequentam o seu porto para receberem refrescos de vegetaes e gado, do qual tambem ultimamente se tem feito alguma exportação para a ilha de Santa Helena. Com tudo isto ha coincidido o desenvolvimento do fabrico do azeite de peixe, pelas muitas feitorias de pesca que la se tem estabelecido, o acrescimo das construcções urbanas, e o incessante pedido de novos terrenos.»

Annaes do Municipio de Mossamedes. 

Temos dito da origem e progressos da colónia; e antes de acrescentar algumas informações recentes. daremos uma breve descripção do porto e da novissisima villa e seus suburbios.

A bahia que fôrma o porto de Mossamedes olha ao oeste, e tem a margem do sul mais extensa que a do norte e mais alta, sendo formada de barreiras de grés, coroadas por uma camada de pedra mui rija e propria para construcções civis. Do extremo oriental destas barreiras pega um extenso areal que limita a bahia até á ponta do norte. Destr lado desembocca um rio, a que o gentio dá o nome de Béro, e que o tenente coronel Luiz Candido denominou das Mortes, pelo desastre alli succedido ao tenente Sepulveda e ao cirurgião da fragata Loanda. que, por sua imprudencia, foram assassinados pelos negros. Mui perto divide-se o Béro em dois braços, um dos quaes se dirige à bahia, e o ontro à costa, a um sitio chamado Loquengo. Ha porém quem assevere que não é aquelle um braço do Béro, senão outro rio que alli vae desemboccar com o nome de Equinina.

Apesar de um baixo, proximo da costa do sul da bahia, e que corre de nor-nordeste até meia distancia da ponta do norte, o porto de Mossamedes é seguro em todas as quadras do anno, e n'ele podem surgir muitos navios de todos os lotes; o desembarque, ainda na occasião das maiores calemas, faz-se ao sul da praia com extrema commodidade, ou ao norte em um sitio encostado á montanha, a que chamam o Saco do Giraúl; a aguada é excellente, e a pequena distancia da praia; innumeravel a quantidade de peixe.

As aguas do rio Béro espraiam-se em um vasto e formoso valle, em que existem extensas varzeas, proprias para toda a especie de lavra.

Os terrenos do dito valle são de alluvião; a tem dos lados é alta e alcantilada; a que fica ao norte, assaz montanhosa, estende-se até ao rio Giraúl (Equinina?). Em differentes pontos apresentam-se algumas elevações notaveis, terminando em nm plano horisontal, Q que lhes fez dar o nome de mesas de Mossamedes. 

O litoral d'este logar é formado de terrenos stratificados, conservando horisontalmente e em ordem as camadas de sua formação. As mesas offerecem egual stratificação aos terrenos inferiores; as camadas que os constituem são compostas de seixos ou basaltos rolados, de materias arenaceas, de argila, de calcareos, em que se encontra grande copia de conchas fosseis, etc.

A duas milhas de distancia, junto á praia, como já dissemos, está edificada a villa de Mossamedes? e n'uma elevação ao sul existe a fortaleza, com a invocação de S. Fernando, o palacio do governo (por concluir), a egreja, e o hospital.

Consta a villa de tres ruas direitas, e de sufficiente largura, chamando-se da Praia, dos Pescadores, o do Alferes; são parallelas á praia, e cruzadas por outras tantas travéssas.

Na povoação e nos sitios cognominados Cavalleiros, Boa Esperança, Casados e Hortas, existiam. em 1857, 150 predios, sendo de pedra e cal 39, de adobe 65, de pau a pique 27, e 19 cubatas de palha.

No mesmo anno contavam-se em Mossamedes 1:675 habitantes; 390 brancos, 58 pardos ou mulatos, 136 pretos livres, 156 pretos libertos, e 935 escravos de ambos os sexos.

O numero de predios e de habitantes é hoje muito maior, podendo calcular-se em 600 os de côr branca.

Dos poucos edificios publicos que alli se encontram, a egreja, uma das melhores da provincia, é indubitavelmente o mais notavel. A fortaleza é solidamente construida. O quartel acanhado, podendo apenas accommodar setenta soldados. Está no mesmo caso o hospital, que, posto seja bem situado, não tem a capacidade sufficiente. Quasi todos os habitantes se occupam na industria da pesca ou na cultura da terra, com muito fervor e curiosidade.

1 fíreve noticia sobre o ctima de Moisamedes, por J. C. P. Lupa o Faro.

Para que a este respeito se forme exacta idéa do estado actual de Mossamedes, juntaremos n'este logar um extracto do relatório inedito de um intelligente oficial de marinha, que a visitou em agosto c 1860, já depois que teve logar a famosa incursão dos munanos, barbaros sertanejos, que tantos damnos e prejuizos causaram aos colonos.

« Quando de 1852 a 1856 estivemos em Africa, servindo na respectiva estação naval, pareceu-nos, nas muitas vezes que visitámos Mossamedes, que nunca de tal ponto se poderiam colher vantagens pela agricultura; pois que julgavamos mui limitado o terreno proprio para ella: todavia sempre pensámos tambem, que de futuro esta mesma pequena porção de terreno produziria o sufficiente para alimentar a povoação da villa, ainda mesmo que esta crescesse. Hoje somos obrigados (com muito prazer) a reformar a nossa opinião, porque Mossamedes produz já o sufficiente para sua sustentação, e de muitos generos, como farinha de mandioca, batatas e feijão, já exporta em grande quantidade, não só para os portos do norte da provincia, como tambem para Santa Helena, cuja praça sustenta aotualmente uma carreira mensal de navegação feita por um patacho e um palhabote que levam sempre muito gado, e 12:000 arrobas de batata annualmente, pouco mais ou menos.


« Tem-se construido muitas e bonitas casas, em consequencia de ter augmentado consideravelmente o numero dos habitantes brancos. As plantações nas duas margens do Béro tem tomado um grande incremento, devido á feracidade do terreno e ao trabalho dos homens. Alli nota-se o que não se vê nas outras povoações da costa: actividade, enthusiasmo pelo trabalho, e vontade firme de fazer prosperar a terra. Alli vêem-se homens brancos de enxada na mão trabalhando ao lado dos pretos, sem que por isso julguem a sua dignidade offendida, e sem

Que o clima os prejudique. Nos Quipolas, ao norte o Béro, estão estabelecidos dois engenhos, que já trabalham e exportam alguma aguardente. Deste lado do rio o terreno parece de melhor qualidade, achando-se alli estabelecidos mais europeus do que do lado do sul. No entretanto, na margem do sul ha extensas plantações de mandioca, trigo, batatas, cará, feijão, hortaliças e outros generos. O guarda marinha de commissão Abreu Vianna é possmdor de um grande tracto de terreno, do qual apenas tem cultivado uma pequena parte, e todavia a fertilidade do terreno é tal, que vive e sua numerosa familia do producto de suas plantações, e pensa, com o lucro que d'ellas obtiver, poder, em um futuro não mui remoto, estabelecer um engenho para a fabricação do assucar e da aguardente. Ha de uma e outra margem do rio outros possuidores de terrenos que do seu producto vivem fartamente. Portanto, se o terreno cultivado, que não é nem a centesima parte do que o pode ser, sustenta a povoação, e exporta, como acima disse, para os outros portos da provincia, e ilhas de Santa Helena, S. Tomé e Principe, e outros pontos, não obstante a povoação ter, desde 1856, crescido muito, segue-se que Mossamedes pôde e ha de fazer a sua felicidade pela agricultura tambem... »

O segundo tenente da armada C. F. de Almeida, immediato do vapor de guerra Maria Anna. 

Mas não é a vantajosa posição geographica de Mossamedes, nem a fertilidade das varzeas do Béro, nem a opulencia dos sertões adjacentes, nem a abundancia aos gados que tornam para nós mais interessante este estabelecimento.

É notoriamente sabido, que a ruindade do clima da Africa tem opposto até agora um obstaculo invencivel á aclimação dos europeus; e sem se conseguir este desideratum, mui demorado será o progresso d'aquella parte do mundo.

« Parece, diz João de Barros, que por nossos peccados, ou por algum juizo de Deus occulto a nós, nas entradas d'esta graude Ethiopia, que nós navegámos, se poz um anjo percuciente com uma espada e fogo de mortaes febres, que nos impede poder penetrar ao interior das fontes d'este horto, de que

Procedem esses rios de oiro que por tantas partes a nossa conquista sáem ao mar.' Uma dolorosa experiencia de seculos tem mostrado a verdade das desconsoladoras palavras do grande historiador da Asia.

Em Mossamedes, comtudo, mudam as coisas de figura; a salubridade d'este ponto da costa de Africa já não admitte sombra de duvida. A temperatura alli não é excessivamente quente; o frio nunca demasiado; as manhãs tem uma Tresquidão agradavel; uma atmosphera pura, e livre de emanações miasmaticas, em que poucas vezes se faz sentir humidade. A raça branca, mesmo exposta a trabalhos rudes, apresenta-se córada e robusta, e a sua prole não desmente a acção benefica do paiz. 2

O problema da aclimação ahi está resolvido. É a opinião dos juizes mais competentes. Um vasto campo se abre pois á actividade e industria de tantos de nossos conterraneos que buscam em regiões estranhas, e tantas vezes innospitas, a fortuna que não poderam encontrar na sua patria. Cumpre ao governo continuar perseverantemente a obra encetada com tão felizes auspicios; e cremos que em poucos annos, Mossamedes, séde de uma florescente colonia europea, apoiada nos ferteis presidios dos sertões do sul, será a cabeça de uma das mais importantes provincias da Africa Occidental, e o emporio de grande e valiosissimo commercio.

Foram estes os sentimentos que nos inspiraram quando démos certo desenvolvimento á presente noticia.

A estampa que apresentámos, é copiada de outra egual, inserta na excellente obra do sr. F. Travassos Valdez, Seis annos de vida na Africa occidental, de que já em outros numeros d'este semanario temos feito especial e honrosa menção.


* Memoria sobre o clima de Mossamedes. 


terça-feira, 22 de outubro de 2019

INSTRUÇÕES RELATIVAS A ARBORIZACÃO DA ZONA LITORAL DE MOÇÂMEDES







Por poder prestar eventual serviço Câmara Municipal de Moçâmedes e comissões municipais do sul, se publica a «Informaçáo» seguinte extraida das Instruções que nesta data se forneceram ao agricultor diplomado João da Costa Terenas Júnior, enviado em missão à mesma cidade de Moçâmedes :
Visto não poder contar-se com chuvas nem com as superficiais, as possibilidades de arborização e revestimento de areias na zona ocupada pela cidade e seus subúrbios, quando se considere o problema na sua largueza completa, acham-se por agora em íntima ligação com as possibilidades e condições das águas subjacentes. Procuram as raízes, por si, as humidades subterrâneas, e em Moçâmedes existe o lençol aquoso donde as cacimbas da cidade se alimentam. 
Portanto, se plantas próprias fossem preparadas em viveiros, acompanhando-as com regas ate ao necessário desenvolvimento. e em seguida se transplantassem para lugares onde o referido lençol subjacente se encontre em profundidade acessível as raízes, parece que haveria probabilidades de exito. Assim, dentro desse mesmo principio, trabalham os árabes do Saara, quando, antes de plantarem os seus palmares, escavam fundo as areias, a fim de que as raízes mais breve alcancem as camadas húmidas inferiores. E eles criam os oásis.


Vê-se pois que convém saber quais são os lugares cuja superfície natural menos afastada se encontra dos substratos aquosos. Não tem de facto esta Repartição elementos para esclarecer o regime das águas infiltradas que constituem esse lençol aquoso de Moçâmedes, qual seja o seu nível, quais as suas correntes, quais as suas variantes em função das cheias
periódicas do Bero, etc., e neste sentido só uma serie metódica de sondagens poderia informar devidamente.
Todavia essa deficiência talvez em parte, e para o caso de que se trata, a possam, até certo ponto, suprir as informações locais, baseadas nas cacimbas que se têm por ali aberto, e noutros eventuais indicadores. Averiguado que seja o possível, nesse ponto de vista, ficam porventura mais
ou menos indicadas as zonas onde as plantações devem encontrar mais facilidades relativas. Talvez suceda todavia que, mesmo nessas zonas melhor favorecidas, a camada seca apresente ainda espessura importante. Deveria recorrer-se então, ou a praticas semelhantes às dos árabes do Saara,
ou ao emprego de galerias captantes (Vide Hidráulica Agricola, Durand-Claye Tomo 1, pag. 305 e seguintes), ou de barragens subterrâneas (idem -Tomo 11, pg. 378 e seguintes), ou oportuna combinação de todos esses sistemas, e ainda de outros. Apesar de o empreendimento nesses termos representar despesas talvez atendíveis, convém todavia prevê-lo e estudá-lo. Acerca desta matéria transcrevem-se, pelo ensinarnento que possam conter, as informações seguintes, relativas a plantações no delta do Nilo. 


Os viveiros (trata-se de casuarinas) situam-se em lugar onde possa haver rega, e têm-se obtido por meio de sementes em pura areia. Depois são as casuarinas plantadas no local definitivo, a distância do canal, da maneira seguinte :
Enterra-se na areia um cilindro de ferro de 14 centirnetros de diâmetro por 60 de comprido, e substitui-se a areia que fica dentro por boa terra. Em seguida tira-se para fora o cilindro, e mete-se então a planta nessa terra, onde as raízes encontram alimento para os primeiros tempos até encontrarem a camada húmida, Nas plantações do Canal de Suez (terrenos siliciosos e em parte arenosos) têm sido aplicadas «casuarinas equisetifolia» «Acacia nilotica», «Cupressus macrocarpa», «Eucalyptus Globulus» e «E. robusta», com irrigaçóes enquanto as raizes náo atingem as camadas húmidas, e no talude e revestimentos, «Tamarix nilotica», «T. gallica», «T. articulata», Alfa e (Atriplex halimus". Na ilha de Chipre, que sofre de secas, e onde portanto se escolhem as plantas que melhor as suportem, têm feito uso do «Atriplex semibacatum» (originário da Austrália, nascendo bem em terreno salgado e fornecendo boa forragem), das gramineas vivazes «Pennisetum longistylum» e «P. rupelianum», da Alfa, do «Quercus oegilops» e das «Prosopis juliflora» e «P. pubescens», as quais (estas duas últimas) dispensam rega ali, em consequência do grande poder de penetraçáo das suas raiz

O sr. Júlio Henriques (Agricultura Colonial, pág. 175) diz do «Eucalyptus terminalis» que forma boas árvores, vegetando bem em terras arenosas, e vive no Norte e Centro da Austrália, onde a temperatura à sombra chega a 32 graus centigrados e a chuva é pouca. 


Welwitsch (no mapa fitogeographico) aconselha a introduçáo da Arvore de Marrocos *Argania sideroxylo«n" para arborizar os terrenos áridos do litoral. O agrónomo Costa Botelho aconselha com fins semelhantes os pinheiros (mansos, silvestres e de Alepo), o zimbro, o cedro de Espanha e a «juniperus phoenicia». Para fixação de dunas e de areias, podem ainda citar-se, entre outras, as seguintes gramineas e plantas forraglneas :« Psamma arenaria», «Emophyla arenaria, «Elymus arenarius», «Agrostide maritima e vulgar», «Festuca tenifolia», «Panicum amarum» e «P. obtusum»,
«Uniola paniculatau», «Oryzopsis cuspidata», «Calamagrostis longifolia», «Andropogon halepensis» e outras, e as Arvores seguintes : «Eucalyptus botryoides», «E. hoemastoma», «Quercus catesbaei» e outras. Um grande número destas sementes, senão todas, vendem-se na casa Vilmorin-Andrieux-Paris, 4, Quai de Ia Megisserie, de onde esta Repartiçáo tem encomendado algumas.


Repartíção do Gabinete do Governo Geral de Angola em Luanda, 3 de Junho de 1908. -Armando Tudella, ajudante de campo.

HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO ANGOLA (DOIS ANOS DE GOVERNO JUNHO 1907- JUNHO 1909) EDIÇÃO COMEMORATIVA DO TERCEIRO CENTENÁRIO DA RESTAURAÇÃO DE ANGOLA, QUE SE PUBLICA PRECEDIDA DE UM ENSAIO SOBRE PAIVA COUCEIRO DO EX.Mo GENERAL NORTON DE MATTOS  

domingo, 20 de outubro de 2019

ESCRAVIDÃO EM ÁFRICA ANTES E DEPOIS DAS ROTAS ATLÂNTICAS


Todos os povos cometerem actos deploráveis no decurso da sua História, e a História dos povos africanos, no antes e no depois dos colonialismos, não está isenta de tal. Todos os povos devem  assumir a sua quota de responsabilidade.


Como se sabe houve escravidão africana feita pelos africanos, nada disso é tabú, quando se fala a sério de escravidão. Está bem documentado. O comércio de escravos existiu em África desde a Antiguidade, porém o número de escravos acentuou-se na Idade Moderna, com o tráfico negreiro europeu.

Por vezes aqueles africanos que assumem a escravidão africana, feita pelos africanos, tendem a avançar com a ideia de que foi uma escravidão diferente, doméstica e não mercantil, deixando subentendido que seria familiar, moderada, quase acolhedora. O escravo não era uma mercadoria, mas um braço a mais na colheita, na pecuária, na mineração e na caça; um guerreiro a mais.
E se um escravo fosse fiel ao seu senhor poderia ocupar um cargo de prestigio local, inclusive possuir escravos seus. Ser escravo de africanos não era uma condição de humilhação e desrespeito, e que mesmo representando uma submissão, defendem tratar-se de uma situação próxima de pessoas livres, que eram tratados como iguais, quando sabemos que a escravidão na África se desenvolveu de várias formas, e que em paralelo à escravidão doméstica existia o comércio de escravos. Algumas sociedades africanas viviam da guerra para a captura de africanos para serem vendidas a outros povos que necessitavam de escravos, primeiro aos árabes do norte de África, depois aos portugueses. Como na África subsaariana existiam várias etnias, vários grupos políticos diferentes (os africanos não eram um único povo), as guerras entre eles eram frequentes, e a escravização dos vencidos uma consequência, e estes podiam ser vendidos segundo a necessidade do vencedor. Esses africanos que praticavam escravatura preferiam as mulheres como escravas, já que elas eram as responsáveis pela agricultura e poderiam gerar novos membros para a comunidade.   No entanto, na sua visão preconceituosa, ganância e crueldade são práticas desumanas do exclusivo dos brancos, quando sabemos que infelizmente não foi assim, nem é assim, e encontramo-las ainda em profusão em todos os continentes, nos dias de hoje.
Quanto ao comércio árabe de escravos este intensificou-se no século VII, quando conquistaram o Magreb e o leste africano. Eram grandes mercadores de escravos, e conseguiam suas mercadorias humanas em diversas regiões: Espanha, Rússia, Oriente Médio, Índia e África. Os escravos comprados nessas regiões eram vendidos principalmente na península Arábica, mas também podiam ser vendidos em regiões mais distantes, como na China. 
Tidiane N'Diaye, antropólogo e economista franco-senegalês, publicou "O Genocídio Ocultado" em 2008, onde considera que o tráfico de escravos árabo-muçulmano e a escravatura realizados durante quase mil anos, ainda não foi reconhecido em toda a dimensão. Como refere , eles foram os únicos a praticar este comércio miserável, deportando quase 10 milhões de africanos, antes da entrada na cena dos europeus. Ou seja, do sétimo ao décimo sexto século, durante quase mil anos. Refere ainda que a penetração árabe no continente negro iniciou a era das devastações permanentes de aldeias e as terríveis guerras santas realizadas pelos convertidos a fim de obter escravos de vizinhos que eram considerados pagãos. Quando isso não era suficiente, invadiram outros alegados "irmãos muçulmanos" e confiscaram os seu bens. Sob este acordo árabe-muçulmano, os povos africanos foram raptados e mantidos reféns permanentemente. Sem ignorar o tráfico transatlântico que se segue durante quatro séculos, Tidiane N'Diaye considera que "os árabes arrasaram a África Subsariana durante treze séculos ininterruptos" e que a "maioria dos milhões de homens por eles deportados desapareceu devido ao tratamento desumano e à castração generalizada".



Quanto tráfico e à escravatura levada a cano pelos portugueses, estes quando chegaram a Ceuta, no início do século XV, iniciaram a captura e escravização dos africanos das redondezas, com a justificativa de que eram prisioneiros de guerra e muçulmanos, considerados inimigos da fé católica europeia. A partir de então, em pleno processo de expansão marítima, avançaram em direcção ao sul, na costa atlântica da África, em busca de riquezas para serem comercializadas e foram descobrindo o comércio de escravos. Num primeiro momento, o comércio de gente não interessou aos portugueses, já que a Europa à época não tinha necessidade de mão de obra escrava, mas quanto mais avançavam na costa africana, mais sentiam a necessidade de se estabelecer em alguns pontos de comércio, para consolidar sua exclusividade na região.
Em 1455 construíram a primeira feitoria no norte de Arguim (actualmente a Mauritânia), e para a manter passaram  capturar escravos africanos e a utilizá-los,  mas rapidamente perceberam que era mais lucrativo entrar nas redes de comércio de escravos já existentes, e começaram a buscar essa mercadoria junto aos povos mais próximos do litoral. Um dos primeiros povos aliados dos portugueses no tráfico de escravos foram os jalofos, na Senegâmbia....Em troca os jalofos conseguiam cavalos dos portugueses (um cavalo era trocado por 15 ou 20 escravos) e armas de fogo, o que aumentava o seu poder de guerra e de conquista de mais escravos.
Com o início da colonização das ilhas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe (na segunda metade do século XV), a necessidade de mão de obra aumentou, e a compra de escravos foi a solução encontrada pela Coroa portuguesa.  Na mesma época, os portugueses chegaram à Costa da Guiné (actualmente desde a Guiné até a Nigéria), onde encontraram povos ricos que já negociavam com os árabes e puderam com eles comercializar ouro, especiarias e escravos. Tamanha era a riqueza da região que os portugueses passaram a chamá-la de Costa do Ouro, Costa da Mina e Costa dos Escravos.

Em 1482, Diogo Cão e as caravelas chegaram ao Reino do Congo e foram feitas alianças com o manicongo ("senhor do Congo") Nzinga Kuvu, ma base de interesses mútuos: os portugueses  pretendiam um  maior acesso às redes de comércio em África, e o manicongo pretendia obter técnicas de guerra e de navegação, incluso converteu-se à religião católica, e passou a chamar-se Dom João. Por 4 séculos o Reino do Congo e do reino vizinho, Andongo, chamado  Angola pelos portugueses foram a maior fonte de escravos do tráfico atlântico português deu-se a partir daí.  Esta situação ocorreu principalmente quando os portugueses conseguiram o direito de negociar mão de obra escrava para a exploração espanhola da América e passaram a precisar da mesma mão de obra para desenvolver a sua colónia americana: o Brasil onde chegaram em 1500. 
O tráfico acabou abolido após séculos em estranho silêncio sobre a permanência da servidão e da escravidão, e foi abolido porque a intelectualidade ocidental, destacando-se os integrantes do Iluminismo anglo-francês, passaram no século XVIII, justamente aquele em que o tráfico negreiro foi mais intenso e lucrativo para os mercadores, a denunciar o horror e a desumanidade da instituição servil.  A consequência directa contra a utilização da mão de obra cativa na vida produtiva das sociedades, foi a crescente indignação moral que levou ao surgimento de sociedades filantrópicas e abolicionistas, tanto em Londres como em Paris, que fizeram intensa agitação em favor da abolição do tráfico e do fim dos grilhões que prendiam seres humanos, criando desde então um cenário favorável para que, especialmente após a Revolução francesa de 1789, a instituição servil se visse condenada para sempre. Filósofos do Iluminismo, como o Abade Gregório ou mesmo Montesquieu, defendiam os negros, enquanto no mundo árabo-muçulmano os intelectuais mais respeitados, como Ibn Khaldun, afirmavam que os negros eram animais. Nenhum intelectual do Magrebe levantou a voz para defender a causa dos negros. 






O século XIX levou ao auge a ebulição em torno da questão da escravidão, que iria culminar na abolição do tráfico, mas foi no século XVIII, quando o tráfico negreiro atingiu os máximos, que explodiu na Europa a indignação moral contra a situação, criando um cenário favorável para que e a  Revolução Francesa tivesse lugar, abrindo espaço para novas realidades, de entre a quais o viver em Democracia. A Inglaterra, uma das nações com maior actuação no comércio de escravos, passa a encabeçar a campanha abolicionista e foi esta potência europeia pioneira da industrialização quem primeiro requereu o fim do tráfico atlântico e em seguida a abolição da escravidão.   

A abolição está, pois, relacionada com o já citado movimento filantrópico e abolicionista, com a  Revolução francesa e com os ideais iluministas de Fraternidade, Igualdade e Liberdade, mas não podemos ignorar a Revolução Industrial que teve ao leme a Inglaterra,  potencia que  em 1884/5 teve um papel cimeiro na Conferência de Berlim (1884-5), a célebre Conferência  que teve como objectivo o estabelecimento de regras para a chamada "Partilha da África" entre as potências europeias industrializadas. A Inglaterra havia descoberto a máquina a vapor que libertava braços de trabalho, e a África potencialmente rica em matérias-primas, proporcionadora de mão de obra barata assalariada, e mercados consumidores, era essencial para o avanço da Revolução Industrial para a sua 2ª fase.
O interesse sempre ao leme das grandes calamidades, mas também das grandes decisões que foram levando ao avanço da humanidade. O que é incontestável, é que foi na Europa, também ela sofrida e a fazer sofrer, que o grande salto positivo para a humanidade aconteceu.  

Como disse o Papa Francisco, em 2014: “A nossa história recente caracteriza-se pela inegável centralidade da promoção da dignidade humana contra as múltiplas violências e discriminações que não faltaram, ao longo dos séculos, nem mesmo na Europa. A percepção da importância dos direitos humanos nasce precisamente como resultado de um longo caminho, feito também de muitos sofrimentos e sacrifícios, que contribuiu para formar a consciência da preciosidade,unicidade e irripetibilidade de cada pessoa humana. 

Esta tomada de consciência cultural tem o seu fundamento não só nos acontecimentos da História, mas sobretudo no pensamento europeu, caracterizado por um rico encontro cujas numerosas e distantes fontes provêm «da Grécia e de Roma, de substratos celtas, germânicos e eslavos, e do cristianismo que os plasmou profundamente», dando origem precisamente ao conceito de«pessoa». 

A ter presente a Revolução Industrial inglesa impulsionada pela descoberta da máquina a vapor, iniciada na segunda metade do século XVIII veio modificar completamente os parâmetros sociais e económicos, ao  deitar por terra os regimes absolutistas.
Olhando do alto, foi a dinâmica do Capitalismo e as necessidades da Industrialização que vieram modificar os parâmetros sociais e económicos.Tal como foi a necessidade de acumulação de capital que deu inicio à instituição servil, Tudo interligado.
A História dos povos não pode ser coisa séria quando divide as pessoas em boas e más de acordo a mera cor da sua pele. Em cada povo, há pessoas boas e há pessoas más, O crime do tráfico de escravos que vem da antiguidade, tocou a todos os povos. O interesse cega as pessoas, e toda as situações devem ser compreendidas no quadro ideológico, político, económico e institucional de cada época. Compreendidas não e o mesmo quer aceites.

Como refere Mônica Lima: "Não há como recuperar a africanidade, sem conhecer a própria história da África. Ao mesmo tempo, é necessário despir-nos dos preconceitos etnocêntricos (olhar um povo ou etnia com valores de outro) a África como lugar atrasado, inculto, selvagem – e deixar de supervalorizar o papel de vítima- do tráfico, do capitalismo, do neocolonialismo, atitude que alimenta sentimentos de impotência."
Gaspar Correia (sec. XVI), in “Lendas da Índia“ refere que “Nenhuma cousa desta vida é tão aproveitável aos viventes, que a lembrança e memória dos males passados para do mal nos guardarmos, regendo a vida para nele não cairmos segundo os bons fizeram.”
NJ

sábado, 19 de outubro de 2019

O CINE INACABADO DE MOÇÂMEDES

 O Cinema inacabado de Moçâmedes, em Angola




Quando se deu a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975, uma nova casa de espectáculos estava em marcha em Moçâmedes, implantada numa futura zona mais diplomática da cidade, próxima daquele que é hoje o Governo Provincial, cuja arquitectura futurista, cósmica, espacial, inspirado nas criações da arquitectura brasileira, em arquitectos como  Oscar Niemeyer,  fazia lembrar um OVNI, com as suas "garras" fincadas à terra. Encontrava-se na fase terminal  da sua construção, já tinha os painéis que circundam a galeria colocado, a pintura interior concluída,  e não iria faltar muito tempo para ser inaugurada. Ela era o testemunho vivo do quanto estávamos actualizados, pois na verdade nada do género vimos construído, na época, em território português. 

Este era um tempo de grande desenvolvimento  económico e demográfico em Angola, que vinha acontecendo desde 1960, com reflexos na criação de novos espaços de lazer. Angola assistiu ao culminar de um movimento evolutivo das casas de Cinema que tinham começado nos anos 1930 com os Cine-Teatros,  progredido nos anos 1960 para os  Cine-Esplanada, e que já nos anos 1970,  à beira da independência, terminaria com os Cine-Estúdio, o tipo de construção que veio catapultar a cidade de Moçâmedes  para o  topo da corrente modernista internacional. Aliás, foi nas colónias de África, em clima tropical, que os jovens arquitectos portugueses, fugindo às regras do Estado Novo em vigôr na Metrópole, e aproveitando-se das contribuições das potencialidades construtivas do betão armado, encontraram nas colónias de África um espaço de liberdade criativa como desconheciam, puderam dar asas à imaginação, libertos dos condicionalismos de um  regime que não permitia tais ousadias.

 
 A plateia e a abóbada
O Palco, a plateia e a abóbada...
As galerias  e os painéis

 As galerias e os painéis...

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques.Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques.Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques. Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.

 
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à agricultura (oliveira e vinha), ao Deserto do Namibe e à etnia mucubal.  Obra do escultor Fernando Marques que aqui se pode ver, à direita.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à pesca e às praias de banhos de Moçâmedes, obra do escultor Fernando Marques.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.
 
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à pesca a Moçâmedes , com o escultor Fernando Marques à esquerda.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.


Segundo uns este Cine-estúdio iria chamar-se "Cine estúdio Arco Íris",  tal como o Cine estúdio de Sá da Bandeira (Lubango). Segundo outros, seria o "Cine estúdio Welwitschia", e ainda outros apontavam para  o "Cine estúdio Satélite" . Hoje é comum falar-se do "Cine-estúdio Namibe" como a obra interrompida por força de um processo histórico que em 1975 arrancou de Angola praticamente a totalidade da população europeia,  e que ainda hoje está por acabar, 40 anos após a independência, o que é de lamentar, atendendo àquilo que de facto esta obra representa: a penetração em terras de África de uma nova concepção de edifícios que se assemelham a naves espaciais, objectos voadores, estações em órbita no espaço celeste, uma arquitectura futurista de ponta, e sem paralelo na época.

O Cine-estúdio inclui também um restaurante e zona comercial. Os serviços garantem o acesso vertical do bar, cozinha, sanitários e camarotes dos artistas. A plateia, ocupa o primeiro e segundo piso. Sob a laje da cabine são inseridos o programa de bilheteira e bar, implementados na extensão das galerias laterais que se abraçam no espaço desperdiçado sob a pendente da plateia. 

Quanto aos proprietários, estes pertenciam a uma sociedade que integrava entre outros Eurico Martins, Gaspar Madeira, António Bauleth e Nascimento Marques (?), os mesmos do Cine Teatro de Moçâmedes.  Estes teriam encomendado em 1973 o desenho ao arquitecto Botelho Pereira de Vasconcelos , do atelier Boper. Quanto ao empreiteiro que levou a cabo esta obra, temos a informação que foi Vasco Luz. Soubemos também  que foi com este empreiteiro que caiu a cúpula do Cinema na primeira vez que foi colocada, e que a mesma cúpula foi reposta com êxito.

Reparem na arquitectura dos interiores,  nos mosaicos e azulejos originais, do período colonial português,  em todo esse arsenal de elementos que constituem uma mais valia para o património cultural e histórico da cidade. Reparem nos pormenores dos altos-relevos das paredes das galerias que circundam o espaço central inferior, reparem no espaço mais acima, onde fica a ampla e moderna sala de espectáculos. Descobrirão  figuras humanas que invocam vivências do tempo colonial,  jovens banhistas europeias, pescadores europeus e africanos envolvidos na faina marítima, que era o ganha-pão das gentes da terra;  painéis que invocam as actividades tradicionais com realce para a pesca e a agricultura, culturas de eleição, como a oliveira e a vinha que facilmente medravam nas Hortas de Moçâmedes. E ainda a fauna e a flora do fabuloso Deserto do Namibe, onde medram as welwitschia mirabilis, as espinheiras, cactos várias espécies, e uma variedade de animais aqui representados pelas elegantes gazelas, por hipopótamos e avestruzes.  E também as gentes mais representativas do Deserto, a etnia mucubal.

O acesso à sala de espectáculos no piso superior é visto à esquerda, através desta foto que nos mostra 
a organização espacial da zona

 A planta do Cine-Estúdio


Outra perspectiva da planta do Cine-Estúdio



O Cine-Estúdio Inacabado, o Impala Cine, o Mercado Municipal e a Igreja de S. Pedro, são as quatro construções que representam a penetração da corrente de arquitectura  vanguardista entre nós, e que muito orgulhosos nos deixaram, sem esquecer  as casas de espectáculos que o antecederam, igualmente integradas na modernidade inaugurada pelo "Art Deco", o estilo arquitectónico patente no Cine Teatro de Mocâmedes, na década de 1940. Lamentavelmente este OVNI que os arquitectos portugueses fizeram aterrar no deserto do Namibe encontra-se abandonado, devoluto e vandalizado.

Este Cine-Estudio ao abandono integra a  História dos Cinemas em todo o mundo, iniciada com os Cine-Teatros, continuada com os Cine-esplanadas e  que na época teve o seu culminar com os Cines-Estudio. Todos juntos, são legados que nos chegam através dos tempos, e nos permitem compreender a  evolução tipológica das casas de espectáculo  desde o seu surgimento.

 MariaNJardim



Em tempo:

Informações colhidas sobre o Cine Inacabado,  apontam para que tenha sido o engº Guido Vidal  o responsável pelos cálculos de estrutura e estabilidade, e que este tinha uma sociedade com o Mário Martins, empreiteiro da obra. O traçado confirma-se  tratar-se de obra do arquitecto Botelho Pereira aquele que poderia ceder os desenhos para estudo tendo em vista a sua recuperação.

Consultar para mais informações a dissertação "Cineteatros Angolanos: Tipologias (1932/75)" , 2017-11-17, de
Afonso Gonçalves Quintã
  https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/108692