terça-feira, 21 de julho de 2009

O cais acostável de Moçâmedes em 1961
















O cais acostável de Moçâmedes em foto tirada em 1961, 7 anos após o lançamento da primeira pedra, e 4 anos após a inauguração da 1ª fase.

Já em 1854, Moçâmedes, a antiga «Angra do Negro», era reconhecida em sessão do Concelho Ultramarino, de 31 de Outubro, como uma das mais importantes povoações da província, munida de uma importante baía que se encurva em profunda reentrância, desde a pedregosa e rasa Ponta do Giraúl, ao norte, onde fica o farol e o posto semafórico, até à ponta do Noronha, de grés argiloso, cortado a pique, de mediana altura, e em cuja base fica a «célebre» Torre do Tombo, que foi desde tempos remotos visitada por navios cujos tripulantes ali faziam aguada e que, com ao ajuda de um prego, deixaram gravados os seus nomes e datas, nas faces lisas, aprumadas e macias da encosta.

A sul da Ponta do Noronha, ou Ponta do Pau do Sul, corre a Praia Amélia e o respectivo e perigoso baixio onde naufragou a escuna de guerra que lhe deu o nome. A Praia Amélia termina na Ponta da Anunciada com a terra do farol em calma. No extremo oriental da baía, os fundos são mais aparcelados, porém o surgidouro propriamente dito, onde os navios deixam cair a âncora em completa segurança, fica na linha que une as pontas do Noronha e de S. Fernando, onde geralmente se pode embarcar.

Sobre o baixo Amélia onde com bom tempo se vêem numerosas barcos em plena faina pesca, erguem-se em época de calemas alterosas vagas de rebentação com capelo assustador.

Ao fundo da baía, na estação das grandes chuvas do planalto, abre-se a foz periódica do rio Bero, cujo curso, bastante largo e encaixado entre margens altas, encontra-se completamente seco na maior parte do ano. Na última parte do curso deste rio, principalmente na margem direita, ficam situadas as Hortas onde se observam belas culturas de quase todas as árvores frutíferas europeias e tropicais, e das mais deliciosas hortaliças.

Motivos aconselháveis quanto ao local para construção do futuro cais acostável

(Parecer do Comandante Correia da Silva).
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Pela ordem das condições de abrigo, segue-se a baía de Moçâmedes que é presentemente um bom fundeadoro em condições normais de tempo, e poderá tornar-se um excelente porto permanentemente abrigado, dada a direcção constante das vagas, se se dragar a enseada da Torre do Tombo, ao sul da baía, e se se fizer aí, não o porto de pescadores que hoje é, mas o porto comercial. A muralha acostável da Torre do Tombo não será nunca um porto grande, mas será um porto bom e mais que espaçoso para o movimento provável de Moçâmedes. Com essa muralha de mais a mais, dado o abrigo da enseada, poderá fazer-se acostável de qualquer lado e em qualquer direcção que seja construída, mais espaçoso será o porto de Moçâmedes.

Muito se tem pensado em fazer o porto acostável de Moçâmedes na enseada do Saco. Embora a terra que vem da ponta do Giraúl dê também a essa enseada um abrigo que lhe dá uma boa praia de águas tranquilas, e extensão abrigada é muito menor que na Torre do Tombo, e mais facilmente se ressentirá a ressaca do sudoeste, que incide directamente a uma pequena distância da praia abrigada. Além disso, o Saco fica a légua e meia, pela praia, de Moçâmedes. A Torre do Tombo é hoje um bairro de Moçâmedes, e, se as obras do porto se fizerem , como certamente haverá a ligação por caminho de ferro e por estrada, pelo mar, da Fortaleza de S. Fernando a distância do último extremo da Torre do Tombo ao centro da cidade actual, percorrer-se-á em poucos minutos.
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A preferência dada por algumas opiniões que conhecemos, do Saco do Giraúl, funda-se principalmente na amplidão de terrenos para edificações, na profundidade actual da enseada e no facto de ficar essa praia num ponto da linha do Caminho de Ferro além da passagem do Bero, que constitui, por enquanto, um dos mais graves obstáculos ao trânsito regular dos comboios, por ocasião da cheia.

Ora essas razões que justificam a existência actual, nessa praia, de uma atracação, não são, a nosso ver, suficientes para que se faça nessa enseada o futuro porto de Moçâmedes. Seria um porto novo a construir, não o porto de Moçâmedes, e , sem de forma alguma querermos dar a impressão de que existe, nesta origem de caminho de ferro, o mesmo duelo que há entre Benguela e Lobito, defendendo a orientação de fazer as obras definitivas na Torer do Tombo, seguimos apenas a velha predilecção, que sempre tivemos, como oficial de marinha, pelo maior abrigo das suas águas, que, neste caso, se combina com os interesses da cidade capital do distrito.
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(Cópia dactilografada do Relatório do comandante Correia da Silva, consultado em Moçâmedes, na Repartição Distrital de Administração Política e Civil).


Razões da opção quanto a um local a escolher para a construção do futuro cais acostável; parecer do Comandante Frederico da Cruz.
…Moçâmedes é, incontestavelmente, o terceiro porto da colónia, e tem condições para se trnasformar num dois mais importantes de toda a África Ocidental.
Escavado na latitude 15º e 10´Sul, a sua vasta área cobre 3.300 hectares. A área útil, ao Sul, próximo da cidade, não anda longe dos 600 hectares; ao Norte anda próximo dos 500 hectares.
A baía de Moçâmedes, profundo recorte em forma de concha, é limitada, ao Norte, pela ponta do Giraúl, e ao Sul, pela ponta Negra, se bem que o baixo Amélia, mais ao mar, tenha pretensões a esporão submerso.
O fundeadouro fica afastado da terra 750 metros.
Moçâmedes é testa do Caminho de Ferro de Sá da Bandeira, vias de comunicações que, fatalmente, se há-de alongar a caminho da Rodésia do Norte, em necessário paralelismo com a linha Lobito-Dilolo.
A sua importância futura, é pois, considerável.
Hoje, o porto de Moçâmedes serve principalmente a exportação do peixe seco, farinhas, óleos de peixe, e produtos agrícolas da Huila.
O seu movimento em toneladas de arqueação é já notável.
Em 1947 lançaram âncora nas suas águas navios nacionais de longo curso, totalizando 300.738 toneladas
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In «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres
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Porto de Mossãmedes

Outras opiniões sobre o equipamento


(Manuel Pires de Matos, engºhidrográfico
)


«Mossãmedes pode ser considerado um porto misto, predominando contudo nele as características de porto geral e de pesca.
O seu equipamento deve fazer-se no sentido de aproveitar o cais no quebra mar para embarque de pasageiros, carga e descarga de navios transportando deste ou para este porto, quantidade de mercadorias, carga e cereais a granel e carga e descrga de combustível líquido.
No cais longitudina, far-se-ão de preferência s operações de carga e descarga de navios com grandes quantidades de mercadorias a movimentar a carga de carne, peixe e frutas frigorificadas , pois os frigoríficos, armazéns , depósitos de carvão , etc., serão construidos junto deste cais, a servir por linhas férres em abundância para fácil manobra de grande quntidade de vagões, sem o receio de congestionamento.
De começo, o porto poderá dispôr de um frigorífico, armazéns, «gare» marítima, depósitos de carvão e silos, a construir nos terraplenos, que pelo presente ante-projecto se conquistam ao mar.
A construção de depósitos combustível líquido, entre a Ponta do Mexilhão e a Ponta do Noronha, é conveniente que se faça em subterrâneos a escavar na escarpa, para ficarem convenientemente abrigados dos ataques aéreos.
Além do equipamento já atrás indicado, serão precisos guindastes, a captação e a beneficiação, rede de distribuição de água aos navios e serviços do porto, a construção de uma central termo-electrica para as necessidades de Mossãmedes e do porto e um rebocado para as manobras de atracar e desatracar.
Mais tarde, quando as circunstâncias o aconselharem, deverá também considerar-se o equipamento do porto de pesca, a construção de carreiras para navios de vela e embarcações, armazens de redes e outros aprestos de pesca, doca seca para a reparação de navios, etc.
in
Boletim Geral das Colónias . XVIII - 203
Nº 203 - Vol. XVIII, 1942, 1o1 pg.


Pesquisa de MariaNJardim
Para mais informação: AQUI


sábado, 9 de maio de 2009

Toninhas, focas e pinguins no mar de Moçâmedes













































O mar do distrito de Moçâmedes era um mar riquíssimo em pecado, aspecto que se deve à corrente fria de Benguela que constitui um dos mais importantes factores de moderação climática da zona.

Como funciona este assunto?
De maneira bem simples. Um dos braços da corrente quente do Brasil que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e da Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Então começa a desviar-se em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se «corrente fria de Benguela»
. Arrastando grandes blocos de gelo, avança com eles em direcção à costa de Angola. Cada icebergue é um zoológico ambulante onde navegam grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Porto Alexandre ( actual Tômbua) e Moçâmedes (actual Namibe).

Quando se cita a fauna angolana, ignora-se estas focas (2ª foto) e pinguins (3ª foto) que surgem nos meses de Junho ou Julho, sulcando as águas das baías do sul de Angola, ou, refastelando-se nas areias das praias, tomando banhos de sol como qualquer um de nós. Na mesma época também é usual verem-se famílias de golfinhos brincalhões ( 1ª foto), as populares toninhas, exercitando o seu costume de salvar náufragos, porque, para elas, qualquer humano nadando junto à praia, é um náufrago potencial que deve ser empurrado para terra e nem sempre com a delicadeza que seria necessária. Era comum ver-se em plena baía de Moçâmedes negras toninhas saltando ou apeoximando-se mesmo da Praia das Miragens, junto dos banhistas, e ainda albatrozes ou alcatrazes voando baixinho à espera da companhia dos barcos que viajavam para sul. A sua presença deve-se também à corrente fria de Benguela, modeladora do clima e modeladora da costa. A ela se deve a existência das várias ilhas e penínsulas sedimentares que se localizam sempre a norte da foz dos grandes rios. O Cunene, que demarca a fronteira sul, dá origem à península que conforma a Baía dos Tigres. São lugares de praias maravilhosas.


REZA DO CHACAL NA PRAIA DO NAMIBE

Sob o azul frio da rosa praia do esqueleto,
nesse deserto sem regresso e sem começo,
conhece a frágil foca cria o férreo preço
da estranha sede do chacal de dorso preto.

«Rego com o sangue da pequena foca triste
as dunas onde planto os ossos de gaivota,
e nesta horta a noite é dócil e derrota
o vento vil que contra o sonho não resiste.

Não chores, oh pequena foca triste, não
chores. Dos ossos da gaivota nascerão
caras de peixe, e dessas máscaras de mágoa,
sete ribeiros quais teus olhos doce água.»

Silêncio e noite no Namibe areal…
um oásis grita no uivo do chacal.


Autor: Mayyahk
(2002/01/01 23:55)
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VINHAM DO MAR CACIMBOS

Vinham do mar cacimbos
refrescar tombuas sequiosas,
calemas, submersos vulcões
e helio-fornos
provar a fibra sibilina
de homens e mulheres
que agarram a vida
pelos cornos.

Vinham pinguins escorraçados
de um país ao sul,
a preto-e-branco pintados,
ond’é ignara a soma
de todas as cores
que realiza o negro.

Vinham navios, botes,
arrastões e palhabotes
encalhar nos fundões ao arear,
que o leteu namibe
conforma de grão a grão
para marcar que ali
só os filhos sabem navegar.

vinham coros boatados,
e as notícias de guerra,
e as guerras de notícia,

e do deserto a garroa colava
areia nos olhos ressudados.


admário costa lindo

7.06.2005

terça-feira, 31 de março de 2009

As «grutas» da falésia da Torre do Tombo , Mossãmedes, Angola































Finalmente consegui as fotos que tanto gostaria de colocar aqui.

AS «GRUTAS» DO MORRO DA «TORRE DO TOMBO»


Estas históricas «grutas» faziam parte de um numeroso conjunto que percorria a zona sul da base da falésia ou morro da «Torre do Tombo», ou seja, a zona que termina e excede a Ponta do Noronha, ou Ponta do Pau do Sul.

Escavadas a punho na rocha branda, desde tempos remotos, para servirem de abrigo a mareantes e corsários que no decurso dos séculos por ali passavam e ali faziam «aguada», nestas «grutas» foram encontrada impressas «inscrições» de incalculável valor histórico.

Foi o Tenente Coronel Pinheiro Furtado, comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa, quem as registou quando fazia uma visita em 1785 à «Angra do Negro» (1). Pensa-se que tenha sido este oficial português o primeiro que chamou «Torre do Tombo» ao local, chamando a atenção para o morro das inscrições, e pondo uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome.

Pinheiro Furtado destacou num ofício datado de 4 de Outubro de 1785 dirigido ao Capitão General de Angola, BARÃO DE MOSSAMEDES, que, essas «inscrições», gravadas nas paredes daquelas grutas, estavam datadas desde 1645 a 1770, como a seguir se descreve (in Memórias "Histórico-Estatísticas de BRITO ARANHA" ) :

« KEMY 1723; II-IS-1766;
LUIS DE BARROS passou por aqui em 1765 annos;
ANDRÉ CHEVALIER G Y 1665;
JAN DIER;
FRANCISCO DE BARROS,
BERNARDO QUADO ASO DO FEBRO passou por aqui em 1665;
W
- FRN - PM
O
THOMAZ DECOMBRO 1762 e em 1770;
JOSÉ DA ROSA 1645;
MR 1649;
W TAILOR 1768;
18-1770;
DE TONCHON;
RIO CONENE;
MONDE en..65;
SF 1770;
Aqui esteve o patacho GOYA 1665;
MANUEL RODRIGUES COELHO;
MARTIM em 1770;
Aqui esteve o piloto MATEUS PIRES DA SILVA POEDRENEIRA 1665;
THOMAZ DE SOUSA;
O CAPITÃO JOSÉ DA ROSA ALCOBAÇA passou por aqui para o Conene no patacho Nossa Senhora da Nazareth em 4 de Janeiro de 1765;
O CAPITÃO MANUEL DE LIMA;
Aos seis de Fevereiro saltou o Sargento DOMINGOS DE MORAIS nesta baia, que é formosa, em companhia do seu Capitão, JOSÉ DA ROSA, em 1665;
JAN DIMMESEN 1669;
VNSSENGAE PEL 1669;
ADRIIEENDIRERSEN » .

A mais antiga destas inscrições é, como se vê, a de 1645, mas o documento transladado no número 8 do «Jornal de Mossãmedes», de 25 de Novembro de 1881, cita a seguinte inscrição, de data anterior:

«1641 - D. ANTÓNIO MENESES DA CUNHA
ou D. ANTÓNIO DA CUNHA MENESES »

Esta inscrição foi achada em 1841 por Bernardino José Brochado, que, parece, a fixou de memória. Como a areia acumulada pelo vento cobrisse o morro até grande altura, lembraram-se três moradores de Mossãmedees, em 1858, de o desentulhar e de reproduzir as inscrições, das quais, dizia aquele documento, existem cópias no arquivo da Câmara Municipal. Nesta página, não foi, porém, encontrada a referida inscrição de 1641.

Devemos, finalmente, salientar o natural reparo de Gastão de Sousa Dias sobre a repetição do nome de José da Rosa e sobre a data de 1765 (4 de Janeiro) em confronto com a de 1665 (6 de Fevereiro), pois que, segundo as inscrições, na primeira, «passou pela Angra», indo para o Cunene, e, na segunda, «saltou na Baía». Diferindo aquela data (1765) precisamente um século da primeira (1665), acredita Sousa Dias, houvesse erro, devendo a primeira ser rectificada para 1665.

Reproduzimos a seguir a opinião de Sousa Dias:

«...teremos sempre um capitão José da Rosa, visitando a Angra do Negro (Mossãmedes) em 1665; e, na melhor das hipóteses, isto é, sendo aceitável a emenda proposta, teremos na Baía de Mossãmedes um capitão José da Rosa, a 4 de Janeiro, no patacho Nossa Senhora da Nazareth, com destino ao rio Cunene, estando de regresso à mesma baía no mês seguinte, altura em que saltou em terra com o sargento Domingos de Morais.

Procuremos noutra fonte (continua Sousa Dias) a confirmação destes factos. No segundo volume da História das Guerras Angolanas de Oliveira Cadornega, encontra-se a seguinte informação: Sucedeu no governo de André Vidal de Negreiros, ir um homem prático a descobrir esta costa, por nome José da Rosa, por ver se achava alguma notícia de boca de rio que entrasse para os de Cuama (Zambeze), e chegando costa a costa, a dezoito graus para além do Cabo Negro, não achando notícia do que buscava, etc.

Há perfeita concordância de datas (concluiu o distinto escritor), pois que o governo de Vidal de Negreiros durou de 1661 a 1666». (Gastão de Sousa Dias,"Pioneiros de Angola»)

(1) Designação do lugar onde viria a ser erigida a cidade de Moçâmedes
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AINDA SOBRE AS «GRUTAS» e as «INSCRIÇÕES» DO MORRO DA «TORRE DO TOMBO»

Sobre o desaparecimento das «inscrições», diz-nos Manuel Júlio de Mendonça Torres, na obra anteriormente citada, que estas foram enormemente danificadas quando no morro da Torre do Tombo foram instaladas as pescarias por famílias dedicadas à pesca do atum, como desapareceram também, ultimamente, várias outras de datas muito mais recentes. Mendonça Torres adianta ainda que BRITO ARANHA, nas suas Memórias Histórico-Estatísticas (1883) refere que os Governadores FERNANDO DA COSTA LEAL (1854-1859 e 1863-1866) e JOSÉ JOAQUIM DA GRAÇA (1866-1870), deixaram, igualmente, lembrança de si naquele morro.

Se é certo que a primeira grande insensibilidade registada contra este histórico local teve lugar por ocasião da construção das primitivas pescarias que fizeram desaparecer as antigas e históricas «inscrições» gravadas na rocha branda do morro da «Torre do Tombo», não é menos certo que nova insensibilidade se registou quando, com a demolição dessas mesmas pescarias, na década de 50 do século passado, por força da construção do cais acostável, da própria falésia, na fase dos aterros e terraplanagens, foram retiradas sem só nem piedade, milhares de toneladas de terra que desfiguraram a topografia do terreno. Estas «grutas» até então encobertas, passaram a ficar mais expostas à erosão do tempo e à não menos piedosa mão do homem, que, pós a independência de Angola, vem estragando o resto. Eis o seu aspecto actual !

E, no entanto, apesar do aspecto árido, seco e agreste, este local é histórico. Ele é um «ex-libris» da cidade. Faz parte da História de Angola e até da História de Portugal, e, pelo muito que representa, merecia ter chegado aos dias de hoje, preservado, e não maltratado ou destruído.

Para além da importância destas «grutas» como abrigo que foram de mareantes e corsários que no decurso dos séculos por ali passavam e ali faziam «aguada» deixando impressas «inscrições» de incalculável valor histórico, elas serviram de primeira morada aos pioneiros algarvios que, idos de Olhão começaram a chegar a Mossãmedes a partir de 1861, em caíques, palhabotes e barcos à vela, e que, a despeito de muitas e variadíssimas contrariedades, ali se foram estabelecendo, construindo as suas primeiras habitações, lançando ao mar as primeiras redes, e dando início ao desenvolvimento de uma nova era para o Distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar.

É notícia que foi nestas «grutas» que se alojaram alguns elementos da haviam chegado a Mossãmedes em 1849 e em 1850 na barca «Tentativa Feliz» e no «por não terem conseguido lugar nos «barracões» que haviam sido construídos pelas autoridades da terra para os receber.

Termino, lembrando a necessidade de preservação deste histórico local, com este texto de Mário Pinto de Andrade (1):

«a cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças, conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco, sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais; gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário, instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau - representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto material»
in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].


Nota final: Tive recentemente a agradável notícia de alguém recém chegado de Angola, que o governo está empenhado em avançar junto da UNESCO, a propositura destas «furnas» ou «grutas» ao estatuto de património mundial. Oxalá seja verdade, ainda que seja tarde demais..
Sobre a visita do Presidente Óscar Fragoso Carmona a Mossãmedes, clicar AQUI.


MariaNJardim


(1) Primeiro sociólogo angolano e presidente, à época, do recém fundado MPLA, quando da prisão de Agostinho Neto pela PIDE

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Das minhas memórias...


AS GRUTAS DO MORRO DA «TORRE DO TOMBO» E A PESCARIA DA MINHA AVÓ
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Em Moçâmedes nasci, nasceram os meus pais, em Moçâmedes casei e nasceram os meus filhos. Na infância e na adolescência trepei algumas vezes, de cima baixo e de baixo para cima esta falésia, entrei em algumas dessas «grutas» que na sua maior parte serviam de minúsculos armazéns às pescarias, mas nunca na Escola fui sensibilizada para a importância deste histórico deste local. Não admira! Os programas das escolas, cingidos que se encontravam aos regulamentos, não lhes deram qualquer atenção. Seria mais fácil obrigarem-nos a decorar as lestações de de caminhos de ferro do Portugal metropolitano! E a política de então era o silenciamento em relação às grandes questões que tocavam a todos nós!

Na adolescência assisti à demolição das pescarias que circundavam a falésia e deixaram as «grutas» a descoberto. Confesso que nunca pensei fossem tantas! Lamentavelmente, não me lembro de alguma vez as autoridades da terra se referiam a elas nos seus efusivos discursos por ocasião do 04 de Agosto, dia da fundação da cidade, não obstante as memórias que ainda hoje evocam.


Olhando melhor para a 1ª foto, parece incrível que os meus avós tivessem conseguido transformar três dessas «grutas» que se encontravam anexas à sua pescarias na casa perfeitamente habitável que aqui vemos. Essa «casa» era constituida por três compartimentos construidos no interior de três «grutas», dois deles ligados por um corredor interior de comunicação e uma porta pata a rua. O terceiro, independente, com porta para a rua. Nos dois primeiros compartimentos encontrava-se uma autêntica casa de jantar devidamente mobilada, e um quarto de dormir com uma cama de casal, mesas de cabeceira e um guarda roupa. No terceiro compartimento, contíguo mas independente, havia uma mesa, cadeiras, um pequeno armário, e no lado de fora, junto da entrada,um forno construído em tijolo e barro, com porta de abrir e fechar. No conjunto, essas «grutas» possuíam duas portas de entrada e três janelas (a 1ª foto apenas permite ver uma porta e uma janela). O tecto das «grutas» eram altos e ligeiramente arredondados, e tal como as paredes e a entrada, encontravam-se rebocados e caiadas de branco. Na parte de fora havia um canteiro com flores e duas bonitas oliveiras de onde se podiam colher saborosas azeitonas que ali conseguiram medrar, graças à terra e ao estrume levados das hortas que ladeavam o rio Bero.

Como estas «grutas» (às quais tinham por hábito chamarem «furnas» ) ficavam num plano um pouco acima da base da falésia, para se chegar a elas, havia um lance de escadas que tinham inicio num corredor entre dois quartos de adobe que convergiam com a estrada que os separava da pescaria (1ª foto). De início, essa estrada, que passava entre as pescarias e a praia, era um simples e atribulado carreiro, porém, quando a minha avó ficou viúva e tornou a casar, o seu segundo marido havia recebido uma herança em Portugal, e dado o grande apreço que tinha pelas ditas «grutas», investiu, nos anos 40, no seu arranjo e ainda, e, em conjunto com outros proprietários das pescarias da zona, procedeu, também, à abertura de uma estrada de terra batida com as proporções normais, de modo poder passar por ali um carro ou uma carrinha. A iniciativa foi tomada por particulares, porque nem as autoridades da terra, nem o governo geral davam qualquer atenção ao local.

Para esse trabalho, foram solicitados, como era hábito na época, deportados portugueses que se encontravam a cumprir pena de prisão na Fortaleza de Mossãmedes. Um deles era oriundo da Póvoa de Varzim, chamava-se Lino, fora latoeiro de profissão e sempre se dissera inocente em relação ao crime de assassinato que lhe haviam inculpado. Os meus avós acreditavam na sua inocência, consideravam-no uma pessoa muito educada que lhes contara o que se tinha passado nesse fatídico dia em que, pela manhã cedo, quando ia de bicicleta a caminho do trabalho, pela berma da estrada, encontrara caído junto a uma ravina um homem ensanguentado, e julgando-o ainda vivo e ao tentar arrastá-lo para a estrada a fim de pedir socorro, o verdadeiro assassino que se encontrava escondido atrás de uma árvore começara a gritar e a apontar para ele chamando : «assassino... assassino...» O bom do Sr. Lino fora levado para a cadeia, julgado levado e deportado para Angola, e não obstante o tratamento que meus avós lhe proporcionaram, inconformado e minado pelo desgosto, pois havia deixado na terra família e uma filha que teve que desistir do curso de professora, acabou por ser acometido por doença súbita, enquanto fazia os trabalhos da estrada, e falecido a meio caminho quando estava a ser transportado, de tipoia, a caminho do hospital. A prova da sua inocência chegou alguns anos mais tarde, quando, à beira da morte, arrependido, o assassino acabara por confessar a autoria do crime.
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Nunca percebi que razão teria levado os meus avós a dispenderem economias no melhoramento das referidas «grutas», uma vez que possuiam uma ampla habitação, com um grande quintal, no bairro da Torre do Tombo, num local próximo daquele onde mais tarde viria a ser construida a Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique e de uma pedreira que alí existia. Talvez por as ditas «grutas»ficarem muito próximas das instalações da Pescaria e do Sindicato da Pesca onde o me avô trabalhava, e lhe facilitasse a gestão do tempo, sem ter que se deslocar mais longe para uma refeição nos intervalos do trabalho, uma vez que regressava a casa ao fim do dia. Talvez pelo «apego» àquele histórico local!

Resta ainda referir que tão alto significado estas «grutas» possuíam na época, e tão bem cuidadas se encontravam, que eram motivo de curiosidade de altos dignitários do governo português, que, embora nada tivessem feito por elas, quando de passagem por Moçâmedes não as deixavam de visitar, conduzidos que eram para alí pelo veterinário e grande amigo de Mossãmedes, o muito estimado Dr. Carlos Carneiro.

Embora não venha referido no programa oficial da visita a Mossãmedes, em 1938, do Presidente da República de Portugal, Marechal Óscar Fragoso Carmona, estas «grutas» foram visitadas por Maria do Carmo Fragoso Carmona (esposa do Presidente), acompanhada de sua filha, Cesaltina Carmona Silva e Costa e de vários elementos masculinos e femininos da comitiva, entre os quais, Maria do Carmo Vieira Machado, esposa do Ministro das Colónias, Francisco José Vieira Machado. E na parte da manhã desse mesmo dia, para ultimar os preparativos para a visita, receberam também ao General Amílcar Mota, um dos participantes da comitiva, que ali se deslocou, de carro, acompanhado de Mário de Sousa (o conhecido proprietário de uma oficina de reparação de automóveis) que sempre disponibilizava o transporte para estas deslocações. Estas informações foram-me fornecidas por uma tia que era à época uma adolescente, e ainda hoje tem a memória viva desse tempo, incluindo a memória dos nomes das personalidades visitantes que atrás referi, e que recorda com simpatia e com certa mágua, a visita de Maria do Carmo Fragoso Carmona, e o convite que lhe fizera para ir para a Metrópole viver e estudar, um convite que talvez se tenha ficado a dever ao facto de ela se chamar também Maria do Carmo. A tia Maria do Carmo, hoje com a bonita idade de 84 anos, ainda lamenta que a sua mãe e minha avó tenha rejeitado o convite.


MariaNJardim


(2)- Nesse tempo, para Angola continuavam ainda a mandar os condenados e tudo quanto fosse considerado escória da sociedade portuguesa metropolitana, un velho hábito que remonta ao ao tempo do tráfico de escravos e que tão mau nome deu a Portugal e aos portugueses, na medida em que muitos deles, verdadeiros assassínos e gente sem escrúpulos, se metiam em seguida nesse mesmo tráfico.


domingo, 29 de março de 2009

O Banco de Angola em Moçâmedes















Este foi o primitivo edifício onde funcionou a agência do Banco de Angola, na Avenida da Praia do Bonfim, em Moçâmedes, antes da mesma ter sido transferida, na década de 1960, para a Rua dos Pescadores. Trata-se de mais um edifício de arquitectura clássica portuguesa que muito veio valorizar a baixa da cidade, e que acabaria abandonado, apresentando já em 1975, um estado de progressiva degradação que seria urgente recuperar.

Foram muitos os jovens já nascidos em Moçâmedes que ingressaram neste Banco, cujo maior alargamento dos quadros se deu na década de 1960 numa altura em que na cidade começaram a surgir os bancos comerciais (Totta , Pinto & Sotto Mayor, Comercial e de Crédito).

Registo em seguida os nomes que me ocorrem de pessoas que a
li trabalharam até à independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975:

Gerentes :

Gt. Silvestre Newton da Silva - Gt. José Ressurreição -Gt. Aurélio Aguilar - Gt. Guilherme Magalhães - Gt. António Aguilar -Gt. Daniel Gavino Dias - Gt. Mário Romualdo Frota Tendinha ( foi o último Gerente deste Banco em 1975,).

Chefes de Secção, Tesoureiros, Guarda-Livros e Escriturários (ordem alfabética)


Abel Martins - Aguinaldo Matos, Albertino Carvalho Caio - Álvaro Jardim, Angelino Silva Jardim, António Cardoso Alves - Anúplio Castelo Branco - Armando Leitão Serra (*)- Arménio da Silva Jardim - Artur Caleres (*)- David Proença- Edgar Aboim - Ervedosa - Fausto Antunes - Fernando Morais - Francisco Fragata Guerra - Guerreiro - Hernâni Nunes - Isabel Ferreirim- Jaime Custódio- , Joaquim Nunes de Andrade- João Morgado -Jorge Carrilho - José das Neves Almeida - José Espirito Santo - José Manuel O. Frota - José Manuel Peyroteu - José Alves Roberto (*) - José Santos - Júlio Veríssimo - Lambelho Vaz - Lizete Berrones - Lurdes Ferreira - Manuel Rodrigues Araújo - Maria Etelvina Ferreira - Marinheiro - Mário Lisboa Frota (*) - Mário Frota Tendinha (*)- Mário Lopes - Mário Luis Figueiredo - Mário Pinto Ramos - Mário Vieira de Andrade (*)- Mesquita- Militão Ribeiro - Norberto Edgar de Almeida - Orlando Salvador - Osório (Ch.Sec) - Osório (Tes.)- Pedro Bento Rodrigues - Pedro Malaguerra - Pinto - Rabaça - Ramos Costa - Robalo - Rogério Trindade - Rui Alberto Coelho de Oliveira -Rui da Graça Carapinha - Silvino Costa - Teixeira de Jesus - Tenreiro - Valente - Vaz - Zelda Ferreira da Silva.

Nota: Os bancários cujos nomes vêm assinalados (*), todos nascidos em Moçâmedes, chegaram a Gerentes em outras agências do Banco de Angola.

Maria Etelvina Ferreira foi a 1ª senhora na agência do Banco de Angola de Moçâmedes. Para as mulheres estavam reservadas, nos anos 50, as funções únicas de dactilógrafas.


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O regime bancário foi inaugurado em Angola tal como nas colónias portuguesas, pela lei de 16 de Maio de 1864. Até então não existia em Angola qualquer instituto económico para funcionamento do crédito, o que tornava impossível a aquisição de toda e qualquer aparelhagem agrícola e industrial,
impedia o aperfeiçoamento dos processos de trabalho e dificultando o movimento das transacções mercantis e a própria vida dependente dos resultados das produções.

Conforme
Manuel Júlio de Mendonça Torres, na obra «Moçâmedes», no início da colonização quando de Pernambuco, Brasil, começaram a chegar os primeiros contingentes de portugueses, em parte, foi o Estado que supriu essa lacuna ao prestar-lhes a necessária assistência financeira que lhes possibilitou a compra de três engenhos de fabricação de açúcar que foram distribuídos a Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, José Joaquim da Costa e José Leite de Albuquerque, com a condição de retribuirem o seu custo com o produto de três safras consecutivas. Na mesma altura, fora ordenada, também, a remessa de três máquinas, duas das quais para descaroçar algodão dirigidas a Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, e uma terceira de prensar o algodão, a Manuel José Correia para serem pagas com os lucros das primeiras colheitas. Para além destes foram concedidos outros auxílios que seria ocioso enumerar, substituindo-se o Estado à instituição bancária nas suas funções subsidiárias de crédito.

Importa ainda referir, que, embora sem meios de prova, essa faceta também foi exercida no distrito por simples particulares (agiotas), que, tal como em toda a província, emprestavam dinheiro a juros em condições pouco inspiradoras de confiança.


Foi com o Banco Nacional Ultramarino - BNU que começaram as Emissões de Papel-Moeda nas colónias portuguesas de além mar. As emissões de papel-moeda constituíram um marco na história da circulação fiduciária das ex-colónias, uma vez que conseguiram disciplinar progressivamente a circulação monetária, acabando com a enorme variedade de moedas que corriam localmente (pesos, florins, marias teresas, águias, soberanos, luízes, etc.) e passando a ter curso legal exclusivo.

Foram ainda as emissões do BNU que retiraram da circulação as esporádicas e insuficientes emissões das Juntas da Fazenda, instituições que até então, detinham o monopólio da impressão do papel-moeda em giro. As Emissões de papel-moeda do BNU foram emitidas em diversas unidades monetárias – réis, escudos, patacas, rupias e libras esterlinas, conforme o tempo e o espaço onde circularam.

A primeira emissão impressa pelo Banco foi para a Sucursal de Luanda, em 1865. Esta emissão também circulou em Cabo Verde, S. Tomé e na Ilha de Moçambique, mas com sobrecarga do nome de cada uma das citadas províncias.


Em Angola o BNU foi emissor até 1926, ano em foi criado o Banco de Angola que recolheu do BNU o privilégio da Emissão de moeda naquele território ( Convenção de 03 de Agosto de 1926, e pelos Decretos Nºs. 12,123, 12131, de 14 de Agosto do mesmo ano), e que tomou as suas agências para prosseguimento da actividade bancária normal, tendo-se então integrado neste novo banco, a agência que o BNU tinha em Leopoldville. Nas restantes ex-colónias africanas, permaneceu como único Banco emissor até aquelas se transformarem em países independentes, tendo continuado as suas emissões até as respectivas Repúblicas emitirem notas próprias. Sobre o modo como se processava o sistema de pagamentos, remeto para o seguinte artigo:


Sistema de Pagamentos do Império




3. Sistema de Pagamentos do Império

Luis Salgado de Matos

Assim regulado o comércio, era preciso modernizar o sistema de pagamentos no império. Correia de Oliveira - o ministro de Salazar que defendera a entrada na EFTA e criara aquele - «espaço» - impôs um sistema que tendia para a moeda única e concretizava os princípios do liberalismo económico num quadro colonial, o que começou a ser feito com o citado Decreto-Lei n.º 44 016. Este diploma definiu as bases de instituição de um sistema de compensações e de pagamentos inter-regionais entre todas as «províncias» e de um Fundo Monetário da Zona do Escudo (FMZE), «seguindo princípios análogos aos que têm enformado as convenções internacionais de natureza monetário-cambial assinadas depois da II Guerra» (relatório do Banco de Portugal referente a 1961).

No essencial, o sistema funcionava assim: o importador - angolano, por exemplo - depositava angolares - a moeda de Angola - no seu banco para pagar têxteis portugueses. Todos os pagamentos com o exterior tinham de ser feitos pelos bancos para garantir o controlo.

Os angolares iam a crédito de Portugal, o território exportador, para a sua «conta de compensação», no banco emissor, o Banco de Angola, como agente do fundo cambial, e a débito de Angola. Em Portugal, outro industrial têxtil importava algodão angolano - e os seus escudos iam a crédito de Angola, para a sua conta de compensação, no Banco de Portugal, e a débito de Portugal. As contas de compensação eram abertas na moeda de cada território.

O mecanismo era o mesmo para pagamentos não comerciais: remessas de lucros de empresas ou mesadas dos universitários ultramarinos em Portugal, por exemplo. Os pagamentos aos outros territórios eram feitos por ordem de pedido: recebia escudos da metrópole quem os pedia primeiro, fosse para pagar perfumes franceses, máquinas, ferramentas alemãs ou vinho do Cartaxo. Era um esquema completamente liberal, que excluía qualquer prioridade entre pagamentos de bens de diversa natureza motivada pelo interesse colectivo.

CONTINUA...
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As primeiras moedas de Angola: clicar AQUI

O papel moeda em Angola: AQUI

terça-feira, 17 de março de 2009

Caminhos de Ferro de Mossãmedes

Eis o edifício da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes (1ª foto), tal como se apresentava na década de 70, já com o largo de terra batida, em frente melhorado com colocação de um monumento dedicado à «1ª locomotiva».

Trata-se de um belo edifício pintado na côr ocre e marginado de faixas arroxeadas. As portas centrais, de topos arredondados, davam o acesso às bilheteiras e à gare. Defronte da estação, junto aos muros do velho campo de futebol, nasce a "Avenida da República», extevulgarmente conhecida por Avenida da Praia do Bonfim, que corta a cidade de norte a sul, com os seus canteiros de flores multicoloridas, tanques de água, buganvílias e palmeiras até ao espelho de água ladeado por duas elegantes gazelas e o imponente edifício do Palácio da Justiça (Tribunal).

Por esta altura já não funcionava a velha linha de bitola estreita, que tornava morosos e fatigantes quaisquer percursos do primitivo comboio, inaugurado em 31 de Maio de 1923, conhecido por «Camacouve» que fazia a ligação entre Moçâmedes e Sá da Bandeira.

Aind recordo esse tempo em que o velho comboio demorava o dia inteiro
para completar esse percurso de 250 Km, obrigando as pessoas a munirem-se dos seus farnéis para a viagem. Embora ridicularizado por muitos como «Camacove», por já se encontrar ultrapassado, era acarinhado por uma boa parte da população, pois era através dele que, nos tempos em que raros possuiam automóvel, se conseguia partir para deslocações de longo curso, dispensando as velhas carroças puxadas por juntas de bois, introduzidas pelos boers, e mais tarde os camions de mercadorias.

Tudo tem a sua época, e o ultrapassado «Camacove», apesar de lento, bem ou mal, cumpriu a sua missão, tendo contribuido para o arranque do comércio na zona, como meio de transporte de mercadorias, bem assim como transporte de pessoas.


Foi esse comboio e esse locomotiva que levavam e traziam os crentes e não crentes que anualmente se deslocavam à Capelinha de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, em peregrinações que, misturando momentos de fé religiosa com momentos de lazer e folia, eram sempre benvindas a uma população carente de festas e distrações que lhes alegrasse a rotina do quotidiano.

O «Camacove» era, portanto, um combóio amado pela população, até porque nestas ocasiões era disponibilizado gratuitamente pelos serviços de Caminhos de Ferro de Mossãmedes que deste era o modo ajudava a impulsionar estas festividades, que, à boa maneira portuguesa, incluiam a «missa campal» seguida de procissão e culminava num arraial em recinto de terra batida devidamente enfeitado e apetrechado, com barracas e pavilhões onde se vendia de tudo um pouco desde «comes e bebes» a estatuetas, objectos diversos, rifas, etc., e onde, à boa maneira portuguesa, se petiscava, bailava e divertia, ao som da velha concertina ou do tradicional gramofone e seus altifalantes.


Mas voltemos aos Caminhos de Ferro de Moçâmedes. LÁ PARA OS ANOS 50, VIERAM AS POTENTES GARRAT'S bem adaptadas às lonjuras de África, que mais facilmente movimentarem comboios extensos de passageiros de mercadorias ou mistos nesse vai-vem entre Moçâmedes (Namibe) e Sá da Bandeira (Lubango), com os seus três corpos distintos que facilitavam extraordinariamente as manobráveis nas apertadas passagens das montanhas. O maquinista seguia no corpo do meio n o da retaguarda recolhia-se o combustível (lenha, carvão). No da frente, fruto das fornalhas incandescentes, acumulava-se a tremenda pressão do vapor que as fazia poderosas e imparáveis.

A cerimónia de inuguração solene da 1ª fase dos trabalhos de transformação dos CFM aconteceu por ocasião da visita do Presidente da República, General Francisco Egidio Craveiro Lopes a Angola, em 1954, e na sua passagem por Vila Arriaga, vindo de Sá-da-Bandeira a caminho de Moçâmedes.


No acto da inauguração, o Presidente da República, cumprindo os rituais de praxe queimou com fogo da fornalha da locomotiva a simbólica fita que ficou a marcar o momento em que as pequenas locomotivas que rebocavam composições da ordem das 120 toneladas deram lugar às potentes Garrat´s que passaram rebocar comboio da ordem 800 a 100 toneladas, em nova linha de via alargada, num troço de 169 km. A partir daí foi possibilitado um grande avanço, quer em potência, quer na capacidade de transporte mercadorias e pessoas que muito contribuiu para o desenvolvimento da zona.

Este projecto, promulgado por diploma do Marechal Carmona na 1ª viagem Presidencial , e enquadrado plano fomento compreendia um conjunto obras que deveriam ser levadas a cabo no periodo de 1938/1945, nas quais se previa para os Caminhos de Ferro de Moçâmedes a substituição do material fixo, largamento da bitola e a rectificação do traçado e prolongamento até ao Tchivinguitro, porém, acabaria por ser travado por força da 2ª Grande Guerra Mundial dada a impossibilidade de aquisição de apetrechamento, máquinas, etc.. Em consequência, o rendimento esperado foi reduzido, devido ao adiamento do assentamento da nova bitola, por falta de fornecimentos do material circulante e de via, para iniciar o prolongamento previsto, tendo-se, inda assim, efectuado o alargamento da plataforma para a bitola e rectificação do traçado de Moçâmedes ao quilómetro 173, e do quilómetro 205 a Sá da Bandeira, incluindo obras de arte, instalação de pessoal etc.

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Clicar aqui para ver esta excelente postagem:
Memória - Fantásticas "Garratts"! (1.ª Parte) - As Antigas Viagens de Comboio de Moçâmedes a Sá da Bandeira (Sul de Angola)
http://torredahistoriaiberica.blogspot.com/2008/05/memria-fantsticas-garrats-1-parte-as.html#links

Sobre CFM, clicar AQUI

domingo, 8 de março de 2009

Memória - Fantásticas "Garratts" - As Antigas Viagens de Comboio de Moçâmedes a Sá da Bandeira (Sul de Angola)



"Garratt" - mítica locomotiva das grandes distâncias africanas!

Lembro com nitidez o instante da minha infância em que vi uma pela primeira vez - semelhante à que aqui vos deixo. Parada e poderosa nos carris de uma estação ferroviária do Sul de Angola, luzindo com um brilho baço de limpeza recente, soprando da chaminé baixa fumos enegrecidos e espessos, esguichando dos flancos um vapor esbranquiçado e impaciente - "fschhhhh..." . A pedir viagens, apeadeiros, descobertas - "fschhhhh...". Fiquei mudo e extático, esmagado na minha pequenez pela presença imóvel mas fremente do monstro. Sentia-me ao mesmo tempo intimidado e encantado pela novidade, acostumado que estava às maquinazinhas quase de brinquedo que haviam percorrido, até então, os carris de bitola estreita entretanto substituídos por outros mais largos para poderem acolher os gigantes de ferro recém-chegados.

Aconteceu na cidadezinha de Moçâmedes (hoje Namibe), urbe tranquila e doirada, de arvoredos dispersos pelas ruas direitas, traçadas, a régua e esquadro, entre os areais do deserto e uma baía de águas azuis e translúcidas. (Na parte inferior da fotografia, mais ou menos a meio, ali onde começa uma rua, diante daquele grupo de árvores cónicas, está a casa amarela e branca onde vim ao mundo nuns finais de Janeiro de grandes calores.)


De um lado da cidade ficava o deserto profundo, povoado de animais furtivos e de uma multidão de "Welwitschia Mirabilis", plantas rastejantes que sempre me fizeram evocar legiões de caranguejos vegetais a fugirem, açodados, da presença perigosa dos intrusos. Para Gastão Sousa Dias (1), sempre com o justo verbo, a "welwitschia" é " a planta filha do deserto, que, na sua forma e contextura estranhas, parece querer significar toda a aridez, todas as torturas da sede , todo o horror da adaptação a um meio hostil".



Do outro lado, apertando o casario e o deserto num abraço de frescuras atlânticas, a espaçosa baía com o moderno porto de mar, onde acostavam os paquetes imponentes das Companhias de Navegação portuguesas (a Colonial e a Nacional). O Uíge, o Infante Dom Henrique, o Moçambique, o Pátria, o Império, o Angola, tantos outros...

De vez em quando atracavam vapores estrangeiros ou vasos de guerra de canhões sossegados e recolhidos, pois ali não havia, nem chegou a haver, nesses tempos lusitanos, qualquer novidade bélica. A tripulação de um navio japonês que por ali passou um dia deixou como lembrança à estação de rádio local (Rádio Clube de Moçâmedes - R. C. M.) um disco de música romântica do seu país, de 45 r. p. m. E, meses a fio, soaram na baía e nas dunas vizinhas, por cima das "welwitschias" e das casuarinas, as estrofes doridas e exóticas de um cançonetista nipónico destroçado por terríveis males de amor. Entre a população comovida ninguém percebeu jamais, de ciência certa, de que sofria o japonês. Suspeitavam, apenas - pelo tom melado, pelas fracturas de voz, pelas bruscas interjeições... E, suspeitando, todos gostavam de o ouvir. O R. C. M. fazia-lhes a vontade. Até que o disco-lembrança fatalmente se riscou e o infeliz apaixonado se calou de vez.


Este era o edifício da estação ferroviária de Moçâmedes (aqui no seu estado actual). Naquele tempo ele resplandecia ao sol do mar e do deserto, no seu ocre imaculado, marginado de faixas arroxeadas. As portas centrais, de topos arredondados, davam acesso às bilheteiras e à gare. Defronte da estação começava a "Avenida" (onde terminavam os muros do velho campo de futebol). A "Avenida" era um espaço extenso, que cortava a cidade de norte a sul, com os seus canteiros de flores multicoloridas, tanques de água, buganvílias e palmeiras.

Aqui passeavam, nas tardes de domingo, com sedutores vagares, ranchinhos perfumados de jovens meninas, cruzando olhares fugidios com os pretendentes, em cenas discretas que as correspondentes famílias (a mãe, o pai, os avós, os manos mais velhos) patrulhavam a prudente distância. Das arvorezinhas baixas da "Avenida" pendiam instalações sonoras, de cujos altifalantes escorriam incessantemente os êxitos musicais da época - de Amália Rodrigues, de Tristão da Silva, de Alberto Ribeiro, de Maria Clara. Ouvia-se a Casa Portuguesa, o Nem às Paredes Confesso, a Canção do Cigano, a Fonte das Sete Bicas. E soavam ainda tangos plangentes e requebrados, trazendo aos crepúsculos sul-angolanos uma inusitada e muito romântica sugestão argentina. Foi nesses primeiros anos que tomei conhecimento, sem saber a quem pertencia, daquela voz castigada e roufenha a chorar por "mi Buenos Aires querido". Só muito depois soube tratar-se do desditoso Carlos Gardel. Que assim embalou, a milhares de quilómetros, e muitos anos depois de partir, o começo de muitos e tórridos amores moçamedenses.


Era por aqui que ficava, então, a estação ferroviária da cidade. E foi por detrás desta vetusta fachada que me encontrei, na minha infância, e nos termos acima descritos, com a minha primeira "Garratt". As "Garrats" apareciam na parte de trás da estação para movimentarem comboios extensos - de passageiros, de mercadorias ou mistos - entre Moçâmedes (Namibe) e Sá da Bandeira (Lubango). Não tardei a descobrir que as guardavam em enormes oficinas próximas da estação. Sentava-me num muro que dava para as instalações ferroviárias e desse poiso privilegiado vigiava-lhes durante horas as manobras, as idas e vindas daqueles monstros de belas linhas.

As locomotivas ficavam a aquecer, acumulando vapores e energias, durante as horas que antecediam as grandes viagens pelas planuras e montanhas do Sul de Angola.


Punham-nas em ordem, recuperavam-lhes mazelas de estiradas anteriores, limpavam-nas, acarinhavam-nas. Elas possuíam três corpos distintos, o que as tornava extraordinariamente manobráveis nas apertadas passagens das montanhas africanas. O maquinista seguia no corpo do meio. No da retaguarda recolhia-se o combustível (lenha, carvão). No da frente, fruto das fornalhas incandescentes, acumulava-se a tremenda pressão do vapor que as fazia poderosas e imparáveis.

Chegado o grande momento abandonavam o refúgio para irem "formar comboio". Resfolegando - fschhhhh... - alinhavam diante da estação com as carruagens e os vagões. Sempre resfolegando - fschhhhh... - aprontavam-se para o primeiro avanço depois de recolherem tripulações e passageiros. Despedidas derradeiras. E o último aviso-chamada da "Garratt", o apito imperativo e forte, que soaria amiúde durante as centenas de quilómetros da viagem.




De súbito, com ruídos sincopados e fortes, a máquina punha-se em movimento. Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan... Cilindros, êmbolos, pistões, bielas, eixos das rodas, tudo trabalhando em perfeita sincronia numa nuvem rumorosa de vapor branco, emprestando vida e movimento àquele corpo imenso de metal escuro. A princípio lentamente, com uma espécie de preguiça mecânica, logo depois com outro balanço, a seguir preparando-se para as grandes velocidades do caminho. Fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi... - fu-ca-tchi... Lubango, aqui vamos nós.



Na despedida de Moçâmedes, a "Garratt" tinha de transpor a ponte do Bero, nas "Hortas", um oásis de verdes intensos abençoado pelas cheias periódicas do rio.

"Nestas paragens os rios mantêm-se secos na maior parte do tempo. Porém (...), dá-se nos primeiros meses do ano uma ex­traordinária metamorfose, quando os ventos empurram até ao planalto as gordas nuvens fuliginosas das chuvas torrenciais. As águas despenham-se então para oeste ao longo das vertentes da Chela, alagam as depressões das terras baixas e origi­nam enxurradas tumultuosas ao correr das nervuras fluviais que procuram o oceano. No fim das chuvas subsiste durante algum tempo a correnteza mansa, pouco rumo­rosa, de vários rios, que deslizam através do deserto por leitos de areia macia, or­lados, aqui e ali, por canaviais e arbustos rejuvenescidos (...).
As águas não tardam a sumir-se, engolidas pelo solo poroso e ávido. Em inúmeros locais, porém, conservam-se vastos lençóis de águas subterrâneas, que se podem alcançar com es­cavações su­perficiais. Formam-se também depósitos abundantes de detritos or­gânicos, arrasta­dos pelas cheias. São adubos preciosos, que favorecem o verdejar repentino de plantas nutritivas, excelentes para o gado e para a multidão de herbí­voros selva­gens que por ali se movimentam." (2)


"A vinda periódica das águas explica a persistência da vida nesses lugares toca­dos por uma espécie de irreali­dade magnética, feita de dias luminosos e chamejan­tes que, na época própria, se submergem em mantos vaporosos de cacimbo impe­netrável.
Este é um mundo impregnado de aromas intensos e envolventes, despren­didos de um misto de madei­ras secas, lodos antigos, maresias penetrantes, capins calcinados e fumosidades longínquas transportadas nas abas do vento desde povo­ados escondidos. Terá sido em parte aquele magnetismo, aliado à possibilidade da vida, o poderoso instiga­dor da atracção que levou os invasores hereros, primeiro, e os conquistadores portugueses, mais tarde, a tenazes acções de fixação nesses er­mos de sol e sede." (2)


Primeiras paragens: o Saco (onde mais tarde se construiria um porto gigantesco para escoamento do minério de Cassinga) e o Giraul. Forcejando, forcejando, a máquina galga depois milha sobre milha, na paisagem escalvada.
E apita, apita, no seu aceleradíssimo e imparável fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi... E apita de novo.
Que som este! Quem alguma vez ouviu o chamamento de uma "Garratt" jamais o poderá esquecer. É um silvo simultaneamente rouco, estridente e lancinante. É um grito de coisa viva e pensante, não de máquina inerte e bruta. Tanto pode soar a queixume como a brado de triunfo, tanto é apelo como despedida, tanto traduz alegria como raiva. A voz vibrante de uma "Garratt" é um dos sons mais inebriantes e comoventes que se podem escutar.




Já se vêem as penedias vizinhas da Raposeira, que anunciam as do Caraculo. "O terreno tem a violência bárbara dum inferno escalvado. A marginar a linha, pedregulhos sobre pedregulhos parecem construções ciclópicas executadas por mãos ciclópicas. De vez em quando surgem grandes morros pelados, de pedra lisa, duma fealdade nua e parda - semelhando, nas suas formas estranhas, bossas de camelos ou dorsos de tartarugas." (3)


Agora procuram-se as terras do Luso, do Cuto do Munhino. Numa carruagem ouve-se um acordeão de estudantes (será o Nelson, de Moçâmedes?), soam as sentenças solenes do Carlos, "O Mosca", estalam gargalhadas desprendidas e jovens. Fala-se com súbita gravidade da presença numerosa de leões na zona, sobretudo no Cuto, que é o quilómetro 101. Por sobre tudo isto, o fu-ca-tchi ... fu-ca-tchi da "Garratt", o odor intenso da sua fumarada, a magia da nossa África (4)."Horas e horas o comboio arfa pelo deserto despido; as paragens, não tendo particularidade que as caracterize, são conhecidas pela numeração quilométrica; e o som do êmbolo, matraqueando rudemente, é o único ruído que acorda o silêncio morno e abafado do areal infinito." (1)

Rios secos, águas ocultas, vida fervilhando em redor...
Fu-ca-tchi... - Fu-ca-tchi...- Fu-ca-tchi... (4)

"Errando pelo interior desértico ou semidesértico, meteram por cami­nhos que iam subindo devagar ao longo de ravinas, planuras e montes cónicos iso­lados." (2)

Aqui e ali, vidas fugidias de guelengues, espantados pelo silvo da "Garratt", confundidos com o seu bafo escuro...

Já se deixou para trás o Munhengo, logo depois Assunção, vieram a seguir as Gargantas (a Grande e a Pequena). A "Garratt" progride em grande velocidade, acerca-se da sua maior adversária antes de chegar ao destino.

"Agora o terreno agita-se um pouco. Pequenas ondulações sucedem-se. E à nossa frente, lá ao longe, elevam-se os degraus da serra da Chela, negros e verticais, singularmente recortados no céu (...) Entre eles destaca-se o Morro Maluco (Cha-Malundo), cuja conformação é realmente caprichosa, recurvado como uma garra." (1) (4)

É agora, só mais um esforço! Sopra a "Garratt" afanosa, silva, matraqueia, devora espaços - desejosa do maior dos combates...

E, de repente, ao quilómetro 186, a barreira esmagadora da Serra da Chela, o grande obstáculo que separa a "Garratt" de Sá da Bandeira (Lubango)!
Aos pés da montanha imponente, o casario raso, colorido e ameno da bela Vila Arriaga (Bibala).
Lá no cimo, como um rasgão trágico, o corte mítico da Tundavala.
"De súbito, depararam com as escarpas da Chela, cujas cristas rompem os céus a mais de dois mil e trezentos me­tros de altitude. A partir do cume, esta regi­ão, planáltica, baixa aos poucos para leste até formar a bacia do Cunene, o lendário rio que, descrevendo uma curva des­comunal, abraça todo o Sudoeste an­golano até ao mar. Foi junto ao sopé desses im­ponentes paredões que os pastores detiveram o passo num primeiro momento." (2) (4)
Foi aqui também que a "Garratt" se deteve, a ganhar forças e balanço.
Daqui a uns minutos, será a última batalha da minha máquina indomável. (Continua)
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(1) Gastão Sousa Dias - África Portentosa - Seara Nova - Lisboa - 1928.
(2) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Editorial Estampa - Lisboa - 1999
(3) José Maria d'Eça de Queiroz - Seara dos Tempos - Edição do autor - Sem data
(4) Esta foto, como algumas mais desta viagem (sobretudo as da Bibala e da Chela), são de Okawa Ryuko, que já temos citado e voltamos a recomendar vivamente. Blogue: Angola: Huíla Namibe Kunene Luanda


Do blog Torre da Historica Ibérica

quarta-feira, 4 de março de 2009

Moçâmedes: Posto Experimental do Caraculo, Angola


















































Posto Experimental do Caraculo, exploração modelo saída do sonho do veterinário, Dr Santos Pereira (na 4ª e na 6ª foto inspeccionando as crias), enquanto director da Estação Zootécnica da Humpata (Huila), ao ter presenciado no decurso de uma visita à Namibia como naquelas terras desérticas se procedia à criação do gado ovino de raça Karakul.

O Posto Experimental do Caraculo foi por criado por proposta daquele veterinário ao Governador Geral de Angola de então, Agapito da Silva Carvalho, e o gado ali criado passou a fornecer aos mercados uma das peles mais brilhantes e leves de todo o mundo.

Seria o próprio veterinário a seguir para o deserto, a escolher o local, e a lançar as bases da exploração modelo, cuja produção de peles viria a ganhar um prémio internacional, tendo o Caraculo sido considerado uma das regiões que produzia as melhores peles do mundo, dada a sua leveza e brilho.

Tecnicamente apoiada e incrementada por este PEC oficial, sob a orientação do seu iniciador e director, nos anos 70 existiam já 17 criadores particulares, mais de 60.000 cabeças e já se haviam realizado 5 leilões de peles (sendo o último em Londres, com 800 peles). Não foi tarefa fácil, dada a carência de ovelhas locais, já que os criadores nativos que dispunham de algumas, e não queriam se desfazer delas com vista a cruzamento. Como recurso estas foram trazidas do Quénia, «Massai», tendo em vista a produção no mais curto espaço de tempo. E assim se conseguiu que em 1975, o nímero se elevasse para as 60 000 cabeças , número que muito iria contribuir para a economia do território, através da venda das suas tão cobiçadas peles, tidas como as mais perfeitas.
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A região do Caraculo, situada a 70 km de Moçâmedes (Namibe), na estrada para Sá da Bandeira (Lubango) foi a região escolhida pelo Estado português na década de 50, para a instalação deste posto experimental tendo em vista a exploração em grande escala de ovelhas Karakul destinadas ao abate nos três primeiros dias de vida, tendo como objectivo o comércio de peles.

Esta escolha ficou a dever-se ao facto da região reunir condições similares à das estepes e semi-desertos do Turquistão Oriental, actual Uzbequistão, assim como das regiões do norte do Irão e do Afeganistão, onde a raça já existia há 1.000 anos, tendo, a partir dai se espalhado gradualmente para outras regiões da Ásia Central, Ásia Menor e sul da Ásia até à Índia e China. Foram as condições adversas sob as quais evoluiu a raça Karakul, que deram a estes animais força longevidade, resistência, resistência aos parasitas, etc., de tal modo que, se tiverem acesso a uma alta disponibilidade de forragens, são capazes de armazenar energia, principalmente através de sua cauda gorda, para sobreviverem a períodos de falta de alimentos, situação que outras raças não aguentariam. A raça Karakul suporta grandes variações de temperatura, do frio ao calor intenso e deve ser criada e mantida em locais secos, longe de pastagens alagadiças, em regiões com vegetação típica de deserto e com disponibilidade de água limitada, uma vez que armazenam muita gordura em suas caudas, como resultado de uma adaptação desenvolvida para a sobrevivência em ambiente inóspito, tendo chegado a percorrer 30km em busca de alimento e água.

O cordeiro Karakul é abatido nos três primeiros dias de vida para se obter uma pele de qualidade superior, a nobre pele conhecida por ASTRAKAN, muito apreciada e reservada especialmente à confecção de casacos de senhora. ASTRAKEN é nome de uma cidade do Mar Cáspio onde os franceses adquiriam as suas peles, pois à medida que os cordeiros crescem, as ondulações do velo vão se espaçando e a coloração vai se tornando acinzentada , havendo também perda da maciez.

As fotos mostram-nos a região do Caraculo com toda a sua envolvência, o gado que ali se «produzia», o Dr Santos Pereira e uma sala de aula, onde se pode ver escrito no quadro a designação do local.

Para lêr mais: http://www.crisa.vet.br/raca_2001/karakul.htm

http://memoria-africa.ua.pt/Digital_Show.aspx?q=/LNEC/LNEC-Memoria-N210&p=1

http://memoria-africa.ua.pt/Digital_Show.aspx?q=/LNEC/LNEC-Memoria-N210

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Cerimónia da inauguração do novo edifício-sede do Grémio dos Industriais de Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes em 24.05.1957





























































































































Crédito de imagens: do álbum pessoal de SousaAlmeida


1º foto: O novo edifício-sede do Grémio dos Industriais de Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, sito na Avenida da Praia do Bonfim em Moçâmedes e que no dia 24.05.1957, com a presença do Governador Geral de Angola, Horácio José de Sá Viana Rebelo foi inaugurado.


2ª foto:
A entrada do Governador Geral no novo edifício-sede, para o acto de descerramento de uma placa comemorativa da sua inauguração.
Presentes também, para além do Governador do Distrito de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte (2ª foto, à dt.) e da entidade religiosa que nunca faltava a estas inaugurações), elementos representativos das «forças vivas» da cidade, industriais de pesca do distrito, funcionários e elementos da população.

3ª foto: Convidados e membros da comitiva no hall de entrada do referido edifício para assistirem ao acto solene. Reconhece-se, à dt., o Dr. Álvaro Barreto de Lara, advogado e notário, o Bispo da Diocese, António José de Carvalho Minas, locutor Rádio Clube de Moçâmedes e Oliveira (Maboque). Ao centro conversando com um brupo de senhoras, Lourdino Tendinha
(presidente do Grémio) e o industrial João Thomás da Fonseca. À esq., Raul Radich Júnior, Mario Guedes da Silva e Mendonça Torres.

4ª foto:
Tirada na mesma altura, nesta podemos ver: Lourdino Fernandes Tendinha, presidente do Grémio (à esq.), João Thomás Senna da Fonseca (Director-tesoureiro), Isaís Gusmão Fradinho Graça (Director), o Governador Geral de Angola Horácio de Sá Viana Rebelo, Albérico Sampaio Nunes, Director (de óculos, à dt.) e Vasco Nunes da Ponte, o Governador do Distrito (à dt.).

5ª foto: No hall de entrada do novo
edifício-sede do Grémio dos Industriais de Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, por ocasião cerimónia de inauguração, entre outros reconheço, da esq. para a dt: Artur Homem da Trindade (desenhador de Construção Civil), Norberto Edgar de Almeida (func.), Carlos Manuel Guedes Lisboa, (func.), José de Sousa, João Carlos Guedes Lisboa (func. e industrial) e Carlos Vieira Calão (func.). Ao fundo, à dt. Fernando França Galvão (func.), e mais è esq. Isaías Gusmão Fradinho Graça (Director).

6ª foto. Lourdino Fernandes Tendinha (
Presidente do Grémio dos Industriais de Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes) lendo o discurso ao Governador Geral de Angola que na mesa de honra se encontra ladeado pelo juiz da Comarca e o Governador do Distrito de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte. Atrás, António José de Carvalho Minas, faz a transmissão do evento através do Rádio Clube de Moçâmedes.

7ª foto.
O Governador Geral de Angola discursando no salão nobre do Grémio, ladeado, à esq. pelo juiz da Comarca e por Lourdino Tendinha, e à dt. pelo governador Nunes da Ponte e uma entidade do Governo. De pé, Rui Bauleth de Almeida, comentador do Rádio Clube de Moçâmedes e o ajudante de campo do Governador Geral.

8ª foto: À cerimónia da inauguração seguiu-se um «beberete» no salão nobre do mesmo edifício em que estiveram presentes, para além do Governador de Angola e comitiva e do Governador do Distrito , dirigentes do Grémio, elementos representativos das forças vivas da cidade, associados ligados à Indústria da Pesca de todo o distrito, elementos dos órgãos de informação, alguns funcionários do Grémio reformados e no activo, algumas senhoras, etc. etc. Entre estas, reconhece-se Rosalina Bento, no canto inf. à dt. e Maria Luisa Almeida Carvalho Fonseca ao fundo à esq.

Seguem alguns nomes de diversas pessoas que estiveram presentes nesta cerimónia que não se encontram representadas nas fotos acima:

Representantes das «forças vivas da cidade»: Mário Moreira de Almeida (Médico e Presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes), Raul Radich Junior (Vice-Presidente da Câmara Minicipal de Moçâmedes),
Rui Duarte de Mendonça Torres, Abílio Gomes da Silva e Virgilio Carvalho de Oliveira (vereadores da mesma Câmara Municipal), Urbulo Antunes da Cunha (Presidente da Associação Comercial), Manuel João Tenreiro Carneiro (Advogado), João Martins Pereira (industrial de pesca e agricultura), Álvaro Barreto de Lara (advogado e notário), etc.

Industriais de Pesca associados do Grémio, reformados e no activo, entre os quais Aníbal Nunes de Almeida (industrial de pesca), João Martins Pereira (industrial de pesca e agricultor)...
lista em acrescentamento...

6ª foto: Fachada do novo e moderno edifício do Grémio dos Industriais de Pesca do Distrito de Moçâmedes, sito na Avenida da Praia do Bonfim, a principal da cidade. O antigo edifício ficava situado na Rua dos Pescadores, com frente para a Praça Leal. Era era um edifício nobre de traça oitocentista e frontão triangular centralizado no alçado principal como era comum na época em edifícios públicos, e que, folgo em saber, foi recentemente recuperado.

fotos relacionadas AQUI
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O Grémio da Indústria da Pesca e seus derivados do Distrito de Moçâmedes

foi criado a 1 de Maio de 1949 por imposição legal,na vigência do Governador-Geral de Angola, José Agapito da Silva Carvalho, tomando o lugar do Sindicato da Pesca de Moçâmedes.

O Sindicato da Pesca de Moçâmedes foi criado em 1930 com o fim de organizar a indústria de peixe seco e, posteriormente, a indústria de de farinhas e óleos de peixe, que até àquela data vegetavam ao sabor dos interesses de aventureiros e oportunistas, à custa dos pequenos industriais de pesca. A importância deste Sindicato foi de tal ordem que as suas estruturas iniciais foram aproveitadas pelo Grémio e mantiveram-se inalteradas no essencial até 1975, data que marca o ano da independência de Angola e o êxodo dos portugueses, incluindo o dos industriais seus associados.

Nunca é demais recordar a importante organização que foi o Sindicato da Pesca de Moçâmedes criado em 1930 com a designação de Sindicato da Industria e Comércio de Peixe como seu 1º Presidente o Dr. Torres Garcia.

Conheci por dentro as instalações deste Sindicato situadas no Bairro da Torre do Tombo, em Moçâmedes, e posso acrescentar que este Sindicato, cuja função primeira era a de comercializar e dar escoamento aos produtos pescados e transformados pelos industriais em todo o distrito, designadamente peixe seco, farinhas e óleos de peixe, era um organismo de tal ordem que, paralelamente, dispensava aos seus associados, familiares, e a todos os trabalhadores envolvidos na indústria de pesca, de origem portuguesa e de origem africana, livres e contratados, funções de assistência social de suma importância. Para o efeito, este Sindicato era detentor de um Hospital em Porto-Alexandre e de um posto médico com consultório e enfermaria em Moçâmedes, ambos munidos das respectivas farmácias onde se podia facilmente beneficiar de assistência médica e medicamentosa e de cuidados de enfermagem. Este Sindicato possuia ainda um sistema de seguros de conta própria que facilitava grandemente a vida aos pescadores e industriais.

Quanto ao conjunto das instalações, o amplo complexo do Sindicato da Pesca de Moçâmedes situado na Torre do Tombo, estendia-se desde a então denominada Rua da Colónia Piscatória (assim se chamava a rua que dava acesso à subida para a Praia Amélia) até à praia, e englobava uma enorme extensão de armazéns e um conjunto de pequenas casas enfileiradas destinadas ao pessoal contratado, para além de duas habitações destinadas a funcionários (onde habitaram durante muito tempo João Gomes e Alberto Ferreira da Silva), das pontes, telheiros, giraus, etc., etc.

Era nesses armazéns que os industriais de pesca da terra entregavam, avulso, o produto do seu pescado depois de seco e preparado, se procedia à selecção do mesmo, pesava e preparava os fardos ou «malas» de peixe para a venda e exportação. Era desses armazéns, servidos por uma grande ponte coberta, a maior ponte de cais da época na baía de Moçâmedes, que saia a mercadoria em embarcações que faziam a cabotagem ao longo de toda a costa até ao Congo, onde era descarregada para ser posteriormente dirigida para o interior.Cada qualidade de pescado tinha o seu preço, a corvina e o cachucho por exemplo, eram mais valorizados que o carapau ou a cavala, e por tal o peixe era seleccionado e emalado em separado, consoante a sua qualidade/preço. Na altura da exportação, o Sindicato recebia a visita da inspecção dos serviços Veterinários, uma vez que o produto a exportar era obrigatoriamente acompanhado de certificados de sanidade passados por aqueles Serviços que na década de 50 se encontrava sob a responsabilidade do Dr. Elias Trigo, o seu Director. A inspecção era obrigatória uma vez que os peixes gordos tendiam a criar ranço e a saponificarem devido às condições climáticas. Mais tarde quando surgiram as farinhas e óleos de peixe estes eram sujeitos a determinados parâmetros organolépticos e eram, para tal, objecto de análise laboratorial, sendo neste caso, os funcionários daqueles serviços que se deslocavam às pescarias. Quanto ao pagamento aos industriais do valor das entregas do pescado pelo Sindicato, este possuía fundos próprios que permitiam o seu adiantamento, e tudo fluía com rapidez e eficiência uma vez que a mercadoria também escoava com a mesma rapidez e eficiência para os seus destinatários.

Cabia também ao Sindicato a função de angariamento de pessoal contratado para que as pescarias pudessem funcionar, uma vez que o distrito de Moçâmedes sempre fora a esse nível carente de mão de obra . Moçâmedes talvez fosse o único ponto de Angola em que a população africana local, constituída essencialmente por «quimbares» era minoritária com relação à população de origem europeia.

Segundo o apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), o primitivo Sindicato de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em seguida denominado Sindicato de Pesca de Moçâmedes,teve na sua origem na grande crise da indústria de pesca em 1929 que afectou grandemente Moçâmedes, e que acabaria por ser decisiva para construção das primeiras fábricas destinadas à transformação de peixe em farinha e óleo.

A origem desta crise, de acordo com o referido apontamento histórico, ficou a dever-se «à desvalorização dos produtos atribuída à falta de selecção do pescado, ao descuido na preparação do produto - sobretudo quanto ao peixe seco, às defeituosas e heterogéneas embalagens, ao desconhecimento dos mercados consumidores, à desorganização dos produtores e tudo isso aliado a uma concorrência desordenada.»

Passarei a transcrever parte do citado «apontamento histórico» que melhor esclarece a evolução destes organismos, bem como as modificações que, por via dos mesmos se foram verificando na industria de pesca do distrito de Moçâmedes: (Texto completo AQUI)

...«Nos seus relatórios Carlos Carneiro descreveu os vários aparelhos e métodos de pesca que estavam sendo usados, acompanhando-os por um estudo crítico das explorações e das indústrias transformadoras existentes. Entregues a si próprios, trabalhando num campo em que era fácil conseguir lucros avultados com um mínimo de investimentos, dada a abundância da matéria- prima a explorar, não nos admira que Carlos Carneiro refira a existência de autênticas fabriquetas, sem um mínimo de condições, em concorrência com outras instalações modelares (para a época, naturalmente). O problema foi que elas permaneceram activas durante várias dezenas de anos, prejudicando a qualidade das farinhas de peixe angolanas, afirmamos nós.

...« O problema da qualidade do sal, tão fundamental para a boa conservação do peixe continuava por resolver, como continuava aguardando solução a secagem do pescado salgado, especialmente quanto às espécies gordas. Continuava-se a usar o sistema dos “giraus” mal situados ou desabrigados que facilitavam a conspurcação com as areias levadas pelos ventos. Naturalmente refere-se à desactualização da legislação aplicável ao sector. Não se tinha em consideração a utilização do peixe salgado/seco na alimentação humana, nem as na-urais exigências dos mercados consumidores, nem os centros de concorrência que já existiam. A legislação não se harmonizava com as necessidades da industria nem com as exigências dos mercados importadores. As autoridades centrais ignoravam que: “O problema de Angola é um problema de exportação”. Carlos Carneiro, optimista, chegava a afirmar: “É inesgotável a fauna marítima da costa” o que infelizmente não era verdade. Seria inesgotável se houvesse uma gestão dos recursos piscatórios, que não havia, nem haveria tão cedo em Portugal ou no Ultramar Português. Pescavam-se por vezes grandes quantidades de pescado condenadas à destruição, por não existirem meios de conservação adequados, ou mesmo por outros motivos, como ainda acontece nos nossos dias, apesar das limitações das mais variadas ordens que actualmente existem para a conservação dos recursos naturais e da sua exploração racional.
«... Como sub-produtos do pescado fabricava-se: óleo e farinha de peixe, mas utilizando métodos absolutamente primitivos ou arcaicos.

Então, surgiu em 1931 o Diploma Legislativo nº 283 (BOA, 1963) cuja introdução reconhecia mais uma vez, que a industria da pesca era um importante valor na economia da Colónia pois em 1930 o valor dos produtos derivados da pesca fora de 122 mil libras. O grosso das exportações era constituído por peixe seco, seguido depois pelo peixe em conserva, óleo de peixe, peixe em salmoura e outros produtos – ovas, peles e guano de peixes; na nota introdutória afirmava-se no documento referido ter havido, contudo, uma sensível desvalorização dos produtos da industria da pesca que o legislador atribuia à falta de selecção do pescado, ao
descuido na preparação do produto - sobretudo quanto ao peixe seco, às defeituosas e heterogéneas embalagens, ao desconhecimento dos mercados consumidores, à desorganização dos produtores e tudo isso aliado a uma concorrência desordenada. Como medidas para inverter a situação preconizava-se:
a) uma permanente e rigorosa fiscalização sanitária e comercial e
b) agremiação da produção, comércio e exportação.
Pelo art. 1º do diploma eram criadas “... instituições profissionais sob a forma de sindicatos que abranjam a produção, industria e comércio de peixe e seus derivados, com a designação de “Sindicatos da Industria e Comércio de Peixe”. O mesmo Diploma criava em Luanda um “Conselho Especial de Consulta e Parecer, formado pelos: Directores dos Serviços Adu- aneiros, Pecuários e de Agricultura e Comércio, pelo Chefe da Repartição de Industria e Minas e pelo Chefe do Departamento Marítimo, onde baixarão todos os processos que respeitem aos Sindicatos de Industria e Comércio de Peixe e pelo qual transitam os recursos e propostas dos mesmos Sindicatos”. O Art.14º estabe- lecia que – “A fiscalização sanitária do peixe e derivados cabe, como estiver garantido e regulamentado, aos delegados de sanidade pecuária ou entidades que legalmente os substituam. Seguiam-se vários Artigos relativos à fiscalização sanitária e aos valores das taxas de fiscalização que deveriam ser cobradas pelos médi- cos-veterinários delegados de sanidade pecuária. Nesse mesmo ano os Serviços Veterinários publicaram um folheto de divulgação do colega Isidoro Martins dos Santos sob o título: “Sumárias instruções para secagem, defumação e congelação de peixes, com indicações sobre a legislação e conservação do mesmo produto” que rapidamente se esgotou (Santos, 1931).

Ao abrigo do Diploma Legislativo referido (BOA, 1931) organizaram-se os Sindicatos de Pesca de Moçâmedes e de Benguela e aprovaram-se os Estatutos respectivos, parecendo que tudo estaria resolvido de acordo com a orientação dada pelo diploma referido. Mas como a sindicalização não era obrigatória formou-se um grupo “auto-intitulado dissidente”, com algum poder económico, que procurou por todos os meios destruir os efeitos que se tinham em vista. Geraram-se assim dois grupos de industriais/ /exportadores que se guerreavam entre si (Sequeira, 1937) criando situações muito complicadas, com acumulação de dívidas, ac- ções em tribunais, etc. e o Conselho Especial de Consulta e Parecer, que o Diploma previa, transformou-se num tribunal de pequenos delitos, originando-se uma situação absolutamente insustentável com exportações arbitrárias, sem qualquer espécie de controlo. O desacordo entre o governo e o grupo dissidente acentuou-se até que os Sindicatos foram dissolvidos criando-se a Federação dos Sindicatos de Pesca. Então numa manobra de envolvimento económico os industriais/exportadores tomaram o controlo dos sindicatos e continuaram a exportar para o Congo. Foi quando o Governo Geral resolveu actuar decisivamente demitindo a direcção do Sindicato e nomeando em seu lugar uma Comissão Administrativa, presidida pelo Dr. Carlos Carneiro, que encontrou situações económicas gravíssimas que foram sendo pouco a pouco resolvidas por arranjos directos entre a Comissão e os devedores e credores do Sindicato, conseguindo-se normalizar a situação económica existente e beneficiar a grande massa dos pescadores e dos associados dos Sindicatos (Sequeira, 1937).

A partir desse momento entrou-se naquilo que se poderia considerar normalidade quanto à qualidade do pescado salgado/seco e do aumento sempre crescente da produção do produto refrigerado e congelado.»
Sobre a indústria de farinha de peixe, o mesmo apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa) avança

...«Como surgiu e se desenvolveu a indústria da pesca em Angola já o descrevemos. Além disso existia uma longa tradição de pescas e de pescadores em Portugal, mas como teria surgido a produção da farinha de pei- xe? Mais uma vez vou referir Carlos Carneiro pois é ele que no seu livro “O Mar de Angola” (Carneiro, 1949) escreveu, sob o título: “E assim nasceu, em Angola, a indústria de farinhas de peixe”. Vejamos portanto: “Em 1929 a indústria de pesca no sul de Angola atravessava a pior das crises. A produção de peixe seco era enormemente superior ao consumo”. O preço aviltava- se... “abandonavam-se na praia ou lançavam-se ao mar centenas de toneladas de peixe que apodrecia em armazém”. Nesse tenebroso período, um alemão, gerente da casa Weermonn, Brock & C.ª, em Moçâmedes so-licitou-me autorização para exportar, para Hamburgo, peixe seco sem sal e com cabeça, para fins industriais”. “Como nada havia legislado sobre o assunto, autorizei a exportação... Mas o fim a que ele se destinava espicaçou-me a curiosidade”. Solicitei informações ao Departamento Científico e Técnico de Pescas Marítimas de França e recebi vagas notícias sobre a utilização desses peixes na alimentação de animais, depois de beneficiados e farinados. Por essa época uma comissão de médicos veterinários elaborava o Regulamento Geral de Sanidade Pecuária e Industria Animal em Luanda e solicitava-me elementos para estabelecer doutrina sobre a fiscalização sanitária do peixe e seus sub-produtos. Assim aparece publicado e mantém-se em vigor, o “art. 134º: Fica autorizada a escala de peixe com cabeça e sem sal quando destinada a fins industriais” (Carneiro, 1949). Entretanto, com a preciosa colaboração do meu saudoso amigo Dr. Torres Garcia faço os primeiros ensaios de transformação do peixe em farinha. Sem maquinaria própria e sem ciência certa as primeiras amostras enviadas para a Alemanha não agradaram, como tanto era de desejar. Mas as indicações que de lá vieram permiti- ram produzir-se melhor e, em pouco tempo, o mercado germânico estava aberto a toda a farinha de peixe que Angola fabricasse. E assim se começaram a construir as primeiras instalações fabris e se adquiriram as primeiras fábricas para a transformação de peixe em fari- nha e óleo.

Hoje, a costa de Angola tem ao serviço desta riquíssima indústria, 4 grandes fábricas e cerca de 60 fabriquetas que estão laborando, anualmente, largas centenas de toneladas de farinha de peixe...”(Carneiro, 1949). A Carlos Carneiro sucedeu outro colega Dr. João Elias, a partir de 1938, provavelmente com ele estagiando e aprendendo, pois iria depois permanecer à frente dessa Delegação durante mais de 20 anos de inteira dedicação aos assuntos relacionados com o pes- cado: acompanhando, corrigindo, incentivando a in- dústria da Pesca e as dela derivadas, como nos dá nota em excelente trabalho que intitula: “Tese...etc.”(Elias, 1955). Uma vez remodelados e saneadas as dificulda- des económicas é ele quem afirma nesta mesma citação: A indústria, disciplinada pelo Sindicato, caminha firme até que o Governador-Geral José Agapito da Silva Carvalho criou os grémios dos industriais da pesca e seus derivados, pelo Diploma Legislativo nº 6 697 e respectiva Federação em Luanda. O grémio dispunha de armazéns privativos para peixe seco em Porto Alexandre e em Moçâmedes que recebiam diariamente esse produto – submetendo-o à Inspecção Sanitária do Delegado de Sanidade Pecuária e seus agentes e dis- pondo de um bem apetrechado Laboratório Regional dos Serviços Veterinários e da Indústria Animal. Mas outros trabalhos do colega Elias merecem citação e es- tão publicados nos Anais dos Serviços de Veterinária e Industria Animal de Angola (Carneiro, 1943; Carneiro, s/a, Carneiro, 1955b).Sobre a criação do Instituto das Industrias de Pesca de Angola refere o mesmo apontamento :

«Em 18 de Agosto de 1960, o Decreto nº 43 123 (DG, 1960) diz: tendo presente a importância que as indús- trias de pesca têm na economia da província de Angola e a necessidade de se proceder à sua coordenação; considerando a conveniência de que o exercício daquelas actividades em todo o ciclo de extracção e de trans- formação seja apoiado por uma estrutura económica e financeira que lhe proporcione os meios para melhor enfrentar as flutuações dos mercados externos; etc., etc. Artigo 1º - É criado o Instituto das Industrias de Pesca de Angola. Tinha a sede em Luanda (DG, 1960), junto do governo, mas distante das zonas de produção. Depois definiam-se os seus objectivos que seriam: orientar e fiscalizar a produção do pescado, a sua trans- formação e o comércio dos produtos fabricados; coordenar as indústrias de pesca e de transformação afins e, como não podia deixar de ser... desenvolver o espírito corporativo. O mesmo Decreto obrigava à revisão dos estatutos dos grémios e ao saneamento das respectivas situações financeiras, o que veio a suceder pela Porta- ria nº 14 254, de 12 de Março de 1966, que aprovava os Estatutos dos Grémios dos Industriais de Pesca de Angola (BOA, 1966). Julgo que o 1º director do Instituto das Pescas foi o Dr. João Benard da Costa Pereira, economista, vogal da comissão administrativa dos Grémios dos Industriais de Pesca (BOA, 1962) junto do Grémio de Benguela, sendo seu director adjunto o Dr. Agílio Leonardo Teixeira de Sousa e Andrade, licenciado em Ciências Ma- temáticas. Das consultas que fiz sobre estes primeiros tempos de vida do novo Organismo pareceu-me que a sua implantação e desenvolvimento foram lentos, fixando e cobrando receitas próprias, reorganizando as estruturas existentes, desenvolvendo uma intensa fiscaização junto dos industriais e exportadores, saneando enfim, as dificuldades económicas de uma estrutura ultrapassada, caduca, macrocéfala e incapaz de solucionar os problemas do sector. Mais tarde o director que se seguiu, capitão – tenente Luiz Gonzaga Reis recebeu um Serviço liberto de dificuldades económicas, de tal modo que em 1969 as receitas próprias do Instituto das Pescas de Angola atingiam a cifra de 22 571 000$00 no orçamento geral da Província (BOA, 1969) mas volte mos um pouco atrás. A sua orgânica previa também, talvez num plano secundário, a investigação e o primeiro investigador do Instituto foi o nosso colega Alberto Barreiros Saraiva da Costa -primeiramente como interino e depois ocupando o lugar do quadro (BOA, 1964; BOA, 1965), em comissão ordinária de serviço. Mais tarde, em 1968, um outro colega foi contratado como 2º Assistente – o Dr. Manuel Biker de Castro Pi- mentel (BOA, 1968). Ainda mais tarde, em 1973 foi contratado também como Investigador o Doutor Manuel Alfredo Teixeira Coelho. »
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Em Moçâmedes, a criação do Instituto da Pesca levou consigo parte dos antigos funcionários do Grémio dos Industriais de Pesca, enquanto outros, saíram para trabalhar em Bancos, etc. Na altura da transição foi nomeado pelo Instituto da Pesca de Angola para director do Instituto da Pesca de Moçâmedes, o moçamedense Carlos Manuel Guedes Lisboa, industrial de pesca e funcionário do extinto Grémio da Pesca

Finalmente, Moçâmedes exibia já em vésperas da Independência de Angola (1974), 86 sócios incritos dedicados à industria da pesca, sendo a seguinte a relação em 31/12/74, conforme vem descrito no livro de Carlos Cristão «Memórias da Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe (Angola), desde a ocupação efecriva, Lx 2005:

A Industrial, Lda. (Porto Alexandre)
A Industrial do Canjeque, Lda. (Moçâmedes/Canjeque)
A Industrial Conserveira do Sul, Lda. (Porto Alexandre)
A Industrial de Moçâmedes, Lda. (Moçâmedes)
A Mariquita, Ind. Lda. (Moçâmedes)
Abano & Coimbra, Lda. (Porto Alexandre)
Adérito Augusto Sanches, Lda. (Porto Alexandre)
Agripesca Ind. Lda. (Moçâmedes)
Alvaro Thomás Serra Fernandes (Moçâmedes)
Amadeu Gonçalnes e Neves, Lda. (Moçâmedes)
António Francisco Antunes (Porto Alexandre)
António Francisco Baraço (Herds) (Moçâmedes)
Antunes da Cunha, Lda. (Porto Alexandre)
Associação Industrial de Peixe Seco de Moçâmedes (Moçâmedes)
Barbosa & Santos, Lda. (Porto Alexandre)
Beira Mar, Lda. (Porto Alexandre)
Bento & Irmão, Lda. (Moçâmedes)
Cabrita, Lda. (Baía dos Tigres)
Carmo & Martins, Lda. (Porto Alexandre)
Carvalho Oliveira & Cª (Moçâmedes)
Compª de Pesca Angola, Lda. (Moçâmedes)
Compª Ind. e Com. de Pesca Angola, SARL. ( Cipesca-Moçâmedes)
Compª Ind. Produtos do Mar, SARL (Porto Alexandre)
Compª Alexandrense de Produtos de Pesca (Porto Alexandre)
Cooperativa de Produtos do Mar (Porto Alexandre)
Costa & Silva, Lda.
Dafisilva - DA. Figueiras & Silva, Lda. (Moçâmedes)
Dídio Alceu Pimentel Pacheco (Porto Alexandre)
Duarte & Lourenço, Lda. (Porto Alexandre)
Empresa Ind. Farinhas e Oleos de Peixe, Lda. (Porto Alexandre)
Empresa Ind. e Mercantil de Pescas, SARL (Moçâmedes)
Empresa Ind. do Pinda. Lda. (Moçâmedes)
Empresa de Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)
Ferreira & Filhos, Lda. (Moçâmedes)
Francisco Baptista (Porto Alexandre)
Herds Dionísio Costa Tavares (Porto Alexandre)
Humberto Sena Tendinha (Porto Alexandre)
Industrial de Peixe Namibe Lda (Luanda)
J. Patrício Correia, Lda (Moçâmedes)
João Duarte Filhos, Lda. (Moçâmedes)
João Thomás da Fonseca & Cª (Moçâmedes)
Joaquim Conceição Camarinha (Moçâmedes)
José Dias Ferreira (Moçâmedes)
José Domingos da Conceição Martins (Porto Alexandre)
José Evangelista Aldeia (Moçâmedes)
José Joaquim Carreiro Correia (Porto Alexandre)
José Venâncio Delgado (Porto Alexandre)
Juventino Ferreira Graça , Lda. (Porto Alexandre)
Mamedes Sucessores, Lda. (Porto Alexandre)
Manuel Martins Ramos (Porto Alexandre)
Manuel Mendes Mamedes, Herds. (Porto Alexandre)
Mário Lino Caldeira (Porto Alexandre)
Marques & Marques, Lda. (Porto Alexandre)
Mercantil Piscativa, Lda. (Porto Alexandre)
Olímpio Mário Aquino, Lda. (Moçamedes)
Parceria de Pesca, Lda. (Moçâmedes)
Pescaria Algarve, Lda. (Porto Alexandre)
Pescarias Namibe, Lda. (Moçâmedes)
Pestana e Carvalho, Lda. (Moçâmedes)
Rogério Napoleão Gonçalves (Porto Alexandre)
Sampaio (Irmãos), Lda. (Porto Alexandre)
Sancho e Arvela, Lda. (Porto Alexandre)
Sociedade Ango-Algarve, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Armadores das Pescas de Angola, SARL (ARAN - Moçâmedes)
Sociedade Congeladora do Sul, Lda. (Porto Alexandre)
Sociedade de Conservas da Lucira, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade de Conservas Sagres, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Frigo Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Ind. Alexandrense, Lda. (Porto Alexandre)
Sociedade Ind. da Baía dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Ind. do Cabo Negro, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Ind. da Vissonga, Lda. (Lucira)
Sociedade de Pesca da Lucira, Lda. (Lucira)
Sociedade Piscatória dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)
Sociedade Piscatoria do Sul, Lda. (Porto Alexandre)
Sopeixe Ind. SARL. (Porto Alexandre)
Somar, Sociedade de Produtos do Mar, SARL (Moçâmedes)
Sopesca, Sociedade Ang. de Pescarias SARL. (Moçâmedes)
Sul Angolana, Lda (Porto Alexandre)
Tendinha & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)
Trocado & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)
Venâncio Guimarães e Compª. (Moçâmedes)
Venâncio Guimarães Sobrinho, Lda. (Moçâmedes)
Veríssimo & Irmão, Lda. (Porto Alexandre)
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MariaNJardim

domingo, 21 de dezembro de 2008

A primeira traineira de Moçâmedes: década de 1940



Esta enorme «traineira» que aqui vemos em Portimão encostada à muralha do porto, num local muito próximo da conceituada «Casa Inglêsa» (o café que tem à venda o melhor que se fabrica na doçaria regional algarvia), foi uma das primeiras traineiras que sulcaram os mares de Moçâmedes. Ela havia chegado a Portugal, em tempos mais atrás, encomendada pela Cooperativa «Galinho», dedicada à pesca da sardinha, era movida a vapôr através de caldeiras. Mais tarde foi adquirida pela família Grade, por volta de 1940, tendo passado pelos estaleiros de Portimão onde lhe foi submetida a várias modificações, entre as quais, por ex., retirado o cano, por força da adaptação a que fora submetida ao passar a funcionar a motor a gasoil, sendo levada até Luanda num navio e de Luanda para a Baía dos Tigres, o local onde ficava a pescaria do proprietário, pelos seus próprios meios.

Viajaram com ela, António Gonçalves de Matos (Sopapo) e outros algarvios dedicados à arte da pesca, que acabariam por se radicar em Moçâmedes, onde ficaram até à independência de Angola, em 1975. Ao chegar a Moçâmedes foi-lhe atribuido o novo nome, o de «Maria José», nome da filha do proprietário. O primitivo nome que lhe foi então dado foi o de «Nossa Senhora da Luz».


Quando se deu a independência de Angola , a 11 de Novembro de 1975, esta enorme traineira já havia sido vendida a uma sociedade de que faziam parte Virgilio Gonçalves de Matos e Francisco Velhinho e Miguel Freitas. Perante o agravar dos conflitos entre os movimentos em luta, e a degradação das condições de vida na cidade de Moçâmedes, os sócios resolveram partir de avião para o Brasil, enquanto a traineira atravessou o mar, rumo às terras de Santa Cruz, conduzida pelo seu mestre, de origem madeirense, cujo nome não recordo, que com ele levara a família constituída pela mulher seis ou sete filhos. No Brasil, mais propriamente em Santos, esta traineira acabaria por ser vendida dada a dificuldade na aquisição de licenças de pesca para barcos estrangeiros.

Nesse mesmo dia em que a enorme traineira partiu de Moçâmedes, com uma diferença de horas, partiu também na sua traineira rumo ao Brasil, José Vicente Arvela. Nunca se encontraram pelo caminho. A primeira foi dar a Porto Seguro, esta, a S. Salvador da Baía. Imagine-se o que foi a chegada à baía da traineira de José Arvela, sem prévio aviso às autoridades portuárias daquela cidade, com a bandeira portuguesa desfraldada ao vento. A traineira entrou descontraidamente e ficou ali fundeada à espera. Do modo como foram recebidos o seu proprietário jamais esquecerá. A bordo subiu o chefe do Comando do 2º Distrito Naval do Brasil - Salvador da Baía, que logo lhes ofereceu alojamento e alimentação por um ano.

MariaNJardim

Foto gentilmente cedida por Vicente José Arvela, bem como as respectivas informações.

Estaleiros da Torre do Tombo: finais da década de 40

















Foto do livro «Era uma vez Angola... » de Paulo Salvador.

O fluxo de algarvios para Moçâmedes, iniciado em 1860, dez anos após a chegada de portugueses vindos de Pernambuco (Brasil), por força da revolução praeeira, foi o mais importante no que diz respeito ao desenvolvimento da actividade pesqueira em terras do Namibe. Conhecedores que eram das artes de pescar e daquilo que pensavam vir ali a instalar, levaram consigo linhas, anzóis, para a pesca de vários tamanhos de peixes, de fundo e de superfície, chumbadas, roletes de cortiça, cabos variadíssimos, modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc. Mas uma simples rede de não mais que cem braças de comprimento, alada de terra a pulso, não permitia pescar para além do necessário para a subsistência do grupo, não chegava para abastecer o interior nem os povos disseminados pelas altas terras da Huila. Também os pequenos barcos de pesca já não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais algarvios para que viessem instalar os seus estaleiros em Moçâmedes, de modo a que ali construíssem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar. Sobre os primeiros construtores navais que chegaram a Moçâmedes, refere Carlos Cristão em Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola) desde a sua ocupação efectiva:

«(...) A convicção e a vontade de vencer convenceram outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi assim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se transferiram, do Algarve para Moçâmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de «avô Leandro» e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peyroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo. (...)»


Nota: Hoje tive a notícia de que o meu avô paterno Thomás de Sousa estava ligado a
José de Sousa - conhecido por José de Deus, construtor naval de grande prestígio.

MNidiaAJardim

sábado, 13 de dezembro de 2008

Chegada a Moçâmedes/Namibe, da Imagem de Nossa Senhora de Fátima 1948























































































Recepção da imagem de Nossa Senhora de Fátima, à sua passagem por Mossãmedes, no decurso de uma peregrinação (1948) por terras da África portuguesa.

A imagem chegou a Mossãmedes num navio que ficou fundeado ao largo, a meio da baía, uma vez que nesta altura ainda não existia o cais acostável.
À sua entrada na baía, o navio foi escoltado por um cortejo de barcos de pesca engalanados, que incluia dezenas de traineiras e de baleeiras dedicadas a todas as artes de pesca, sacadas, armações, etc., etc., e provenientes de todo o distrito, cujos proprietários demonstravam assim o seu respeito ou a sua devoção à Santa. E o mesmo aconteceu quando do transporte da imagem para a cidade através da ponte de desembarque, entre a Fortaleza de S. Fernando e a Praia das Miragens.

Foram momentos de grande fervor religioso, em que toda a cidade foi para a rua saudar a Sua Santa, e as ruas
encheram-se de arcos enfeitados com flores de papel, bandeiras , disticos, etc., em que toda a gente colaborou.

Já em terra, muitos eram aqueles/as que se ofereciam para ajudar a transportar ao ombro o andor, desde as Irmãs da Caridade aos representantes das forças vivas da cidade, grupos de senhoras religiosas, grupos de homens representantes das mais diferentes profissões e ofícios , etc., etc.

Participaram nesta procissão, que percorreu, serpenteando, várias ruas da cidade, alunos e alunas de todas as Escolas da cidade, as raparigas de bata branca ou vestidas com saia azul escura e blusa branca, os rapazes fardados da Mocidade Portuguesa ( 2ª e 5ª fotos).
Na foto, a Sra que se encontra à dt. a carregar o andor, parece tratar-se de Alzira Madeira (esposa de Gaspar Gonçalo Madeira).

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

E lá para a década de 60, vieram os imponentes edifícios públicos, e outros de vários andares...






























A partir de meados da década de 50, Moçâmedes começou a perder o ar pitoresco que a caracterizava, e começou, paulatinamente, a ser invadida, aqui e alí, por modernos edifícios públicos de algum porte, bem assim como alguns prédios de vários andares, inclusive no centro histórico, descaracterizando a cidade, e tudo isto, escusadamente, numa terra onde o espaço não falta.

As primeiras duas fotos mostram-nos os bonitos edifícios das Finanças e da Associação Comercial (ao tempo da colonização). A 2ª foto mostra-nos três desses novos prédios da baixa de Moçâmedes. O da esq., o mais elevado, veio substituir o antigo Aero-Clube de Moçâmedes, que era à época um prédio bem enquadrado naquele previlegiado local, de esquina para a Praça Leal, ou Praça de Táxis, e que foi pura e simplesmente demolido.

Será que os actuais e futuros dirigentes da ex-Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, irão dar continuidade a esta hecatombe, e que daqui a 10, 20 ou mais anos estaremos em face de um centro histórico completamente descaracterizado, com prédios altos em vez do baixo casario, num autêntico crime de lesa partrimónio histórico e cultural?

Ou será que pelo contrário, os actuais e os novos dirigentes irão ter o sentido histórico que faltou àqueles que ainda no tempo colonial deram início a esta delapidação? Temos notícia que muitos edificios antigos estão a ser recuperados o que denota isso mesmo.
Esperemos que nunca desistam!

Afinal não foi a «Angra do Negro», Mossãmedes, a primeira urbe edificada por europeus em Angola, com um outro fito, o da fixação e desenvolvimento e já que não o de mero um entreposto de escravos? Afinal, não foi a Forteleza de Moçâmedes já construida para um espírito fim que nada tinha já a ver com o que norteou a construção de outras fortalezas?

A cidade do Namibe, que aqui vemos (neste tempo, ainda, Moçâmedes) tem História, que só é possível contá-la e recontá-la aos vindouros se a «Angra do Negro» e a Mossãmedes de outros tempos continuar a ser lembrada...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Quiosque de Moçâmedes (Quiosque do Faustino) em fase de construção e já pronto e enquadrado na Avenida.














O QUIOSQUE DA AVENIDA (Quiosque do Faustino)

Este Quiosque (1ª foto) foi construido na década de 40, no centro da Avenida da República mais conhecida por Avenida da Praia do Bonfim, precisamente no local onde se encontrava antes um obelisco (2ª foto, tirada em 1939) que foi transferido para o largo em frente à casa comercial de João Pereira Correia (5ª foto), próximo do «Bairro da Facada». Por curiosidade direi que o transporte do referido obelisco foi efectuado em «vagonetas» rolando sobre carris que foram na altura colocados apenas para o efeito, ao longo da Avenida e até ao novo local, sendo em seguida retirados.

Este Quiosque tinha a côr rosa, e nasceu com um belo enquadramento, mesmo ao centro dos jardins da vasta Avenida, todo ele rodeado de canteiros cobertos de coloridas flores, que foram ali plantadas e medraram como jamais havia acontecido. Sabemos que recentemente a côr do Quoisque foi mudada para amarelo laranja, uma côr mais ao gosto dos povos dos trópicos. Também sabemos que este Quiosque sofreu algumas alterações na sua estrutura, com o acrescento de mais um pequeno andar.
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Remontando a meados dos anos 40 do século passado, antes da construção
deste Quiosque, existia perto do local um outro tipo de Quiosque (2ª foto), bastante mais pequeno e estreito, em ferro pintado de cor escura, com o tecto branco e com idênticas funções, porém acabou por ser retirado e nunca mais ninguém soube o que foo feito dele. Era um Quiosque idêntico aos que existiam em Lisboa e que também haviam sido retirados mas que têm vindo a ser recolocados, num gesto de grande sensibilidade estética, cultural e histórica. O pequeno e antigo Quiosque de ferro podia ter sido aproveitado tal como foi o obelisco, e colocado em outro local; ele fazia parte do património urbanístico da cidade, mas provavelmente foi alvo da insensibilidade das autoridades competentes, e teria acabado num qualquer amontoado de «ferro velho».

Era em redor desse pequeno e primitivo Quiosque que no decurso da 2ª Grande Guerra Mundial (1939/1945) se reuniam os homens da terra para ouvirem os noticiários difundidos pela BBC de Londres. Nessa altura Moçâmedes ainda não possuía luz eléctrica no interior das casas, apenas existiam alguns candeeiros de rua, e eram poucas as famílias que na cidade possuíam aparelhos de rádio que na altura eram alimentados a bateria.
A 2ª Grande Guerra Mundial, conflito que opôs os Aliados à Alemanha e causou o maior número de vítimas em toda a história da humanidade, estava na ordem do dia, e os homens da terra agarravam-se aos noticiários porque ainda tinham presente no seu pensamento essa outra guerra deflagrada em 1914/18, que envolvera as nações mais ricas europeias, e cujos antagonismos económicos, coloniais e políticos ameaçaram arrastar a África para o conflito.

Refiro-me às campanhas de África e ao desastre de Naulila, (18 /Dezembro/1914), que levou as forças expedicionárias portuguesas que haviam desembarcado em Mossãmedes a 9 de Outubro de 1914, a recuarem perante esse ataque alemão que havia surgido da Damaralândia. Os alemães, aproveitando a animosidade dos cuanhamas, atravessaram o Cunene e chacinaram as guarnições portuguesas, no começo da guerra de 14-18. Também em Mossãmedes haviam desembarcado, em 7 de Abril de 1915, as forças do general Pereira D'Eça para vingar a derrota de Naulila e recuperar o Cuanhama. Em 2 de Setembro com a ocupação da capital, N'Giva, terminava essa campanha.

A Alemanha dera o salto económico mais prodigioso da História entre 1880 e 1914 e não aceitava a partilha da Ásia e da África ocorrida em prol dos supostos descobridores,
numa época de forte concorrência entre as potências europeias na busca de mercados consumidores e de matérias-primas... E assim, a cobiça juntou-se à vontade de ser a nação mais poderosa do "mundo", e a guerra de 14/18 aconteceu, como voltaria a acontecer em 1939. Portugal defendeu sempre, e a todo o custo, as fronteiras de Angola da intromissão de eventuais cobiçosas potências estrangeiras, e a despeito dos erros cometidos no decurso da colonização, o que ninguém poderá negar nunca é que o povo angolano ficará para sempre a dever aos portugueses a definição das fronteiras do imenso território que receberam na hora da Independência e a sua própria identidade angolana.

Voltando ao Quiosque da foto, recordo que na década de 50 ele transformara-se no ponto de encontro de um grupo de «velhotes» da terra que ali se reuniam religiosamente ao fim do dia e até à hora do jantar para um agradável convívio. O mundo vivia então o tempo da «Guerra Fria», e as notícias, ainda que continuassem a interessar, já não tinham o anterior impacto, até porque no pós guerra Moçâmedes passou a ter a sua luz eléctrica e grande parte da população já ouvia os noticiários em suas próprias casas, nos novos aparelhos de rádio. O que interessava então era a agradável «cavaqueira» , uma partida de damas ou dominó, enquanto se tomava a tradicional «bica» ou outra bebida qualquer e ouvia as habituais anedotas do veterano Virgilio Gomes (do Armazém), ou Virgilio Russo, também «carinhosamente» conhecido por «Virgilio aldrabão», devido ao insólito dessas mesmas anedotas. Outro dos habituais frequentadores deste Quiosque era o industrial e comerciante João Duarte, proprietário de uma pescaria na Praia Amélia. João Duarte deslocava-se para ali religiosamente, todos os dias, ao declinar o sol, na
sua «limousine» conduzida pelo «chauffeur», levando na mão a sua bengala que nunca largava(3ª foto). Frequentava também este Quiosque, os velhos Pequito, Pimentel Teixeira, Cabral (conhecido por «caído da Lua»), Ringue (solteirão de origem holandesa, domiciliado no Hotel Moçâmedes, ex-produtor de tabaco, que viveu os últimos anos da sua vida como tradutor de algumas empresas da cidade), para além de outros, cujos nomes de momento não me ocorrem.

Ladeando lateralmente os jardins da Avenida, do lado da Praia das Miragens, ficava um belo caramanchão onde cresciam belas trepadeiras cobertas de flores vermelhas que era um gosto de se ver. Frequentava na época essa zona, não no Quiosque mas ali perto, uma figura típica , natural de Moçâmedes, que em tempos havia sido um brilhante administrativo mas que por motivos que desconheço acabaria por perder o tino, e eis que levava os seus dias sentado religiosamente no mesmo banco do jardim, que funcionava como fosse o seu local de trabalho. o "escritório" do Faria das Baleias. Faria apesar de indigente, nunca perdeu a sua educação e cumprimentava sempre, atenciosamente, toda a gente que via e que por ali passava. bandonado pelos seus como se dizia, tinha por companheiros os seus muitos cães.


MNJardim

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O perfil moral dos colonos fundadores da cidade de Mossãmedes em 1849 e em 1850



Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (14.12.1809 /14.11.1871)
Nogueira do Cravo - Recife - Mossâmedes
Político, militar, exilado, professor, escritor, patriota, colono, juiz e agricultor; fundou a cidade de Mossâmedes em 04.08.1849.
COLÓNIA DE MOSSAMEDES.


O perfil moral dos antigos colonos


Na obra «Moçâmedes», 1º volume, Manuel Júlio de Mendonça Torres avança as qualidades de carácter que na sua óptica enformam o perfil moral dos antigos colonos que chegaram a Mossãmedes, idos de Pernambuco (Brasil), em 1849 e 1850. São elas: honestidade, o amor da pátria, o sentimento religioso, a energia da vontade e a paixão exaltada.


O escritor procura fundamentar o seu critério, fazendo apelo aos seguintes testemunhos:

1. Declarações do Ministro Visconde de Castro efectuadas em sessão parlamentar de 12 de Junho de 1849, onde sublinha que nos actos da Comissão de Pernambuco «presidiu a maior circunspecção na escolha, que fez, das pessoas que deviam formar a colónia», e que ele próprio «proibiu que da colónia fizessem parte degredados».


2. Instruções de 16 de Abril do mesmo ano dirigidas a Sérgio de Sousa determinando que fossem vedadas licenças de embarque para as colónias a degredados por crimes graves e atentatórios das garantias sociais, bem como a condenados pelo crime de tráfico de escravatura, sendo ainda estabelecido que nenhum dos moradores da Província poderia estabelecer-se na Colónia sem provar não estar incurso naquelas excepções, por justificação em julgado (Instruções, artº 21º.).


3. Instruções Provinciais de 30 de Março de 1849, pelas quais o Major Ferreira da Horta teria de se regular no estabelecimento da Colónia de Pernambuco, através das quais o Governador Geral da Província Silveira Pinto recomendara que «os Portuguesas que vinham formar a colónia fossem tratados com o maior cuidado, atenção e carinho», atitude reveladora do alto conceito que este Governador possuia em relação aos componentes dessas duas colónias.


4. Documento com que no decurso das suas pesquisas se havia deparado na Secretaria da Câmara de Moçâmedes, referido a 23 de Março de 1859, onde se salienta «...nunca lhes haver cabido até àquela data a responsabilidade de uma única infracção das leis penais, asseverando aquele documento que para bem assegurar a índole de um povo, era costume recorrer-se à crónica judiciária.»


Mendonça Torres considera ter havido por parte dos governantes da época uma clara intenção de assegurar os melhores resultados para a colonização do sul de Angola evitando que os colonos viessem a ser contaminados em seus contactos por gente de outros caracteres que não os seus, ou seja, por degredados por crimes graves e atentatórios das garantias sociais, bem por condenados pelo crime de tráfico de escravatura. E avança ainda alguns aspectos que considera bastante reveladores das qualidades de carácter que atribui aos colonos de 1849 e 1850:


O Amor da Pátria, como qualidade de carácter dos primitivos colonos, encontrava-se, para Mendonça Torres patente na sua renuncia a renegar a Pátria, atitude também salientada pelas referências do antigo Governador de Moçâmedes, Alfredo Felner ao periódico «Mossãmedes» de 04 de Agosto de 1926.


O Sentimento Religioso estava para Mendonça Torres sobremaneira representado na Escritura de Promessa e Voto, de 4 de Agosto de 1859.


A Energia da Vontade encontrava-se para o mesmo autor patente quando a seguir aos momentos de profundo desalento que invadiram os ânimos dos colonos logo após a sua chegada a Moçâmedes (tantas haviam sido as desgraças sofridas e os revezes suportados), são dominados por uma febril e perserverante ânsia de actividade do que resultou o sucesso da colonização de Mossãmedes. 

A este respeito transcrevem-se as palavras de Alfredo Felner:


«O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a 4 de Agosto de 1859, ao festejarem o seu 10º aniversário, verificaram haver feito: nas margens do Bero que tiveram que conquistar e defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraul, três; no Bumbo, duas: em S. Nicolau, três: no Carunjamba, uma; no Coroca, três: na Huila, sete; e, ainda, a ocupação comercial dos Gambos, da Camba, do Humbe e do Malondo, percorrendo o Sul de Angola emtodas as direcções, com as suas caravanas. e levando a sua penetração, até além Cunene aonde iam buscar o marfim. Pela Alfândega de Moçâmedes tinham exportado em 1858 e 1859: vinte e oito toneladas de cera, vinte e um mil couros; cento e oitenta bois, quatro mil e quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe, sete mil novecentos e cinco quilos de marfim, seiscentos e quarenta toneladas de peixe seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze toneladas de batata e dezasseis toneladas de carne seca.


Que mais queriam que fizessem ?
Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a comoção dum sacerdote, ao abrir o Relicário, para mostrar a Hóstia Sagrada.
Faço-o perante o Altar da Pátria, com a mesma unção com que os sacerdotes o fazem perante Deus. »
(Do periodico Moçâmedes, de 4 de Agosto de 1926).

A Paixão Exaltada, é representada pelo protesto apresentado a 26 de Novembro de 1857 , em plena sessão, por uma Comissão do povo à Câmara Municipal, contra a ordem tida por injusta e violenta do assentamento de praça a dois colonos, ordenada pelo Governador, Fernando da Costa Leal. E também no requerimento dirigido à Câmara Municipal, em 27 de Fevereiro de 1866, por um grupo de colonos, onde são feitas acusações ao Governador Fernando da Costa Leal, cujo final versava assim:


« lembrados de como nossos avós falavam às autoridades, chegando a dizer a um rei absoluto, se nos não governar bem escolheremos outro melhor, não o queremos mais uma hora, nem mais um momento, governador deste distrito; que nos não obrigue a lançar mão dos últimos recursos para o conseguirmos e para que estamos todos dispostos».


A este respeito, Mendonça Torres lembra ainda a campanha movida nos anos 1880 e 1881 contra o governador José Bento Ferreira de Almeida, que envolveu:

1. requerimentos aos governos Central e da Província pedindo uma sindicância aos actos do Governador;


2. autorização concedida pela Câmara ao seu presidente para passar procuração ao dr. Manuel de Arriaga, advogado em Lisboa, a fim de requerer em juízo, a expensas dos munícipes, procedimento criminal contra o Governador, por ter atribuido, falsamente, ao povo de Moçâmedes, a intenção de uma revolta para depor o governo legalmente constituido;

3. representação do Rei, a renovar o pedido de sindicância contra um funcionário (dizia a representação) « que abusou demasiadamente do poder que Sua Magestade lhe confiou», e, ainda, o opúsculo intitulado Sobras dum Governo, do tenente Rogado Leitão, em resposta à conferência proferida por Ferreira de Almeida, na Sociedade de Geografia, em 20 de Novembro de 1880, publicada depois em livro, no qual (escreve Rogado Leitão) «a falta de verdade e o ódio ressaltam de página em página, e o leitor chega à persuasão de que foi escrito num momemto de inconveniente irritabilidade; não persuade, não aduz, não edifica; decompõe, aumenta e vicia».

Pesquisa e texto de MariaNJardim

Bibliografia consultada: «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres
«Quarenta e cinco Dias em Angola»

domingo, 2 de novembro de 2008

E a cidade começou a encher-se de bonitas vivendas...































































Foi graças à Sociedade Cooperativa « O Lar do Namibe», nascida na década de 40, tendo como Presidente Mariano Pereira Craveiro, que os moçâmedenses, gente que na sua maioria vivia do produto do seu trabalho, puderam finalmente aceder ao velho sonho de ter casa própria, através de reduzidas quotizações mensais que iam ali depositando, sendo a aquisição do direito de construção efectuada através de três sistemas, um por sorteio mensal entre os associados, outro por número de ordem de antiguidade (número de ordem também ele efectuado por sorteio na fase de arranque da referida Cooperativa), e outro por leilão. Foi assim que começaram a surgir bonitas vivendas e moradias que ofereceram à cidade um toque de modernidade, enquanto se ia alargando em várias direcções, vencendo determinadamente as soltas areias do deserto.

Mas a actividade da «Cooperativa o Lar Namibe» não se limitou apenas à cidade que a viu nascer, ela acabou por se estender, numa primeira fase, à cidades de Porto Alexandre (hoje Tombwa), em seguida a Serpa Pinto (hoje Menongue), acabando por se expandir por toda a Angola e restantes ex-províncias ultramarinas, chegando mesmo à Metópole onde já havia associados.


Esta Cooperativa foi um bem para a cidade , uma vez que não existiam à data financiamentos bancários à habitação própria, e muito poucos podiam dispor de capitais próprios para o fazer. Faço aqui uma referência especial à cidade de Serpa Pinto que estava a ser praticamente urbanizada pela «Cooperativa o Lar do Namibe» que a transformou de uma vila do interior numa cidadezinha bonita e moderna, à base de lindas vivendas, em cujas fachadas ainda hoje se podem ver os azulejos com o distintivo desta Cooperativa.

Mariano Pereira Craveiro, o Presidente da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe», era um Republicano de raiz maçónica oposicionista ao regime. Ele fez parte, juntamente com Carlos Martins Cristão e outros moçamedenses, da campanha a favor do General Humberto Delgado, o General sem Medo,(*) nas eleições presidenciais realizadas no ano de 1958 contra o Almirante Américo Tomás. Recordo ainda o discurso arrebatador proferido por Carlos Martins Cristão que, sentado a seu lado no palco do Cine-Teatro de Moçâmedes, com a sua forte e bem timbrada voz, dizia, referindo-se ao regime vigente: «Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...

Aqui fica a minha humilde homenagem à memória do grande «Patrono» que foi MARIANO PEREIRA CRAVEIRO, figura que merece ser erguida das brumas do esquecimento e ser para sempre lembrada, mesmo ainda hoje na cidade do Namibe (ex-Moçâmedes). Aliás, Mariano Pereira Craveiro mereceria, desde logo e ainda hoje, ter o seu nome ligado ao grande largo existente na cidade de Moçâmedes que se encontra totalmente rodeado por casas construidas pela «Cooperativa o Lar do Namibe».

* - Video discurso de Salazar sobre Hu

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Ruas e prédios da baixa da cidade...













































1ª foto: Rua das Hortas, podendo ver-se, à dt. a firma Robert Hudson, Lda.

2ª foto: Rua das Hortas. À dt., a loja Graça Mira e Jacinto

3ª foto: Rua dos Pescadores, zona do Hotel Moçâmedes (à esq.).

4ª foto: Avenida da Praia do Bonfim

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Carta de Roberto Ivens a Hermenegildo Capelo, Mossãmedes (1850-1898),









1. Cópia de uma carta escrita por Roberto Ivens escrita a

«Bordo do Angola à vista de Mossãmedes 1884
Meu caro Jaime
Duas linhas a pressa porque estou aqui estou a desembarcar. Recebo todas as tuas cartas e agradeço. O que houver de interessante eu enviar-te-hei.
Está definitivamente organizada a expedição. Vão aqui a bordo 82 pessoas connosco.
Capello e eu explendidamente bem dispostos. Muitos exploradores allemães em toda a costa.
Vamos começar pelo Cunene, ..»

2. Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo no Cão da Boa Esperança: 1886
3. Selo
.........
No reinado de D. Luís grandes explorações científicas se efectuaram através do continente africano.A partir de 1880, em face do início da industrialização da Europa, aguçou-se o apetite por colónias em quase todos os países europeus. A Europa precisava de matérias primas (minérios especialmente) e novos mercados. A África e Ásia ficaram na mira das potências europeias, que começatam a degladiar-se naqueles continentes e nas chancelarias. Foi quando Bismarck convocou a célebre conferência de Berlim(1885) para a partilha de África, segundo moldes ditos civilizados. Portugal foi obrigado a fazer a ocupação efectiva de Angola.
Transcrevo partes de um texto de Wikipédia:
De 1877 a 1880, Roberto Ivens com Hermenegildo Capelo e, em parte, com Serpa Pinto, ocupou-se na exploração científica de Benguela às Terras de Iaca.

Face às mais que previsíveis decisões da Conferência de Berlim era preciso demonstrar a presença portuguesa no interior da África austral, como forma de sustentar as reivindicações constantes do mapa cor-de-rosa entretanto produzido. Para realizar tão grande façanha, são nomeados Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens.

Feitos os preparativos, a grande viagem inicia-se em Porto Pinda, no sul de Angola, em Março de 1884. Após uma incursão de Roberto Ivens pelo rio Curoca, a comitiva reúne-se, de novo, desta vez em Moçamedes para a partida definitiva a 29 de Abril daquele ano.

Foram 14 meses de inferno no interior africano, durante os quais, a fome, o frio, a natureza agreste, os animais selvagens, a mosca tsé-tsé, puseram em permanente risco a vida dos exploradores e comitiva. As constantes deserções e a doença e morte de carregadores aumentavam o perigo e a incerteza. Só de uma vez, andaram perdidos 42 dias, por terrenos pantanosos, sob cndições meteorológicas difíceis, sem caminhos e sem gente por perto. Foram dados como mortos ou perdidos, pois durante quase um ano não houve notícias deles.

Ao longo de toda a viagem, Roberto Ivens escreve, desenha, faz croquis, levanta cartas; Hermenegildo Capelo recolhe espécimes de plantas, rochas e animais.

A 21 de Junho 1885, chega a finalmente expedição a Quelimane, em Moçambique, cumpridos todos os objectivos definidos pelo governo.Na viagem foram percorridas 4500 milhas geográficas (mais de 8300 km), 1.500 das quais por regiões ignotas, tendo-se feito numerosas determinações geográficas e observações magnéticas e meteorológicas.

Estas expedições, para além de terem permitido fazer várias determinações geográficas, colheitas de fósseis, minerais e de várias colecções de história natural, tinham como objectivo essencial afirmar a presença portuguesa nos territórios explorados e reivindicar os respectivos direitos de soberania, já que os mesmos se incluíam no famoso mapa cor-de-rosa que delimitava as pretensões portuguesas na África meridional.

Estas viagens deram origem a duas obras: De Benguela às Terras de Iaca e de Angola à Contra-Costa.

domingo, 26 de outubro de 2008

Inauguração do 1. troço das obras do cais de Mocamedes em 24.05.1957










Fotos do meu álbum pessoal.

Fotos históricas, marcam o momento da chegada do Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo a Moçâmedes, no paquete Uíge, em 24.05.1957, para inaugurar o 1º troço das obras do cais do porto de cais, que haviam sido iniciadas no dia 24.06.1954, por ocasião da visita do Presidente da
República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.

Na 1ª foto, uma perspectiva da falésia, na zona da Ponta do Pau do Sul e dos estaleiros, por ocasião dos trabalhos de construção do cais de Moçâmedes. Ao fundo, e no ar, podemos ver o fumo de explosivos. Mais próximo, o vulto do topógrafo fazendo as medições com um teodolito .

Na 2ª foto, devidamente engalanado, podemos ver o paquete «Uije», o primeiro a aportar ao cais de Moçâmedes. Junto do nanio, parte da multidão que ali se deslocara para assistir à inauguração.

Na 3ª foto, uma perspectiva mais próxima da multidão que se aglomerou junto ao cais, em que se pode ver, enfileiradas, as alunas do Colégio de Nossa Senhora de Fátima de Moçâmedes, devidamente fardadas com a tradicional saia azul escura, blusa e chapéu brancos. Reconhece-se à esq. Mário António Gomes Guedes da Silva, à época funcionário do Grémio da Pesca de Moçâmedes; ao centro, Mário da Ressurreição Maia Rocha, Chefe de Repartição da Câmara Municipal de Moçâmedes. Mais à dt., o professor Canedo.

Na 4ª foto, a receber o Governador Geral de Angola, encontra-se a graciosa basquetebolista do Ginásio Clube da Torre do Tombo, Celísia Vieira Calão, que faz a entrega das «chaves da cidade». A descer a escada do navio, de fato escuro, o então Governador do Distrito de Moçâmedes, Nunes da Ponte.

A 5ª foto, regista o momento do descerramento da placa comemorativa da inauguração do 1º troço do cais do porto de Moçâmedes, em 24.05.1957, pelo Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo.

Na 6ª foto, o Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo encontra-se no topo da falésia, tendo a seu lado o Governador do Distrito de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte. No cais, junto do paquete «Uije», parte da multidão que ali se delocara para assistir à inauguração.

A 7ª foto regista o momento do discurso de Raul Radich Jr., à época Vice Presidente da Câmara de Moçâmedes. O Presidente era o Dr. Mário Moreira de Almeida (médico).

No decurso desta visita foi também inaugurado o novo edifício-sede do Grémio dos Industrias da Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, e assistiu-se à cerimónia da colocação da primeira pedra que deu início à construção do complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, ambos os actos presididos pelo Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo.

Para ver fotos sobre a visita do General Craveiro Lopes a Moçâmedes e da cerimónia da colocação da 1ª pedra, que em 24.06.1954 deu o arranque à construção do cais de Moçâmedes, clicar AQUI.
Fotos gentilmente cedidas por Amilcar de Sousa Almeida e Celísia Calão.

Alguns documentos Documentos -de Conhecimento de Embarque de 1899.



Sobre exportações de Moçâmedes e Porto Alexandre, encontrei estes documentos muito antigos, que resolvi por curiosidade colcar aqui:

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1899.

Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Ambaca, ancorado no porto de Moçâmedes, com destino a São Tomé. Documento datado de 6 de Abril de 1899. A carga despachada por

para Joaquim Seixas constava de 40 malas com peixe.
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Os 23 conhecimentos de embarque da Empresa Nacional de Navegação consultados, referentes ao período entre 1885 e 1905, incluem 12 documentos de exportação de Angola para S. Tomé – 1 de Porto Alexandre [Tombua], 6 de Moçâmedes [Namibe], 1 de Benguela e 4 de Novo Redondo [Sumbe].

As exportações de Angola eram constituídas pelo seguinte – de Porto Alexandre, peixe seco; de Moçâmedes, bois, peixe (sem indicação de qualquer tratamento) e peixe seco; de Benguela, carne, fubá e tabaco; e de Novo Redondo, aguardente, feijão, fubá e mantimentos não especificados.
As exportações de Porto Alexandre foram efectuadas pela Companhia de Moçâmedes; as de Moçâmedes por Manuel José Alves Bastos, posteriormente (pelo menos a partir de 1897), pela Viúva Bastos & Filhos, e por Torres & Irmão; as de Benguela por Francisco José Freitas; e as de Novo Redondo por Alexandre da Costa, Guimarães & Irmão, e Ferreira Marques e Fonseca.

Em S. Tomé, os destinatários da mercadoria eram C. Palanque (peixe seco de Moçâmedes), Mateus de Bono Paula, administrador da Roça Monte Café (peixe seco de Porto Alexandre e peixe de Moçâmedes), Ricardo Spengler, e Joaquim Seixas (peixe de Moçâmedes).

Até 10 de Julho de 1888, o imposto de selo pago na alfândega de S. Tomé, para produtos vindos de Angola, era de 60 reis, estando documentado um aumento para 80 reis a partir de 16 de Janeiro de1892.

Documentos - Conhecimento de Embarque de 1900

Conhecimento de embarque de mercadorias no vapor Cabo Verde, ancorado no porto de Moçâmedes, com destino a São Tomé. Documento datado de 10 de Maio de 1900.

A carga despachada por Torres & Irmão para Matheus de Bono Paula, administrador da Roça Monte Café, constava de 30 malas com 60 arrobas de peixe comum.

In blogdaruanove

sábado, 25 de outubro de 2008

Companhia Commercial d'Angola, mais tarde Hotel Moçâmedes















Edifício da Companhia Commercial d'Angola - colecção Bilhetes Postais de João Loureiro. Observem nesta imagem, a traça clássica do edifício, os carros de tracção animal e outros pormenores como o candeeiro a gaz, a bandeira (da Companhia?)...
Este edificio, situado na baixa da cidade, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua de S. Joao , e mais tarde transformado no Hotel Mossamedes", e, como podemos ver, mais um dos edificios da cidade que seguiu o estilo urbanístico oitocentista e classista, na linha do Palácio/Residência do Governador e do edificio dos Caminhos de Ferro de Mossamedes e antigo Hospital, com frontão triangular encimando a entrada, vãos de arco redondo nas fachadas, e platibanda dominando toda a frontaria, como era comum na época em edifícios públicos na epoca.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Fábrica Africana : Companhia do Sul de Angola (posteriormente SOS)
























Trata-se da primeira fabrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 , a Fábrica Africana Figueiredo e Almeida, Lda. Desta Fábrica dizia-se, era proprietária a Companhia do Sul de Angola. Há uma referência no livro de Paulo Salvador «Era uma vez...Angola » a um Sr. de nome Santana como o proprietário da referida Fábrica (?). Repare-se na 2ª foto, os Srs. de chapéu e gravata à porta da entrada da Fábrica, que sugerem ser um dos donos e familiares...

Esta fábrica (foto 10 e 11) foi
destinada de início a enlatados dos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria, conf. consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes. Aliás, no topo das janelas da Fábrica Africana , encontrava-se escrito os produtos enlatados que ali se produziam: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc., bem como símbolo da Fábrica, uma águia (fotos 10 e 11).

A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe.

O peixe era transportado para o interior da fábrica através de «vagonetas» sobre linha férrea, que ali faziam a sua entrada, em linha recta (fotos 2 e 11), onde era descarregado para ser escalado (7ª foto) e cozido em grandes caldeirões (9ª foto). Em seguida vinha a fase do enlatamento (5ª e 8ª fotos).
No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano como aqui podemos ver (8ª foto).

Há indicações que na década de 20 e 30 exportava-se para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e o Gabão produtos de alta qualidade que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levaria ao surgimento de novas conserveiras.

Sobre a indústria conserveira de Moçâmedes transcrevemos a seguir uma passagem de um apontamento histórico
de Antonio Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa que encontrei na Net, subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar- Um apontamento historico», onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 20, e 30 do século passado:

«... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, ...
«No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. »
(...)

Mais tarde esta fábrica viria passar para novos donos e mudar a designação para a Sociedade Oceânica do Sul (SOS), que pertenceu ao Capitão Josino da Costa, creio que até finais dos anos 50.
Olimpio Aquino era nesa altura o gerente da parte fabril.

Na década de 60, e após um período aureo de grande produção como Sociedade Oceânica do Sul (SOS), esta fábrica deixou pura e simplesmente de produzir e, vendida a Gaspar Gonçalo Madeira, acabaria por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique.

Pesquisa e texto de MNidiaJardim

Créditos de Imagem
Fotos de ICCT (1 a 7)
foto Salvador (n.12).
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Mensagem aos visitantes: Tudo neste blog está em aberto para alguém que queira colaborar com mais informações quer sobre este assunto quer sobre os resta
nt

WELWITSCHIA MIRABILIS


WELWITSCHIA MIRABILIS

Moçâmedes é a terra de nascimento da minha mãe e da minha avó e avô maternos e, foi lá que aportou a minha bisavó materna quando ainda tinha poucos anos de vida, depois de uma longa viagem com início na ilha da Madeira.

E é precisamente no deserto de Moçâmedes que se encontram os ÚNICOS exemplares da espécie da flora deste nosso planeta - a WELWITSCHIA MIRABILIS - que eu enquanto residi em Angola tive a oportunidade e a felicidade de a ver e apreciar

A 3 de Setembro comemora-se o dia da Welwitschia Mirabilis, planta desértica, descoberta nesta data no ano de 1859 pelo botânico explorador austríaco Frederich A. Welwitsch
Frederic Welwitsch (1809-1878) foi para Lisboa em 1839.
Posteriormente conseguiu autorização para entrar em Angola, para onde embarcou
a 8 de Agosto de 1853.
Fez demoradas explorações botânicas e descobriu a Welwitschia Mirabilis no deserto de Moçâmedes (actualmente com o nome de Deserto do Namibe).

A planta que recebeu o binome de Welwitschia Mirabilis Hook. F. era tão diferente, morfologicamente de todas as espécies botânicas conhecidas, que dada a grandeza dessa diferenças, não “cabia” em nenhum dos géneros já descritos.
Houve, por isso, a necessidade de criar um género novo, o qual ainda se conserva, como uma única espécie consequentemente.
Houve ainda que definir uma nova família de plantas para este único género, a família das WELWITSCHIACEAE.
WELWITSCHIA , é também conhecida por "Tumbo", pelos autóctones, nativos da região do deserto de Moçâmedes.


As suas flores são unisexuadas.
Os estames masculinos atingem aproximadamente 6 cm (antenas com 3 divisões) localizam o óvulo estéril envolto pelo periano.



Welwitschia é uma planta da família das gimnospérmicas adaptada á vida nas regiões desérticas da África tropical.
É uma planta acaule de grandes dimensões, com a forma de um gigantesco cogumelo dilatado e côncavo de 50 a 75 cm de altura que parece partida pelo golpe de um machado em tiras. As suas grandes folhas, duras e muito largas, deitadas no chão, arrastam-se pelo deserto podendo atingir dois ou mais metros de comprimento.

Diversos trabalhos mundiais sobre a Welwitschia encontram-se em exposição em vários
Jardins botânicos espalhados pelo mundo.

Que se encontram descritos no livro Botanical Gardens of the World

Entre outras pessoas que deram igualmente o seu contributo na pesquisa desta espécie no período de 1953 a 1955, podemos destacar os seguintes Professores:
A.H. Church,
E. Salisbury,
Henri Humbert,
Jose Dalton Hooker,
Luís Wittnich Carrisso,
Melo Geraldes,
R. J. Rodin,
W.J.Hooker
Mais recentemente, Maria Helena Boavida
Coisas que já se disseram acerca da "welwitschia mirabilis":

"A "welwitschia mirabilis", descoberta nas vizinhanças do Cabo Negro, da costa odicental africana, é a mais curiosa das gnetaceas e talvez que de todas as dicotiledoneas. Este bizarro vegetal é conhecido entre os indígenas pelo nome de TUMBO."
(Dr. José Dalton Hoecker, Presidente da Socidade Real de Londres e sócio da Academia das Ciências de Paris)
"Uma das curiosidades do deserto de Moçâmedes é a célebre "welwitschia mirabilis", planta estranha, verdadeiro aborto do reino vegetal. O caracteres aberrantes do seu aparelho vegetativo, conferem-lhe um lugar de destaque no conjunto das formas vegetais."
(Dr. Luís Wittnich Carrisso, Professor de Botânica da Universidade de Coimbra.)
"A "welwitschia mirabilis" é uma das maiores maravilhas que tem produzido a natureza."
(Dr. Augusto Henriques Rodolfo Griesbach, Professor de Botânica da Universidade de Göttingen)
"É sem sombra de dúvida a planta mais maravilhosa e também a mais feia que jamais trouxeram a este país."
(Regius Keeper, do Royal Botanic Gardens, Kew - 1863)
"Foi nos anos de 1858/59 que o botânico austríaco Dr. Welwitsch, contratado pelo governo português, descobriu e classificou a "welwitschia mirabilis", dando-lhe o nome de "tumboa bainesii". Os caracteres desta notável planta são de tal modo desconsertantes, que vindo a ser estudada há perto de 80 anos pelos mais eminentes botânicos, ainda hoje se discute qual o lugar que lhe compete na escala botânica, como se pode ler nos autores citados e nos trabalhos de Baines, Anferson, Júlio Henriques, Hallier, Chodal, etc..
A "welwitschia mirabilis" por consenso geral é tida como a maior descoberta botânica do século XIX e, em todo o globo, é o distrito de Moçâmedes o único lugar em que ela vegeta, havendo centenas de milhares na parte desértica, desde os minúsculos exemplares, até aquelas que, pelo seu porte, demonstram uma existência multissecular."
(M.A. de Pimentel Teixeira)
Consultar ainda:

in PSITACIDEO
........
Mais sobre o assunto:
explorador zoologico Francisco Newton in
http://www.triplov.com/newton/welwits.html

Banha de Andrade O Naturalista José de Anchieta

http://hybris.no.sapo.pt/newton/welwits.html

sábado, 4 de outubro de 2008

Manuel Abreu (o Mata-porcos), exibindo um troféu de caça, uma leoa abatida no Deserto do Namibe - 1922

Adelino Torres (texto completo AQUI)





























































































































































Noutros tempos dizia-se que leões rondavam vila de Mossãmedes... prova está aqui. Havia mesmo leões em zonas circunvizinhas.

1ª foto:
Manuel Abreu, mais conhecido por «mata-porcos»

2ª foto: Crianças da familia observam, no quintal da casa de Manuel de Abreu, a leoa abatida.

3ª foto: Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes na frente de uma carrinha «Brokway». Na esquina desta Rua ficava a Loja de Rogério Ilha, na rua morava a família Anselmo e os Armazéns de Antunes da Cunha

4ª foto: Exibindo o troféu de caça. De braços no ar, Mata-Porcos, e Raul de Abreu

5ª foto: Grupo de que faz parte Angelo Abreu (1º à esq.), Manuel Abreu (5º, à partir da dt.) e esposa (senhora 3ª à esq. da qual apenas se vê o chapéu), João Abreu? e algumas senhoras vestidas a preceito, entre as quais sentada e a segurar o chifre do guelengue, Emilia Abreu (?)...

6ª foto: Manuel Abreu, David Abreu (óculos). António Abreu (?)...

7ª foto: Manuel Abreu (no interior da «Brokway»)

8ª foto: Manuel Abreu (3º, à dt.), David Abreu (2º à dt.), Raul Abreu ao volante

9ª foto: Manuel de Abreu à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com carroceria a camionete para que todos pudessem se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe. O 2º à dt., de branco é filho de Manuel, o Raul de Abreu, o 3º, David Abreu... Anos 30.
Imagino como seria o primeiro carro de Mossãmedes, o carro do Dr. Lapa e Faro, médico na década de 1860 em Mossãmedes, que ohavia mandado construir para transportar as pessoas para caçadas pelos areais do deserto. Tratava-se de um carro que além de conduzir passageiros, servia também para transportar doentes e combalidos.

10ª. foto: Manuel de Abreu com os seu grupo de familiares e amigos exibindo o troféu da caça, um enorme guelengue. O «Mata-porcos» encontra à dt. de chapéu e cigarro na boca.

Repare-se como naquele tempo ia-se para o deserto caçar de fato e gravata...
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Manuel Abreu, o «mata-porcos»

Mais conhecido por «mata-porcos» era natural da Ilha da Madeira onde já exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que continuou de certo modo a exercer, quando resolveu emigrar para Mossãmedes, onde era proprietário do «Bazar do Povo».

Esta loja, vendia de tudo um pouco, e que ficava situada na Rua das Hortas, em frente à loja do Graça Mira e Jacinto, numa esquina,
onde mais tarde passaram a ficar os «Armazéns da Beira», cujo principal sócio era Pedro Bento Rodrigues (Pedro Padeiro), e onde, ainda mais tarde passou a «Casa Inglêsa», e ultimamente a firma «Santos & Cabeça.

Mas o que nos traz aqui é uma outra faceta de Manuel de Abreu, a de exímio caçador dos animais do deserto de Moçâmedes. Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à sua actividade ligada ao comércio de carnes.

Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consumo da população não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu ia para o deserto caçar os animais selvagens que ele próprio esquartejava e preparava para pôr à venda no seu «Bazar do Povo» apetrechado do respectivo talho.

Aconteceu porém que em pouco tempo o gostinho pela caça acabaria por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu e de seu grupinho de amigos que passaram a frequentar o Deserto do Namibe, não já apenas para matar gazelas , olongos, e outros animais tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, por puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade fugindo às perseguições de que eram alvo, tornando mais difícil o transporte dos animais abatidos para a cidade.

Mas como o engenho humano não pára, eis que um dia Jacinto Gomes, outro emigrado da Ilha da Madeira a viver em Moçâmedes, ao regressar de umas férias na Metrópole, trouxera consigo um casal de cães galgos que passaram a ajudar, perseguindo e rodeando a caça, de modo a atrair os animais para mais próximo do alvo dos atiradores. Lamentavelmente não seria por muito tempo, porquanto subitamente estes galgos viriam a morrer não se sabe bem de quê. Foi quando o Engº Bernardo de Figueiredo, natural de Moçâmedes, no regresso da Alemanha trouxera consigo uma moto com «side-car», veiculo que veio facilitar as caçadas, sempre necessárias, e para fazer o gosto ao dedo. O Engº convidava o «Mata-porcos» para o acompanhar e o ajudar posteriormente no esquartejamento dos animais. Outras vezes era Raúl de Sousa, mecânico por excelência que o acompanhava nessas caçadas de «side-car» pelo Deserto do Namibe.

E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para
além do bom peixe que no rico mar da terra sempre existia com fartura. Mas ainda não ficamos por aqui, pois com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como o reverso da medalha nunca deixa de estar presente, é precido dizer que muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de outros antílopes mais corpulentos, incluindo equideos. Os abusos chegaram a tal ponto que, quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por probir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.

Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado lá ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que o fazia sem que a pessoa em causa ficasse a apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente da terra a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.

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A respeito de caça...

O moçamedense António A. M. Cristão, publicou no seu livro «Memórias de Angra do Negro -Namibe- Angola», uma crónica assinada por Silvestre Newton da Silva que representa uma sentida alusão aos vândalos e caçadores furtivos que já nessa altura (1958) vinham dizimando a fauna do Deserto do Namibe, em busca de troféus que, segundo autor, para nada mais serviam que a serem exibidos a ingénuos pacóvios...

Silvestre Newton da Silva foi um jornalista profissional que a determinada altura abandonou o jornalismo para se tornar Gerente do Banco de Angola em Moçâmedes, e posteriormente
abandonou o Banco de Angola para, juntamente com Raúl Radich Júnior, criar a empresa Cicorel que se dedicava ao comércio, à construção civil e à industria extractiva de mármores e granitos. Foi graças a esta empresa que os mármores e granitos de Moçâmedes se tornaram conhecidos além fronteiras, e que vendidos em bruto, chegaram a ser em seguida transaccionados, dada a sua qualidade, como se de mármores de Carrara se tratasse.

Clicar AQUI para ler A excelente crónica de Newton da Silva sobre a caça no deserto de Moçâmedes.
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Caçadores que se distinguiram à época da formação do distrito de Mossãmedes

Recuando atrás, muito atrás, aos tempos da formação do Distrito, nunca é demais salientar os nomes de três caçadores que ficaram ligados a este vastíssimo e atraente Deserto, atraidos que foram pela abundância e variedade de animais que nele têm o seu habitat. Um deles foi Nestor José da Costa, filho do chefe da 2ª colónia chegada a Mossãmedes em 1850 proveniente de Pernambuco (Brasil), José Joaquim da Costa. Outro, foi José Anchieta, naturalista, que colheu no deserto do Namibe e enviou para o Museu Nacional de Lisboa milhares de exemplares entre os quais cerca de cinquenta novas espécies. Outro nome, é o do popular Dr. Lapa e Faro, facultativo da província, possuidor de um veículo que havia mandado construir para transportar pelos areais de Mossãmedes as pessoas de sua casa nas caçadas que habitualmente costumavam empreender. Tratava-se de um carro leve e comodo, que além de conduzir passageiros, servia também para o transporte de pessoas doentes ou fragilizadas.

Nota: Estas informações foram colhidas do Boletim da Sociedade de Geografia, 2ª série, nº1 de 1880, onde vem publicado um relatório da viagem de exploração efectuada pelo segundo tenente António Almeida Lima, de 1 de Janeiro de 1879.


O acto corajoso de um componente da segunda colónia...

Na vida dos antigos colonos aconteceram factos isolados que se constituiram em momentos reveladores de enorme capacidade de decisão e coragem. Conta-se que um componente da segunda colónia se defrontou com um leão e o matou para salvar a própria vida e a dos seus companheiros.

Foi no Quipola, a 14 de Fevereiro de 1854. Havia várias noites que as fazendas dos colonos eram assiduamente visitadas por um leão, que, em cada visita, sofregamente, se vinha banqueteando com uma descuidada rêz. Pouco satisfeito com tão inoportunas visitas, o dito colono lembrou-se de, na tarde do dia 13, lhe pesquisar o rasto, e tendo-o encontrado, engendrou uma armadilha, colocando sobre ele, em sentido transversal, um pedaço de linha de barca, cuja estremidade prendeu ao gatilho duma espingarda carregada, avisando os vizinhos do ocorrido. Anoiteceu, O colono, já recolhido em casa, adormeceu. Por volta das oito horas ouviu uma estrondosa detonação que ecoou pelo vale do Bero. Convencido que o leão havia caído na armadilha ergueu-se, tomou rapidamente a refeição matinal e passando pelas moradas vizinhas a todos foi comunicando a boa nova, tendo ficado assente irem, pelas pegadas, procurar e matar o leão, caso estivesse apenas ferido. O leão, atingido no flanco, no auge do desepero estilhaçara a espingarda e arrremeçara-a, bramindo, para longe. Procuraram a fera José Francisco Azevedo, Manuel Marcelino, João Fernandes Moreira, João Francisco Ribeiro, José Franscisco Moreira e Manuel José Machado. Meterem-se por numerosos carreiros, sem método nem organização, e ao mínimo ruído imaginando tratar-se da fera, imprudentemente desfechavam à toa as armas de que se fizeram acompanhar. O leão, perseguido, deambulava furioso pelo espesso mato. Em determinada altura os moradores até então dispersos, juntaram-se numa clareira e dalí continuaram a disparar, quando, de chofre, lhes surgiu pela frente o leão furioso avançando rapidamente para o velho Marcelino, que, tendo a arma descarregada, voltou-se para fugir. Logo a fera o alcançou e cravou-lhe nas costas as garras das patas dianteiras, rasgando e pondo-lhe a nú as costelas. Perto, muito perto estava José Francisco de Azevedo, que, com a arma descarregada, num acto heróico destinado a salvar a própria vida, pediu a um dos companheiros a arma carregada e descarregando sobre o leão, salvou a vida, salvando simultaneamente a dos restantes colonos. A fera num ronco de dôr e cólera intensa, largou a presa e preparou-se para se lançar sobre o atirador, que empunhou a arma pelo cano e, brandindo-a com vigor, esmagou-lhe o crânea com a coronha. A fera atordoada, tombou, e, num breve estertor, morreu.

A notícia espalhou-se por Mossãmedes, e acorreram ao Quipola grande número de colonos para verem o leão morto. O velho Marcelino, feitas as disposições de última vontade, faleceu no dia seguinte.

MariaNJardim

Bibliografia consultada na elaboração do texto: «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres. 1º volume.


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Pintura de Tchitundu-Hulu, Namibe, Angola.

href="http://namibianotombua.multiply.com/photos/hi-res/upload/R0QWcQoKCrgAAEIuWdY1">
Escrita Bamum (1) referenciada no texto.



Pintura de Tchitundu-Hulu, Namibe, Angola.

"São as gravuras rupestres do “Morro Sagrado dos Mucuisses” um dos mais belos conjuntos rupestres da Pré-História de Angola. Encontram-se num morro granítico, chamado Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchitundulo, situado em Capolopopo, a cerca de 137 km, para leste da cidade de Moçâmedes, no deserto do mesmo nome, na sua faixa semi-desértica, área do posto administrativo do Virei e nas fronteiras da concessão do Karaculo, um pouco ao Sul do Paralelo de Porto Alexandre.

Estão estas gravuras em riscos de desaparecer, pelo empolamento, por acções térmicas, de uma camada superficial que depois se fragmenta. A interpretação e conservação das pinturas do Morro do Tchitundulo, embora difícil, torna-se, por isso, urgente. Encontram-se essas inscrições no grande morro granítico que dá acesso à chamada Casa Maior que se abre sobre a falésia em forma de anfiteatro. Quase toda – talvez mesmo toda – a grande pedra de granito por onde se atinge a base Maior encontra-se atapetada de gravuras. Qual a idade daquelas gravuras e daqueles desenhos? Há quanto tempo aquelas gravuras foram executadas no morro?

Em primeiro lugar, os fragmentos das gravuras executadas sobre as placas de granito, atestam a existência de homens sobre o Tchitundulo anteriormente à clivagem da rocha. Assim, a história geológica da região e do Morro pode vir trazer dados concretos para a história dos primitivos homens das cavernas do Capolopopo.

No interior das Covas surgem as pinturas rupestres que se afiguram mais recentes, apesar do estilo ser deveras parecido com o estilo das gravuras.
Quem teriam sido os primitivos habitantes das cavernas?
Elementos da raça Mucuisse?
O problema da raça que habitou o Morro do Tchitundulo é de difícil solução.
De qualquer maneira os Mucuisses não têm a mais pequena ideia sobre quem pudesse ter sido o autor das gravuras, mas mantêm uma certa veneração pelo monte, afirmando que os círculos concêntricos gravados no Tchitundulo são os astros, principalmente, o Sol.

Em nenhuma outra estação de arte rupestre de Angola há tão grande número de desenhos, representações de pequenos animais, como os desenhos esquematizados do Tchitundulo.
Qual o significado daquele chacal no início da vertente norte do Morro?
Haverá alguma relação entre as figurações do Tchitundulo e uma vaga manifestação em relação a determinadas plantas?
Que profundas intenções descobriremos nas figurações cruciformes e alguns desenhos "radiográficos”?
Haverá qualquer semelhança entre alguns sinais da escrita Bamum (1) , em diversas fases da sua evolução e alguns desenhos do Tchitundulo?
Enfim, qual o significado, qual a finalidade, quais as intenções que teriam os autores das inscrições e pinturas rupestres do Morro Sagrado dos Mucuisses?" Alguma bibliografia sobre a Pré-História de Angola.(...)

Creditos: http://www.angola-saiago.net/cuissis2.html

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Pertenciam ao grupo Bochiman os homens de pequena corpulência semelhantes aos mongóis em estrutira óssea, que se pensa oriundos do orienta da Europa, considerados os primeiros povos que habitaram a região do Namibe?

Quando os primeiros europeus chegaram a África depararam ainda com bochímanos a executar este tipo de pinturas.O professor António Almeida numa Confererência na Sociedade de Geografia a 7 de Maio de 1956, em Lisboa,
diz-nos que os bochímanos , raça somática e assaz etnicamente muito curiosa , é, por muitos considerada das mais antigas do mundo. A designação boschímanos de origem holandesa significa homens dos bosques; esta designação que vem desde meados do século XVII, dada pelos colonos neerlandezes ao povo que vivia no interior da província do Cabo da Boa Esperança, em regiões cobertas de mato, que para ali fora empurrado pelos Hotentotes e depois pelos Bantos. Impey diz.nos que gentes de Grymaldi passaram da Ásia à Africa à 150 mil anos e que a África do Sul também teria sido habitada por estes homens 100 mil anos depois, saídos uns da Europa, duramte o quarto período glaciário, outros da Ádia, permanecendo estes últimos , muitos séculos, no Egipto. Outros dizem-nos que os bochímanos, propriamente ditos, vivem na África Austral , apenas à quatro ou cinso mil anos , e que são descemdentes dos negróides que estacionaram no vale do Nilo. Marcelin Boule, por sua vez, diz que os bochímanos são descendentes dos negróides aurinhacenses, provenientes de um tronco muito antigo, desenvolvido no centro ou norte de África, cujos ramos evoluiram em várias direcções gerográficas e antropológicas. A maioria dos autores sul-africanos por sua vez, afirmas que os bochímanos têm por ascendentes os homens mesolíticos de Boskop e Florisbad. Von Oord dá-nos a sua origem mais recente e que resulta da mestiçagem entre egípcios, somális e mongóis. Os dizem ainda que são ascendentes de mineiros persas, assírios e indianos, durante as explorações auríferas de Manica e do Quiteve.


A certeza só nos pode ser dada pelos especialistas, historiadores, arqueolologos, etnologos, etc. que se dedicam ao estudo do passado de Africa. Podemos afirmar que existe perto do Virei no Tchitundo-Hulo, pinturas rupestes que talvez possam ser atribuidas aos primeiros habitantes da região.

Os Bochimanes pertencem ao grupo Khoisan, que não conheceu neinhuma organização tribal e vivem da caça, de frutos e raózes ( tentando pôr alguma ordem étnica ) que caracteriza a região, em primeiro lugar a grande divisão rácica entre povos Khoisan e negros; estes subdividem-se em Bantos e não Bantos. Os Khoisan são constituidos pelos Bochimanes, Kedes e individuos de origem Hotentote mestiçados como Bantos. Os representantes dos negros não Bantos são os Kuissis e até certo ponto os cuandos.
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Existem referências às pinturas rupestres de Angola: Tchitundo Hulo e filho de Tchitundo Hulo: Um artigo de Henri Breuil e António Almeida, "Das gravuras e das pinturas rupestres do deserto de Moçâmedes (Angola)", in Estudos sobre Pré-História do Ultramar português, vol 2º, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1964. Essa antiga Junta de Investigações do Ultramar chama-se actualmente Instituto de Investigação Científica e Tropical. O artigo contém texto e fotografias a preto e branco de pinturas, consideradas do Paleolítico e Neolítico efectuadas por povos anteriores aos bantos e pode ser consultado no Instituto ou na Biblioteca Nacional ou outras que tenham depósito legal (até no Rio de Janeiro, no Real Gabinete de Leitura). Há muitos livros de Etnologia e História publicados por esta antiga Junta, escritos por etnólogos, missionários, geógrafos ... com a linguagem colonial mas ricos em informações

Video grutas

Noticia recente sobre estas «grutas alvejadas involuntariamente por chineses»:
http://portal.correiodigital.info/noticias.php?idnoticia=5786

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Transporte de água das cacimbas em Mossãmedes








Foto preciosa, acompanhada de descrição onde podemos ver uma carroça em madeira puxada por bois destinada a transportar em grandes barris a água potável. Se repararmos bem, encoberto pelas trazeiras dos corpos dos bois, podemos ver aquilo que parece ser um chafariz em cimento . Por esta altura ainda o edifício da Alfândega estava em construção, como podemos ver ao fundo. Também podemos ver a «água furtada» do edifício de que era proprietário a familia Mendonça Torres, na Rua dos Pescadores,  onde no presente fica, no 1º andar, o Museu do Namibe.


Na villa de Mossamedes apesar das vicissitudes do regimen pluvial, por esta altura «todas as casas tinham poços, que forneciam agua necessária para os usos ordinários.» Era «água de má qualidade, pesada, salitrosa, que produzia perturbações digestivas» e tinha que ser fervida antes de ser utilizada na alimentação. Isto acontecia devido  à  grande capacidade de armazenamento de água no seu subsolo, proveniente de infiltrações  que favorecia a existência de uma toalha liquida subterrânea na zona baixa, cujo nivel se mantinha constante. Trata-se de «um facto incontestável, que nos leva a suppor que ela mantém estreitas relações com a bacia fluvial do plan'alto, que a alimenta como uma parte importante das suas aguas por infiltração atravez de camadas porosas, que seguindo as vertentes da Chella se prolongam e continuam com o sub-solo da zona baixa. 

«...Pela disposição natural da zona alta, a sua maior altura corresponde á cordilheira da Chella e d'ahi para o interior desce suavemente para o sul e leste, do que resulta que a maior parte das aguas pluviaes correm ao Kunene; deriva para a zona baixa uma pequena porção, que na quadra das grandes chuvas cae sobre as vertentes occidentaes da cordilheira, fertilisando os terrenos do valle de Kapangombe.

Sobre a facha arenosa do litoral de Mossamedes chove muito pouco, duas ou três vezes por anno. Na facha cultivada em frente á Chella chove durante dois a três mezes, emquanto que na zona alta a estação chuvosa com prebende seis mezes no anno. Convém observar que tem havido profundas modificações no regimen pluvial da zona baixa, cujas causas são pouco conhecidas. Em épocas remotas chovia regularmente todos os annos em quantidade bastante para encher os leitos dos rios. Os antigos agricultores estabelecidos no valle de Kapangombe e Biballa e os primeiros colonisadores de Mossamedes falam com saudade dos primeiros annos da sua installação n'este districto, annos de chuvas abundantes e regulares; d'então para cá ellas teem diminuído progressivamente a ponto de passarem períodos de quatro e cinco annos sem cahir uma gotta de agua.

Quando pela infiltração e evaporação desapparece a humidade no leito dos rios e bem assim durante os annos de estiagem, em que as aguas por successivas infiltrações nas areias não chegam a humedecer os terrenos cultivados, recorrem os agricultores á irrigação com agua extrahida de poços praticados a profundidade de 5 a 15 metros. 



A existência de uma toalha liquida subterrânea na zona baixa, cujo nivel se mantém constante apezar das vicissitudes do regimen pluvial, é um facto incontestável, que nos leva a suppor que ela mantém estreitas relações com a bacia fluvial do plan'alto, que a alimenta como uma parte importante das suas aguas por infiltração atravez de camadas porosas, que seguindo as vertentes da Chella se prolongam e continuam com o sub-solo da zona baixa.

E' de importância capital para o desenvolvimento das fazendas agricolasdo valle de Kapangombe investigar com apparelhos próprios e aproveitar por meio de poços artesianos este filão de agua, que todas as razões induzem a crer que tenha a sua origem no plan'alto, cuja altitude media sobre o valle de Kapangombe é de 1600 metros.

A agricultura n'esta zona, que foi o principal elemento de prosperidade e riqueza nos tempos áureos do districto, acha-se actualmente em estado de lastimosa decadência por falta de aguas que irriguem os seus fertilissimos terrenos. Os annos de secca succedem-se uns apóz outros com insistência esmagadora espalhando o desanimo por toda esta riquíssima região, cujos agricultores vão rareando, ceifados uns pela morte, e outros obrigados por falta de recursos a abandonar a.s suas propriedades, fructo de longos annos de trabalhos. Os mais favorecidos, que ainda assim  mantem as suas fazendas a troco de penosos sacrifícios, são os que se estabeleceram nas vertentes da Chella, onde aproveitam as primeiras aguas de pequenos regatos permanentes, que descem do plan alto e formam as origens dos rios da zona baixa.
 

E' de urgente e inadiável necessidade proceder a estes estudos, pois que o bom êxito dos poços artesianos é importante medida de salvação para em breve espaço de tempo elevar ao primitivo apogeu a agricultura em Mossamedes, única fonte de riqueza da população branca do districto, que se acha abatida e depauperada nos seus recursos por tão longa estiagem sem esperança de melhores tempos. »

no seu livro «O Districto de Mossãmedes» editado em 1892



MariaNJardim


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Os transportes utilizados em Mossãmedes pelos primeiros colonizadores

Conforme «Anais do Muncípio de Mossãmedes», de início quando da chegada dos primeiros colonos do Brasil a Mossãmedes, o transporte utilizado era o boi-cavalo, a maxila, a tipóia, o riquexó, as viaturas dos animais de tracção e sela. Contudo, deve também figurar neste período, o camelo oriundo das Canárias e introduzido em Mossãmedes por JOAQUIM DA PAIVA FERREIRA, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849.

O camelo, animal bem adaptado às zonas desérticas, dava-se bem em Mossãmedes, e era empregado pelos pescadores e industriais no transporte de toda a qualidade de carga, sobretudo mantimentos e materiais de contrução, tais como malas de peixe, sacos de fuba, pedra, cal, adobe, a farinha que era triturada no único moinho da povoação, etc., etc.

O «carro boer», destinado a levar mercadorias de terra em terra foi uma inovação nos transportes no sul de Angola.
Era através dos carros boers que se deslocavam onde houvesse mercadorias ou onde estas fosssem produzidas que se fazia a sua distribuição pelos locais onde eram procuradas por consumidores impossibilitados de as adquirir. Era um veículo pesadíssimo, puxado por um grande número de juntas de bois, formado por um rijo tabuleiro assente sobre quatro rodas possantes sob um toldo curvo de lona, e surgiu em 1881, com a chegada às terras altas da Huíla de familias emigrantes do Transvaal (boers) que se fixaram na região da Humpata.

O «riquexó» que ainda nos nossos dias podemos ver, sobretudo em regiões orientais, de onde era proveniente, foi outro meio de transporte utilizado. Tratava-se de um carro de duas rodas, relativamente rápido, cómodo, com capota e puxado por um condutor.

Em tempos anteriores ao da chegada dos colonos do Brasil, para o transporte de passageiros, correio, bagagens e mercadorias, chegara-se a utilizar, em viagens de longo curso, os paquetes da «Companhia União Mercantil» que já não existiam por haver falido. Os habitantes de Mossãmedes serviam-se dos paquetes da «Empresa Lusitana», que costumavam escalar o porto da vila nas suas viagens para Lisboa. Em Janeiro de 1881 fundou-se a Empresa Nacional de Navegação, e em Março do mesmo ano tiveram início as carreiras para Angola com os paquetes «Portugal» e «Angola», iluminados a petróleo. Em 1889, paquetes que escalavam Mossãmedes, como o «Ambaca» e o «Cazengo» já eram iluminados a electricidade.



MNJardim

A visita a Mossãmedes do Presidente da República, Óscar Fragoso Carmona, em Agosto 1939



Agosto de 1938.

Estava-se em pleno regime do Estado Novo, implantado após o golpe do 28 de Maio de 1926.
Salazar como Ministro das Finanças havia arrumado financeiramente a «casa» portuguesa e, politicamente, voltava a sua atenção para as colónias de além mar em África, numa época em que os impérios europeus pareciam ainda ter pela frente um largo futuro (em particular na África negra), mas que se pressentia já que nada iria evitar uma II Guerra Mundial, e as grandes mudanças daí decorrentes...



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8 de Agosto de 1938. O Presidente da República, Óscar Fragoso Carmona chega a Mossãmedes no navio «Angola» às nove horas precisas.

(Do Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162
de 1938.)

Notas de reportagem de bordo:
Desde as 9 horas que navegávamos à vista da costa de Mossãmedes. A cidade foi-se pouco a pouco mostrando, com a sua fisionomia de terra de pescadores, branca e graciosa.

Às 10 e 15, no meio duma flotilha composta de mais de trezentas canoas e outras embarcações de pesca, embandeiradas, o «Angola» e o «República» navegavam nas águas da baía. Desses pequenos barcos, e de terra, incessantemente, sobem foguetes no ar. Por cima dos navios que chegam sobrevoam aviões do Aeroclube.
Além, na ponte, formava a tropa. Indígenas dançam. Vêem-se pretos do N’giva, da Namacunda, e, compondo um soberbo friso de bárbara beleza, quarenta cavaleiros cuanhamas, para os quais foi preparada uma aldeia. Os demais negros, agitam bandeirolas das cores nacionais.
Quanto aos brancos, que acudiam a receber o Chefe de Estado, formavam considerável multidão. Além da gente de Mossãmedes, viera povo do Lubango, e doutras partes. Estavam, por isso, cheias e apresentavam um rumoso e animado aspecto as ruas, todas embandeiradas e engalanadas de arcos e plintos com os escudos como os de Môngua Naulila. Há expectadores até nos telhados, sôbre «marquises». Uma nota comevedora, - aponta um jornalista, é dada pelos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca que êles amam como um troféu valioso e que ostentam com orgulho. E no meio desses velhinhos, que são um grupo encantador de gente rústica e boa, gente da terra e que para a terra vive, que aqui se fixaram e de que nasceram outras gerações, há dois que, modestamente, como envergonhados ainda de terem sido heróis, ostentam no peito o colar da Torre de Espada do Valor, Lealdade e Mérito. São Wellen Venter e Bernardino Fernandes Fraga, ambos portugueses e a quem a Pátria deve serviços inestimáveis nas campanhas do Sul de Angola.

Às 10 horas, efectuou-se o desembarque do Sr. General Carmona.
Os navios de guerra «Beira» e «República» que comboiou o «Angola» salvam. De terra, a fortaleza de S. Fernando dispara os seus canhões antigos, e assim, ainda hoje, neste momento histórico fazem ouvir a sua voz. Estralejam no ar foguetes; estoiram morteiros.
Um quarto de hora depois via-se acolhido, na ponte, pelas individualidades principais da província, por muitas senhoras e uma delegação dos colonos da Huila com seus estandartes
A vereação acha-se sobre o arco que simboliza as portas da cidade, - escreve um espectador do espectáculo – O seu presidente faz entrega das chaves ao Sr. Presidente da República, que amavelmente, pede para as devolver. Novas e vibrantes manifestações, enquanto que do cimo, do alto do arco um grupo de crianças gentis deixa cair flores. «Vivas», aclamações, envolvem também os Srs. Ministro das Colónias, Governador Geral e Governador da Província. O hino nacional é ouvido em religioso silêncio. O Sr. General Carmona passa revista à guarda de honra. Segue-se o desfile das companhias de infantaria indígena que a constituem, e depois organiza-se o cortejo para o Município. Sempre no meio de aclamações - conta o Notícias da Huíla – dirige-se, sob os arcos que ornamentam as ruas para a Casa da Câmara, mas o entusiasmo é tanto que o povo invade as ruas, querendo rodear o Presidente, a quem não cessa de saudar vibrantemente. As janelas, engalanadas, estão apinhadas de gentis senhoras. Cai uma chuva de flores. E as senhoras e as meninas não são as que menos manifestam o seu júbilo.
O friso lindíssimo. As crianças das escolas primárias de Mossãmedes e do planalto é um espectáculo encantador. A certa altura, duas criancinhas de Mossãmedes e do Lubango levam, num beijo, ao Senhor. Presidente da República a saudação de milhares de crianças suas companheiras. Nota enternecedora que raza os olhos de lágrimas de comoção e de ternura. E nesta caminhada, grande pela vibração e pelo entusisamo, com que milhares e milhares de portugueses oprestam homenagem à Pátria, na pessoa do Presidente da República, vivem-se momentos inolvidáveis. E o Senhor General Carmona, figura bondosa, olhando enternecidamente para tudo quanto o rodeia, sentido bem a vibração sincera das almas em delírio, agradece, sorrindo, sorrindo sempre emocionbado e dominado.
A multidão cerca o edifício da Câmara, pois lá dentro não cabem todos, a-pesar-da sala ser ampla.

Nas paredes destacam-se os retratos do Chefe de Estado e de Salazar. Os estandartes de todas as edilidades da província , do Aero Clube, do Gimnásio Atlético, do Sport Lisboa, do Sporting, da Associação Ferroviária, dos Empregados do Comércio, do Liceu da Huila, formam ao fundo, em volta da mesa de honra onde tomam lugar, entre prolongados «vivas» e «aclamações», o Chefe do Estado, o Ministro das Colónias, o Governador Geral, o governador da província, e o presidente da Câmara Municipal.
Fora, em frente do edifício, a multidão continua a aclamar o Sr. General Carmona. Por isso, antes da sessão começar, viu-se o Chefe de Estado na necessidade de aparecer na varanda com o Sr. Ministro das Colónias. As aclamações redobram de delírio, então. Andam no ar capas dos estudantes.
Uma vez no salão o Sr. Presidente da República começou a sessão solene. Tudo quanto Mossãmedes e a Huila contam de representativo estava presente: convidados, oficiais de Marinha, do Exército, muitas senhoras. Em cadeiras reservadas no estrado sentavam-se as esposas, dos Srs. General Carmona, Dr Vieira Machado,, Coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho, e outras distintas damas , magistrados, vereadores da Câmara
Preside o Sr. General Óscar Carmona que tem à sua direita os Srs. Ministro das Colónias e o governador da província da Huila e à esq. os Srs. governador geral e o presidente do Municipio.
É o presidente da municipalidade, Sr. Dr. Francisco Monteiro do Amaral quem primeiro usa da palavra.
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 312 a 316)
Depois falou o sr. José Antunes da Cunha, presidente da Associação Comercial e Industrial de Mossãmedes, que disse:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 316 a 321)
Seguiu-se no uso da palavra o Governador Provincial da Huila sr. Capitão Ferreira Carvalho.
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 321 a 324)

Chegou o momento mais solene da cerimónia. Toda a assistência , homens e senhoras se erguem e preparam-se para escutar. O Sr. Presidente da República, vai falar.
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs.324 a 327)

Depois o sr. General Carmona condecorou as seguintes pessoas : Coronel médico dr. Monteiro do Amaral, com a Comenda de Cristo; Antunes da Cunha e Dr. Carlos Tenreiro Carneiro, respectivamente, presidentes da Associação Comercial e Sindicato do Pesca, com o grau de Cavaleiro de Mérito Industrial, Manuel Seabra, comerciante do Lubango, Caetano Evaristo Peixoto, funcionário ferroviário, oficiais de Mérito Industrial, António Joaquim Ribeiro, de Mossãmedes, e José Nóbrega, do Lubango, agricultores, oficiais de Mérito Agrícola.
O Sr. Presidente da Republica dirigiu-se para o antigo palácio do Governo, de carro, que a multidão tirou.
Foi uma apoteose.
A multidão, - brancos e pretos, - comprimia-se, galvanizada pelo mesmo anseio de saudar. Os estudantes rodeavam o automóvel. Os alunos do Liceu da Huila cobriam o veiculo com as suas capas negras. O Sr. General Carmona, de pé, comovidamente, agradecia as manifestações de carinho que de novo lhe manifestavam.
Chegado àquele Palácio, Sr. General Carmona pareceu à varanda, a-fim-de satisfazer as instâncias da multidão clamorosa. Igualmente foi chamado o Sr. Ministro das Colónias, que veio acompanhado da senhor de Fragoso Carmona, a qual foram dados, também «vivas» entusiásticos.
Às 13 e 30 foi o almoço na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição» da família Mendonça Torres, à beira do Bero.
Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda e demais família, recebiam com extremos de gentileza. O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva.
A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, dquela deliciosa festa íntima.
O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330)
Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português.
Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com a Ordem de Mérito Agrícola.
Nota da visita feita pelos jornalistas à fazenda:
«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.»
Às 16 horas efectuaram-se na sala de recepção do Palácio do Governo os cumprimentos o Sr. Presidente da República. Além das autoridades civis militares e funcionários superiores , haviam acorrido corporações, colectividades económicas, imprensa, e os colonos do distrito de Mossãmedes, estando a recepção imensamente concorrida. Afavelmente, o Sr. General Carmona recebeu cumprimentos , tendo palavras amáveis para todos. O mesmo aconteceu no dia seguinte, quando a população dos colonos e deputação com as autoridades e imprensa da Huila foram levar o Chefe do Estado a expressão da sua respeitosa homenagem. Todos o General Carmona encantou pela gentileza e simplicidades do trato.
O Sr. Presidente da Republica visitou as instalações do Sindicato da Pesca e as fábricas de conservas da Torre do Tombo, cujos operários o aclamavam com ardor.
Após as visitas às fábricas, o Sr. Presidente da Republica, sempre acompanhado pelos Srs. Ministro das Colónias, governador geral e governador da província, e vários membros da comitiva, deu um passeio de automóvel pela cidade.























À tarde e à noite, no coreto da Avenida da República, tocou a banda da 1ª C. I.I. O movimento no lindo jardim de Mossãmedes foi enorme.
Notas da reportagem.
São 19 horas. A cidade iluminada e bela. Os edifícios públicos e a Fortaleza de S. Fernando estão iluminado a electricidade. Vêem-se balões a correr pelas ruas. Encosta sobre o palácio está cheia de luz.
O jardim público regorgita de gente.
No Clube Nautico e em outras casas dança-se desde as cinco horas da tarte. O entusiasmo é geral e indescritível. Mossãmedes está a dar, com o Lubango, cuja população na maior parte está aqui, um nota de portuguesismo inexcedível.

9 de Agosto.
A nota cativante deste dia, foi a festa infantil que teve por quadro o Jardim Público, à beira mar, oferecida pelo Sr. Presidente da Republica e sua ilustre esposa, sra. D. Maria do Carmo de Fragoso Carmona.
Principiou a festa por um desfile de milhares de crianças de Mossãmedes, Lubango e Huila , - e uma explêndida demonstração do poder de adptação da nossa gente. Todos aqueles pequeninos eram filhos e até netos de colonos. Lindíssimo espectáculo que arrancou por vezes ardentes palmas à assistência, principalmente ao ser entoado por aquele Portugal de miúdos o hino nacional. Centenas de senhoras presenciaram a festa, tendo algumas delas auxiliado a esposa do Chefe do Estado n distribuição de brinquedos, que dela fez parte.
Depois, o público pequenino sentou-se, em alacre algazarra, às mesas, sobre as quais havia guloseimas em abundância, a encantar os olhos, a alvoraçar o apetite.
Terminada a refeição, espalhou-se a pequenada pelo jardim, brincar, até quase ao fim da tarde.
Eis como um jornalista angolano descreve a festa:
«À tarde, no lindo jardim da linda Mossãmedes, terra encantadora e de encantos, coberto de flores do deserto, na expressão feliz de Vieira da Cruz, realizou-se a parada infantil de que participaram mais de mil crianças das escolas de Mossãmedes e da Huila.
Apenas crianças das escolas, porque, necessário é dizê-lo, se todas formassem, as da Huila e de Mossãmedes, formariam uma legião de mais de quatro mil...»
(... )
Antes de retirar, o Chefe do Estado percorreu , de automóvel as ruas, tendo sido, durante o percurso, sempre, delirantemente aclamado.
(…)
À noite, no Palácio, realizou-se um jantar de gala.
Pormenoriza do aspecto da sala, o aspecto local:
«Profusão de luzes, de flores e de cristais. Notas de distinção e de elegância. A refulgência dos ouros das fardas e a severidade do negro das casacas contrastavam com as cores variadas dos vestidos das senhoras, de grande elegância, sôbre os quais as jóias punham cintilantes fulgurantes».
Abriu a série de brindes, o Sr. capitão Manuel de Abreu Ferreira de Carvalho, governador da província, que disse:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 335 a 339)
Falou depois o sr Eduardo de Mendonça Torres pelos colonos do planalto:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg . 339 a 343)
Pouco depois pediu vénia para brindar o representante dos colonos da Huíla, sr. João Ricardo Rodrigues, que se expressou nos seguintes termos:

(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 343 a 346 )
Encerrou a série de brindes, o Dr. Carlos Baptista Carneiro, pelos orbanismos económicos da Huíla:

(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 346 a 351)
Por último o Sr. Presidente da República pronunciou breves palavras de profundo reconhecimento pelas atenções que lhe têm sido dispensadas e mostrando quão grata tem sido para o seu coração de lusíada esta viagem que o trouxe a terras tão portuguesas, onde todos se congregam para dignificar o nome de Portugal.

10 de Agosto
Às 16 horas, realizou-se uma parada militar, a que assistiram, numa tribuna, levantada na Avenida, o Sr. Presidente da República, o Sr. Ministro das Colónias, o sr. Governador Geral, casas civil e militar do Chefe do Estado, e outras altas entidades.
Ao lado da tribuna formava uma força da marinha do aviso «República».
Brilhantíssima de impecável garbo a marcha das forças militares.
À passagem das unidades, o publico irrompia em aplausos.
Ao desfile das duas companhias de Infantaria Indígena, seguiu-se os das deputações indígenas de toda a província.
Cada soba vestia farda de pano branco, de alamares verde e encarnados, trazendo na cabeça bonés de pala.
Na Avenida comprimia-se o povo curioso do bizarro espectáculo desse desfile. Iniciaram-no os escoteiros.
Vinha depois o grupo dos quarenta cavaleiros cuanhamas que passaram em frente da tribuna, no belo arranque de um galope, a saudarem, agitando no ar os chapéus emplumados, soltando ao mesmo tempo entusiástica gritaria.
A seguir, numerosas tribus, cada uma formada por numerosos indígenas, indo à frente a rainha Galinaxo do Cuanhama, com seu trajo de gala e grande séquito de damas, uma das quais, a seu lado, ostentava alto a bandeira portuguesa.
«No local onde estamos, - descreve o representante da Província de Angola, - vê-se a Avenida extensa que é um mar de pretos e de tribus, todos com bandeirinhas nacionais que agitam no ar, produzindo um lindíssimo efeito e comunicando o seu entusisasmo à multidão que irrompe em «vivas» prolongados.
Todas as tribus indígenas, levavam, ao lado, os respectivos sobas e régulos, bem como a bandeira nacional. Sempre que passavam em frente da tribuna presidencial, para saudar o Chefe do Estado, - soltando gritos de entusiasmo, a seu modo, como homenagem do máximo respeito e veneração a Sua Exª - , ouviram-se também , entre os gritos, muitos «vivas» a Portugal e de simpatia pela Nação. Cada tribu apresentou os seus batuques ao som dos quais os guerreiros e dançarinos negros rodopiavam e faziam cabriolas, oderecendo assim um espectáculo inédito, de cor local interessantíssina. Tôda a gente o admirou, incluindo aqueles que vivem em Angola.
O desfile prolongou-se por longo tempo.
Muito curioso o facto de se terem apresentado na parada, indumentárias indígenas das mais variadas, tanto em homens como em mulheres, segundo as regiões. As mães conduziam à mão ou às costas os filhos, visto que associavam a família a estas manifestações.» Assim foram passando cuanhamas, cuamatos, cacondas, ngivas, naulilas, evales, namacundes, quipungos, quilengues, muílas, muhembes, - as raças bravias do Sul de Angola …
Terminado o desfile a rainha Galinacho, com o seu séquito e as mulheres dos principais sobas, dirigiram-se à tribuna a cumprimentar o Chefe do Estado , que comunicou por meio de um intérprete, e ofereceu à soberana preta cortes de seda, além de outros valiosos presentes, entregando aos chefes medalhas comemorativas da sua visita a Angola.
Grande alegria produziu a gentileza do Sr. Presidente da República, que foi aclamado pelos negros, assim como o nome de Portugal.
O Sr. General Carmona retirou-se em seguida para o Palácio, sempre muito ovacionado pela multidão, que também aclamou os Srs. Ministro das Colónias, Governador Geral e Governador da Província.
À noite, os edifícios e a fortaleza iluminavam novamente, assim como muitas casas particulares.

A Câmara Municipal ofereceu um baile que decorreu com o maior brilho.
Mossãmedes apresentava o aspecto de uma animação de que não se guardava memória.




11 de Agôsto



Às 6 horas da manhã, do Palácio do Governo, largou uma extensa fila de automóveis.
Ia-se ao deserto de Mossãmedes a caçar.
Diversão interessantíssima em honra do Sr. General Carmona. No Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço.
Depois repartiram-se em três grupos de caçadores, cada qual com o seu sentido, tomando o do Sr. Ministro das Colónias, a direcção do local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – onde foi prestada homenagem à memória do ilustre professor e naturalista.
Notas jornalísticas descritivas da excursão:
«O deserto apresenta aspectos vários e diferentes. Encontra-se areia endurecida sobre a qual os carros deslizam velozes; e noutros pontos pedras soltas. No fundo vêem-se morros altos que o circundam, e árvores de pequeno porte que vivem numa espécie de leito de rios que aqui se chamam danibas e são locais geralmente frequentados por caça de toda a espécie».
A primeira peça abatida foi uma gazela com um tiro da carabina do Sr. Dr. Francisco Vieira Machado, que por esse motivo recebeu muitas felicitações. Encontrou o grupo Leste chefiado pelo velho caçador João Teixeira e Raimundo Serrão , várias manadas de cabras das quais foram abatidas algumas.
Cerca das 11 horas encontrava-se outra de guelengues, - grandes antiólopes- de que, na perseguição, tombaram três exemplares. O primeiro caiu com uma bala do Sr. António Eça de Queiroz, que também derrubou um famoso e célebre avestruz. Correm lebres. Fora do alcance do tiro, precipitam-se na fuga manadas de zebras. Os operadores cinematográficos não descansam. Os carros rodam a toda a velocidade, em todos os sentidos, e às 13 horas voltam ao Pico do Azevedo, para o almoço.
Daí a pouco aparecia o automóvel que conduzia o Sr. General Carmona, e sus esposa, que haviam saído de Mossãmedes às 11 e meia. O automóvel encontrou uma gazela que o Sr. Presidente encontrara no trajecto, matando-a com um tiro certeiro no coração, dado a mais de 50 metros e com o automóvel em movimento, o que foi aplaudido por todos os presentes.

O almoço decorreu com a maior alegria e à-vontade. Conversando com familiaridade, o Sr. General Carmona inquiria de todos acerca dos princípios da caçada.
A um brinde do Sr. Eduardo Torres, felicitando-o pelo belo tiro certeiro, o Sr. General Carmona respondeu espirituosamente, dizendo que para não envergonhar os caçadores saira mais tarde, mas uma gazela, teimosamente, viera postar-se na trajectória da bala, sacrificando-se à sua glória de caçador.
A assistência levantou três calorosos «vivas», ao Sr. Presidente da República.
Balanço da caçada: 8 cabras, 6 guelengues. 1 avestruz e uma «tua» abatida por um tiro do sr. dr. José Saldanha, secretário do Sr. Ministro das Colónias.
O regresso a Mossãmedes, da qual se estava a cerca de 70 quilómetros, fez-se depois das 16 horas.
Foi então digna de ver-se a competição dos carros, como numa grande corrida em enorme pista, todos procurando atingir primeiro o carro do Sr. Presidente da República, ao qual formaram por fim um grande séquito até perto da cidade. O Sr. Presidente da República, com um tiro certeiro, abatera outra gazela.
Um magnífico fecho da caçada , - escreveram os jornalistas:
À entrada da cidade, próximo do seu acampamento, encontravam-se os cavaleiros cuanhamas, que, compondo alas, aguardam o automóvel presidencial, acompanhando-o depois, no meio de ruidosas aclamações. Todos os outros indígenas dançaram à passagem, dando «vivas» e saudando calorosamente o Chefe do Estado, que, descendo do automóvel com a sua esposa, se acercou das pretas, risonho, afável.
A Senhora de Fragoso Carmona, o Sr. Ministro das Colónias, visitaram, antes de deixarem Mossãmedes, os acampamentos indígenas, onde as mulheres lhes ofereceram pulseiras, retribuindo generosamente as ilustres senhoras, o que às presenteadas causou grande alegria.
A-pesar-do Sr. Presidente da República se ter ausentado para o deserto, na cidade continuaram sempre no meio do maior interesse e entusiasmo, as festas em sua honra.
Assim, à tarde,