
Eis Moçâmedes tal como era no início do século XX. Uma pequena cidade, a cujo estatuto ascendera no ano de 1907, por ocasião da visita do príncipe real D. Luís Filipe, 34 anos após a morte do seu fundador, Bernardino Freire Figueiredo de Abreu e Castro, ocorrida em 17 de Novembro de 1871.
Tudo começou quando vinda de Pernambuco, Brasil, chegou a Moçâmedes a 04 de Agosto de 1849, na Barca brasileira"Tentativa Feliz" acompanhada do Brigue da marinha portuguesa, "Douro", a primeira colónia de emigrantes portugueses e luso-brasileiros, chefiada por Bernardino Freire Figueiredo de Abreu e Castro, para dar início ao povoamento branco da região. Fugiam à onda de antilusitanismo que tinha levado aos mais hidiondos crimes contra a comunidade lusa, que por despreso denominavam de "marinheiros", sem outra razão senão a de terem praticado o "crime" de quererem continuar a ser portugueses.
Sobre os colonos que aportaram em Moçâmedes nos anos 1849 e 1850, Manuel Júlio de Mendonça Torres, na sua obra «Moçâmedes», 1º volume, avança qualidades que na sua óptica enformavam carácter dos colonos fundadores: honestidade, amor da pátria, sentimento religioso, energia da vontade e paixão exaltada, qualidades que em grande parte explicam também a rapidez com que a povoação começou a ser erguida das areias do deserto, bem como o modelo de vida que ali se estabeleceu que a legenda "Labor Omnia Vincit" impressa no Brasão de Armas dae Moçâmedes tão bem representa.
Moçâmedes foi elevada à categoria de vila, em 1855, apenas seis anos após a sua fundação, e já nessa altura exibia dois alinhamentos de habitações, paralelos à praia com uma rua de permeio, de 400 metros de comprimento. Sabe-se também que em 1865, a vila e os subúrbios, contavam já com 207 habitações erguidas, e em 1868, com 543.
Vejamos o que a este respeito nos dizem alguns autores:
«...É um bolício Mossamedes. Uns edificam casas na povoação que escolheram para habitar; outros nas faldas da serra dos Cavaleiros, no sítio chamado dos Namorados...». «45 dias em Angola», de autor anónimo. 1862.
" Em dez anos (espaço de tempo diminuto na História de um povo), esses bravos pioneiros, muitos de entre os quais haviam deixado para trás o conforto de uma vida citadina onde nada lhes faltava, abriram ruas, rasgaram avenidas, construiram pequenas habitações, lançaram os fundamentos de uma ...agricultura, lançaram ao mar as primeiras redes abriram o distrito à mais fecunda das suas indústrias, a indústria de pesca. Como trabalharam duro!" Visconde Giraúl
«Como colónia portuguesa, esta localidade distingue-se pelo asseio. Não é próspera, mas é limpa. Não fornece borracha, nem marfim, nem cera ou café. Em compensação, produz crianças , belas e sadias crianças, como é custoso crer que as tolere o sol ardente de África. A sua população é branca e o interior das suas casas, pintadas a cal, a oca, a anil, a vermelhão, guarda na disposição dos móveis, na colocação dos quadros, a tradição dos nossos interiores familiares de Portugal. Quando aqui vim pela primeira vez, achei isto encantador , mas o que sobretudo me captou, foi este asseio, este ar de «coqueterie» , que não exis em nehuma terra de África» João Chagas, in «Diário dum condenado político», 1892, 1893, a pg 46 e 47.
«O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a 4 de Agosto de 1859, ao festejarem o seu 10º aniversário, verificaram haver feito: nas margens do Bero que tiveram que conquistar e defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraul, três; no Bumbo, duas: em S. Nicolau, três: no Carunjamba, uma; no Coroca, três: na Huila, sete; e, ainda, a ocupação comercial dos Gambos, da Camba, do Humbe e do Malondo, percorrendo o Sul de Angola emtodas as direcções, com as suas caravanas. e levando a sua penetração, até além Cunene aonde iam buscar o marfim. Pela Alfândega de Moçâmedes tinham exportado em 1858 e 1859: vinte e oito toneladas de cera, vinte e um mil couros; cento e oitenta bois, quatro mil e quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe, sete mil novecentos e cinco quilos de marfim, seiscentos e quarenta toneladas de peixe seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze toneladas de batata e dezasseis toneladas de carne seca. Que mais queriam que fizessem ? Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a comoção dum sacerdote, ao abrir o Relicário, para mostrar a Hóstia Sagrada. Faço-o perante o Altar da Pátria, com a mesma unção com que os sacerdotes o fazem perante Deus.» Alfredo Felner
«...os colonos que em meado do século XIX se transferiram do Norte do então Império brasileiro para a África, tornaram em alguns anos Moçâmedes uma imagem viva e doce da Pátria, isto é, de Portugal, pela introdução de usos e hábitos nacionais". 1º volume. Manuel Júlio de Mendonça Tôrres, em O Distrito de Moçâmedes nas Fases da Origem e da Primeira Organização (1485-1859)
Quanto à configuração do traçado das ruas e do seu casario de Moçâmedes, levantados de acordo com o projecto de Fernando da Costa Leal (o seu 5º Governador), de facto, tal como refere Manuel Júlio de Mendonça Tôrres no citado livro, tem todas as características de uma cidadezinha portuguesa, com as suas ruas rectilíneas, as perpendiculares em quadrícula quase simétrica de blocos rectangulares de casas (ou quarteirões), a sua extensa avenida paralela ao mar, onde sequer faltava ao centro o tradicional Coreto, onde aos domingos bandas iam tocar. Mas havia algo que escapou a Mendonça Torres. Eram como referiu Gilberto Freyre, as influências brasileiras detectáveis quer na paisagem quer na vegetação, quer nos modos de ser e de estar das pessoas, inclusive no modo de lidar com os serviçais africanos, alojando-os em senzalas complementares de casas-grandes, alimentando-os, vestindo-os, iniciando-os nas práticas e ritos católicos:
"A verdade é que êsses "colonos" introduziram em Moçâmedes não apenas usos e costumes do Portugal europeu como do Brasil; e nessa obra de transculturação parecem ter sido auxiliados de modo nada desprezível pelos brasileiros, quer brancos - espôsas, filhos, parentes, etc. - que os acompanharam, quer pelos criados e serviçais. De alguns daqueles colonos sabe-se que se especializaram, como Bernardino de Figueiredo, em cultivar muito brasileiramente, em Moçâmedes, algodão e cana de açúcar; e com tal sucesso que amostras de algodão da fazenda e do açúcar do engenho do mesmo Figueiredo figuraram em 1865 na Exposição Internacional do Pôrto. De modo igualmente brasileiro parecem ter se requintado êsse e outros "colonos", idos do Norte do Brasil, em receber com mesa lauta amigos e estranhos em suas casas-grandes de feitio patriarcalmente pernambucano: casas-grandes completadas por senzalas. Daí terem se tornado famosos os banquetes na casa-grande da Fazenda dos Cavaleiros, de propriedade de Figueiredo; e em visita há poucos anos a Moçâmedes tive notícia de terem sido essas fazendas centros de irradiação não só da lavoura de algodão e da de açúcar, como de outras lavouras brasileiras, de alimentação e de gôzo; e de costumes e ritos luso-brasileiros de agricultura e de vida rural".
Gilberto Freyre
Gilberto Freyre refere ainda:
"Um dos elementos que concorreram para a transculturação, de valores brasileiros em áreas ou entre populações africanas, através de agentes que do Brasil regressaram à África ou ainda aí se transferiam foi o colono português ou o brasileiro branco, proprietário de escravos no Brasil, ao deslocar-se do Basmera a África juntamente com êsses escravos - além de móveis de jacarandá, vasilhas de barro, rêdes do Ceará, balaios e cestas de feitio ameríndio, mudas de plantas, papagaios; ou apenas com idéias ou noções ou métodos, adquiridos na América Portuguêsa, de lidar com escravos, alojá-los em senzalas complementares de casas-grandes, alimentá-los, vesti-los, iniciá-los em capelas particulares ou em oratórios das mesmas casas, mas práticas, e ritos luso-Católicos, fazê-los trabalhar em lavouras tropicais, com objetivos europeus.
Houve vários casos dessa espécie - de transferência às vêzes como que global de colonos estabelecidos no Brasil para a África - entre os quais casos de brasileiros, filhos de portuguêses, e portuguêses casados com brasileiras de famílias antigas e de velhos habitos patriarcais-rurais ou patriarcais-agrários. Alguns dêsses portuguêses e brasileiros transferiram-se na primeira metade do século XIX de Pernambuco para Moçamedes. Aí se encontram em cemitério aristocrático, túmulos de estilo convencionalmente luso-Católico, de vários brasileiros, alguns de famílias fidalgamente rurais; e são vários os descendentes dêles, na população atual de Moçâmedes. Ainda hoje se encontram, também, nas "hortas" ou fazendas pequenas ou médias de descendentes de "brasileiros" naquela parte da Angola fortes traços de influência brasileira, não só sôbre a paisagem ou a vegetação africana - abrasileirada pela presença da mandioca, do tabaco, do cajueiro - como sôbre os estilos luso-africanos de vida, de economia e de comportamento. Inclusive o comportamento de serviçais africanos, alguns dêles continuadores de escravos africanos ou de descendentes de africanos que, ou acompanharam seus senhores na aventura de deixar o Brasil pela África, em face de surtos brasileiros de anti-lusismo; ou foram influenciados pelos métodos brasileiros de assimilação dos escravos a uma terceira cultura, nem européia nem ameríndia, porém luso-brasileira, com possibilidades de generalizar-se fàcilmente naquela cultura geral que venho denominando luso-tropical. A generalização de cultura luso-brasileira em cultura luso-tropical ocorreu, com alguma freqüência, através de regressos quer involuntários - de escravos que acompanharam senhores do feitio dos que se estabeleceram em Moçâmedes, em suas transferências do Brasil para outras áreas de colonização portuguêsa ou européia - quer voluntários: de ex-escravos ou de descendentes de escravos que se deslocaram do Brasil para essas outras áreas, maternalmente africanas, conservando-se, porém, com certo brio étnico-cultural, "brasileiros"; e não se deixando reintegrar de todo nas culturas ou sociedades maternas da África".
Também Gilberto Freyre encontrou no Cemitério de Moçâmedes destinado à população "indígena" aquilo que considera ser "uma das expressões mais dignas de estudo da situação intermediária de cultura - cultura afro-cristã - característica de considerável subgrupo da população de Moçâmedes, repita-se que é a que se nota naquele cemitério a um tempo cristão e africano, em cujos túmulos, aos símbolos cristãos se juntam, com valor simbólico ora menos, ora mais evidente, não só desenhos de traço africano como urnas e receptáculos destinados menos a flôres, dentro do ritual cristão de culto aos mortos, que a ofertas de outro gênero - alimento, inclusive - como em rituais fúnebres africanos. Talvez o referido cemitério seja, neste particular, uma das expressões biculturais mais interessantes que hoje se encontram em qualquer parte.

Debruçemo-nos então sobre alguns desses usos e costumes levados pelos portugueses e luso-brasileiros para Moçâmedes e que se mantiveram constantes, pelo menos até meados do século XX. Um deles foi o da "romaria" ou "romagem" que se fazia anualmente, com grande afuência, à capelinha da Nossa Senhora da Conceição do Quipola, nos arredores da cidade.
Esta foto, datada de no dia 8 de Dezembro de 1928, retirada de um dos livros de Paulo Salvador, mostra-nos precisamente uma dessas "romarias" à capelinha de Nossa Senhora do Quipola, num tempo em que o comboio (que se pode ver ao fundo) era já o transporte de eleição para este tipo de peregrinações anuais. Trata-se de um interessante elenco de cavalheiros, senhoras, senhorinhas, meninos e meninas, em ameno convívio, cuja indumentária sugere tratar-se não de gente humilde, mas de uma determinada classe, que beneficiava na época já de certo desafogo: as senhoras exibindo largos chapéus e bonitas toilettes, os homens de fato, gravata, chapéu, etc, em todos, eles e elas, uma certa preocupação com o bem estar e com o bem parecer... À esq. e um pouco mais atrás, alguns africanos que se pressupõe serem serviçais. Ao fundo, estacionado, o comboio que circulou pela primeira vez em 1907.

Mas as "romarias" tiveram o seu início numa fase anterior ao comboio, numa altura em que as pessoas para se deslocarem a médias distâncias como era o Quipola, as "Hortas", etc, serviam-se de machilas, tipoias e carroças de madeira, de estilo boer, puxadas por manadas de bois. A foto acima, tirada no início do século XX na rua da Praia do Bonfim, paralela à Avenida da República, mostra-nos um gracioso grupinho de meninos e de meninas, e alguns adultos, preparados para uma viagem que poderia bem ser rumo ao Quipola, mas também às "Hortas" existentes nas margens do rio Bero, ou talvez, quem sabe, um simples passeio pela vila. As carroças de madeira foram introduzidas pelos boers, e foram durante bastante tempo o meio de transporte utilizado em Moçâmedes, para pessoas e mercadorias, antes da inauguração do Caminho de Ferro em 1907. Sabe-se que com a inauguração do comboio em 1907, os Caminhos de Ferro passaram a colaborar na romaria ao Quipola, disponibilizando transporte gratuito á população, da Estação ao Quipola e vive-versa.

Repare-se nesta foto, através da qual podemos ver, encostadas à parede lateral da capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, algumas das atrás referidas machilas.
As romagem à Capelinha do Quipola era como todas das romagens ou romarias praticadas em Portugal, uma mistura de religião cristã com cerimónias pagãs (não cristãs), incluia «missa campal» seguida de uma longa procissão na qual toda a gente participava, percorrendo todo o recinto, serpenteando por através da profusão de mastros embandeirados implantados no local, até chegar de novo ao ponto de partida. Finda a procissão, cumpridos os deveres religiosos, começava o arraial ali mesmo ao lado, em recinto de terra batida devidamente enfeitado e apetrechado, onde à boa maneira portuguesa se erguiam pavilhões e barracas que de tudo um pouco se vendia, desde «comes e bebes» a estatuetas, objectos diversos, rifas, etc. Enfim, uma mistura de sagrado e profano para que todos pudessem manifestar a sua fé e orar à sua Santa, cumprir os seus deveres religiosos e acabar o dia, à boa maneira portuguesa, petiscando, bailando e divertindo-se, de início ao som da concertina, mais tarde, ao som do gramofone e seus altifalantes. Na foto acima podemos ver, para além da Capela e das machilas, o pavilhão, o recinto embandeirado, e o estrado de erguido em frente ao pavilhão, rodeado de folhas de bananeiras e de palmeiras, e destinado ao bailarico.
Elegantes em passeio às "Hortas"
Desde a fundação de Moçâmedes, as "Hortas" implantadas ao longo das margens do rio Bero, depressa se constituiram num ponto de encontro domingueiro de muitas famílias da terra, que se manteve consistente, pelo menos, até finais dos anos 1950.
A "ida às Hortas" começou por ser um hábito burguês cultivado em Portugal metropolitano e no Brasil a partir da segunda metade do século XIX, que se foi democratizando, e que, como tantos outros, foi transladado para Moçâmedes pelos colonos que iam chegando, e aconteciam geralmente no Verão, sendo as "Hortas" do Torres e a do Venâncio Guimarães (Benfica) eram as preferidas, por ficavam do lado de cá do rio Bero (1), o que facilitava os transportes, sobretudo em época de chuvas antes da construção da ponte, quando das enxurradas tornavam problemático a travessia do rio, mas também porque eram acolhedoras. Havia outras «Hortas» nas margens do rio Bero, também interessantes de se visitar, como a de João Martins Pereira, a da Boavista no Quipola (Venâncio), a do Costa Santos, etc. etc.
Uma "ida às Hortas" juntava em amena confraternização, aos domingos, no Verão, grupos de pessoas de todas as idades e de todos os parentescos, avós, pais, filhos, netos, bisnetos, tios, primos, sobrinhos, e até compadres e amigos. A partir dos anos 1960 este culto começou a declinar com o declíneo do modelo de família extensa que deu lugar ao modelo de família nuclear, restrita, reduzida ao pai, à mãe e a não mais que dois ou três filhos, mais individualista, mais autónoma e mais íntimista. Contribuiram também para o recuo dessas grandes reuniões de familiares que animaram os velhos tempos as novas e diversificadas formas de lazer e de entretenimento que entretanto foram tendo lugar em Moçâmedes e vieram alterar usos e costumes antigos que em breve não passariam de gratas recordações.
Convém contudo lembrar que não foi fácil erguê-las e cultivá-las, devido às prolongadas secas que levaram à abertura cacimbas (poços), ao cavar de regos por onde haveriam de correr as águaa encontradas, a um trabalho árduo, paciente e pertinaz, no decurso do qual os primitivos colonos foram aprendendo com os próprios erros a lidar com as situações, a saber quais as épocas próprias para as sementeiras, a rasgar progressivamente o vasto areal seco areal do Namibe. Desde 1849, que a várzea do rio Bero, a poucos quilómetros da foz, havia sido toda retalhada e entregue a cada um dos colonos pioneiros, com a obrigação de a arrotearem e prepararem para a cultura da cana-de-açucar e produtos hortícolas. Eles não sabiam que o Bero ao qual chamavam o "Nilo" de Moçâmedes não possuia a capacidade de inundar regularmente as terras, para que os meses de colheita e descanso fossem a compensação das canseiras na preparação das plantações... Logo no primeiro ano, o rio não trouxera água suficiente para inundar as margens cultivadas e baldados foram todos os sacrificios. As colónias de 1849 e 1850 não sucumbiram no raiar da sua existência, graças a uma subscrição pública aberta pelas Câmaras de Luanda e de Benguela.

Um trecho do luxuriante jardim da Avenida da Repúblic, mais tarde Avenida da Praia do Bonfim
Elegantes passeando na Avenida...1907, ano da subida de Moçâmedes a real cidade
Um outro hábito burguês, espécie de actividade lúdica, que constituiu num rito social muito em voga, aos domingos, em Moçâmedes foi o do "passeio público". Dir-se ia que o belo jardim da Avenida da República em Moçâmedes, que tinha por epicentro o "mítico" Coreto (visível nos três postais acima) que chegou incólome aos tempos da minha infância para em seguida ser demolido, fora o local escolhido por uma determinada "elite" da terra para o seu passeio domingueiro, numa transposição, ainda que reduzida à dimensão da terra, do "passeio público" que se desenrolava em finais do século XIX na Metrópole, na Avenida da Liberdade, onde a menina casadoira se ia mostrar exibuindo a boa aparência da sua "toilette" ou, mais singelamente, para ouvir no coreto a banda tocar... Na foto acima, tirada em 1907, quando da visita do princípe D. Luis Filipe a Moçâmedes e da subida da até então vila a real cidade, podemos ver sentadas em bancos corrido do jardim, junto ao Coreto, algumas «damas» da época exibindo requintados vestidos compridos e chapéus de abas largas, como era moda na época, tendo a seu lado as suas crianças, também elas graciosamente vestidas. De pé, vêm-se «cavalheiros» envergando fatos brancos e chapéus, e descontraidamente caminhando ao longo do jardim vêem-se outros elementos da população e um ou dois jovens com as suas bicicletas. Do alto do Coreto sobressai uma figura que parece ser a de um elemento de alguma banda musical a preparar-se para tocar. À direita um estrado suportando um toldo sugerindo ter alí havido alguma cerimónia oficial, talvez dedicada à visita do Principe. Aliás este jardim era a sala de visitas de Moçâmedes, local de desfiles, comemorações e até arraiais, onde barracas e pavilhões eram erguidas, onde senhoras da terra erguiam quermesses, faziam exposições, organizavam sorteios, rifas, tômbolas, etc, como sempre ouviramos contar as nossas avós.
Estou a lembrar-me das barracas e pavilhões erguidos nas laterais da vasta Avenida quando do Centenário da cidade em 04 de Agosto de 1940, e dessa famosa década de 1950, em que num repente a pacata cidade de Moçâmedes (que desde há uns anos tinha passado a dispôr do seu Rádio Clube e do seu Cine Teatro), passou a contar com um grande número de pessoas, homens e mulheres, jovens e adultos, intensamente envolvidos em eventos sociais de toda a ordem: programas radiofónicos de variedades organizados pelo mesmo RCM; "Programas da Simpatia" (o grande sucesso de Carlos Moutinho) que cativaram gente de todas as idades; passeios na Avenida, transformada numa espécie de "picadeiro", após as sessões da tarde (matinées) no Cine Moçâmedes, onde altifalantes pendurados em frondosas árvores transmitiam para quem quizesse ouvir (e curiosos não faltavam), música a pedido, entrevistas ocasionais, concursos infantis, etc, etc., tendo como epicentro o velho Coreto, onde de quando em quando bandas de música iam tocar...
Recuemos de novo no tempo. Esta foto foi tirada em 1905 quando da visita do Conselheiro Governador Geral, Dr. Ramada Curto a Moçâmedes. Também aqui junto do Piquete da Guarda Fiscal podemos notar a presença requintada de elementos de uma determinada "elite" local ou visitante.
Através desta foto, tirada por volta de 1885, que fomos encontrar no Livro "Moçâmedes" de Manuel Júlio de Mendonça Torres, vislumbra-se um serão familiar de elementos femininos no interior de uma das casas mais antigas de Moçâmedes, a casa de Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres, ambos componentes da 1 ª colónia ida de Pernambuco ( Brasil) para Moçâmedes. Tanto o mobiliário como a indumentária mantêm as características dos lares burgueses ocidentais aristocratizados da época, onde não faltavam os quadros pendurados nas paredes, os retratos de familia, os espelhos em talha dourada, os móveis de estilo, o piano, instrumento que fazia parte da educação de uma menina prendada, tal como o bastidor, a máquina de costura, o bordado, as leituras, etc etc. Deste grupo de sete senhoras, naturalmente já descendentes, em 1991 três ainda viviam: a que está sentada à máquina de costura, e a que está sentada ao piano, conforme refere Carlos Cristão no Livro "Memórias da Angras do Negro - Moçâmedes-Angola".
Não seria por acaso que um viajante estrangeiro deixara registado em livro a agradável surpresa que tivera quando ao passar por uma das ruas de Moçâmedes, em finais do século XIX, lhe soaram, vindos do interior de uma das casas, sons de uma melodia ao piano tocada por uma jovem enquanto outra cantava...
No livro de António Cristão, «Memórias da Angra do Negro-Moçâmedes-Angola» encontramos a seguinte passagem sobre o tipo de educação que recebiam as raparigas em Moçâmedes por volta de 1920:
«A psicologia de vida alegre e atraente da população deve-se, por altura de 1920, em parte, senão muito, à elite da época, constituida por um interessante elenco de Senhoras já dali naturais, que no exterior, e, especialmente em Londres, concluiram umas o curso de alta-costura, outras o do conservatório de música e dança, formação que, então, passaram a ministrar às jovens dali naturais. A beleza e o fino porte destas jovens encantavam todos aqueles com elas conviviam. Este facto, podia, até há bem pouco tempo, ser atestado pela Senhora Celeste Kressmann Rosa, descendente do Capitão José da Rosa Alcobaça, recentemente falecida com cerca de 100 anos. Neste livro, entre outros, são destacados nomes, como: Francisca Reis, casada com o Dr. Luiz Bobela da Mota, juiz da comarca; Judith Reis, casada com José Manuel da Costa, Governador Civil de Moçâmedes; Alice Reis, casada com Rogério Morgado, proprietário e filho de emigrante da 2ª colónia, Constantina Reis, casada com Júlio Rogado Leitão, importante comerciante na terra; Maria Sales Lane, casada com Eduardo de Mendonça Torres, economista; Ema Zuzarte Mendonça, solteira, diplomada com o curso do Conservatório de Música de Lisboa, que em Mossamedes até à década de 50 foi professora particular de Música, etc., etc.. Várias destas senhoras uniram-se a ilustres figuras de Moçâmedes.»
Também fomos encontrar
no Livro de António A. M. Cristão «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», cap. II.4-EDUCAÇÂO, pg.221, algumas passagens que apontam para a preocupação existente na época, em determinados sectores da população, na educação das suas filhas, chegando a recorrer a educadoras estrangeiras, a servirem-se de colégios particulares, como o de Miss Herriet Deehan, que terá aceite também um certo número de rapazinhos, à semelhança do que acontecia também no colégio das religiosas de S. José de Cluny :
"...Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem...
Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas.
Também a este respeito, em 23 de Março de 1882,
era publicado num dos jornais de Luanda, O Mercantil, um anúncio em que se dizia que “Miss” H. Deehan, professora com longa permanência na Inglaterra e na França, e com algum tempo de estada em Lisboa, tinha aberto na cidade de Moçâmedes um colégio para meninas, onde ensinava Inglês, Francês, Português, Gramática, Geografia, História, Desenho, Costura, Piano, Órgão, Canto Coral, e tudo o mais que completava uma boa educação. Aquele anúncio repetiu-se algumas vezes, no mesmo periódico.
Manuel José Martins Contreiras no seu relatório de 19 de Junho de 1894, refere que esta senhora estava encanecida nas lides do ensino, e leccionava em Moçâmedes havia mais de catorze anos, imprimindo o seu cunho particular à educação das crianças das famílias mais abastadas. Era o estabelecimento de ensino, em toda a Província, que ministrava mais vasto programa educativo. Rivalizava com o que havia de melhor na Metrópole, se o não excedia! Era professora única das suas alunas, preenchendo só ela o lugar de muitas mestras. Além do programa do ensino primário, leccionava as matérias do ensino secundário, que já indicámos, dando a tudo grande importância, seriedade e intensidade... havia desenhos e bordados que podiam colocar-se a par dos melhores que apareciam em exposições, tanto no nosso País como no estrangeiro. Embora a maior parte dos educandos fossem alunas do sexo feminino e já bastante crescidas, admitia alguns rapazinhos, o que acontecia também no colégio das religiosas de S. José de Cluny. Em regra, as meninas saíam do colégio desta senhora para constituírem família, para casarem... O nome de Henriqueta Deehan surge no mapa estatístico de 1885, indicando a frequência no seu colégio nesse ano lectivo, de quatro meninos e nove meninas, apresentava em ortografia original, o nome Herreeth, talvez por erro de transcrição, escrito Herriet.
Ainda sobre Miss Herriet Deehen (aqui traduzido para Henriqueta Deehen) encontramos em
http://reocities.com/Athens/troy/4285/ensino12.html as seguintes passagens:
«...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Moçâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... In
"...Para encerrar este capítulo, faremos referência muito especial a uma ilustre senhora católica, de origem irlandesa mas educada na França e cujo nome é Henriqueta Deehan. Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas.
Por tudo isto não admira que em Moçâmedes por volta das décadas 20 e 30 do século passado, senhoras mais preocupadas com o seu aspecto tivessem ao seu dispor peças de vestuário importadas dos conhecidos Armazéns «Printemps» de Paris. De Paris vinham os vestidos de noiva de algumas moçamedenses, o pronto-a-vestir para as acompanhantes, fatos casaca bordados a vidrinhos e a fita de gorgurão, chapéus com véu de tule, fatos e chapéus para homem, sapatos, luvas, joias, colares, artigos de toilette, etc... A loja que os importava e vendia ficava no rés-do-chão do edifício à época ocupado em parte pelo Hotel Central, na Rua dos Pescadores, junto do edifício da Alfândega, propriedade da familia Mendonça Torres. É claro o "Printemps" a só vestia um determinado estrato social. É necessário que não se confunda nunca o todo com a parte. Não admira também que as jovens casadoiras de Moçâmedes tivessem fama de serem jovens prendadas, sendo caso raro alguma que ficasse por casar... Elas tinham tido boas mestras, como referiu António Augusto Martins Cristão no seu livro «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes» quando nos fala da "a psicologia de vida alegre e atraente da população" e de uma elite constituida por senhoras já dali naturais, por volta de 1920, que haviam adquirido fora de portas cursos de alta-costura, de conservatório de música e dança, beleza, fino porte, etc., e passaram a ministrar às jovens da terra...
Referir-me-ei ainda a mais um desses usos e costumes que eram cultivados pelas senhoras de Moçâmedes e que perduraram, pelo menos, até finais dos anos 1940. O da "visita semanal a uma amiga", acompanhado do tradicional do chá das 5h. Era como que um sagrado dever social religiosamente cumprido, um ritual que fazia parte da gestão do tempo de uma dona de casa, nesse tempo em que a maioria das mulheres se encontravam investidas no papel único e tradicional de donas de casa, esposas e mães, antes do ingresso em massa da das mulheres no mundo do trabalho. Numa terra onde as oportunidades de exibir a suas toilettes não seriam muitas, uma ou outra senhora chegava a preparar-se para a visita semanal a uma amiga, com tal rigôr e elegância, que não dispensava luvas e chapéu, parecendo aprontadas para um qualquer que casamento. Era ainda criança, mas tenho presente algumas visitas desse género efectuadas pela minha mãe a amigas e familiares. Esperava a visitante uma mesa muito bem posta, onde sobre uma alva toalha branca bordada a crivo e bainhas abertas, se encontrava o serviço de chá, sandwiches, variados bolos confeccionados em casa, bombons, etc. etc. Escusado será dizer que estas visitas eram importante para a pequenada na medida em que para além das gulodices sempre bem vindas possibilitavam o encontro com primos, primas e amigos, e obviamente, momentos propícios aos mais diversos jogos e brincadeiras.
Enfim, eram estes usos e costumes transplantados por de portugueses para aquele cantinho de África, que iam permitindo suprir a nostalgia da distância, ao mesmo tempo que proporcionavam momentos de entretenimento e ritualidades que ajudavam a passar o tempo e a viver, aliviando a carga do dia a dia. Como poderia ser de outro modo, num tempo em que não havia cinema, televisão, electricidade, etc., em que as casas eram iluminadas a petróleo (quando não a óleo de cetáceos produzidos pela fábrica de noruegueses existente na Praia Amélia), os aparelhos de rádio se os houvesse, eram alimentados a bateria, e às 8/9 horas da noite já estava toda a gente na cama! Moçâmedes só teve luz electrica a partir de finais dos anos 1940, e foi a partir daí que começaram a surgir no pacato burgo, outros entretenimentos, outras formas de lazer, de viver e de conviver!
Ficam mais estas recordações algumas das quais devo à minha tia Maria do Carmo Paulo Matos, actualmente com 85 anos de idade, mas com uma memória ainda muito viva de factos passados em Moçâmedes, a terra onde nasceu algures no ano de 1925.
MariaNJardim
Este texto, escrito em 2005, foi publicado pela primeira vez no blog em 2007, e está sendo agora republicado
Alguma bibliografia consultada:
«O Distrito de Moçâmedes nas Fases da Origem e da Primeira Organização (1485-1859), de Manuel Júlio de Mendonça Tôrres António
A. M. Cristão «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», cap. II.4-EDUCAÇÂO, pg.221
Manuel José Martins Contreiras, no seu relatório.
http://reocities.com/Athens/troy/4285/ensino12.html