quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O Piquete e da Guarda Fiscal e os serviços de Alfândega de Mossãmedes (Moçâmedes-Namibe)





O piquete da Guarda Fiscal de Mossãmedes (2º e 3º postal), era uma elegante construção de traça romântica ao estilo da época. Este postal retrata o dia do Embarque do Conselheiro do Governador Geral, Dr Ramada Curto, de visita a Mossãmedes, em 1 de Outubro de 1905. Através dele podemo-nos aperceber do >movimento junto do piquete da Guarda Fiscal ocorrido nesse dia.Clicando sobre a foto para a aumentar, podemos apreciar a elegância da indumentária da época: senhoras de vestidos compridos e chapéus, homens de fato escuro a rigôr, meninas com bonitos vestidos brancos de cerimónia e chapéus, e meninos com fatos escuros e grandes colas brancas, tipo marine.

Para além de membros do corpo da guarda fiscal, podemos ver alguns curiosos observando a partida dos visitantes. Podemos ver também as grelhas de ferro que contornavam o trajecto do piquete para a ponte de embarque/desembarque, bem como a linha férrea através da qual e em «vagonetas» se transportavam as mercadorias que eram retiradas/colocadas de e para os batelões através de guindastes.

Nessa altura os navios ficavam fundeados ao largo na baía e eram os batelões que carregavam as mercadorias para a ponte. E não apenas mercadorias, também pessoas e até gado embarcavam e desembarcavam nesta ponte. Por este piquete passavam inclusive os visitantes, incluindo muitas senhoras que ainda na década de 1950, quando algum navio de passageiros passava por Mossãmedes iam a bordo para conseguir comprar a série de objectos, lingerie, roupas, chocolates, etc., que as lojas a cidade não possuiam.  Chamavam então o «dia de S. vapôr». Nesses dias os camarotes dos bagageiros funcionavam como autênticas boutiques. Contudo, era sempre problemático, quando se passava pelo guarda-fiscal ao descer as escadas do navio, para através de um pequeno «gasolina» (*), que recolhia as pessoas, eas levava para terra. E era problemático porque  se estes desconfiassem que elas haviam abusado no volume de compras, levando-as escondidas por debaixo da roupa, as não deixava passar. E o mesmo podis acontecer, já em terra, quando faziam a passagem obrigatória pelo piquete da guarda-fiscal. Aí, se houvesse alguma desconfiança eram chamadas para o interior do piquete para serem submetidas a  «apalpadeiras» que se certificavam da presença de contrabando. Regra geral até fechavam os olhos a pequenos objectos, sendo os mais comprados os pacotes de rebuçados e as pastas de chocolate Cadbury´s trazidos da África do Sul, e até caixas de uvas, vindas da mesma proveniência. Mas havia também quem se aproveitasse, e bem, para passar contrabando, coisas como tabado e bebidas. Mas como em todas as sociedades há sempre aqueles que prevaricam, à grande, também Mossãmedes não fugia à regra.

Através da 2ª foto podemos ver como era a primitiva ponte da Praia das MIragens que ficava ligada por carris,  por onde rolavam «vagonetas» que transportavam as mercadorias da ponte para o piquete e vice-versa. Mais tarde esta ponte acabaria por ser acrescentada com pilares de madeira e passaram a ser utilizadas «vagonetas» sobre linha férrea para conduzir a mercadoria até ao piquete.

Segue um grupo de 5 fotos da zona junto do Piquete da Guarda Fiscal e da Praia das Miragens, onde até aos anos 50 ficavam "armazenados" os caixotes, caixas e bidons , etc., que eram descarregados no porto de Moçâmedes, através da velha ponte de cais; comunicava por mrio de carris de ferro com a ponte-cais, boa construção de ferro e madeira.







1ª foto. Zona de depósitos de sacos e rolos
2ª foto Zona de depósito de caixas e bidons
3ª foto Zona de depósito de caixas de madeira
4ª foto Zona de depósito de caixas e barris
5ª foto Zona de depósito de caixas de madeira
Os serviços alfandegários

A fundação dos serviços alfandegários em Mossãmedes remonta ao ano 1851, ano em que passou a ser possível dar início à exportação de açúcar, uma das actividades agrícolas e comerciais trazidas para o vale do Bero por colonos oriundos de Pernambuco que de início, teriam recorrido, para a sua produção, à mão-de-obra escrava, mas que, com a proclamação da abolição da escravatura em todo o território português em 1869, começa a entrar em crise e acaba por se extinguir.

Foi a partir daí que a economia de feitoria, passou a estar sustentada por um outro tipo de colonização para a qual contribuiu o ministro Sá Nogueira ( Marquês de Sá da Bandeira), ao insistir que se fomentasse a indústria da pesca no distrito de Mossãmedes.

Nesses período inicial, cultivou-se a urzela e a borracha, para citar dois exemplos marcantes do comércio com os africanos do interior, como também o mel de abelha, a cera, mas outras culturas foram desenvolvidas, e progrediram dando origem a rentáveis negócios, tais como o algodão, outros negócios animaram o comércio, entre os quais o do gado bovino e o do marfim, e neste caso em quantidade tão significativa que pesava apreciavelmente nas exportações. Um arranque que só foi possível devido à presença do rio Bero e de todo um conjunto que engloba o Giraul, o Coroca, S. Nicolau e toda uma região interior onde se encontram outros rios com suas margens aproveitáveis e suas bacias hidrográficas que se estendem desde os rios secos da base da cordilheira da Chela, povoados de modo diferente conforme a riqueza natural e as condições para a criação de gado e agricultura.

O rio Bero de corrente hídrica irregular e margens largas rodeadas de areia com uma grande percentagem de aluvião, guardava quase permanentemente água no subsolo, um pouco à semelhança do rio Nilo, (salvo as devidas proporções). Isto é, as águas das enxurradas faziam transbordar o leito e carregando consigo o rico húmus, inundavam e fertilizam os terrenos marginais. Esta foi a particularidade fundamental para o povoamento e para a evolução de Mossãmedes. O contexto em que estão presentes a baía, os rios, a flora e fauna constituem a base do desenvolvimento da povoação de Mossãmedes que nasce e cresce um pouco como centro de gestão e entreposto de circulação de mercadorias.

Deste então, e durante muitos anos, até à construção do Porto Comercial, a ponte-cais, era um pólo muito importante da vida de Moçâmedes. Por ali passavam o gado e as mercadorias que Moçâmedes importava e exportava. Por ali passavam os passageiros que chegavam e partiam em direcção a outros portos, e era por alí e atavés de Mossãmedes que algumas terras do interior eram abastecidas.

(ass.)Manuel Júlio de Mendonça Torres
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Principais exportadores nos primeiros tempos da colonização

Na enumeração dos exportadores distritais de algodão, mencionaremos, como de todos o mais importante, o cultivador João Duarte de Almeida, proprietário das fazendas dos vales do Coroca e de S. Nicolau.

Revendo uma nota demonstrativa do algodão em rama, exportado pela Alfândega de Mossãmedes no ano de 1863 (terceiro período da guerra de secessão) verificamos que aquele cultivador, ele só, expedira no mesmo ano, cerca de 1770 arrobas, pelos seguintes vapores: - «D. Pedro» (em três das suas viagens), «Zaire» (em duas), «D. Antónia» e «Estefânia» (em duas)
(Anais do Conselho Ultramarino - Parte não oficial -Série V - Ab . de 64, pág. 38).

O Estado, por ocasião da Exposição Industrial do Porto, em 1865, reconheceu-o digno da munificiência régia, por haver prestado nela distinto e valioso concurso, como expositor, agraciando-o, por tal facto, com o grau de cavaleiro da Ordem de Cristo, visto a respectiva Comissão Organizadora lhe haver conferido «medalha de primeira classe pela excelente qualidade doe algodão exposto e pela sua excelente cultura de algodoeiros».
(Fradesso da Silva, «Visitas à exposição de 1865» e Portaria nº 76, de 30 de Abril de 1866, no B. O. nº 23, de 9 de Junho do mesmo ano).

Parece-nos que devemos dar relevo condigno às informações que sobre o algodão exposto por João Duarte de Almeida nos presta Fradesso da Silveira, no seu interessante livro «Visitas à Exposição de 1865». Vamos, por isso transcrevê-las:
«De Moçâmedes, província de Angola, mandou o Senhor João Duarte de Almeida capuchos de algodão arbóreo, herbácio e rasteiro. O algodão arbóreo é cultivado na fazenda de S. João do Norte, propriedade do expositor, e nas margens do rio S. Nicolau, ao norte de Mossãmedes. A sua produção no ano 1862, foi de sete mil quilogramas; em 1863, de oito mil; em 1864, de treze mil; e actualmente calcula o expositor poder obter cerca de vinte mil.

O algodão herbáceo é cultivado na Fazenda de S. João do Sul, propriedade do expositor e nas margens do rio Coroca, ao Sul da villa de Mossãmedes. A sua produção no ano de 1862, foi de sete mil quilogramas; e actualmente, calcula o expositor, poder alcançar mais de quarenta e cinco mil. Emprega diversas qualidades de sementes, mas cultiva com preferência o algodão pela semente da de Nova Orleães»

Os textos dão-nos notícias de que João Duarte de Almeida fora, no Distrito, o maior exportador de algodão, mas não nos apresentam a individuação nominal de todos os expedidores. A exportação distrital do algodão é-nos apenas manifestada, numérica e conjuntamente pelos seus mapas aduaneiros. Só em notas acessórias, versejando ao de leve o assunto, se descobriram os nomes de alguns outros exportadores.

Mencionaremos, ainda, como exportador, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro. Os seus algodoais estendiam-se pela Fazenda dos Cavaleiros, de que era proprietário, onde possuia, desde há muito, duas máquinas de descaroçar algodão. Destacamente, como registo informativo, podemos também dizer, segundo a referida nota de exportação. Destacadamente, como registo informativo, podemos também dizer, segundo a referida nota de exportação, publicada nos «Anais do Conselho Ultramarino», que exportara, em 1863, no vapor «D. Antónia», 88 arrobas de algodão para Lisboa.

Quanto aos cultivadores de algodoeiros, moaradores no concelho do Bumbo, José Leite de Albuquerque e Francisco da Costa Jubim, também não declararam os textos que tivessem sido exportadores de algodão; mas Nunes da Mata, no seu realtório de 67, apresenta, como sendo 2888 arrobas a quantidade de algodão, proveniente daquele Concelho, exportado no dito ano. Tendo siso tais agricultores - Leite de Albuquerque e CostaJubim - os maiores cultivadores algodoeiros, temos que convir que eles teriam sido igualmente, os maiores exportadores de algodão do Concelho. Foram, pois, no distrito, , grendes cultivadores de algodoeiros e exportadores de algodão: João Duarte de Almeida, José Leite de Albuquerque, Francisco José da Costa Jubim e José Joaquim da Costa. Mas muitos outros cultivaram o algodoeiro e exportaram algodão. podemos indicar mais alguns, estribados na nora demonstrativa, de 63, já citada - Joaquim Gomes Ribeiro, a firma Nogueira, Sousa & Companhia, Bernardo Augusto da Silva Santos, Eugénio Wherlin e António de Andrade Melo. (cont...)

In Moçâmedes 2º volume de Manuel Júlio de Mendonça Torres

Em 1962 o autor do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola» ( autor desconhecido) escrevia:

«...Quando cheguei á praia notei certa animação: as portas e janellas das casas estavam occupadas com gente que olliava para a bahia. Era causa d'esse movimento a chegada de um dos três navios costeiros de que já fallei: são de pequena lotação, e empregam-se no transporte de munições e mantimentos para os differentes pontos da costa; estão todos em mau estado, e por isso mesmo foi que os cederam á Provincia. O commando d'esses navios está confiado a segundos tenentes da armada, que de facto são os senhores d'aquellas embarcações, pois que a Provincia só tem a seu cargo a despeza que com ellas faz, em quanto que os lucros são para os commandantes; carregam a bordo por sua conta, ou da de particulares, recebem passageiros com quem ajustam a passa- gem, demoram-se o tempo que lhes parece nos portos onde vão negociar, e regressam a Loanda quando lhes faz conta, sem dar satisfação a ninguém. Costumam alguns dias depois da chegada enviar á Junta da Fazenda um quarto de papel, escripto muitas vezes a lápis, mostrando laconicamente o rendimento da viagem, que raras vezes attinge a quanlia de quarenta mil reis. A companhia «União Mercantil» veio fazer grande concorrência a este proveitoso negocio, que é um dos abusos mais escandalosos que se praticam em Angola, e cuja repressão não escapará seguramente á penetração do Governador geral. O systema de transportes na costa deve ser reformado. Os navios de vela, n'aquellas paragens, onde o vento escasseia a miúdo, são demasiadamente morosos: a Provinda necessita absolutamente dedous vapores pequenos, por exemplo, como o « Lynce » . Sem elles posso afiançar que não ha governo possivel em Angola.



6ª foto Pizarro, funcionário da Alfândega de Moçâmedes

O edifício da Alfândega. de Mossãmedes (actual Namibe), no tempo em que a água era retirada de cacimbas e os transportes carroças puxadas por bois. finais do século XIX














 


  Postal e foto antiquíssimos onde se pode ver o edifício da Alfândega, na foto, ainda em construção. 
O postal, datado de 1864/65, mostra-nos o edifício da Alfândega de Mossãmedes ostentando a bandeira portuguesa, e ladeado por uma espécie de piquete, à esq. e  à dt. o que parece ser um edifício que estivera alí antes do «Jardim da colónia,» que por sua vez daria o lugar na década de 1940, ao Cine Teatro de Mossãmedes.                                 

Este postal ainda nos permite ver os usos e costumes da época., na medida em que nos apresenta como enquadramento,  «damas» de vestidos compridos e cavalheiros vestidos com o rigôr da burguesia da época , bem como um homem montado a cavalo. Em frente ao pressuposto Piquete, um casco de navio encalhado. Seria a barca «Tentativa Feliz» onde viajaram de Pernambuco (Brasil) para Mossãmedes,  os componentes do primeiro grupo de emigrantes, que ali chegaram a 04 de Agosto de 1849, para dar início ao povoamento de Mossãmedes?  Quanto à indumentária das figuras do postal, importa referir que muitos dos primeiros «colonos» vindos do Brasil haviam sido ali  pessoas cultas e endinheiradas que se viram forçadas a abandonar Pernambuco não porque quizessem ir para Mossãmedes, nesse tempo em que Angola tinha fama de lugar de vida curta para os europeus devido ao clima e às doenças tropicais, dizimadoras como a malária e a febre amarela.  Eles partiram devido à onda de anti-lusitanismo  que grassava por ocasião da «revolução praeeira,  em 1848. Em Mossãmedes se estabeleceram, e sem perda de tempo, começaram a trabalhar para erguer das areias do deserto com a ajuda dos nativos a bela «Princesa do Namibe».


A 1ª foto, ou 2ª imagem desta postagem , mostra-nos o edifício da Alfândega ainda em fase de acabamento.  Em primeiro plano uma carroça em madeira, puxada por bois aguarda que  da «cacimba» ou poço ali existente seja retirada a água suficiente para encher o enorme barril que ali se encontra. era assim que a água potável, tão preciosa naquele areal encaixado entre o deserto do Namibe e o mar chegava à casa das pessoas, com a qual se confeccionavam os alimentos, e se efectuava as limpezas e banhos, tendo que ser antecipadamente fervida.

Se repararmos bem, encoberto pelas traseiras dos corpos dos bois, podemos ver aquilo que parece ser um chafariz em cimento. Também podemos ver , sobressaindo por detrás do edifício da Alfândesga, a «água furtada» do edifício de 1º andar,  outro dos mais antigos da cidade,  sito na Rua dos Pescadores, que teve como primeiro proprietário a familia Zuzarte Mendonça, mais tarde da família Mendonça Torres, e ainda mais tarde,  transformado em Hotel Central, explorado pela familia Gouveia. Actualmente no 1º andar fica o Museu do Namibe, onde, a par do sector etnográfico, repousam  algumas recordações dos tempos do império português..


A 2ª foto, ou 3 imagem, datada de 1930, apresenta também o edifício da Alfândega, mas então  já com o  enquadramento de um trecho da Rua da Praia do Bonfim, e da Avenida da República, devidamente urbanizada. Repare-se que existia nessa altura um pequeno «coreto» de ferro onde se vendiam bebidas, jornais, tabaco, etc. Conta-se que era à volta deste «coreto» que os homens de Mossãmedes interessados no que estava a acontecer no vasto mundo lá fora, se juntavam para ouvir as noticias da 1ª Grande Guerra de 1914-1918, numa altura em que praticamente não haviam aparelhos de rádio na cidade. E não só notícias da guerra na Europa como do que se estava a passar em África. Recorde-se que por essa altura se deram os incidentes de Naulila. Aliás Mossãmedes fora porto de embarque e desembarque de expedições miliaares e o Hospital de Moçâmedes acolheu muitos feridos em consequencia do conflito com os alemães do Sudoeste africano. Repare-se também no pequeno monumento que se encontra um pouco mais à esq. do quiosque erigido à memória de Sá da Bandeira, e mais tarde transferido para uma outra praça da cidade..


Um pouco da historia do edifício da Alfândega


O edificio da Alfândega de Mossãmedes ficou a dever o seu plano de execução ao Governador Fernando Leal, e começou a ser construído em 1863, no primeiro ano do seu governo. Foi inaugurado em Abril de 1868, já no tempo da Administração do Governador Joaquim da Graça.

Até 1873, não obstante a extensão e superioridade do fundeadouro na baía, não havia qualquer ponte de cais em Moçâmedes, segundo o autor (anónimo) do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola».  Os embarques e desembarques faziam-se  através de uma «ponte móvel», espécie de  jangada acente sobre grandes tambores vazios que permitiam flutuar. Era aos ombros dos nativos que pessoas e mercadorias eram transportadas, e,  desastrados como eram, por vezes compeliam os passageiros a um banho forçado. Nesse livro o autor sugere a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura aproximadamente das construções regulares, com estacarias para embarque/desembarque de pessoas, e uma ponte de carga e descarga para o serviço da ..


Foi em 1873 que se construiu a primeira ponte de cais em madeira assente sobre estacas que pouco tempo a pós ruiu e se inutilizou. Costa Cabral em seu relatório de 19/06/1877 informou o ocorrido propondo a urgente substituição e lamentando a a inexistência no local de outros meios de embarque/desembarque ou carga/descarga que se faziam em ocasiões de grandes calemas com perigosos riscos pessoais e sensíveis prejuizos para as mercadorias.
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Vejamos o que sobre a vila de Mossãmedes -situação, clima, pluviosidade, transportes, agricultura, hidrogeológicos, etc - nos diz o Auhor: Pereira do Nascimento, J. (José), 1861-1913 Publisher: Lisboa, Typographia do jornal As Colonias PortuguezasYear: 1892:

«...A villa de Mossãmedes, situada na zona do distrito que se prolonga de norte a sul, com a costa marítima, baixa e arenosa, separada da zona planáltica chuvosa e ricamente arborizada pela cordilheira da Chela, onde apenas durante três meses no ano caiam algumas bátegas de água, era naturalmente carente de chuvas, mas não totalmente carente de água; Apesar das vicissitudes do regimen pluvial, muitas das casas possuiam poços que forneciam água necessária para os usos ordinários, para além dos chafarizes que abasteciam em várias zonas.

Era água de má qualidade, pesada, salitrosa, que produzia perturbações digestivaso seu curso entre a Chella e o litoral mais curto e directo, formado em grande extensão por um leito de pedras e principalmente por ter a sua principal origem no plan'alto por intermédio de um a nascente que deriva para elle um grande volume de aguas colhidas na bacia do Jau (Dyau), durante a primeira parte da estação chuvosa do plan alto, de outubro a dezembro, quando ainda não teem cahido as primeiras chuvas na zona baixa; em quanto que os rios de S. Nicolau e Coroca são alimentados pelas chuvas que cahem sobre as vertentes occidentaes da Chella, o que só tem logar na quadra das grandes chuvas da zona alta, de janeiro a abril. E' de  se notar que o regimen pluvial desta zona difere consideravelmente do da zona alta. N'esta apparecem as primeiras chuvas em setembro e prolongam-se até dezembro formando a primeira parte da estação chuvosa, chamada das pequenas chuvas. N'esta quadra, dominando os ventos moderados do nordeste, as nuvens formadas por condensação no plan'alto descarregam sobre elle não chegando á zona baixa. Apenas de Janeiro a Maio, que comprehcnde a quadra das chuvas torrenciaes e dos ventos impetuosos do quadrante do sueste, e que as chuvas atingem a zona baixa e chegam á facha arenosa do litoral produzindo inundações passageiras, que ainda assim são o único recurso para a fertilidade dos terrenos agricultados nas proximidades de Mossamedes, taes são: as hortas do valle do Bero e Cavalleiros e as fazendas agrícolas exploradas nos valles do Giraul, Koroka e S. Nicolau.

Lançado no mar o excesso das enchurradas, fica no solo do leito dos rios uma certa humidade que se conserva por espaço de um e dois inezes e um deposito de detritos orgânicos, que constitue um rico adubo aproveitado pelos agricultores que sobre elle fazem as suas plantações em pleno leito dos rios. Estas fazendas produzem variadas espécies de cultura, taes como: algodão, cana saccharina, cereaes, legumes, hortaliças e arvores fructiferas. Empregam no arroteamento dos seus terrenos, 29 raachinas a vapor e possuem 32 engenhos de moer cana, e outros tantos alambiques para a distillaçáo da aguardente.

Pela disposição natural da zona alta, a sua maior altura corresponde á cordilheira da Chella e d'ahi para o interior desce suavemente para o sul e leste, do que resulta que a maior parte das aguas pluviaes correm ao Kunene; deriva para a zona baixa uma pequena porção, que na quadra das grandes chuvas cae sobre as vertentes occidentaes da cordilheira, fertilisando os terrenos do valle de Kapangombe. Sobre a facha arenosa do litoral de Mossãmedes chove muito pouco, duas ou três vezes por anno. Na facha cultivada em frente á Chella chove durante dois a três mezes, emquanto que na zona alta a estação chuvosa compreeende seis mezes no anno. Convém observar que tem havido profundas modificações no regimen pluvial da zona baixa, cujas causas são pouco conhecidas. Em épocas remotas chovia regularmente todos os annos em quantidade bastante para encher os leitos dos rios. Os antigos agricultores estabelecidos no valle de Kapangombe e Biballa e os primeiros colonisadores de Mossamedes falam com saudade dos primeiros annos da sua installação n'este districto, annos de chuvas abundantes e regulares; d'então para cá ellas teem diminuído progressivamente a ponto de passarem períodos de

Quando pela infiltração e evaporação desapparece a humidade no leito dos rios e bem assim durante os annos de estiagem, em que as aguas por successivas infiltrações nas finas areias não chegam a humedecer os terrenos cultivados, recorrem os agricultores á irrigação com agua extrahida de poços praticados a profundidade de 5 a 15 metros. Na villa de Mossamedes todas as casas teem poços, que fornecem agua necessária para os usos ordinários. Esta agua é de má qualidade, pesada, salitrosa, produzindo perturbações digestivas.

A existência de uma toalha liquida subterrânea na zona baixa, cujo nivel se mantém constante apezar das vicissitudes do regimen pluvial, é um facto incontestável, que nos leva a suppor que cila mantém estreitas relações com a bacia fluvial do plan'alto, que a alimenta como uma parte importante das suas aguas por infiltração atravez de camadas porosas, que seguindo as vertentes da Chella se prolongam e continuam com o subsolo da zona baixa.E' de importância capital para o desenvolvimento das fazendas agricollas do vale de Kapangombe investigarcom apparelhos próprios e aproveitar por meio de poços artesianos este filão de agua, que todas as razões induzem a crer que tenha a sua origem no plan'alto, cuja altitude media sobre o valle de Kapangombe é de 1600 metros.

A agricultura n'esta zona, que foi o principal elemento de prosperidade e riqueza nos tempos áureos do districto, acha-se actualmente em estado de lastimosa decadência por falta de aguas que irriguem os seus fertilissimos terrenos.

Os annos de secca succedem-se uns apóz outros com insistência esmagadora espalhando o desanimo por toda esta riquíssima região, cujos agricultores vão rareando, ceifados uns pela morte, e outros obrigados por falta de recursos a abandonar a.s suas propriedades, fructo de longos annos de trabalhos. Os mais favorecidos, que ainda assim mantem as suas fazendas a troco de penosos sacrifícios, são os que se estabeleceram nas vertentes da Chella, onde aproveitam as primeiras aguas de pequenos regatos permanentes, que descem do plan alto e formam as origens dos rios da zona baixa.

E de urgente e inadiável necessidade proceder a estes estudos, pois que o bom êxito dos poços artesianos é importante medida de salvação para em breve espaço de tempo elevar ao primitivo apogeu a agricultura em Mossamedes, única fonte de riqueza da população branca do districto, que se acha abatida e depauperada nos seus recursos por tão longa estiagem sem esperança de melhores O primeiro ensaio a fazer-se deve naturalmente incidir na zona de Kapangombe por estar mais próxima da Chella e oferecer por isso maiores probabilidades de bom êxito. Se d'esta tentativa sortir o desejado eíTeito, fácil será por sucessivas investigações animadoras estabelecer um systema de poços artesianos, que colloque a zona agricultada ao abrigo das vicissitudes de um regimen fluvial inconstante, o que concorrerá para desenvolver as propriedades existentes com valiosas culturas, crear novos centros de producção agrícola e animar os proprietários a converter os seus capitães em productivas fontes de receita.

Esta falta d'agua torna-se sobremodo sensivel na facha de terreno sobre que assenta a estrada que parte de Mossamedes para o plan'alto, passando pelos sitios denominados: Pedra Grande, Pedra do Major, Providencia, Moninho e Kapangombe.

Esta estrada é percorrida pelos vagons boers que fazem o transporte das mercadorias e productos agrícolas entre o plan'alto e o litoral, e vice versa; pelos viajantes, carregadores e manadas de gado para consumo e exportação.

Nos annos ordinários, em que não chove, não se encontra uma gotta d'agua nem pasto na maior extensão d'esta facha desde o valle do Giraul até o Moninho, do que re-ulta morrer á sede e á fome grande numero de bois que pucham os carros e dos que são enviados do plan'alto para exportação e consumo.condusido por 20 a 30 bois, dos quaes um terço e ás vezes metade succumbe por falta d'agua durante os 10 ou 12 dias de viagem ftitigante por este deserto arenoso, atravez do qual os pesados veliiculos carregados com 100 a 150 arrobas de carga são penosamente arrastados pelos pobres bois famintos e sequiosos por entre densas nuvens de suffocante poeira.

Está calculado que morrem annual mente n'este deserto 400 a 600 bois, o que representa iim enorme prejuízo para os seus proprietários, que para compensar tão grave damno elevam cada vez mais o preço do transporte.

Basta saber-se que o preço do transporte de uma arroba de carga do litoral para o plan'alto importava, ha três annos, em ISOOO réis e actualmente com a persistência das seccas e mortalidade no gado elevou-se a 2S200 réis.

Independente da perda material do boi, ha a accrescentar a perda da somma de trabalho que o boer dispende para amansal-o e sujeital-o ao serviço da canga. O boi bravo comprado nos centros productores dos Gambos e Humbe importa em 10 ou 15 mil réis e depois de amansado e ensinado vale 25 a 30. Calcule-se do desanimo que lavra entre os boers e portuguezes que vivem do aluguer dos seus carros para o transporte das mercadorias, sabendo-se que durante a estiagem rara é a viagem, em que não fiquem orlando a estrada os cadáveres de um terço ou metade dos seus bois a servir de festim ás hienas e lobos que infestam estas paragens.

Para de algum modo atenuar tamanho prejuízo, que ameaça aniquilar a exportação de gado por via de Mossamedes, pelo excessivo preço a que chegou, e que fere de morte os interesses commerciaes e agrícolas do plan'alto pela exhorbitante carestia e difficuldades de transporte, ordenou o governo o aproveitamento de uns tanques naturaes cavados em uma grande rocha no sitio da Pedra Grande, a dois dias de viagem de Mossamedes, mandando construir uns paredões que conduzem para elles toda a agua das chuvas que cae sobre a enorme pedra que dá o nome a este sitio.

Existe n'este ponto uma casa do governo que serve de pousada aos viajantes, um curral para abrigo do gado e algumas cubatas, em que residem os soldados do destacamento. Os tanques cavados na rocha são quatro e tem bastante capacidade. Quando sobre a rocha caem chuvas torrenciaes, os tanques enchem-se d'agaa, que se conserva por bastante tempo. E' d'esta agua que bebem os viajantes e o gado. Quando ella diminue e seguem-se annos de estiagem o governo só pc^rmitte que se tire a porção indispensável

para uso dos viajantes, prohibindo que seja dada ao gado e para cumprimento d'estas ordens e vigilância dos poços tem ali um destacamento militar.

O que fica dito para a Pedra Grande applica-se ao ponto denominado — Pedra da Providencia, com a diíferença de não haver casa para viajantes nem destacamento militar. Encontra-se agua em cavidades das rochas e poças, quando chove; fora d'estas ccmdições anormaes a monotonia do terreno prolonga-se em desesperadora aridez até ao valle do Moninho, em cujas fazendas se encontra agua em cacimbas, que servem para a rega dos terrenos de cultura.

A vegetação n'esta facha é rachitica, compõe-se da welvitchla miníbilis, falso cedro, algumas euphorbiaceas, espinheiros e acácias, que vegetam nos valles, ravinas e leitos dos rios seccos.

Na faciía de terrenos arborisados, que correra parallelos aos contrafortes da Chella, a agua existe com abundandancia durante a estação das chuvas; nas épocas de estiagem não chega a irrigar a vasta área de terrenos cultivados. O districto de Mossamedes abrange uma arca de 176:250 kilometros quadrados, duas vezes a superficie de Portugal.

Divide-se em sete concelhos, dois na zona baixa, que são: os de Mossamedes e Capangombe, e cinco no planalto: os da Humpata, Lubango, Huilla, Gambos o Humbe, dos quaes os três primeiros formam a área de colonisação europêa, que explora os seus férteis terrenos; e os dois últimos, que pelas suas condições de clima nào se prestam á adaptação da raça branca, formam a área de exploração commercial com os indígenas e são os centros de permutação do gado bovino, cuja creação consititue a principal occupação das raças indígenas, que povoam a riquissima zona do sul do planalto.
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Os transportes utilizados em Mossãmedes pelos primeiros colonizadores

Conforme «Anais do Muncípio de Mossãmedes», de início quando da chegada dos primeiros colonos do Brasil a Mossãmedes, o transporte utilizado era o boi-cavalo, a maxila, a tipóia, o riquexó, as viaturas dos animais de tracção e sela. Contudo, deve também figurar neste período, o camelo oriundo das Canárias e introduzido em Mossãmedes por JOAQUIM DA PAIVA FERREIRA, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849.

O camelo, animal bem adaptado às zonas desérticas, dava-se bem em Mossãmedes, e era empregado pelos pescadores e industriais no transporte de toda a qualidade de carga, sobretudo mantimentos e materiais de contrução, tais como malas de peixe, sacos de fuba, pedra, cal, adobe, a farinha que era triturada no único moinho da povoação, etc., etc.


O «carro boer», destinado a levar mercadorias de terra em terra foi uma inovação nos transportes no sul de Angola. Era através dos carros boers que se deslocavam onde houvesse mercadorias ou onde estas fosssem produzidas que se fazia a sua distribuição pelos locais onde eram procuradas por consumidores impossibilitados de as adquirir.Era um veículo pesadíssimo, puxado por um grande número de juntas de bois, formado por um rijo tabuleiro assente sobre quatro rodas possantes sob um toldo curvo de lona, e surgiu em 1881, com a chegada às terras altas da Huíla de familias emigrantes do Transvaal (boers) que se fixaram na região da Humpata.

O «riquexó» que ainda nos nossos dias podemos ver, sobretudo em regiões orientais, de onde era proveniente, foi outro meio de transporte utilizado. Tratava-se de um carro de duas rodas, relativamente rápido, cómodo, com capota e puxado por um condutor.

Em tempos anteriores ao da chegada dos colonos do Brasil, para o transporte de passageiros, correio, bagagens e mercadorias, chegara-se a utilizar, em viagens de longo curso, os paquetes da «Companhia União Mercantil» que já não existiam por haver falido. Os habitantes de Mossãmedes serviam-se dos paquetes da «Empresa Lusitana», que costumavam escalar o porto da vila nas suas viagens para Lisboa. Em Janeiro de 1881 fundou-se a Empresa Nacional de Navegação, e em Março do mesmo ano tiveram início as carreiras para Angola com os paquetes «Portugal» e «Angola», iluminados a petróleo. Em 1889, paquetes que escalavam Mossãmedes, como o «Ambaca» e o «Cazengo» já eram iluminados a electricidade.
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No seu livro «Moçâmedes» dedicado ao período de 1849 a 1959, Manuel Júlio de Mendonça Torres referindo-se aos meios de transporte de Moçâmedes da época, são mencionados carros, carroças e carrinhos (designações textuais), quase todas viaturas de execução local, destinando-se umas ao transporte de lenha , mercadorias e géneros, sobretudo entre a vila e as fazendas, servindo outras para o transporte de pessoas. Destas merece especial menção o carro do Dr. Lapa e Faro, de gosto esquisito, com a forma bizarra de um andor, que ele próprio construiu. Era puxado por um boi-cavalo e guiado por um indígena. Neste carro, fazia o popular e considerado médico o giro habitual das suas visitas clínicas, de chicote na mão, com o qual obrigava o animal, quando vagaroso, a apressar o andamento.

Conforme designado no referido livro no ano de 1854 havia 10 carros e carroças; no ano de 1857, 34 carros e carroças e 1 carrinha; no ano de 1858, 37 carros e carroças e 2 carrinhas; no ano de 1859, 61 carros e carroças e 4 carrinhos. No seu conjunto estes meios de transporte envolviem , em 1854, 63 bois de carro, 1 cavalo e 5 jumentos; em 1857, 258 bois de carro, 2 cavalos, 3 muares e 13 jumentos; no ano de 1858, 232 bois de carro, 1 cavalo, 2 éguas, 5 muares e 18 jumento; em 1859, 278 bois de carro, 5 cavalos, 5 muares e 19 jumentos. Excepto os bois que eram autóctones, as restantes espécies teriam sido adquiridas por importação.

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MariaNJardim

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

As águas das cheias do rio Bero em Mossãmedes (Moçâmedes-Namibe) transbordando para as furnas de Santo António






























































Em Moçâmedes raramente chovia, mas de vez em quando era a valer... Uma dessas vezes foi na década de 1940.  Nessa altura, as margens do rio Bero ainda não estavam reguladas, a chuva foi tanta que as águas transbordaram  do leito, alagaram os terrenos marginais, e avançaram rumo à  parte baixa da cidade, tendo o caudal na sua passagem transvasado como uma cascata  para o interior as «furnas de Santo António» (1ª e 2ª fotos). As ruas ficaram de tal modo alagadas que algumas pessoas chegaram a utilizar pequenos barcos para poderem se deslocar de um lado para outro.Na 3ª foto podemos vercomo ficou uma dessas ruas em dia de cheias.

As «furnas de Santo António» ficavam próximo do antigo aeroporto d Moçâmedes (o velho campo de aviação), e no ano de 1972,  aproveitando a morfologia do terreno, foram ocupadas  pelo novo Estádio Municipal, que pode ser visto, no dia da sua inauguração, clicando AQUI.. 
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1ª foto: Habitantes de Mossãmedes, na época, apreciando o espectáculo que foi a queda em cascata das águas do Bero para o interior das «furnas» de Santo António em Mossãmedes.
2ª foto. Outra perspectiva das ditas  «furnas».
3ª foto. O Estádio Municipal


 MariaNJardim
1ª e 3ª fotos: Foto Salvador

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O edifício dos Correios Telégrafos e Telefones de Moçâmedes na década de 1950




>Este é o belo edifício dos Serviços de Correios, Telégrafos e Telefones de Moçâmedes construido na década de 1950 pela CICOREL, situado em local privilegiado, na Rua Alves Bastos, junto da bela Avenida da República e do edifício de traça classizante dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes.

Até aos anos 50 do século passado estes Serviços funcionavam no edifício da Alfândega, numa das alas que convergia com a Praça Leal onde ficava a Praça de táxis. Moçâmedes cresceu e alargou-se demograficamente e a construção deste edíficio veio colmatar uma necessidade preemente.

Da revista «Destaque» passarei a transcrever o seguinte artigo:
Comunicações em Angola. Para a História

A necessidade de um serviço regular de correios em Angola foi expressa pela primeira vez em 7 de Setembro 1770 por D. Maria I, Rainha de Portugal, depois de se terem utilizado durante muitos séculos os meios primários de comunicação, entre os quais os instrumentos acústicos e os estafetas.

Esse projecto, só em 1796 tomou corpo, depois do Ministro Sousa Coutinho, ter encarregado Almeida e Vasconcelos, na altura Governador de Angola, de elaborar o primeiro "estudo diagnósticodo serviço de correio de cartas" em Angola.

Em 20 de Janeiro de 1798, no tempo em que era Governador Geral da Colónia, Miguel António de Melo,foi publicado pelo Reino de Portugal um "Alvará de estabelecimento de Correios Marítimos", e em 7 de Dezembro do mesmo ano, publicado o texto orgânico da primeira organização dos correios. Esta primeira Lei conservou durante quase dois séculos muitos dos seus princípios.

Ainda em 1798 os "correios" foram estabelecidos em Luanda e Benguela, ficando os seus administradores dependentes directamente do Governador.

A 18 de Junho de 1800, ainda na vigência do governo de Miguel António de Melo, foi aprovado o "plano de instruções para o estabelecimento dos Serviços de Correios", feito pela Junta Geral de Fazenda de Angola.

A partir daí os serviços de correios foram se expandindo por todo o território, introduzindo-se nele as alterações e inovações necessárias, que começaram pelo aparecimento de caixas de correio.

Em 1849, o então Governador Acácio da Silveira Pinto mandou publicar o "Regulamento para Inspecção e Administração dos Correios de Angola", cuja principal característica era a unificação da organização, ficando a partir daí a estrutura de Benguela sob dependência de Luanda. Nos outros distritos, os serviços de correio permaneceram sob a autoridade hierárquica dos "chefes e comandantes nos distritos e presídios".

Os problemas foram-se então apresentando com uma dimensão cada vez maior. Em 1856, o Governador Coelho do Amaral declara que a "introdução do sistema de selos" é difícil, mesmo em Luanda, e impossível no interior da Colónia, pelo que "o uso de tais selos requer inteligência e até um grande hábito de correspondências, que não há no território". Surgem então as primeiras preocupações com a formação de pessoal.

O dia 16 de Abril de 1874 marca uma data em que foi dado um grande passo com a autorização para o estabelecimento de uma ligação telegráfica com Portugal. O regulamento provisório do serviço telegráfico foi publicado em Novembro de 1877. Carvalho de Meneses, na sua qualidade de Governador, dá parte, em 25 de Julho de 1879, ao Ministro da Marinha e Ultramar, da dificuldade que então se sentia em elaborar um "Plano racional para a organização dos correios, sem a existência de estradas e melhores estímulos salariais para o recrutamento de pessoal habilitado".

As décadas de 80 e 90 do século XIX foram profícuas para as comunicações no território de Angola. Aos 27 de Dezembro de 1884, por portaria régia, foi declarado em vigor em Angola o regulamento provisório dos serviços telegráfico e postal vigente em Portugal. Constatando-se os bons resultados conseguidos com os dois telefones modernos existentes nessa época, o Governador Geral de Angola, Francisco Joaquim Ferreira de Amaral remeteu aos 14 de Maio de 1885 um ofício ao Ministro da Marinha e Ultramar sobre o estabelecimento da rede geral de telefones em todas as estações oficiais e casas particulares. Para os primeiros assinantes, fez-se a primeira encomenda de 50 telefones à Alemanha.

Em 1898 foi harmonizado o regulamento telegráfico interno com o regulamento telegráfico internacional, passando a secção telegráfica, que desde 1880 dependia da "Direcção das Obras Públicas", a ser uma Direcção Autónoma. Aos 9 de Julho de 1884, é assinado o contrato provisório entre o conde Thadeu Oksza e o Governo Português para o estabelecimento de um cabo telegráfico submarino entre Lisboa e Luanda tocando em S. Tomé e com ramais para o Senegal e Bissau.

Em 5 de Junho de 1885 é assinado o contrato definitivo com o conde Thadeu Oksza em relação ao cabo telegráfico submarino Senegal-S.Tomé-Luanda, e na mesma data é autorizada a transferência para Índia Ruben Culta Penche and Telegraph Worke da concessão dada ao Conde
Thadeu Oksza relativa ao cabo telegráfico submarino de Luanda-Capetown.

No dia 15 de Abril de 1886 é publicado o decreto que autorizou um acordo entre a West African Telegraph Company e a African Direct Telegraph Company, respeitante à construção e exploração de cabo telegráfico submarino para a costa ocidental de África.

Em 28 de Setembro do mesmo ano, em comemoração do aniversário do Rei D. Carlos, é solenemente inaugurado o Serviço Telegráfico Submarino entre Lisboa e Luanda.

Em l de Maio de 1889 é inaugurado o cabo telegráfico submarino entre Luanda e a Cabo de Boa Esperança, tocando em Moçâmedes e Benguela.

Como se vê, durante muito tempo os Serviços de Correio e os Serviços Telegráficos, foram executados por providências tomadas pelos diversos governos locais. Os diplomas que organizaram e regularam esses serviços nos anos de 1885 e 1886 eram então, praticamente,
reproduções da legislação metropolitana de 1800. Contudo, registou-se a partir de 1900, uma evolução extremamente rápida na regulação dos serviços. Efectivamente, a 8 de Outubro de 1900 foi regulada a impressão, emissão e venda das franquias postais para todas as colónias portuguesas e regulado por decreto de 19 do mesmo mês, o serviço de permutação de fundos.

Em consequência de uma proposta de Lei apresentada ao Parlamento a 11 de Janeiro de 1901, e no sentido de se reformular e codificar toda a legislação dispersa dos correios e telégrafos coloniais, publicou-se em 1902 o "Regulamento dos Correios Ultramarinos", que centralizou os vários serviços num único organismo os "Correios, Telégrafos e Telefones", e que se conservou em vigor até 29 de Novembro de 1916. A rede dos CTT existente em 1910 era composta por:
• 44 estações postais;
• 122 estações telégrafo/postais;
• 22 estações rádio/telegráficas;
• 2 estações telegráficas.

Um passo que se mostrou de relevante importância foi a publicação em 19 de Setembro de 1913 da portaria, que criou a "Escola de Correios e Telégrafos de Angola".

Em 29 de Novembro de 1916 foi publicado o Decreto n.° 2862, que aprovou a nova organização dos Serviços de Correios e Telégrafos coloniais, substituindo o regulamento de 1902.
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I – Introdução
Estamos em 1936, e frequentemente a imprensa angolana, fazendo eco das lamentações dos comerciantes procurava chamar a atenção dos governantes para o deficiente e moroso serviço postal entre Portugal e a Colónia de Angola. Praticamente estavam reduzidos a duas malas regulares mensais que eram conduzidas pelos vapores que faziam também a carreira de Moçambique porque os outros vapores tinham uma periodicidade irregular tocando vários portos de escala pela costa africana. Reclamava-se insistentemente pelos elevados prejuízos que acarretava para a economia empresarial o deficiente serviço postal prestado pelos Correios.
(...)
O estado de insatisfação era latente porquanto a vizinha província de Moçambique já desde 1934 tinha ligações aéreas regulares com Portugal e a Europa em conexão com a Imperial British Airways.

Porém, há algum tempo os serviços dos Correios de Angola vinham trabalhando no sentido de encontrar uma saída para a inexistência de um serviço postal por via aérea. A solução mais cómoda e económica passava pela negociação com a SABENA para que os seus aviões pudessem fazer uma ligação quinzenal Leopoldville-Luanda. Mas perante o parecer negativo do Conselho Nacional do Ar, o Governo Central, em Lisboa, recusou esta solução, não tanto por questões técnicas mas sim por razões políticas. A Colónia de Angola contrariamente à de Moçambique não tinha aviação civil, e aceitar a entrada da companhia de aviação belga em Angola sem que em contrapartida uma hipotética homóloga de Angola o fizesse em relação ao Congo Belga era perante a comunidade internacional sinónimo de incapacidade de Portugal poder desenvolver economicamente os seus territórios ultramarinos.

Entretanto, desde finais de 1935 que já existiam contactos com os Correios de Moçambique tendentes a colher informação acerca de processos administrativos e documentação relacionados com o correio aéreo, pois aqueles já detinham grande experiência no novo serviço postal.

Em Janeiro de 1936 em plena preparação da 1ª. Conferência Económica do Império Colonial Português, com início marcado para 8 de Junho de 1936 em Lisboa, o presidente da Delegação de Angola àquela Conferência, Coronel António Brandão de Melo, oficiou o Director dos Correios de Angola, no sentido de ser informado acerca da situação em que se encontrava o processo de implementação do “Correio Aéreo” na Colónia, pois era sua intenção apresentar para debate como tema prioritário o problema das comunicações quer internas como externas em Angola, com o pormenor de também ser tratada e até talvez delineada, a autorização para o início de negociações sobre o transporte de correio aéreo dentro de Angola e também desta para o exterior.
Continua...

VER AQUI SELOS
e AQUI
e AQUI
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Retomo a apresentação da marcofilia do CF de Angola, apresentando uma marca do CF de Moçâmedes não catalogada em CORREIA (1998):



Tipo - MSS2
Medida - 39,5 mm x 9 mm
Cor - Preta
Continuando a exibição de marcofilia originária de Moçâmedes, apresento seguidamente o carimbo elíptico REGISTADA/CORREIO DE MOSSAMEDES:




Marca cedida por um amigo filatelista;
usada num BP circulado para França


A par desta, surge uma outra marca, bem batida. Pertence ao 11º grupo (20 de Abril 1917) catalogado por Guedes de Magalhães. Em cima apresenta a legenda CORREIOS DE ANGOLA. A denominação da localidade aparece em baixo. Segundo Guedes de Magalhães (1986: 46), esta marca teve diminuta divulgação, aparecendo sobretudo associada aos serviços de registo, vales e encomendas, saí a ocorrência das letras R, V e E subpostas ao grupo datador .DAQUI
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http://4.bp.blogspot.com/_GrlH2TQIEdI/RoA1ueO8U-I/AAAAAAAACnM/HamY7tG-xZ4/s400/selos+1.JPG


domingo, 13 de dezembro de 2009

Assim nasceu o Caminho de Ferro de Mossãmedes (1907)








foto 1.  (G. Schoss), Humbia, nivelando o ponto mais alto. Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria
foto 2 : Leito do Giraúl. Estudos para o Caminho de Ferro de Mossãmedes.

foto 3: Caminho de Ferro de Mossãmedes. Construção. Fornecimento de água.

Foto 4: O dia em que foi assinada a acta do lançamento fundamental da Estação dos Caminhos de Ferro de Mossãmedes, para cuja cerimónia fora elevado um pequeno e requintado Pavilhão, como podemos ver.1905

















Foto 5: Outra foto histórica que testemunha o desenrolar das obras de construção da Estação do Caminho de Ferro de Mossãmedes, hoje cidade do  Namibe, em Angola. Dir-se-ia que o mar recuou, pois esta construção surge-nos aqui em pleno areal da Praia das Miragens (zona conhecida por Chiloango). Sobre as areias da praia encontram-se algumas composições de carruagens e locomotivas, e mais ao fundo uma outra pequena construção que parece ser o Matadouro Municipal. Mais ao fundo ainda e um pouco à dt., vislumbra-se o edificio do Cabo Submarino que foi mais tarde demolido, bem como o primitivo Colégio das Madres. Nesta altura, sequer estava ainda delineada a zona da Avenida da Praia do Bonfim que haveria de terminar ali mesmo em frente à Estação dos Caminhos de ferro de Mossãmedes, já então cidade. Foto gentilmente cedida por Nelo Coutinho
















Foto 6: Locomotovas na Estação.

Foto 7: As primeiras locomotivas do Caminho de Ferro de Mossãmedes














Foto 8: O edifício da Estação do Caminho de Ferro de Mossãmedes. Trata-se de um belo edifício de côr ocre que como todos os edifícios públicos portugueses oitocentistas têm como característica comum uma arquitectura de linhas clássicas, com frontão triangular encimando a entrada e centralizado no alçado principal, vãos das portas e janelas encimadas por arcos de volta inteira ou perfeitos e/ ou arcos abatidos, e platibandas com relevos a reforçar as principais geometrias, escondendo os beirais.
















Foto 9: Inauguração do Caminho de Ferro de Mossãmedes, em 1907 . Haviam sido inaugurados os primeiros 67 quilómetros. .















Foto 10: Manifestação popular de júbilo por ocasião da inauguração do Caminho de Ferro de Mossãmedes em 1907. Haviam sido inaugurados os primeiros 67 quilómetros.















Foto 11: Comboio em marcha para o interior. Vila Arriaga (Bibala). Foto gentilmente cedida por Nelo Coutinho.














Foto 12 : Composição passando a ponte do Giraúl em dia de cheias.










Foto 10: Composição do Caminho de Ferro de Mossãmedes


Foto 13: Paragem para descanso junto ao túnel. In AnicetoMonteiroblog















Foto 12: Caminho de Ferro de Mossãmedes. Inspecção ao estado de um tunel.
Obras do Caminho de Ferro de Mossãmedes. Cacimba do Km 73.

Obras do Caminho de Ferro de Mossãmedes. Fornecimento de água.

Caminho de Ferro de Mossãmedes. Inspecção ao estado de um tunel.

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CAMINHO-DE-FERRO DE MOÇÂMEDES  (actual cidade do Namibe)


A ideia da construção do Caminho-de-ferro de Mocâmedes, reporta a uma carta de lei de 1890, através da qual foi o Governo autorizado à construção e exploração destes caminhos-de-ferro. No entanto, os trabalhos de construção só foram iniciados a partir de 1905, isto é, quinze anos depois. Em 1907 foram inaugurados os primeiros 67 quilómetros.

As fotografias que aqui vemos 1, 5, 9, são da autoria de G. Schoss, e fazem parte de um álbum fotográfico do levantamento dos trabalhos de estudo e construção desta linha-férrea de Angola pela Brigada de Artur Torres entre 1909 e 1910. Na sequência deste trabalho a importante linha do Sul de Angola atingiu o quilómetro 186, onde  parou por um período de sete anos, pois só em 1923 chegaria a Sá da Bandeira, hoje Lubango, tinham então decorrido 33 anos desde a data da ideia da sua construção.

A partir dos anos cinquenta o  prolongamento da linha para Sul tornou-se uma realidade, com a construção do troço da Chibia em direcção ao Cunene e à Namíbia, tendo contudo parado ficado no Chiange.

A cerimónia de inauguração solene da 1ª fase dos trabalhos de transformação dos CFM aconteceu por ocasião da visita do Presidente da República, General Francisco Egidio Craveiro Lopes a Angola, em 1954, e na sua passagem por Vila Arriaga, vindo de Sá-da-Bandeira a caminho de Moçâmedes onde foram cumpridos os rituais de praxe com queima simbólica de uma fita com fogo da fornalha da locomotiva, que ficou a marcar o momento em que as pequenas locomotivas que rebocavam composições da ordem das 120 toneladas deram lugar às potentes Garrat´s , que passaram rebocar comboio da ordem 800 a 100 tonelada, em nova linha de via alargada num troço de 169 km. A partir daí foi possibilitado um grande avanço, quer em potência, quer na capacidade de transporte mercadorias e pessoas que muito contribuiu para o desenvolvimento da zona.

Este projecto, promulgado por diploma do Marechal Carmona na 1ª viagem Presidencial , e enquadrado plano fomento compreendia um conjunto obras que deveriam ser levadas a cabo no periodo de 1938/1945, nas quais se previa para os Caminhos de Ferro de Moçâmedes a substituição do material fixo, largamento da bitola e a rectificação do traçado e prolongamento até ao Tchivinguitro, porém, acabaria por ser travado por força da 2ª Grande Guerra Mundial dada a impossibilidade de aquisição de apetrechamento, máquinas, etc.. Em consequência, o rendimento esperado foi reduzido, devido ao adiamento do assentamento da nova bitola, por falta de fornecimentos do material circulante e de via, para iniciar o prolongamento previsto, tendo-se, inda assim, efectuado o alargamento da plataforma para a bitola e rectificação do traçado de Moçâmedes ao quilómetro 173, e do quilómetro 205 a Sá da Bandeira, incluindo obras de arte, instalação de pessoal etc.

Antes do arranque do empreendimento de Cassange (1967) esta ferrovia tinha uma extensão de 756 km na bitola de 1067m ligando Moçâmedes a Serpa Pinto, e 12,5 km em bitola de 60m  ligando Libango a Chiange.

Posteriormente, e para dar resposta à necessidade de transportes pesados,  efectuaram-se variantes na linha geralm com ligações às minas, de extensões globais de 300 km. Moçâmedes em 1975 era ponto de partida e terminal de uma longa linha férrea que serpenteia 756 km da região sul de Angola, no sentido este/oeste, até  ao Cuando Cubango, complementando deste modo a actividade de dois portos, porto comercial e porto mineraleiro.


Clicar aqui para ver esta excelente postagem:
http://torredahistoriaiberica.blogspot.com/2008/05/memria-fantsticas-garrats-1-parte-as.html#links

sábado, 12 de dezembro de 2009

A construção do caminho de ferro de Mossâmedes teve o seu início em 1905...




Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
Estas fotografias dizem respeito à construção do caminho de ferro de Mossâmedes (depois Moçâmedes e, actualmente, Namibe) antes de 27 de Dezembro de 1909. Ver: Angola e António Aniceto Monteiro. Ver ainda: CAMINHO-DE-FERRO DE MOÇÂMEDES 1909/1910.

Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro


Foto tirada por ocasião da construção do caminho de ferro de Mossâmedes,  iniciada em 1905, embora a autorização do Governo remontasse a carta de lei de 1890. Em 1907, estavam prontos os primeiros 67 quilómetros. O engenheiro encarregado das obras era Artur Torres. O projecto previa que a linha fosse até Lubango, antiga Sá da Bandeira, mas as obras pararam em 1910, provavelmente devido à guerra, quando estavam prontos 186 quilómetros. As obras só retomariam em 1917 e ficaram concluídas em 1923.

Fotografia G. Schoss © Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria
© Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria
Fotografia G. Schoss, barbeiro no Caniço


© Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria
Fotografia G. Schoss, Humbia, nivelando o ponto mais alto

© Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria
Fotografia G. Schoss, Locomotivas do C. F. M.





Sul de Angola: Militares Portugueses no Lubango e em Mossãmedes, Janeiro de 1915

Militares Portugueses no Lubango, Janeiro de 1915
(...)

Em 1915, depois de desembarcar em Moçâmedes, a expedição de Pereira d’Eça subiu ao planalto e prosseguiu para Leste, mantendo-se a alguns dias de marcha do Cunene, para evitar incidentes na preocupante fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano.

Nas deslocações de uma coluna militar, a cavalaria tinha por missão explorar o terreno na vanguarda e nos flancos, em constante movimentação, procurando evitar que a infantaria fosse surpreendida.

(...)

O itinerário da expedição tinha sido preparado pelo “serviço de etapas”, fixando os locais de abastecimento, em especial os cursos de água, onde homens e animais poderiam dessedentar-se. No entanto uma seca rigorosa gorou as expectativas, e depois de atravessarem vários leitos secos, houve que inflectir para o Cunene. Foi uma longa marcha, sempre a passo para evitar a transpiração, mas sem paragens, até porque nos últimos quilómetros nada detinha os animais, nem os fazia desviar do caminho do rio. Apesar de toda a sua fidelidade, os cavalos podiam virar a cabeça, apertados pelo freio dos cavaleiros, e tentavam acelerar o passo na direcção da água que já pressentiam, e a que conseguiram chegar nos limites da desidratação.

A cavalaria era uma arma fundamental nas vastidões africanas, mas seguindo o ditado português de que “quem não tem cão caça com gato”, quando não havia cavalos, os dragões montavam muares. Naquelas condições a sua segurança era dramaticamente reduzida, porque a vantagem da cavalaria era a rapidez. Com as mulas não se pode andar a “mata cavalos”, porque quando estão cansadas empinam-se, escoucinham, mas não avançam. Os dragões que só conseguiam mulas para as suas missões de patrulha despediam-se em grande pranto dos camaradas, porque dificilmente conseguiriam regressar.

Reagrupada e reabastecida a expedição, foi decidido que só uma progressão muito rápida sobre os objectivos conseguiria surpreender o inimigo, e concluir com sucesso a expedição. Rapidez significava naquelas circunstâncias, significava andar a mais de 30 quilómetros por dia, que era a velocidade de transmissão das mensagens dos “tantans” africanos. Assim os soldados, subalimentados e desidratados, foram obrigados a uma marcha forçada, que provocava frequentes desfalecimentos.

Certamente havia macas, mas não havia maqueiros, e o Dr. Monteiro d’Oliveira, movimentando-se na rectaguarda, recolhia os soldados desfalecidos, atravessava-os no cavalo, e levava-os até um carro de bagagem , onde ficavam estendidos o resto do dia. Como medicamentação recebiam um remédio precioso pela sua escassez: ¼ de água das pedras. A terapêutica era eficaz a 100% e no dia seguinte os soldados já marchavam ao lado dos camaradas.

A pronta recuperação de tantas baixas acabou por ser notada pelo general Pereira d’Eça, que mais tarde exarou um louvor ao tenente-médico António Monteiro d’Oliveira.

Finalmente a vila de N’giva (futura vila Pereira d’Eça) surgiu à vista da coluna. Era um dos principais objectivos da missão. Os dragões carregaram, a população fugiu, e quando a infantaria chegou a embala estava abandonada. A tomada de NGiva foi um sucesso, não só pelo reduzido número de baixas, mas também pela captura de documentação, nomeadamente uma curiosa carta de um missionário luterano, desaparecido na confusão do ataque, que comunicava aos seus superiores no Sudoeste Africano que a coluna portuguesa tinha sido totalmente derrotada...

[Copiado de Antigamente... ]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A DEFESA DAS COLÓNIAS DE ÁFRICA, DE 1914 A 1920

Forças expedicionárias a caminho de África, em 1914
CRONOLOGIA DA PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NAPRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
A DEFESA DAS COLÓNIAS DE ÁFRICA, DE 1914 A 1920

[Retirado de O Portal da História]

O general Alves Roçadas

Alves Roçadas, nasceu em Vila Real, em 6 de Abril de 1865 e faleceu em 28 de Junho de 1926.
Foi governador do distrito de
Huíla no Sul de Angola e, em Outubro de 1914, comandou a força expedicionária portuguesa de 1600 homens, que foi enviada de Portugal, para Angola, com a finalidade de defender o território colonial e de combater o exército alemão situado na Damaralândia.
[Texto retirado da Wikipédia]
+++
(...)
Voltou a Angola em 1905, nomeado governador do distrito da Huíla, devido ao massacre de Pembe de uma força de 500 homens destacada da coluna que ia submeter os Cuanhamas, tribo sedeada no baixo Cunene.
Alves Roçadas começou por submeter a região dos Mulondo, a leste de Huíla, entre os rios Calculevar e Cunene, tendo morto o soba Haugalo. Em 1906, atacou a sul em direcção ao baixo Cunene, ao longo do rio Calculevar, ocupando Pocolo, Bela-Bela e Jau. Atravessou o Cunene, fundando o Forte Roçadas, em terras dos Cuamato. O avanço além Cunene, para ocupação da parte portuguesa do Ovampo, foi preparado com expedição de novas tropas. Para comandar esta expedição é nomeado em Maio de 1906 o capitão Alves Roçadas. As forças expedicionários saíram do Forte Roçadas em 27 de Agosto de 1907, sendo atacadas logo de seguida em Mufilo. Roçadas mandou formar um quadrado que conseguiu suster o ataque, sendo a cavalaria a decidir o combate. Seguiram-se vários outros combates, até que a embala de Nalueque foi finalmente ocupada. A campanha acabou em Outubro, com a pacificação das tribos do baixo Cunene, os Cuamatos.

(...)
Em 1914, quando se organizou a primeira expedição a Angola, para defender o sul da colónia, que fazia fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano, Roçadas foi escolhido para a comandar. O incidente de Naulila, nas margens do Cunene, perto da fronteira entre as duas colónias, incidente entre forças militares portuguesas e alemãs, acontecido em 18 de Outubro, fez com os alemães atacassem o posto isolado de Cuangar, nas margens do Cubango. Alves Roçadas decidiu então, com as poucas forças de que dispunha, atravessar o Cunene e procurar as forças alemãs que tinham entrado no território português. Mas foi derrotado em Naulila, em 18 de Dezembro, e obrigado a atravessar o Cunene e o Caculevar, concentrando-se à volta do Forte Gambos. Devido a esta retirada os povos do Humbe revoltaram-se. Alves Roçadas foi, por isso, chamado a Portugal, embarcando em princípios de Maio de 1915.
(...)
[De José Augusto Alves Roçadas em O Portal da História].

A GUERRA EM ANGOLA

1. As primeiras operações militares
A força expedicionária. Preparação das operações
Incidentes de fronteira: Maziúa, Naulila e Cuangar
O novo plano de operações 2. Combate de Naulila - Retirada sobre os Gambos
3.
Situação político-militar depois do combate de Naulila
4. Preliminares das operações militares em 1915
O novo comando
A situação vista de Lisboa
A situação vista de Luanda
5. Execução das operações e ocupação do território do Baixo-Cunene
Reocupação do Humbe, futura base de operações
Operações além-Cunene: combates da Môngua
Operações além-Cunene: a chegada do destacamento do Cuamato
Operações além-Cunene: ocupação militar do teritório
[Retirado de O Portal da História]
........................


António Aniceto Monteiro (matemático), a irmã e os pais em Mossãmedes seu berço natal (ex-Moçâmedes, actual Namibe)




Os agradecimentos para esta e outras fotografias, são devidos ao Eng. Edgar Ataíde.
Digitalização de Jorge Rezende.
© Família de António Aniceto Monteiro
*

António Aniceto Monteiro

Mossâmedes (Angola), 31 de Maio de 1907 -
- Bahía Blanca (Argentina), 29 de Outubro de 1980
António Aniceto Monteiro nasceu em Mossâmedes, Angola, em 31 de Maio de 1907. Angola era a sua terra natal. Mossâmedes era a designação desssa época, mais tarde (anos 20?) mudada para Moçâmedes. O nome depois da independência passou a ser Namibe. Os oito primeiros anos da sua vida, até à morte do pai, em 1915, passou-os o menino António Aniceto em pleno cenário de guerra. A mesma guerra que acabaria por matar o pai, tenente de infantaria, deixando uma viúva e dois órfãos.
Aqui serão colocadas ligações que podem ter interesse para a compreensão da História de Angola e da vida de António Aniceto Monteiro:

1) Angola - parte de Country Studies (USA).
...
Expansion and the Berlin Conference
SETTLEMENT, CONQUEST, AND DEVELOPMENT
The Demographic Situation
Military CampaignsAdministration and Development
ANGOLA UNDER THE SALAZAR REGIME
Angola under the New State
Salazar's Racial Politics
RISE OF AFRICAN NATIONALISM

-                                                                  Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
                                                                           © Família de António Aniceto Monteiro

Os pais de António Aniceto Monteiro

O pai de António Aniceto Monteiro, alferes de infantaria, foi requisitado para desempenhar uma comissão de serviço dependente do Ministério da Marinha e Ultramar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes por decreto de 4 de Julho de 1905, menos de um ano após o desastre de vau de Pembe. Seguiu para o sul de Angola em 7 de Julho de 1905. Exactamente 10 anos depois (7 de Julho de 1915) faleceu em Mossâmedes, de doença, como morriam muitos soldados naquela altura, após uma missão de reconhecimento à serra da Chela. Para sabe mais, clicar AQUI


Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro



António Aniceto Monteiro; António Aniceto Monteiro e a irmã; António Aniceto Monteiro, a irmã e o pai.
António Monteiro e Lídia durante o casamento (29 de Julho de 1929)

Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
***
António Aniceto Monteiro casou-se em 29 de Julho de 1929 em Lisboa, na 8ª Conservatória do Registo Civil, com Lídia Marina de Faria Torres, nascida em 31 de outubro de 1910, natural de Mossâmedes. Do casamento nasceram dois filhos – António, em 8 de Fevereiro de 1934, e Luiz, em 5 de Outubro de 1936.

Digitalização de Jorge Rezende
© Instituto de Odivelas

A irmã mais velha de António Aniceto Monteiro, no Instituto Feminino de Educação e Trabalho, actual Instituto de Odivelas (fotografia anterior a 1922 ou de 1922).

Digitalização de Jorge Rezende
Billhete de identidade da irmã de António Aniceto Monteiro, Maria Petronila, no Instituto Feminino de Educação e Trabalho (actual Instituto de Odivelas).


Digitalização de Jorge Rezende
© Família de António Aniceto Monteiro

Maria Petronila, irmã de António A. Monteiro, em 20 de Outubro de 1958
Natural de Mossãmedes

 Retirado DAQUI

Campanhas de África: O alferes António Ribeiro Monteiro em Mossãmedes (actual Namibe), em Angola


O alferes António Ribeiro Monteiro em Angola

Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro


Esta fotografia diz respeito à construção do caminho de ferro de Mossâmedes (depois Moçâmedes e, actualmente, Namibe) durante a primeira estadia (antes de 27 de Dezembro de 1909) do alferes Monteiro em Angola. Deve ser do início da estadia (à volta de 1906).


Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
Esta fotografia diz respeito à segunda estadia (depois de 16 de Dezembro de 1910) do tenente Monteiro em Angola. Deve ser datada já de 1914 ou 1915.



Angola e António Aniceto Monteiro
Jorge Rezende (*)

O pai de António Aniceto Monteiro chamava-se António Ribeiro Monteiro e era alferes de infantaria quando, em 4 de Julho de 1905, foi requisitado para desempenhar uma comisão de serviço dependente do Ministério da Marinha e Ultramar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes. Dois dias depois, na Paróquia dos Anjos, casou com Maria Joana Lino Figueiredo da Silva, “tendo sido dispensados dos proclamas por provisão de Exmo. Prelado” [AAM-CM] datada da véspera. No dia seguinte ao casamento, António Ribeiro Monteiro embarcou para Angola. Dez anos depois, dia por dia, a 7 de Julho de 1915, na sua casa de Mossâmedes, na rua dos Pescadores, morreu de doença, contraída durante operações militares resultantes da guerra no sul de Angola. Era então tenente de infantaria e deixou Maria Joana viúva e órfãos os dois filhos, Maria Petronila e António Aniceto, de nove e oito anos, respectivamente.

Para compreendermos as circunstâncias históricas que determinaram este início dramático da vida e do percurso angolano de António Aniceto Monteiro, temos que recuar até 1884. Em 15 de Novembro de 1884, iniciou-se a Conferência de Berlim que se prolongaria até 26 de Fevereiro de 1885, em que participaram vários países europeus, incluindo o Império Otomano e ainda os Estados Unidos da América, tendo em vista a definição das regras para a partilha de África. Este continente tinha um solo e, sobretudo, um subsolo riquíssimos, que despertavam a cobiça das grandes potências de então. A grande burguesia industrial e financeira precisava dos recursos naturais africanos, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral e, acima de tudo, das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações, ali sempre tinham vivido. Claro que já havia conflitos em África resultantes das pretensões das potências europeias e, justamente, a Conferência de Berlim visava definir as regras daquilo que veio a chamar-se o “scramble for Africa”, a corrida desenfreada para a ocupação de África. Isso implicou o envio maciço de tropas e a consequente escalada dos conflitos principalmente com as tribos africanas. Aquele inverno de Berlim acabou por atear fogo a todo o continente.

Interessa especialmente o que se passou então na região de Mossâmedes, actualmente chamada Namibe. A província de Namibe fica no extremo sul e litoral de Angola e, vendo o mapa no sentido dos ponteiros do relógio, é banhada a oeste pelo Atlântico e faz fronteira, a norte, com Benguela, a leste, com Huíla (cuja capital é Lubango, antiga Sá da Bandeira) e Cunene (cuja capital é Ondjiva, antiga Pereira de Eça) e, a sul, com a Namíbia.  Ao longo de 1900 km, paralelamente à linha costeira, a província de Namibe e a Namíbia são atravessadas por um deserto que se estende para o interior cerca de 80 a 150 km. É considerado o mais antigo deserto do mundo, com mais de 80 milhões de anos, e a sua aridez é causada pelo ar frio e seco provocado pelas águas geladas da corrente de Benguela que corre de sul para nor-noroeste e das profundezas do oceano para a superfície, sobretudo devido à rotação da Terra. Portugal enviou tropas para todas as regiões de África que reivindicava na altura. Em toda a parte havia conflitos, nomeadamente em Angola e Moçambique, mas a situação era particularmente grave no sul de Angola. Segundo René Pélissier “de 1885 a 1915, o sul de Angola foi a guerra”(1). As populações do sul de Angola eram um mosaico de pequenos núcleos de origem europeia, que coexistiam com a esmagadora maioria de populações negras de diferentes etnias. Entre os primeiros, estavam os boers, instalados durante um período de tempo num território próprio na Huíla(2) e havia, ainda, colonos idos da ilha da Madeira, do Brasil, etc(3). As mais diversas correntes religiosas procuravam exercer a sua influência: católicos, protestantes, espiritanos franceses, luteranos, e outras(4). Havia o tráfico de armas, como as Martini-Henry e as Westley Richards(5), algumas provindas da guerra civil americana, outras da África do Sul. As tribos africanas não só estavam organizadas – possuindo meios rudimentares de comunicação militar, por exemplo – como estavam armadas com armas de fogo das mais diversas origens(6). A vida dos soldados portugueses não era, portanto, nada fácil. Além das dificuldades do terreno desértico ou semi-desértico, tinham que contar com uma resistência armada forte e quando, a partir de Outubro de 1914(7), tiveram que combater os alemães, por estes terem invadido o sul de Angola, continuavam a ser os negros os piores adversários. Os soldados que morriam, quando não morriam nos combates, morriam de sede e de doenças provenientes, muitas vezes, de beberem água inquinada. As marchas eram forçadas e os itinerários eram escolhidos de acordo com a necessidade de serem mais velozes do que a transmissão das mensagens através dos tantãs africanos. Os animais eram muito utilizados e, para o transporte de militares, os cavalos eram o meio preferido e, até, imprescindível. Dos momentos mais altos da guerra, antes da chegada do alferes Monteiro, destacam-se as revoltas do Humbe: a primeira, de 1885-1886, a segunda, de 1891, e a terceira de 1897-1898(8). Um momento de viragem registou-se em 25 de Setembro de 1904(9), com a vitória dos Cuamatos (uma tribo Ovambo), sobre os portugueses, na batalha do Vau de Pembe. As baixas portuguesas foram centenas, entre mortos e desaparecidos. Diz René Pélissier: “É preciso que se meça bem a amplidão desta derrota, que equivalia a eliminar num único dia perto de um décimo das forças totais existentes em Angola”(10). Em Lisboa soou o alarme e fizeram-se planos pormenorizados de envio de homens e material para uma campanha de seis meses cuja despesa prevista era de 1 884 contos, “isto é, aproximadamente o mesmo que em 1892 tinha custado à França a conquista do Daomé”(11). Para dirigir todas as operações, foi chamado o capitão do Estado-Maior Alves Roçadas(12) que, segundo René Pélissier, “estava longe de ser um génio como se provaria com os acontecimentos de 1914”(13). Foi, provavelmente, dentro deste plano geral de ofensiva no sul de Angola que o alferes Monteiro foi requisitado para partir para África num tão curto espaço de tempo.

O alferes Monteiro, pai de António Aniceto Monteiro, tinha nascido em 1880 e assentado praça como voluntário em 1898, com dezoito anos incompletos. Finalizou o curso de infantaria da Escola do Exército em 1902 e foi promovido a alferes em 15 de Novembro de 1903.
Mal chegou a Luanda, em 1905, já casado com Maria Joana, foi enviado para o sul para participar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes, que foi iniciada nesse ano, embora a autorização do Governo remontasse a carta de lei de 1890. Em 1907, estavam prontos os primeiros 67 quilómetros. O engenheiro encarregado das obras era Artur Torres, futuro sogro de António Aniceto Monteiro. O projecto previa que a linha fosse até Lubango, antiga Sá da Bandeira, mas as obras pararam em 1910, provavelmente devido à guerra, quando estavam prontos 186 quilómetros. As obras só retomariam em 1917 e ficaram concluídas em 1923. O casal António e Maria Joana teve dois filhos: Maria Petronila, que nasceu em 5 de Abril de 1906, e António Aniceto, que nasceu em 31 de Maio de 1907, ambos na freguesia de Santo Adrião de Mossâmedes. Em 8 de Fevereiro de 1908, António Ribeiro Monteiro foi nomeado para provisoriamente exercer o cargo de chefe de dia e obras do caminho de ferro de Mossâmedes e, em 9 de Julho de 1909, foi nomeado condutor de 1ª classe. No fim desse ano, dá-se uma viragem na vida de António Ribeiro Monteiro e nunca mais regressou à construção dos caminhos de ferro. Em 27 de Dezembro de 1909, por opinião da junta de saúde, veio para Portugal. Desconheço se a família o acompanhou. Em 5 de Outubro de 1909, chegou ainda a ser nomeado para condutor de 1ª classe do caminho de ferro de Luanda, lugar que nunca ocupou. Em 17 de Abril de 1911 foi colocado na direcção fiscal do caminho de ferro de Benguela mas, não é certo que aí tivesse efectivamente trabalhado. Nos três primeiros meses de 1910 António Ribeiro Monteiro esteve doente em Lisboa. No dia 1 de Abril de 1910, foi colocado no Regimento de Infantaria nº 11, em Setúbal e, no dia 1 de Dezembro desse ano, é promovido a tenente. É através de um relatório manuscrito [ARM1], datado de 5 de Novembro, extremamente elogioso, acerca dos serviços prestados por António Ribeiro Monteiro nesse regimento (e que pode ter servido para a sua promoção), que ficamos a conhecer um pouco da sua personalidade singular.

Esse relatório, assinado por José Narciso d’Andrade(14), Coronel Comandante do D.R.R. 5, ao referir-se ao alferes Monteiro, diz “não ser fácil encarecer à altura do seu valor as qualidades de tão illustrado oficial, honestíssimo caracter e homem de sciencia”. Fala ainda nas suas qualidades como “constructor e engenheiro”, nos seus “conhecimentos especiaes ou scientificos”, na sua capacidade de ministrar a instrução aos soldados “subordinado a um plano pratico e compreensivel” e nas “referencias altamente elogiosas” que lhe foram feitas pelo comandante da brigada “motivadas pela execução rapida, perfeito acabamento e rigorosa disciplina em todos os trabalhos feitos”. Mais adiante o relatório acrescenta: “Querendo tornar extensivos aos officiaes do meu regimento a pratica dos levantamentos topographicos à vista, convidei o Snr. Alferes Monteiro a expor à corporação o que de mais util houvesse sobre esta especie de trabalhos. Com tal profundeza de conhecimentos, clareza e feição desenvolveu o thema escolhido que não pude furtar-me a intimá-lo a apresentar por escripto a conferencia oral desenvolvida, com o fim de ser remettida para o Ministério da Guerra e ser devidamente apreciada”. Entretanto, tinha ocorrido a revolução republicana de 5 de Outubro e, a esse propósito, o relatório do coronel Narciso d’Andrade refere:

“Por ocasião da Revolução que proclamou a Republica em Portugal, Setúbal foi, como se sabe, theatro de desorientação popular que se traduziu por incendios a repartições publicas, egrejas, etc. Necessario se tornava mandar para a rua a força publica com o fim de evitar, sendo possivel a continuação de similhantes desvairamentos. Um capitão e um subalterno, levando sob o seu comando as praças disponiveis, saíram a coadjuvar a autoridade. Porem a população desrespeitou a força e feriu gravemente o seu comandante, bastante conhecido pelas suas ideias liberaes. Teve a força de retirar, à vista de similhante attitude. Foi então que chamei o Alferes Monteiro e com uma diminuta força o encarreguei de se dirigir ao povo e obstar à continuação dos vandalismos até então praticados e em ameaça de continuarem. De tal forma se houve e tal diplomacia desenvolveu que toda a gente acolheu com palmas as palavras do Alferes Monteiro e debandou sem que houvesse a mais leve resistencia ou continuassem na pratica dos actos pelos mesmos praticados. Attenta a attitude do povo, expôs-se n’esta difficil missão, aquelle illustre official, não só a ser desrespeitado como a ser esmagado pelo povo. A pacificação e tranquillidade dos animos foi obtida pelo habil official da seguinte forma: Mandou fazer alto à sua força a uma distancia consideravel dos ajuntamentos, mas de forma que por todos fosse presenciado. Embainha depois a sua espada e dirigindo-se ao povo, falla-lhe tão patrioticamente que começando a ser ouvido com apupos terminou por ser obedecido com vivas e palmas. Dias depois a população de Setubal, reconhecedora, combinava-se para lhe preparar uma manifestação de simphatia. Ignoro se se chegou a realizar; mas realizasse ou não, certo é que o Senhor Alferes Monteiro, é hoje, em Setubal, a pessoa de mais consideração que a sua cidade encerra”.

Mais adiante o relatório conta que tendo ele sido nomeado “defensor officioso” de um desertor, foi “por todos considerado um orador eximio, mais parecendo um distincto profissional na advocacia do que um homem que fez a sua estreia como amador”. O relatório diz ainda que “como chefe de família e caracter está superior a todo o elogio”, o que parece significar que, nesse ano, a família vivia com ele em Setúbal. É de assinalar que esta estadia do alferes Monteiro em 1910 em Setúbal explica a razão pela qual António Aniceto está registado no “livro de registos de nascimento da Administração deste concelho do ano de – 1910-1911”. O relatório finaliza com o parágrafo seguinte: “Tamanha é a gratidão dos habitantes de Mossamedes e tão profundas simpathias alli deixou que a pedido d’aquella cidade vae o alferes Monteiro, muito brevemente, desempenhar alli uma nova comissão de serviço publico”. Ao ler estas quatro páginas manuscritas que elogiam o alferes Monteiro, é difícil não ver nos traços de carácter descritos, aqueles que viriam a ser os do seu filho, António Aniceto: a grande inteligência, a versatilidade e a amplidão das suas aptidões intelectuais, o sentido prático aliado à competência teórica, a capacidade de comunicação e transmissão dos seus conhecimentos, a simpatia e a coragem.

Em Dezembro de 1910, o recém promovido tenente Monteiro regressou a Angola, tendo embarcado no dia 2 e chegado a Luanda no dia 16. Não se percebe muito bem onde esteve e o que fez, exactamente, o tenente Monteiro, em 1911. Até ao fim da vida viveu sempre, muito provavelmente, em Mossâmedes e, em 1911, pode ter estado parcialmente ao serviço do caminho de ferro, embora não na sua construção, que estava parada(15). Entretanto, no ano de 1912, deu-se outro momento de viragem na vida do tenente Monteiro. Em Mossâmedes, no dia 9 de Abril, dirige o seguinte requerimento ao Presidente da República:
“António Ribeiro Monteiro, tenente de infantaria do exército da Metrópole, nomeado em Novembro de 1910, em comissão extraordinária, condutor de 1ª classe do Caminho de Ferro de Mossâmedes – onde já serviu desde Agosto de 1905 até Dezembro de 1909 – encontrando-se actualmente, por exoneração daquele cargo, apresentado na Secretaria Militar do Governo deste Distrito, necessita por motivos de força maior e para tratar de assuntos imperiosos de carácter particular, passar à situação de licença ilimitada; e assim, na sujeição de todas as disposições legais que lhe possam ser aplicáveis,
Pede a V. Ex.ª haja por bem conceder-lhe a referida licença”. [ARM1]
O que este documento significa exactamente, não sei. Apenas podemos imaginar o que sentiria um militar com família, que incluia dois filhos menores, em idade escolar, numa zona de guerra intensa que só tinha tendência a agravar-se. A licença foi concedida, a partir de 1 de Agosto, e o que ele fez depois, com essa licença, ignoro(16).
Sabe-se que, desde 1 de Setembro de 1913, “continuou na situação de adido mas em comissão extraordinária de serviço no Ministério das Colónias” [ARM1], e que foi colocado na “Secretaria Militar de Mossâmedes, por haver desistido da Licença ilimitada, no referido dia 1 de Setembro” [ARM1], tendo sido “nomeado chefe da Secção Militar da Fazenda de Mossâmedes na mesma data” [ARM1]. Foi exonerado deste cargo em 30 de Novembro de 1914. Sabe-se, também, que até ao fim de 1913 não teve nenhum posto de comando, isto é, nunca participou, directamente, na guerra. A partir do início de 1913, o tempo de serviço em Angola deixou de ser acrescido de 50%, como até aí. Em 20 de Abril desse ano, um documento, assinado pelo tenente Monteiro em Mossâmedes, confirma que a situação tinha mudado radicalmente. Trata-se de um compromisso formal, obrigatório(17), que contém o seguinte texto premonitório:
“Eu, António Ribeiro Monteiro, tenente d’infantaria, juro pela minha honra, como cidadão, como oficial, que, enquanto pertencer à oficialidade do exército portuguez, defenderei a Patria e as leis da Republica, e servirei com zêlo e valor, cumprindo as ordens legais dos meus superiores, fazendo-me obedecer e respeitar dos meus subordinados, segundo a mais severa disciplina, observando e fazendo observar os direitos e deveres de cada um, e procurando por todos os meios ao meu alcance acrescentar a glória da Pátria e do exercito portuguez, para o que, se tanto fôr necessario, sacrificarei a propria vida. E, para firmeza de tudo, assim o declaro”. [ARM1]

Desde o desastre de Vau de Pembe, de 1904, que a guerra não teve um momento de pausa, mas seria despropositado contar aqui tudo o que sucedeu. Seriam necessárias muitas dezenas de páginas. Como já se disse, no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs(18). Mais uma vez, o número de baixas portuguesas é impressionante. No seguimento, Alves Roçadas acaba por vir embora de Angola, sem honra nem glória, embarcando no início de Maio de 1915 [ARM3]. Porém, não partiu para Lisboa sem antes ter colocado o tenente Monteiro na 27ª Companhia Indígena de Infantaria, em 6 de Março de 1915, não se sabendo se este, que tinha mais um perfil de intelectual e nunca tinha ocupado um posto dessa natureza, chegou a combater. Entretanto, em 21 de Março o general Pereira de Eça(19,20) é nomeado comandante em chefe das tropas e governador geral de Angola. O seu principal objectivo era resolver o problema do sul, e para aí se dirigiu imediatamente para, pessoalmente, dirigir as operações contra os alemães e, sobretudo, contra a população negra. Mostrando ser mais inteligente que Roçadas, Pereira de Eça nomeou o tenente Monteiro chefe da Secretaria Militar do Distrito de Mossâmedes, no dia 24 de Maio.
O principal documento que relata os últimos dias de vida do tenente Monteiro é de um tenente coronel de infantaria, João Ortigão Peres(21), ex-chefe do estado maior do corpo expedicionário no sul de Angola, e diz o seguinte:
(...)“o tenente de infantaria António Ribeiro Monteiro, encontrando-se em comissão extraordinária no sul de Angola (...). (...) havendo necessidade de proceder a um reconhecimento na região dos Cubáes (serra da Chella) este oficial, apezar de estar ainda bastante atacado pelas febres, pediu insistentemente que lhe fosse confiado esse serviço, que conseguiu levar a bom termo, regressando porem a Mossâmedes num tal estado que faleceu dias depois da sua chegada”.(...) [AAM-CM, AAM-RUL]
A ser verdade que, quando partiu, o tenente Monteiro já se encontrava doente e sendo conhecidas as dificuldades que uma tal missão, de vários dias, comportava, só é de admirar que ainda tivesse regressado com vida.
Anos mais tarde, António Aniceto Monteiro contava, assim, este episódio, provavelmente por lhe ter sido relatado pela mãe: “Tratava-se de averiguar se os alemães tinham invadido o sul de Angola. O meu pai voltou com uma perniciosa. Ao chegar a Mossâmedes, foi saudar a minha mãe e ao sair para o Estado Maior para informar do resultado da expedição caíu desmaiado mas mesmo assim foi ao Estado Maior. Nessa noite jantou em casa o General Roçadas. Meu pai teve que assistir ao jantar deitado numa cadeira de viagem. Faleceu nessa mesma noite”.

Apesar de algumas imprecisões devidas ao esfumar da memória que a passagem do tempo induz, como a referência a Alves Roçadas que, como sabemos, nessa altura, já não estava em Angola, este relato tem o mérito de informar que, na noite da morte do tenente Monteiro, uma alta patente, provavelmente o próprio Pereira de Eça, esteve em sua casa. O episódio mostra até que ponto o estado maior, sediado em Mossâmedes, estava ávido de informações sensíveis da parte de um homem que, por ter trabalhado precisamente nessa zona como topógrafo militar durante vários anos na construção do caminho de ferro, conhecia o terreno como ninguém. Para que fique completo o relato da guerra com os alemães em Angola, basta dizer que, dois dias depois, tudo tinha acabado com eles, por se terem rendido aos sul-africanos do general Botha, no Sudoeste Africano, hoje Namíbia.

Esta primeira guerra colonial em Angola que começou com o “scramble” que se seguiu à Conferência de Berlim, durou cerca de quarenta anos, desde 1885 até 1925(22,23), serviu para destruir quase completamente a estrutura social que existia, definir as fronteiras daquele que é hoje um país independente e desenvolver a estrutura colonial que durou até 1974-1975. E a guerra acabou, porque as tropas europeias foram substituindo as mulas, os cavalos e os bois, por veículos motorizados(24), e, sobretudo, foram substituindo as carabinas e as espingardas por uma arma temível que, essa, os negros não possuiam – a metralhadora(25). Duvido que haja uma contablização absolutamente credível mas, ao todo, foram, muito provavelmente, centenas de milhares de mortos, a esmagadora maioria deles entre a população negra(26).

Ontem como hoje, todas as guerras têm consequências dramáticas. Em primeiro lugar, para as populações que nelas são forçadamente envolvidas ou delas têm que se defender. Em segundo lugar, para os soldados que para elas são conduzidos, a maior parte das vezes, enganados por uma propaganda ilusória. Em terceiro lugar, sofrem com as guerras as famílias destes soldados. Tal foi, seguramente, o caso da família do tenente Monteiro, que em Angola ficou sepultado, e, em particular, para a sua filha que tão cedo perdeu o pai.

Como afirmou um militar relativamente a outro camarada [JSP], talvez António Ribeiro Monteiro tenha “sido enterrado na cerca de arame farpado junto à muralha”, e lá tenha ficado “esquecido, e hoje ignorado, como tantos outros que por aqueles sertões morreram, faltando saber se com melhor sorte que aqueles que viveram”. De facto, muitos desses soldados sobreviventes continuaram a combater os negros em África ou vieram combater para a Europa, na guerra mundial de 14-18.
Seria necessário esperar cerca de 30 anos, após o fim da primeira guerra colonial em Angola, para se assistir ao início da derrocada do império e das ilusões coloniais. A União Indiana, que tinha conquistado a independência em 1947 (o que só por si devia ter feito meditar Salazar), começou nos anos 50 a reivindicar os territórios que Portugal ocupava – os enclaves de Goa, Damão Diu, Dadrá e Nagar-Avely.

Em fins de Julho de 1954, forças da União Indiana assaltaram e ocuparam definitivamente os dois pequenos enclaves de Dadrá e Nagar-Avely. A crise política desencadeada então entre os dois países durou cerca de um ano, mas os portugueses foram expulsos definitivamente de Goa, Damão e Diu em 19 de Dezembro de 1961, nas circunstâncias bem conhecidas. A tensão entre Portugal e a União Indiana só terminou em 31 de Dezembro de 1974. Nesse ano de 1954, a 11 de Agosto, em Portugal, o Movimento Nacional Democrático, cujo presidente era o matemático Ruy Luís Gomes, enviou aos jornais uma “nota oficiosa”(27), um extenso documento, que vale a pena ler, sobre a situação política em Portugal e sobre o que se estava a passar na Índia, condenando a política colonial do governo. Foi o suficiente para que Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Lobão Vital, José Morgado e Albertino Macedo fossem presos e acusados de traição à pátria(28), ameaçados com cinquenta anos de prisão mais medidas de segurança, e passassem por vários julgamentos até serem finalmente libertados em 1957. O próprio Ruy Luís Gomes, no seu Curriculum Vitae político [RLG], refere que foi “preso pela PIDE em 19 de Agosto de 1954 por ter, juntamente com os restantes elementos da Comissão Central do MND, elaborado um documento condenando a política colonial do Estado Novo e defendendo a autodeterminação dos Povos, por ocasião de incidentes ocorridos em Goa, Damão e Diu. Foi então acusado de traição à Pátria e julgado em Junho de 1955 no Tribunal plenário do Porto. Foi condenado em 18 meses de prisão. Recorreram da sentença, aguardando em liberdade o resultado do recurso. Anulado o julgamento, recolheu de novo à cadeia em meados de 1956. Novamente julgado em meados de 1957 foi condenado em dois anos de prisão. Mais de metade deste tempo foi passado na Colónia Penal de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, prisão especialmente destinada a presos comuns de difícil correcção; muitos destes presos eram dementes”. Na sequência destes acontecimentos, Ruy Luís Gomes, expulso da Universidade desde 1947 e com a vida muito dificultada em Portugal, vai, em Setembro de 1958, exilado, para Bahía Blanca, na Argentina, a convite do seu amigo António Aniceto Monteiro que já lá se encontrava. A influência mútua destes dois homens é conhecida, tanto no plano político, como no plano científico. António Aniceto Monteiro foi o principal dínamo das iniciativas do Movimento Matemático no que respeita à investigação e contagiou Ruy Luís Gomes. Por sua vez, Ruy Luís Gomes, vindo de uma família com tradições, era aquele que, dos dois, estava mais informado e era mais activo politicamente. Em ambos, o traço comum de um vida inteira de coerência cívica e científica, indestrinçáveis uma da outra.

Em 4 de Fevereiro de 1961, um grupo de angolanos ataca prisões de Luanda, tentando libertar presos políticos dando início, assim, à segunda guerra colonial em Angola – a guerra que conduziu à independência. Um dos muitos objectivos dessa acção, que envolveu cerca de 200 pessoas armadas de catanas e outras armas artesanais, era a libertação da maioria dos presos políticos do processo dos 50 que estavam na Casa de Reclusão Militar e que se suspeitava que iriam ser transferidos em breve para o Campo de Concentração do Tarrafal. No Brasil, vivia um grande grupo de exilados portugueses, a maioria dos que estavam na América Latina. Entre eles, interessa-me destacar, nesta intervenção, Manuel Sertório e Henrique Galvão. Este último tinha liderado o desvio do navio Santa Maria em 22 de Janeiro de 1961, que muita gente pensava ir aportar a Luanda, mas que acabou por ir para o Recife, no Brasil. Muitos jornalistas de vários países acorreram então à capital de Angola, na expectativa de relatarem a chegada do Santa Maria, tendo sido a possiblidade de uma grande cobertura internacional mais um factor que incentivou o 4 de Fevereiro de 1961. Os resistentes angolanos desejavam chamar a atenção para a grave situação que se vivia naquela colónia, com destaque para o massacre dos camponeses da Baixa de Cassange que estavam a ser bombardeados e mortos, aos milhares, com napalm. Nenhuma das acções do 4 de Fevereiro teve êxito, mas, pelo menos, conseguiram chamar a atenção do mundo inteiro para o que se passava em Angola. As autoridades coloniais designavam os resistentes africanos de “terroristas” ou, ainda mais depreciativamente, de “turras”. Para os mais racistas, todos os negros eram “terroristas”. No seguimento do 4 de Fevereiro, foi desencadeada a caça generalizada ao “turra” e mais massacres foram perpetrados.

O grupo de exilados no Brasil era politicamente muito heterogéneo. O capitão Henrique Galvão tinha sido um adepto entusiasta de Salazar, mas começou a divergir deste, sem nunca romper com a ideologia que sempre tinha apoiado, nomeadamente na sua componente colonialista. Na organização da oposição na América Latina, Manuel Sertório, que vivia em São Paulo, era o elemento que fazia a ligação com os dois portugueses de Bahía Blanca, Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro. Assumindo sempre as suas raízes angolanas, como “tendo nascido em Angola”, António Aniceto Monteiro troca com Manuel Sertório, em 1961, algumas cartas [AAM-MS] que visavam a elaboração de uma declaração conjunta de oposicionistas sobre a situação que se vivia na colónia portuguesa. As quatro cartas que António Monteiro escreveu então a Manuel Sertório, estão marcadas com um sotaque argentino e, aqui e ali, com alguma fina ironia.
Na carta de 23 de Março de 1961, afirma o seguinte
“Creio que não é suficiente condenar o envio de forças armadas para os territórios coloniais e que se deveria também reclamar que se retirem todas as tropas de repressão enviadas nos últimos tempos. Ao mesmo tempo convém aclarar que a responsabilidade de todos os sucessos que ocorram nas colónias recai inteiramente sobre o governo de Portugal e serão uma simples consequência da sua política de repressão, que se pode contrapor à atitude dos diversos movimentos para a independência das colónias que reclamam insistentemente negociações pacíficas”. Termina citando a frase “nenhum povo pode ser livre se oprime outro povo”.
A carta seguinte, de 24 de Abril de 1961, exprime o desapontamento por alterações entretanto introduzidas ao documento, no Brasil, por Henrique Galvão e outros:
“(...) tenho aqui à mão uma declaração sobre o problema colonial, que a Comissão de Inter-Ligação enviou ao Prof. Ruy Gomes em 30 de Março. Trata-se de um documento com uma orientação essencialmente distinta da declaração impressa à qual enviei a minha adesão na carta que lhe escrevi em 23 de Março. Devo dizer-lhe que não assinarei a declaração de 30 de Março anteriormente indicada, porque o problema da autodeterminação dos povos coloniais está posto em termos ambíguos. Em primeiro lugar se reconhece o direito à irrestrita autodeterminação, mas logo a seguir se agrega «sob as necessárias garantias de exercício desse direito em condições humanamente progressivas, etc.» o que pode significar, por exemplo, que os povos coloniais terão de esperar mais alguns séculos para que se lhes reconheça esse direito”. E, mais adiante, António Aniceto Monteiro diz que “o artigo 6º (...) usa o tom dum patrão a falar para um escravo”, para, depois, concluir do seguinte modo: “sobre o problema da autodeterminação dos povos coloniais não pode haver nenhuma espécie de reticências. Depois de uma política de opressão, escravidão e extermínio que durou séculos o governo iniciou actualmente uma guerra de extermínio em Angola e outras colónias, que é necessário condenar nos termos mais enérgicos apoiando os povos coloniais na sua luta pela independência nacional.”
A terceira carta, de 29 de Maio de 1961, mostra que a redacção final da referida declaração acaba por ser de acordo com a opinião de António Aniceto Monteiro, porque diz a Manuel Sertório: “pode pôr o meu nome entre o das pessoas que assinam a declaração em questão que consta de três pontos”. A parte final da carta revela que ele, em Bahía Blanca, a milhares de quilómetros dos centros de decisão, via mais longe do que Salazar e os seus acólitos: “A situação em Angola agrava-se cada vez mais. Os jornais já falam de 25 000 mortos (negros); mobilizaram em Portugal, segundo me informa Ruy, a classe de 58. Estamos frente a uma guerra colonial que só terminará com a derrocada do fascismo e a instauração dum governo provisório revolucionário; a menos que se consiga interromper a guerra pela intervenção da ONU”.

A quarta e última carta, de 6 de Junho de 1961, é, como as outras, muito interessante sob o ponto de vista histórico. Destaco a seguinte passagem: “Há 11 anos que estou completamente isolado das coisas portuguêsas e só agora, desde que está aqui o Ruy, é que tenho mais algumas notícias, além das que leio em Portugal Democrático. De um modo geral penso que no exterior o que é fundamental é apoiar as directivas da frente interna de resistência.
O Galvão acabou por revelar-se completamente como um autêntico colonialista nos 3 artigos que escreveu num diário de São Paulo. Para mim as reticências que ele punha à primeira redacção da declaração tinham um significado perfeitamente claro e por isso mesmo não quiz assinar a segunda redacção”.

Como se vê, estas quatro cartas de António Aniceto Monteiro não podiam ser mais claras. E, para terminar, direi que o objectivo principal desta minha intervenção foi o de revelar situações e factos históricos pouco conhecidos relacionados com a vida de António Aniceto Monteiro, prestando homenagem a um homem que, apesar de todas as dificuldades, realizou um trabalho científico notável em vários países, sempre ambicionando viver pacificamente, mas nunca virando a cara à luta. Vêm-me à memória as palavras que António Aniceto Monteiro escreveu a Guido Beck, do Rio de Janeiro, numa carta enviada em 1948: “Também conheço mal a situação na Argentina. Mas seria possível viver em paz, sem ser perseguido pelas minhas opiniões? Deve responder com precisão a esta pergunta, dizendo o que pensa” [AF-AV]. Soube-se, depois, qual foi a resposta que a realidade lhe deu.
Tal como o fez António Aniceto Monteiro há que lutar contra todos os fatalismos e conformismos. Temos que confiar que a luta pelo direito a viver e a trabalhar em paz tem que ser bem sucedida, porque a conquista desse direito é absolutamente necessária. Por ocasião do seu centenário aqui fica, pois, nesta intervenção, a minha homenagem ao homem bom que, como poeta, assinava com o pseudónimo de “Adrião de Mossâmedes”.

Agradecimentos: António Brotas, Arquivo Histórico Militar, Colégio Militar, Manuela Cruzeiro (Centro de Documentação 25 de Abril), Universidade de Lisboa.

(*) Departamento de Matemática da FCUL e Grupo de Física-Matemática da Universidade de Lisboa (GFMUL), Complexo Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, Av. Prof. Gama Pinto, 2, 1649-003 Lisboa, Portugal. O GFMUL é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Retirado DAQUI

Angola e a Conferência de Berlim: O Acto Geral de 26 de Fevereiro de 1885







A Conferência de Berlim realizada entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1886 teve como objectivo organizar, na forma de regras, a ocupação de África pelas potências coloniais e resultou numa divisão que não respeitou, nem a história, nem as relações étnicas e mesmo familiares dos povos do Continente.
Na conferência, que foi proposta por Portugal e organizada pelo Chanceler Otto von Bismarck da Alemanha - país anfitrião, que não tinha ainda colónias em África, mas tinha esse desejo e viu-o satisfeito, passando a administrar o “Sudoeste Africano” (atual Namíbia) e o Tanganhica - participaram ainda a Grã-Bretanha, França, Espanha, Itália, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Estados Unidos da América, Suécia, Áustria-Hungria, Império Otomano.
Os Estados Unidos possuíu colônia na África; a Libéria, só que muito tarde, mas eram uma potência em ascensão e tinham passado recentemente por uma guerra civil (1861-1865) relacionada com a abolição da escravatura naquele país; a Grã-Bretanha tinha-a abolido no seu império em 1834. A Turquia também não possuía colónias em África, mas era o centro do Império Otomano, com interesses no norte de África. Os restantes países europeus que não foram “contemplados” na partilha de África, também eram potências comerciais ou industriais, com interesses indirectos naquele continente.
Num momento desta conferência, Portugal apresentou um projecto, o famoso Mapa cor-de-rosa, que consistia ligar a Angola e Moçambique para haver uma comunicação entre as duas colónias, facilitando o comérico e o transporte de mercadorias. Mas este documento, apesar de todos concordarem com o projecto, Inglaterra, supostamente um antigo aliado dos portugueses, surpreendeu com a negação face ao projecto e fez um ultimato, conhecido como Ultimato britânico de 1890, ameaçando guerra se Portugal não acabasse com o projecto. Portugal, com medo de uma crise, não criou guerra com Inglaterra e todo o projecto foi-se abaixo.
Como resultado desta conferência, a Grã-Bretanha passou a administrar toda a África Austral, com excepção das colónias portuguesas de Angola e Moçambique e o Sudoeste Africano, toda a África Oriental, com excepção do Tanganhica e partilhou a costa ocidental e o norte com a França, a Espanha e Portugal (Guiné-Bissau e Cabo Verde); o Congo – que estava no centro da disputa, o próprio nome da Conferência em alemão é “Conferência do Congo” – continuou como “propriedade” da Companhia Internacional do Congo, cujo principal accionista era o rei Leopoldo II da Bélgica; este país passou ainda a administrar os pequenos reinos das montanhas a leste, o Ruanda e o Burundi.
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terça-feira, 21 de julho de 2009

O cais acostável de Moçâmedes em 1961
















O cais acostável de Moçâmedes em foto tirada em 1961, 7 anos após o lançamento da primeira pedra, e 4 anos após a inauguração da 1ª fase.

Já em 1854, Moçâmedes, a antiga «Angra do Negro», era reconhecida em sessão do Concelho Ultramarino, de 31 de Outubro, como uma das mais importantes povoações da província, munida de uma importante baía que se encurva em profunda reentrância, desde a pedregosa e rasa Ponta do Giraúl, ao norte, onde fica o farol e o posto semafórico, até à ponta do Noronha, de grés argiloso, cortado a pique, de mediana altura, e em cuja base fica a «célebre» Torre do Tombo, que foi desde tempos remotos visitada por navios cujos tripulantes ali faziam aguada e que, com ao ajuda de um prego, deixaram gravados os seus nomes e datas, nas faces lisas, aprumadas e macias da encosta.

A sul da Ponta do Noronha, ou Ponta do Pau do Sul, corre a Praia Amélia e o respectivo e perigoso baixio onde naufragou a escuna de guerra que lhe deu o nome. A Praia Amélia termina na Ponta da Anunciada com a terra do farol em calma. No extremo oriental da baía, os fundos são mais aparcelados, porém o surgidouro propriamente dito, onde os navios deixam cair a âncora em completa segurança, fica na linha que une as pontas do Noronha e de S. Fernando, onde geralmente se pode embarcar.

Sobre o baixo Amélia onde com bom tempo se vêem numerosas barcos em plena faina pesca, erguem-se em época de calemas alterosas vagas de rebentação com capelo assustador.

Ao fundo da baía, na estação das grandes chuvas do planalto, abre-se a foz periódica do rio Bero, cujo curso, bastante largo e encaixado entre margens altas, encontra-se completamente seco na maior parte do ano. Na última parte do curso deste rio, principalmente na margem direita, ficam situadas as Hortas onde se observam belas culturas de quase todas as árvores frutíferas europeias e tropicais, e das mais deliciosas hortaliças.

Motivos aconselháveis quanto ao local para construção do futuro cais acostável

(Parecer do Comandante Correia da Silva).
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Pela ordem das condições de abrigo, segue-se a baía de Moçâmedes que é presentemente um bom fundeadoro em condições normais de tempo, e poderá tornar-se um excelente porto permanentemente abrigado, dada a direcção constante das vagas, se se dragar a enseada da Torre do Tombo, ao sul da baía, e se se fizer aí, não o porto de pescadores que hoje é, mas o porto comercial. A muralha acostável da Torre do Tombo não será nunca um porto grande, mas será um porto bom e mais que espaçoso para o movimento provável de Moçâmedes. Com essa muralha de mais a mais, dado o abrigo da enseada, poderá fazer-se acostável de qualquer lado e em qualquer direcção que seja construída, mais espaçoso será o porto de Moçâmedes.

Muito se tem pensado em fazer o porto acostável de Moçâmedes na enseada do Saco. Embora a terra que vem da ponta do Giraúl dê também a essa enseada um abrigo que lhe dá uma boa praia de águas tranquilas, e extensão abrigada é muito menor que na Torre do Tombo, e mais facilmente se ressentirá a ressaca do sudoeste, que incide directamente a uma pequena distância da praia abrigada. Além disso, o Saco fica a légua e meia, pela praia, de Moçâmedes. A Torre do Tombo é hoje um bairro de Moçâmedes, e, se as obras do porto se fizerem , como certamente haverá a ligação por caminho de ferro e por estrada, pelo mar, da Fortaleza de S. Fernando a distância do último extremo da Torre do Tombo ao centro da cidade actual, percorrer-se-á em poucos minutos.
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A preferência dada por algumas opiniões que conhecemos, do Saco do Giraúl, funda-se principalmente na amplidão de terrenos para edificações, na profundidade actual da enseada e no facto de ficar essa praia num ponto da linha do Caminho de Ferro além da passagem do Bero, que constitui, por enquanto, um dos mais graves obstáculos ao trânsito regular dos comboios, por ocasião da cheia.

Ora essas razões que justificam a existência actual, nessa praia, de uma atracação, não são, a nosso ver, suficientes para que se faça nessa enseada o futuro porto de Moçâmedes. Seria um porto novo a construir, não o porto de Moçâmedes, e , sem de forma alguma querermos dar a impressão de que existe, nesta origem de caminho de ferro, o mesmo duelo que há entre Benguela e Lobito, defendendo a orientação de fazer as obras definitivas na Torer do Tombo, seguimos apenas a velha predilecção, que sempre tivemos, como oficial de marinha, pelo maior abrigo das suas águas, que, neste caso, se combina com os interesses da cidade capital do distrito.
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(Cópia dactilografada do Relatório do comandante Correia da Silva, consultado em Moçâmedes, na Repartição Distrital de Administração Política e Civil).


Razões da opção quanto a um local a escolher para a construção do futuro cais acostável; parecer do Comandante Frederico da Cruz.
…Moçâmedes é, incontestavelmente, o terceiro porto da colónia, e tem condições para se trnasformar num dois mais importantes de toda a África Ocidental.
Escavado na latitude 15º e 10´Sul, a sua vasta área cobre 3.300 hectares. A área útil, ao Sul, próximo da cidade, não anda longe dos 600 hectares; ao Norte anda próximo dos 500 hectares.
A baía de Moçâmedes, profundo recorte em forma de concha, é limitada, ao Norte, pela ponta do Giraúl, e ao Sul, pela ponta Negra, se bem que o baixo Amélia, mais ao mar, tenha pretensões a esporão submerso.
O fundeadouro fica afastado da terra 750 metros.
Moçâmedes é testa do Caminho de Ferro de Sá da Bandeira, vias de comunicações que, fatalmente, se há-de alongar a caminho da Rodésia do Norte, em necessário paralelismo com a linha Lobito-Dilolo.
A sua importância futura, é pois, considerável.
Hoje, o porto de Moçâmedes serve principalmente a exportação do peixe seco, farinhas, óleos de peixe, e produtos agrícolas da Huila.
O seu movimento em toneladas de arqueação é já notável.
Em 1947 lançaram âncora nas suas águas navios nacionais de longo curso, totalizando 300.738 toneladas
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In «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres
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Porto de Mossãmedes

Outras opiniões sobre o equipamento


(Manuel Pires de Matos, engºhidrográfico
)


«Mossãmedes pode ser considerado um porto misto, predominando contudo nele as características de porto geral e de pesca.
O seu equipamento deve fazer-se no sentido de aproveitar o cais no quebra mar para embarque de pasageiros, carga e descarga de navios transportando deste ou para este porto, quantidade de mercadorias, carga e cereais a granel e carga e descrga de combustível líquido.
No cais longitudina, far-se-ão de preferência s operações de carga e descarga de navios com grandes quantidades de mercadorias a movimentar a carga de carne, peixe e frutas frigorificadas , pois os frigoríficos, armazéns , depósitos de carvão , etc., serão construidos junto deste cais, a servir por linhas férres em abundância para fácil manobra de grande quntidade de vagões, sem o receio de congestionamento.
De começo, o porto poderá dispôr de um frigorífico, armazéns, «gare» marítima, depósitos de carvão e silos, a construir nos terraplenos, que pelo presente ante-projecto se conquistam ao mar.
A construção de depósitos combustível líquido, entre a Ponta do Mexilhão e a Ponta do Noronha, é conveniente que se faça em subterrâneos a escavar na escarpa, para ficarem convenientemente abrigados dos ataques aéreos.
Além do equipamento já atrás indicado, serão precisos guindastes, a captação e a beneficiação, rede de distribuição de água aos navios e serviços do porto, a construção de uma central termo-electrica para as necessidades de Mossãmedes e do porto e um rebocado para as manobras de atracar e desatracar.
Mais tarde, quando as circunstâncias o aconselharem, deverá também considerar-se o equipamento do porto de pesca, a construção de carreiras para navios de vela e embarcações, armazens de redes e outros aprestos de pesca, doca seca para a reparação de navios, etc.
in
Boletim Geral das Colónias . XVIII - 203
Nº 203 - Vol. XVIII, 1942, 1o1 pg.


Pesquisa de MariaNJardim
Para mais informação: AQUI


sábado, 9 de maio de 2009

Toninhas, focas e pinguins no mar de Moçâmedes

















O mar do distrito de Moçâmedes era um mar riquíssimo em pecado, aspecto que se deve à corrente fria de Benguela que constitui um dos mais importantes factores de moderação climática da zona.

Como funciona este assunto?
De maneira bem simples. Um dos braços da corrente quente do Brasil que aparece sobre o Equador, avança para o Atlântico Sul e acompanha as costas do Brasil e da Argentina. Nos mares da Antártida choca contra as geleiras da região, apodera-se de icebergues e mistura-se com outras correntes de água fria. Então começa a desviar-se em direcção à costa ocidental de África e passa a denominar-se «corrente fria de Benguela». Arrastando grandes blocos de gelo, avança com eles em direcção à costa de Angola. Cada icebergue é um zoológico ambulante onde navegam grupos de focas e pinguins, muitos dos quais terminam a sua viagem nas praias da Baía dos Tigres, Porto Alexandre ( actual Tômbua) e Moçâmedes (actual Namibe).

Quando se cita a fauna angolana, ignora-se estas focas (2ª foto) e pinguins (3ª foto) que surgem nos meses de Junho ou Julho, sulcando as águas das baías do sul de Angola, ou, refastelando-se nas areias das praias, tomando banhos de sol como qualquer um de nós. Na mesma época também é usual verem-se famílias de golfinhos brincalhões ( 1ª foto), as populares toninhas, exercitando o seu costume de salvar náufragos, porque, para elas, qualquer humano nadando junto à praia, é um náufrago potencial que deve ser empurrado para terra e nem sempre com a delicadeza que seria necessária. Era comum ver-se em plena baía de Moçâmedes negras toninhas saltando ou apeoximando-se mesmo da Praia das Miragens, junto dos banhistas, e ainda albatrozes ou alcatrazes voando baixinho à espera da companhia dos barcos que viajavam para sul. A sua presença deve-se também à corrente fria de Benguela, modeladora do clima e modeladora da costa. A ela se deve a existência das várias ilhas e penínsulas sedimentares que se localizam sempre a norte da foz dos grandes rios. O Cunene, que demarca a fronteira sul, dá origem à península que conforma a Baía dos Tigres. São lugares de praias maravilhosas.

REZA DO CHACAL NA PRAIA DO NAMIBE

Sob o azul frio da rosa praia do esqueleto,
nesse deserto sem regresso e sem começo,
conhece a frágil foca cria o férreo preço
da estranha sede do chacal de dorso preto.

«Rego com o sangue da pequena foca triste
as dunas onde planto os ossos de gaivota,
e nesta horta a noite é dócil e derrota
o vento vil que contra o sonho não resiste.

Não chores, oh pequena foca triste, não
chores. Dos ossos da gaivota nascerão
caras de peixe, e dessas máscaras de mágoa,
sete ribeiros quais teus olhos doce água.»

Silêncio e noite no Namibe areal…
um oásis grita no uivo do chacal.

Autor: Mayyahk
(2002/01/01 23:55)
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VINHAM DO MAR CACIMBOS

Vinham do mar cacimbos
refrescar tombuas sequiosas,
calemas, submersos vulcões
e helio-fornos
provar a fibra sibilina
de homens e mulheres
que agarram a vida
pelos cornos.

Vinham pinguins escorraçados
de um país ao sul,
a preto-e-branco pintados,
ond’é ignara a soma
de todas as cores
que realiza o negro.

Vinham navios, botes,
arrastões e palhabotes
encalhar nos fundões ao arear,
que o leteu namibe
conforma de grão a grão
para marcar que ali
só os filhos sabem navegar.

vinham coros boatados,
e as notícias de guerra,
e as guerras de notícia,

e do deserto a garroa colava
areia nos olhos ressudados.


admário costa lindo

7.06.2005


Fotos 4. 5. e 6 de Foto Salvador : Moçâmedes

terça-feira, 31 de março de 2009

As «grutas» da falésia da Torre do Tombo , Mossãmedes, Angola































Finalmente consegui as fotos que tanto gostaria de colocar aqui.

AS «GRUTAS» DO MORRO DA «TORRE DO TOMBO»


Estas históricas «grutas» faziam parte de um numeroso conjunto que percorria a zona sul da base da falésia ou morro da «Torre do Tombo», ou seja, a zona que termina e excede a Ponta do Noronha, ou Ponta do Pau do Sul.

Escavadas a punho na rocha branda, desde tempos remotos, para servirem de abrigo a mareantes e corsários que no decurso dos séculos por ali passavam e ali faziam «aguada», nestas «grutas» foram encontrada impressas «inscrições» de incalculável valor histórico.

Foi o Tenente Coronel Pinheiro Furtado, comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa, quem as registou quando fazia uma visita em 1785 à «Angra do Negro» (1). Pensa-se que tenha sido este oficial português o primeiro que chamou «Torre do Tombo» ao local, chamando a atenção para o morro das inscrições, e pondo uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome.

Pinheiro Furtado destacou num ofício datado de 4 de Outubro de 1785 dirigido ao Capitão General de Angola, BARÃO DE MOSSAMEDES, que, essas «inscrições», gravadas nas paredes daquelas grutas, estavam datadas desde 1645 a 1770, como a seguir se descreve (in Memórias "Histórico-Estatísticas de BRITO ARANHA" ) :

« KEMY 1723; II-IS-1766;
LUIS DE BARROS passou por aqui em 1765 annos;
ANDRÉ CHEVALIER G Y 1665;
JAN DIER;
FRANCISCO DE BARROS,
BERNARDO QUADO ASO DO FEBRO passou por aqui em 1665;
W
- FRN - PM
O
THOMAZ DECOMBRO 1762 e em 1770;
JOSÉ DA ROSA 1645;
MR 1649;
W TAILOR 1768;
18-1770;
DE TONCHON;
RIO CONENE;
MONDE en..65;
SF 1770;
Aqui esteve o patacho GOYA 1665;
MANUEL RODRIGUES COELHO;
MARTIM em 1770;
Aqui esteve o piloto MATEUS PIRES DA SILVA POEDRENEIRA 1665;
THOMAZ DE SOUSA;
O CAPITÃO JOSÉ DA ROSA ALCOBAÇA passou por aqui para o Conene no patacho Nossa Senhora da Nazareth em 4 de Janeiro de 1765;
O CAPITÃO MANUEL DE LIMA;
Aos seis de Fevereiro saltou o Sargento DOMINGOS DE MORAIS nesta baia, que é formosa, em companhia do seu Capitão, JOSÉ DA ROSA, em 1665;
JAN DIMMESEN 1669;
VNSSENGAE PEL 1669;
ADRIIEENDIRERSEN » .

A mais antiga destas inscrições é, como se vê, a de 1645, mas o documento transladado no número 8 do «Jornal de Mossãmedes», de 25 de Novembro de 1881, cita a seguinte inscrição, de data anterior:

«1641 - D. ANTÓNIO MENESES DA CUNHA
ou D. ANTÓNIO DA CUNHA MENESES »

Esta inscrição foi achada em 1841 por Bernardino José Brochado, que, parece, a fixou de memória. Como a areia acumulada pelo vento cobrisse o morro até grande altura, lembraram-se três moradores de Mossãmedees, em 1858, de o desentulhar e de reproduzir as inscrições, das quais, dizia aquele documento, existem cópias no arquivo da Câmara Municipal. Nesta página, não foi, porém, encontrada a referida inscrição de 1641.

Devemos, finalmente, salientar o natural reparo de Gastão de Sousa Dias sobre a repetição do nome de José da Rosa e sobre a data de 1765 (4 de Janeiro) em confronto com a de 1665 (6 de Fevereiro), pois que, segundo as inscrições, na primeira, «passou pela Angra», indo para o Cunene, e, na segunda, «saltou na Baía». Diferindo aquela data (1765) precisamente um século da primeira (1665), acredita Sousa Dias, houvesse erro, devendo a primeira ser rectificada para 1665.

Reproduzimos a seguir a opinião de Sousa Dias:

«...teremos sempre um capitão José da Rosa, visitando a Angra do Negro (Mossãmedes) em 1665; e, na melhor das hipóteses, isto é, sendo aceitável a emenda proposta, teremos na Baía de Mossãmedes um capitão José da Rosa, a 4 de Janeiro, no patacho Nossa Senhora da Nazareth, com destino ao rio Cunene, estando de regresso à mesma baía no mês seguinte, altura em que saltou em terra com o sargento Domingos de Morais.

Procuremos noutra fonte (continua Sousa Dias) a confirmação destes factos. No segundo volume da História das Guerras Angolanas de Oliveira Cadornega, encontra-se a seguinte informação: Sucedeu no governo de André Vidal de Negreiros, ir um homem prático a descobrir esta costa, por nome José da Rosa, por ver se achava alguma notícia de boca de rio que entrasse para os de Cuama (Zambeze), e chegando costa a costa, a dezoito graus para além do Cabo Negro, não achando notícia do que buscava, etc.

Há perfeita concordância de datas (concluiu o distinto escritor), pois que o governo de Vidal de Negreiros durou de 1661 a 1666». (Gastão de Sousa Dias,"Pioneiros de Angola»)

(1) Designação do lugar onde viria a ser erigida a cidade de Moçâmedes
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AINDA SOBRE AS «GRUTAS» e as «INSCRIÇÕES» DO MORRO DA «TORRE DO TOMBO»

Sobre o desaparecimento das «inscrições», diz-nos Manuel Júlio de Mendonça Torres, na obra anteriormente citada, que estas foram enormemente danificadas quando no morro da Torre do Tombo foram instaladas as pescarias por famílias dedicadas à pesca do atum, como desapareceram também, ultimamente, várias outras de datas muito mais recentes. Mendonça Torres adianta ainda que BRITO ARANHA, nas suas Memórias Histórico-Estatísticas (1883) refere que os Governadores FERNANDO DA COSTA LEAL (1854-1859 e 1863-1866) e JOSÉ JOAQUIM DA GRAÇA (1866-1870), deixaram, igualmente, lembrança de si naquele morro.

Se é certo que a primeira grande insensibilidade registada contra este histórico local teve lugar por ocasião da construção das primitivas pescarias que fizeram desaparecer as antigas e históricas «inscrições» gravadas na rocha branda do morro da «Torre do Tombo», não é menos certo que nova insensibilidade se registou quando, com a demolição dessas mesmas pescarias, na década de 50 do século passado, por força da construção do cais acostável, da própria falésia, na fase dos aterros e terraplanagens, foram retiradas sem só nem piedade, milhares de toneladas de terra que desfiguraram a topografia do terreno. Estas «grutas» até então encobertas, passaram a ficar mais expostas à erosão do tempo e à não menos piedosa mão do homem, que, pós a independência de Angola, vem estragando o resto. Eis o seu aspecto actual !

E, no entanto, apesar do aspecto árido, seco e agreste, este local é histórico. Ele é um «ex-libris» da cidade. Faz parte da História de Angola e até da História de Portugal, e, pelo muito que representa, merecia ter chegado aos dias de hoje, preservado, e não maltratado ou destruído.

Para além da importância destas «grutas» como abrigo que foram de mareantes e corsários que no decurso dos séculos por ali passavam e ali faziam «aguada» deixando impressas «inscrições» de incalculável valor histórico, elas serviram de primeira morada aos pioneiros algarvios que, idos de Olhão começaram a chegar a Mossãmedes a partir de 1861, em caíques, palhabotes e barcos à vela, e que, a despeito de muitas e variadíssimas contrariedades, ali se foram estabelecendo, construindo as suas primeiras habitações, lançando ao mar as primeiras redes, e dando início ao desenvolvimento de uma nova era para o Distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar.

É notícia que foi nestas «grutas» que se alojaram alguns elementos da haviam chegado a Mossãmedes em 1849 e em 1850 na barca «Tentativa Feliz» e no «por não terem conseguido lugar nos «barracões» que haviam sido construídos pelas autoridades da terra para os receber.

Termino, lembrando a necessidade de preservação deste histórico local, com este texto de Mário Pinto de Andrade (1):

«a cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças, conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco, sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais; gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário, instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau - representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto material»
in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].



Nota final: Tive recentemente a agradável notícia de alguém recém chegado de Angola, que o governo está empenhado em avançar junto da UNESCO, a propositura destas «furnas» ou «grutas» ao estatuto de património mundial. Oxalá seja verdade, ainda que seja tarde demais..
Sobre a visita do Presidente Óscar Fragoso Carmona a Mossãmedes, clicar AQUI.


MariaNJardim


(1) Primeiro sociólogo angolano e presidente, à época, do recém fundado MPLA, quando da prisão de Agostinho Neto pela PIDE

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Das minhas memórias...


AS GRUTAS DO MORRO DA «TORRE DO TOMBO» E A PESCARIA DA MINHA AVÓ
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Em Moçâmedes nasci, nasceram os meus pais, em Moçâmedes casei e nasceram os meus filhos. Na infância e na adolescência trepei algumas vezes, de cima baixo e de baixo para cima esta falésia, entrei em algumas dessas «grutas» que na sua maior parte serviam de minúsculos armazéns às pescarias, mas nunca na Escola fui sensibilizada para a importância deste histórico deste local. Não admira! Os programas das escolas, cingidos que se encontravam aos regulamentos, não lhes deram qualquer atenção. Mais importante era aprendermos os apeadeiros dos Caminhos de Ferro portugueses... E no entanto, um povo sem História, é um povo sem memória, que, não compreendendo o passado, é incapaz de se situar no presente e de projectar o futuro. Talvez por isso!
 

Mas continuemos. Na adolescência assisti à demolição das pescarias que circundavam a falésia  da Torre do Tombo e que as deixaram as «grutas» a descoberto. Confesso que nunca pensei fossem tantas! Lamentavelmente, não me lembro de lhes terem dado alguma importância, não obstante as memórias que ainda hoje evocam. 

 Não admira, a política de então, era o silenciamento em relação às grandes questões que tocavam a todos nós!

 

Olhando melhor para a 1ª foto, parece incrível que os meus avós tivessem conseguido transformar três dessas «grutas» que se encontravam anexas à sua pescarias na casa perfeitamente habitável que aqui vemos. Essa «casa» cavada na rocha branda, possuía três compartimentos construídos no interior, ou melhor,  três «grutas», ligadas entre si por um pequeno corredor interior de comunicação.  A acesso era efectuado através de duas portas, e eram ventiladas através de duas janelas com as respectivas portadas envidraçadas (a 1ª foto apenas permite ver uma porta e uma janela). Num dos dois primeiros compartimentos encontrava-se uma autêntica sala comum devidamente mobilada, com mesa, cadeiras, louceiro, sofá onde se podia dormir, e até quadros na parede; o outro fazia de quarto de dormir e possuía uma cama de casal, duas mesas de cabeceira e um guarda roupa. No terceiro compartimento havia uma pequena mesa, cadeiras, um pequeno armário, e no lado de fora, junto da entrada, um forno construído em tijolo e barro, com porta de abrir e fechar.  O tecto das «grutas» eram altos e ligeiramente arredondados, e tal como as paredes e a entrada, encontravam-se rebocados e caiadas de branco. Na parte de fora havia um canteiro com flores e duas bonitas oliveiras de onde se podiam colher saborosas azeitonas que ali conseguiram medrar, graças à terra e ao estrume levados das hortas que ladeavam o rio Bero.

Como estas «grutas» (às quais tinhamos por hábito chamarem «furnas» ) ficavam num plano um pouco acima da base da falésia, e para se chegar a elas, havia que subir um pequeno lance de escadas, que tinham inicio num corredor entre dois quartos de adobe por rebocar. Estes quartos convergiam com a estrada que os separava da pescaria (são visíveis na 1ª foto). De início não havia estrada, era um simples e atribulado carreiro que ia dando acesso às pescarias, porém, quando a minha avó ficou viúva e tornou a casar, o seu segundo marido havia recebido uma herança da Metrópole, e dado o grande apreço que tinha pelas ditas «grutas»,  investiu nos anos 40 no seu arranjo, e ainda, e em conjunto com outros proprietários das pescarias da zona,  procedeu também à abertura de uma estrada de terra batida com as proporções normais, de modo poder passar por ali um carro ou uma carrinha. A iniciativa foi tomada por particulares, porque nem as autoridades da terra, nem o governo geral davam na altura qualquer atenção ao local.

Para esse trabalho, haviam recorrido, como era hábito na época, a deportados portugueses que se encontravam a cumprir pena de prisão na Fortaleza de Mossãmedes.  Continuava ainda o velha mania de fazer de Angola um lugar de destino para degredados e de toda escória humana que a sociedade metrooleitana não queria... E nestes casos é precido que se diga, que muitas injustiças foram cometidas . Recordo uma história que se contava no seio da minha família sobre um desses degredados que o meu avô fora, no início da década de 1940,  requisitar à Fortaleza para trabalhos numa estrada que pretendia abrir em frente da sua pescaria, na Torre do Tombo.  Chamava-se Lino,  a criatura, um bom homem oriundo da Póvoa de Varzim, latoeiro de profissão. Sempre se  afirmou inocente em relação ao crime de assassinato que lhe haviam inculpado. Os meus avós acreditavam na sua inocência, consideravam-no uma pessoa muito educada e  de porte irrepreensível.  O pobre do Sr. Lino fora condenado e degredado para  Mossãmedes  porque num fatídico dia, pela manhã cedo, quando ia de bicicleta pela berma da estrada a caminho do trabalho, tinha encontrado caído junto a uma ravina um homem ensanguentado, e porque julgando-o ainda vivo tentara arrastá-lo para a estrada a fim de pedir socorro. Mas o verdadeiro assassino que se encontrava escondido atrás de uma árvore  asiantara-se e começou a gritar chamando-o de assassino... assassino...  Não obstante o  carinho que meus avós lhe proporcionaram, minado pelo desgosto, e saudoso da sua terra e da sua família  (tinha uma filha a estudar para professora e teve que desistir) o pobre do homem acometido de doença súbita enquanto fazia os trabalhos da estrada, acabaria por falecer a meio caminho para o Hospital, quando estava sendo transportado por uma tipoia. A prova da sua inocência chegaria alguns anos mais tarde, quando, à beira da morte, arrependido, o assassino acabara por confessar a autoria do crime.
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O meu avó tinha investido nas «grutas» por uma paixão e de  «apego» àquele histórico local! Mas também, penso, porque elas ficavam muito próximas dos Armazéns do Sindicato da Pesca onde trabalhava, bem como da pescaria. E isso  facilitava-lhe a gestão do tempo.

Resta ainda referir que tão alto significado estas «grutas» possuíam na época, e tão bem cuidadas se encontravam, que eram motivo de curiosidade de altos dignitários do governo português, que, embora nada tivessem feito por elas, quando de passagem por Moçâmedes não deixavam de as visitar, conduzidos para alí pelo grande amigo de Mossãmedes, o muito estimado Dr. Carlos Carneiro.

Embora não venha referido no programa oficial da visita a Mossãmedes, em 1938, do Presidente Óscar Fragoso Carmona, estas «grutas» foram visitadas por sua esposa e filha, Maria do Carmo Fragoso Carmona e Cesaltina Carmona Silva e Costa que ali se deslocaram acompanhadas de vários elementos masculinos e femininos da comitiva, entre os quais, Maria do Carmo Vieira Machado, esposa do Ministro das Colónias, Francisco José Vieira Machado.  Antes porém já havia siso visitada por um outro elemento da Comitiva, o General Amílcar Mota, que para ali se deslocou no carro, do moçamedense Mário de Sousa (o conhecido proprietário de uma oficina de reparação de automóveis) que sempre disponibilizava o transporte para estas deslocações.

Estas informações foram-me fornecidas pela minha tia Maria do Carmo Paulo Matos,  hoje com 85 anos de idade, na época uma adolescente, porém dotada de memória incrível, inclusivamente dos nomes completos dos referidos visitantes; e ainda hoje não se cansa de referir, com certa mágua, que Maria do Carmo Fragoso Carmona a convidara para ir para a Metrópole estudar, e que a sua mãe, minha avó recusara, prejudicando o seu futuro. 

MariaNJardim


(2)- Nesse tempo, para Angola continuavam ainda a mandar os condenados e tudo quanto fosse considerado escória da sociedade portuguesa metropolitana, um velho hábito que remonta ao ao tempo do tráfico de escravos, e que tão mau nome deu a Portugal e aos portugueses, na medida em que muitos deles, verdadeiros assassínos,  gente sem escrúpulos, se metiam em seguida nesse mesmo tráfico.


domingo, 29 de março de 2009

O Banco de Angola em Moçâmedes















Este foi o primitivo edifício onde funcionou a agência do Banco de Angola, na Avenida da Praia do Bonfim, em Moçâmedes, antes da mesma ter sido transferida, na década de 1960, para a Rua dos Pescadores. Trata-se de mais um edifício de arquitectura clássica portuguesa que muito veio valorizar a baixa da cidade, e que acabaria abandonado, apresentando já em 1975, um estado de progressiva degradação que seria urgente recuperar.

Foram muitos os jovens já nascidos em Moçâmedes que ingressaram neste Banco, cujo maior alargamento dos quadros se deu na década de 1960 numa altura em que na cidade começaram a surgir os bancos comerciais (Totta , Pinto & Sotto Mayor, Comercial e de Crédito).

Registo em seguida os nomes que me ocorrem de pessoas que a
li trabalharam até à independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975:

Gerentes :

Gt. Silvestre Newton da Silva - Gt. José Ressurreição -Gt. Aurélio Aguilar - Gt. Guilherme Magalhães - Gt. António Aguilar -Gt. Daniel Gavino Dias - Gt. Mário Romualdo Frota Tendinha ( foi o último Gerente deste Banco em 1975,).

Chefes de Secção, Tesoureiros, Guarda-Livros e Escriturários (ordem alfabética)



Abel Martins - Aguinaldo Matos, Albertino Carvalho Caio - Álvaro Jardim, Angelino Silva Jardim, António Cardoso Alves - Anúplio Castelo Branco - Armando Leitão Serra (*)- Arménio da Silva Jardim - Artur Caleres (*)- David Proença- Edgar Aboim - Ervedosa - Fausto Antunes - Fernando Morais - Francisco Fragata Guerra - Guerreiro - Hernâni Nunes - Isabel Ferreirim- Jaime Custódio- , Joaquim Nunes de Andrade- João Morgado -Jorge Carrilho - José das Neves Almeida - José Espirito Santo - José Manuel O. Frota - José Manuel Peyroteu - José Alves Roberto (*) - José Santos - Júlio Veríssimo - Lambelho Vaz - Lizete Berrones - Lurdes Ferreira - Manuel Rodrigues Araújo - Maria Etelvina Ferreira - Marinheiro - Mário Lisboa Frota (*) - Mário Frota Tendinha (*)- Mário Lopes - Mário Luis Figueiredo - Mário Pinto Ramos - Mário Vieira de Andrade (*)- Mesquita- Militão Ribeiro - Norberto Edgar de Almeida - Orlando Salvador - Osório (Ch.Sec) - Osório (Tes.)- Pedro Bento Rodrigues - Pedro Malaguerra - Pinto - Rabaça - Ramos Costa - Robalo - Rogério Trindade - Rui Alberto Coelho de Oliveira -Rui da Graça Carapinha - Silvino Costa - Teixeira de Jesus - Tenreiro - Valente - Vaz - Zelda Ferreira da Silva.

Nota: Os bancários cujos nomes vêm assinalados (*), todos nascidos em Moçâmedes, chegaram a Gerentes em outras agências do Banco de Angola.

Maria Etelvina Ferreira foi a 1ª senhora na agência do Banco de Angola de Moçâmedes. Para as mulheres estavam reservadas, nos anos 50, as funções únicas de dactilógrafas.


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O regime bancário foi inaugurado em Angola tal como nas colónias portuguesas, pela lei de 16 de Maio de 1864. Até então não existia em Angola qualquer instituto económico para funcionamento do crédito, o que tornava impossível a aquisição de toda e qualquer aparelhagem agrícola e industrial,
impedia o aperfeiçoamento dos processos de trabalho e dificultando o movimento das transacções mercantis e a própria vida dependente dos resultados das produções.

Conforme
Manuel Júlio de Mendonça Torres, na obra «Moçâmedes», no início da colonização quando de Pernambuco, Brasil, começaram a chegar os primeiros contingentes de portugueses, em parte, foi o Estado que supriu essa lacuna ao prestar-lhes a necessária assistência financeira que lhes possibilitou a compra de três engenhos de fabricação de açúcar que foram distribuídos a Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, José Joaquim da Costa e José Leite de Albuquerque, com a condição de retribuirem o seu custo com o produto de três safras consecutivas. Na mesma altura, fora ordenada, também, a remessa de três máquinas, duas das quais para descaroçar algodão dirigidas a Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, e uma terceira de prensar o algodão, a Manuel José Correia para serem pagas com os lucros das primeiras colheitas. Para além destes foram concedidos outros auxílios que seria ocioso enumerar, substituindo-se o Estado à instituição bancária nas suas funções subsidiárias de crédito.

Importa ainda referir, que, embora sem meios de prova, essa faceta também foi exercida no distrito por simples particulares (agiotas), que, tal como em toda a província, emprestavam dinheiro a juros em condições pouco inspiradoras de confiança.

Foi com o Banco Nacional Ultramarino - BNU que começaram as Emissões de Papel-Moeda nas colónias portuguesas de além mar. As emissões de papel-moeda constituíram um marco na história da circulação fiduciária das ex-colónias, uma vez que conseguiram disciplinar progressivamente a circulação monetária, acabando com a enorme variedade de moedas que corriam localmente (pesos, florins, marias teresas, águias, soberanos, luízes, etc.) e passando a ter curso legal exclusivo.

Foram ainda as emissões do BNU que retiraram da circulação as esporádicas e insuficientes emissões das Juntas da Fazenda, instituições que até então, detinham o monopólio da impressão do papel-moeda em giro. As Emissões de papel-moeda do BNU foram emitidas em diversas unidades monetárias – réis, escudos, patacas, rupias e libras esterlinas, conforme o tempo e o espaço onde circularam.

A primeira emissão impressa pelo Banco foi para a Sucursal de Luanda, em 1865. Esta emissão também circulou em Cabo Verde, S. Tomé e na Ilha de Moçambique, mas com sobrecarga do nome de cada uma das citadas províncias.


Em Angola o BNU foi emissor até 1926, ano em foi criado o Banco de Angola que recolheu do BNU o privilégio da Emissão de moeda naquele território ( Convenção de 03 de Agosto de 1926, e pelos Decretos Nºs. 12,123, 12131, de 14 de Agosto do mesmo ano), e que tomou as suas agências para prosseguimento da actividade bancária normal, tendo-se então integrado neste novo banco, a agência que o BNU tinha em Leopoldville. Nas restantes ex-colónias africanas, permaneceu como único Banco emissor até aquelas se transformarem em países independentes, tendo continuado as suas emissões até as respectivas Repúblicas emitirem notas próprias. Sobre o modo como se processava o sistema de pagamentos, remeto para o seguinte artigo:



stema de Pagamentos do Império


3. Sistema de pagamentos do Império

Luís Salgado de Matos

Assim regulado o comércio, era preciso modernizar o sistema de pagamentos no Império. Correia de Oliveira - o ministro de Salazar que defendera a entrada na EFTA e criara aquele - «espaço» - impôs um sistema que tendia para a moeda única e concretizava os princípios do liberalismo económico num quadro colonial, o que começou a ser feito com o citado Decreto-Lei n.º 44 016. Este diploma definiu as bases de instituição de um sistema de compensações e de pagamentos inter-regionais entre todas as «províncias» e de um Fundo Monetário da Zona do Escudo (FMZE), «seguindo princípios análogos aos que têm enformado as convenções internacionais de natureza monetário-cambial assinadas depois da II Guerra» (Relatório do Banco de Portugal referente a 1961).
No essencial, o sistema funcionava assim: o importador - angolano, por exemplo - depositava angolares - a moeda de Angola - no seu banco para pagar têxteis portugueses. Todos os pagamentos com o exterior tinham de ser feitos pelos bancos para garantir o controlo.
Os angolares iam a crédito de Portugal, o território exportador, para a sua «conta de compensação», no banco emissor, o Banco de Angola, como agente do fundo cambial, e a débito de Angola. Em Portugal, outro industrial têxtil importava algodão angolano - e os seus escudos iam a crédito de Angola, para a sua conta de compensação, no Banco de Portugal, e a débito de Portugal. As contas de compensação eram abertas na moeda de cada território.
O mecanismo era o mesmo para pagamentos não comerciais: remessas de lucros de empresas ou mesadas dos universitários ultramarinos em Portugal, por exemplo. Os pagamentos aos outros territórios eram feitos por ordem de pedido: recebia escudos da Metrópole quem os pedia primeiro, fosse para pagar perfumes franceses, máquinas, ferramentas alemãs ou vinho do Cartaxo. Era um esquema completamente liberal, que excluía qualquer prioridade entre pagamentos de bens de diversa natureza motivada pelo interesse colectivo.
Nos outros territórios, o procedimento era idêntico: pedido de transferência no banco, transmitido ao Banco de Portugal como agente do sistema a seguir, através do fundo cambial respectivo. Os diferentes fundos cambiais levavam, todos os meses, a soma dos pedidos de pagamentos externos ao Banco de Portugal. A primeira fase era a compensação e fazia-se então o encontro de contas, para cada território, entre os pedidos de moeda exterior (importações e saída de invisíveis) e os pedidos da moeda dele (exportações e entrada de invisíveis).
Se Angola tivesse direito a receber dinheiro dos outros territórios em valor igual aos seus pedidos - por lhes ter vendido mercadorias ou por receber invisíveis -, a compensação funcionava em pleno. Angola pagava ao importador angolano com os ganhos do seu exportador, depositados nas suas contas de compensação nos outros territórios. Passava-se o mesmo com Portugal, com Moçambique ou com as outras províncias. O Banco de Portugal fazia a compensação, sem gastos de moeda exterior. Não haveria, portanto, necessidade de saída de moeda forte (escudos metropolitanos).
Quando os pedidos de Angola em moeda dos outros territórios excediam o valor dos pedidos desses territórios em moeda de Angola, ficava um remanescente por compensar - e por pagar. Este remanescente era elevado. De facto, a compensação abrangia parte reduzida do comércio, porque as trocas eram assimétricas. O comércio das colónias entre si era reduzido, cerca de cinco por cento do total, e a maior parte fazia-se entre as colónias e a Metrópole. Ora esta tinha sempre saldos comerciais e de pagamentos positivos face às colónias.
Os pedidos de pagamentos que não tinham podido ser saldados na compensação eram por força liquidados em escudos da Metrópole, o que era feito através das «contas de reserva» abertas no Banco de Portugal, o agente do sistema. Cada colónia entregava-lhe as divisas e escudos metropolitanos que ganhara - excepto um fundo de maneio - e ele creditava-os na respectiva «conta de reserva».
Cada fundo cambial tinha uma conta deste tipo que só podia ser feita em escudos metropolitanos, moeda estrangeira (divisas) ou ouro. O escudo metropolitano, convertível em divisas, era a moeda de conta e de pagamento do sistema, sendo o fundo cambial alimentado pelos ganhos em divisas de cada território (exportações de mercadorias, entradas de capitais ou invisíveis: remessas de emigrantes ou pagamento de transportes, por exemplo).
As colónias não tinham escudos metropolitanos, pois estavam em permanente défice de pagamentos com a Metrópole, e só podiam ir buscar moeda forte fora do «espaço económico português», ao estrangeiro. Contudo a partir da década de 1950, pelo menos, os saldos positivos de Angola e Moçambique com o resto do mundo deixaram de ser suficientes para pagar o défice com a Metrópole - as "contas de reserva" de Angola e de Moçambique estavam sempre "carecas".
As colónias precisavam, portanto, de contrair empréstimos em escudos da metrópole. O FMZE concedia-os - automáticos uns, condicionais outros - aos territórios com problemas de pagamentos externos, mas os haveres do fundo esgotaram-se em menos de dois anos. Começaram então a acumular-se os pedidos de escudos metropolitanos que não tinham sido saldados na compensação os atrasados logo em 1963.
De princípio, esta situação favoreceu o desenvolvimento das colónias e o crescimento do comércio imperial. As colónias tinham não só uma garantia de mercado em Portugal, mas também quem lhes financiasse os défices de pagamentos exteriores, um dos principais obstáculos ao crescimento económico.
Os principais grupos económicos portugueses investiram nas colónias - nas matérias-primas, nos transportes, na banca e nos seguros. Os grupos Champalimaud (banca, seguros, cimento), Espírito Santo (banca, agricultura) e Borges mantiveram esse interesse até ao final do colonialismo, os outros desaceleraram-no.
O comércio entre as várias parcelas do império cresceu no princípio dos anos 1960 e o ritmo de desenvolvimento das colónias acelerou-se. Em meados da década de 1960, os angolanos tinham um rendimento igual ao dos marroquinos, superior ao dos egípcios, e viviam melhor do que os seus vizinhos zairenses ou congoleses. Angola era o 13.º país africano do ponto de vista do rendimento por habitante. Moçambique situava-se mais para o meio da escala, e era mais pobre do que os vizinhos zambianos e sobretudo, sul-africanos ou rodesianos, de quem dependia para o melhor do seu ganho em divisas: portos, caminhos de ferro, turismo, remessas dos mineiros em rands.
Em Moçambique, sete mercadorias primárias - fibra de algodão, castanha e amêndoa de caju, oleaginosas, açúcar, chá, fibra e cordel de sisal e madeiras - representavam 83 por cento da exportação em 1950, e 74 por cento, em 1972. As únicas adições tinham sido o tabaco e, estimulados pelas sanções à independência branca da Rodésia, os derivados do petróleo. Estas sanções, decididas em 1966, prejudicavam-na em mais de meio milhão de contos por ano, segundo cálculos do Governo. O seu crescimento fora mais frágil do que o angolano.
Angola desenvolveu alguma indústria transformadora e conseguiu um crescimento rápido. As suas exportações dependiam tradicionalmente do café em grão e dos diamantes, que representavam cerca de metade do total exportado, mas vendia também algodão em rama, sisal, milho, madeira, peixe e farinha de peixe. Nos anos 1960, estas exportações tradicionais continuaram a crescer e surgiram outras: petróleo em bruto, óleos combustíveis, minério de ferro.
As economias das outras colónias africanas eram bem menores. São Tomé e Príncipe tinha um nível de rendimento elevado no contexto regional, mas estava sujeito às violentas flutuações cíclicas da cotação do cacau. Cabo Verde, castigado pelas secas periódicas mas sem problemas de divisas devido à imigração, e a Guiné-Bissau alinhavam entre os mais pobres do continente. O rendimento dos seus habitantes era inferior ao dos vizinhos.
Os indicadores de desenvolvimento social - escolarização e saúde - nas colónias portuguesas não estavam abaixo da média do continente africano. Pelo contrário.
A administração pública colonial portuguesa promoveu obras importantes de infra-estruturas rodoviárias, ferroviárias, portuárias, de telecomunicações e energéticas - de que o gigante de Cahora Bassa é o caso mais conhecido -, as quais contribuíram para o desenvolvimento económico. Julgada pelos padrões africanos da época - mas só por estes -, era razoavelmente eficiente e não pecava mais do que os deuses deixavam.
O sistema interterritorial de pagamentos não fora dos menores apoios ao desenvolvimento, tanto mais que acabara por autorizar algum proteccionismo às indústrias transformadoras locais (Pauta aduaneira de Angola, 1964).
O sistema tinha vantagens para as colónias. O exportador português ia ao seu banco, em Portugal, que lhe financiava o crédito sobre a colónia mediante o pagamento do juro e da amortização. A colónia beneficiava assim, indirectamente, de financiamento às suas importações, e os particulares, que dificilmente obteriam crédito bancário, ficavam prejudicados.
No final dos anos de 1960, tornara-se mais aguda a sua crise, manifestada na falta de meios de pagamento sobre o exterior.
Eram os atrasados. Como os factos são sempre casmurros, a política do «espaço económico português» traduzira-se na desagregação económica do Império. Aquela crise do sistema era inevitável e fora prevista. O Banco de Portugal sugerira, reservadamente, a sua possibilidade quando afirmara, a propósito do FMZE, no seu relatório de 1962, que «um fundo monetário», por muito grande que seja, nunca será suficiente para solver todo e qualquer desequilíbrio de pagamentos».
Com efeito, as economias das «províncias ultramarinas» eram mais fracas do que a da Metrópole e, por isso, os colonos fugiam das suas moedas e queriam escudos metropolitanos. Esta fuga acentuou-se certamente com a insegurança causada pela guerra, mas o sistema assentava na igualdade permanente do valor das moedas das diferentes colónias e destas com o escudo do Banco de Portugal, garantindo a Iiberalização total dos pagamentos.
Por outro lado, o sistema não tinha mecanismos automáticos de adaptação (desvalorização em caso de défice cambial).
O mercado negro do escudo florescia em Angola, mas a depreciação do angolar era politicamente inaceitável: manifestaria o estilhaçar económico do Império e prejudicaria os interesses dos colonos, forçados a exportar mais para poderem importar o mesmo.
A política monetária - a cargo de dois bancos emissores com sede em Lisboa, os bancos de Angola e Nacional Ultramarino - visava mais estimular o crescimento económico do que obter saldo positivo nas relações económicas com o exterior.
O orçamento também não punha travões ao défice de pagamentos. Uma política orçamental expansionista, com rigor decrescente, fora facilitada pelo aumento da autonomia financeira das colónias.
Até à Lei Orgânica do Ultramar de 1953, o orçamento de cada colónia tinha de ser aprovado pelo ministro do Ultramar, mas a partir deste ano o ministro apenas dá orientações sobre o projecto de orçamento que o governador de cada colónia lhe apresenta. Depois da revisão de 1963, era total a autonomia orçamental: o governador, desde que autorizado pelo Conselho Legislativo, podia aprovar e fazer executar sem necessitar de qualquer orientação ou consentimento de Lisboa.
Esta autonomia, reforçando as tendências independentistas dos colonos, favorecia o proteccionismo local e ia contra a unidade económica do sistema.
Os atrasados acumulam-se muito rapidamente na segunda metade da década de 1960, em 1970, ascendiam a 9,6 milhões de contos, mais de cinco por cento do PIB. Os de Angola - onde a situação era mais grave, pois fora maior o crescimento, demoravam perto de onze meses e os de Moçambique quase mês e meio. A situação regressara aos anos 1930 e, como então, era insustentável.
Marcelo Caetano fez a reforma dos sistemas comercial e de pagamentos, concretizada no Decreto-Lei n.º 478/71, de 6 de Novembro, do ministro Dias Rosas. As colónias passaram a só poder fazer importações quando tivessem meios de pagamentos sobre o exterior (escudos metropolitanos ou dólares), reforçaram-se prioridades para estes pagamentos de acordo com a sua relevância económico-social. Lisboa arranjou fundos para pagar os atrasados, sendo o grande financiador o Banco de Portugal, que cedeu o dinheiro muito contrariado. Era o regresso ao esquema de Armindo Monteiro.
O novo sistema de pagamentos acentuou a divergência entre as economias da Metrópole e das colónias - a Metrópole passou a comprar-lhes e a vender-lhes menos. Em 1973, as importações portuguesas das colónias reduziam-se a 10 por cento do total e as exportações a 15 por cento.
Não havia, porém, simetria. O mercado metropolitano continuava a ser importante para as colónias, absorvera 29 por cento das exportações de Moçambique, em 1950, e 38 por cento, em 1970, e comprara 28 por cento das exportações de Angola, em 1962, e 26 por cento, em 1971. Ambos os territórios montaram indústrias de substituição de importações - restringidas pelo novo sistema -, cujo crescimento foi particularmente rápido em Angola.
Fonte
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terça-feira, 17 de março de 2009

Caminhos de Ferro de Mossãmedes, ex Moçâmedes, actual cidade do Namibe (Angola)

Eis o edifício da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçâmedes (1ª foto), tal como se apresentava na década de 70, já com o largo de terra batida, em frente melhorado com colocação de um monumento dedicado à «1ª locomotiva».

Trata-se de um belo edifício pintado na côr ocre e marginado de faixas arroxeadas. As portas centrais, de topos arredondados, davam o acesso às bilheteiras e à gare. Defronte da estação, junto aos muros do velho campo de futebol, nasce a "Avenida da República», extevulgarmente conhecida por Avenida da Praia do Bonfim, que corta a cidade de norte a sul, com os seus canteiros de flores multicoloridas, tanques de água, buganvílias e palmeiras até ao espelho de água ladeado por duas elegantes gazelas e o imponente edifício do Palácio da Justiça (Tribunal).

Por esta altura já não funcionava a velha linha de bitola estreita, que tornava morosos e fatigantes quaisquer percursos do primitivo comboio, inaugurado em 31 de Maio de 1923, conhecido por «Camacouve» que fazia a ligação entre Moçâmedes e Sá da Bandeira.

Aind recordo esse tempo em que o velho comboio demorava o dia inteiro
para completar esse percurso de 250 Km, obrigando as pessoas a munirem-se dos seus farnéis para a viagem. Embora ridicularizado por muitos como «Camacove», por já se encontrar ultrapassado, era acarinhado por uma boa parte da população, pois era através dele que, nos tempos em que raros possuiam automóvel, se conseguia partir para deslocações de longo curso, dispensando as velhas carroças puxadas por juntas de bois, introduzidas pelos boers, e mais tarde os camions de mercadorias.

Tudo tem a sua época, e o ultrapassado «Camacove», apesar de lento, bem ou mal, cumpriu a sua missão, tendo contribuido para o arranque do comércio na zona, como meio de transporte de mercadorias, bem assim como transporte de pessoas.


Foi esse comboio e esse locomotiva que levavam e traziam os crentes e não crentes que anualmente se deslocavam à Capelinha de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, em peregrinações que, misturando momentos de fé religiosa com momentos de lazer e folia, eram sempre benvindas a uma população carente de festas e distrações que lhes alegrasse a rotina do quotidiano.

O «Camacove» era, portanto, um combóio amado pela população, até porque nestas ocasiões era disponibilizado gratuitamente pelos serviços de Caminhos de Ferro de Mossãmedes que deste era o modo ajudava a impulsionar estas festividades, que, à boa maneira portuguesa, incluiam a «missa campal» seguida de procissão e culminava num arraial em recinto de terra batida devidamente enfeitado e apetrechado, com barracas e pavilhões onde se vendia de tudo um pouco desde «comes e bebes» a estatuetas, objectos diversos, rifas, etc., e onde, à boa maneira portuguesa, se petiscava, bailava e divertia, ao som da velha concertina ou do tradicional gramofone e seus altifalantes.


Mas voltemos aos Caminhos de Ferro de Moçâmedes. LÁ PARA OS ANOS 50, VIERAM AS POTENTES GARRAT'S bem adaptadas às lonjuras de África, que mais facilmente movimentarem comboios extensos de passageiros de mercadorias ou mistos nesse vai-vem entre Moçâmedes (Namibe) e Sá da Bandeira (Lubango), com os seus três corpos distintos que facilitavam extraordinariamente as manobráveis nas apertadas passagens das montanhas. O maquinista seguia no corpo do meio n o da retaguarda recolhia-se o combustível (lenha, carvão). No da frente, fruto das fornalhas incandescentes, acumulava-se a tremenda pressão do vapor que as fazia poderosas e imparáveis.

A cerimónia de inuguração solene da 1ª fase dos trabalhos de transformação dos CFM aconteceu por ocasião da visita do Presidente da República, General Francisco Egidio Craveiro Lopes a Angola, em 1954, e na sua passagem por Vila Arriaga, vindo de Sá-da-Bandeira a caminho de Moçâmedes.


No acto da inauguração, o Presidente da República, cumprindo os rituais de praxe queimou com fogo da fornalha da locomotiva a simbólica fita que ficou a marcar o momento em que as pequenas locomotivas que rebocavam composições da ordem das 120 toneladas deram lugar às potentes Garrat´s que passaram rebocar comboio da ordem 800 a 100 toneladas, em nova linha de via alargada, num troço de 169 km. A partir daí foi possibilitado um grande avanço, quer em potência, quer na capacidade de transporte mercadorias e pessoas que muito contribuiu para o desenvolvimento da zona.

Este projecto, promulgado por diploma do Marechal Carmona na 1ª viagem Presidencial , e enquadrado plano fomento compreendia um conjunto obras que deveriam ser levadas a cabo no periodo de 1938/1945, nas quais se previa para os Caminhos de Ferro de Moçâmedes a substituição do material fixo, largamento da bitola e a rectificação do traçado e prolongamento até ao Tchivinguitro, porém, acabaria por ser travado por força da 2ª Grande Guerra Mundial dada a impossibilidade de aquisição de apetrechamento, máquinas, etc.. Em consequência, o rendimento esperado foi reduzido, devido ao adiamento do assentamento da nova bitola, por falta de fornecimentos do material circulante e de via, para iniciar o prolongamento previsto, tendo-se, inda assim, efectuado o alargamento da plataforma para a bitola e rectificação do traçado de Moçâmedes ao quilómetro 173, e do quilómetro 205 a Sá da Bandeira, incluindo obras de arte, instalação de pessoal etc.

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Clicar aqui para ver esta excelente postagem:
Memória - Fantásticas "Garratts"! (1.ª Parte) - As Antigas Viagens de Comboio de Moçâmedes a Sá da Bandeira (Sul de Angola)
http://torredahistoriaiberica.blogspot.com/2008/05/memria-fantsticas-garrats-1-parte-as.html#links

Sobre CFM, clicar AQUI

domingo, 8 de março de 2009

Memória - Fantásticas "Garratts" - As Antigas Viagens de Comboio de Moçâmedes a Sá da Bandeira (Sul de Angola)



"Garratt" - mítica locomotiva das grandes distâncias africanas!

Lembro com nitidez o instante da minha infância em que vi uma pela primeira vez - semelhante à que aqui vos deixo. Parada e poderosa nos carris de uma estação ferroviária do Sul de Angola, luzindo com um brilho baço de limpeza recente, soprando da chaminé baixa fumos enegrecidos e espessos, esguichando dos flancos um vapor esbranquiçado e impaciente - "fschhhhh..." . A pedir viagens, apeadeiros, descobertas - "fschhhhh...". Fiquei mudo e extático, esmagado na minha pequenez pela presença imóvel mas fremente do monstro. Sentia-me ao mesmo tempo intimidado e encantado pela novidade, acostumado que estava às maquinazinhas quase de brinquedo que haviam percorrido, até então, os carris de bitola estreita entretanto substituídos por outros mais largos para poderem acolher os gigantes de ferro recém-chegados.

Aconteceu na cidadezinha de Moçâmedes (hoje Namibe), urbe tranquila e doirada, de arvoredos dispersos pelas ruas direitas, traçadas, a régua e esquadro, entre os areais do deserto e uma baía de águas azuis e translúcidas. (Na parte inferior da fotografia, mais ou menos a meio, ali onde começa uma rua, diante daquele grupo de árvores cónicas, está a casa amarela e branca onde vim ao mundo nuns finais de Janeiro de grandes calores.)


De um lado da cidade ficava o deserto profundo, povoado de animais furtivos e de uma multidão de "Welwitschia Mirabilis", plantas rastejantes que sempre me fizeram evocar legiões de caranguejos vegetais a fugirem, açodados, da presença perigosa dos intrusos. Para Gastão Sousa Dias (1), sempre com o justo verbo, a "welwitschia" é " a planta filha do deserto, que, na sua forma e contextura estranhas, parece querer significar toda a aridez, todas as torturas da sede , todo o horror da adaptação a um meio hostil".



Do outro lado, apertando o casario e o deserto num abraço de frescuras atlânticas, a espaçosa baía com o moderno porto de mar, onde acostavam os paquetes imponentes das Companhias de Navegação portuguesas (a Colonial e a Nacional). O Uíge, o Infante Dom Henrique, o Moçambique, o Pátria, o Império, o Angola, tantos outros...

De vez em quando atracavam vapores estrangeiros ou vasos de guerra de canhões sossegados e recolhidos, pois ali não havia, nem chegou a haver, nesses tempos lusitanos, qualquer novidade bélica. A tripulação de um navio japonês que por ali passou um dia deixou como lembrança à estação de rádio local (Rádio Clube de Moçâmedes - R. C. M.) um disco de música romântica do seu país, de 45 r. p. m. E, meses a fio, soaram na baía e nas dunas vizinhas, por cima das "welwitschias" e das casuarinas, as estrofes doridas e exóticas de um cançonetista nipónico destroçado por terríveis males de amor. Entre a população comovida ninguém percebeu jamais, de ciência certa, de que sofria o japonês. Suspeitavam, apenas - pelo tom melado, pelas fracturas de voz, pelas bruscas interjeições... E, suspeitando, todos gostavam de o ouvir. O R. C. M. fazia-lhes a vontade. Até que o disco-lembrança fatalmente se riscou e o infeliz apaixonado se calou de vez.


Este era o edifício da estação ferroviária de Moçâmedes (aqui no seu estado actual). Naquele tempo ele resplandecia ao sol do mar e do deserto, no seu ocre imaculado, marginado de faixas arroxeadas. As portas centrais, de topos arredondados, davam acesso às bilheteiras e à gare. Defronte da estação começava a "Avenida" (onde terminavam os muros do velho campo de futebol). A "Avenida" era um espaço extenso, que cortava a cidade de norte a sul, com os seus canteiros de flores multicoloridas, tanques de água, buganvílias e palmeiras.

Aqui passeavam, nas tardes de domingo, com sedutores vagares, ranchinhos perfumados de jovens meninas, cruzando olhares fugidios com os pretendentes, em cenas discretas que as correspondentes famílias (a mãe, o pai, os avós, os manos mais velhos) patrulhavam a prudente distância. Das arvorezinhas baixas da "Avenida" pendiam instalações sonoras, de cujos altifalantes escorriam incessantemente os êxitos musicais da época - de Amália Rodrigues, de Tristão da Silva, de Alberto Ribeiro, de Maria Clara. Ouvia-se a Casa Portuguesa, o Nem às Paredes Confesso, a Canção do Cigano, a Fonte das Sete Bicas. E soavam ainda tangos plangentes e requebrados, trazendo aos crepúsculos sul-angolanos uma inusitada e muito romântica sugestão argentina. Foi nesses primeiros anos que tomei conhecimento, sem saber a quem pertencia, daquela voz castigada e roufenha a chorar por "mi Buenos Aires querido". Só muito depois soube tratar-se do desditoso Carlos Gardel. Que assim embalou, a milhares de quilómetros, e muitos anos depois de partir, o começo de muitos e tórridos amores moçamedenses.


Era por aqui que ficava, então, a estação ferroviária da cidade. E foi por detrás desta vetusta fachada que me encontrei, na minha infância, e nos termos acima descritos, com a minha primeira "Garratt". As "Garrats" apareciam na parte de trás da estação para movimentarem comboios extensos - de passageiros, de mercadorias ou mistos - entre Moçâmedes (Namibe) e Sá da Bandeira (Lubango). Não tardei a descobrir que as guardavam em enormes oficinas próximas da estação. Sentava-me num muro que dava para as instalações ferroviárias e desse poiso privilegiado vigiava-lhes durante horas as manobras, as idas e vindas daqueles monstros de belas linhas.

As locomotivas ficavam a aquecer, acumulando vapores e energias, durante as horas que antecediam as grandes viagens pelas planuras e montanhas do Sul de Angola.


Punham-nas em ordem, recuperavam-lhes mazelas de estiradas anteriores, limpavam-nas, acarinhavam-nas. Elas possuíam três corpos distintos, o que as tornava extraordinariamente manobráveis nas apertadas passagens das montanhas africanas. O maquinista seguia no corpo do meio. No da retaguarda recolhia-se o combustível (lenha, carvão). No da frente, fruto das fornalhas incandescentes, acumulava-se a tremenda pressão do vapor que as fazia poderosas e imparáveis.

Chegado o grande momento abandonavam o refúgio para irem "formar comboio". Resfolegando - fschhhhh... - alinhavam diante da estação com as carruagens e os vagões. Sempre resfolegando - fschhhhh... - aprontavam-se para o primeiro avanço depois de recolherem tripulações e passageiros. Despedidas derradeiras. E o último aviso-chamada da "Garratt", o apito imperativo e forte, que soaria amiúde durante as centenas de quilómetros da viagem.




De súbito, com ruídos sincopados e fortes, a máquina punha-se em movimento. Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan... Cilindros, êmbolos, pistões, bielas, eixos das rodas, tudo trabalhando em perfeita sincronia numa nuvem rumorosa de vapor branco, emprestando vida e movimento àquele corpo imenso de metal escuro. A princípio lentamente, com uma espécie de preguiça mecânica, logo depois com outro balanço, a seguir preparando-se para as grandes velocidades do caminho. Fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi... - fu-ca-tchi... Lubango, aqui vamos nós.



Na despedida de Moçâmedes, a "Garratt" tinha de transpor a ponte do Bero, nas "Hortas", um oásis de verdes intensos abençoado pelas cheias periódicas do rio.

"Nestas paragens os rios mantêm-se secos na maior parte do tempo. Porém (...), dá-se nos primeiros meses do ano uma ex­traordinária metamorfose, quando os ventos empurram até ao planalto as gordas nuvens fuliginosas das chuvas torrenciais. As águas despenham-se então para oeste ao longo das vertentes da Chela, alagam as depressões das terras baixas e origi­nam enxurradas tumultuosas ao correr das nervuras fluviais que procuram o oceano. No fim das chuvas subsiste durante algum tempo a correnteza mansa, pouco rumo­rosa, de vários rios, que deslizam através do deserto por leitos de areia macia, or­lados, aqui e ali, por canaviais e arbustos rejuvenescidos (...).
As águas não tardam a sumir-se, engolidas pelo solo poroso e ávido. Em inúmeros locais, porém, conservam-se vastos lençóis de águas subterrâneas, que se podem alcançar com es­cavações su­perficiais. Formam-se também depósitos abundantes de detritos or­gânicos, arrasta­dos pelas cheias. São adubos preciosos, que favorecem o verdejar repentino de plantas nutritivas, excelentes para o gado e para a multidão de herbí­voros selva­gens que por ali se movimentam." (2)


"A vinda periódica das águas explica a persistência da vida nesses lugares toca­dos por uma espécie de irreali­dade magnética, feita de dias luminosos e chamejan­tes que, na época própria, se submergem em mantos vaporosos de cacimbo impe­netrável.
Este é um mundo impregnado de aromas intensos e envolventes, despren­didos de um misto de madei­ras secas, lodos antigos, maresias penetrantes, capins calcinados e fumosidades longínquas transportadas nas abas do vento desde povo­ados escondidos. Terá sido em parte aquele magnetismo, aliado à possibilidade da vida, o poderoso instiga­dor da atracção que levou os invasores hereros, primeiro, e os conquistadores portugueses, mais tarde, a tenazes acções de fixação nesses er­mos de sol e sede." (2)


Primeiras paragens: o Saco (onde mais tarde se construiria um porto gigantesco para escoamento do minério de Cassinga) e o Giraul. Forcejando, forcejando, a máquina galga depois milha sobre milha, na paisagem escalvada.
E apita, apita, no seu aceleradíssimo e imparável fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi... E apita de novo.
Que som este! Quem alguma vez ouviu o chamamento de uma "Garratt" jamais o poderá esquecer. É um silvo simultaneamente rouco, estridente e lancinante. É um grito de coisa viva e pensante, não de máquina inerte e bruta. Tanto pode soar a queixume como a brado de triunfo, tanto é apelo como despedida, tanto traduz alegria como raiva. A voz vibrante de uma "Garratt" é um dos sons mais inebriantes e comoventes que se podem escutar.




Já se vêem as penedias vizinhas da Raposeira, que anunciam as do Caraculo. "O terreno tem a violência bárbara dum inferno escalvado. A marginar a linha, pedregulhos sobre pedregulhos parecem construções ciclópicas executadas por mãos ciclópicas. De vez em quando surgem grandes morros pelados, de pedra lisa, duma fealdade nua e parda - semelhando, nas suas formas estranhas, bossas de camelos ou dorsos de tartarugas." (3)


Agora procuram-se as terras do Luso, do Cuto do Munhino. Numa carruagem ouve-se um acordeão de estudantes (será o Nelson, de Moçâmedes?), soam as sentenças solenes do Carlos, "O Mosca", estalam gargalhadas desprendidas e jovens. Fala-se com súbita gravidade da presença numerosa de leões na zona, sobretudo no Cuto, que é o quilómetro 101. Por sobre tudo isto, o fu-ca-tchi ... fu-ca-tchi da "Garratt", o odor intenso da sua fumarada, a magia da nossa África (4)."Horas e horas o comboio arfa pelo deserto despido; as paragens, não tendo particularidade que as caracterize, são conhecidas pela numeração quilométrica; e o som do êmbolo, matraqueando rudemente, é o único ruído que acorda o silêncio morno e abafado do areal infinito." (1)

Rios secos, águas ocultas, vida fervilhando em redor...
Fu-ca-tchi... - Fu-ca-tchi...- Fu-ca-tchi... (4)

"Errando pelo interior desértico ou semidesértico, meteram por cami­nhos que iam subindo devagar ao longo de ravinas, planuras e montes cónicos iso­lados." (2)

Aqui e ali, vidas fugidias de guelengues, espantados pelo silvo da "Garratt", confundidos com o seu bafo escuro...

Já se deixou para trás o Munhengo, logo depois Assunção, vieram a seguir as Gargantas (a Grande e a Pequena). A "Garratt" progride em grande velocidade, acerca-se da sua maior adversária antes de chegar ao destino.

"Agora o terreno agita-se um pouco. Pequenas ondulações sucedem-se. E à nossa frente, lá ao longe, elevam-se os degraus da serra da Chela, negros e verticais, singularmente recortados no céu (...) Entre eles destaca-se o Morro Maluco (Cha-Malundo), cuja conformação é realmente caprichosa, recurvado como uma garra." (1) (4)

É agora, só mais um esforço! Sopra a "Garratt" afanosa, silva, matraqueia, devora espaços - desejosa do maior dos combates...

E, de repente, ao quilómetro 186, a barreira esmagadora da Serra da Chela, o grande obstáculo que separa a "Garratt" de Sá da Bandeira (Lubango)!
Aos pés da montanha imponente, o casario raso, colorido e ameno da bela Vila Arriaga (Bibala).
Lá no cimo, como um rasgão trágico, o corte mítico da Tundavala.
"De súbito, depararam com as escarpas da Chela, cujas cristas rompem os céus a mais de dois mil e trezentos me­tros de altitude. A partir do cume, esta regi­ão, planáltica, baixa aos poucos para leste até formar a bacia do Cunene, o lendário rio que, descrevendo uma curva des­comunal, abraça todo o Sudoeste an­golano até ao mar. Foi junto ao sopé desses im­ponentes paredões que os pastores detiveram o passo num primeiro momento." (2) (4)
Foi aqui também que a "Garratt" se deteve, a ganhar forças e balanço.
Daqui a uns minutos, será a última batalha da minha máquina indomável. (Continua)
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(1) Gastão Sousa Dias - África Portentosa - Seara Nova - Lisboa - 1928.
(2) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Editorial Estampa - Lisboa - 1999
(3) José Maria d'Eça de Queiroz - Seara dos Tempos - Edição do autor - Sem data
(4) Esta foto, como algumas mais desta viagem (sobretudo as da Bibala e da Chela), são de Okawa Ryuko, que já temos citado e voltamos a recomendar vivamente. Blogue: Angola: Huíla Namibe Kunene Luanda


Do blog Torre da Historica Ibérica

quarta-feira, 4 de março de 2009

Moçâmedes: Posto Experimental do Caraculo, Angola


















































Posto Experimental do Caraculo, exploração modelo saída do sonho do veterinário, Dr Santos Pereira (na 4ª e na 6ª foto inspeccionando as crias), enquanto director da Estação Zootécnica da Humpata (Huila), ao ter presenciado no decurso de uma visita à Namibia como naquelas terras desérticas se procedia à criação do gado ovino de raça Karakul.

O Posto Experimental do Caraculo foi por criado por proposta daquele veterinário ao Governador Geral de Angola de então, Agapito da Silva Carvalho, e o gado ali criado passou a fornecer aos mercados uma das peles mais brilhantes e leves de todo o mundo.

Seria o próprio veterinário a seguir para o deserto, a escolher o local, e a lançar as bases da exploração modelo, cuja produção de peles viria a ganhar um prémio internacional, tendo o Caraculo sido considerado uma das regiões que produzia as melhores peles do mundo, dada a sua leveza e brilho.

Tecnicamente apoiada e incrementada por este PEC oficial, sob a orientação do seu iniciador e director, nos anos 70 existiam já 17 criadores particulares, mais de 60.000 cabeças e já se haviam realizado 5 leilões de peles (sendo o último em Londres, com 800 peles). Não foi tarefa fácil, dada a carência de ovelhas locais, já que os criadores nativos que dispunham de algumas, e não queriam se desfazer delas com vista a cruzamento. Como recurso estas foram trazidas do Quénia, «Massai», tendo em vista a produção no mais curto espaço de tempo. E assim se conseguiu que em 1975, o nímero se elevasse para as 60 000 cabeças , número que muito iria contribuir para a economia do território, através da venda das suas tão cobiçadas peles, tidas como as mais perfeitas.
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A região do Caraculo, situada a 70 km de Moçâmedes (Namibe), na estrada para Sá da Bandeira (Lubango) foi a região escolhida pelo Estado português na década de 50, para a instalação deste posto experimental tendo em vista a exploração em grande escala de ovelhas Karakul destinadas ao abate nos três primeiros dias de vida, tendo como objectivo o comércio de peles.

Esta escolha ficou a dever-se ao facto da região reunir condições similares à das estepes e semi-desertos do Turquistão Oriental, actual Uzbequistão, assim como das regiões do norte do Irão e do Afeganistão, onde a raça já existia há 1.000 anos, tendo, a partir dai se espalhado gradualmente para outras regiões da Ásia Central, Ásia Menor e sul da Ásia até à Índia e China. Foram as condições adversas sob as quais evoluiu a raça Karakul, que deram a estes animais força longevidade, resistência, resistência aos parasitas, etc., de tal modo que, se tiverem acesso a uma alta disponibilidade de forragens, são capazes de armazenar energia, principalmente através de sua cauda gorda, para sobreviverem a períodos de falta de alimentos, situação que outras raças não aguentariam. A raça Karakul suporta grandes variações de temperatura, do frio ao calor intenso e deve ser criada e mantida em locais secos, longe de pastagens alagadiças, em regiões com vegetação típica de deserto e com disponibilidade de água limitada, uma vez que armazenam muita gordura em suas caudas, como resultado de uma adaptação desenvolvida para a sobrevivência em ambiente inóspito, tendo chegado a percorrer 30km em busca de alimento e água.

O cordeiro Karakul é abatido nos três primeiros dias de vida para se obter uma pele de qualidade superior, a nobre pele conhecida por ASTRAKAN, muito apreciada e reservada especialmente à confecção de casacos de senhora. ASTRAKEN é nome de uma cidade do Mar Cáspio onde os franceses adquiriam as suas peles, pois à medida que os cordeiros crescem, as ondulações do velo vão se espaçando e a coloração vai se tornando acinzentada , havendo também perda da maciez.

As fotos mostram-nos a região do Caraculo com toda a sua envolvência, o gado que ali se «produzia», o Dr Santos Pereira e uma sala de aula, onde se pode ver escrito no quadro a designação do local.

Para lêr mais: http://www.crisa.vet.br/raca_2001/karakul.htm

http://memoria-africa.ua.pt/Digital_Show.aspx?q=/LNEC/LNEC-Memoria-N210&p=1

http://memoria-africa.ua.pt/Digital_Show.aspx?q=/LNEC/LNEC-Memoria-N210