Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 25 de novembro de 2016

As viagens gloriosas do famoso navegador Diogo Cão à Costa Ocidental da África








Tais palavras tirou do experto peito:

"-Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cúa aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exprimentas!

Dura inquietação d' alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios !
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana.

A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente ?

Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

Mas, ó tu, gèração daquele insano
Cujo pecado e desobediência
Não somente do Reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,

Mas inda doutro estado, mais que humano,
Da quieta e da simpres inocência,
Idade de ouro , tanto te privou,
Que na de ferro e de armas te deitou:

Já que nesta gostosa vaïdade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome "esforço e valentia",

Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la Quem a dá :

Não tens junto contigo o Ismaelita ,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a Lei maldita ,
Se tu pola de Cristo só pelejas?

Não tem cidades mil, terra infinita
Se terras e riquezas mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?

Deixas criar às portas o inimigo,
por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe!

Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a Fama te exalte e te lisonje
Chamando-te senhor, com larga cópia ,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!

Oh! Maldito o primeiro que, no mundo,
Nas ondas vela pôs em seco lenho !
Dino da eterna pena do Profundo ,
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!

Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória
Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras (grande engano!).

Quanto milhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos que a movera!

Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitector co filho , dando,
Um, nome ao mar , e o outro, fama ao rio .

Nenhum cometimento alto e nefando
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana gèração.
Mísera sorte! Estranha condição!"

Os Lusíadas (IV, 94-104)

* * *


(Mensagem)

 





 


PADRÃO

O esforço é grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada , é minha a parte feita
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas , que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar. 

(Fernando Pessoa)

Roque Gameiro, Diogo Cão (aguarela)

DIOGO CÃO E AS "DESCOBERTAS"

Foi assim que tudo começou...


Cavaleiro de D. João II,  Diogo Cão foi por este mandado continuar a tarefa iniciada por Fernão Gomes, com a exploração da costa sul da região da Mina, ou seja, avançar ao longo da costa ocidental africana para sul. Em África, por esta altura, já a bandeira portuguesa tremulava, orgulhosa, nas fortalezas de Ceuta, Alcácer, Arzila e Tânger; Azamor rendia-se; e Diogo de Azambuja, acabava de fundar o Castelo de S. Jorge da Mina. As descobertas dos Portugueses, porém, só tinham chegado até ao Cabo de Santa Catarina, a 1º 52’ de latitude austral, visitada, em 1471, pelo navegador Rui de Sequeira.


Assim,  Diogo Cão vai comandar duas expedições entre 1482 e 1486, e dar início ao descobrimento humano e a uma vasta comunidade de cultura, sobre que iam assentar os fundamentos da província portuguesa de Angola.


A primeira viagem, em 1482, partiu de Lisboa com duas caravelas, acompanhando-o o notável cosmógrafo Martim Beheim, introdutor do uso do astrolábio na navegação e autor do afamado Globo de Nuremberg.  
 

Depois de ter chegado à foz do rio Zaire, avançou 150 km para o interior, chegando até às cataratas de Ielála, onde deixou marcada a sua presença através de uma inscrição na célebre pedra. Utilizou também os padrões de pedra (com inscrições em latim, português e árabe), que colocou nalguns pontos da costa. Foram feitos os primeiros contactos com o reino do Congo. 

Pensando ter chegado ao extremo sul de África, Diogo Cão comunicou a D. João II, que satisfeito lhe retribuiu com o direito a brasão, honras e privilégios de nobre e fidalgo a si e a todos os seus descendentes legítimos, bem como uma tença anual. 

D. João II desejoso de apertar relações com o rei do Congo, Nzinga-a-Kuvu, de fazer regressar os indígenas de lá trazidos, de recolher os emissários e de prosseguir na descoberta do caminho marítimo para a Índia, enviou  Diogo Cão no segundo semestre de 1485, numa segunda viagem, com duas caravelas.

Para o rei do Congo, Nzinga-a-Kuvu, enviou ricas prendas ofertas de amizade, e recomendou renegar aos ídolos, feitiçarias e abraçar a religião cristã. Continuava a prática, iniciada em tempo do Infante D. Henrique, da formação dos intérpretes, que permitiam um contacto mais íntimo entre descobridores e os aborígenes.
 

Segundo informações (Barros), Diogo Cão no regresso foi visitar o rei do Congo à sua corte, tanto este historiador, como os cronistas Rui de Pina e Garcia de Resende contam o facto, dando-lhe grande e merecido relevo: informa o último que o rei do Congo recebeu com o maior alvoroço a embaixada portuguesa e os quatro congoleses que regressavam de Portugal, e em troca mandou a el-rei por embaixador Caçuta [...], homem muito principal e a ele mui aceite, que depois de ser cristão, houve nome D. João da Silva [...], o qual trouxe a el-rei [D. João II] um presente de muitos dentes de elefantes e coisas de marfim lavradas, muitos panos de palma bem tecidos e com finas cores. Fiado no cumprimento da primeira promessa do capitão português, que devolvera à terra natal os quatro congoleses, agora bem vestidos e contando maravilhas sobre o tratamento recebido e o novo mundo de cultura entrevisto em Portugal, o rei do Congo (conta Resende), mandou pedir a D. João II que lhe mandasse logo frades e clérigos e todas as coisas necessárias para ele e os de seus reinos receberem a água do baptismo; [...] pedreiros e carpinteiros [...] e também lavradores para lhe amansarem bois e lhe ensinarem a aproveitar a terra e assim algumas mulheres para ensinarem as de seu reino a amassar o pão, porque levaria muito contentamento por amor dele que as coisas de seu reino se parecessem com as de Portugal . O rei indígena enviou também alguns moços do seu reino para que em Portugal aprendessem a língua, os costumes e a religião dos portugueses.» In Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses - III, [Lisboa], I.N.C.M., imp. 1990, pp. 590-5

Nesta segunda viagem, entre 1485 e 1486, Diogo Cão avançou cerca de 1500km para sul, tendo chegado ao Cabo Negro. De acordo com a posição tradicional, Diogo Cão, depois desta segunda viagem, teria caído em desgraça junto de D. João II, explicando-se assim a ausência de mais notícias sobre ele. No entanto, um autor, A. Fontoura da Costa, aponta que o silêncio que se seguiu ao seu regresso ao reino se deveu à morte física. 

Quanto ao número de viagens efectuadas por Diogo Cão, tem sido polémico o estabelecimento definitivo do seu número verdadeiro, pois enquanto uns defendem ter ele realizado apenas uma só viagem, outros  defendem terem sido duas as viagens. A investigadora Carmen Radulet, por ex., defende ter Diogo Cão realizado, em vez de duas viagens, três viagens.
  
Segundo A. Mata: “Diogo Cão colocou ao longo do litoral angolano 3 (três) padrões e 1 (um) no actual Cape Cross - Namíbia (antigo Sudoeste Africano)”. ( I )“O padrão conhecido de S. Jorge foi erigido junto à foz da margem esquerda do Rio Zaire ou Congo, num local conhecido por Moita Seca, latitude 6º 2' 60" Sul”. ( II ) “O Padrão de Stº Agostinho foi erigido no Cabo do Lobo, depois chamado de Cabo de Stª Maria a sul de Benguela, à Lat. 13º 25' sul”. ( III ) “O Padrão do Cabo Negro, erigido a norte da Baía de Porto Alexandre, actual Tombua à latitude de 15º 42' Sul”. ( IV) “E por último o Padrão do Cabo da ( Serra ) erigido no actual Cape Cross - Namíbia, à latitude de 21º 47' sul”. “Deste modo, os dois primeiros erigidos na 1ª viagem ( 1482-1484) Os dois últimos erigidos na 2ª viagem ( 1485-86-87)”.
 

Quanto ao modelo e ao material dos padrões, os antigos mareantes erguiam cruzes de madeira nos lugares que descobriram, e entalhavam nos troncos das árvores a divisa do Infante Talent de bien faire. Estes sinais, porém, além de frágeis, não simbolizavam  um direito nacional. Os padrões de Diogo Cão,  construídos em pedra e comportando inscrições, eram já um monumento duradouro e expressivo.



 O primitivo padrão do Cabo Negro tal como se encontrava quando em 1892 foi entregue à Sociedade de Geografia


Especificando, o Padrão do Cabo Negro foi colocado em 18 de Janeiro de 1486, por Diogo Cão e os nautas, após terem encontrado o referido cabo, a 15º 42´ lat. sul, sendo a cerimónia seguida de celebração de missa.  A seguir entraram na Angra das Duas Aldeias (Porto Alexandre, actual Tombua), a que foi posto este nome por nela os nautas terem achado duas grandes aldeias de negros, gente pobre que se mantinha de pescarias, única riqueza da terra, “ nesta terra nam há proueyto “ . Ou seja, nesta terra não há proveito.
 Segundo o Esmeraldo Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira:

" ....oito léguas adiante do monte negro se faz uma grande angra que entra uma légua e meia pela terra dentro que se chama angra das aldeias e este nome puseram no tempo que Dieguo Caão descobriu esta costa por mandado del Rei Dom João que Deus tem, achou dentro neste angra duas grandes aldeias e por isso lhe pôs o dito nome; os negros desta terra são gente pobre que se nom mantem nem uiuem senom de pescaria que aqui há muita, fazem cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar, lançando-lhes por cima areia e ali passam sua triste uida, são idolatras e nesta terra não há proveito. Do monte negro até aqui se corre a costa nordeste e sudeste e tem as ditas oito léguas na Rota e toda esta terra ao longo do mar é baixa...."

A"Angra das Aldeias”, foi pois o nome primitivo de Porto Alexandre. Foi de lá que a guarnição levou indígenas para Lisboa, repatriados na expedição de Bartolomeu Dias na sua viagem de descoberta do Cabo da Boa Esperança. A velha denominação foi sendo esquecida, e João Pilarte da Silva, quando visitou o local em 1770, já lhe chamava apenas a “praia das Macorecas”. E António José da Costa, passando ali alguns anos mais tarde, nem sequer lhe faz referência. O Cabo Negro foi sempre um ponto de referência a assinalar uma etapa na navegação para o Oriente. Desde a sua descoberta por Diogo Cão e os nautas, em Janeiro de 1486, nunca mais a navegação deixou de o procurar. É esse o nome que figura, assinalando o local, nas cartas de Cantino 1502, Cesário 1502, Pedro Reinel 1520.  

No século XVIII e primeira metade do XIX, já se dá o nome vago de “ praias ao Sul do Cabo Negro”. Acresce que a importância que começa a ganhar o Pinda, faz transferir para este local as atenções que a Porto Alexandre seriam mais tarde devidas. Foi quando o capitão da marinha inglesa, James Edward Alexander, em 1864, visitou a costa ocidental de África, e assinalou a antiga “Angra das Aldeias” nas cartas do Almirantado, deu-lhe o seu próprio nome.
E "Porto Alexandre" foi a denominação que ficou na tradição oral e na toponímia oficial.


O Padrão original do Cabo Negro com o rodar do tempo e a erosão natural, encontra-se já em mau estado de conservação e foi retirado ficou a dever-se também à mutilação que sofreu da parte de vândalos. Foi o  governador geral Guilherme Augusto de Brito Capelo que ordenou, em 1891, a substituição  e recolha do padrão original ao Museu Colonial, criado vinte anos antes e mandado entregar em 1892 à Sociedade de Geografia, pelo ministro Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, em cujo átrio se encontra metido, com os dois fragmentos ajustados, numa forte tripeça de ferro bronzeado, que o mantém em posição vertical. Consta duma coluna cilíndrica de mármore sem pedestal, com cerca de  2 metros e meio de alto e 8 decímetros de circunferência, e de um paralelepípedo com 46 centímetros de altura, em que termina superiormente; as inscrições que se presupõe  idênticas ao padrão do cabo da Cruz, Cape Cross,  tornaram-se  indecifráveis. Os vestígios da inscrição encontram-se no fuste e no capitel. A feição geral e o corpo superior do padrão aproximam-se ao padrão do cabo da Serra/Cruz (Cape Cross). Numa das duas faces mais largas estava gravado o brasão nacional, do qual ainda se distingue um traço da coroa; a outra, em que devia ler-se a inscrição, apresenta uma pedra lascada em toda a altura, a ponto de deixar a descoberto o embutido da cruz, que não existe, mas que seria idêntica à existente do Padrão do Cabo da Serra/Cruz, "Cape Cross". As outras duas faces carecem de inscrições. A coluna encontra-se partida a pouca distância do paralelepípedo.
E assim se procedeu, em 29 de Janeiro de 1892, com as formalidades de uso em tais actos, à deslocação do padrão de Cabo Negro e à colocação no mesmo lugar, de uma  réplica  que ficou a substituir o primitivo. Assistiram à cerimónia o então governador do distrito, Luís Bernardino Leitão Xavier, autoridades locais e representantes das colónias piscatórias de Porto Alexandre e da Baia dos Tigres. Assistiram à cerimónia o então governador do distrito, Luís Bernardino Leitão Xavier, autoridades locais e representantes das colónias piscatórias de Porto Alexandre e da Baia dos Tigres.
 

O Padrão do Cabo Negro que foi substituir o primitivo
 
 O Padrão e o Cabo Negro
 
 
 Sem atribuir qualquer significado político à foto que segue, tirada em finais da década de 1940 (pois todos os jovens estudantes, na altura, eram obrigados a pertencer à Mocidade Portuguesa) , fica aqui mais uma imagem do passado, um passado não muito distante, pois ainda me lembro de ver jovens estudantes da Mocidade Portuguesa  desfilarem fardados pelas ruas da cidade por ocasião de alguma visita  de entidades oficiais, nas comemoracoes do 28 de Maio, 1 de Dezembro e a chegada da imagem de Nossa Senhora de Fatima a Mocamedes,  no decurso de uma peregrinacao por terras de Africa.  Quer queiramos ou não, são factos que fazem parte da  nossa História e da História da nossa cidade, e , como tal,  têm que ser vistas e apreciadas em contexto. Foto encontrada no espólio de minha sogra, após 30 anos passados sobre a data da independência de Angola .
 
 
Visita de estudo ao Padrão do Cano Negro pelos alunos e professores da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em finais da década de 1940
 
 
 
Com a independência de Angola de 1975, adoptou-se o nome de "Tombwa", nome pelo qual os nativos designam a "Welwitschia Mirabilis", e este Padrão  acabou danificado nos momentos que se seguiram, lamentavelmente porque os que o vandalizaram não tinham a noção do seu elevado valor em termos históricos.
 
 
 
MNJardim

sábado, 29 de outubro de 2016

Maria da Purificação Vasa Marreiros, degredada para Moçâmedes, Angola, por assassinato



 Foto de Marian Jardim.

A deportação  e o degredo foram nos séculos XIX e XX uma poderosa arma ao serviço dos regimes políticos em todo o mundo, e foi evidente a sua utilização quer como meio de cumprir pena para criminosos de delitos graves, assassinos, etc., quer para emigração forçada, e para impedir a acção dos opositores político não gratos ao regime.  O próprio Batalhão de Caçadores 3, que 1º estacionou na Fortaleza de Moçâmedes, era, na sua quase totalidade, constituído por criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. A maioria dos degredados acabavam por se fixar, internando-se no território, porém  de muitos se perdeu o rasto. Outros chegaram a ser úteis à administração.

Esta mulher, Maria da Purificação Vasa Marreiros, de 47 anos, está registada no livro de matriculas dos degredados em Moçâmedes, para onde foi cumprir pena por cumplicidade em homicídio, por 15 anos. porque matou o marido, José Joaquim Almeida Marreiros, de 69 anos, no último dia de junho de 1881 em Casal da Areia, na Freguesia de Salir de Matos, no território metropolitano.

 Os 15 anos de degredo, a seguir à pena perpétua, eram o máximo de tempo que um condenado teria de passar em África.

 A pena para Maria da Purificação Vasa de inicio foi de três anos de prisão celular ou seis de degredo, a mínima para um caso de cumplicidade em homicídio O problema viria mais tarde, fruto de terem resolvido recorrer da sentença.

"... Maria da Purificação, se fizesse como os seus primos, usaria os apelidos “de Vasa César de Faro e Vasconcelos", como o pai. Na sua certidão de nascimento, estão registados os avós paternos: José da Vasa César e Vasconcelos, e dona Maria Eulália da Rocha Castro e Meneses. São, contudo, nomes de uma família de fidalgos da casa real que não surgem no extenso trabalho do genealogista Manuel Arnao Metello, “Os Vasas em Portugal - Família do Oeste de origem talvez sueca”, publicado na revista “Raizes & Memórias.


"....A professora universitária brasileira Selma Pantoja encontrou a ficha de a viúva de Almeida Marreiros no livro de matriculas dos degredados, quando faziam investigações nos anos de 1990 final do século XX. “Entre as 358 degredadas para Angola, entre 1865 a 1898, só Maria da Purificação Vasa Marreiros está registada com o título de Dona, com nome do pai, 47 anos, condenada por cumplicidade em homicídio, degredada por 15 anos para Mossâmedes”, escreveu em “A diáspora feminina: degredadas para Angola no século XIX (1865-1898)”.

 



sábado, 15 de outubro de 2016

A ESCOLA DE PESCA E COMÉRCIO DE MOÇÂMEDES


 Nas traseiras da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, o corpo docente, alunos, pessoal colaborador e pároco. Foto tirada em 1949


Estudantes e professores da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, no decurso de uma visita de estudo ao "Padrão do Cabo Negro". 1946?


Estudantes à entrada da Escola Prática de Pesca 
e Comércio de Moçâmedes. 1948


 À direita o edifício térreo onde funcionou a Escola Prática de Pesca
e Comércio de Moçâmedes
em foto de 2007




MEMÓRIAS COM HISTÓRIA


E no princípio era o verbo, só o verbo…, e escolas não havia. Não havia na Lucira, nem na Vissonga; não havia escolas no Baba, nem na Mariquita; não havia no Mucuio, nem na Baía das Pipas. Nem sequer havia escolas na Praia Amélia ou no Saco do Giraul.

Mas havia três escolas primárias em Moçâmedes, o que eram muitas na percepção dos mucubais, para os quais, práticos como eram, só havia o um, dois e … muitos. Havia, pois, em Moçâmedes a Escola nº. 49; a Escola Portugal nº. 55, de Fernando Leal, mesmo ali ao lado, com um baldio de cerca de 100 metros a separá-las e um equidistante chafariz, em redor do qual existiam umas bonitas e frondosas árvores de castanhas do Pará. Havia, por último, a Escola Primária nº. 56, de Pinheiro Furtado, situada no Bairro Feio da Torre Tombo, construída sobre pilares à guisa de palafitas em terra seca e sob a qual a miudagem se aliviava das suas necessidades mais básicas, que as carochas e os rebola-caca acabavam por tratar delas.

A Escola nº. 49 era, no entanto, a mais pequena e humilde das três, com apenas duas salas de aulas. E tinha mesmo à sua frente, a não mais de 40 metros, a cadeia civil, ali construída não inocentemente mas sim para mostrar às inocentes criancinhas que o paraíso na terra não existe e que a vida e o futuro não eram coisas fáceis. Para o resto, estava lá o professor Canedo, de triste memória, sem paciência alguma para aturar miúdos e que se passava de tal modo que chegava ao cúmulo de atirar os tinteiros e as próprias réguas de cinco olhos contra os alunos, alguns dos quais acabaram por ser levados para o hospital. Mas não era só ele; também por lá andava a professora Berta, grande e macrocéfala, má e azeda, que debitava galhetas a torto e direito nas aulas em que as crianças tinham que cantar a tabuada a ritmo certo, mas que desgraçadamente havia muitas delas que só sabiam a música e nunca se lembravam das letras. E ademais, quem é que se atrevia, naquele tempo, a ir para casa fazer queixinhas aos pais? Era pior a emenda do que o soneto, pois acabava por levar dos dois lados; do professor, na escola; e dos pais, em casa.

Houve, entretanto, por volta de 1925, um pequeno salto qualitativo com a criação da Escola Primária Superior “Barão de Moçâmedes”, título pomposo e pretensioso, uma vez que o curso ministrado não ia além de três anos lectivos após a 4ª. classe, o que configurava já uma caricata projecção virtual daquilo que viria a ser, muitíssimos anos mais tarde, o malfadado Tratado de Bolonha. O seu programa curricular, ambicioso na sua matriz, era, contudo, anacrónico e desfasado do mundo real. Daí a não ter passado de um triste epifenómeno, sem ter conseguido criar nem raiz, nem tronco; nem folhas, nem flor. E acabou tristemente por se finar sem ter dado fruto algum.
As personalidades mais esclarecidas e empenhadas de Moçâmedes nada podiam contra este estado de coisas. O Poder estava centralizado em Lisboa, e a implantação da república com as subsequentes guerrilhas partidárias e interesses pessoais conduziram as possessões ultramarinas a um estado de estagnação miserável.

Contudo, no decurso de 1937, com o Estado Novo já consolidado, viria a ser criada a “Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes”, implementando um curso com a duração de 5 anos, o que acrescentados os 4 anos da primária lhe conferia uma escolaridade total de 9 anos. Conforme o seu próprio nome indicava, era uma escola criada com a finalidade de habilitar os seus estudantes com os conhecimentos tidos como suficientes no quadro das actividades ligadas ao comércio, à indústria piscatoria e à função pública. Faziam, no entanto, parte do seu programa curricular, disciplinas tão díspares como: “Salga e Seca” , sobre a qual os miúdos de 13 ou 14 anos aprenderiam muito mais em 2 dias passados numa pescaria da Torre do Tombo ou do Canjeque, do que durante todo o curso; com a “Construção Naval” pretendia-se que os alunos aprendessem a fazer projectos, com base em desenhos cotados e escala, de canoas, baleeiras e até de traineiras; da “Estenografia”, não me lembro de nenhum aluno se ter servido dela, em termos práticos. No entanto, a disciplina tinha o seu lado positivo na disputa de quem conseguia escrever mais palavras por minuto. Se bem me lembro, a vencedora era sempre a Fátima Latinhas, que parecia uma autêntica metralhadora a debitar caracteres. De resto, na vida prática acabou por não ter prática nenhuma; No que toca à “Construção Naval”, que eu saiba, só a Maria Emília Ramos, que morava no Bairro Feio, da Torre do Tombo , se afirmou como projectora de barcos, e com nível muito elevado. Quanto à “Salga e Seca”, até a avó Catarina, que até era analfabeta, sabia muito mais sobre peixe seco e meia-cura do que qualquer estudante que acabava o seu curso e arrumava a correr os seus livros de estudo.

Mas havia, obviamente, umas quantas disciplinas adequadas e bem enquadradas com relação à época, embora no seu todo acabassem por ser à volta de 12 cadeiras, só no último ano.
Mas o curso da Escola de Pesca sofria de três males, qual deles o pior, que levavam a grande maioria a não concluir os seus estudos. O primeiro, desde logo, prendia-se com a indisciplina reinante de alguns alunos mais matulões, verdadeiros “mavericks” que praticavam o booling a torto e a direito contra os mais novinhos, de entre os quais avultavam: o Tó Coribeca, o Mário Bagarrão, o Helder Cabordé, o Romualdo Parreira, o Caparula, o Turra, o Quito Costa Santos, o Adriano Parreira, e mais um ou outro que agora não me ocorre. Era uma autêntica quadrilha sempre pronta a dar porrada aos mais miúdos. Nem o dr. Borges, director da Escola, que tinha fama de grande disciplinador, conseguiu dar-lhes a volta. E nenhum deles, obviamente, concluiu o curso. Mas o padre Galhano, santo homem, fazia verdadeiros milagres. E conseguiu trazer à superfície a bondade que existia dentro daquelas almas. O segundo mal tinha a ver com o facto de, no 5º. ano, isto é, no último ano do curso, os alunos serem obrigados a fazer exames de 12 cadeiras, o que era manifestamente um exagero. E com a agravante de só poderem reprovar numa única disciplina, sob pena de terem de repetir todas elas no ano lectivo seguinte. Finalmente, havia a questão do perfil e das mentalidades dos professores, alguns dos quais se compraziam em humilhar e reprovar os alunos com requintes de malvadez.

Ainda recordo, com profunda mágoa, uma cena que assisti num exame de geografia, cujo professor era um tal dr. Lameirão, do Porto, que devia pesar à volta dos 120 kgs, e tinha uma cara de poucos amigos que não enganava ninguém:
Foi num ano em que, por imperativos das suas carreiras profissionais, apareceram a exame, em regime de autopropositura, adultos já casados que tentavam por essa via terminar um curso que em devido tempo e por razões várias não o tinham conseguido. Um deles, natural de Moçâmedes, casado e pai de filhos, tinha vindo do Huambo com esse propósito, e encontrava-se agora ali no meio da garotada, a aguardar a chamada. Ao iniciar o exame, o dr. Lameirão, sem bom dia, nem boa tarde, pergunta-lhe secamente:
- Diga-me lá onde fica o rio Amarelo?
- O rio Amarelo…, não sei, sr. dr.
- Então, e onde fica o rio Vístula?
- O rio Vístula, sr. dr…? Não me lembro..
O dr. Lameirão, vermelhudo, passa-se, e começa aos berros: - Então, você, vai à minha casa, à noite, meter cunhas, e nem sequer sabe onde fica o rio Amarelo, nem o rio Vístula!? Está à espera que lhe pergunte onde fica o rio Bero ou o rio Curoca? Pode sentar-se.
Sr. Albertino Gomes – chama o dr Lameirão pelo seguinte adulto, também já casado e pai de filhos.
Albertino Gomes levanta-se e diz em tom forte e bem silabado: - DESISTO.
E a miudagem desatou toda em altas gargalhadas.
E contra isto nada havia a fazer!


ass. Arménio Aires Jardim (Outubro de 1916)

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Cine Teatro Garrett em Moçâmedes


Vista aérea de Moçâmedes na década de 1930


Sem ter conseguido uma foto para aqui expôr, não deixarei contudo de fazer neste blogue uma referência à primitiva sala de espectáculos de Moçâmedes que foi o Cine Teatro Garrett, situado na Rua Calheiros, da qual era proprietário Raúl de Sousa, onde até meados dos anos 1940 os moçamedenses viram correr os seus primeiros filmes, grande parte dos quais ainda em cinema mudo, e assistiram às primeiras peças de teatro e de revista.


Sobre esta casa de espectáculos, dizem os que a frequentaram que o interior era todo forrado a madeira trabalhada, possuía frisas, camarotes, plateia e cortinados de veludo vermelho vermelho, um requinte interior que, salvo as devidas proporções, fazia lembrar o Teatro S. Luiz de Lisboa. Acabou demolido para dar lugar à sede do Atlético Clube de Moçâmedes, numa altura em grande parte da madeira trabalhada que forrava o seu interior, já se encontrava corroída e incapaz para ser aproveitada, tendo a cidade ficado temporariamente sem sala de espectáculos, até que surgisse o Cine Teatro de Moçâmedes. Foi no pequeno palco do edifício-sede do Ferrovia, clube recreativo e beneficiente, sito na Rua Serpa Pinto, que nesse interim, decorriam sem grandes condições de acomodamento sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, as sessões cinematográficas e peças de teatro,  sem nunca atingir o grande público que tinha entranhada a ideia que somente os sócios do Ferrovia poderiam frequentar aquele espaço.

Dizem os antigos que na bela sala de espectáculos do Cine Teatro Garret foram levadas à cena peças de Teatro e de Revista por Companhias metropolitanas que nas suas digressões por Angola e Moçambique se faziam acompanhar, inclusive, pelas respectivas orquestras. 


As imagens abaixo mostram-nos dois recortes de jornal e um folheto publicitando a peça de teatro «O Cão e o Gato», um acto de variedades com a "Orquestra Zíngara de Lisboa", e outro sob o título "Tirolilo", peça que deixou no ar uma cantiguinha que chegou aos meus tempos de criança, e cuja letra era mais ou menos assim:


"...Cá em cima está o tiro-liro
Lá embaixo está o tiro-liro-ló
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
E a dançar o sol e dó...

Comadre, minha comadre,
gosto muito da sua afilhada,
É bonita, apresenta-se bem e
parece que tem,
a face rosada...


etc..
A revista "Coração ao Largo" promovida pelo Atlético Clube de Moçâmedes, foi um êxito de bilheteira.
Programa da Revista "Coração ao Largo"



Mas ao palco do Cine Teatro Garrett também subiram artistas da nossa terra, crianças, jovens e adultos. Foi ali que Zélia Pimentel Teixeira, ensaiou e levou à cena, nos anos 1940, integrando a Revista "Coração ao Largo", o seu grupo de ballet constituído por dezenas de garotas e jovens de Moçâmedes, que incluía, entre outros bailados, o "Bailado das Horas". Era desempenhado por 24 bailarinas de diferentes idades, que dançaram magistralmente, e que eram distribuídas por 4 grupos, consoante as idades, representando as mais novinhas, as madrugadas, as da idade seguinte, as manhãs, as mais cresciditas, as tardes, e as mais velhas, as noites. O acompanhamento ao piano teve a cargo da gentil colaboração de Eduarda Torres. Faziam parte desta Revista os seguintes quadros: 1. Mossâmedes à vista 2. No Quisque do Faustino 3. Coisas e Losas 4. Beija-me muito 5. Cenas de Rua. Era uma Revista em 2 actos e 5 quadros, um original de A. Portela Junior. Eram "compéres", ou seja, aqueles que sem abandonarem o palco, permanentemente conduziam a apresentação das cenas, Zé topa tudo-Norberto Gouveia (Patalim) e Manuel Chibia - António Martins ( António Latinhas). O espectáculo foi promovido pelo Atlético de Mossâmedes. Foi levada á cena vezes sucessivas e sempre com bilheteira esgotadas. O preço da entrada eram variados conforme se tratava de camarotes, frisas, plateia e geral (desde 102,50 a 5,50).

De entre os participantes da Revista "Coração ao Largo" que foi aplaudida de pé e esgotou sucessivas bilheteiras, deixamos os nomes das irmãs Rosa e Madalena Bento, Mercedes e Ivete Campos, Salette e Lurdes Leitão, Lurdes, Noelma e Zilda Sousa Velli, Lizete e Branca Gouveia, Edith e Odete Serra, Nide e Lurdes Ilha, e também de Aida de Jesus, Octávia de Matos, Maria Adelina, Alexandrina Ascenso, Odete Serra, Odília de Jeses, Aline Gomes, Ana Liberato, Armando de Campos, Augusto Costa, Carlos Ervedosa, Hugo Maia, Joaquim Lemis Loução, José Manuel R. Santos, José Pestana, Mário Rocha, Rui Meneses, Henrique Meneses, Wilson Pessoa, Norberto Gouveia (Patalim), Artur Caléres. A parte musical esteve a cargo de Maria de La Salette Leitão e de Ivete Campos (piano), e ainda de A. Portela Junior (violino), Anselmo de Sousa (trompete) e Firmo Bonvalot (jazz).

Muito ovacionada foi a canção "Besa-me, besa-me mucho", interpretada em dueto constituido por Rosa Bento e Armando Campos (Rosa Bento era então conhecida como a "voz de ouro do deserto"), e a exibição dos bailarinos Lizette Gouveia e Rui Menezes (valsa), à época namorados, ela de vestido comprido, ele de casaca preta, e a interpretação de Armando Campos que, representando a figura de Leão da Encarnação, um residente da cidade dedicado ao agiotismo, cantou uma canção que rezava mais ou menos assim: " Sou o Leão da Encarnação, o dono de uma Pensão... rataplão... rataplão..." No Cine Garrett cantaram também, entre outros, Augusto Gavino, e, em tempos mais recuados, subiram à cena peças como a "Gioconda".

Naquele tempo em que as ruas da cidade sequer eram asfaltadas e convenientemente iluminadas e as pessoas andavam a pé, sendo escassas as lojas de moda, conta-se que as nossas e os nossos elegantes quando assistiam a espectáculos no Cinema Garrett exibiam elegantes tailleurs bordados a fita e lantejoulas, casacos de peles, luvas, chapéu, etc, elas, e eles modernos fatos, com colete, gravata e chapéu de marca, indumentárias mandadas vir dos Armazéns "Printemps" de Paris, através de uma loja de Moçâmedes denominada "Armazéns Primavera", situada no rés-do-chão do edifício centenário que foi residência dos Mendonça Torres, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 de Agosto, mais tarde Hotel Gouveia.


De início eram os Cine-Teatros, porquê? 


O surgimento do Cinema acompanhou as mudanças ocorridas com a industrialização do final do século XIX, e foi a resposta da época no campo da manifestação artística. Enquanto forma de expressão, o Cinema vai buscar ao teatro as primeiras tentativas de uma estética própria, que o levaria a procurar, também, um lugar apropriado para a exibição dos filmes. Apresentado inicialmente como uma curiosidade para o público frequentador dos music-halls, dos cafés-concertos e dos pequenos teatros, aos poucos o Cinema vai criando salas próprias para um público próprio, numa trajetória evolutiva que passa pelo período efervescente da belle époque até o período áureo, marcado pela conquista arquitetónica definitiva, com a associação ao movimento arquitetónico e artístico do Art déco, surgido nos loucos anos 20, em Paris, reconhecido hoje em dia como um primeiro passo rumo à modernidade.

Ficam recordações de momentos momentos passados num outro tempo naquela que sendo então Moçâmedes, é hoje a cidade do Namibe.

(ass) MariaNJardim
20.06.2008



Nota: Este texto insere-se na série de textos aqui publicados, que visam fornecer um retrato, o mais vivo e real possível, daquilo que foram as vivências e as convivências em Mossâmedes/Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, em Angola, no decurso da época colonial. São textos baseados em memórias de vivos, experiências vividas, que nos mostram como a cidade foi evoluindo ganhando terreno ao deserto, e permitem desvendar modos de ser e de estar, atitudes perante o quotidiano, aos quais se juntam também referências retiradas à História, na medida em que a luz do passado ilumina o presente ajudando-nos a interpretá-lo e a compreendê-lo. Encontra-se protegido por direitos de autor, pelo que só pode ser reproduzido por outrem desde que seja mencionada a fonte de onde provêm. As fotos aqui colocadas não poderão ser reproduzidas para fins comerciais.



 



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O regime de trabalho do contratado indígena em Angola no tempo colonial







No sistema colonial português, até 1961, os “indígenas” não eram considerados cidadãos plenos, e era entre estes estratos da população negra, geralmente vindos do interior para trabalhar onde fossem considerados necessários, que se encontravam os "contratados", que eram angariados junto dos "sobas" nas suas terras, por intercepção de um curador, com responsabilidades em todos os trâmites do contrato, e cujo "contrato" ocorria muitas vezes contra vontade, sendo em seguida transportados para as pescarias do litoral, para as fazendas do café, para as roças do litoral, e, principalmente até 1953, para S.Tomé.

Pela necessidade que as actividade económicas tinham de braços de trabalho era comum os colonos em Angola solicitarem aos administrativos para lhes arranjarem pessoal.

Durante o contrato os contratados recebiam alimentação, roupas, e um salário, em muitos casos sob abusos e extorsões que deixaram sequelas difíceis de sarar, acontecendo que os que iam para S.Tomé, raramente regressavam. E de nada servia denunciar este regime injusto pois até Henrique Galvão, enquanto deputado por Angola, fartou-se de o fazer sem nunca ter sido atendido, antes pelo contrário, acabou por ser preso.
 

Era um hábito que persistia desde os primórdios e que nunca sofreu alteração, excepto no curto governos de Norton de Matos (1912/1914 e 1920/1923), que foi demitido, por duas vezes, devido à sua extrema repugnância pelo trabalho compelido. 

Também o Governador Geral Freitas Morna em 1941 chamou a atenção para os abusos e tentou mesmo um sistema inovador para suprir as necessidades das fazendas e das pescarias através da fixação de trabalhadores permanentes, vivendo com a família em boas casas e com ensino para os filhos. Só governou 10 meses . Aos administrativos era imposta uma prática que persistiu até 1961. Eram célebres os “contingentes” confidencialmente solicitados.


Adriano Moreira referiu  a existência de um «...condicionamento de mão de obra indígena consagrado pela doutrina universitária racista marcelista sobre o papel do indígena na economia, o trabalho compelido, as culturas obrigatórias, o estatuto de concessionários refreavam ou anulavam a iniciativa competitiva. Havia também impedimentos legais à livre circulação dos portugueses entre as colónias, o que matava, na fonte, o aparecimento de uma classe empresarial».
 
Também os indígenas tinham que ter autorização do administrador do concelho para viajar para fora da sua área de residência, ainda que fosse na realidade muito difícil esse controle. 

Este regime começou a chegar ao fim começou com o governo de Venâncio Deslandes, em 1961, e foi erradicado com Silvério Marques de 1963 a 1966, ante a fúria de alguns colonos e daqueles  que com ele beneficiavam. Está-se mesmo a ver, em primeiro lugar as grandes Companhias que mais beneficiavam com o sistema, e funcionavam como um Estado dentro doutro Estado. 

Até 1961 não havia, pois, de um regime de contrato em condições laborais honestas que assegurasse o trabalho a pessoas que dele necessitassem e dignificasse tanto o trabalhador como o empregador, como aliás acontece em todo o mundo hoje em dia, ainda que se verifiquem abusos e violências que pareciam existirem apenas em África.

Desde 1961 e até 1974 foi praticado em Angola um regime laboral moderno, mas já era tarde. Sequelas profundas relacionadas com as injustiças praticadas no passado mais longínquo ou mais recente sobrepuseram-se aos esforços efectuados que levaram a ascensões sociais entre os africanos que mesmo assim não esqueceram  as injustiças como as dos contratos e as discriminações sociais.  13 anos de recuperação do tempo perdido não foi suficiente, teriam que decorrer bastantes mais para que seguindo o trajecto a partir de 1961, as injustiças se esbatessem. Esta situação teve grande influência no abandono em massa dos colonos em 1975. Se a maioria era gente pacifica que estava ali para trabalhar e até ajudou a melhorar a condição da vida os africanos, muitos havia que tinham colaborado com as injustiças. O regime de ditadura, com a PIDE à cabeça teve grande influência no silenciamento das maiorias.



segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O Bairro da Torre do Tombo, em Moçâmedes, Angola



Foto inédita da Torre do Tombo em outras eras... 
A zona mais ao fundo, de costas para o deserto, era conhecida por "Bairro Feio" . A zona mais próxima era cheia de depressões no terreno que duraram até 1975. sem terraplenagem. A Torre do Tombo foi no tempo colonial , até pelo menos aos anos 1940, um bairro bastante dinâmico, cujos habitantes na sua maioria oriundos do Algarve, sobretudo de Olhão, ali começaram a se estabelecer desde 1861, para se dedicarem à industria pesqueira, quer como pescadores, quer como industriais. Foi sempre um bairro descurado pela autoridade competente, sendo no entanto aquele que mais contribuiu, para a economia da cidade de Moçâmedes e até do distrito.

O Dr. Luíz Wittnich Carrisso e o Deserto do Namibe, Moçâmedes, Angola

Foto de Marian Jardim. 
 Recepção em Moçâmedes à chegada ali, no ano de 1937, do  Dr. Luíz Wittnich Carrisso. Podemos ver, à esquerda, duas caras conhecidas da terra, Armando Guedes da Silva e António Guedes da Silva, tendo à sua direita, de chapéu de abas largas, fato cinza, camisa branca e laçinho, o ilustre Dr Carriço



Esta foto mostra-nos a recepção efectuada em Moçâmedes, à chegada ali, do Dr. Luíz Wittnich Carrisso (1886-1937), o ilustre botânico.que foi professor catedrático da Universidade de Coimbra, e que no Deserto do Namibe, ao qual fez várias incursões, estudou a flora tropical, tendo contribuido em muito para a larga colecção de plantas africanas do Herbário de Coimbra, quer pelas expedições que organizou a Angola durante as quais foi colhido grande quantidade de material, quer pelo legado de entusiasmo pela investigação das plantas dessas paragens. Foi autor de "Flores de África", "Agrostologia de Angola" e "O Problema Colonial perante a Nação".

Na terceira das suas expedições científicas, o Dr Carrisso faleceu repentinamente de síncope cardíaca aos 51 anos, a 14 de Junho de 1937 , em pleno deserto do Namibe. A expedição subia o morro e colhia plantas. Carrisso sentiu-se mal e regressou aos veículos, pelo seu pé, sem ajuda, já se sentindo melhor. À beira da tenda, um cajado numa mão, um molhe de plantas na outra, enquanto lhe preparavam a cama de campanha acabou por concordar que fosse chamado um médico a Moçâmedes Deitou-se, ajeitou-se na cama, faleceu!

Passarei a transcrever um texto interessante relacionado com a morte do Dr. Carriço, encontrado no blogue de Namibiano Ferreira:

"KANE-WIA, o mítico morro do Namibe
«No interior da província do Namibe, em Angola existe, próximo do Virei, um morro conhecido pelo nome de Kane-Wia, termo que, em idioma Tchierero (língua dos Mucubais) significa “quem o subir não volta” ou "quem sobe não volta". Contava-me o meu avô (João Craveiro de Tombwa) que nunca ninguém ousou subir este morro porque as histórias contadas pelos Mucubais referiam que quem subisse este acidente geográfico não mais regressaria. Portanto, O Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”. »

 Foto de Marian Jardim.
 Monumento alusivo ao botânico Dr Luiz Wittnich Carrisso, falecido no Deserto do Namibe



Algum tempo atrás, na estrada-picada, a cerca de meio caminho entre o Pico do Azevedo e o Virei, quem fosse com atenção encontrava junto à berma da estrada uma abandonada lage alusiva ao ali falecido botânico Dr Luiz Wittnich Carrisso, o professor catedrático que sucumbiu no seu posto, naquele sítio ermo, onde a curiosa Welwitschia não medra e as Suricatas vegetam a par de uma ou outra Tua pernalta e os arbustos, certamente por ele estudados, mais densos à volta daquela modesta laje , parecendo querer protegê-lo do sol ardente que ali se faz sentir. Qualquer pessoa de formação cristã que ali se apeie, sente a tristeza daquele quadro abandonado e, ao ler o epitáfio naquela laje gravado, nostalgicamente não deixará de ali fazer uma oração em homenagem a tão ilustre botânico.

MariaNJardim

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Bernardino Abreu e Castro e João Duarte de Almeida, dois apóstolos da abolição da escravatura






 



Uma das primeiras caracterizações da sociedade angolana do século XIX surge em 1857, pela pena de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, numa carta redigida em Mossâmedes, contendo a sua “Opinião” sobre a abolição do comércio de escravos, pedida pelo governador de então, José Rodrigues Coelho do Amaral, e que se publicou, entre outras, no número 611 do Boletim Official.
Bernardino divide os europeus em três classes: A de empregados publicos, a de homens que vem procurar fortuna, a de degredados. A primeira classe, que é a mais numerosa, bem sabido é que se compõe de pessoas, que não vem à Africa para tomar ares, mas para fazer seus interesses; pois que
o amor da pátria, e do seu augmento, e o de conseguir gloria, constitue hoje limitada excepção a esta regra. [. . . ] A segunda classe e dos que vem procurar fortuna e como esta se obtinha por meio do embarque de escravos, claro está ser a idea dominante até ha poucos annos: posso dizer, sem perigo de errar, que o numero dos que não são ainda hoje d’ella affectados não é o maior; e que os que se dirigem à cultura precisam luctar com quazi insuperaveis difficuldades, ter paciencia mais que ordinaria, e vontade de ferro para não desanimar logo no principio. [. . . ] . A terceira classe é a dos degredados, os quaes quazi todos são soldados, e não é a menos útil, pois não servem mal, e melhor o fariam, se não tivessem tanta demora nas prisões do reino, cuja escola lhes ensina o que muitas vezes ainda não sabiam, e os torna de má saude, e habitos ociosos

Sobre os indígenas, seus costumes e relações de poder, também dá um retrato pormenorizado, no qual salienta a falta de hábitos de trabalho, as tendências para a bebida, o desrespeito pela propriedade privada e o carácter bélico, acabando por concluir que a responsabilidade na manutenção, senão na decadência, destes costumes cabe aos portugueses: “Costumes, religião, e governo do gentio são quazi geralmente os mesmos da primitiva, só com a differença de que nada de bom lhe tem ensinado os europeos, antes communicado os nossos vicios”. 


In Júlio de Castro Lopo,Jornalismo de Angola – Subsídios para o seu Estudo, Luanda, Edição do Centro de Informação e Turismo de Angola, 1964.

Se fora de Luanda as populações autóctones se mantêm, salvo raras excepções, na situação descrita por Bernardino Feire, nesta cidadeassiste-se, na segunda metade do século XIX, a uma aproximação íntima entre o português e o “agregado africano, com o qual se cruzou e constituiu família, determinando uma sociedade em que o mestiço, [. . . ] gozou duma certa relevância". 



.


==========


.
Transcrevo algumas passagens do Livro intitulado  "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro",   do Padre  Vicente, José (Gil Duarte),  página 1959, sobre  a posição de  Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro   e de João Duarte d' Almeida  no que diz respeito à abolição do tráfico de escravos  para fora das possessões portuguesas africanas e  ao fim da escravatura dentro das mesmas possessõesque se fazia na  direcção do Brasil  e as Américas:



"...João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da escravatura. João Duarte de Almeida fez, sobre o assunto,  diversas exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de Lisboa,  o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15 de Abril de 1857 ao governador-geral da província,  José Rodrigues Coelho do Amaral, a pedido deste. Passarei pois a transcrever uma dessas exposições, tenso em conta que em relação a este assunto João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro tinham os mesmos ideais. A mesma exposição deve ser analisada não à luz dos nossos dias, mas à luz das mentalidadea da época em que estes dois homens viveram. Ei-la:

Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes: 

"... Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas;
2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Enquanto ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não dizer vergonhoso atraso.

Sem me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em um embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os cometessem,  se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades." Bernardino comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefutável, denunciando os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.

E continua:

" ...A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueles que têm caído no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois  que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.

Primeiro, tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.

Segundo, que o Governador da Província seja autorizado a despender alguns contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar parte às autoridades administrativas e policiais do local de qualquer embarque que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.

Estes espiões devem ter locais marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo, dar parte do que ocorrer entre Mossâmedes e a Lucira; outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha; entre esta e Novo Redondo; entre este e Benguela Velha; entre esta e o rio Longa; entre esta e a cidade de Loanda; entre esta e o Dande; entre este e o Ambriz; entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico para o exterior, se consegue o fim desejado."

Bernardino fez depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Diz que, neste capitulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele --acentua-- diz que é bárbaro e inhumano que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não goze do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão sujeita.

Considera o estado das possessões, os usos e costumes dos europeus que as habitam, o estado da civilização dos indígenas que as habitam, se para se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e indústria fabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou somente por indígenas.

Bernardino é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz: "costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm ensinado, antes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas terras do litoral, mas correr os sertões, ver o que por lá vai e o que se faz, para bem avaliar o que dizemos". 

Aceita o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos, segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar, Se um preto, por exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa do que se matasse outro preto."

Continua: "Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm estes, quase todos,  mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe cubra as partes por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco. Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."

Deduz, com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incutindo-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se conseguiria."

Não restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura, Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele: "Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra os Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei, porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível, semelhante reclamação, e talvez ouvissem a esse respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão, que, com bons missionários, fácil seria fazê-los mudar de seus maus costumes, senso a primeira necessidade, incutir-lhes amor ao trabalho; porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus usos que a favorecem". 

Neste pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizador de Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".

E mais adiante: " Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu comportamento."

Bernardino conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos, e a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados -- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém , repito ainda,  que esta responsabilidade não deveria ficar somente escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na província, o menos entendido, porém, dos que mais desejam o progresso, o aumento e civilização das nossas possessões."

Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois um ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver mais escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, foi abolido o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.

Extraordinária vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.
Honra lhes seja! "
 

Como escreveu Fernando Pessoa: "O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos".

 Para saber mais sobre esta época:

 http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf