Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 29 de outubro de 2019

Mossamedes in "Archivo Pittoresco". Os primórdios da Colonização de Moçâmedes, a actual cidade do Namibe: 1839 a 1850







A. PEREIRA DA CUNHA.


MOSSAMEDES 


A importante villa de Mossamedes, um dos mais recentes e interessantes estabelecimentos coloniaes portuguezes, está assentada ao sul de uma extensa praia arenosa, no litoral da ampla bahia ou Angra do Negro, como vem notada nas antigas cartas dos nossos navegadores, ou Little fish bay (Pequena bahia dos peixes) como a denominam os inglezes nos seus roteiros, em 15 graos e 12 minutos de latitude sul, e 21 graos e 11 minutos de longitude, na costa occidental da Africa, distando de Benguella 177 milhas maritimas, proximamente 354 kilometros, e 390 milhas ou 780 kilometros de S. Paulo da Assumpção de Loanda. capital de todas as nossas possessões na mesma costa

Já no seculo xvn a Angra do Negro era mui visitada de navios portuguezes, e ainda mais de corsarios estrangeiros: uns e outros, porém, somente a procuravam, ou para refrescar e fazer aguada, ou por ser ponto azado ás especulações de escravatura.

Exploração regular, ou sequer exame, ainda mesmo perfunctorio, do local e suas condições geologicas e hygienicas não se tinha feito, até que em agosto dè 1785, por ordem do capitão general barão de Mossamedes, alli se dirigiu para tal fim a fragata Loanda, a bordo da qual ia o tenente coronel Luiz Candido Cordeiro Pinheiro Furtado, a quem se commettêra a direcção dos respectivos trabalhos; em harmonia com a expedição naval marchara por terra o sargento-mór Gregorio José Mendes à frente de cerca de 1:000 negros molundos.

O modo como Furtado se desempenhou da melindrosa commissão que lhe fora encarregada, consta de documentos authenticos existentes no archivo da secretaria da marinha e ultramar. Mas, em despeito das informações mui favoraveis dadas por sujeito de tanta capacidade e competencia, apesar do empenho com que sollicitára a erecção de um presidio em sitio que já então se lhe afigurára como tão adequado para crear uma forte colonia europêa, as suas propostas foram deixadas de parte, ou por ignorancia e má fé, ou pelas vicissitudes do tempo e instabilidade da administração ultramarina.

Decorreram muitos annos, e quando porventura já se haveriam esquecido os projectos e trabalhos de Luiz Candido, segunda exploração a Mossamedes 

Ensaios sobre a estatistica das possessões ultramarinas, por J. J. Lopes de Lima, liv. tn, 1840, etc.
foi ordenada em 1839, pelo prudente governador. o vice-almirante Antonio Manoel de Noronha, e d'esta vez foi commettida a empreza ao estudioso capitão tenente Pedro Alexandrino da Cunha, então commandante da corveta nacional Isabel Maria, e depois governador geral da provincia de Angola, de saudosa e mui honrada memoria.

Ainda nos não parece bem averiguado a quem pertence ou de quem partiu a ideia incial d'esta exploração! Antonio Joaquim Guimarães Junior gerente da primeira feitoria que alli existiu, pertencente ao negociante Torres, de Benguella, a pretende arrogar a si em uma memoria que temos presente. 

Seja porém como for, o certo é que só depois de publicados os relatorios d'aquelle distincto official de marinha, de João Francisco Garcia, oficial do exercito provincial, que, nomeado regente do futuro presidio, auxiliara por terra os trabalhos da exploração, preparando ao mesmo tempo os indigenas a receberem com agrado os novos hospedes. e a memoria a que já aludimos, é que o governo começou de entender seriamente no plano de fundar uma povoação no local que unanimes informações apontavam como tão próprio.

Entretanto, por falta de meios do governo da metropole, e má vontade do da provincia, insignificantes foram os progressos de Mossamedes, e quasi que a colonia se reduziu por alguns annos a pequenas feitorias, alguns soldados e poucos degradados.

A dura perseguição movida aos portuguezes residentes no imperio do Brasil, mormente em Pernambuco, veiu inesperadamente favorecer a idéa da colonisação europea, encaminhando para Mossamedes uma porção avultada de concidadãos nossos.

Em 4 de agosto de 1849 aportou de feito á bahia de Mossamedes, no brigue de guerra Douro, e na barca Tentativa Feliz, um consideravel numero de colonos: em 13 de outubro de 1850 outra expedição similhante, composta do dito brigue Douro e barca Bracharense, saiu de Pernambuco com egual destino, indo surgir, passadas poucas semanas. na nossa bahia, onde largou outra porção de compatriotas, todos iuflammados no desejo de encontrar alli a fortuna, e a segurança de que haviam desesperado em terra estranha.

MOSSAMEDES 

Conclusão. Vid. pag. 160)

As despezas (festa segunda expedição foram satisfeitas pelo producto de uma subscripção promovida entre os portuguezes que continuaram residindo no Brasil; bem como ás da primeira se havia occorrido com os meios enviados de Lisboa, por auctorisação do corpo legislativo.

Infelizmente, porém, tantos esforços e sacrificios foram em grande parte perdidos. já pela incuria de quem cumpria velar pela execução das instruccões ua corte, ja pela incapacidade de muitos dos primeiros colonos, já pelo mal entendido ciume com que algumas auctoridades e pessoas conspicuas continuavam a considerar as coisas da nova colonia.

A todas estas circunstancias, já de si bem ponderosas, veiu juntar-se uma esterilidade espantosa, por falta de chuvas, e d'ahi, como natural consequencia, a desgraça de alguns colonos, o desalento de outros, e ganharem terreno os qne oppunham ao desenvolvimento de Mossamedes as especiosas allegações de que a fundação de tal presidio prejudicaria as praças de Loanda e Bengnella, de que a soa salubridade era mui contestavel, e de que os terrenos proximos eram totalmente incapazes de qualquer especie de cultura.

Pessoas interessadas na perda de Mossamedes escreviam ao mesmo tempo para o continente e para o Brasil: « O clima é pessimo, é um logar de degradados, onde somos tratados como taes; é peior que a ilha de Fernão de Noronha; não nos deixam d'aqui sair sem completar de  annos! 1 »

A constancia, porém, de alguns colonos, entre os quaes devem mencionar-se com o merecido lonvor os srs. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, e José Leite de Alhuquerque, e a tenacidade do governo em sustentar o seu empenho, venceram todos os obstaculos, as circunstancias foram pouco e pouco melhorando, a população crescendo, o commercio e a lavoura progredindo, a ponto tal que, sob representação dos habitantes, a humilde povoação de Mossamedes foi, por decreto de 26 de março de 1855, elevada á categoria de villa.

Todos estes e outros factos que importa conhecer, são excellentemente compendiados no seguinte trecho do relatorio do sr. visconde de Sá da Bandeira, apresentado á camara dos deputados èm março de 185».

« Tendo-vos fallado, diz o intrepido general e illustrado ministro, de alguns dos concelhos d'esta provincia (Angola)... tratarei agora do estado em que se acha a nova villa de Mossamedes... As vantagens que offcrece o seu porto, a salubridade do seu clima, e a dos sertões que se avisinham foram a verdadeira causa d'alli se fundar uma colonia... As contrariedades que ao principio experimentou, occasionaram a perda de dois annos continuos para os seus respectivos trabalhos, e para mencionar algumas d'ellas, direi que foram a falta de inundações do rio Béro, cujas varzeas os colonos cultivavam, a ignorancia dos tempos de semear, e a escassez das respectivas sementes. Felizmente a persistencia de alguns colonos tudo venceu, porque, passado aquelle tempo, os progressos da agricultura de Mossamedes tem ido em successivo augmento, particularmente depois que a pratica tem feito conhecer que as especulações commerciaes nem sempre são tão proficuas quanto ás do amanho das terras; o resultado d'estas ideas foi o estabelecerem-se já tres engenhos de assucar, um na villa de Mossamedes, outro no Bumbo, devendo assentar-se o terceiro no sitio da Bella Vista. Além da cultura da canna, os colonos de Mossamedes tambem se tem entregado á do algodão, cujas plantações se tem egualmente augmentado, sendo para notar, que a colheita dos outros generos necessarios ao seu sustento, não só já dá para o seu consumo, mas até mesmo para exportação, em vista das remessas que d'alli se tem ja feito para Loanda, e do que já se vende aos navios baleriros americanos, que em numero consideravel frequentam o seu porto para receberem refrescos de vegetaes e gado, do qual tambem ultimamente se tem feito alguma exportação para a ilha de Santa Helena. Com tudo isto ha coincidido o desenvolvimento do fabrico do azeite de peixe, pelas muitas feitorias de pesca que la se tem estabelecido, o acrescimo das construcções urbanas, e o incessante pedido de novos terrenos.»

Annaes do Municipio de Mossamedes. 

Temos dito da origem e progressos da colónia; e antes de acrescentar algumas informações recentes. daremos uma breve descripção do porto e da novissisima villa e seus suburbios.

A bahia que fôrma o porto de Mossamedes olha ao oeste, e tem a margem do sul mais extensa que a do norte e mais alta, sendo formada de barreiras de grés, coroadas por uma camada de pedra mui rija e propria para construcções civis. Do extremo oriental destas barreiras pega um extenso areal que limita a bahia até á ponta do norte. Destr lado desembocca um rio, a que o gentio dá o nome de Béro, e que o tenente coronel Luiz Candido denominou das Mortes, pelo desastre alli succedido ao tenente Sepulveda e ao cirurgião da fragata Loanda. que, por sua imprudencia, foram assassinados pelos negros. Mui perto divide-se o Béro em dois braços, um dos quaes se dirige à bahia, e o ontro à costa, a um sitio chamado Loquengo. Ha porém quem assevere que não é aquelle um braço do Béro, senão outro rio que alli vae desemboccar com o nome de Equinina.

Apesar de um baixo, proximo da costa do sul da bahia, e que corre de nor-nordeste até meia distancia da ponta do norte, o porto de Mossamedes é seguro em todas as quadras do anno, e n'ele podem surgir muitos navios de todos os lotes; o desembarque, ainda na occasião das maiores calemas, faz-se ao sul da praia com extrema commodidade, ou ao norte em um sitio encostado á montanha, a que chamam o Saco do Giraúl; a aguada é excellente, e a pequena distancia da praia; innumeravel a quantidade de peixe.

As aguas do rio Béro espraiam-se em um vasto e formoso valle, em que existem extensas varzeas, proprias para toda a especie de lavra.

Os terrenos do dito valle são de alluvião; a tem dos lados é alta e alcantilada; a que fica ao norte, assaz montanhosa, estende-se até ao rio Giraúl (Equinina?). Em differentes pontos apresentam-se algumas elevações notaveis, terminando em nm plano horisontal, Q que lhes fez dar o nome de mesas de Mossamedes. 

O litoral d'este logar é formado de terrenos stratificados, conservando horisontalmente e em ordem as camadas de sua formação. As mesas offerecem egual stratificação aos terrenos inferiores; as camadas que os constituem são compostas de seixos ou basaltos rolados, de materias arenaceas, de argila, de calcareos, em que se encontra grande copia de conchas fosseis, etc.

A duas milhas de distancia, junto á praia, como já dissemos, está edificada a villa de Mossamedes? e n'uma elevação ao sul existe a fortaleza, com a invocação de S. Fernando, o palacio do governo (por concluir), a egreja, e o hospital.

Consta a villa de tres ruas direitas, e de sufficiente largura, chamando-se da Praia, dos Pescadores, o do Alferes; são parallelas á praia, e cruzadas por outras tantas travéssas.

Na povoação e nos sitios cognominados Cavalleiros, Boa Esperança, Casados e Hortas, existiam. em 1857, 150 predios, sendo de pedra e cal 39, de adobe 65, de pau a pique 27, e 19 cubatas de palha.

No mesmo anno contavam-se em Mossamedes 1:675 habitantes; 390 brancos, 58 pardos ou mulatos, 136 pretos livres, 156 pretos libertos, e 935 escravos de ambos os sexos.

O numero de predios e de habitantes é hoje muito maior, podendo calcular-se em 600 os de côr branca.

Dos poucos edificios publicos que alli se encontram, a egreja, uma das melhores da provincia, é indubitavelmente o mais notavel. A fortaleza é solidamente construida. O quartel acanhado, podendo apenas accommodar setenta soldados. Está no mesmo caso o hospital, que, posto seja bem situado, não tem a capacidade sufficiente. Quasi todos os habitantes se occupam na industria da pesca ou na cultura da terra, com muito fervor e curiosidade.

1 fíreve noticia sobre o ctima de Moisamedes, por J. C. P. Lupa o Faro.

Para que a este respeito se forme exacta idéa do estado actual de Mossamedes, juntaremos n'este logar um extracto do relatório inedito de um intelligente oficial de marinha, que a visitou em agosto c 1860, já depois que teve logar a famosa incursão dos munanos, barbaros sertanejos, que tantos damnos e prejuizos causaram aos colonos.

« Quando de 1852 a 1856 estivemos em Africa, servindo na respectiva estação naval, pareceu-nos, nas muitas vezes que visitámos Mossamedes, que nunca de tal ponto se poderiam colher vantagens pela agricultura; pois que julgavamos mui limitado o terreno proprio para ella: todavia sempre pensámos tambem, que de futuro esta mesma pequena porção de terreno produziria o sufficiente para alimentar a povoação da villa, ainda mesmo que esta crescesse. Hoje somos obrigados (com muito prazer) a reformar a nossa opinião, porque Mossamedes produz já o sufficiente para sua sustentação, e de muitos generos, como farinha de mandioca, batatas e feijão, já exporta em grande quantidade, não só para os portos do norte da provincia, como tambem para Santa Helena, cuja praça sustenta aotualmente uma carreira mensal de navegação feita por um patacho e um palhabote que levam sempre muito gado, e 12:000 arrobas de batata annualmente, pouco mais ou menos.


« Tem-se construido muitas e bonitas casas, em consequencia de ter augmentado consideravelmente o numero dos habitantes brancos. As plantações nas duas margens do Béro tem tomado um grande incremento, devido á feracidade do terreno e ao trabalho dos homens. Alli nota-se o que não se vê nas outras povoações da costa: actividade, enthusiasmo pelo trabalho, e vontade firme de fazer prosperar a terra. Alli vêem-se homens brancos de enxada na mão trabalhando ao lado dos pretos, sem que por isso julguem a sua dignidade offendida, e sem

Que o clima os prejudique. Nos Quipolas, ao norte o Béro, estão estabelecidos dois engenhos, que já trabalham e exportam alguma aguardente. Deste lado do rio o terreno parece de melhor qualidade, achando-se alli estabelecidos mais europeus do que do lado do sul. No entretanto, na margem do sul ha extensas plantações de mandioca, trigo, batatas, cará, feijão, hortaliças e outros generos. O guarda marinha de commissão Abreu Vianna é possmdor de um grande tracto de terreno, do qual apenas tem cultivado uma pequena parte, e todavia a fertilidade do terreno é tal, que vive e sua numerosa familia do producto de suas plantações, e pensa, com o lucro que d'ellas obtiver, poder, em um futuro não mui remoto, estabelecer um engenho para a fabricação do assucar e da aguardente. Ha de uma e outra margem do rio outros possuidores de terrenos que do seu producto vivem fartamente. Portanto, se o terreno cultivado, que não é nem a centesima parte do que o pode ser, sustenta a povoação, e exporta, como acima disse, para os outros portos da provincia, e ilhas de Santa Helena, S. Tomé e Principe, e outros pontos, não obstante a povoação ter, desde 1856, crescido muito, segue-se que Mossamedes pôde e ha de fazer a sua felicidade pela agricultura tambem... »

O segundo tenente da armada C. F. de Almeida, immediato do vapor de guerra Maria Anna. 

Mas não é a vantajosa posição geographica de Mossamedes, nem a fertilidade das varzeas do Béro, nem a opulencia dos sertões adjacentes, nem a abundancia aos gados que tornam para nós mais interessante este estabelecimento.

É notoriamente sabido, que a ruindade do clima da Africa tem opposto até agora um obstaculo invencivel á aclimação dos europeus; e sem se conseguir este desideratum, mui demorado será o progresso d'aquella parte do mundo.

« Parece, diz João de Barros, que por nossos peccados, ou por algum juizo de Deus occulto a nós, nas entradas d'esta graude Ethiopia, que nós navegámos, se poz um anjo percuciente com uma espada e fogo de mortaes febres, que nos impede poder penetrar ao interior das fontes d'este horto, de que

Procedem esses rios de oiro que por tantas partes a nossa conquista sáem ao mar.' Uma dolorosa experiencia de seculos tem mostrado a verdade das desconsoladoras palavras do grande historiador da Asia.

Em Mossamedes, comtudo, mudam as coisas de figura; a salubridade d'este ponto da costa de Africa já não admitte sombra de duvida. A temperatura alli não é excessivamente quente; o frio nunca demasiado; as manhãs tem uma Tresquidão agradavel; uma atmosphera pura, e livre de emanações miasmaticas, em que poucas vezes se faz sentir humidade. A raça branca, mesmo exposta a trabalhos rudes, apresenta-se córada e robusta, e a sua prole não desmente a acção benefica do paiz. 2

O problema da aclimação ahi está resolvido. É a opinião dos juizes mais competentes. Um vasto campo se abre pois á actividade e industria de tantos de nossos conterraneos que buscam em regiões estranhas, e tantas vezes innospitas, a fortuna que não poderam encontrar na sua patria. Cumpre ao governo continuar perseverantemente a obra encetada com tão felizes auspicios; e cremos que em poucos annos, Mossamedes, séde de uma florescente colonia europea, apoiada nos ferteis presidios dos sertões do sul, será a cabeça de uma das mais importantes provincias da Africa Occidental, e o emporio de grande e valiosissimo commercio.

Foram estes os sentimentos que nos inspiraram quando démos certo desenvolvimento á presente noticia.

A estampa que apresentámos, é copiada de outra egual, inserta na excellente obra do sr. F. Travassos Valdez, Seis annos de vida na Africa occidental, de que já em outros numeros d'este semanario temos feito especial e honrosa menção.


* Memoria sobre o clima de Mossamedes. 


terça-feira, 22 de outubro de 2019

INSTRUÇÕES RELATIVAS A ARBORIZACÃO DA ZONA LITORAL DE MOÇÂMEDES







Por poder prestar eventual serviço Câmara Municipal de Moçâmedes e comissões municipais do sul, se publica a «Informaçáo» seguinte extraida das Instruções que nesta data se forneceram ao agricultor diplomado João da Costa Terenas Júnior, enviado em missão à mesma cidade de Moçâmedes :
Visto não poder contar-se com chuvas nem com as superficiais, as possibilidades de arborização e revestimento de areias na zona ocupada pela cidade e seus subúrbios, quando se considere o problema na sua largueza completa, acham-se por agora em íntima ligação com as possibilidades e condições das águas subjacentes. Procuram as raízes, por si, as humidades subterrâneas, e em Moçâmedes existe o lençol aquoso donde as cacimbas da cidade se alimentam. 
Portanto, se plantas próprias fossem preparadas em viveiros, acompanhando-as com regas ate ao necessário desenvolvimento. e em seguida se transplantassem para lugares onde o referido lençol subjacente se encontre em profundidade acessível as raízes, parece que haveria probabilidades de exito. Assim, dentro desse mesmo principio, trabalham os árabes do Saara, quando, antes de plantarem os seus palmares, escavam fundo as areias, a fim de que as raízes mais breve alcancem as camadas húmidas inferiores. E eles criam os oásis.


Vê-se pois que convém saber quais são os lugares cuja superfície natural menos afastada se encontra dos substratos aquosos. Não tem de facto esta Repartição elementos para esclarecer o regime das águas infiltradas que constituem esse lençol aquoso de Moçâmedes, qual seja o seu nível, quais as suas correntes, quais as suas variantes em função das cheias
periódicas do Bero, etc., e neste sentido só uma serie metódica de sondagens poderia informar devidamente.
Todavia essa deficiência talvez em parte, e para o caso de que se trata, a possam, até certo ponto, suprir as informações locais, baseadas nas cacimbas que se têm por ali aberto, e noutros eventuais indicadores. Averiguado que seja o possível, nesse ponto de vista, ficam porventura mais
ou menos indicadas as zonas onde as plantações devem encontrar mais facilidades relativas. Talvez suceda todavia que, mesmo nessas zonas melhor favorecidas, a camada seca apresente ainda espessura importante. Deveria recorrer-se então, ou a praticas semelhantes às dos árabes do Saara,
ou ao emprego de galerias captantes (Vide Hidráulica Agricola, Durand-Claye Tomo 1, pag. 305 e seguintes), ou de barragens subterrâneas (idem -Tomo 11, pg. 378 e seguintes), ou oportuna combinação de todos esses sistemas, e ainda de outros. Apesar de o empreendimento nesses termos representar despesas talvez atendíveis, convém todavia prevê-lo e estudá-lo. Acerca desta matéria transcrevem-se, pelo ensinarnento que possam conter, as informações seguintes, relativas a plantações no delta do Nilo. 


Os viveiros (trata-se de casuarinas) situam-se em lugar onde possa haver rega, e têm-se obtido por meio de sementes em pura areia. Depois são as casuarinas plantadas no local definitivo, a distância do canal, da maneira seguinte :
Enterra-se na areia um cilindro de ferro de 14 centirnetros de diâmetro por 60 de comprido, e substitui-se a areia que fica dentro por boa terra. Em seguida tira-se para fora o cilindro, e mete-se então a planta nessa terra, onde as raízes encontram alimento para os primeiros tempos até encontrarem a camada húmida, Nas plantações do Canal de Suez (terrenos siliciosos e em parte arenosos) têm sido aplicadas «casuarinas equisetifolia» «Acacia nilotica», «Cupressus macrocarpa», «Eucalyptus Globulus» e «E. robusta», com irrigaçóes enquanto as raizes náo atingem as camadas húmidas, e no talude e revestimentos, «Tamarix nilotica», «T. gallica», «T. articulata», Alfa e (Atriplex halimus". Na ilha de Chipre, que sofre de secas, e onde portanto se escolhem as plantas que melhor as suportem, têm feito uso do «Atriplex semibacatum» (originário da Austrália, nascendo bem em terreno salgado e fornecendo boa forragem), das gramineas vivazes «Pennisetum longistylum» e «P. rupelianum», da Alfa, do «Quercus oegilops» e das «Prosopis juliflora» e «P. pubescens», as quais (estas duas últimas) dispensam rega ali, em consequência do grande poder de penetraçáo das suas raiz

O sr. Júlio Henriques (Agricultura Colonial, pág. 175) diz do «Eucalyptus terminalis» que forma boas árvores, vegetando bem em terras arenosas, e vive no Norte e Centro da Austrália, onde a temperatura à sombra chega a 32 graus centigrados e a chuva é pouca. 


Welwitsch (no mapa fitogeographico) aconselha a introduçáo da Arvore de Marrocos *Argania sideroxylo«n" para arborizar os terrenos áridos do litoral. O agrónomo Costa Botelho aconselha com fins semelhantes os pinheiros (mansos, silvestres e de Alepo), o zimbro, o cedro de Espanha e a «juniperus phoenicia». Para fixação de dunas e de areias, podem ainda citar-se, entre outras, as seguintes gramineas e plantas forraglneas :« Psamma arenaria», «Emophyla arenaria, «Elymus arenarius», «Agrostide maritima e vulgar», «Festuca tenifolia», «Panicum amarum» e «P. obtusum»,
«Uniola paniculatau», «Oryzopsis cuspidata», «Calamagrostis longifolia», «Andropogon halepensis» e outras, e as Arvores seguintes : «Eucalyptus botryoides», «E. hoemastoma», «Quercus catesbaei» e outras. Um grande número destas sementes, senão todas, vendem-se na casa Vilmorin-Andrieux-Paris, 4, Quai de Ia Megisserie, de onde esta Repartiçáo tem encomendado algumas.


Repartíção do Gabinete do Governo Geral de Angola em Luanda, 3 de Junho de 1908. -Armando Tudella, ajudante de campo.

HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO ANGOLA (DOIS ANOS DE GOVERNO JUNHO 1907- JUNHO 1909) EDIÇÃO COMEMORATIVA DO TERCEIRO CENTENÁRIO DA RESTAURAÇÃO DE ANGOLA, QUE SE PUBLICA PRECEDIDA DE UM ENSAIO SOBRE PAIVA COUCEIRO DO EX.Mo GENERAL NORTON DE MATTOS  

domingo, 20 de outubro de 2019

ESCRAVIDÃO EM ÁFRICA ANTES E DEPOIS DAS ROTAS ATLÂNTICAS

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Não há como recuperar a africanidade, sem conhecer a própria história da África. Ao mesmo tempo, é necessário despir-nos dos preconceitos etnocêntricos (olhar um povo ou etnia com valores de outro) a África como lugar atrasado, inculto, selvagem – e deixar de supervalorizar o papel de vítima- do tráfico, do capitalismo, do neocolonialismo, atitude que alimenta sentimentos de impotência.
Mônica Lima



Como se sabe houve escravidão africana feita pelos africanos, nada disso é tabú, quando se fala a sério de escravidão. Está bem documentado. O comércio de escravos existiu em África desde a Antiguidade, porém o número de escravos acentuou-se na Idade Moderna, com o tráfico negreiro europeu. Todos os povos cometerem actos deploráveis no decurso da sua História, e a História dos povos africanos, no antes e no depois dos colonialismos, não está isenta de tal. Todos os povos devem  assumir a sua quota de responsabilidade.
Por vezes aqueles africanos que assumem a escravidão africana, feita pelos africanos, tendem a avançar com a ideia de que foi uma escravidão diferente, doméstica e não mercantil. Que entre os vários povos africanos, o escravo não era uma mercadoria, mas sim um braço a mais na colheita, na pecuária, na mineração e na caça; um guerreiro a mais e que eram tratados como iguais. E se um escravo fosse fiel ao seu senhor poderia ocupar um cargo de prestigio local, inclusive possuindo escravos seus. Ou seja, que ser escravo de africanos não era uma condição de humilhação e desrespeito, e que mesmo representando uma submissão, tratava-se de uma situação que muitas vezes era a mesma de outras pessoas livres, quando sabemos que a escravidão na África se desenvolveu de muitas formas, e que ao lado da escravidão doméstica também existia o comércio de escravos. Algumas sociedades africanas viviam da guerra para a captura de africanos para serem vendidas a outros povos que necessitavam de escravos, primeiro aos árabes do norte de Africa, depois ao portugueses. Como na África subsaariana existiam várias etnias, vários grupos políticos diferentes (os africanos não eram um único povo), as guerras entre eles eram muito frequentes, e uma consequência disso era escravização dos vencidos, que podiam ser vendidos, segundo a necessidade do vencedor. Esses povos africanos que praticavam escravatura preferiam as mulheres como escravas, já que eram elas as responsáveis pela agricultura e poderiam gerar novos membros para a comunidade.
Quanto ao comércio árabe de escravos este intensificou-se no século VII, quando conquistaram o Magreb e o leste africano. Eram grandes mercadores de escravos, e conseguiam suas mercadorias humanas em diversas regiões: Espanha, Rússia, Oriente Médio, Índia e África. Os escravos comprados nessas regiões eram vendidos principalmente na península Arábica, mas também podiam ser vendidos em regiões mais distantes, como na China. 
Tidiane N'Diaye, antropólogo e economista franco-senegalês, publicou O Genocídio Ocultado em 2008, onde considera que o tráfico de escravos árabo-muçulmano e a escravatura realizados durante quase mil anos, ainda não foi reconhecido em toda a dimensão. Como refere , eles foram os únicos a praticar este comércio miserável, deportando quase 10 milhões de africanos, antes da entrada na cena dos europeus. Ou seja, do sétimo ao décimo sexto século, durante quase mil anos. Refere ainda que a penetração árabe no continente negro iniciou a era das devastações permanentes de aldeias e as terríveis guerras santas realizadas pelos convertidos a fim de obter escravos de vizinhos que eram considerados pagãos. Quando isso não era suficiente, invadiram outros alegados "irmãos muçulmanos" e confiscaram os seu bens. Sob este acordo árabe-muçulmano, os povos africanos foram raptados e mantidos reféns permanentemente. Sem ignorar o tráfico transatlântico que se segue durante quatro séculos, Tidiane N'Diaye considera que "os árabes arrasaram a África Subsariana durante treze séculos ininterruptos" e que a "maioria dos milhões de homens por eles deportados desapareceu devido ao tratamento desumano e à castração generalizada".
Quanto aos portugueses, estes quando chegaram a Ceuta, no início do século XV, iniciaram a captura e escravização dos africanos das redondezas, com a justificativa de que eram prisioneiros de guerra e muçulmanos, considerados inimigos da fé católica europeia. A partir de então, em pleno processo de expansão marítima, avançaram em direcção ao sul, na costa atlântica da África, em busca de riquezas para serem comercializadas e foram descobrindo o comércio de escravos. Num primeiro momento, o comércio de gente não interessou aos portugueses, já que a Europa à época não tinha necessidade de mão de obra escrava, mas quanto mais avançavam na costa africana, mais sentiam a necessidade de se estabelecer em alguns pontos de comércio, para consolidar sua exclusividade na região.
Em 1455 construíram a primeira feitoria no morte de Arguim (actualmente a Mauritânia), e para a manter passaram a utilizar escravos africanos e a comercializá-los. Muitos eram capturados, mas rapidamente perceberam que era mais lucrativo entrar nas redes de comércio de escravos já existentes, e começaram a buscar essa mercadoria junto aos povos mais próximos do litoral. Um dos primeiros povos aliados dos portugueses no tráfico de escravos foram os jalofos, na Senegâmbia....Em troca os jalofos conseguiam cavalos dos portugueses (um cavalo era trocado por 15 ou 20 escravos) e armas de fogo, o que aumentava o seu poder de guerra e de conquista de mais escravos.
Com o início da colonização das ilhas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe (na segunda metade do século XV), a necessidade de mão de obra aumentou, e a compra de escravos foi a solução encontrada pela Coroa portuguesa. Por essa época, os portugueses chegaram à Costa da Guiné (actualmente desde a Guiné até a Nigéria), onde encontraram povos ricos que já negociavam com os árabes e puderam comercializar ouro, especiarias e escravos. Tamanha era a riqueza da região que os portugueses passaram a chamá-la de Costa do Ouro, Costa da Mina e Costa dos Escravos. Em 1482, Diogo Cão e as caravelas chegaram ao Reino do Congo e foram feitas alianças com o manicongo ("senhor do Congo") Nzinga Kuvu. Nessas alianças existiam interesses mútuos: os portugueses queriam maior acesso às redes de comércio da África, e o manicongo pretendia obter as técnicas de guerra e de navegação. Incluso o manicongo converteu-se à religião católica, e passou a chamar-se Dom João.
Por 4 séculos, a maior fonte de escravos do tráfico atlântico português deu-se a partir do Reino do Congo e do reino vizinho, Andongo, chamado pelos portugueses de Angola. Isso ocorreu principalmente quando os portugueses conseguiram o direito de negociar mão de obra para exploração espanhola da América e passaram a precisar de mão de obra para desenvolver sua própria colónia americana: o Brasil. 
O tráfico acabou abolido após séculos em estranho silêncio sobre a permanência da servidão e da escravidão, porque a intelectualidade ocidental, destacando-se os integrantes do Iluminismo anglo-francês, passaram a denunciar o horror e a desumanidade da instituição servil. O século XVIII, justamente aquele em que o tráfico negreiro foi mais intenso e lucrativo para os mercadores, conheceu, ao revés, uma crescente indignação moral contra a utilização da mão de obra cativa na vida produtiva das sociedades. A consequência directa foi o surgimento de sociedades filantrópicas e abolicionistas, tanto em Londres como em Paris, que fizeram intensa agitação em favor da abolição do tráfico e do fim dos grilhões que prendiam seres humanos, criando desde então um cenário favorável para que, especialmente após a Revolução francesa de 1789, a instituição servil se visse condenada para sempre. Filósofos do Iluminismo, como o Abade Gregório ou mesmo Montesquieu, defendiam os negros, enquanto no mundo árabo-muçulmano os intelectuais mais respeitados, como Ibn Khaldun, afirmavam que os negros eram animais. Nenhum intelectual do Magrebe levantou a voz para defender a causa dos negros. 
O século XIX levou ao auge a ebulição em torno da questão da escravidão, que iria culminar na abolição do tráfico, mas foi no século XVIII, quando o tráfico negreiro atingiu os maximos, que explodiu na Europa a indignação moral contra a situacao, criando um cenário favorável para que e a  Revolução Francesa tivesse lugar, abrindo espaço para novas realidades, de entre a quais o viver em Democracia. A Inglaterra, uma das nações com maior actuação no comércio de escravos, passa a encabeçar a campanha abolicionista e foi esta potência europeia pioneira da industrializacao quem primeiro requereu o fim do tráfico atlântico e em seguida a abolição da escravidão.  A abolição está, pois, relacionada com o já citado movimento filantrópico e abolicionista, com a  Revolução francesa e os ideais iluministas de Fraternidade, Igualdade e Liberdade, mas tambem  com a Revolução Industrial que teve ao leme a Inglaterra,  potencia que teve que teve papel cimeiro na Conferência de Berlim (1884-5) que teve como objectivo o estabelecimento de regras para a chamada "partilha da África" entre as potências europeias. A Africa potencialmente rica em matérias-primas, proporcionadora de mão de obra barata e mercados consumidores.
É incontestável, foi na Europa também ela sofrida e a fazer sofrer que o grande salto positivo para a humanidade aconteceu. Como disse o Papa Francisco, em 2014: “A nossa história recente caracteriza-se pela inegável centralidade da promoção da dignidade humana contra as múltiplas violências e discriminações que não faltaram, ao longo dos séculos, nem mesmo na Europa. A percepção da importância dos direitos humanos nasce precisamente como resultado de um longo caminho, feito também de muitos sofrimentos e sacrifícios, que contribuiu para formar a consciência da preciosidade,unicidade e irrepetibilidade de cada pessoa humana. Esta tomada de consciência cultural tem o seu fundamento não só nos acontecimentos da história, mas sobretudo no pensamento europeu, caracterizado por um rico encontro cujas numerosas e distantes fontes provêm «da Grécia e de Roma, de substratos celtas, germânicos e eslavos, e do cristianismo que os plasmou profundamente», dando origem precisamente ao conceito de«pessoa».”A ter presente a Revolução Industrial inglesa impulsionada pela descoberta da máquina a vapor, iniciada na segunda metade do século XVIII que veio modificar completamente os parâmetros sociais e económicos.  deitando por terra os regimes absolutistas e a
Olhando do alto, foi a dinâmica do Capitalismo e as necessidades da Industrialização que vieram modificar os parâmetros sociais e económicos.Tal como foi a necessidade de acumulação de capital que deu inicio à instituição servil, Tudo interligado.
A História dos povos não pode ser coisa séria quando divide as pessoas em boas e más de acordo a mera cor da sua pele. Em cada povo, há pessoas boas e há pessoas más, O crime do tráfico de escravos que vem da antiguidade, tocou a todos os povos. O interesse cega as pessoas, e toda as situações devem ser compreendidas no quadro ideológico, politico, económico e institucional de cada época. Compreendidas não e o mesmo quer aceites.
Gaspar Correia (sec. XVI), in “Lendas da Índia“ refere que “Nenhuma cousa desta vida é tão aproveitável aos viventes, que a lembrança e memória dos males passados para do mal nos guardarmos, regendo a vida para nele não cairmos segundo os bons fizeram.”



sábado, 19 de outubro de 2019

O CINE INACABADO DE MOÇÂMEDES

 O Cinema inacabado de Moçâmedes, em Angola




Quando se deu a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975, uma nova casa de espectáculos estava em marcha em Moçâmedes, implantada numa futura zona mais diplomática da cidade, próxima daquele que é hoje o Governo Provincial, cuja arquitectura futurista, cósmica, espacial, inspirado nas criações da arquitectura brasileira, em arquitectos como  Oscar Niemeyer,  fazia lembrar um OVNI, com as suas "garras" fincadas à terra. Encontrava-se na fase terminal  da sua construção, já tinha os painéis que circundam a galeria colocado, a pintura interior concluída,  e não iria faltar muito tempo para ser inaugurada. Ela era o testemunho vivo do quanto estávamos actualizados, pois na verdade nada do género vimos construído, na época, em território português. 

Este era um tempo de grande desenvolvimento  económico e demográfico em Angola, que vinha acontecendo desde 1960, com reflexos na criação de novos espaços de lazer. Angola assistiu ao culminar de um movimento evolutivo das casas de Cinema que tinham começado nos anos 1930 com os Cine-Teatros,  progredido nos anos 1960 para os  Cine-Esplanada, e que já nos anos 1970,  à beira da independência, terminaria com os Cine-Estúdio, o tipo de construção que veio catapultar a cidade de Moçâmedes  para o  topo da corrente modernista internacional. Aliás, foi nas colónias de África, em clima tropical, que os jovens arquitectos portugueses, fugindo às regras do Estado Novo em vigôr na Metrópole, e aproveitando-se das contribuições das potencialidades construtivas do betão armado, encontraram nas colónias de África um espaço de liberdade criativa como desconheciam, puderam dar asas à imaginação, libertos dos condicionalismos de um  regime que não permitia tais ousadias.

 
 A plateia e a abóbada
O Palco, a plateia e a abóbada...
As galerias  e os painéis

 As galerias e os painéis...

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques.Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques.Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.

Projecto para um painel assinado pelo escultor Fernando Marques. Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.

 
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à agricultura (oliveira e vinha), ao Deserto do Namibe e à etnia mucubal.  Obra do escultor Fernando Marques que aqui se pode ver, à direita.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à pesca e às praias de banhos de Moçâmedes, obra do escultor Fernando Marques.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.
 
Alto relevo com figuras africanas e europeias alusivo à pesca a Moçâmedes , com o escultor Fernando Marques à esquerda.  Foto gentilmente cedida por sua filha Paula Marques.


Segundo uns este Cine-estúdio iria chamar-se "Cine estúdio Arco Íris",  tal como o Cine estúdio de Sá da Bandeira (Lubango). Segundo outros, seria o "Cine estúdio Welwitschia", e ainda outros apontavam para  o "Cine estúdio Satélite" . Hoje é comum falar-se do "Cine-estúdio Namibe" como a obra interrompida por força de um processo histórico que em 1975 arrancou de Angola praticamente a totalidade da população europeia,  e que ainda hoje está por acabar, 40 anos após a independência, o que é de lamentar, atendendo àquilo que de facto esta obra representa: a penetração em terras de África de uma nova concepção de edifícios que se assemelham a naves espaciais, objectos voadores, estações em órbita no espaço celeste, uma arquitectura futurista de ponta, e sem paralelo na época.

O Cine-estúdio inclui também um restaurante e zona comercial. Os serviços garantem o acesso vertical do bar, cozinha, sanitários e camarotes dos artistas. A plateia, ocupa o primeiro e segundo piso. Sob a laje da cabine são inseridos o programa de bilheteira e bar, implementados na extensão das galerias laterais que se abraçam no espaço desperdiçado sob a pendente da plateia. 

Quanto aos proprietários, estes pertenciam a uma sociedade que integrava entre outros Eurico Martins, Gaspar Madeira, António Bauleth e Nascimento Marques (?), os mesmos do Cine Teatro de Moçâmedes.  Estes teriam encomendado em 1973 o desenho ao arquitecto Botelho Pereira de Vasconcelos , do atelier Boper. Quanto ao empreiteiro que levou a cabo esta obra, temos a informação que foi Vasco Luz. Soubemos também  que foi com este empreiteiro que caiu a cúpula do Cinema na primeira vez que foi colocada, e que a mesma cúpula foi reposta com êxito.

Reparem na arquitectura dos interiores,  nos mosaicos e azulejos originais, do período colonial português,  em todo esse arsenal de elementos que constituem uma mais valia para o património cultural e histórico da cidade. Reparem nos pormenores dos altos-relevos das paredes das galerias que circundam o espaço central inferior, reparem no espaço mais acima, onde fica a ampla e moderna sala de espectáculos. Descobrirão  figuras humanas que invocam vivências do tempo colonial,  jovens banhistas europeias, pescadores europeus e africanos envolvidos na faina marítima, que era o ganha-pão das gentes da terra;  painéis que invocam as actividades tradicionais com realce para a pesca e a agricultura, culturas de eleição, como a oliveira e a vinha que facilmente medravam nas Hortas de Moçâmedes. E ainda a fauna e a flora do fabuloso Deserto do Namibe, onde medram as welwitschia mirabilis, as espinheiras, cactos várias espécies, e uma variedade de animais aqui representados pelas elegantes gazelas, por hipopótamos e avestruzes.  E também as gentes mais representativas do Deserto, a etnia mucubal.

O acesso à sala de espectáculos no piso superior é visto à esquerda, através desta foto que nos mostra 
a organização espacial da zona

 A planta do Cine-Estúdio


Outra perspectiva da planta do Cine-Estúdio



O Cine-Estúdio Inacabado, o Impala Cine, o Mercado Municipal e a Igreja de S. Pedro, são as quatro construções que representam a penetração da corrente de arquitectura  vanguardista entre nós, e que muito orgulhosos nos deixaram, sem esquecer  as casas de espectáculos que o antecederam, igualmente integradas na modernidade inaugurada pelo "Art Deco", o estilo arquitectónico patente no Cine Teatro de Mocâmedes, na década de 1940. Lamentavelmente este OVNI que os arquitectos portugueses fizeram aterrar no deserto do Namibe encontra-se abandonado, devoluto e vandalizado.

Este Cine-Estudio ao abandono integra a  História dos Cinemas em todo o mundo, iniciada com os Cine-Teatros, continuada com os Cine-esplanadas e  que na época teve o seu culminar com os Cines-Estudio. Todos juntos, são legados que nos chegam através dos tempos, e nos permitem compreender a  evolução tipológica das casas de espectáculo  desde o seu surgimento.

 MariaNJardim



Em tempo:

Informações colhidas sobre o Cine Inacabado,  apontam para que tenha sido o engº Guido Vidal  o responsável pelos cálculos de estrutura e estabilidade, e que este tinha uma sociedade com o Mário Martins, empreiteiro da obra. O traçado confirma-se  tratar-se de obra do arquitecto Botelho Pereira aquele que poderia ceder os desenhos para estudo tendo em vista a sua recuperação.

Consultar para mais informações a dissertação "Cineteatros Angolanos: Tipologias (1932/75)" , 2017-11-17, de
Afonso Gonçalves Quintã
  https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/108692  


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

LENDO E APRENDENDO SOBRE A HISTÓRIA DE ANGOLA, COM FLAUSINO TORRES








"...Depois de 1885, em que se realizou a Conferência de Berlim para a partilha da Africa, o governo da Monarquia lançou-se na ocupação militar dos territórios a que se chamava Portugal, pois essa ocupação era, segundo as decisões da Conferência, obrigatória para que nenhuma potência ambiciosa pudesse afirmar que apenas as costas estavam dominadas.

E foi esta a politica que o Governador de Moçambique, António Enes, com o título de Comissário Régio, desenvolveu na colónia que estava a seu cargo. Foi por essa altura que se levou a cabo uma campanha de destruição de certos régulos indígenas, entre os quais há que salientar o muito conhecido Gungunhana. E foi dentro desta política do governo e do Comissário Régio que se tiveram determinados combates em que se salientou a figura de Mouzinho de Albuquerque.

A mesma politica que alcançou exito em Moçambique em 1895, foi desenvolvida na Guiné, em Timor e em certas regiões de Angola, continuando ainda, também a praticar-se em Moçambique.

Esta orientação de ocupação militar foi seguida de várias tentativas de ocupação populacional branca. Mas sem aquele sucesso que esperavam alguns dum país que tinha então uma forte emigração, sobretudo para o Brasil.

Entretanto a politica de expansão colonial (com as respectivas disputas, resultado da concorrência, principalmente entre a França, a Inglaterra e a Alemanha) reflectia-se nas colónias portuguesas, pois que tanto a Angola como Moçambique tinham como vizinhos a Alemanha e a Inglaterra. À Alemanha tinha cabido o território ao Norte de Moçambique, conhecido então por Tanganica, ao sul de Angola, o Sudoeste Africano Alemão. Se a fronteira ao norte de Moçambique estava claramente limitada pelo rio Rovuma, já assim não acontecia à fronteira do sul de Angola, pois o Deserto do Calaari, estentendo-se para o Norte e para o Sul do Cunene, abafava este rio com as suas areias. Daí disputas e questiúnculas constantes que obrigavam à construção de uma verdadeira rede de fortins que defendessem a colónia pelo lado sul.

Para isso era igualmente necessário evitar a subordinação dos indígenas que os alemães ajudavam em tudo aquilo que pudesse provocar perturbações. Com este objectivo foi enviada para o sul de Angola, nos últimos anos na Monarquia, uma série de destacamentos militares,

A guerra de 1914-18 já no período republicano (a Republica tinha sido proclamada em Outubro de 1910) favoreceu extraordinariamente a politica expansionista alemã. e logo em 1915, antes portanto da entrada de Portugal na guerra, que somente se verificou em 1917, forças militares alemães atravessaram a fronteira, que já então se encontrava mais bem definida, e ocuparam territórios, indiscutivelmente para além das suas fronteiras, depois de terem expulsado as forças militares portuguesas. isto deu lugar a que o governo republicano fosse obrigado a mandar uma razoável expedição militar, não só com o objectivo de recuperar os territórios perdidos mas de pacificar os indígenas que, aproveitando a fraqueza portuguesa se tinham insubordinado: foi a chamada Campanha do Cuamato.

Vencida a Alemanha em 1918, e entregues as suas duas grandes colónias citadas à administração inglesa, entrou-se em Angola e Moçambique, numa politica de pacificação e exploração económica colonial. O grande orientador desta política foi em Angola Norton de Matos; e em Moçambique, o escritor e político Brito Camacho ( que aproveitou motivos africanos para alguns dos seus contos) , e Álvaro de Castro. 

A exploração colonial tinha sido iniciada ainda no tempo da Monarquia com a criação de algumas Companhias Majestáticas e que tinha sido entregue quase que por inteiro, a própria administração da região. Data de então a fundação da Companhia de Diamantes de Angola, a que foi entregue com direitos exclusivos de exploração, o distrito da Lunda quase completo. Esta empresa é hoje uma das maiores de toda a África. Rasgaram-se linhas de Caminho de Ferro na direcção do interior, partindo de portos como Lobito, Benguela e Lourenço Marques, Para que a ocupação fosse rentável, era preciso dar um desenvolvimento aos portos que permitisse que as mercadorias trazidas do interior pudessem ser embarcadas sem dificuldade de maior. Foi assim que nasceram e se desenvolveram portos que permitisse que as mercadorias trazidas do interior pudessem ser embarcadas sem dificuldades de maior. Foi assim que nasceram e se desenvolveram portos como o de São Paulo de Luanda, Lobito e sobretudo Lourenço Marques na Africa Oriental, pois que era a saída das minas do Rand.

Entretanto surgia a Grande Guerra de 49-45; e depois dela inicia-se o movimento conhecido por libertação dos povos coloniais. Depois de uma grande parte da África se ter constituído em Estados independentes, ou pelo menos com grande autonomia, dentro dos antigos impérios coloniais da França e de Inglaterra, chegou a vez às colónias portuguesas.
de Angola, Moçambique e Guiné sentirem as consequências deste movimento de autonomia. E em 1961 inicia-se a luta com este objectivo, em Angola, norte de Angola, seguindo-se-lhe a do Norte de Moçambique, e um pouco mais tarde o da Guiné. Já então estas três colónias eram exploradas e praticamente orientadas por algumas grandes empresas com sede em Lisboa, mas com prolongamentos coloniais como por exemplo o Banco Nacional Ultramarino, a Companhia União Fabril e o Banco de Angola. 

Logo que a luta assumiu maiores proporções, com o envio de alguns exércitos metropolitanos, o Alto Capitalismo Internacional, na pessoa de empresas do género da Krupp e da Gulf Oil Company..., começaram-se interessando a fundo pelos problemas de Angola e Moçambique, desenvolvendo-se então a exploração, sobretudo do subsolo, E assim nasceu a exploração do ferro e do petróleo, do urânio, do cobre, em escala desconhecida até então. 

Assim terminou com carácter internacional a ocupação e colonização que se tinha iniciado com o objectivo de fazer frente, exactamente, à penetração de grandes potências. Se a Alemanha foi infeliz na tentativa (durante a Primeira Guerra Mundial) de domínio do Norte de Moçambique e Sul de Angola; se a Inglaterra também não foi feliz com as suas tentativas de partilha, por ela e pela Alemanha, destas duas colónias ---mais felizes foram seus imensos capitais. que conseguiram entrar sem armas na mão! O Alto Capitalismo internacional está bem patente da grande empresa que acaba de ser construída para o domínio das águas do Zambeze.

Ele criou duas ordens de dificuldades, ao autóctone que pretende a independência ou a autonomia; e a alguns centos de milhares de colonos, pequenos colonos, portugueses que na agricultura, na pastorícia, na pequena indústria e no comércio vivem há anos de um trabalho honrado que se ia transformando em movimento de civilização."


In FLAUSINO TORRES: PORTUGAL, uma PERSPECTIVA da sua HISTÓRIA . Afrontamento/Porto. 1974.


Nota: Título Original: HISTÓRIA DE PORTUGAL . Editado em Praga pela Universidade pela Universidade Carlos, em 1970.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

MEMÓRIAS COM HISTÓRIA. MOÇÂMEDES, ALUNOS E ESCOLAS...



A escolinha do cabo Almeida na Torre do Tombo, nos anos 1940


Nas novas instalações da Escola 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950
Na Escola Nr 49
 Alunos da Escola Pratica de Pesca do Distrito de Moçâmedes nos anos 1940 junto do Padrão do Cabo Negro
Alunos da Escola Pratica de Pesca do Distrito de Moçâmedes nas velhas instalações decadentes, em foto do inicio da década de 1950



Escola de Pesca, Aula prática de Construção Naval e regresso da aula, junto das velhas pescarias da Torre do Tombo (subida da S.O.S)


E no princípio era o verbo, só o verbo…, e escolas não havia. Não havia na Lucira, nem na Vissonga; não havia escolas no Baba, nem na Mariquita; não havia no Mucuio, nem na Baía das Pipas. Nem sequer havia escolas na Praia Amélia ou no Saco do Giraul.

Mas havia três escolas primárias em Moçâmedes, o que eram muitas na percepção dos mucubais, para os quais, práticos como eram, só havia o um, dois e … muitos. Havia, pois, em Moçâmedes a Escola nº. 49; a Escola Portugal nº. 55, de Fernando Leal, mesmo ali ao lado, com um baldio de cerca de 100 metros a separá-las e um equidistante chafariz, em redor do qual existiam umas bonitas e frondosas árvores de castanhas do Pará. Havia, por último, a Escola Primária nº. 56, de Pinheiro Furtado, situada no Bairro Feio da Torre Tombo, construída sobre pilares à guisa de palafitas em terra seca e sob a qual a miudagem se aliviava das suas necessidades mais básicas, que as carochas e os rebola-caca acabavam por tratar delas.

A Escola nº. 49 era, no entanto, a mais pequena e humilde das três, com apenas duas salas de aulas. E tinha mesmo à sua frente, a não mais de 40 metros, a cadeia civil, ali construída não inocentemente mas sim para mostrar às inocentes criancinhas que o paraíso na terra não existe e que a vida e o futuro não eram coisas fáceis. Para o resto, estava lá o professor Canedo, de triste memória, sem paciência alguma para aturar miúdos e que se passava de tal modo que chegava ao cúmulo de atirar os tinteiros e as próprias réguas de cinco olhos contra os alunos, alguns dos quais acabaram por ser levados para o hospital. Mas não era só ele; também por lá andava a professora Berta, grande e macrocéfala, má e azeda, que debitava galhetas a torto e direito nas aulas em que as crianças tinham que cantar a tabuada a ritmo certo, mas que desgraçadamente havia muitas delas que só sabiam a música e nunca se lembravam das letras. E ademais, quem é que se atrevia, naquele tempo, a ir para casa fazer queixinhas aos pais? Era pior a emenda do que o soneto, pois acabava por levar dos dois lados; do professor, na escola; e dos pais, em casa.

Houve, entretanto, por volta de 1925, um pequeno salto qualitativo com a criação da Escola Primária Superior “Barão de Moçâmedes”, título pomposo e pretensioso, uma vez que o curso ministrado não ia além de três anos lectivos após a 4ª. classe, o que configurava já uma caricata projecção virtual daquilo que viria a ser, muitíssimos anos mais tarde, o malfadado Tratado de Bolonha. O seu programa curricular, ambicioso na sua matriz, era, contudo, anacrónico e desfasado do mundo real. Daí a não ter passado de um triste epifenómeno, sem ter conseguido criar nem raiz, nem tronco; nem folhas, nem flor. E acabou tristemente por se finar sem ter dado fruto algum.
As personalidades mais esclarecidas e empenhadas de Moçâmedes nada podiam contra este estado de coisas. O Poder estava centralizado em Lisboa, e a implantação da república com as subsequentes guerrilhas partidárias e interesses pessoais conduziram as possessões ultramarinas a um estado de estagnação miserável.

Contudo, no decurso de 1937, com o Estado Novo já consolidado, viria a ser criada a “Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes”, implementando um curso com a duração de 5 anos, o que acrescentados os 4 anos da primária lhe conferia uma escolaridade total de 9 anos. Conforme o seu próprio nome indicava, era uma escola criada com a finalidade de habilitar os seus estudantes com os conhecimentos tidos como suficientes no quadro das actividades ligadas ao comércio, à indústria piscatoria e à função pública. Faziam, no entanto, parte do seu programa curricular, disciplinas tão díspares como: “Salga e Seca” , sobre a qual os miúdos de 13 ou 14 anos aprenderiam muito mais em 2 dias passados numa pescaria da Torre do Tombo ou do Canjeque, do que durante todo o curso; com a “Construção Naval” pretendia-se que os alunos aprendessem a fazer projectos, com base em desenhos cotados e escala, de canoas, baleeiras e até de traineiras; da “Estenografia”, não me lembro de nenhum aluno se ter servido dela, em termos práticos. No entanto, a disciplina tinha o seu lado positivo na disputa de quem conseguia escrever mais palavras por minuto. Se bem me lembro, a vencedora era sempre a Fátima Latinhas, que parecia uma autêntica metralhadora a debitar caracteres. De resto, na vida prática acabou por não ter prática nenhuma; No que toca à “Construção Naval”, que eu saiba, só a Maria Emília Ramos, que morava no Bairro Feio, da Torre do Tombo , se afirmou como projectora de barcos, e com nível muito elevado. Quanto à “Salga e Seca”, até a avó Catarina, que até era analfabeta, sabia muito mais sobre peixe seco e meia-cura do que qualquer estudante que acabava o seu curso e arrumava a correr os seus livros de estudo.

Mas havia, obviamente, umas quantas disciplinas adequadas e bem enquadradas com relação à época, embora no seu todo acabassem por ser à volta de 12 cadeiras, só no último ano.
Mas o curso da Escola de Pesca sofria de três males, qual deles o pior, que levavam a grande maioria a não concluir os seus estudos. O primeiro, desde logo, prendia-se com a indisciplina reinante de alguns alunos mais matulões, verdadeiros “mavericks” que praticavam o booling a torto e a direito contra os mais novinhos, de entre os quais avultavam: o Tó Coribeca, o Mário Bagarrão, o Helder Cabordé, o Romualdo Parreira, o Caparula, o Turra, o Quito Costa Santos, o Adriano Parreira, e mais um ou outro que agora não me ocorre. Era uma autêntica quadrilha sempre pronta a dar porrada aos mais miúdos. Nem o dr. Borges, director da Escola, que tinha fama de grande disciplinador, conseguiu dar-lhes a volta. E nenhum deles, obviamente, concluiu o curso. Mas o padre Galhano, santo homem, fazia verdadeiros milagres. E conseguiu trazer à superfície a bondade que existia dentro daquelas almas. O segundo mal tinha a ver com o facto de, no 5º. ano, isto é, no último ano do curso, os alunos serem obrigados a fazer exames de 12 cadeiras, o que era manifestamente um exagero. E com a agravante de só poderem reprovar numa única disciplina, sob pena de terem de repetir todas elas no ano lectivo seguinte. Finalmente, havia a questão do perfil e das mentalidades dos professores, alguns dos quais se compraziam em humilhar e reprovar os alunos com requintes de malvadez.

Ainda recordo, com profunda mágoa, uma cena que assisti num exame de geografia, cujo professor era um tal dr. Lameirão, do Porto, que devia pesar à volta dos 120 kgs, e tinha uma cara de poucos amigos que não enganava ninguém:
Foi num ano em que, por imperativos das suas carreiras profissionais, apareceram a exame, em regime de autopropositura, adultos já casados que tentavam por essa via terminar um curso que em devido tempo e por razões várias não o tinham conseguido. Um deles, natural de Moçâmedes, casado e pai de filhos, tinha vindo do Huambo com esse propósito, e encontrava-se agora ali no meio da garotada, a aguardar a chamada. Ao iniciar o exame, o dr. Lameirão, sem bom dia, nem boa tarde, pergunta-lhe secamente:
- Diga-me lá onde fica o rio Amarelo?
- O rio Amarelo…, não sei, sr. dr.
- Então, e onde fica o rio Vístula?
- O rio Vístula, sr. dr…? Não me lembro..
O dr. Lameirão, vermelhudo, passa-se, e começa aos berros: - Então, você, vai à minha casa, à noite, meter cunhas, e nem sequer sabe onde fica o rio Amarelo, nem o rio Vístula!? Está à espera que lhe pergunte onde fica o rio Bero ou o rio Curoca? Pode sentar-se.
Sr. Albertino Gomes – chama o dr Lameirão pelo seguinte adulto, também já casado e pai de filhos.
Albertino Gomes levanta-se e diz em tom forte e bem silabado: - DESISTO.
E a miudagem desatou toda em altas gargalhadas.
E contra isto nada havia a fazer!


ass. Arménio Aires Jardim (Outubro de 1916)