Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 31 de maio de 2007

1º Governador de Mossâmedes, Capitão de Fragata, António Sérgio de Sousa (19.1V.I849 -1851).




Capitão de Fragata António Sérgio de Sousa, nomeado 1º Governador de Mossâmedes (19.1V.I849 -1851). (Reprodução de uma fotografia, cedida pelo seu neto, o escritor sr. António Sérgio). António Sérgio de Sousa coadjuvou desveladamente com os antigos colonos no início da descolonização.
 
Os termos Distrito, Governo e Governador aplicados a Mossâmedes surgem pela 1ª vez no Decreto de 19 de Abril de 1849 (Visconde de Castro) que nomeou o Capitão de Fragata António Sérgio de Sousa, capitão-tenente «governador do Distrito de Mossâmedes e encarregado da Direcção e Governo da nova colónia, que alí ia estabelecer-se, de Portugueses emigrados do Brasil para o que teria que se regular pelas instituições que, pelo Ministério do Ultramar, lhe seriam dadas». B.O. 203 de 18 de Agosto 1849.

Foi em 19 de Abril de 1849, após o estabelecimento do regime liberal, que foi determinado por Decreto de 07 de Dezembro de 1836 de Vieira de Castro, que os domínios africanos formassem três Governos gerais (Cabo Verde, Angola e Moçambique), e um Governo particular (S. tomé e Principe), compreendendo o Governo Geral de Angola o Reino deste nome e o de Benguela. Foi deliberado pelo mesmo decreto que «nos Presídios e Estabelecimentos Marítimos houvesse um Governador subalterno, que neles exerceria a autoridade administrativa e militar». (Botetim do Conselho Ultramarino, Legislação Novíssima, 1834 a 1851).

Capitão de fragata António Sérgio de Sousa foi nomeado «por haver merecido  confiança de Sua Majestade a Rainha», visto que conhecia o Estabelecimento «que tinha visto com os seus próprios olhos e cuja importência tão adequadamente avaliava» (Preâmbulo dirigido directamente a Sérgio de Sousa).

A delicadeza da missão e a forma como deveria ser cumprida expressa-se depois o Ministro nestes persuasivos termos: «Uma colónia nascente está perfeitamente em caso análogo às primitivas sociedades; aos colonos é-lles necessário um chefe da sua inteira confiança, que, no árduo e penoso desempenho dos seus trabalhos e riscos, os anime e conduza com tal asserto e tal arte, que alcancem o fim a que se dedicam , sem quebra de regulamentos que têm a cumprir e a que devem ser levados a respeitar, mais pela necessidade que lhes assiste do que pela aspereza e supremacia da respectiva autoridade».



O Governador, de acordo com o Preâmbulo das Instruções ministeriais de 26 de Abril de 1949 , a sí dirigidas, deveria ter todas as atenções com os colonos e pugnar pelas suas comodidades. O local escolhido para a projectada colonia deveria reunir as seguintes vantagens: fácil localização, fertilidade. abundância de pedra, madeira, água, e ficar próximo do porto de Mossãmedes. O sítio pra a povoação deveria ser espaçoso de modo que pudessem ser levantados não menos que 400 fogos (artº 8). Nos casos em que o local escolhido não viesse ser litoral, o Governador deveria acautelelar as deslocações para que esta se fizesse sem danos e os colonos chegassem de saúde ao destino (art 9). Deveriam pra resguardo dos colonos ser construidos os primeiros alojamentos em barracas de pau-pique, cobertasde palha e amarradas com «mateba» ou cordas de cscas de árvores. empregando-se também bordões e ripas, conf. artº 11º. Durante os primeiros 6 meses o Governador deveria dirigir-se ao Governador Geral ou ao de Benguelaa solicitar a requisição de farinhas e de legumes para os colonos, bem como carne e peixe em rações fixadas em tabela própria que modificaria seguindo s circunstâncias correntes (artº 17º). Ao Governador caberia promover as construções a levantar pelos particulares, fornecendo-lhes a cal que os fornos publicos pudessem ministrr a preços por que ficavam à Fazenda. (artº 3º). Seria dado ao colono chefe do fogo ou cabeça de casal uma porção de terreno para edificar a sua casa ou barraca habitável, direito que caducaria se no prazo de 5 anos esta não tivesse sido concluida . (artº 14. nº 8).

O governador António Sérgio de Sousa presidiu à sessão de instalação do Conselho Colonial de Mossamedes, criado pelas Instruções Ministeriais, de 26 de Abril de 1849, e ainda à 2ª e 3ª sessões do mesmo Conselho a 21 de Outubro e a 5 de Abril de 1850. No decurso da sua vigência coadjuvou, desveladamente os antigos colonos no início da colonização, após a resposta do governo às pretensões de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro na concessão de facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África na sequência da revolução praieira em Pernambuco (Brasil) : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objectos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colónia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros  meses.
 
Boletim do Conselho ultramarino, Volume 1 
By Portugal, Portugal. Conselho Ultramarino (pg 660)




A CHEGADA A MOÇÂMEDES


Quando a barca brasileira "Tentativa Feliz" chegou a Moçâmedes, capitaneada pelo Brigue da Marinha Portuguesa "Douro", para uns a 03 de Agosto de 1949, para outros a 04 de Agosto do mesmo ano (1), a povoação era habitada por meia dúzia de feitores europeus, bastantes naturais e escravo., que receberam os colonos com grandes manifestações de regozijo, como descreveu o momento o encarregado do Governo Geral major Ferreira Horta:

 "...Os moradores de Mossâmedes receberam os colonos, como se recebe hóspedes,  amigos e irmãos tão úteis: Portugueses que vem regar com seu suor as férteis e incultas terras d'Africa. (In  Boletim Oficial de Angola, n 204, de 25 Agosto 1849).

Da  parte daqueles que acabaram de chegar a satisfação não foi menor. Tudo estava preparado para os receber. Depois de tão árdua e fastidiosa viagem, constituiu apreciável prémio o terem encontrado, dentro das parcas possibilidades de que dispunha, instalações para se albergarem.

A 5 de Outubro começaram a desembarcar as mercadorias dos navios, tendo todos, moradores, colonos e tripulação, ajudado nas operações de descarga, bem como na distribuição das pessoas pelos alojamentos, e na armazenagem dos viveres que restaram da viagem. 

Enquanto junto à praia se procedia a esta azáfama os encarregados da recepção e do Presidio acompanharam Bernardino Abreu e Castro às margens do rio Bero, onde depois de elucidarem o director dos colonos, apreciaram, e esboçaram em conjunto, os moldes em que deveria decorrer a repartição do terreno pelos vários elementos componentes da colónia.

Na mente do grande chefe o tempo não poderia correr inutilmente, As terras ansiavam por quem delas cuidasse e os homens aspiravam a recuperar todas as despesas até então encetadas.

A 16 de Janeiro partiram com destino a Luanda, a barca e o brigue, depois de terem cumprido a missão que lhes havia sido anteriormente destinada. A bordo do Brigue seguira Bernardino Abreu e Castro. O intuito era de pessoalmente conferenciar com Adrião Acácio da Silveira Pinto, Governador Geral, e nessas conversações assentarem ambos sobre medidas a tomar.

António Sérgio de Sousa, governador nomeado para o distrito de Moçâmedes  já se encontrava em Luanda, o que proporcionou um acerto na coordenação dos objectivos a levar a cabo no estabelecimento acabado de nascer.

A permanência de Bernardino em Luanda prolongou-se por quase dois meses, tempo que foi absorvido pelas reuniões conjuntas de trabalho e por proveitosa deslocação ás margens do Cuanza , onde teve o ensejo de se inteirar de problemas ligados à agricultura e à região do Bengo para conhecer os moldes como se cultivava a cana-de-açúcar, donde por sinal, colheu grande quantidade de sementes e plantas de cana sacarina para transplantação. Regressou a Luanda impressionado com aquelas regiões porquanto:

"Nunca vira vegetação mais pomposa do que a das extensas margens d'aquelles rios, nos quaes quasi sem cultura vegetavam admiravelmente a cana do assúcar, o milho, o feijão, o guandu, a bananeira, o ananaz, o dendém (...), e outras árvores de fructo, de madeira e de lenhas.

 Tomando contacto com a realidade angolana, numa observação que apesar de rápida o seu espírito perspicaz abarcou, Bernardino  Freire conseguiu em poucos dias de estada na capital tirar algumas conclusões para tentar destruir o pensamento dos que vivem na Europa, e que de África só conheciam a insalubridade do clima. Para tal preconizava que, por meio de habitações, cómodas, pela destruição dos lugares pantanosos, pelo fogo que devasta ervas daninhas e purifica a atmosfera, aliada a medidas de elevação humana, citando como exemplo o acabar com excesso de bebidas alcoólicas, e uma alimentação racional, bem como " o uso de banhos de água doce", os homens poderiam viver em África do mesmo modo como o faziam nas metrópoles europeias.

Antes de regressar a Moçâmedes, pede ao director da colónia, ao Governador Silveira Pinto,  que mandasse vir do Egipto sementes de algodão, uma vez que pensava ser o clima do sul propício a tal cultura, pedido que foi satisfeito. E pouco depois, na companhia de Antonio Sérgio de Sousa, seguiu com destino a Moçâmedes, onde desembarcaram a 12 de Ourubro de 1949.


A FIXAÇÃO DA COLÓNIA

Chegado a Moçâmedes, António Sérgio de Sousa tentou sempre cumprir o programa que previamente lhe fora imposto pelo Ministério da Marinha e Ultramar, bem como dar largas à sua imaginação nos pontos que durante execução prática era de incongruente resolução.


As "instruções de 26 de Abril de 1849" que lhe foram entregues quando da sua nomeação em Lisboa, preconizavam a criação de um Conselho Colonial, que coadjuvaria o governador no desempenho das duas funções. Este orgão seria composto por quatro elementos eleitos pelos colonos e era presidido pelo governador, que tinha voto de qualidade.  Deveria reunir-se sempre que surgissem casos de guerra;  nas relações externas com os sobas da região;  na administração da justiça, criando na ocasião própria um lugar de juiz ordinário, bem como na nomeação, substituição e exoneração de funcionários subalternos. Além destes pontos que obrigatoriamente dariam origem a uma reunião, o Governador tinha poderes para convocar o conselho colonial sempre que achasse conveniente.                                                                            

Segundo uma carta assinada por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, e datada de 18 de Outubro  daquele ano  , nessa votação saíram eleitos , alem dele,  os colonos José Leite de Albuquerque , José Maria Barbosa, e Manuel José Coelho de Freitas. Tendo o último recusado o lugar alegando falta de saúde foi substituído por José Gonçalves da Silva Doares.  (Conf Boletim Oficial de Angola 220 de 15 de Dezembro 1919)

Quatro à chamada de Bernardino Freire para ocupar o lugar no conselho colonial, duvidamos que tivesse sido feita por votação. No entanto, por falta de documentos, como por exemplo a acta da sessão eleitoral não me é possível adiantar mais, A nossa dúvida apareceu ao analisarmos as instruções" fornecidas a António Sérgio. Ali verificamos que em artigo transitório» se nomeava como membro que necessariamente tinha de figurar no sitio conselho Abreu e Castro. Será que Sérgio de Sousa quis correr o risco de uma votação para se certificar da popularidade de Bernardino, bem como na confiança que nele depositavam os seus colonos  Duvidamos que se tivesse processado assim.

Este orgão administrativo que foi o Conselho Colonial, criado em Moçâmedes em 1849, fora sem dúvida a substituição primária que precedeu o aparecimento da Câmara Municipal de Moçâmedes, a terceira mais antiga edilidade da província de Angola.


COMO DECORRERAM OS PRIMEIROS TEMPO DA NOVA COLÓNIA

Segundo as «instruções» de António Sérgio de Sousa e o Conselho Colonial começaram a sua actividade pela divisão e a distibuição dos terrenos aos colonos agricultores. Este acto que poderia ter originado uma onda de descontentamento, foi bem aceite por todos, uma vez que na mente de cada um dominava a ideia de que os terrenos possuíam as condições óptimas para laborar as culturas que desejavam. Presidiu à divisão um elevado espirito de boa fé, e só o futuro pôde dizer quem na realidade, uns tinham sido beneficiados pela sorte, enquanto outros por mais esforços que envidassem, tiveram sempre como aliada a dura adversidade.

A várzea do rio Bero, a poucos quilómetros da foz, foi toda retalhada e entregue a cada um dos colonos, com a obrigação de a arrotearem e prepararem para a cultura da cana-de-açúcar e produtos hortícolas.  Como afirmou Bernardino Freire, Moçâmedes foi nos primeiros dias  um «bolício» , onde se edificavam casas, se arroteavam terras, se montavam olarias, sempre com a  colaboração de escravos, que, por entre os colonos, conduziam em carros de bois «caibro, junco,e táboa» à medida das solicitações.


A 1 de Outubro de 1849, no local dos Cavaleiros, onde Bernardino Abreu e Castro iria construir a sua fazenda agrícola, deu-se a primeira manifestação de regozijo, concentrando-se ali colonos e autoridades administrativas para assistirem o lançamento à terra moçamedense da primeira "semente de cana".

Esta foi a espécie agrícola em que todos, colonos e entidades governamentais, depositavam as grandes esperanças, mas o tempo haveria de demonstrar que não seria a ideal.

O 1º de Janeiro passado pelos colonos eram terras angolanas rompia, quando a colónia foi atacada pelos povos do Nano, do Quilengues e do Dombe Grande, o que veio aumentar ainda mais as dificuldades.  Não só se tinha que encetar um esforço em prol da agricultura, como ainda resguardar aqueles que trabalhavam, das investidas dos povos vizinhos, que se rebelavam muitas vezes comtra a presença dos europeus.

"Não esperem que lhe hei-de contar maravilhas em respeito à Colónia, sobre que estão fitos os olhos dos portugueses que lá andam por essa América, e que estão á mira do modo como esta se estabeleceu, para virem assnarar-se-lhe, ou estabelecer outras. »
 In Crónica de Bernardino Abreu e Castro datada de 10 de Dezembro de 1849 in Boletim Oficial de Angola n 229 de 16 Fevereiro 1850.


Estas palavras de Abreu e  Castro são demonstrativas das grandes expectativa que rodeava a colónia. Se deste ensaio surtissem os efeitos por todos almejados, o exemplo poderia ser repetido, dando origem a um afluxo de imigração notável, com o consequente povoamento e desenvolvimento da possessão. Arrancando ao seu pensamento aquela ideia, prossegue Adreu e Castri:´"Não serei como frade, que querendo convencer um rapaz para abraçar a vida monástica, lhe dizia que no seu convento havia  dous entrudos, ocultando-lhe que tão bem havia dias quaresmas .
 In Crónica de Bernardino Abreu e Castro datada de 10 de Dezembro de 1849 in Boletim Oficial de Angola n 229 de 16 Fevereiro 1850.

Com tão engenhosa comparação pretende o autor ficar ilibado de futuras acusações, retratando sempre quanto possível as duas fases da tarefa a desempenhar.

 





 



OUTROS GOVERNADORES DE MOSSÂMEDES (posteriormente Moçâmedes)
lista retirada daqui : www.namibe.gov.ao/Institucionais/Historico 



Foram governadores de Mossâmedes no primeiro decénio da sua fundação (1949-1859):

O capitão de Fragata António Sérgio de Sousa (1849/1851);
O major José Herculano Ferreira da Horta (1851-1852):
O capitão-tenente Carlos Frederico Botelho de Vasconcelos (1852-1854);
O tenente António do Canto e Castro (1854);
O capitão Fernando da Costa Leal (1854-1959)


O major José Herculano Ferreira da Horta (1851-1852) -Governou o distrito apenas 14 meses, pois que, tendo tomado posse do cargo a 10 de Agosto de 1851 deixou de o exercer em 3 de Outubro de 1852.- Presidiu, com notável zelo, à 5ª, 6ª e 7ª sessões do Conselho Colonial Português.

O capitão-tenente Carlos Frederico Botelho de Vasconcelos (1852-1854); -Assumiu a administração do Distrito em 3 de Outubro de 1852.-Desenvolveu rigorosa e severa fiscalização, escreve Brito Aranha, sobre os rendimentos da colónia e sobre os objectos da fazenda nacional, que, naquela época, eram escassíssimos, mas também conseguiu, de acordo com o Governo Geral da Província, e, tendo para isso as necessárias ordens do Governo da Metrópole, que cessassem os abonos que os colonos recebiam,e que, alimentando a ociosidade de muitos deles, atrasavam consideravelmente o desenvolvimento dos trabalhos agrícolas». (Memórias Histórico Estatísticas).

A acção do Governador teve bons resultados uma vez que fez regressar ao trabalho aqueles que, ante os infortúnios dos primeiros tempos, dele se iam afastando, o que os beneficiou e beneficiou o Distrito.

O tenente António do Canto e Castro (1854) Apenas geriu a administração do Distrito por 23 dias de 04 de Fevereiro de 1854, data da sua posse, até 26 do mesmo mês e ano.

Bibliografia: Manuel Júlio de Mendonça Torres
«Moçâmedes nas fases de origem e da primeira organização»,
1º volume. Agencia Geral do Ultramar


Histórico dos Governadores de Moçâmedes (hoje Namibe)

De 1849 até 1851 António Sérgio de Sousa

De 1851 até 1852 José Herculano Ferreira da Horta

De 1852 até 1854 Carlos Botelho de Vasconcelos

Em 1854 António do Canto e Castro

De 1854 até 1859 Fernando da Costa Leal;

De 1859 até 1861 António Joaquim de Castro

De 1861 até 1863 João Jacinto Tavares

De 1863 até 1866 Fernando da Costa Leal

Em 1866 Alexandre de Sousa Alvim Pereira

De 1866 até 1870 Joaquim José da Graça

De 1870 até 1871 Estanislau de Assunção e Almeida

De 1871 até 1876 Lúcio Albino Pereira Crespo

Em 1876 Francisco Teixeira da Silva

De 1876 até 1877 José Joaquim Teixeira Beltrão

De 1877 até 1878 Francisco Augusto da Costa Cabral

Em 1878 Sebastião Nunes da Mata

De 1878 até 1879 Francisco Ferreira do Amaral

De 1879 até 1880 Sebastião Nunes da Mata

Em 1880 José Bento Ferreira de Almeida e Sr. João António das Neves Ferreira

De 1880 até 1886 Sebastião Nunes da Mata

De 1886 até 1889 Álvaro António da Costa Ferreira

Em 1889 Ventura Duarte Barros da Fonseca

De 1889 até 1892 Luís Bernardino Leitão Xavier

De 1892 até 1893 Martinho de Queirós Montenegro

De 1893 até 1895 Júlio José Marques da Costa

De 1895 até 1896 João de Canto e Castro Antunes

De 1896 até 1897 João Manuel Mendonça e Gaivão

Em 1897 Sr. João Manuel Pereira da Silva

De 1897 até 1899 Francisco Diogo de Sá

De 1899 até 1902 José Maria d'Aguiar

Em 1902 Sebastião Corrêa de Oliveira

De 1902 até 1903 João Augusto Vieira da Fonseca

De 1903 até 1904 Viriato Zeferino Passaláqua

De 1904 até 1905 José Alfredo Ferreira Margarido

De 1905 até 1907 José Rafael da Cunha

De 1907 até 1908 António Maria da Silva

De 1908 até 1910 Alberto Carolino Ferreira da Costa

Em 1910 António Brandão de Mello Mimoso

De 1910 até 1912 Caetano Carvalhal Corrêa Henriques

De 1912 até 1914 Henrique Monteiro Corrêa da Silva

Em 1914 Jose Monteiro de Macedo

De 1914 até 1916 Alfredo de Albuquerque Felner

De 1916 até 1918 José Inácio da Silva

De 1918 até 1919 António Dias

De 1919 até 1922 José Manuel da Costa

De 1922 até 1924 Alberto Nunes Freire Quaresma

De 1924 até 1926 Eng.º Artur Silva

De 1926 até 1928 António Augusto de Sequeira Braga

De 1928 até 1929 Francisco Martins de Oliveira Santos;

Em 1929 Alcino José Pereira de Vasconcelos

De 1929 até 1930 António Augusto de Sequeira Braga

Em 1930 José Maria de Seita Machado; Sr. Carlos Ludgero Antunes Cabrita; Dom António de Almeida Capitão; Sr. Alberto Nunes Freire Quaresma

De 1930 até 1935 José Pereira Sabrosa

Depois de 1935 houve uma interrupção provocada por razões de divisão administrativa tendo a governação sido retomada em 1956.

De 1956 até 1960 Vasco Falcão Nunes da Ponte

De 1960 até 1969 José Luís Henriques de Brito

De 1969 até 1970 Rogério de Abreu Amoreira Martins

De 1970 até 1971 Agostinho Gomes Pereira

De 1971 até ... Amândio José Rogado


Vigário da Vara e pároco da freguesia de Santo Adrião da Vila de Mossãmedes no século xix







No Caderno da Cidade de Mossâmedes (4 de Agosto 1849/1991), podemos ler:

Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa
, mais conhecido, simplesmente, por Padre Rodolfo. Vigário da Vara e pároco da freguesia de Santo Adrião da Vila de Mossãmedes. Esclareceu, numa interessante conferência, proferida em 1877, perante a Sociedade de Geografia, a qualificação de «Sintra de África» dada à Vila.

Ainda neste caderno transcrevem-se as seguintes palavras do cónego Rodolfo de Santa Brígida e Sousa nessa notável conferência proferida em 1877 perante a Sociedade de Geografia, sobre a qualificação de Sintra de África, outorgada à vila de Mossãmedes:


«Hoje (1877), que são decorridos trinta e oito anos depois da chegada dos primeiros colonos... admira-se a sua descendência que vai em pleno desabrochar da segunda geração, pela robustez e beleza que apresenta , graças á sua aclimatação se haver operado em favoráveis condições evolutivas» (Vol l, pag. 211).


Em 1876, declarava a folha oficial da província haver sido professor primário em Mossãmedes o padre Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, nomeado por Portaria nº. 494 de 4 de Novembro de 1876 para ocupar a vaga em razão da transferência de Eduardo Campos e Andrada para idêntico lugar em Benguela.

Existem referências sobre o Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, de ter exercido funções de professorado tendo no ano de 1881 efectuando a propositura de vários alunos tendo sido "geral o regozijo, ao ver o bom resultado obtido e o brilho das provas prestadas pelos examinandos, o que demonstrava, na opinião dos assistentes, a solicitude do professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa". 

Na acta da sessão extraordinária respectiva salientava-se: 

"Submetendo-se a exame alguns alunos mais adiantados, que frequentam a aula de instrução primária, a cargo do pároco, o Governo, a Câmara e principalmente os chefes de família poderiam avaliar a maneira como se desempenhavam naquela escola os difíceis deveres do magistério e, na hipótese de que os examinandos fornecessem a prova evidente, dos bons métodos e zelo empregados pelo professor (...)

«No dia 1 de Outubro de 1883, realizaram-se exames de instrução primária em Mossâmedes. O respectivo júri era constituído por António Acácio de Oliveira Carvalho, que deveria ser o presidente por o seu nome vir indicado em primeiro lugar, sendo vogais Menandro José Maria Guerra e o professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. (...)
 

Esta acta dá-nos informações curiosas e preciosas quanto à forma como se processava o exame. Conclui-se que se adoptou um sistema muito racional e mesmo bastante moderno. No entanto, pode pensar-se se estaria bem enquadrado na legalidade. Esteve presente o Governador do Distrito, a quem competia nomear o júri! Em face dos resultados, a Câmara não se negou a elogiar abertamente o zelo e a dedicação do professor primário e pároco de Moçâmedes, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa.


Ainda sobre Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, vamos encontrar, da autoria de Manuel Júlio de Mendonça Torres referências a um relatório sobre a instrução pública apresentado alguns anos depois, e assinado pelo Governador Ferreira do Amaral, à época governador do Distrito, que informava estar a instrução em Mossâmedes cometida ao pároco (Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa) e a uma senhora (Isabel Maria Cardoso), bastante desqualificada. Por essa altura, os «métodos de ensino eram classificados como verdadeiramente primitivos e a frequência dos alunos pouco garantida, de forma que, onde havia tantas crianças, (em Mossâmedes), a educação estava descuradíssima». Também o mesmo relatório anunciava que o pároco era índio, e que «por isso, não tinha o prestígio que poderia ter se fosse europeu, aqui (em Mossâmedes), onde a população era quase toda branca. No mesmo relatório acrescentava o Governador que «a índole, porém particularmente tímida da raça a que pertencia, lhe tirava a iniciativa que o único representante da classe eclesiástica deveria possuir» . 
 
Ferreira do Amaral lembrava ainda para a substituição do pároco a obtenção de um pároco europeu no colégio Sernache, que tivesse o ónus do ensino, pretextando como motivo a substituição o vaticínio do seu desprestígio. Acirrando ainda mais o polémico relatório, a increpação feita no o Jornal de Mossâmedes com ataques violentos e intrigas contra a pessoa do padre Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, que Manuel Júlio de Mendonça Torres considera de mesquinhos e sem fundamento, aos quais se opunham o testemunho dos contemporâneos e as altas distinções outorgadas por individualidades eminentes da hierarquia laica e religiosa.

Segundo referido no 2º volume, pg.246 do livro de Manuel Júlio de Mendonça Torres, no tempo deste pároco houvera em Mossâmedes melhorias substanciais no serviço escolar e apesar disso haviam surgido conjuras contra o pároco ainda que sem graves consequências.
                                    


Artigo de José O CÓNEGO RODOLFO
  porJosé Julio Zuzarte Mendonça

Um dos padres mais simpáticos do clero ultramarino. Nobreza de carácter, probidade inconcussa, educação esmeradíssima, lhano e afável para todos, nem fanático intransigente, nem profano que escandalize, O cónego Rodolfo, reunindo em sí todos estes predicados, tem justamente captado a consideração e o respeito dos seus paroquianos.

Conheço-o há seguramente doze anos, e nunca me constou que se lhe atribuísse uma única má acção. Recebido com o mesmo agrado e até com intimidade por muitas famílias desta Vila, nenhuma ainda se arrependeu de o considerar quase que uma pessoa da casa. Pelo contrário, o seu espírito ilustrado, a sua conversação agradável, fazem ambicionada a sua convivência. De notável aptidão na divina arte da música, tem-se prestado com o máximo interesse em ensiná-la, com muito proveito dos seus discípulos.

Duas das filhas e um dos filhos de quem escreve estas despretensiosas linhas receberam durante algum tempo as suas lições, e, se não chegaram a professores, conseguiram o bastante para honrarem a proficiência do mestre.

Tem-se-lhe radicado a tal ponto no ânino generoso o amor por esta terra, que estremece como se fora sua, quem, achando-se na Metrópole, apresentou-se, perante a Sociedade de Geografia, e, na presença de um auditório selecto, expôs, num bem elaborado discurso, justamente aplaudido, o modo de ser colónia, os defeitos a corrigir, os remédios a aplicar, indicando, com o máximo desassombro os erros que têm obstado ao seu mais rápido desenvolvimento.

Mossâmedes, pois, constituiria uma aberração repugnante, se deixasse de reconhecer no cónego Rodolfo um cidadão prestimoso digno de todo o elogio.

Releve-me a muita modéstia do digno sacerdote, se trago a público esta manifestação sincera do que dele pensa quem vive aqui há trinta e quatro anos, quem tem constituida aqui família, e quem provavelmente nunca mais daqui sairá.

ass) José Julio Zuzarte Mendonça
Bibliografia consultada:
«Moçâmedes» de Manuel Julio de Mendonça Torres
                                                                                            ------------------

Ainda sobre o Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa

A Câmara Municipal de Moçâmedes, na sua sessão do dia 10 de Agosto de 1881, resolveu chamar a atenção dos responsáveis para o que o Boletim Oficial de Angola publicou no dia 5 de Fevereiro desse ano. Tratava-se da portaria régia de 4 de Novembro anterior, em que se recomendava ao governador-geral a fundação de estabelecimentos para a educação religiosa, literária e profissional dos serviçais da vila de Mossâmedes. A Câmara tomava a iniciativa de pedir que lhe fosse indicado o montante da contribuição com que poderia contar para tal fim, e se poderia encarregar vários mestres artistas, muito hábeis, da regência e organização de uma escola profissional, estabelecendo uma aula de instrução primária e escolhendo na vila pessoa idónea para a reger. Além disso, pensava-se em contratar no reino um eclesiástico a quem se entregasse a educação religiosa dos indígenas que residiam na povoação.

(...)

Realizaram-se em Moçâmedes, em 3 de Outubro de 1881, provas de exame de instrução primária, tendo sido propostos cinco alunos. Na falta de júri legalmente nomeado, os exames foram feitos perante a Câmara Municipal, assistindo ao acto o governador do distrito, Sebastião Nunes da Mata, diversos funcionários públicos e muitas outras pessoas. Foi geral o regozijo, ao ver o bom resultado obtido e o brilho das provas prestadas pelos examinandos, o que demonstrava, na opinião dos assistentes, a solicitude do professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. Na acta da sessão extraordinária respectiva salientava-se: 


"Submetendo-se a exame alguns alunos mais adiantados, que frequentam a aula de instrução primária, a cargo do pároco, o Governo, a Câmara e principalmente os chefes de família poderiam avaliar a maneira como se desempenhavam naquela escola os difíceis deveres do magistério e, na hipótese de que os examinandos fornecessem a prova evidente, dos bons métodos e zelo empregados pelo professor" 

Esta acta dá-nos informações curiosas e preciosas quanto à forma como se processava o exame. Conclui-se que se adoptou um sistema muito racional e mesmo bastante moderno. No entanto, pode pensar-se se estaria bem enquadrado na legalidade. Esteve presente o governador do distrito, a quem competia nomear o júri! Em face dos resultados, a Câmara não se negou a elogiar abertamente o zelo e a dedicação do professor primário e pároco de Moçâmedes, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa.

Em Janeiro de 1882, era publicada a notícia de que tinha sido instalada, em Mossâmedes, a Escola Luz Africana. Assistiu à cerimónia da sua abertura e inauguração grande número de pessoas da cidade. Salientava-se que era a povoação de Angola que mais se tinha interessado, até então, pelo desenvolvimento da escolaridade, embora os resultados obtidos não satisfizessem inteiramente a boa vontade das pessoas que para tal se não poupavam a esforços. O professor do novo estabelecimento de ensino era Francisco Rodrigues Pinto da Rocha Júnior. A comissão constituída para levar a cabo esta iniciativa tinha como presidente Francisco José de Almeida; os restantes vogais eram Joaquim de Paiva Ferreira e o professor da escola. A iniciativa pertencera à Loja Luz Africana, e por isso pode admitir-se que tivesse origem maçónica. Matricularam-se vinte e oito alunos, mas em Junho estavam já a frequentá-la trinta e uma crianças. 

No dia 1 de Outubro de 1883, realizaram-se exames de instrução primária em Moçâmedes. O respectivo júri era constituído por António Acácio de Oliveira Carvalho, que deveria ser o presidente por o seu nome vir indicado em primeiro lugar, sendo vogais Menandro José Maria Guerra e o professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. Além da do Estado, continuava em actividade a que a Loja Luz Africana estabelecera e em que continuava a ensinar Francisco Pinto da Rocha. Este agente do ensino anunciava que recebera e tinha à venda o livro intitulado Mestre Popular ou seja o Francês sem Mestre. O ensino deste idioma interessava bastante à população de Moçâmedes, segundo diversos indícios que pudemos encontrar. 

Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes. Isso indica que a instrução, de facto, merecia grande interesse aos seus habitantes. O júri era constituído por Dr. João Ferreira Duarte Leitão, Dr. Manuel Mouzaco, e o professor e pároco, que continuava a ser o P. Diogo Damião; tinha sido expressamente nomeado pela portaria do governador do distrito, no dia 1 desse mês. Além das provas de ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia exame de Francês, e era exactamente a filha do governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata. No dia seguinte, efectuou-se uma sessão extraordinária na Câmara Municipal, com a finalidade de entregar aos alunos distintos os prémios pecuniários que o governador-geral de Angola, Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, concedera do seu bolso particular. Era isso o que se anunciava. O prémio referido, de noventa mil reis, foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno.  


A filha do governador foi também premiada. O coronel Sebastião Nunes da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à capela de Nossa Senhora da Conceição, da Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. 

Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Moçâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam...(1) in.  http://www.geocities.com/athens/troy/4285/ensino12.htlm


                                                                            :::::::::::::::::::::
Registámos notícias referentes à escolaridade, em Moçâmedes, que devem ser mencionadas. Existia nesta cidade, em 1876, uma escola de instrução primária para o ensino de crianças indígenas, estabelecida por iniciativa e a expensas de particulares. Foram seus professores Casimiro da Silva e Artur Gustavo de Portugal Prayce. A Câmara Municipal de Moçâmedes, na sua sessão do dia 10 de Agosto de 1881, resolveu chamar a atenção dos responsáveis para o que o Boletim Oficial de Angola publicou no dia 5 de Fevereiro desse ano. Tratava-se da portaria régia de 4 de Novembro anterior, em que se recomendava ao governador-geral a fundação de estabelecimentos para a educação religiosa, literária e profissional dos serviçais da vila de Moçâmedes.

A Câmara tomava a iniciativa de pedir que lhe fosse indicado o montante da contribuição com que poderia contar para tal fim, e se poderia encarregar vários mestres artistas, muito hábeis, da regência e organização de uma escola profissional, estabelecendo uma aula de instrução primária e escolhendo na vila pessoa idónea para a reger. Além disso, pensava-se em contratar no reino um eclesiástico a quem se entregasse a educação religiosa dos indígenas que residiam na povoação.

Há vários indícios de, no final do século passado e princípio do actual, se praticar em Moçâmedes, embora de forma pouco saliente, um pouco de segregação racial, o que se não verificava nas demais localidades do território. Ignoramos se esta mentalidade veio do Brasil, trazida pelos colonos que de lá partiram para fundar esta povoação. Recordemos que eles tiveram de deixar o litoral brasileiro por motivo de fortes manifestações xenófobas. Também poderia estar a sentir-se a influência da proximidade da Namíbia e da África do Sul, onde já se praticava a discriminação.

Realizaram-se em Moçâmedes, em 3 de Outubro de 1881, provas de exame de instrução primária, tendo sido propostos cinco alunos. Na falta de júri legalmente nomeado, os exames foram feitos perante a Câmara Municipal, assistindo ao acto o governador do distrito, Sebastião Nunes da Mata, diversos funcionários públicos e muitas outras pessoas. Foi geral o regozijo, ao ver o bom resultado obtido e o brilho das provas prestadas pelos examinandos, o que demonstrava, na opinião dos assistentes, a solicitude do professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. Na acta da sessão extraordinária respectiva salientava-se:

"Submetendo-se a exame alguns alunos mais adiantados, que frequentam a aula de instrução primária, a cargo do pároco, o Governo, a Câmara e principalmente os chefes de família poderiam avaliar a maneira como se desempenhavam naquela escola os difíceis deveres do magistério e, na hipótese de que os examinandos fornecessem a prova evidente, dos bons métodos e zelo empregados pelo professor"

Esta acta dá-nos informações curiosas e preciosas quanto à forma como se processava o exame. Conclui-se que se adoptou um sistema muito racional e mesmo bastante moderno. No entanto, pode pensar-se se estaria bem enquadrado na legalidade. Esteve presente o governador do distrito, a quem competia nomear o júri! Em face dos resultados, a Câmara não se negou a elogiar abertamente o zelo e a dedicação do professor primário e pároco de Moçâmedes, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa.



Luz Soriano, promotor da colonização de Mossãmedes

 


Simão José da Luz Soriano, num quadro que no tempo colonial se encontrava exposto
no Salão Nobre dos Paços do Concelho do Distrito de Moçâmedes, em Angola.


Simão José da Luz Soriano (n.2 de setembro de 18059, Bacharel formado em medicina pela Universidade de Coimbra, oficial-mor graduado no Ministério da Marinha, chefe da secção de marinha, deputado, escritor, historiador e jornalista, etc., foi um esforçado e caloroso promotor da colonização de Moçâmedes (Mossãmedes, hoje cidade do Namibe). De origem humilde, aos dois anos de idade ficou sem pai, que emigrou para o Brasil e dele não mais se tivera noticias, tendo sua mãe carente de meio, conseguido que fosse admitido na Casa Pia de Lisboa, onde cursou e concluiu os estudos de instrução primaria. Estava-lhe então destinada a aprendizagem dum ofício mecânico, mas o futuro historiador, que já nesse tempo mostrava certa força de vontade, pôde conseguir, depois de ter estudado gramática latina, matricular-se na antiga  Academia Real de Marinha, onde logo no exame do primeiro ano foi contemplado com o prémio pecuniário, endo o administrador da Casa Pia proposto ao intendente geral de polícia, o ingresso  do jovem na Universidade de Coimbra a expensas do cofre da intendência, no que obteve a concordância do então ministro do reino, marquês de Palmela. Após os exames preparatórios, matriculou-se no primeiro ano de matemática como estudante ordinário, e no de filosofia como estudante obrigad tendo concluido o primeiro e o segundo ano destas faculdades, e premiado no segundo ano de matemática. Continuado o terceiro do curso, 1827 a 1828, foi obrigado a interromper os estudos, devido à guerra civil que então se declarou, tendo rebentado no Porto em 16 de maio de 1828 o grito liberal, proclamando pela segunda vez os princípios liberais de 1820.  Emigrou em 1828 quando do golpe miguelista devido, tendo seguido em 1829 para a Terceira - quartel general do exército liberal - onde exerceu o jornalismo político. Mais tarde, em 1832, regressou a Portugal com D.Pedro IV, inserido no grupo dos "Bravos do Mindelo",  e iniciou uma longa e relevante carreira na Secretaria da Marinha e Ultramar. Em 1842 voltou à Universidade, e formou-se em  bacharel na Medicina, obtendo por fim informações distintíssimas em literatura.

Já desde a sua permanência na ilha Terceira, graças ao seu mérito literário, fora empregado ao serviço do ministério da Marinha, onde continuou a pertencer, e para onde voltou quando concluiu os estudos, sendo alguns anos depois nomeado chefe daquela repartição, cargo que exerceu sempre com o maior zelo e inteligência, tendo prestado os mais relevantes serviços para a organização da colónia de Moçâmedes; para se consolidar o domínio português no porto de Ambriz, de que a Inglaterra pretendia assenhorear-se. Luz Soriano fora eleito deputado pela província de Angola em 1853, sendo reeleito nas seguintes legislaturas, e sobre a referida questão pronunciou um veemente discurso, onde ficaram patentes os seus conhecimentos práticos do ultramar, sustentando os nossos direitos sobre aquela colónia, que foi publicado, além do Diário da Câmara, no Diário do Governo, de 13 de julho de 1853, e traduzido em inglês por ordem do embaixador de Inglaterra, em Portugal, que o enviou para o seu governo. Está inserto na colecção das peças oficiais, que o governo britânico anualmente publicava acerca do tráfico da escravatura, para ser apresentado no parlamento. Na referida colecção se encontra a pág. 407 do vol. de 1 de abril de 1853 a 31 de março de 1854, com o título de classe B: Correspondence with British Ministers and Agents in foreign countries, and witlh foreign Ministers in England, relating to the slave trade. A Inglaterra afinal desistiu das suas pretensões, ficando assim terminada uma pendência de tão elevado alcance.

Luz Soreano veio a ser reformado em julho de 1867, tendo-se entregue com mais afinco à vida de escritor, e sido ancarregado pelo governo  de escrever a História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal,  em 17 volumes, incluindo numerosa colecção de documentos de muito valor. A obra é dividida em 3 épocas, num toal de 17 volumes. A História do cerco do Porto, é também uma obra colossal, uma das glórias de Luz Soriano. Luz Soriano escreveu ainda a História do reinado de D. José e da administração do marquês de Pombal, 2 volumes, Lisboa, 1867; Poesias diversas de Simão José da Luz, Angra, 1832; Folhinha da Terceira para o ano de 1832, bissexto, Angra, 1832; foi editor desta publicação e um dos seus colaboradores; o barão de Humboldt, em 1836, procurou com empenho um exemplar para a biblioteca real de Berlim; “Memória sobre os sertões e a costa ao sul de Benguela na província de Angola, escrita sobre documentos oficiais, que existem na Secretaria do Estado dos Negócios de Marinha”, saiu nos Anais Marítimos e Coloniais, série 6.ª,1846; n.º 3, pág. 73 e seguintes; “Memória concernente a sustentar a opinião dos que julgam contagiosa a cólera-morbo epidémica”, saiu no Diário do Governo, de 7 de março de 1848; foi suscitada pela questão que a esse respeito se levantou nas nossas sociedades médicas, por ocasião de ser invadida a Europa segunda vez por aquela epidemia; Artigo necrológico, consagrado à memória do sr. Francisco de Assis Morais Cardoso, guarda-mor da saúde no porto de Belém, saiu no Diário do Governo, de 2 de dezembro, 1848; Outro dito à memória do conselheiro Pedro Alexandrino da Cunha, capitão de mar-e-guerra, que em 6 de julho de 1850 faleceu, sendo governador de Macau, no Diário do Governo, de 3 de outubro 1850; A Quadrilha dos Srs. António Rodrigues Sampaio, Francisco Tavares de Almeida, António Pedro de Carvalho, e António dos Santos Monteiro, ou duas cartas ao redactor da Imprensa e Lei com uma introdução sobre a defesa do deputado por Angola Simão José da Luz, Lisboa, 1854; O depoimento do Sr. oficial-mor «Cravalho» na Comissão de inquérito, acompanhado de alguns apontamentos biográficos para quem se dedicar a escrever a vida de tão notável contemporâneo, Lisboa, 1856; o comentário deste, e do antecedente opúsculo, que versam ambos principalmente sobre assuntos de interesse pessoal, acha-se nas Revelações da minha vida, do mesmo autor, de pág. 591 a 616; Necrologia do padre Inácio da Purificação, bibliotecário que foi da livraria do real Paço de Mafra; saiu no Diário do Governo de 2 de maio de 1855; Utopias desmascaradas do sistema liberal em Portugal, Lisboa, 1858; Revelações da minha vida, e memorial de alguns factos e homens meus contemporâneos, Lisboa, 1860; além da exposição verídica e documentada dos factos da vida, ligados na maior parte às vicissitudes políticas por que o país tem passado desde 1820 em diante o autor intercalou na sua narrativa alguns capítulos curiosos, e puramente históricos, que não são de certo os menos interessantes da obra, como o capitulo 3.º que de pág. 68 a 297 compreende a história antiga e moderna de Coimbra e da sua Universidade, com o catálogo completo dos reitores, acompanhado de notícias biográficas; e o capitulo 8.º, de pág. 470 a 508, contendo uma discrição geográfica das ilhas dos Açores, etc. Introdução à segunda época do estabelecimento do governo parlamentar, Lisboa, 1870; Tratado de Lourenço Marques negociado pelo sr. João de Andrade Corvo, e observações sobre o referido tratado, Lisboa, 1880; Vida do marquês de Sá da Bandeira, 2 volumes. Escreveu também O Relatório, que pela secção do ultramar o ministro da marinha apresentou às cortes em março de 1859, e várias outras peças oficiais.

A vida de Simão José da Luz Soriano decorreu sempe na mais rigorosa economia, e conseguiu reunir uma importante fortuna, endo ainda em vida doado à câmara municipal de Lisboa, das suas casas, com reserva do usufruto, para uma aula pública de instrução primária, e a quantia de 8.000$000 réis, para que a rua onde as mesmas casas estão situadas, antes rua do Carvalho, passasse a denominar-se Rua Luz Soriano.
Subscreveu várias subscriçóes nacionais, contribuiu  para o monumento erigido à memória do marquês de Sá da Bandeira, e no seu testamento dotou a Casa Pia com várias propriedades e ainda com fundos suficientes, para que entre os alunos se escolhessem três dos mais distintos em talento e aplicação, para irem com uma mensalidde, frequentar a Universidade de Coimbra,  perpetuamente, incumbindo a Misericórdia de Lisboa de fiscalizar o cumprimento das condições desse legado. Dotou também a Misericórdia de Coimbra com fundos suficiente para se escolherem três menores que manifestassem talento e dedicação ao estudo, para serem subsidiados com igual mesada, para poderem frequentar os estudos superiores. Contemplou grande número de estabelecimentos de beneficência ; deixou bastantes esmolas a  famílias pobres, e dinheiro para levantar um monumento a Afonso de Albuquerque, o que mais arde se realizou em Belém, inaugurando-se solenemente em 3 de outubro de 1902; providenciou com relação aos túmulos de Camões e Vasco da Gama, na igreja de Belém; deixou dotes para o casamento de donzelas pobres. A sua morte, em 18 Agosto 1891 foi muito sentida, e o funeral muito concorrido. À beira do túmulo, o Dr. Carlos da Costa Pereira Mendes, de Tomar, pronunciou um eloquente discurso, que o Diário Ilustrado de 21 de agosto de 1891 publicou.





Qual a relação de Luz Soriano com Moçâmedes (Mossâmedes/Namibe)?
 

Encontrava-se, pois, Luz Soriano a exercer as funções de chefe da Repartição de Angola no Ministério do Ultramar quando teve conhecimento que em 13 de Julho de 1848, o português fixado em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, tinha dirigido um Memorial ao Governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas perseguidos naquela ex-colónia pela revolução praeira, e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde tremulasse a bandeira portuguesa e onde pudessem fundar uma colónia agrícola.

Anos antes, Luz Soriano havia encontrado no arquivo da Secretaria do Ministério do Ultramar, um ofício  assinado pelo Barão de Mossâmedes descrevendo a exploração da costa e sertões meridionais da Província de Angola, assunto que lhe tinha despertado interesse, bem como as informações posteriores que recebera, provenientes dos Governadores Gerais, Manuel Eleutério Malheiros e José Xavier Bressane Leite. A
pesar da simples condição de chefe de uma Repartição do Estado, foi compenetrado da alta importância das regiões exploradas, que resolveu elaborar uma Memória descritiva do porto  de Moçâmedes (Mossâmedes-Namibe), as suas vantagens para a navegação e comércio,  a salubridade do seu clima, e a fertilidade dos sertões limítrofes,  a fim de expôr ao Ministro Visconde de Castro a necessidade de, com aquele grupo interessado de colonos, se fundar em Mossâmedes, no Sul de Angola, uma colónia agrícola, e tão activamente se empenhou junto do Ministro que este colocou a seu cargo a colonização do Distrito. 

  Os transcendentes serviços, que tenho prestado ao estado, vão ainda além do impulso, que dei á citada occupacão do Ambriz. Se valiosos foram esses serviços sobre este objecto, não o foram menos quanto á fundação, e estabelecimento da actual colonia agricola de Mossãmedes.

...Desde 1842 empreguei quantas diligencias estavam ao meu alcance para chamar sobre a antiga Angra do Negro a consideração do governo, não sendo menos, energicas as que tambem fiz para lhe attrair a do publico, excitando os especulações dos particulares, que lá se quizessem ir estabelecer. Por causa de uma memoria minha, publicada nos Annaes Maritimos e Coloniaes, escolheram muitos dos portuguezes, residentes em Pernambuco, o porto de Mossãmedes para irem nelle fundar uma colonia agricola.

 (Essa Memória foi publicada no nr. 3, 6ª série da colecção de 1846 dos Anais Marítimos e Coloniais)
 
I
nclusivamente foi Luz Soriano quem indicou ao Ministro o nome do capitão-tenente António Sérgio de Sousa para primeiro Governador, tendo coordenado e redigido as instruções por que se havia de regular o governador na Comissão para que fora nomeado.  Foi então que de Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, o Douro e o Vila Flor,  bem como instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes para Mossâmedes. 

O Diário de Pernambuco de 31 de Janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 composta por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário) comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir-se para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias, transporte para móveis e objectos pessoais, instrumentos artísticos ou agrícolas e  sementes, terrenos na colónia a ser fundada, e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Mas havia o problema  da falta de mão de obra indígena para os trabalhos na agricultura... E para o suprir, mais uma vez é Luz Soriano quem avança com a sugestão, em «Revelações da Minha Vida» , bem assim como em relação à consequente segurança da baía:


D'uma grande somma des escravos , apresados a bordo do brigue brasileiro «Caçador», ordenou-se, a 04 de Agosto de de 1844 que cincoenta casaes marchassem como libertos para Mossãmedes a fim d'alli se empregarem em trabalhos de agricultura. Mais ordenou em 22 d'aquelle mez que em Mossãmedes se organisasse uma companhia de linha debaixo do mesmo plano, que a dos mais presidios da provincia, devendo entrar nella não somente brancos, mas tambem homens de côr.  Semelhante memoria fora elaborada por mim na idéa de fazer conhecido aquelle porto, a salubridade do seu clima, e as favoraveis disposições, para assumir em breve tempo a importancia agricola, e commercial, que já hoje tem, e que dentro em poucos annos muito maior será, como promette. É portanto claro que as vantagens, que tem resultado, feio ds resuttar a Portugal da colónia agricola de Mossãmedes são filhos de muito trabalho, e de muito estudo.


Desde 1836 o General Sá da Bandeira havia decretado a abolição do tráfico de escravos que durante mais de 3 séculos constituiu uma das molas fundamentais do capitalismo mercantil, fornecendo a mão-de-obra necessária às plantações do Novo Mundo.  Seriam agora os escravos libertados desses mesmos navios de trafico clandestino, por brigadas que patrulhavam a costa, sobretudo inglesas,  a serem distribuidos,  como mão de obra semi-escrava nos trabalhos de agricultura que iam ter início no sul de Angola.

Passarei a transcrever o ofício dirigido por Luz Soriano, em 28 de Setembro de 1860, à segunda Câmara de Moçâmedes (Mossâmedes/Namibe), à qual ofereceu um exemplar da primeira edição do livro «Revelações da Minha Vida»no qual relata alguns acontecimentos de que tomou parte ou de que teve conhecimento:

Ilustríssimos Senhores Presidentes e mais membros da Câmara Municipal de Mossãmedes:

Tendo ultimamente publicado uma obra em que se contêm os principais factos da minha vida, não podia deixar de mencionar entre eles a grande parte que tomei em fazer conhecido e povoado esse vasto esperançoso distrito, e com tanta mais razão, quanto é certo que tenho visto no Boletim do Conselho Ultramarino, alguns relatórios da Câmara dessa vila, relativos ao mesmo assunto, não achei neles uma só referência aos esforços que empreguei para aquele fim, como entendia de justiça dever acontecer. Todavia não me admirei disso, porque sempre na nossa terra quem mais faz menos merece. Julgando, não obstante, que à História desse Município podia ser útil o conhecimento de que a tal respeito publiquei, tomo a liberdade de lhe oferecer o incluso exemplar da obra a que acima me referi, tendo por título «Revelações da minha vida», esperando que me relevarão a ousadia da oferta.
Tenho, pois, a honra de me assinar
De Vossas Senhorias
mtº atento, venerador e obrigado
(a) Simão José da Luz Soriano



A Luz Soriano cabem, pois, como se vê, os "louros" de "promotor da colonização portuguesa no Sul de Angola".  Deixou vasta bibliografia histórica em que avultam as obras sobre o liberalismo português, as quais, mais pelo acervo de material que reúnem do que pelo seu valor científico, são fonte indispensável para o estudo da época.



Bibliografia consultada: 
1. «O Distrito de Moçâmedes nas fases da Origem e da Primeira Organização 1845-1859» de Manuel Júlio de Mendonça Torres MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956. 
2.«Revelações da Minha Vida» de LUZ SORIANO (inclui referencias a Mossãmedes da pg 558 a 569)
O depoimento do sr. official maior Cravalho na commissão de inquerito ... 1856 Por Simão José da Luz Soriano, Antonio Pedro de Carvalho:


 


Mais sobre Luz Soreano AQUI 



Pede-se a quem eventualmente possa vir a reproduzir estes textos, o cuidado com a citação das fontes. 

 


quarta-feira, 30 de maio de 2007

Componentes da 1ª colonia de portugueses de Pernambuco (Brasil) para Mossãmedes (Angola)





























 
Joaquim de Paiva Ferreira, componente da Primeira Colónia; foi proprietário de uma fazenda situada na várzea da Boa Esperança.O nome de Joaquim de Paiva Ferreira surge mencionado como vogal de uma comissão formada em Mossãmedes para a formação da Escola Luz Africana, por iniciativa da Loja Luz Africana, de raiz maçónica, inaugurada em Janeiro de 1882. São referidos também outros nomes sonantes também a esta iniciativa e a esta Escola, tais como o do presidente da referida comissão, Francisco José de Almeida, e o do professor do novo estabelecimento de ensino, Francisco Rodrigues Pinto da Rocha Júnior (*). À cerimónia da sua abertura e inauguração teria assistido grande número de pessoas. Mossãmedes , segundo se aalientava, «era a povoação de Angola que mais se tinha interessado, até então, pelo desenvolvimento da escolaridade, embora os resultados obtidos não satisfizessem inteiramente a boa vontade das pessoas que para tal se não poupavam a esforço.»...«Matricularam-se vinte e oito alunos, mas em Junho estavam já a frequentá-la trinta e uma crianças. »
In CULTURA, EDUCAÇÃO E ENSINO EM ANGOLA: 12. APTIDÃO PEDAGÓGICA


2ª foto: José Rodrigues Pires da Maia, componente da Primeira Colónia; foi proprietário de uma fazenda na Várzea da Boa Esperança. Nasceu em 28 de Julho de 1825 e faleceu a 2 de Janeiro de de 1888. Natural do Concelho da Maia,
























António Moreira da Silva e Sousa. componente da 1ª colonia; foi proprietário de uma Fazenda situada na Várzea da Boavista.

Fotos do livro: «O Distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres.
(*) ver também AQUI
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PRIMEIRA COLÓNIA -------------------

-- COMPONENTES DO PRIMEIRO NÚCLEO DE EMIGRANTES DE PERNAMBUCO (PORTUGUESES)CHEGADOS A MOÇAMEDES NA BARCA "TENTATIVA FELIZ" EM 4 DE AGOSTO DE 1849. MUITOS DELES SEGUIRAM DEPOIS PARA A BIBALA, CAPANGOMBE, HUMPATA E HUÍLA : ...........................

--- ADELINO DUARTE DA NAZARETH - ALBERTO DA FONSECA ABREU E CASTRO - AMÉLIA PEREIRA TAVARES - ANA ANTUNES DE BARROS - ANA GUILHERMINA CAVALCANTI - ANA JOAQUINA DOS PRAZERES - ANA LUÍSA DE CASTRO ROCHA - ANA RITA DOS SANTOS (e filha MARIA) - ANTÓNIO AROUCA - ANTÓNIO COELHO DA MOTA - ANTÓNIO DA COSTA CAMPOS - ANTÓNIO COUTINHO - ANTÓNIO COUTINHO DE AZEVEDO - ANTÓNIO FERREIRA MENESES JÚNIOR - ANTÓNIO JOAQUIM DE ABREU AFONSO - ANTÓNIO JOAQUIM DE ABREU CARDOSO - ANTÓNIO JOAQUIM RODRIGUES - ANTÓNIO JOAQUIM DE SOUSA ARAÚJO - ANTÓNIO JOSÉ ALVES - ANTÓNIO JOSÉ PEREIRA DIAS GUIMARÃES - ANTÓNIO JOSÉ DOS SANTOS BRAGA - ANTÓNIO LOPES DA ROSA - ANTÓNIO MARTINS PEREIRA - ANTÓNIO MOREIRA DA SILVA E SOUSA - ANTÓNIO PEREIRA DA FONSECA (e seus filhos : ANTÓNIO e JOÃO) - ANTÓNIO PEREIRA DO NASCIMENTO - ANTÓNIO PINTO DE QUEIRÓS - ANTÓNIO ROMANO FRANCO (casado com JOANA RAQUEL DA SILVA) - ANTÓNIO DA SILVA TORRES - ANTÓNIO VASQUES (e sua filha JOSEFA) - ANTÓNIO VIEIRA COELHO - AUGUSTO CÉSAR DE ABREU MAGALHÃES - AUGUSTO LEBREMANN (casado com HELENA MARIA DA CONCEIÇÃO) - BALBINA GENEROSA DA CONCEIÇÃO - BÁRTOLO JOSÉ PEREIRA - BENTO DA PAIXÃO VASQUES - BENTO RESENDE PEREIRA - BERNARDINO ANTÓNIO RESENDE - BERNARDINO DA COSTA E SOUSA - BERNARDINO FRANCO PONTES - BERNARDINO FREIRE DE FIGUEIREDO DE ABREU E CASTRO - BERNARDINO JOSÉ BESSA - BERNARDINO JOSÉ DA SILVA - BERNARDINO VIEIRA DOS SANTOS BRAGA - CAETANO DE PAIVA FERREIRA - CLARA MARIA DO ROSÁRIO - DOMINGOS JOSÉ BRAGA - DOMINGOS LUÍS FERREIRA - ELISA DO ROSÁRIO PEREIRA - FILIPA JOAQUINA MARTINS DE LIMA - FIRMINO DE ALCÂNTARA GUIMARÃES - FRANCISCA LÚCIA DOS PRAZERES - FRANCISCA ROSA - FRANCISCO ANTÓNIO DE BRITO - FRANCISCO CECÍLIA - FRANCISCO DOMINGUES DOS SANTOS - FRANCISCO INÁCIO - FRANCISCO JOSÉ PEREIRA - FRANCISCO JOSÉ PINTO DE OLIVEIRA - FRANCISCO JOSÉ RODRIGUES DE CASTRO - FRANCISCO JOSÉ DA SILVA LOPES - FRANCISCO LEAL - FRANCISCO DE MAIA BARRETO - FRANCISCO PINTO FRANCO ROCHA - FRANCISCO RICARDO DA SILVA - FRANCISCO ROMANO MONIZ - FRANCISCO ROSA - FRANCISCO DA SILVA - FRANCISCO TAVARES - FRANCISCO TAVARES DA SILVA - GOTTLIEB HENRY (casado com JACINTA FLORA) - HELIODORO RIBEIRO DA FONSECA - HORTÊNSIA RAQUEL DA SILVA - INÁCIA UMBELINA DO ESPÍRITO SANTO - INÁCIO BRAZ DE OLIVEIRA (casado com GERTRUDES MARIA DA SILVA) - INÁCIO VASQUES - ISABEL DE ÁUSTRIA DE SOUSA PRADO - JOANA MARIA DA FONSECA - JOANA MARIA DO LIVRAMENTO - JOÃO BAPTISTA DE PASSOS - JOÃO BESSA - JOÃO FERNANDES MOREIRA - JOÃO FRANCISCO RIBEIRO - JOÃO LEITE DA COSTA BASTOS - JOÃO MARIA DA SILVA - JOÃO RODRIGUES COELHO - JOÃO SOARES BOTELHO - JOÃO VASQUES LUÍS - JOAQUIM DE ANDRADE PESSOA PIMENTEL - JOAQUIM ANTÓNIO DIAS DE CASTRO - JOAQUIM JOSÉ FERREIRA - JOAQUIM JOSÉ DA ROCHA - JOAQUIM DE PAIVA FERREIRA - JOAQUIM DA SILVA CONCEIÇÃO - JOAQUIM DA SILVA COSTA FRADELOS - JOSÉ DE ALMEIDA MONIZ (casado com JOAQUINA ROSA DE JESUS e filhas MARIA e FRANCISCA) - JOSÉ ANTÓNIO BRANCO - JOSÉ DA COSTA - JOSÉ DA COSTA GUIMARÃES - JOSÉ DO ESPÍRITO SANTO BRAGA - JOSÉ FERNANDES GUIMARÃES - JOSÉ FRANCISCO MOREIRA - JOSÉ GONÇALVES DA SILVA SOARES - JOSÉ JACINTO (casado com MARIA TEREZA JACINTO) - JOSÉ JACINTO DE MEDEIROS - JOSÉ JOAQUIM BENEVIDES - JOSÉ JOAQUIM DE MACEDO - JOSÉ JOAQUIM DE PINHO - JOSÉ JOAQUIM RODRIGUES DE CASTRO (casado com TERESA MARIA DOS PASSOS DE JESUS) - JOSÉ JOAQUIM DA SILVA PEREIRA (casado com TERESA DE JESUS) - JOSÉ LEITE DE ALBUQUERQUE - JOSÉ LEITE DA COSTA - JOSÉ MARIA BARBOSA (casado com MARIA ROSA DA CONCEIÇÃO) - JOSÉ MARTINS FERREIRA - JOSÉ MARTINS DA SILVA - JOSÉ DE MELO DA SILVA PIMENTEL - JOSÉ DE OLIVEIRA - JOSÉ PEDRO DE ALCÂNTARA - JOSÉ PEDRO LEITE - JOSÉ PEREIRA BASTOS - JOSÉ PINTO FRANCO ROCHA - JOSÉ RODRIGUES PIRES DA MAIA - JOSÉ DA SILVA MONIZ - JOSÉ DA SILVA NOGUEIRA - JOSÉ DE SOUSA - JOSÉ TRILHO FONTES - JÚLIO DA GRAÇA BASTOS - MANUEL DUARTE - MANUEL GONÇALVES BOUCINHO - MANUEL GONÇALVES FERREIRA LIMA (casado com MARIA DA CONCEIÇÃO LIMA) - MANUEL JOAQUIM DE ABREU - MANUEL JOAQUIM DA FONSECA - MANUEL JOSÉ ALVES BASTOS - MANUEL JOSÉ FERNANDES - MANUEL LUIS DE ALMEIDA - MANUEL PINTO DUARTE - MANUEL DO REGO CORREIA BARROS - MANUEL DA SILVA TAVARES - MANUEL VASQUES DA CRUZ - MANUEL VICENTE PEREIRA LAMEGO - MARIA CÂNDIDA DE AZEVEDO - MARIA CAROLINA DA CONCEIÇÃO - MARIA JOAQUINA PEREIRA DE BASTOS - MARIA MADALENA DE PAULA - MARIA DO ROSÁRIO ROCHA - MARTINHO DA SILVA PEREIRA - MINERVINA DE CASTRO FRANCO ROCHA - NARCISO FRANCISCO DE SOUSA - RITA MARIA DE JESUS - RODRIGO BARBOSA LEAL - SERAFIM BAPTISTA DA SILVA BASTOS .

José Lúcio Travassos Valdez deportado político para Mossâmedes, Moçâmedes (Namibe), Angola

Ficheiro:GP Conde de pd-bonfim.jpg
José Lúcio Travassos Valdez (1787-1862).


A deportação foi nos séculos XIX e XX uma poderosa arma ao serviço dos regimes políticos. Em todo o mundo foi evidente a utilização desta forma de migração forçada como meio para impedir a acção dos opositores políticos. A prática não é recente sendo uma constante do processo histórico desde a Grécia e a Roma antiga, e poderá ser assinalada a partir de 1797 com a ida dos opositores da Revolução Francesa para a Guiana, prática que os franceses mantiveram a partir de 1852 com as chamadas ilhas presídio, como foi o caso das ilhas do Diabo, Caiena, e de Saint-Laurent-du-Maroni. A deportação esteve pois ligado aos colonialismos.

Em Portugal a conjuntura politica oitocentista post-revolução liberal provocou migrações forçadas por força de perseguições políticas para as ilhas da Madeira, Açores, Cabo Verde e Angola, que serviram de espaços de deportação de alguns políticos e militares menos gratos aos diversos regimes políticos ou grupos com controlo do poder.

Após a independência do Brasil, em 1822, Angola tornou-se o principal destino para os condenados pelas leis lusitanas, tendo chegado a receber centenas deles anualmente. O periodo das mudanças por que passou todo o continente africano nos finais do século XIX foi marcado pelo aumento da presença europeia e a conversão económica a partir da abolição do tráfico de escravos. Em 1864, os degredados somavam praticamente um terço da população de Angola.

Os degredados não foram passivos, eles actuaram no território angolano, na politica imperial portuguesa e na História de Angola. Foram usados -grupo marginal- no contexto de transformação com o impulso crescente colonial. Foram importantes instrumentos como povoadores e tomaram parte no processo de embate e diálogo cultural intensificado na segunda metade do século XIX.

Para milhares de degredados a segunda metade do século XIX, Angola foi um lugar de castigo. As sentensas que lhes orientavam para aquela região baseavam-se na tese de que não havia pena mais severa do que forçar a moradia nos espaços conflituosos e incertos da nova «joia da corôa» após a independência do Brasil.

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José Lúcio Travassos Valdez 

Em sua juventude, o futuro Conde do Bonfim estudou  Direito na Universidade de Coimbra e participou a partir de 1808 da revolta portuguesa contra a ocupação napoleónica da sua terra. Ele serviu como voluntário sob o comando de Gomes Freire de Andrade e participou das batalhas da Roliça (17 de Agosto de 1808) e de Vimeiro (21 de  Sgosto de 1808) contra os franceses.  Até ao fim da Guerra Peninsular entrou em muitas batalhas, dando sempre provas de grande energia e coragem. Mesmo depois da expulsão dos franceses, Bonfim permaneceu no Exército português. Em Junho de 1821 foi promovido a coronel  e em 1823, quando em Trás-os-Montes se deu o levante absolutista, promovida pelo conde de Amarante, foi nomeado comandante da divisão ligeira, perseguiu os revoltosos, e entrou na Espanha chegando até Astorga, León e Gradefes. Voltando para Portugal foi dirigir uma coluna de operações na Beira, sendo escolhido para marchar à frente das forças destinadas a opor-se à insurreição de Vilafrancada liderada pelo infante D. Miguel  nos últimos dias de Maio de 1823. Tendo D. João IV  aderido ao movimento iniciado por seu filho, foi dissolvida a coluna do coronel Valdez, e este intimado a residir em Mora, de onde conseguiu, com o auxílio de alguns dos seus amigos e antigos companheiros de armas, ser transferido para Setúbal. Só depois de promulgada a Carta Constitucional de 1826, sendo ministro da guerra o general Saldanha, é que ao coronel Valdez se deu novamente o comando de um regimento. Mandado com o seu regimento e outras forças combater o movimento absolutista que aparecera em Bragança, e tendo sido obrigado pelos revoltosos, depois de duro combate, a recolher-se ao castelo da vila, viu-se forçado a capitular no dia 26 de Novembro de 1826, e foi conduzido para Miranda e depois para Moncorvo.Sabendo que existia ali um depósito de armas, tratou com os seus companheiros de se apoderar delas e tentar cruzar o rio Douro a fim de juntar-se às tropas fieis à Carta, sendo porém acossado pelas numerosas guerrilhas que então infestavam a província deTrás-os-Montes teve de atravessar a fronteira, e as autoridades espanholas  o mandaram para Salamanca e depois para Valladolid. Passado alguns dias retornou ele a Portugal, chegando a Lisboa pediu um conselho de guerra para se justificar da capitulação de Bragança, e sendo-lhe a sentença não só favorável mas até honrosa, Valdez foi pouco depois nomeado, em 7 de Abril  de 1827, governador e capitão-general da Madeira e Porto Santo. Dedicou-se então aos melhoramentos materiais e agrícolas daquelas ilhas, e nestes trabalhos ficou sabendo dos motins ocorridos em Lisboa e dos projetos do infante D. Miguel, de se apoderar da regência do reino, declarando-se rei absoluto. Valdez havia fundado um jornal,   "A flôr do Oceano", e no dia 22 de Junho publicou um manifesto protestando contra aqueles projetos, cuidando imediatamente de se prevenir para a defesa da ilha, se acaso D. Miguel a mandasse atacar pela sua esquadra, e comunicou o ocorrido ao duque de Bragança, aos ministros de Portugal e Brasil, em Londres, bem como ao embaixador desta última potência em Viena de Austria.  Pouco depois destes acontecimentos chegou à Madeira o novo capitão-general nomeado por D. Miguel, mas não tendo podido desembarcar regressou a Lisboa. Ao mesmo tempo saíram deste porto uma corveta e dois navios  de guerra para bloquearem a ilha, e por fim o capitão-general Valdez recebeu no dia 16 de Agosto  de 1828 uma intimação para se render ao comandante de uma esquadra, composta de uma nau, duas fragatas, duas corvetas, dois brigues e duas charruas. Valdez não desanimou, apesar de ver a grande força dos inimigos, tendo estes, porém, conseguido apoderar-se do porto de Machico reconheceu a impossibilidade da resistência, e entrou em acordo com o vice-almirante por intermédio do cônsul inglês residente na ilha. Partiu então para Inglaterra com sua mulher e filhos, e ali esteve lutando com inúmeras dificuldades, chegando a passar privações, até 1832,  em que partiu para a ilha Terceira no arquipélado dos Açores, e apenas desembarcou em Angra do Heroismo, foi-lhe dado o comando da 1.ª companhia do batalhão sagrado, batalhão só composto de oficiais, e com ele fez a guarda avançada do exército libertador quando marchou do Mindelo para o Porto (Desembarque do Mindelo) ; mas depois, foi mandado pelo imperador para o quartel general do duque da Terceira, para que este o informasse dos movimentos do inimigo, sendo em 21 de Julho de 1832, escolhido para ajudante general. Em 6 de Agosto seguinte foi promovido a brigadeiro, continuando como ajudante do duque da Terceira, até que e D. Pedro IV assumiu o comando-em-chefe, passando nessa ocasião Travassos Valdez a servir de chefe do estado-maior. Quando o imperador saiu do Porto ficou ali o brigadeiro Valdez como chefe do estado-maior de Saldanha, e no combate de 18 de Agosto de 1833  comandou a ala esquerda, e a 20 de Agosto seguiu para a capital com o regimento de infantaria a bordo da fragata "D. Maria II". Tomou parte na defesa das linhas de Lisboa, ficando gravemente ferido no ataque de 5 de Setembro o que o obrigou a afastar-se do serviço por muito tempo; acompanhando porém já D. Pedro para Santarém nos princípios de 1834, e regressando depois com ele a Lisboa, quando em seguida a batalha de Asseiceira se formaram dois exércitos de operações sob o comando dos generais duque da Terceira e Saldanha.
Quando da morte de D. Pedro IV e a dissolução do  estado-maior imperial, o brigadeiro Valdez ficou desempregado até que eclodiu a revolução de 9 de Setembro de 1836,  em que se proclamou uma nova constituição. No dia 16 do referido mês foi nomeado membro do Supremo Conselho de Justiça Militar. Em outubro teve o comando do exétciro do sul , que se formou para evitar a invasão dos cartistas e em 14 de Dezembro  seguinte foi nomeado comandante da 7.ª divisão militar, continuando naquela comissão. Eleito deputado no congresso constituinte de 1837  pelo distrito de Leiria, quando surgiu a tentativa cartista da Ponte da Barca, foi Travassos Valdez, já, então agraciado com o título de Barão do Bonfim, encarregado do comando em chefe das forças do sul do reino, recebendo plenos poderes sobre todas as autoridades civis e militares. Apaziguado o Alentejo, o Barão do Bonfim juntou-se a Sá da Bandeira, e em 28 de Agosto de 1837  deu aos marechais a ação do Chão da Feira, seguindo depois para Almeida  e para o Douro para conversar com o conde de Antas  que voltava da Espanha e logo a seguir terminava a revolta cartista  ganhando a ação de Ruivães. Regressando à capital, foi nomeado ministro da marinha e interino da guerra em 9 de Novembro de 1837 , conservando-se no ministério até 9 de Março de 1838, voltando a encarregar-se da pasta da guerra desde 20 de Abril até 18 de Abril de 1839 . Foi deputado nas legislaturas de 1839 e de 1840, sendo eleito por vários círculos do continente do reino, e em 1839 pelo de Goa. Em 26 de Novembro de 1840  entrou novamente no ministério, com o encargo da presidência do gabinete e as pastas da guerra, e interino da marinha e estrangeiros. Apresentou então às câmaras importantes e notáveis relatórios, tomou medidas enérgicas quando em fins de 1840 estiveram para se romper as boas relações de Portugal com a Espanha, dirigiu as negociações para o reconhecimento do governo português pela Santa Sé e pelos Países Baixos, fundou o presídio que depois se transformou na vila de Moçâmedes, e finalmente em 9 de Julho de 1841, querendo sustentar a instituição dos batalhões nacionais e encontrando resistência, pediu a exoneração em 9 de Junho de 1841, sendo substituído pelo ministério presidido por Joaquim António de Aguiar.

Em 1842 combateu sempre na câmara alta o governo de Costa Cabral, depois marquês de Tomar, até que decidida a revolta pela oposição, partiu para o Alentejo. O conde do Bonfim, título com que fora agraciado em 1838, pôs-se à frente do movimento iniciado pelo regimento de cavalaria em Torres Novas no dia 4 de Fevereiro de 1844, e com esse corpo, infantaria  e caçadores marchou sobre a Guarda. Malogradas ainda outras combinações, seguiu para Almeida e ali sustentou o cerco, emigrando depois para Espanha, França e Inglaterra. Voltou a Lisboa em 9 de Junho de 1846, vindo da Inglaterra a bordo do vapor "Mindelo", sendo em 29 de Junho  nomeado comandante da guarda nacional, e em 22 de Agosto, comandante da 1.ª divisão militar, lugar de que foi exonerado em consequência do golpe de Estado de 6 de Outubro. Partindo para Évora foi pela junta, formada nessa cidade, nomeado comandante em chefe das forças do sul e logo depois presidente da mesma junta. Na batalha de Torres Vedras em 22 de Dezembro de 1846  foi prisioneiro, sendo conduzido a Lisboa, de onde passou a bordo de diferentes navios do Estado, e por último para o brigue "Audaz", que saiu da barra em 2 de Fevereiro de 1847 com destino a Angola.
Chegando a Luanda em 25 de Março, os presos políticos foram levados para diversas prisões, mas o conde do Bonfim e dois filhos que o acompanhavam, Luís e José, ficaram a bordo da corveta "Relâmpago". Receando-se alguma revolta, a corveta levantou âncora e seguiu para Moçâmedes, onde chegou em 6 de Maio. No dia 20 deste mês começou em Moçamedes uma revolução a favor da Junta do Porto, o conde saiu no dia seguinte, com os dois filhos, para Santa Helena, a bordo de uma velha escuna, que foi abordada por um brigue de guerra inglês que nessa ocasião entrava no porto de Moçamedes, levando-a para Luanda, apresentando ao governador o conde do Bonfim e seus filhos. Desse modo, o conde foi novamente encarcerado na corveta "Relâmpago", seu filho Luís em outro navio, e José mandado para Benguela, ficando nesta situação até 23 de Agosto, data em que chegou a Luanda a fragata "Terrible", que em consequência da convenção que pusera termo à guerra civil, trouxe os deportados para Portugal, onde chegaram em 9 de Outubro. Depois de ter estado em comissão até Dezembro de 1852, foi nomeado membro do conselho de justiça militar, cargo que desempenhou até falecer.

In Wikipédia

Segue um texto retirado do Livro: "O Conde do Bomfim: noticia dos seus principaes feitos"


"...Conduzido sob prisão para Belem, com os seus officiaes, onde chegou na tarde de 25 de Dezembro, foram mandados embarcar a bordo da fragata Diana, de onde foram transferidos para a fragata Rainha, sob grande vigilancia e rigor não lhes sendo permitido falarem com as suas familias quando para isso obtinham licença só o faziam na presença de um empregado do governo civil. O Conde do Bomfim reconhecido como um homem generoso e igual para todos os partidos, propondo amnistias á Rainha, e dando empregos e honras aos seus proprios inimigos e vencidos!
Mas, como se isto ainda não fosse bastante, o conde do Bomfim e seus dons filhos mais velhos, bem como o general Celestino Soares, o conde de Villa Real, D. Fernando, o coronel Forman, o patriota Jaime (commandante do batalhão de Vizeii), o tenente coronel Alves (hoje marechal de campo reformado), e mais vinte e tantos  oficiaes, foram mandados durante a noite de 27 de janeiro de 1847 passar para bordo do brigue de guerra « Audaz, » sem se lhes dizer qual era o (im desta transferencia, e conservados assim no maior aperto, sem se lhes proporcionarem quaesquer comímodidades, e para não estarem sujeitos só á ração do porão apenas se lhes permittia que recebessem a comida que as suas familias e amigos lhes mandavam de terra.
Neste estado de incerteza do seu destino havendo-se espalhado que iam para Angola, o nobre marquez do Fayal (hoje duque de Palmella), filho do illustre e generoso duque do mesmo titulo, herdeiro das suas virtudes, foi elle mesmo a bordo certificar-se do que precisavam aquellas illustres victimas do patriotismo, e logo que obteve a indispensavel licença, mandou-lhes para bordo um rico e abundante rancho, appropriado a pessoas da classe da sociedade a que pertenciam, para que não fossem só sujeitos ás rações de bordo, embora houvesse toda a idéa (como depois se verificou), que o benefico e generoso capitão tenente Victorino Rodovalho, e depois o capitão tenente Antonio Sergio de Sousa (hoje ajudande de ordens do senhor infante D. Luiz), que commandaram o brigue Audaz, e os seus offlciaes fariam quanto estivesse ao seu alcance para mitigar a sorte e soffrimentos d'aquelles que contra todas as leis, sem sentença, e contra todos os uzos, eram assim degradados para tão mortifero clima, apesar de haverem capitulado com as honras da guerra, saindo o navio para Angola no dia 2 de fevereiro de 1847.

Chegaram a Loanda em 25 de março, e foram successivamente mandados para prisões em terra todos os companheiros do conde do Bomfim, excepto elle que foi mudado para a corveta Relampago, e seu filho segundo o capitão (hoje major) Luiz Travassos Valdez, tão conhecido pelos seus interessantes Almanachs, e outros importantes escriptos; sendo mandado o seu filho primogenito o major José Bento Travassos Valdez (hoje conde do Bomfim, José), com o major (hoje coronel e commandante militar da Ilha da Madeira), José Herculano Ferreira de Horta para a mortifera cidade de Benguella.

Depois disto havendo-se excitado extraordinariamente os animos na tropa e habitantes de Loanda a favor dos prezos politicos, a ponto de se recear que houvesse uma revolta para os libertar, tal era a opinião publica em toda a parte a faVor do conde do Bomfim e da causa que elle defendia, foi a corveta Relampago mandada sair repentinamente, e passando por Benguella tomou a seu bordo o filho primogenito do conde do Bomfim, desembarcando-os e ao filho segundo em Mossamedes no dia 6 de maio; — mas infelizmente para os que os opprimiam tão injustamente, esqueceram que a opinião publica, a que queriam fugir, era a mesma em toda a parte—ainda mesmo n'aquellas areias Africanas—e o que é mais, inconsideradamente não reflectiram ao menos, que nem todos são ingratos neste mundo l e cahiram em deportar o conde do Bomfim e seus dous filhos mais velhos justamente para Mossamedes, cuja povoação via nelle o seu fundador, como dissémos que o foi, quando ministro da marinha e ultramar em julho de 1840.

Em 20 de maio de 1847 teve logar uma revolução em Mossâmedes a favor do conde do Bomfim e da Junta do Porto, cujo governo foi immediatamente proclamado. 

mas, como a força que alli existia fosse mui diminuta para resistir à qualquer ataque dos navios do cruzeiro portuguez naquelles mares, e todos desejassem vir ajudar em Portugal a causa que defendiam, trataram desde logo de se aprovisionar, preparar e embarcar em uma velha escuna de guerra de que tinham tomado posse apenas haviam feito a revolução, na intenção de partirem no dia seguinte para a ilha de Santa Helena, apesar do mau estado da embarcação e do grande risco de serem encontrados pelos navios do cruzeiro portuguez. Mas, entrando nesse dia na bahia de Mossamedes o brigue de guerra inglez Flying Fisli, coramandado pelo capitão Dike, aconteceu, que, contra toda a expectativa este official apresou no dia 2i a escuna de guerra Conselho, em que o conde do Bomfim e seus companheiros estavam já a fazer-se de véla, o que era tanto mais inexperado que ainda na vespera o capitão Dike, perguntando-se-lhe se te-' ria duvida em receber a bordo alguns dos c'ompromettidos, ou emfim lhes dar alguem da sua guarnição para dirigir a navegação da escuna portugueza até á ilha de Santa Helena, visto que os officiaes da escuna não abraçaram a revolução a favor da Junta do Porto; mostrou-se disposto ao pedido que se lhe fez. Sendo certo que é do direito das gentes, ou uso e costume, não se negar os soccorros indispensaveis para a navegação e salvação das vidas quando quaesquer navios, que se encontram, os requerem, o que sabemos o conde do Bomfim fez ver ao capitão Dike, e que as esquadras britannicas não interferiam então na guerra civil de Portugal, tratando com a mesma egualdade os navios do governo e da Junta do Porto, que aliás todos uzavam da mesma bandeira da nação e reconheciam a rainha. Devemos notar, que além d'isso, o conde do Bomfim lembrou ao capitão Dike, que a generosa e hospitaleira nação britannica jamais deixou de se prestar, com grande gloria do seu pavilhão, a dar abrigo ao infortúnio em casos politicos, do que lhe apresentou exemplos bem publicos, taes foram: que o capitão Canning da corveta Aligator o recebeu a elle mesmo conde do Bomfim a seu bordo, e a sessenta e tantos refugiados para os salvar da furia de seus inimigos, e isto no meio de uma esquadra que fazia violentas reclamações nas aguas da ilha da Madeira em 1828, quando o conde do Bomfim se acolhera áquella bandeira por estarem acabados todos os meios de defeza da ilha em nome da Rainha e da Carta Constitucional, como o narramos. Que outro tanto aconteceu em Hespanha em 1842 quando uma nau ingleza salvou em Cadix a Espartero, duque da Victoria e o levou para Inglaterra quando aquelle illustre general foi derribado da regencia de Hespanha em consequencia de uma revolução geral naquelle reino. Que por occasião de uma revolução em Galiza em 1846 havendo-se o brigue de guerra hespanhol Nervion declarado por ella, e vendo depois, que havia sido suffocada, dirigiu-se para Gibraltar, e apesar das reclamações do governo de Madrid, o governador de Gibraltar entregou o brigue, mas conservou, como refugiados, o commandante e mais pessoas que nelle iam entregandolhes as suas bagagens. Que em summa, não ha exemplo de Inglaterra haver negado protecção ou entregado refugiado algum, que por motivos politicos estivesse ao abrigo da sua bandeira.

Apesar das energicas "reclamações e protestos do conde do Bomfim, ao capitão Dike em nome do paiz, no seu proprio, assim como no dos seus companheiros de infortunio, victimas da prepotencia daquelle commandante de um navio de guerra britannico, que não só manchou a gloriosa bandeira da sua nação, mas tambem indignou a briosa corporação a que pertencia, levando o conde do Bomfim e seus companheiros para Loanda a bordo do brigue do seu commando, havendo-os obrigado a passar para o seu navio só com o fato que tinham no corpo, sem lhes consentir que levassem cousa alguma das suas bagagens e do que tinham a bordo da escuna Conselho, que o capitão Dike fizera occupar pela guarnição que lhe approuve, ficando a bordo da dita escuna, como sabemos, alem das bagagens e de um rico e abundante rancho com que se haviam preparado para seguirem viagem para a ilha de Santa Helena, uma consideravel somma de dinheiro que o conde do Bomfim já antes da sua sabida de Portugal, á custa de muitos sacrifícios seus, de sua familia e amigos, bem como depois alguns negociantes em Angola haviam reunido de antemão .para se habilitarem assim a fazer face ás despezas que se tornassem indispensaveis para poderem salvar-se d'Afrioa: — donde com effeito se teriam salvo a não ter sido aquelle inqualificavel e atroz procedimento do capitão de um navio de guerra inglez, — procedimento em fim que, segundo somos informados, acabou de completar a ruina dá fortuna do conde do Bomfim, sua familia, e outras daquellas victimas do referido attentado, pois que, chegados a Loanda no dia ,30 de maio, só com o fato que tinham no corpo, foram de novo entregues ao governador geral de Angola, o qual mandou o conde do Bomfim outra vez para bordo da corveta Relampago, seu filho segundo para outro navio, e o filho primogenito novamente para a mortifera cidade de Benguella; e tendo acabado de ancorar no porto de Loanda a escuna Conselho, a bordo da qual dissemos tinha ficado tudo que lhes pertencia, o conde do Bomfim reclamou immediatamente a sua bagagem, mas unicamente lhe foi entregue a Cama e as suas mallas arrombadas com alguma roupa dentro, Perdendo-se Tudo o Mais. 

Depois de mil difficuldades, o conde do Bomfim, que ficou incommunicavel, pode fazer chegai' ao conhecimento do honrado almirante Sir Charles Hotham, commandante em chefe da marinha britannica naquejles mares, um detalhado relatório a respeito do atroz procedimento do para sempre famoso capitão Dike, pedindo-lhe que se interessasse com o seu governo a favor de victimas entregues á discrição dos seus inimigos politicos, depois de haverem estado (bem que muito contra sua vontade!) debaixo da bandeira britannica. O brioso almirante inglez, apenas recebeu aquella notír cia na ilha de Santa Helena, mandou a Loanda a fragata Acteon, do commando do distincto capitão Mansel, para communicar ao governador geral de Angola e ao conde do Bomlim, que tinha já mandado prezo para Inglaterra o capitão Dike para responder pelos seus procedimentos; e para outro-sim fazer constar ao governador geral de Angola e ao conde do Bomfim, que elle almirante intendia que o conde do Bomfim e seus companheiros tinham direito á protecção da bandeira britannica, e que embora não reolamasse desde logo a sua entrega, esperava ordens nesse sentido, e portanto contava tambem que o governador geral de Angola se absteria de tomar qualquer medida que pudesse ser contraria ao bem-estar ou á consideração devida ao conde do Bomfim e seus companheiros.

Emfim, estamos informados de que o cavalheirismo, generosidade e philantropia daquelle distincto almirante chegou a tal ponto, que mandou offerecer ao conde do Bomfim pelo capitão Mansel, o seu dinheiro e quaesquer objectos que precisasse, juntando o referido capitão honrada e briosamente analogos offerecimentos da sua parte até onde elle pudesse: ao que o conde do Bomfim agradecendo cheio de reconhecimento, sabemos que respondeu com a nobreza e independencia que lhe é natural, que acceitava a offerta da sua protecção em que muito confiava, mas que não podia acceitar as outras suas offertas, que aliás agradecia tanto como se acceitasse, porque seria offender a generosidade com que os principaes habitantes de Loanda — especialmente o seu generoso amigo Francisco Barbosa Rodrigues, presidente da camara municipal — lhe proporcionava tudo que necessitava, e a seus dois filhos mais velhos; alem de que, tanto o benemerito commandante da estação naval portugue/a, o capitão de mar e guerra Cardoso (actual inspector do Arsenal da Marinha de Lisboa), como o capitão de fragata João de Rodovalho, commandante da corveta Relampago, e bem assim o capitão tenente Escrivanis, que succedeu ao capitão de fragata João de Rodovalho no commando da corveta Relampago, e o capi'tão tenente Freire, commandante da charrua Príncipe Real, e em geral toda a officialidade da marinha portugueza que se achava naquella estação naval, faziam tudo que estava ao seu alcance para lhes suavisar a penosa situação em que se achavam, mostrando-lhes a sua sympathia.

Aproveitando pois o conde do Bomfim a promettida protecção, pediu que seus dois filhos mais velhos fossem mandados para ao pé de si, e que os seus outros companheiros, que estavam presos no porão da Charrua a bordo da qual o conde do Bomfim estava preso e incommunicavel, gosassem ao menos de tanta liberdade como a que elle tinha, pois que se elles eram criminosos por se terem querido libertar, elle conde do Bomfim era o principal. Reclamou outro-sim que a -respeito dos prisioneiros que se achavam em differentes pontos houvesse com elles ao menos analogas medidas, especialmente a respeito daquelles que o governador geral de Angola tinha mandado deportar para o sertão.

Com effeito o capitão Mansel foi immediatamente reclamar do governador geral de Angola no referido sentido, e effectivamente foram dadas as ordens exigidas em nome do almirante britannico.Que reclamações violentas e pesadas indemnisações não pagariamos nós á Inglaterra (sempre prompta a exigirnol-as), se mutatis mutandis, estes procedimentos tivessem sido feitos por um official da marinha Portugueza a quaesquer subditos inglezes por insignificante que fosse a sua posição na sociedade!
A fragata Acteon conservou-se fundeada no porto de Loanda (para observar se as ordens eram cumpridas) até que no dia 23 de agosto de 1847 alli chegou a fragata a vapor ingleza Terrible do commando do distincto e cavalheiro capitão Ramsey, que foi buscar o conde do Bomfim e seus companheiros, que tão atrozmente haviam sido deportados para Angola, sendo aquelle magnifico e grande navio, — então talvez o melhor de Inglaterra—, mandado expressamente a Loanda para aquelle fim em virtude de debate e do desejo do parlamento britannico, e das ordens do governo Inglez querendo que em consequencia do Protocolo de 21 de maio de 1847 pelo qual a França, Hespanha e Inglaterra, pela força d'armas puzeram termo á guerra civil em Portugal derribando a Junta do Porto; fossem reintegrados nos postos, honras e condecorações, de que haviam sido deraitticlos por um decreto por se terem declarado a favor da causa popular ou contra-revolução de 9 de outubro de 1846 no Porto, contra o golpe de estado e reacção em Lisboa na noite de 6 de outubro do mesmo anno.

Saiu de Loanda o conde do Bomfim no dia 8 de setembro de 1847, e chegou a Lisboa a 9 de outubro desse ano.
IX
Desde a Regeneração proclamando a Carta Reformada em abril de I SI» e até á presente época (Junho de l SOO.) Desde que o conde do Bomfim, depois da amnistia de 1847, chegou a Lisboa a 9 de outubro desse anno, voltando do degredo injusto que soffreu em Angola, nunca mais tornou a ser empregado, até que só em 21 de dezembro de 1852 depois da RegeneraÇÃo em abril de 1851 sendo ministro da guerra o nobre marechal duque de Saldanha, foi nomeado membro do Supremo Tribunal de Justiça Militar, logar que não devia ter sido privado de exercer desde que o Protocolo de maio de 1847 restituiu todos os funccionarios do estado aos seus cargos, como os foram exercer os juizes dos outros tribanaes depois que se publicou a amnistia de 1847; e tanto mais isto é assim relativamente ao caso do conde do Bomfim, quanto é certo que depois que voltou em junho de 1846 a Portugal da emigração pelos successos de Torres Novas e Almeida em 1844, foi logo occupar o seu logar no Supremo Tribunal de Justiça Militar havendo-se publicado uma amnistia em 1846 como a que se publicou em 1847, pois que era membro do referido Tribunal, e os seus membros segundo a Carta Constitucional não podem ser demittidos, porque são juizes, e os juizes são inamoviveis;'a lei é egual para todos, e os militares não podem portanto ser julgados por juizes de commissãol


O conde do Bomfim, desde que chegou de Angola, até agora tem-se occupado em pugnar com a maior energia constantemente na camara dos pares sobre muitos objectos de interesse publico, appresentando importantissimos projectos de lei para a organisação das tropas no ultramar, e da armada, exigindo a egualdade da applicação da lei a todos os Portuguezes de todos os partidos, pedindo a aprovação do contracto do caminho de ferro para a sua provincia (Alémtejo), exigindo o cumprimento da amnistia de 1847, e tratando com argumentos irrespondiveis e a maior mestria de obter na camara que se fizesse finalmente justiça aos direitos não só dos officiaes progressistas mas tambem dos officiaes da maioria do exercito que ficaram prejudicados e offendidos em consequencia de haverem sido promovidos os que entraram na revolução pela qual fora proclamada a RegeneraÇÃo de abril de 185Í; vindo este procedimento a tornar-se um castigo para àquelles que se conservaram lieis ao governo legitimo e que consequentemente não entraram na referida revolução; querendo o conde do Bomfim que se fizesse justiça para todos (segundo a mesma Carta Constitucional) e apresentando como poderoso argumento a lei que anteriormente restituiu as suas antiguidades e direitos os officiaes que se tinham compromettido na revolução cartista em que entraram e que fora aniquillada em 1837.

Chegou o zelo e firmeza do conde do Bomfim sobre esta questão, a ponto que na commissão de guerra da camara dos pares, composta de grandes notabilidades do exercito foi elle o ttnico que sustentou triumphantemente, e por modo irrespondivel, os direitos da officialidade, offendidos pôr quaesquer movimentos politicos, embora o projecto de lei, que na camara dos Deputados havia passado quasi com unanimidade, quando foi para a dos Pares fosse regeitado n'aquella occasíão.
Não obstante ser o tenente general mais antigo do exercito,  ter feito distinctos serviços, haver começado a sua carreira militar desde o principio da guerra Peninsular, servindo no estado maior do invicto duque de Wellington a cujas ordens esteve nas memoraveis batalbas da Roliça e Vimeiro, e depois durante o resto da campanha no quartel generel do marechal Beresford, assistindo como seu ajudante general na gloriosa batalha de Salamanca, entrando durante aquella guerra em 9 batalhas, 45 acções de primeira ordem, 6 sitios, 5 assaltos e muitos combates, escaramuças, etc. sendo o unico general portuguez que existe, além do illustre marechal duque de Saldanha, condecorado por S. M. F. com a cruz de ouro por 6 campanhas da guerra Peninsular, e condecorado por S. M. B. com medalha de distincção por commando na mesma guerra; e sobre tudo ter tido depois a honra de haver sido ajudante general e chefe do estado maior imperial do immortal Libertador durante as gloriosas campanhas do Porto e Lisboa, servindo ao lado de S. M. I. até á sua fatal perda; haver sido por differentes vezes ministro da rainha a senhora D. Maria n, presidente do conselho, e lhe ter feito importantes serviços e á nação no gabinete, no parlamento, c no campo, como deputado, como par do reino e como general: é para sentir termos de dizer que observámos, com magoa, que ainda depois de quanto acabamos de referir, foi esquecido o conde do Bomfim, já pobre e endividado, e tendo apenas a mais pequena e insignificante gratificação das que vencem os generaes do exercito quando servem como membros do Supremo Conselho de Justiça Militar; e se deu injustamente o commando em chefe do exercito com a sua pingue gratificação de quatrocentos mil réis mensaes ao tenente general conde da Ponte de Santa Maria, que era major quando o conde do Bomfim era general e chefe do estado maior do Imperador, sendo pois o conde da Ponte de Santa Maria mais moderno do que o conde do Bomflm, embora aquelle general seja muito honrado e digno de toda a consideração pela sua bravura e outras circumstancias, mas que ninguem deve dizer que tem serviços tão extraordinar. »


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