Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 31 de maio de 2007

Luz Soriano, promotor da colonização de Mossãmedes

 


Simão José da Luz Soriano, num quadro que no tempo colonial se encontrava exposto
no Salão Nobre dos Paços do Concelho do Distrito de Moçâmedes, em Angola.


Qual a relação de Luz Soriano com Moçâmedes (Mossâmedes/Namibe)?
 

Encontrava-se, pois, Luz Soriano a exercer as funções de chefe da Repartição de Angola no Ministério do Ultramar quando teve conhecimento que em 13 de Julho de 1848, o português fixado em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, tinha dirigido um Memorial ao Governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas perseguidos naquela ex-colónia pela revolução praeira, e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde tremulasse a bandeira portuguesa e onde pudessem fundar uma colónia agrícola.

Anos antes, Luz Soriano havia encontrado no arquivo da Secretaria do Ministério do Ultramar, um ofício  assinado pelo Barão de Mossâmedes descrevendo a exploração da costa e sertões meridionais da Província de Angola, assunto que lhe tinha despertado interesse, bem como as informações posteriores que recebera, provenientes dos Governadores Gerais, Manuel Eleutério Malheiros e José Xavier Bressane Leite. A
pesar da simples condição de chefe de uma Repartição do Estado, foi compenetrado da alta importância das regiões exploradas, que resolveu elaborar uma Memória descritiva do porto  de Moçâmedes (Mossâmedes-Namibe), as suas vantagens para a navegação e comércio,  a salubridade do seu clima, e a fertilidade dos sertões limítrofes,  a fim de expôr ao Ministro Visconde de Castro a necessidade de, com aquele grupo interessado de colonos, se fundar em Mossâmedes, no Sul de Angola, uma colónia agrícola, e tão activamente se empenhou junto do Ministro que este colocou a seu cargo a colonização do Distrito. 

  Os transcendentes serviços, que tenho prestado ao estado, vão ainda além do impulso, que dei á citada occupacão do Ambriz. Se valiosos foram esses serviços sobre este objecto, não o foram menos quanto á fundação, e estabelecimento da actual colonia agricola de Mossãmedes.

...Desde 1842 empreguei quantas diligencias estavam ao meu alcance para chamar sobre a antiga Angra do Negro a consideração do governo, não sendo menos, energicas as que tambem fiz para lhe attrair a do publico, excitando os especulações dos particulares, que lá se quizessem ir estabelecer. Por causa de uma memoria minha, publicada nos Annaes Maritimos e Coloniaes, escolheram muitos dos portuguezes, residentes em Pernambuco, o porto de Mossãmedes para irem nelle fundar uma colonia agricola.

 (Essa Memória foi publicada no nr. 3, 6ª série da colecção de 1846 dos Anais Marítimos e Coloniais)
 
I
nclusivamente foi Luz Soriano quem indicou ao Ministro o nome do capitão-tenente António Sérgio de Sousa para primeiro Governador, tendo coordenado e redigido as instruções por que se havia de regular o governador na Comissão para que fora nomeado.  Foi então que de Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, o Douro e o Vila Flor,  bem como instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes para Mossâmedes. 

O Diário de Pernambuco de 31 de Janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 composta por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário) comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir-se para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias, transporte para móveis e objectos pessoais, instrumentos artísticos ou agrícolas e  sementes, terrenos na colónia a ser fundada, e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Mas havia o problema  da falta de mão de obra indígena para os trabalhos na agricultura... E para o suprir, mais uma vez é Luz Soriano quem avança com a sugestão, em «Revelações da Minha Vida» , bem assim como em relação à consequente segurança da baía:


D'uma grande somma des escravos , apresados a bordo do brigue brasileiro «Caçador», ordenou-se, a 04 de Agosto de de 1844 que cincoenta casaes marchassem como libertos para Mossãmedes a fim d'alli se empregarem em trabalhos de agricultura. Mais ordenou em 22 d'aquelle mez que em Mossãmedes se organisasse uma companhia de linha debaixo do mesmo plano, que a dos mais presidios da provincia, devendo entrar nella não somente brancos, mas tambem homens de côr.  Semelhante memoria fora elaborada por mim na idéa de fazer conhecido aquelle porto, a salubridade do seu clima, e as favoraveis disposições, para assumir em breve tempo a importancia agricola, e commercial, que já hoje tem, e que dentro em poucos annos muito maior será, como promette. É portanto claro que as vantagens, que tem resultado, feio ds resuttar a Portugal da colónia agricola de Mossãmedes são filhos de muito trabalho, e de muito estudo.


Desde 1836 o General Sá da Bandeira havia decretado a abolição do tráfico de escravos que durante mais de 3 séculos constituiu uma das molas fundamentais do capitalismo mercantil, fornecendo a mão-de-obra necessária às plantações do Novo Mundo.  Seriam agora os escravos libertados desses mesmos navios de trafico clandestino, por brigadas que patrulhavam a costa, sobretudo inglesas,  a serem distribuidos,  como mão de obra semi-escrava nos trabalhos de agricultura que iam ter início no sul de Angola.

Passarei a transcrever o ofício dirigido por Luz Soriano, em 28 de Setembro de 1860, à segunda Câmara de Moçâmedes (Mossâmedes/Namibe), à qual ofereceu um exemplar da primeira edição do livro «Revelações da Minha Vida»no qual relata alguns acontecimentos de que tomou parte ou de que teve conhecimento:

Ilustríssimos Senhores Presidentes e mais membros da Câmara Municipal de Mossãmedes:

Tendo ultimamente publicado uma obra em que se contêm os principais factos da minha vida, não podia deixar de mencionar entre eles a grande parte que tomei em fazer conhecido e povoado esse vasto esperançoso distrito, e com tanta mais razão, quanto é certo que tenho visto no Boletim do Conselho Ultramarino, alguns relatórios da Câmara dessa vila, relativos ao mesmo assunto, não achei neles uma só referência aos esforços que empreguei para aquele fim, como entendia de justiça dever acontecer. Todavia não me admirei disso, porque sempre na nossa terra quem mais faz menos merece. Julgando, não obstante, que à História desse Município podia ser útil o conhecimento de que a tal respeito publiquei, tomo a liberdade de lhe oferecer o incluso exemplar da obra a que acima me referi, tendo por título «Revelações da minha vida», esperando que me relevarão a ousadia da oferta.
Tenho, pois, a honra de me assinar
De Vossas Senhorias
mtº atento, venerador e obrigado
(a) Simão José da Luz Soriano



A Luz Soriano cabem, pois, como se vê, os "louros" de "promotor da colonização portuguesa no Sul de Angola".  Deixou vasta bibliografia histórica em que avultam as obras sobre o liberalismo português, as quais, mais pelo acervo de material que reúnem do que pelo seu valor científico, são fonte indispensável para o estudo da época.



Bibliografia consultada: 
1. «O Distrito de Moçâmedes nas fases da Origem e da Primeira Organização 1845-1859» de Manuel Júlio de Mendonça Torres MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956. 
2.«Revelações da Minha Vida» de LUZ SORIANO (inclui referencias a Mossãmedes da pg 558 a 569)
O depoimento do sr. official maior Cravalho na commissão de inquerito ... 1856 Por Simão José da Luz Soriano, Antonio Pedro de Carvalho:




Mais sobre Luz Soreano AQUI 



Pede-se a quem eventualmente possa vir a reproduzir estes textos, o cuidado com a citação das fontes. 

 


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