Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 31 de maio de 2007

Vigário da Vara e pároco da freguesia de Santo Adrião da Vila de Mossãmedes no século xix







No Caderno da Cidade de Mossâmedes (4 de Agosto 1849/1991), podemos ler:

Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa
, mais conhecido, simplesmente, por Padre Rodolfo. Vigário da Vara e pároco da freguesia de Santo Adrião da Vila de Mossãmedes. Esclareceu, numa interessante conferência, proferida em 1877, perante a Sociedade de Geografia, a qualificação de «Sintra de África» dada à Vila.

Ainda neste caderno transcrevem-se as seguintes palavras do cónego Rodolfo de Santa Brígida e Sousa nessa notável conferência proferida em 1877 perante a Sociedade de Geografia, sobre a qualificação de Sintra de África, outorgada à vila de Mossãmedes:


«Hoje (1877), que são decorridos trinta e oito anos depois da chegada dos primeiros colonos... admira-se a sua descendência que vai em pleno desabrochar da segunda geração, pela robustez e beleza que apresenta , graças á sua aclimatação se haver operado em favoráveis condições evolutivas» (Vol l, pag. 211).


Em 1876, declarava a folha oficial da província haver sido professor primário em Mossãmedes o padre Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, nomeado por Portaria nº. 494 de 4 de Novembro de 1876 para ocupar a vaga em razão da transferência de Eduardo Campos e Andrada para idêntico lugar em Benguela.

Existem referências sobre o Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, de ter exercido funções de professorado tendo no ano de 1881 efectuando a propositura de vários alunos tendo sido "geral o regozijo, ao ver o bom resultado obtido e o brilho das provas prestadas pelos examinandos, o que demonstrava, na opinião dos assistentes, a solicitude do professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa". 

Na acta da sessão extraordinária respectiva salientava-se: 

"Submetendo-se a exame alguns alunos mais adiantados, que frequentam a aula de instrução primária, a cargo do pároco, o Governo, a Câmara e principalmente os chefes de família poderiam avaliar a maneira como se desempenhavam naquela escola os difíceis deveres do magistério e, na hipótese de que os examinandos fornecessem a prova evidente, dos bons métodos e zelo empregados pelo professor (...)

«No dia 1 de Outubro de 1883, realizaram-se exames de instrução primária em Mossâmedes. O respectivo júri era constituído por António Acácio de Oliveira Carvalho, que deveria ser o presidente por o seu nome vir indicado em primeiro lugar, sendo vogais Menandro José Maria Guerra e o professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. (...)
 

Esta acta dá-nos informações curiosas e preciosas quanto à forma como se processava o exame. Conclui-se que se adoptou um sistema muito racional e mesmo bastante moderno. No entanto, pode pensar-se se estaria bem enquadrado na legalidade. Esteve presente o Governador do Distrito, a quem competia nomear o júri! Em face dos resultados, a Câmara não se negou a elogiar abertamente o zelo e a dedicação do professor primário e pároco de Moçâmedes, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa.


Ainda sobre Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, vamos encontrar, da autoria de Manuel Júlio de Mendonça Torres referências a um relatório sobre a instrução pública apresentado alguns anos depois, e assinado pelo Governador Ferreira do Amaral, à época governador do Distrito, que informava estar a instrução em Mossâmedes cometida ao pároco (Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa) e a uma senhora (Isabel Maria Cardoso), bastante desqualificada. Por essa altura, os «métodos de ensino eram classificados como verdadeiramente primitivos e a frequência dos alunos pouco garantida, de forma que, onde havia tantas crianças, (em Mossâmedes), a educação estava descuradíssima». Também o mesmo relatório anunciava que o pároco era índio, e que «por isso, não tinha o prestígio que poderia ter se fosse europeu, aqui (em Mossâmedes), onde a população era quase toda branca. No mesmo relatório acrescentava o Governador que «a índole, porém particularmente tímida da raça a que pertencia, lhe tirava a iniciativa que o único representante da classe eclesiástica deveria possuir» . 
 
Ferreira do Amaral lembrava ainda para a substituição do pároco a obtenção de um pároco europeu no colégio Sernache, que tivesse o ónus do ensino, pretextando como motivo a substituição o vaticínio do seu desprestígio. Acirrando ainda mais o polémico relatório, a increpação feita no o Jornal de Mossâmedes com ataques violentos e intrigas contra a pessoa do padre Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, que Manuel Júlio de Mendonça Torres considera de mesquinhos e sem fundamento, aos quais se opunham o testemunho dos contemporâneos e as altas distinções outorgadas por individualidades eminentes da hierarquia laica e religiosa.

Segundo referido no 2º volume, pg.246 do livro de Manuel Júlio de Mendonça Torres, no tempo deste pároco houvera em Mossâmedes melhorias substanciais no serviço escolar e apesar disso haviam surgido conjuras contra o pároco ainda que sem graves consequências.
                                    


Artigo de José O CÓNEGO RODOLFO
  porJosé Julio Zuzarte Mendonça

Um dos padres mais simpáticos do clero ultramarino. Nobreza de carácter, probidade inconcussa, educação esmeradíssima, lhano e afável para todos, nem fanático intransigente, nem profano que escandalize, O cónego Rodolfo, reunindo em sí todos estes predicados, tem justamente captado a consideração e o respeito dos seus paroquianos.

Conheço-o há seguramente doze anos, e nunca me constou que se lhe atribuísse uma única má acção. Recebido com o mesmo agrado e até com intimidade por muitas famílias desta Vila, nenhuma ainda se arrependeu de o considerar quase que uma pessoa da casa. Pelo contrário, o seu espírito ilustrado, a sua conversação agradável, fazem ambicionada a sua convivência. De notável aptidão na divina arte da música, tem-se prestado com o máximo interesse em ensiná-la, com muito proveito dos seus discípulos.

Duas das filhas e um dos filhos de quem escreve estas despretensiosas linhas receberam durante algum tempo as suas lições, e, se não chegaram a professores, conseguiram o bastante para honrarem a proficiência do mestre.

Tem-se-lhe radicado a tal ponto no ânino generoso o amor por esta terra, que estremece como se fora sua, quem, achando-se na Metrópole, apresentou-se, perante a Sociedade de Geografia, e, na presença de um auditório selecto, expôs, num bem elaborado discurso, justamente aplaudido, o modo de ser colónia, os defeitos a corrigir, os remédios a aplicar, indicando, com o máximo desassombro os erros que têm obstado ao seu mais rápido desenvolvimento.

Mossâmedes, pois, constituiria uma aberração repugnante, se deixasse de reconhecer no cónego Rodolfo um cidadão prestimoso digno de todo o elogio.

Releve-me a muita modéstia do digno sacerdote, se trago a público esta manifestação sincera do que dele pensa quem vive aqui há trinta e quatro anos, quem tem constituida aqui família, e quem provavelmente nunca mais daqui sairá.

ass) José Julio Zuzarte Mendonça
Bibliografia consultada:
«Moçâmedes» de Manuel Julio de Mendonça Torres
                                                                                            ------------------

Ainda sobre o Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa

A Câmara Municipal de Moçâmedes, na sua sessão do dia 10 de Agosto de 1881, resolveu chamar a atenção dos responsáveis para o que o Boletim Oficial de Angola publicou no dia 5 de Fevereiro desse ano. Tratava-se da portaria régia de 4 de Novembro anterior, em que se recomendava ao governador-geral a fundação de estabelecimentos para a educação religiosa, literária e profissional dos serviçais da vila de Mossâmedes. A Câmara tomava a iniciativa de pedir que lhe fosse indicado o montante da contribuição com que poderia contar para tal fim, e se poderia encarregar vários mestres artistas, muito hábeis, da regência e organização de uma escola profissional, estabelecendo uma aula de instrução primária e escolhendo na vila pessoa idónea para a reger. Além disso, pensava-se em contratar no reino um eclesiástico a quem se entregasse a educação religiosa dos indígenas que residiam na povoação.

(...)

Realizaram-se em Moçâmedes, em 3 de Outubro de 1881, provas de exame de instrução primária, tendo sido propostos cinco alunos. Na falta de júri legalmente nomeado, os exames foram feitos perante a Câmara Municipal, assistindo ao acto o governador do distrito, Sebastião Nunes da Mata, diversos funcionários públicos e muitas outras pessoas. Foi geral o regozijo, ao ver o bom resultado obtido e o brilho das provas prestadas pelos examinandos, o que demonstrava, na opinião dos assistentes, a solicitude do professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. Na acta da sessão extraordinária respectiva salientava-se: 


"Submetendo-se a exame alguns alunos mais adiantados, que frequentam a aula de instrução primária, a cargo do pároco, o Governo, a Câmara e principalmente os chefes de família poderiam avaliar a maneira como se desempenhavam naquela escola os difíceis deveres do magistério e, na hipótese de que os examinandos fornecessem a prova evidente, dos bons métodos e zelo empregados pelo professor" 

Esta acta dá-nos informações curiosas e preciosas quanto à forma como se processava o exame. Conclui-se que se adoptou um sistema muito racional e mesmo bastante moderno. No entanto, pode pensar-se se estaria bem enquadrado na legalidade. Esteve presente o governador do distrito, a quem competia nomear o júri! Em face dos resultados, a Câmara não se negou a elogiar abertamente o zelo e a dedicação do professor primário e pároco de Moçâmedes, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa.

Em Janeiro de 1882, era publicada a notícia de que tinha sido instalada, em Mossâmedes, a Escola Luz Africana. Assistiu à cerimónia da sua abertura e inauguração grande número de pessoas da cidade. Salientava-se que era a povoação de Angola que mais se tinha interessado, até então, pelo desenvolvimento da escolaridade, embora os resultados obtidos não satisfizessem inteiramente a boa vontade das pessoas que para tal se não poupavam a esforços. O professor do novo estabelecimento de ensino era Francisco Rodrigues Pinto da Rocha Júnior. A comissão constituída para levar a cabo esta iniciativa tinha como presidente Francisco José de Almeida; os restantes vogais eram Joaquim de Paiva Ferreira e o professor da escola. A iniciativa pertencera à Loja Luz Africana, e por isso pode admitir-se que tivesse origem maçónica. Matricularam-se vinte e oito alunos, mas em Junho estavam já a frequentá-la trinta e uma crianças. 

No dia 1 de Outubro de 1883, realizaram-se exames de instrução primária em Moçâmedes. O respectivo júri era constituído por António Acácio de Oliveira Carvalho, que deveria ser o presidente por o seu nome vir indicado em primeiro lugar, sendo vogais Menandro José Maria Guerra e o professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. Além da do Estado, continuava em actividade a que a Loja Luz Africana estabelecera e em que continuava a ensinar Francisco Pinto da Rocha. Este agente do ensino anunciava que recebera e tinha à venda o livro intitulado Mestre Popular ou seja o Francês sem Mestre. O ensino deste idioma interessava bastante à população de Moçâmedes, segundo diversos indícios que pudemos encontrar. 

Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes. Isso indica que a instrução, de facto, merecia grande interesse aos seus habitantes. O júri era constituído por Dr. João Ferreira Duarte Leitão, Dr. Manuel Mouzaco, e o professor e pároco, que continuava a ser o P. Diogo Damião; tinha sido expressamente nomeado pela portaria do governador do distrito, no dia 1 desse mês. Além das provas de ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia exame de Francês, e era exactamente a filha do governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata. No dia seguinte, efectuou-se uma sessão extraordinária na Câmara Municipal, com a finalidade de entregar aos alunos distintos os prémios pecuniários que o governador-geral de Angola, Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, concedera do seu bolso particular. Era isso o que se anunciava. O prémio referido, de noventa mil reis, foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno.  


A filha do governador foi também premiada. O coronel Sebastião Nunes da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à capela de Nossa Senhora da Conceição, da Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. 

Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Moçâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam...(1) in.  http://www.geocities.com/athens/troy/4285/ensino12.htlm


                                                                            :::::::::::::::::::::
Registámos notícias referentes à escolaridade, em Moçâmedes, que devem ser mencionadas. Existia nesta cidade, em 1876, uma escola de instrução primária para o ensino de crianças indígenas, estabelecida por iniciativa e a expensas de particulares. Foram seus professores Casimiro da Silva e Artur Gustavo de Portugal Prayce. A Câmara Municipal de Moçâmedes, na sua sessão do dia 10 de Agosto de 1881, resolveu chamar a atenção dos responsáveis para o que o Boletim Oficial de Angola publicou no dia 5 de Fevereiro desse ano. Tratava-se da portaria régia de 4 de Novembro anterior, em que se recomendava ao governador-geral a fundação de estabelecimentos para a educação religiosa, literária e profissional dos serviçais da vila de Moçâmedes.

A Câmara tomava a iniciativa de pedir que lhe fosse indicado o montante da contribuição com que poderia contar para tal fim, e se poderia encarregar vários mestres artistas, muito hábeis, da regência e organização de uma escola profissional, estabelecendo uma aula de instrução primária e escolhendo na vila pessoa idónea para a reger. Além disso, pensava-se em contratar no reino um eclesiástico a quem se entregasse a educação religiosa dos indígenas que residiam na povoação.

Há vários indícios de, no final do século passado e princípio do actual, se praticar em Moçâmedes, embora de forma pouco saliente, um pouco de segregação racial, o que se não verificava nas demais localidades do território. Ignoramos se esta mentalidade veio do Brasil, trazida pelos colonos que de lá partiram para fundar esta povoação. Recordemos que eles tiveram de deixar o litoral brasileiro por motivo de fortes manifestações xenófobas. Também poderia estar a sentir-se a influência da proximidade da Namíbia e da África do Sul, onde já se praticava a discriminação.

Realizaram-se em Moçâmedes, em 3 de Outubro de 1881, provas de exame de instrução primária, tendo sido propostos cinco alunos. Na falta de júri legalmente nomeado, os exames foram feitos perante a Câmara Municipal, assistindo ao acto o governador do distrito, Sebastião Nunes da Mata, diversos funcionários públicos e muitas outras pessoas. Foi geral o regozijo, ao ver o bom resultado obtido e o brilho das provas prestadas pelos examinandos, o que demonstrava, na opinião dos assistentes, a solicitude do professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. Na acta da sessão extraordinária respectiva salientava-se:

"Submetendo-se a exame alguns alunos mais adiantados, que frequentam a aula de instrução primária, a cargo do pároco, o Governo, a Câmara e principalmente os chefes de família poderiam avaliar a maneira como se desempenhavam naquela escola os difíceis deveres do magistério e, na hipótese de que os examinandos fornecessem a prova evidente, dos bons métodos e zelo empregados pelo professor"

Esta acta dá-nos informações curiosas e preciosas quanto à forma como se processava o exame. Conclui-se que se adoptou um sistema muito racional e mesmo bastante moderno. No entanto, pode pensar-se se estaria bem enquadrado na legalidade. Esteve presente o governador do distrito, a quem competia nomear o júri! Em face dos resultados, a Câmara não se negou a elogiar abertamente o zelo e a dedicação do professor primário e pároco de Moçâmedes, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa.



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