Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 30 de maio de 2007

COMPONENTES DA COLÓNIA ALEMÃ CHEGADOS A MOÇÂMEDES EM 16 DE JUNHO DE 1857


 



Esta foto, que não se sabe se é real ou forjada, permite ver uma das inúmeras grutas do "morro" da Torre do Tombo, ostentando na rocha branda "inscrições" que apontam para o desembarque na baía de Moçâmedes (Namibe) do  vapor "Sado" que para ali transportou, em 1857, com o patrocínio do Visconde de Sá da Bandeira, (o paladino da abolição do tráfico de escravos de escravos em 1836 e do novo paradigma colonial de fixação e desenvolvimento), uma colónia de 29 alemães e alguns alunos da Casa Pia de Lisboa, com destino à colonização das Terras Altas da Huila, e a recomendação ao Governador para que constituisse com eles uma aldeia que deveria denominar-se "KRUSS", apelido do contratador.


Este grupo chegou a Mossâmedes - Moçâmedes, Namibe -  onde desembarcou em 09 de Julho de 1857. tendo após 16 dias marchado 7 dias com paragem de 2 dias no Bumbo, segundo informação de Francisco Godinho Cabral de Melo de 22 de Junho de 1957. Acabaria por desaparecer sem deixar vestígios, segundo Pereira do Nascimento (in "O Distrito de Mossamedes"), ou segundo Ponce de Leão (in artº n. 4 do Jornal de Mossamedes), "esfacelou-se pelos erros da sua organização. Os alemães desgostosos perante os insucessos no interior acabaram por se estabelecer em Mossâmedes onde prestaram relevantes serviços.


 Por esta altura haviam decorrido oito anos após a chegada  a Moçâmedes dos colonos fundadores que, em 1849, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, vindos de Pernambuco, Brasil  para darem início ao povoamento branco do Distrito.

Na mesma rocha podemos ainda ver gravado o nome do vapor "India", o navio que  carregou no bojo, até Moçâmedes, em 1884,  o 1º contingente  de colonos madeirenses, que ali desembarcou, rumo ao Lubango, para concretizar um projecto de colonização organizada, numa época de grande concorrência e pressão internacional, assinalada com a célebre Conferência de Berlim (1884-1885), cujo objectivo era a partilha de África entre potências industrializadas europeias.  Sobre a odisseia dos madeirenses em terras de África poderá ser consultar mais dados AQUI

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Lista dos nomes colonos alemães:


-ADOLFO SPANGENBERG(24 anos,fundidor, natural de NORDHEIN,casado com BÁRBARA,de 28 anos, natural de LANFEN)

-ANDRÉ KREISZIMANS (30 anos,lavrador,natural de BREITENHEIM, casado com DOROTHEA de 24 anos,natural de ESCHDERF e com : seu filho ALBERTO, de 5 anos, natural de BREITENHEIN; sua avó SOFIA EINER, de 59 anos, natural de ESCHDORF)--- ANDREA KOPP, 26 anos, lavrador, natural de ROLLSNHANSCUSIN(HANOVER),:

- CARLOS KOCH (25 anos, pedreiro,natural de TRIPTIS, casado com GUILHERMINA WOCH,de 23 anos,natural de MIERIT)

- CRISTÓVÃO KREISZIMANS, 59 anos. lavrador, natural de BREITENHEIM,com sua filha DOROTHEA, de 17 anos,com a mesma naturalidade;

- FELIX MEYER,23 anos, lavrador, natural de CANTH(PRÚSSIA);

- FRANCISCO GERHARDI(28 anos,alfaiate,natural de GIEBOLSHANSEN, casado com ANASTÁCIA, de 27 anos, natural de MOLILINGEN, na SUÍÇA)

- FRIEDRICH HS´NIG, 17 anos, pedreiro, natural de WASCHINGEN

- GEORGE REINHARD (35 anos,lavrador,natural de KETTELSHAL)

- GUILHERME SCHUTZE (23 anos,lavrador,natural de MUNSTER)

- GUILHERME SPANGENBERG (28 anos,carniceiro, natural de NORDHEIN, casado com CATARINA,de 20 anos,natural de LANFEN)

- HENRIQUE BOSSE(33 anos,ferreiro,natural de GOSSLAR) - JOCOB KNOBLICH, 16 anos, alfaiate,natural de KUSTERDINGEN;

- JOSÉ HUTTEMNULLER,21 anos, lavrador,natural de HENTEN, casado com CHISTINA, natural de HEMPF)

- LUIS HERMAN, 33 anos, pedreiro, natural de GUSSEN;

- MARTIN HESS(23 anos,sapateiro,natural de ROHVBACH, casado com CHRISTINA HESS,de 24 anos,natural de NEID,com um filho nascido durante a viagem

- RODOLFO ADAM(23 anos,lavrador,natural de ELBING) ---


Manda Sua Magestade El-Rei, pela Secretaria d Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, remetter ao Governador Geral da Província de Angola a inclusa copia das condições, com que foram engajados os vinte e nove colonos allemães, que, a bordo do brigue de guerra Sado, seguem viagem para o Districto de Mossamedcs, a fim de que o mesmo Governador G eral, tomando d elias conhecimento, as faça cumprir, o que igualmente se ordena cm Portaria da data de hoje áo Governador do dito Districto.


Paço, em 28 de Fevereiro de 1857. =Sâ da Bandeira.

CONDIÇÕES A QUE SE REFERE A PORTARIA D'ESTA DATA
.


Os colonos allemaes, destinados para Mossamedes, sujeitar-se-hào desde a data do seu desembarque ás condições seguintes:

1. " Prestarão obediência a todas as determinações tendentes á policia, segurança e utilidade geral da colónia, que lhes forem intimadas pelo respectivo Governador do Districto.

2. " Prestarão mutuo auxilio nos trabalhos ruraes e nos de edificação das habitações, destinadas ao seu primeiro estabelecimento,- na fórma que for determinada pela sobredita Auctoridade.

3. " Estas habitações só poderão ser feitas segundo um plano de povoação previamente approvado, e nos logares para isso concedidos pelo Governador do Districto.


OBRIGAÇÕES DO GOVERNO PARA COM OS COLONOS.


1. Os colonos serão conduzidos a Mossamedes por conta do Governo, e soccorridos, durante a viagem, de mantimentos sadios e abundantes.

2. a Receberão ração diária sadia e abundante, desde o dia do seu desembarque, e durante um anno depois da sua installaçào, ou o equivalente em dinheiro.

3. O governo fornecerá gratuitamente a cada colono do sexo masculino, e maior de dezesseis annos, uma espingarda e armamento correspondente, que será obrigado a conservar em bom estado, para própria defeza e da colónia, no caso de serem atacados por inimigos.

4.1 A cada chefe de família, ou colono sem familia, se dará o terreno necessário em que deve construir a sua casa, com uma porção sufficiente para horta.

5. Alem do terreno mencionado no artigo antecedente, ser-lhe-ha dada, em conformidade com a Lei de 21 de Agosto de 1856, uma porção de terra sufficiente para que o colono e sua familia possa vi

ver commodamente pelo seu trabalho, e em todo o caso não menos do que a que cada colono possa rotear.

6.* Os terrenos assim concedidos são livre propriedade do colono, para d elles dispor como quizer, comtanto que os tenha cultivado dentro do prazo de cinco annos.

7.1 O Governo obriga-se a fornecer aos cojonos sem meios, até que elles tenham os necessários para a restituição d'estas despezas, a assistência medica e de botica de que possam carecer. Cada colono receberá as sementes apropriadas á natureza do terreno, e na quantidade necessária á cultura durante o primeiro anno, assim como os instrumentos agrários, taes como enxadas, pás e outros a que estiverem costumados a fazer uso no seu paiz. Aos artistas o Governo concede também as ferramentas necessárias, próprias dos seus officios, assim como a todo o colono os utensilios de cozinha necessários.

8.a Os colonos serão isentos por dez annos de todos e quaesquer tributos, aquelles que romperem terrenos incultos simplesmente; vinte os que desseccarem paúes; e trinta annos os que tirarem terrenos ás marés.

9 .a Os colonos podem usar do direito de dispor livremente de suas pessoas, ficando na colónia, ou indo-se embora, como quizerem.

10.a O Governo obriga-se a prestar-lhes toda a protecção e defeza, pela mesma fórma por que o faz aos súbditos portuguezes ali residentes e estabelecidos.

11 .a Os colonos terão os mesmos direitos ás pastagens dos seus gados, nas terras communs, que os outros habitantes dos lògares em que se acharem estabelecidos.

12.a As condições .acima serão extensivas ás familias e amigos dos actuaes colonos, que no prazo de dois annos, contados da data do presente contrato, quizerem ir estabelecer-se em Mossamedes, com tanto que o numero desses novos colonos nâo exceda a cento e cincoenta indivíduos.


AD1TAMENTO Á OBRIGAÇÃO QUINTA.


§ 1,° Esta porção de terreno será regulada na rasão de 20 hectares, ou proximamente 50 acres inglezes, para cada colono masculino, e mais 10 hectares, ' ou 25 acres por cada pessoa de familia que tiver, comtanto que toda esta extensão de terreno nâo exceda a área de 50 hectares, ou 125 acres.

§ 2.° O colono, que tiver recebido a primeira concessão de terreno, tem direito a outras, ate' adquirir a área de 50 hectares, logo que tiver cultivada pelo menos metade do terreno da primeira concessão. Fica entendido que a concessão de terrenos é igual tanto para os colonos com familia, como para os colonos sem familia. Os filhos dos colonos, logoque se queiram estabelecer sobre si, por terem saído do pátrio poder, têem direito a receber uma área de terreno igual á que tiver sido concedida aos outros colonos.

Secretaria d'Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, em 28 de Fevereiro de 1857. Sa da Bandeira. In Boletim do Conselho Ultramarino: legislação novissima, Volume 3 By Portugal, Portugal. Conselho Ultramarino


                                                   

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