Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 30 de maio de 2007

O districto de Mossamedes : situação geográfica, limites, clima, etc

 
O PROBLEMA DA ÁGUA NO DISTRITO DE MOÇÂMEDES
 
Do livro O districto de Mossamedes - Pereira do Nascimento, J. (José), 1861-1913   
 
PRIMEIRA PARTE -  CAPITULO I  
 
«...O districto de Mossamedes acha-se comprehendido entre os parallelos 13.0, 50' e 17.0,  25' de
longitude austral. Confina ao norte com o districto de Benguella, a oeste  com o Oceano atlântico,
ao sul com as possessões allemáes, das quaes é separado pela porção do rio Kunene, cujo rumo 
segue na direcção les-oeste desde a Hinga até á foz  e a leste estende-se até os limites ainda não
difinidos da provincia de Angola. 

A parte explorada do districto, a que é habitada pela raça branca, e por isso desperta o interesse 
descriptivo,  abrange uma vasta extensão de território, que se prolonga na linha norte-sul desde o 
parallelo que passa pelo cabo de Santa Martha ao curso inferior do Kunene e na Unha les-oeste 
desde a costa maritima ao curso ascendente do mesmo rio até o Lucéke. E' esta a zona que pelas
suas benéficas condições de clima e riqueza  geológica tem  sido percorrida, habitada e colonisada
pela raça europêa, e a unica que sob o ponto de vista da adaptação da raça branca merece ser 
conhecida.  O districto de Mossamedes divide-se em duas zonas bem distinctas: uma, que se
prolonga de norte a sul com a costa marítima, é baixa, secca e arenosa; e outra, que se segue d esta 
e d'ella se separa pela cordilheira da Chella (Tyela), abrange toda a vasta  bacia do Kunene, é alta, 
chuvosa e ricamente  arborisada; constitue o plan'alto  proveitosamente explorado pela raça branca,
mercê da benignidade do clima e abundância de  elementos de riqueza agrícola e commercial. 

A estas duas zonas tão nitidamente separadas pelos seus caracteres geológicos correspondem 
modalidades climatéricas, que imprimem profundas modificações no modo de ser, nas cousas e
nas  pessoas. 

Zona baixa. 

Prolonga-se para o interior na extensão de 100 kilometros aproximadamente até os contrafortes da 
Chella e alarga gradualmente para o sul até o valle inferior do Kunene constituindo um vasto deserto 
arenoso. Esta zona eleva-se para o interior por modo insensível attingindo a altitude media de 500 
metros nas proximidades da cordilheira da Chella. 

Distinguem-se n'ella duas fachas de terrenos, que correm com caracteres nitidos no sentido 
les-oeste: a primeira, litoral, formada por extensa planície de areia solta com alterações de relevo em 
dunas e ravinas, onde as chuvas são raras e de pouca duração; a segunda, interior, prolongando-se com a 
Chella, pedregosa, com vegetação que augmenta á maneira que se aproxima do planalto e que marca 
o limite das aguas permanentes que correm da zona alta. 

Os terrenos que formam a zona baixa pertencem pelos seus caracteres geológicos á formação terciária
. Encontram-se n'elles grande numero de géneros de conchas e algumas variedades de grés calcarifero
com moldes de bivalvas e rochas formadas por uma aglomeração de conchas ligadas entre si por um 
cimento calcareo. Em muitos logares afastados da costa marítima e em allitudes superiores a 100 e 200
metros encontram-se calhaus rolados de calcareo silicioso e textura porphirica, que demonstram que
esta zona em épocas remotas constituía um fundo do mar, que lentamente se foi elevando do seio
do oceano. 

A rede fluvial da zona baixa comprehende os valles de S. Nicolau, Giraul (Dyraul), Beroe Koroká,
 cujos rios na maior parte do anno estão seccos; apenas levam agua durante alguns dias na estação
pluvial, quando as  chuvas torrenciaes do plan'alto, depois de encherem os afílu entes do Kunene, 
se despenham ennumeras  cataractas pela Chella abaixo. E' então que enormes massas de nuvens 
condensadas sobre a região alta e  açoutadas pelo impetuoso vento sueste são arrastadas para a
zona baixa do valle de Kapangombe, onde se desfazem em catadupas, que conduzidas por milhares 
de regatos e ravinas formam enormes massas d'agua que correm em rápidas e perigosas enchurradas,
que enchem e alagam os terrenos marginaes dos valles por  espaço de dias e mesmo horas causa da 
dureza do terreno e por serem os rios na sua primeira porção alimentados pelo excesso das aguas do
plan'alto. Na facha arenosa do litoral ellas desapparecem em pouco tempo por infiltração nas areias
dos leitos dos rios. Destes o que conserva por mais tempo maior volume d'agua é o Bero, que
 fertilisa os terrenos de Mossamedes. Esterio é o primeiro a conduzir as aguaspluviaes da região alta e o que 
as conserva por maior espaço de tempo. Resulta esta circunstancia de ser o seu curso entre a Chella
e olitoral mais curto e directo, formado em grande extensão por um leito de pedras e principalmente
por ter a sua principal origem no plan'alto por intermédio de um a nascente que deriva para elle um 
grande volume de aguas colhidas na bacia do Jau(Dyau), durante a primeira parte da estação
chuvosa  do planalto, de outubro a dezembro, quando ainda não teem cahido as primeiras chuvas na 
zona baixa; em

E' de notar-se que o regimen pluvial d'esta zona difere considerávelmente do da zona alta.
quanto que os rios de S. Nicolau e Koroka são alimentados pelas chuvas que cahem sobre as 
vertentes occidentaes da Chella, o que só tem logar na quadra das grandes chuvas da zona alta, de
janeiro a abril.  N'esta apparecem as primeiras chuvas em setembro e prolongam-se até dezembro,
formando a primeira parte da estação chuvosa,chamada das pequenas chuvas. N'esta quadra, 
dominando os ventos moderados do nordeste, as nuvens formadas por condensação no plan'alto 
descarregam sobre elle não chegando á zona baixa. Apenas de janeiro a maio, que comprehrnde a
quadra das chuvas torrenciaes e dos ventos impetuosos do quadrante do sueste, e que as chuvas 
attingem a zona baixa e chegam facha arenosa do litoral produzindo innundações passageiras, que 
ainda assim são o único recurso para a fertilidade dos terrenos agricultados nas proximidades de 
Mossamedes, taes são: as hortas do valle do Bero e Cavalleiros e as fazendas agrícolas exploradas
nos valles do Giraul, Koroka e S. Nicolau. 

Lançado no mar o excesso das enchurradas, fica no solo do leito dos rios uma certa humidade que 
se conserva por espaço de um e dois inezes e um deposito de detritos orgânicos, que constitue um 
rico adubo aproveitado pelos agricultores que sobre elle fazem as suas plantações em pleno leito dos
 rios. 

Estas fazendas produzem variadas espécies de cultura, taes como: algodão, cana saccharina, cereaes, legumes,
hortaliças e arvores fructiferas. Empregam no arroteamento dos seus terrenos, 29 rachinas a vapor e 
possuem 32 engenhos de moer cana, e outros tantos alambiques para a distillaçáo da aguardente. 
Pela disposição natural da zona alta, a sua maior altura corresponde á cordilheira da Chella e d'ahi
para o interior desce suavemente para o sul e leste, do que resulta que a maior parte das aguas 
pluviaes correm ao Kunene; deriva para a zona baixa uma pequena porção, que na quadra das 
grandes chuvas cae sobre as vertentes occidentaes da cordilheira, fertilisando os terrenos do valle
de Kapangombe. 

Sobre a facha arenosa do litoral de Mossamedes chove muito pouco, duas ou três vezes por anno. 
Na facha cultivada em frente á Chella chove durante dois a três mezes, emquanto que na zona alta a
estação chuvosa compreende seis mezes no anno. 

Convém observar que tem havido profundas modificações no regimen pluvial da zona baixa, cujas
causas são pouco conhecidas. Em épocas remotas chovia regularmente todos os annos em
quantidade bastante para encher os leitos dos rios. Os antigos agricultores estabelecidos no valle de
Kapangombe e Biballa e os primeiros colonisadores de Mossamedes falam com saudade dos 
primeiros annos da sua installação n'este districto, annos de chuvas abundantes e regulares; d'então
para cá ellas teem diminuído progressivamente a ponto de passarem períodos de quatro e cinco
annos sem cahir uma gotta de agua. 

Quando pela infiltração e evaporação desapparece a humidade no leito dos rios e bem assim durante
os annos de estiagem, em que as aguas por successivas infiltrações nas  areias não chegam a
humedecer os terrenos cultivados, recorrem os agricultores á irrigação com agua extrahida de poços
praticados a profundidade de 5 a 15 metros. Na villa de Mossamedes todas as casas teem poços, que
fornecem agua necessária para os usos ordinários. Esta agua é de má qualidade, pesada, salitrosa,
produzindo perturbações digestivas. 

A existência de uma toalha liquida subterrânea na zona baixa, cujo nivel se mantém  constante apezar
das vicissitudes do regimen pluvial, é um facto incontestável, que nosleva a suppor que cila mantém
estreitas relações com a bacia fluvial do plan'alto, que a alimenta como uma parte importante das suas
aguas por infiltração atravez de camadas porosas, que seguindo as vertentes da Chella se prolongam
e continuam com o sub-solo  da zona baixa. 

E' de importância capital para o desenvolvimento das fazendas agricolassdo valle de Kapangombe 
investigar com apparelhos próprios e aproveitar por meio de poços artesianos este filão de agua, que todas as razões induzem a crer que tenha a sua origem 
no plan'alto, cuja altitude media sobre o valle de Kapangombe é de 1600 metros. 

A agricultura n'esta zona, que foi o principal elemento de prosperidade e riqueza nos tempos áureos do
districto, acha-se actualmente em estado de lastimosa decadência por falta de aguas que irriguem os seus
fertilissimos terrenos. Os annos de secca succedem-se uns apóz outros com insistência esmagadora 
espalhando o desanimo por toda esta riquíssima região, cujos agricultores vão rareando, ceifados uns pela
morte, e outros obrigados por falta de recursos a abandonar as suas propriedades, fructo de longos annos 
de trabalhos. Os mais favorecidos, que ainda assim mantem as suas fazendas a troco de penosos 
sacrifícios, são os que se estabeleceram nas vertentes da Chella, onde aproveitam as primeiras aguas de 
pequenos regatos permanentes, que descem do planalto e formam as origens dos rios da zona baixa. 
 
E' de urgente e inadiável necessidade proceder a estes estudos, pois que o bom êxito dos poços artesianos
é importante medida de salvação para em breve espaço de tempo elevar ao primitivo apogeu a agricultura
em Mossamedes, única fonte de riqueza da população branca do districto, que se acha abatida e 
depauperada nos seus recursos por tão longa estiagem sem esperança de melhores tempos. 

O primeiro ensaio a fazer-se deve naturalmente incidir na zona de Kapangombe por estar mais próxima 
da Chella e oferecer por isso maiores probabilidades de bom êxito. Se d'esta tentativa sortir o desejado 
efeito, fácil será por suceessivas investigações animadoras estabelecer um systema de poços artesianos, 
que colloque a zona agricultada ao abrigo das vicissitudes de um regimen fluvial inconstante, o que 
concorrerá para desenvolver as propriedades existentes com valiosas culturas, crear novos centros de
producção agrícola e animar os proprietários a converter os seus capitães em productivas fontes de receita. 

Esta falta d'agua torna-se sobremodo sensivel na facha de terreno sobre que assenta a estrada que parte de
Mossamedes para o plan'alto, passando pelos sitios denominados: Pedra Grande, Pedra do Major, 
Providencia, Moninho e Kapangombe.Esta estrada é percorrida pelos vagons boers que fazem o transporte
das mercadorias e productos agrícolas entre o plan'alto e o litoral, e vice versa;  pelos viajantes, 
carregadores e manadas de gado para consumo e exportação. 

Nos annos ordinários, em que não chove, não se encontra uma gotta d'agua nem pasto na maior extensão
d'esta facha desde o valle do Giraul até o Moninho, do que resulta morrer á sede e á fome grande numero
de bois que pucham os carros e dos que são enviados do plan'alto para exportação e consumo.Cada vagou
é condusido por 20 a 30 bois, dos quaes um terço e ás vezes metade succumbe por falta d'agua durante os 
10 ou 12 dias de viagem fatigante por este deserto arenoso, atravez do qual os pesados veiiculos carregados
com 100 a 150 arrobas de carga são penosamente arrastados pelos pobres bois famintos e sequiosos por 
entre densas nuvens de suffocante poeira. Está calculado que morrem annualmente n'este deserto 400 a 600 
bois, o que representa um enorme prejuízo para os seus proprietários, que para compensar tão grave damno
elevam cada vez mais o preço do transporte. Basta saber-se que o preço do transporte de uma arroba de
carga do litoral para o plan'alto importava, ha três annos, em IOOO réis e actualmente com a persistência 
das seccas e mortalidade no gado elevou-se a 2S200 réis. 

Independente da perda material do boi, ha a accrescentar a perda da somma de trabalho que o boer dispende
para amansal-o e sujeital-o ao serviço da canga. O boi bravo comprado nos centros productores dos Gambos
e Humbe importa em 10 ou 15 mil réis e depois de amansado e ensinado vale 25 a 30.  Calcule-se do
desanimo que lavra entre os boers e portuguezes que vivem do aluguer dos seus carros para o transporte das
mercadorias, sabendo-se que durante a estiagem rara é a viagem, em que não fiquem orlando a estrada os 
cadáveres de um terço ou metade dos seus bois a servir de festim ás hienas e lobos que infestam estas 
paragens. 

Para de algum modo atenuar tamanho prejuízo, que ameaça aniquilar a exportação de  gado por via de
Mossamedes, pelo excessivo preço a que chegou, e que fere de morte os interesses commerciaes e agrícolas
do plan'alto pela exhorbitante carestia e difficuldades de transporte, ordenou o governo o aproveitamento
de  uns tanques naturaes cavados em uma grande rocha no sitio da Pedra Grande, a dois dias de viagem
de Mossamedes, mandando construir uns paredões que conduzem para elles toda a agua das chuvas que 
cae sobre a enorme pedra que dá o nome a este sitio. 
 
Existe n'este ponto uma casa do governo que serve de pousada aos viajantes, um curral para abrigo do 
gado e algumas cubatas, em que residem os soldados do destacamento. Os tanques cavados na rocha são 
quatro e tem bastante capacidade. Quando sobre a rocha caem chuvas torrenciaes, os tanques enchem-se 
d'agaa, que se conserva por bastante tempo. É d'esta agua que bebem os viajantes e o gado. Quando ella 
diminue e seguem-se annos de estiagem o governo só permitte que se tire a porção indispensável para uso
dos viajantes, prohibindo que seja dada ao gado e para cumprimento d'estas ordens e vigilância dos poços
tem ali um destacamento militar. 

O que fica dito para a Pedra Grande applica-se ao ponto denominado — Pedra da  Providencia, 
com a diferença de não haver casa para viajantes nem destacamento militar. Encontra-se agua em 
cavidades das rochas e poças, quando chove; fora d'estas comdições anormaes a monotonia do 
terreno prolonga-se em desesperadora aridez até ao valle do Moninho, em cujas fazendas se 
encontra agua em cacimbas, que servem para a rega dos terrenos de cultura. 

A vegetação n'esta facha é rachitica, compõe-se da welvitchia mirabilis,falso cedro,algumas
euphorbiaceas, espinheiros e acácias, que vegetam nos valles, ravinas e leitos dos rios seccos. Na fatía 
de terrenos arborisados, que correra parallelos aos contrafortes da Chella, a agua existe  com 
abundandancia durante a estação das chuvas; nas épocas de estiagem  não chega a irrigar a vasta área de
terrenos cultivados. 

O districto de Mossamedes abrange uma arca de 176:250 kilonietros quadrados, duas
vezes a superficie de Portugal. 

Divide-se em sete concelhos, dois na zona baixa, que são: os de Mossamedes e  Kapangombe, e 
cinco no planalto: os da Humpata, Lubango, Huilla, Gambos o Humbe,  dos quaes os três primeiros 
formam a área de colonisação europêa, que explora os seus férteis terrenos; e os dois últimos, que pelas
suas condições de clima nào se prestam  á adaptação da raça branca, formam a área de exploração
commercial com os indígenas e são os centros de permutação do gado bovino, cuja creação constitue 
a principal occupação das raças indígenas, que povoam a riquissima zona do sul do planalto. 
 

Zona baixa. 

Prolonga-se para o interior na extensão de 100 kilometros aproximadamente até os contrafortes da Chella
e alarga gradualmente para o sul até o valle inferior do Kunene constituindo um vasto deserto arenoso. 
Esta zona eleva-se para o interior por modo insensível attingindo a altitude media de 500 metros nas 
proximidades da cordilheira da Chella. Distinguem-se n'ella duas fachas de terrenos, que correm com 
caracteres nitidos no sentido les-oeste: a primeira, litoral, formada por extensa planície de areia solta com
alterações de relevo em dunas e ravinas, onde as chuvas são raras e de pouca duração; a segunda, interior, 
prolongando-se com a Chella, pedregosa, com vegetação que augmenta á maneira que se aproxima do 
planalto e que marca o limite das aguas permanentes que correm da zona alta. 

Os terrenos que formam a zona baixa pertencem pelos seus caracteres geológicos á formação terciária
Encontram-se n'elles grande numero de géneros de conchas e algumas variedades de grés calcarifero 
com moldes de bivalvas e rochas formadas por uma aglomeração de conchas ligadas entre si por um  
cimento calcareo. Em muitos logares afastados da costa marítima e em allitudes superiores a 100 e 200 
metros encontram-se calhaus rolados de calcareo silicioso e textura porphirica, que demonstram que esta
zona em épocas remotas constituía um fundo do mar, que lentamente se foi elevando do seiodo oceano. 
A rede fluvial da zona baixa comprehende os valles de S. Nicolau, Giraul (Dyraul), Beroe Koroká, cujos
rios na maior parte do anno estão seccos; apenas levam agua durante alguns dias na estaçãopluvial, 
quando as  chuvas torrenciaes do plan'alto, depois de encherem os afíluentes do Kunene, se despenham
ennumeras  cataractas pela Chella abaixo. E' então que enormes massas de nuvens condensadas sobre a
região alta e  açoutadas pelo impetuoso vento sueste são arrastadas para azona baixa do valle de 
Kapangombe, onde se desfazem em catadupas, que conduzidas por milhares de regatos e ravinas formam
enormes massas d'agua que correm em rápidas e perigosas enchurradas,que enchem e alagam os terrenos
marginaes dos valles por  espaço de dias e mesmo horas causa da dureza do terreno e por serem os rios 
na sua primeira porção alimentados pelo excesso das aguas doplan'alto. Na facha arenosa do litoral ellas 
desapparecem em pouco tempo por infiltração nas areiasdos leitos dos rios. Destes o que conserva por 
mais tempo maior volume d'agua é o Bero, que fertilisa os terrenos de Mossamedes. Esterio é o primeiro 
a conduzir as aguaspluviaes da região alta e o que as conserva por maior espaço de tempo. Resulta esta 
circunstancia de ser o seu curso entre a Chellae olitoral mais curto e directo, formado em grande extensão
por um leito de pedras e principalmente por ter a sua principal origem no plan'alto por intermédio de um 
a nascente que deriva para elle um grande volume de aguas colhidas na bacia do Jau(Dyau), durante a 
primeira parte da estaçãochuvosa  do planalto, de outubro a dezembro, quando ainda não teem cahido as
primeiras chuvas na zona baixa; em e'de notar-se que o regimen pluvial d'esta zona difere considerável-
mente do da zona alta.quanto que os rios de S. Nicolau e Koroka são alimentados pelas chuvas que cahem
sobre as vertentes occidentaes da Chella, o que só tem logar na quadra das grandes chuvas da zona alta, 
dejaneiro a abril.  N'esta apparecem as primeiras chuvas em setembro e prolongam-se até dezembro,
formando a primeira parte da estação chuvosa,chamada das pequenas chuvas. N'esta quadra, dominando 
os ventos moderados do nordeste, as nuvens formadas por condensação no plan'alto descarregam sobre elle 
não chegando á zona baixa. Apenas de janeiro a maio, que comprehrnde aquadra das chuvas torrenciaes e 
dos ventos impetuosos do quadrante do sueste, e que as chuvas attingem a zona baixa e chegam facha 
arenosa do litoral produzindo innundações passageiras, que ainda assim são o único recurso para afertilidade
dos terrenos agricultados nas proximidades de Mossamedes, taes são: as hortas do valle do Bero e 
Cavalleiros e as fazendas agrícolas exploradas nos valles do Giraul, Koroka e S. Nicolau. 

Lançado no mar o excesso das enchurradas, fica no solo do leito dos rios uma certa humidade que se 
conserva por espaço de um e dois inezes e um deposito de detritos orgânicos, que constitue um rico adubo 
aproveitado pelos agricultores que sobre elle fazem as suas plantações em pleno leito dos rios. Estas 
fazendas produzem variadas espécies de cultura, taes como: algodão, cana saccharina, cereaes, legumes, 
hortaliças e arvores fructiferas. Empregam no arroteamento dos seus terrenos, 29 rachinas a vapor e  
possuem 32 engenhos de moer cana, e outros tantos alambiques para a distillaçáo da aguardente. Pela 
disposição natural da zona alta, a sua maior altura corresponde á cordilheira da Chella e d'ahipara o interior
desce suavemente para o sul e leste, do que resulta que a maior parte das aguas pluviaes correm ao Kunene;
deriva para a zona baixa uma pequena porção, que na quadra das grandes chuvas cae sobre as vertentes 
occidentaes da cordilheira, fertilisando os terrenos do valle de Kapangombe. 

Sobre a facha arenosa do litoral de Mossamedes chove muito pouco, duas ou três vezes por anno. Na facha 
cultivada em frente á Chella chove durante dois a três mezes, emquanto que na zona alta aestação chuvosa 
compreende seis mezes no anno. Convém observar que tem havido profundas modificações no regimen 
pluvial da zona baixa, cujascausas são pouco conhecidas. Em épocas remotas chovia regularmente todos os
annos emquantidade bastante para encher os leitos dos rios. Os antigos agricultores estabelecidos no valle 
de Kapangombe e Biballa e os primeiros colonisadores de Mossamedes falam com saudade dos primeiros 
annos da sua installação n'este districto, annos de chuvas abundantes e regulares; d'entãopara cá ellas teem 
diminuído progressivamente a ponto de passarem períodos de quatro e cincoannos sem cahir uma gotta de
agua. Quando pela infiltração e evaporação desapparece a humidade no leito dos rios e bem assim durante 
os annos de estiagem, em que as aguas por successivas infiltrações nas  areias não chegam ahumedecer os 
terrenos cultivados, recorrem os agricultores á irrigação com agua extrahida de poçospraticados a 
profundidade de 5 a 15 metros. Na villa de Mossamedes todas as casas teem poços, quefornecem agua 
necessária para os usos ordinários. Esta agua é de má qualidade, pesada, salitrosa,produzindo perturbações 
digestivas. 

A existência de uma toalha liquida subterrânea na zona baixa, cujo nivel se mantém  constante apezardas 
vicissitudes do regimen pluvial, é um facto incontestável, que nosleva a suppor que cila mantémestreitas
relações com a bacia fluvial do plan'alto, que a alimenta como uma parte importante das suasaguas por 
infiltração atravez de camadas porosas, que seguindo as vertentes da Chella se prolongame continuam com
o sub-solo  da zona baixa. E' de importância capital para o desenvolvimento das fazendas agricolassdo valle
de Kapangombe investigar com apparelhos próprios e aproveitar por meio de poços artesianos este filão de 
agua, que todas as razões induzem a crer que tenha a sua origem no plan'alto, cuja altitude media sobre o 
valle de Kapangombe é de 1600 metros. A agricultura n'esta zona, qu(foi o principal elemento de prosperidade e riqueza nostempos áureos do districto, acha-se actualmente em estado de lastimosa decadência por falta de aguas que irriguem os seus fertilissimos terrenos. Os annos de secca succedem-seuns apóz outros com insistência esmagadora espalhando o desanimo por toda esta riquíssima região, cujos agricultores vão rareando, ceifados uns pela morte, e outros obrigados por falta de recursos a abandonar a.s suas propriedades, fructo de longos annos de trabalhos. Os mais favorecidos, que ainda assim mantem as suas fazendas atroco de penosos sacrifícios, são os que se estabeleceram nas vertentes da Chella, ondeaproveitam as primeiras aguas de pequenos regatos permanentes, que descem do planaltoe formam as origens dos rios da zona baixa. 
 E' de urgente e inadiável necessidade proceder a estes estudos, pois que o bom êxito dospoços artesianos é importante medida de salvação para em breve espaço de tempoelevar ao primitivo apogeu a agricultura em Mossamedes, única fonte de riqueza dapopulação branca do districto, que se acha abatida e depauperada nos seus recursos por tão longa estiagem sem esperança de melhores tempos. 

O primeiro ensaio a fazer-se deve naturalmente incidir na zona de Kapangombe por estar mais próxima da Chella e oíferecer por isso maiores probabilidades de bom êxito. Se d'esta tentativa sortiro desejado efeito, fácil será por suceessivas investigações animadoras estabelecer um systema depoços artesianos, que colloque a zona agricultada ao abrigo das vicissitudes de um regimen fluvial inconstante, o que concorrerá para desenvolver as propriedades existentes com valiosas culturas, crear novos centros de producção agrícola e animar os proprietários a converter os seus capitães em productivas fontes de receita. 

Esta falta d'agua torna-se sobremodo sensivel na facha de terreno sobre que assenta a estrada queparte de Mossamedes para o plan'alto, passando pelos sitios denominados: Pedra Grande, Pedra doMajor,  Providencia, Moninho e Kapangombe. 

Esta estrada é percorrida pelos vagons loers que fazem o transporte das mercadorias e productos agrícolas entre o plan'alto e o litoral, e vice versa; pelos viajantes, carregadores e manadas de gadopara consumo e exportação. 

Nos annos ordinários, em que não chove, não se encontra uma gotta d'agua nem pasto na maior extensão d'esta facha desde o valle do Giraul até o Moninho, do que resulta morrer á sede e á fomegrande numero de bois que pucham os carros e dos que são enviados do plan'alto para exportaçãoe consumo. 

Cada vagou é condusido por 20 a 30 bois, dos quaes um terço e ás vezes metade succumbe por faltad'agua durante os 10 ou 12 dias de viagem ftitigante por este deserto arenoso, atravez do qual ospesados veiiculos carregados com 100 a 150 arrobas de carga são penosamente arrastados pelos pobres bois famintos e sequiosos por entre densas nuvens de suffocante poeira. 

Está calculado que morrem annual mente n'este deserto 400 a 600 bois, o que representa um enormeprejuízo para os seus proprietários, que para compensar tão grave damno elevam cada vez mais opreço do transporte. 

Basta saber-se que o preço do transporte de uma arroba de carga do litoral para o plan'alto importava, ha três annos, em ISOOO réis e actualmente com a persistência das seccas e mortalidade no gado elevou-se a 2S200 réis. 

Independente da perda material do boi, ha a accrescentar a perda da somma de trabalho que o boer 
dispende para amansal-o e sujeital-o ao serviço da canga. O boi bravo comprado nos centros productores
dos Gambos e Humbe importa em 10 ou 15 mil réis e depois de amansado e ensinado vale 25 a 30. 
Calcule-se do desanimo que lavra entre os boers e portuguezes que vivem do aluguer dos seus carros 
para o transporte das mercadorias, sabendo-se que durante a estiagem rara é a viagem, em que não fiquem
orlando a estrada os cadáveres de um terço ou metade dos seus bois aservir de festim ás hienas e lobos 
que infestam estas paragens. 

Para de algum modo atenuar tamanho prejuízo, que ameaça aniquilar a exportação de  gado por via de Mossamedes, pelo excessivo preço a que chegou, e que fere de morte os interesses commerciaes e agrícolas do plan'alto pela exhorbitante carestia e difficuldades de transporte, ordenou o governo oaproveitamento de  uns tanques naturaes cavados em uma grande rocha no sitio da Pedra Grande, a dois dias de viagem de Mossamedes, mandando construir uns paredões que conduzem para elles toda a agua das chuvas que cae sobre a enorme pedra que dá o nome a este sitio. 
Existe n'este ponto uma casa do governo que serve de pousada aos via.jantes, um curral para abrigodo
gado e algumas cubatas, em que residem os soldados do destacamento. 

Os tanques cavados na rocha são quatro e tem bastante capacidade. Quando sobre a rocha caem chuvas
torrenciaes, os tanques enchem-se d'agaa, que se conserva por bastante tempo. É d'esta agua que bebem 
os viajantes e o gado. Quando ella diminue e seguem-se annos de estiagem o governo só permitte que se 
tire a porção indispensável para uso dos viajantes, prohibindo que seja dada ao gadoe para cumprimento 
d'estas ordens e vigilância dos poços tem ali um destacamento militar. 

O que fica dito para a Pedra Grande applica-se ao ponto denominado — Pedra da  Providencia,
com adiferença de não haver casa para viajantes nem destacamento militar. Encontra-se agua em
cavidadesdas rochas e poças, quando chove; fora d'estas comdições anormaes a monotonia do 
terreno prolonga-se em desesperadora aridez até ao valle do Moninho, em cujas fazendas se 
encontra aguaem cacimbas, que servem para a rega dos terrenos de cultura. 

A vegetação n'esta facha é rachitica, compõe-se da welvitchia mirabilis, falso cedro, algumas 
euphorbiaceas, espinheiros e acácias, que vegetam nos valles, ravinas e leitos dos rios seccos. Na faciía 
de terrenos arborisados, que correra parallelos aos contrafortes da Chella, a agua existe com 
abundandancia durante a estação das chuvas; nas épocas de estiagem  não chega a irrigar avasta área de 
terrenos cultivados. O districto de Mossamedes abrange uma arca de 176:250 kilonietros quadrados, duasvezes a superficie de Portugal. 

Divide-se em sete concelhos, dois na zona baixa, que são: os de Mossamedes e  Kapangombe, e cinco no planalto: os da Humpata, Lubango, Huilla, Gambos o Humbe,  dos quaes os três primeiros formam a área de colonisação europêa, que explora os seus férteis terrenos; e os dois últimos, que pelas suas condições de clima nào se prestam  á adaptação da raça branca, formam a área deexploração commercial com os indígenas e são os centros de permutação do gado bovino, cujacreação constitue a principal occupação das raças indígenas, que povoam a riquissima zona do sul do planalto. 
 
 
Do livro O districto de Mossamedes - Pereira do Nascimento, J. (José), 1861-1913  


 

Sem comentários:

Enviar um comentário