Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 13 de junho de 2007

Maria da Cruz Rolão, regedora de Porto-Alexandre




Estátua de Maria da Cruz Rolão, (1) colocada à entrada de Porto Alexandre (actual Tombwa), nos inícios da década de 70, poucos anos antes da independência de Angola. Acabaria por ser demolida nesses tempos de nacionalismo exacerbado que se seguiram ao processo agitado de descolonização e à independência do território.

Os africanos,  por motivos que plenamente compreendemos, e dada a  incapacidade  de distinguir entre bons e maus colonos, entre colonos e colonialistas, de separar o colono trabalhador do ambicioso colonialista, nunca perdoaram a colonização. E o radicalismo das posições em nada ajuda a compreender a verdade histórica de um povo que,  ao arrepio da desconfiança nutrida em relação a teses de fácil aproveitamento, mas não menos reais, como a do "lusotropcalismo" de Gilberto Freyre,  não possuía nem possui características racistas de outros povos, já  que facilmente se miscigenou, fosse com índios, no Brasil, fosse com negros em África, formando uma população trí-híbrida.  Outro facto é que os portugueses quando partiram para a diáspora já carregavam consigo séculos de integração genética e cultural de povos europeus, como os celtas e os lusitanos, para além dos 7 séculos de convivência com mouros do norte de África e com judeus, relacionamento que deixou um importante legado a este povo.  Lá virá um dia em que haverá a capacidade de interpretar a História, com o necessário distanciamento, e se há de  ultrapassar preconceitos de má memória e de maus resultados, que apenas servem e continuam a servir àqueles que pretendem dividir para reinar! E tanto mais numa época em que a ambição dos grandes está no auge, e que já ninguém duvida que a ambição não têm côr nem tem pátria!


Esta mulher,
Maria da Cruz Rolão, era afinal uma mulher do povo que, pela sua energia e por saber ler e escrever numa época em que a maioria do povo português era analfabeto, foi por consenso tácito do reduzido núcleo populacional de Porto Alexandre, eleita a sua Regedora. Um facto ninguém jamais poderá negar, é que os destemidos algarvios deram, também eles, com a sua presença nas terras áridas e desérticas do sul de Angola, o seu contributo para que o território angolano se mantivesse íntegro, nos momentos cruciais que se seguiram à Conferência de Berlim, (1885-6), quando a imposição das potências estrangeiras era a ocupação, antes que o mesmo fosse cindido em proveito de outras potências interesseiras e interessadas, com era o caso da Alemanha que pretendia a anexação  pelo Sudoeste Africano (Namibia), da faixa territorial a sul de Benguela.

Esta estátua, sobre a qual se desconhece o destino, foi executada em cimento na cidade de Sá-da-Bandeira, era composta por duas ou três peças e foi em seguida pintada na cor bronze. 


Maria da Cruz Rolão, a heróica Regedora de Porto Alexandre, nasceu em Olhão, em 1817, faleceu em Moçâmedes em 21 de Setembro de 1890, aos 73 anos, de paralisia geral por amolecimento do cérebro.

Era filha de Domingos Cruz Rolão e de Maria do Rosário da Cruz (conf. Câmara Municipal de Moçâmedes, Livro 4 de Registo de Óbitos, 1883 a 1898, fl 95). Era casada com Manuel Tomé do Ó, porquanto no óbito de seu filho, José António Martins da Cruz, ocorrido em Moçâmedes, em 1 de Dezembro de 1905, motivado por tuberculose pulmonar, no estado de casado com 53 anos de idade - nascido em Olhão em 1852, registou-se a filiação: filho de Maria da Cruz Rolão e de Manuel Tomé do Ó (Idem, Livro 5 do Registo de Obitos 1898-1911) .

Outro Registo de óbito deste filho diz que tal facto se verificou na residência do finado na Rua dos Pescadores em Moçâmedes, com os Sacramentos. Indica a sua profissão: Maritimo. O seu estado civil: casado com Catarina da Cruz, natural de Olhão. Confirma a sua filiação: de Manuel Tomé do Ó, maritimo, e de Maria da Cruz Rolão, natural e Olhão e esclarece: "o qual (José António Martins da Cruz, não dez testamento, deixou seis filhos..." Cartório Paroquial da Igreja de Santo Adrião, de Moçâmedes, Registo de Obitos de 1905).

Deparamos também com o óbito de João da Cruz Rolão, verificado em Moçâmedes, a 06 de Julho de 1902 com a indicação da idade: 70 anos, e do estado civil: casado, apenas com menção do nome da mãe: Maria da Cruz (Câmara Municipal de Moçâmedes Livro 52? Registo óbito 1898-1911. Há outros registos que referem dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz.

Seguem algumas passagens que melhor nos podem esclarecer o perfil da Regedora Maria da Cruz Rolão:

Maria da Cruz Rolão


...A indústria piscatória em Março do mesmo ano [1861] foi fortalecida com a chegada de novos Algarvios : José Rolão, sua mulher Maria da Cruz Rolão e dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz; Manuel Tomé do Ó, Manuel Galambas e José Mendonça Pretinho; em Julho, da mesma proveniência, de Olhão, no vapor D. António, João da Rosa Machado, José Martins Ganho, João Lourenço Galarão, João do Sacramento Pintassilgo, Lourenço de Sousa Farroba e Manuel Nunes de Carvalho, o quais trouxeram a primeira rede e se fizeram acompanhar de uma canoa.


”...Para intrépidos e valentes filhos de Olhão, a viagem em vapor, tendo barcos seus, não era coisa com que se conformassem; e, assim, Bernardino do Nascimento, O. Brancanes e Francisco Ferreira Nunes, societários do Caíque Flor de Maio, resolveram ir até Mossâmedes, arranjando para isso uma companhia em que entravam, além dos dois, Pedro Mendes. Pelo José (piloto), Manuel Ramos de Jesus Pereira, João da Encarnação Peleira, e um pequeno chamado Baptista.


“...O intento desses destemidos, porém, esbarrou contra a decisão das autoridades, que lhe proibiram a viagem, com fundamento nas poucas possibilidades do barco e do diminuto número de tripulantes. No entanto o travão não foi de carácter definitivo. A intervenção do Dr. Estêvão Afonso, junto de José Estêvão, então deputado por Aveiro, removeu a dificuldades encontradas, e os cotados algarvios chegaram a Mossâmedes em 3 de Agosto, daquele mesmo ano de 61.


“...Foi à corrente emigratória algarvia que Mossâmedes e baías próximas ficaram
devendo o empurrão que as transformou em apreciáveis centros piscatórios.”

Delgado, Ralph (2) vol. II pp. 60/61



“Elegeram, entre si, o seu próprio chefe. A escolha recaiu no colono Cruz Rolão, algarvio que deve ter indo da sua terra na primeira viagem do caíque «D. Ana», em 1860, com Francisco de Sousa Ganho, ou no caíque «Flor de Maio», que em 1863 fundeou na baía de Porto Alexandre.


“Cruz Rolão era homem humilde, mas sensato e sabedor. Houve-se muito bem nas funções em que foi investido. Após a sua morte, em data que ignoramos, sucedeu-lhe a viúva, Maria da Cruz Rolão. Esta sabia ler e escrever, tinha alguma cultura e, sobretudo, era possuidora duma coragem e decisão muito fora do vulgar. Impunha-se aos seus administradores e a todos pela sua energia e prestígio. Por várias vezes, Maria da Cruz tomou decisões importantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães, passaram ao nosso território e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora procurou estabelecer contacto com os chefes daquela gente, o que conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local denominado por Arco do Carvalhão, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado populacional, e este foi salvo.


“Igualmente, em data que não ficou registada ( mas deste facto nos fala o grande almirante Augusto Castilho), fundeou um navio de guerra inglês na baía, em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua Majestade, esquecendo-se que estavam em território duma nação que lhes devia merecer muito respeito, iniciaram exercícios de tiro para a restinga que forma a baía. Muitos dos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde andavam, calma e despreocupadamente, os nossos pescadores, nas suas actividades. Este acto arrogante levantou protestos das mulheres e crianças que estavam em terra, porquanto traziam no mar os maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estrangeiro. Maria da Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio britânico. Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fraseado de gente do mar, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com a perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a indignação e o desassombro duma verdadeira mulher de armas, fez suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.”


Moreira (1) pp. 20/21





Eis um texto bastante elucidativo sobre a diáspora algarvia em terras do sul de Angola:


O TESTEMUNHO DE MR. GRUVEL

As armações à valenciana foram surgindo no distrito de Moçâmedes em grande número: na Lucira, no Mocuio, em Porto Alexandre, na Baía das Pipas, no Baba, etc., e até mais do que uma em cada uma dessas praias, e com elas o aumento da produção do pescado e do peixe seco que era comercializado nos portos de Angola, Congo Francês, Gabão e S. Tomé, levados pelos caíques olhanenses. O desenvolvimento tornou-se imparável e suscitou a admiração de portugueses e estrangeiros pela obra que se estava a realizar naquela zona de África.
Mr. Gruvel era um oficial da marinha francesa, que encarregado pelo seu governo de fazer um inquérito às pescarias da costa Ocidental de África em 1909 referiu-se a Angola, nestes termos:
"Não podemos deixar Angola sem falarmos da impressão extraordinária que nos deixaram dois dos principais centros de pesca: Porto Alexandre e Baía dos dos Tigres.
O que poderá ser a vida sedentária dum europeu numa região formada de areia pura, sem um traço de vegetação, estendendo-se tão longe quanto a vista pode alcançar? Um vento violento que sopra muitas vezes em verdadeiras tempestades, levanta quase todo o dia nuvens duma areia fina que penetra por toda a parte; bebe-se, come-se e ...sufoca-se!
É neste país de desolação, ao pé do qual Port-Etienne parece um verdadeiro paraíso, que vivem isolados do resto do mundo, bebendo água que vai de Moçâmedes, cerca de trezentos brancos em Porto Alexandre e cem na Baía dos Tigres."
"Não temos maneira de felicitar todos os portugueses que habitam este deserto, pela admirável coragem de que dão prova, vivendo assim nessas regiões de desolação".
A terminar:" Quando se vêm os milagres de energia que os portugueses têm tido que dispender para criar esta magnífica indústria de pesca em semelhantes regiões, pensa-se que temos de desesperar do nome francês se não conseguirmos fazer tão bem ou melhor que eles ...não apresentando nada de comparável ao que existe em Porto Alexandre e sobretudo na Baía dos Tigres."
Por portaria editada no Diário de Governo de 27 de Junho de 1925 o governo português louva o esforço colonizador no distrito de Moçâmedes, terminando nestes termos:

"Manda o Governo da República Portuguesa pelo Ministério das Colónias que seja dado público testemunho do muito apreço em que é tido o valioso trabalho realizado por estes colonos, que tanto honram a Pátria e por esse motivo sejam louvadas as populações de Moçâmedes e Porto Alexandre por serem os principais núcleos desta colonização.


Paços do Governo da República 27 de Junho de 1925"



Vai um texto que encontrei na Net:
Soberania Nacional Assegurada por mão forte ... de Mulher
O episódio, com sabor naval, que nos propomos divulgar teve por cenário o que é hoje um dos mais importantes  centros piscatórios do espaço português e, para além disso, uma bonita e progressiva cidade, realidade bem visível de quanto vale o esforço e a tenacidade da raça lusíada. Trata-se de Porto Alexandre que, para além da simples menção de ter sido cenário da nossa história, bem merece mais algumas palavras. Ao percorrer o mar do litoral sul-angolano depara-se-nos a certa altura uma excelente e convidativa baía, orientada na direcção leste-oeste, de águas calmas, protegidas por uma extensa restinga de areia. Foi Diogo Cão quem dela deu notícias pela primeira vez, em 1485, designando-a por Angra das Aldeias, e com tal realce e entusiasmo o fez que esse recanto passou a constituir ponto de paragem apetecido para descanso dos navegantes portugueses em demanda de novas descobertas. Em flagrante contraste com a excelênciada baía e quietude hospitaleira das suas águas, surgia aos olhos dos nossos navegadores uma paisagem desoladora, de areias em redemoinho, batidas pelo vento, sem vegetação nem água, onde qualquer idéia de fixação e vida se afigurava impossível. É certo que decorreram 3 séculos desde que Diogo Cão descobriu a velha Angra das Aldeias até ao início da ocupação efectiva das terras desertas do sul de Angola; porém, chegado o momento da arrancada, todas as dificuldades foram vencidas, mercê da persistência e tenacidade tão características do povo português.
Foi em 1860 que, atraídos pela piscosidade das águas do Sul de Angola, grupos de decididos, tenazes e abnegados algarvios iniciaram a ocupação efectiva daquele rincão de Portugal e, em gesta que, sem exagero, podemos apelidar de heroica, venceram a dureza e a desolação do terreno, souberam dominar a fome, a sede e o isolamento e suportaram estoicamente a ausência total de um mínimo de conforto.
Nasceram rudimentares habitações, os ventos e areias foram sendo dominados. Rodaram os tempos e com estes se foi acentuando a vitória do homem sobre o deserto, em obra notável de que se destaca uma extensa cortina verde, iniciada há 37 anos e que conta actualmente com cerca de 300 000 casuarinas. Quebrada a violência dos ventos predominantes e sustidas as areias que tudo soterravam, a velha Angra das Aldeias, que desde 1835 passou a ser designada por Porto Alexandre, voltou-se para o futuro e cresceu. Cresceu em extensão e formosura e surge hoje aos nossos olhos como uma linda cidade dotada de todos os requisitos modernos, verdadeiro milagre de dinamismo e força de vontade, obra transcendente iniciada por portugueses de «antes quebrar que torcer», continuada por sucessivas gerações de igual têmpera que ainda hoje se mantêm, alardeando ao mundo as altas qualidades dum povo de vontade inquebrantável. Mas, feito este pequeno apanhado da história de Porto Alexandre, modesta homenagem aos seus fundadores e continuadores, voltemos ao nosso episódio. Passou-se ele poucos anos após a chegada dos pioneiros da colonização, em data exacta desconhecida, que se pode, sem receio de grande erro, situar no período 1865-1870. 
Foi a partir de 1860 que experimentados homens do mar, algarvios, utilizando os já desaparecidos caíques olhanenses - embarcações à vela, de  pano bastardo triangular, com cerca de 14 metros de comprimento e 4 metros de boca - decidiram deixar as suas terras e enfrentar o Oceano Atlântico com destino ao Sul de Angola, muitos deles acompanhados por velhos, mulheres e crianças, membros de suas famílias. Num desses caíques chegou a Porto Alexandre, em 1860, a fanúlia CRUZ ROLÃO, donde sairia a heroína da nossa história, MARIA DA CRUZ ROLÃO, que deixou bem vinculado àquela localidade o seu prestigioso nome. MARIA DA CRUZ ROLÃO era possuidora duma energia, determinação e coragem muito fora do vulgar e tinha alguma cultura, qualidades reconhecidas por todos os colonos que, por decisão unânime, a elegerem sua pri-  meira autoridade civil, nela depositando uma confiança que nunca desmereceu. Variadas foram as oportunidades em que MARIA DA CRUZ ROLÃO, sentindo a responsabilidade do cargo em que fora investida, defendeu com ardor a comunidade que chefiava, patenteando as suas altas qualidades. Foi numa destas ocasiões, em defesa da sua gente e da soberania nacional, que o carácter de MARIA DA CRUZ ROLÃO mais uma vez se envidenciou impondo a saída das nossas águas territoriais a um navio de guerra inglês. Em data que não ficou registada, fundeara na baía de Porto Alexandre uma unidade naval inglesa.Pouco depois da chegada, o seu comandante, esquecendo-se que estava em  águas duma nação estrangeira e das deferências devidas e inerentes a essa situação, deu início, inesperadamente, a exercícios de tiro, utilizando por alvo as areias da restinga. Muitos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde os nossos pescadores se encontravam na faina quotidiana. Cientes da situação, receosos que os projécteis atingissem os seus pais, maridos e filhos e indignadas contra tão grande falta de cortezia e respeito, as mulheres, em cortejo, acompanhadas das crianças, acorreram a casa da regedora e pediram-lhe que interviesse no sentido de acabar com tamanho abuso do navio estrangeiro. MARIA DA CRUZ ROLÃO não hesitou; mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio inglês. Ali chegada, punhos cerrados, gesticulando, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com o exercício e a abandonar as nossas águas. O oficial inglês não precisou compreender o fraseado de MARIA DA CRUZ ROLÃO. Perante atitude tão enérgica, desassombrada e demonstrativa de justa indignação mandou imediatamente interromper o tiro, e suspendeu, deixando as águas de Porto Alexandre. Fora mais uma vez assegurada, neste caso por mão forte de mulher, a soberania nacional. Já em tempos recuados a mulher portuguesa sabia impor a sua personalidade  e presença na defesa e construção do nosso ultramar, onde foi e continua a ser pedra basilar, merecedora de toda a admiração e respeito. Porto Alexandre, ao completar mais um ano da sua já mais que centenária existência, prestou justa homenagem a MARIA DA CRUZ ROLÃO, erigindo-lhe uma estátua.

AUTOR DESCONHECIDO


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Segue um texto por por Alberto Iria :  DESCENDENTES DA REGEDORA


«Em Moçâmedes, no dia de S. João em 1965, ainda me foi dado o prazer e a honra de visitar, em sua casa, um venerando homem do mar, natural de Olhão, já com 74 anos de idade, casado com D. Felicidade dos Santos Frota. Trata-se do senhor Januário Mendes Tendinha, nascido a 12 de Janeiro de 1891, na freguesia de N. Srª. do Rosário, filho de Januário António Tendinha e de Maria da Cruz Rolão Tendinha, prima-irmã da celebrada Regedora de Porto Alexandre Maria da Cruz Rolão. Veio para Moçâmedes a bordo no vapor Cazengo, apenas com 12 meses, na companhia de seus progenitores. Seu pai que chegou ser Regedor de Porto Alexandre, ali montou um estaleiro naval, contratado pelo mestre João Gregório Hungria, com mais dois calafates, e fez a travessia atlântica a bordo do caíque Harmonia. Este caíque, construído em Olhão nos estaleiros de mestre João da Carma, foi reparado e comprado em leilão, pelo pai do senhor Tendinha, e, mais tarde, vendido para o Lobito, onde foi transformado num barco motorizado com o nome de Nelson. O senhor Tendinha só depois de atingir os 21 anos é que teve licença oficial para governar o caíque Harmonia, durante cerca de 30 anos. É irmão do senhor Lordino Fernandes Tendinha, industrial de pesca em Porto Alexandre e ali presidente da Câmara». Fim de citação.


De Claudio Frota, vai este testemunho:
"...chamava-se "Harmonia", nome do caíque que pertencera à família Tendinha, de origem olhanense, nas primeiras décadas do séc. XX. Em 1976 agravou-se a guerra civil que assolava todo o território de Angola, com a sequente fuga da população. A população portuguesa ou de origem portuguesa que ainda permanecia preparou-se para abandonar o território. Urgia por a salvo o que restava de pessoas e bens.  O "Harmonia" juntou-se a outras traineiras para rumarem ao porto da Namíbia Walwis Bay. Deste porto houve quem rumasse ao Brasil fazendo-se transportar nos seus barcos de pesca. Dezenas de traineiras e alguns pequenos atuneiros partiram com destino à cidade de Portimão, no Algarve. A meio do percurso juntou-se-lhes o "S. Gabriel", barco de carga da Marinha de Guerra Portuguesa,  com combustível e mantimentos. Três dessas traineiras não chegaram ao destino, começaram a meter água e foram abandonadas e afundadas. Duas chegaram a reboque com os motores avariados. No Funchal, Ilha da Madeira, ficaram alguns atuneiros. No Algarve, "O Harmonia" mudou de nome, puseram-lhe "Miragem" porque havia outro barco de pesca com aquele nome; pescou na costa do Algarve e nos mares de Marrocos. As políticas europeias levaram-no ao abate quando prestava serviço nas pescas e se encontrava completamente restaurado pronto a novos desafios, acabando os seus dias com o nome de "Iona". Pertenceu sempre à família Tendinha, fixada em Faro e Olhão." Fim de citação.






sexta-feira, 1 de junho de 2007

Fernando da Costa Leal, quinto governador de Mossâmedes (1854-1959).



O capitão Fernando da Costa Leal, quinto governador de Moçâmedes (então Mossâmedes) (1854-1959).
 


Tinha 28 anos de idade quando chegou a Luanda na companhia de José Rodrigues Coelho do Amaral o Governador Geral que o nomeara para aquele cargo. Foi considerado um grande governador, figura principal da acção colonizadora do sul de Angola. Homem de grande iniciativa , valor, rara tenacidade.  De entre as iniciativas que tomou:   

- delineou a primeira planta topográfica da povoação, indicando nela abertura de ruas largas, traçadas em rectas à boa maneira pombalina, e animando os colonos a construírem prédios de agradável aspecto.

   
-abriu a primeira estrada da região;
   
-ordenou as obras da continuação e conclusão da Igreja cujos trabalhos de edificação começaram em 1849 mas suspensos pouco depois , foram continuados em 1854, sob seu plano e direcção e que foram rapidamente concluídas ;
- ordenou a ocupação da Huila e Gambos, levando a primeira peça de artilharia, subindo os caminhos da serra da Chela;
   
-fez uma viagem de reconhecimento na região do Cunene, por terra, uma vez que por mar a foz é   encoberta por uma barra de areia a maior parte do ano; marcou a latitude da foz do Cunene
   
- baptizou o rio com o nome de “Elefantes”;
   
- colaborou no traçado de uma carta geográfica de Angola;
   
- fez erguer a Fortaleza de S. Fernando no local do antigo forte sobre o rochedo que domina a baía;
   
- protegeu a colónia contra várias incursões de gentios;
- mandou acabar as obras da Igreja de Santo Adrião- melhorou e levou a cabo a construção do primitivo hospital,
   
-determinou a edificação do Palácio do Governo, (um dos mais bonitos do ultramar português), e várias casas para serviço público;
   
-mandou construir o edifício da alfândega e fomentou o comércio, agricultura e a indústria;:
   
- Fez uma importante foi a concessão das primeiras licenças de pesca comercial, na Baía das Pipas.


Foram sem dúvida distintos os serviços prestados por Fernando da Costa Leal, valorizados em extremo por terem sido prestados ao Distrito numa época em que tudo estava por fazer, sobrepondo-se às dificuldades. Porém Costa Leal apesar dos seus méritos não era bem querido,, com seu temperamento conseguiu o rancor de daqueles que foram por ele rudemente castigados, tendo-se formado na  Moçâmedes de então um grande partido contra a sua governação. Ao pároco da terra fez embarcar à força para Luanda, suspendeu o exercício ao sub-delegado da comarca, procedimento arbitrário confinado ao próprio Governador Geral. O descontentamento levou a petições a Luanda e Metrópole, até que em 27.02.1866 o povo amotinou-se, dirigiu-se à Câmara, obrigou a maioria dos vereadores a uma reunião que se manteve permanente até que Fernando da Costa Leal entregasse o Governo a um Conselho da escolha dos populares. Na petição à Câmara o governador é acusado de ignorar as leis, tudo subordinar ao seu livre arbítrio, Perante a exigência da turba, a Câmara Municipal (vereação) dirigiu-se ao Palácio onde Leal ter-lhes-ia dito nomeassem quem o subtituísse, mas acabou por negar a entrega do Governo aos populares.Voltou a vereação a confrontar-se com o governador que por fim cede, abandona o Palácio, prometendo embarcar no brigue "Maria" que os populares fretaram, no prazo de 48 horas. Mas iria dar-se um "volte face" na situação,  o novo governador Francisco António Cardoso Gonçalves, conhecendo a ocorrência, seguiu para Moçâmedes no vapor "Infante D. João", acompanhado por Fernando Leal, restabeleceu a disciplina e a autoridade, dissolveu a Câmara, substituiu a comissão administrativa presidida por Bernardino.

 Na realidade, e não  obstante estivessem presentes durante o seu «reinado» desinteligências entre a primeira Câmara de Moçâmedes e o Governador, como refere Manuel Júlio de Mendonça Torres, Fernando Leal era autoritário e violento, mas, ninguém pode negar que era também um espírito inteligente e activamente empreendedor. A sua acção administrativa foi de indiscutível utilidade para o Distrito.

«As contendas entre os antigos colonos e o Governador Fernando da Costa Leal nasceram das medidas arbitrárias da Primeira Autoridade do Distrito, constantes da representação dirigida ao Rei pela Câmara pelo Povo, a que se refere a acta de sessões municipais de 27 de Novembro de 1857, a páginas 74v.º:- «prisões sem culpa formada, deportações, espancamentos, intervenções nos actos legais da Câmara», etc. Tudo isto constituía para a Câmara e para o povo o jugo de ferro com que o Governador do Distrito os oprimia há mais de quatro anos e que eles (Câmara e Povo) não podiam mais suportar».

Com a saída de Costa Leal de Moçâmedes em consequência da tomada de posição da população, acabaram as desavenças, e passados anos, com a dissipação de ódios e ressentimentos, a Câmara e o Povo reconheceram os serviços do Governador, dando o nome de Praça Leal a uma das mais concorridas da cidade, e mandando a Vereação de 1903, da presidência de Serafim Simões Freire de Figueiredo, executar e colocar no salão nobre dos Paços do Conselho, o busto em tamanho natural, pintado a óleo. 


                                    
                                                            0000OOO0000

Ainda sobre este assunto, passarei a transcrever as seguintes passagens de dois textos retirados dos Annais do  Conselho - parte não oficial, l série, Fevereiro de 1854 a Dezembro de 1858, que nos mostra o movimento gerado em Moçâmedes contra o Governador Fernando da Costa Leal, pelo regime austero com que levava a cabo a governação e especialmente contra a sua deliberação em recrutar:

"Não é sem repugnância que vamos narrar um facto ultimamente acontecido, porém somos a isso obrigados em consequência do encargo que sobre nós pesa. O assentamento de praça aos colonos tornou-se tão odioso aos habitantes de Mossâmedes, em consequência dos factos que se praticaram nos primeiros tempos da colónia, a que nós, com tanto trabalho e privações, lançámos os fundamentos, que jamais serão esquecidos. Os habitantes de Mossâmedes, laboriosos e soffredores, lisonjeavam-se que taes factos se não reproduziriam, certos da sua perseverança e amor ao trabalho, da protecção do Governo de Sua Magestade, do interesse que o mesmo Governo mostra pelo progresso das colónias, julgavam-se a coberto d'esse procedimento odioso. Firme na convicção de que o Governo do nosso Augusto Monarcha não destinava fundos para o augmento da colonisação com o fim de fazer os colonos soldados, de que o Governo do Districto não necessitaria de outro apoio mais do que o dos habitantes laboriosos, julgava-se a coberto d'esses vexames que em outro tempo nos acabrunharam. Infelizmente laborava em erro! Três colonos, vindos ultimamente do Porto, onde tem sido tão difficil promover a colonisacão, tendo chegado a este Districto, foram remetidos para a  Huilla. Um d'elles, que é tecelão, padecendo ali de uma moléstia de peito, e também em consequência da ultima guerra, regressou a esta VilIa; os seus dois companheiros seguiram-no, um dos quaes também ó tecelão; obtiveram as competentes guias, e aqui se apresentaram. Por felicidade para elles e para o Districto o Sr. Eugênio Wehzlin estava montando uma fabrica de tecidos, que tão útil deve ser ao Districto, por ser a primeira empreza d'este género; os dois colonos foram oferecer-lhe os seus serviços, depois de se terem apresentado ao Governo do Districto; o Sr. Eugênio contratou-os a l$000 réis mensaes cada um, e prometendo-lhes que logo que a fabrica estivesse montada lhes augmentaria o ordenado. Os dois colonos ficaram satisfeitos, e o publico também, por ver mais esse elemento que vinha coadjuvar o Sr. Wehzlin no seu projecto do montara fabrica já quasi concluída. Mas qual não seria a admiração e indignação geral, vendo que logo no outro dia, 25 de Novembro, se sentara praça aos dois colonos, e para maior fatalidade no anniversario em que a segunda colónia, vinda do Brazil, descobriu as praias de Mossâmedes; n'esse dia verdadeiramente nacional para este Districto!! No dia 26 de Novembro havia sessão ordinária da Camara Municipal; e depois d'esta ter principiado os seus trabalhos ordinários, viu afluir repentinamente, pelas onze horas do dia, cincoenta e tantos cidadãos, isto é, as duas terças parles dos habitantes, com uma representação escripta, e já em grande parte assignada, pedindo á Camara que esta os coadjuvasse para pedirem a S. S. o Governador do Districto a soltura dos dois colonos. A Camara suspendeu os seus trabalhos ordinários para tomar conhecimento da representação dos habitantes, e reconhecendo que o povo exercia um direito legitimo (o de petição) resolveu coadjuva-lo, elegeu pois uma representarão, e nomeou dois cidadãos para apresenta-la a S. S. Um d'elles, o Sr. José Francisco da Costa Roxo, que tantos serviços tem  prestado a Mossâmedes, foi repellido por S. S., por não ser morador no Districto, como se não fosse portuguez! S. S. não attendeu, e respondeu que a medida que tinha adoptado seria mantida, e responsabilizou a Camara por qualquer prejuízo que de tal acto resultasse. Então o povo requereu que se lavrasse um protesto contra aquella responsabilidade que S. S.S queria fazer pesar sobre a Camara. A Commissão tinha proposto em nome do povo ao Sr. Governador do Districto que se desse baixa áquelles colonos, e que o Governo rcceberia o imposto de todas e quaisquer despezas que se tivessem feito com o transporte e comedorias dos ditos colonos; tambem foi repellida esta proposta. Então o povo requereu que se representasse ao Governo de Sua Magestade contra aquelle e outros actos do actual Governador, o Capitão Fernando da Costa Leal, o que assim se praticou.
Assistiram a esta reunião as pessoas mais gradas do Município; todos os comerciantes, á excepção de três ou quatro, e entre todos o Illustrissimo Juiz Ordinário, que presenceou todo o occorrido. Esta reunião é uma prova do quanto este povo é morigerado e soffredor, e do quanto anhela o nosso progresso. Não houve um só distúrbio ou tumulto; reinou a maior tranquillidade, e, apesar de não ser attendido, o povo dispersou-se ás cinco horas e meia da tarde, sem que para isso se empregassem meios de força, nem admoestações da parte.do Governo! Não obstante instaurou-se um processo, por ordem do Governo, e foi sentenciada a Camara Municipal em dezoito mezes de suspensão pelo Juiz Ordinário, apesar de que faltassem apenas onze dias para findar a sua administração! Esta condemnação illegal, e que em nada anhela os interesses dos Vereadores, affecta todavia a dignidade da Camara, que d'ella se aggravou, e se aguarda o resultado.

Dissemos em outro logar, que os colonos hoje são mais bem tratados do que em outro tempo; infelizmente temos hoje de reformar aquella asserção. Consta agora que os colonos da Huilla estão sofrendo privações a ponto de alguns terem vindo representar, e outros se estão retirando.

Tendo dois dos ditos colonos vindo reclamar providencias ao Governo, partiram outra vez para a Huilla no dia 12 do corrente; porém, adoecendo um no caminho, voltou a pedir carregadores. S. S. o Governador não lh'os deu, e reprehendeu-o; elle receoso seguiu outra vez a pé, e a dois dias de viagem caiu; então, o seu companheiro, que tambem se achava cansado, e com logar ermo, deixou-o e seguiu para o Bumbo promettendo-lhe voltar d'ali para o conduzir. Um soldado passava então a cavallo, o infeliz pediu-lhe que o conduzisse no seu boi, e o soldado teve a barbaridade de lhe pedir 5$000 réis, e porque o infeliz só tinha 3$000 réis não o quiz conduzir! Quando voltou o seu companheiro a procura-lo não o achou, havendo toda a probabilidade de ler sido devorado pelas feras!! Este colono era allemão e casado.   É-nos bem sensivel narrar este facto, porém infelizmente julgámos da nossa obrigação faze-lo.
Terminámos o nosso trabalho, e vo-lo apresentámos na ultima sessão da Camara de que fizemos parte; depois de amanhã toma posse a nova Camara: fazemos votos pelo progresso do Município, e para que elle seja tão feliz na direcção dos seus negócios, quanto nós lutámos com entraves e difficuldades.

Sala das sessões da Camara Municipal de Mossamcdes, 31 de Dezembro de 1857 — José António Lopes da Silva = João Dolbeth e Costa.


Está conforme.=Secretaria da Camara Municipal de Mossamedes, 31 de Dezembro de 1857.=Francisco Augusto Ponce Leão, Escrivão interino da Camara Municipal.


Consta agora que o Governo vae mandar uma pessoa para a Huilla examinar o estado da colónia, e o meio de prover as suas necessidade, bem como que aos dois colonos se tinham dado carregadores, no que estes tinham saído adiante, e que os colonos tinham depois comprado alguns arranjos de que fizeram cargas bastante pesadas, e que no podiam carregar. Como só a verdade queremos que saia da nossa boca, apressamo-nos a fazer esta declaração.
Mossamedes, 9 de Janeiro de 1858. José António Lopes da Silva.=João Dolbeth e Costa. Está conforme. = Secretaria da Camará Municipal de Mossamedes, 9, de Janeiro de 1858.=Francisco Augusto Ponce Leão, Escrivão interino da Camara Municipal.
                                                                           
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Passarei a transcrever parte do livro «Quarenta e cinco dias em Angola», sobre o Capitão Fernando da Costa Leal, quinto Governador de Mossâmedes (1854-1959), que não é mais que uma narrativa de viagem de um português que em 1861 viajou pela costa de Angola, visitou Loanda, Benguela, e Mossâmedes, etc., e ali deixou registadas as suas memórias. No livro, editado no Porto e destinado a oferta a familiares e amigos, o autor que declara  ter deliberadamente ocultado o seu nome, escreveu em favor do mesmo Governador:

«...Mossamedes podia ter prosperado muito mais, se tivesse tido sempre governadores tão intelligentes e honrados como Fernando da Costa Leal, a quem ella muito deve. Moço de instrucção, de um caracter enérgico, e de uma honradez exemplar, foi o único governador de Mossamedes que fizesse obras de reconhecida utilidade, apesar das difíiculdades que teve de vencer, e da crua e injusta guerra que lhe moveram alguns habitantes da villa. Já ha muito reconheceram elles os seus erros, porque viram que a inteliigencia, energia e boa vontade foram bem mal substituídas, attendendo-se ao interesse particular e despresando-se completamente os do districto. É verdade que este estado de cousas convém a certos indivíduos; porque em Mossamedes, se a terra é boa, a gente nem toda o é: ha muito quem pesque era aguas turvas, e a quem convenha a desordem e o desleixo.

Esta é infelizmente a grande ulcera das nossas possessões. As ambições, a inveja, e o ascendente que muitas vezes certos empregados subalternos tomam sobre outros mais graduados, mas de menos intelligencia, são causa de muitos devaneios, de muita injustiça, de muita intriga, e acabam sempre pela completa desorganisação do systema administrativo que se tenha tentado seguir. Mas ainda esta não é a maior difficuldade que a authoridade tem de combater, porque havendo sufficiente energia, com pouco custo faz entrar no seu dever os seus subordinados, e facilmente pôde afastar para longe aquelles que lhe forem hostis; o que é mais para recear, são certos habitantes que depois de se pilharem senhores de uma casaca preta, de um chapeo de copa alta, e de um par de luvas brancas, esquecem o que foram, e o que verdadeiramente ainda são, pretendendo como o gaio da fabula, revestido das pennas do pavão, que lhes dêem uma importância que elles não merecem e até de que não são dignos. Quando um governador, que conhece o seu lugar, encontra d'esses perus cheios de vento e de soberba, e não transige com elles, tem de luctar constantemente com mil intrigas e embaraços que adrede lhe preparam aquelles, cuja influencia foi despresada.

A mania geral em Angola, é ser o favorito dos governadores, dominal-os, e fazer depender da sua approvação certos pedidos e determinações. O Governador Leal emancipou-se d'essas tutorias:—achou-se só no campo, luctou com perseverança, pagou a ingratidão com benefícios, e succumbindo com gloria, retirou-se, sem que a mais leve nódoa tivesse manchado o seu nome. D'estes homens não convém para as nossas possessões : — por isso teve de recolher a Portugal."

O autor prossegue:

"...Este zeloso funccionario levantou uma planta de Mossamedes, e n'ella indicou as construcções que tencionava mandar fazer: projecto bem combinado, e conveniente para evitar o desalinho que se nota em todas as terras, onde logo de principio não houve o cuidado de traçar um plano geral de obras. Edificou o quartel, que com quanto seja hoje um dos peores edifícios de Mossamedes, era n'aquelle tempo o melhor que havia, mesmo porque então não se dispunha ainda de muitos objectos que já se encontram no mercado, e também porque os recursos que tinha, eram mui restrictos. Principiou a fortaleza, cujo plano foi depois alterado e estragado por quem o substituiu na direcção d'aquelles trabalhos. Lançou as fundações de um Palácio para o governador, juntando á custa de muitos sacrificios, grande quantidade de materiaes para a sua continuação. Edificou uma bella igreja, com residência para o parocho, e tentou estabelecer um moinho, para cujo fim chegou a receber de Lisboa as pedras necessárias, que jazem dispersas na praia onde provavelmente ficarão cobertas pela areia. Visitou o interior, construiu fortes, e deu grande incremento á Colónia da Huilla, onde estabeleceu um moinho, que ainda hoje trabalha com proveito dos colonos e da guarnição. Actualmente as únicas obras que se vêem em andamento são as da fortaleza, mas essas mesmas seguem com morosidade, porque os operários também se occupam no serviço de alguns particulares influentes. Os materiaes, destinados para o Palácio, tem sido vendidos, dados e roubados!

Contrasta de uma maneira bem singular este estado de dissolução com a actividade que presidiu ao desenvolvimento material, que em outro tempo se manifestara, e que eu tractei de esboçar.  Em Mossamedes não ha senão uma casa de um andar, e nem é prudente fazel-as ; não só por falta de madeiras solidas, como também por causa do modo de construcçao de que se servem por não haver pedra; pois que a que apparece na villa é um grés friável, ou uma petriíicação curiosa, que se compõe de conchas envolvidas n'uma espécie de betume. Com esta qualidade de pedra é que estão construindo a fortaleza.

O Governador Leal descobriu próximo de Mossamedes gesso de excellente qualidade, de que fazem grande uso na villa, e que os navios poderiam transportar como lastro para Loanda: — é mais um ramo de commercio que tem sido despresado.

As construcções são feitas com adubos seccos ao sol, sem nenhuma outra preparação, e formando pedaços de grandes dimensões. Cada tijolo tem proximamente 4-4 centímetros de comprimento, por 22 d'espessura, e outros tantos de largura : o barro é do melhor que se pôde desejar, e daria magníficos tijolos se os cozessem e os fabricassem do formato francez.

A casa de melhor risco é onde vive o governador, e pertence a um portuguez, natural de Lisboa, estabelecido na ilha de S. Thomé. Afora mais algumas casas particulares, as outras são occupadas por gente de negocio, soldados casados e degredados com officio. Quasi todas as habitações da Praia tem páteos,onde plantaram palmeiras e coqueiros, no meio dos quaes abrem a sua cacimba, pequeno poço, cujo revestimento interno é formado cora barricas sem fundo, sobrepostas umas nas outras, e d'onde tiram a agua para usos domésticos, sendo alguma de boa qualidade.

Apesar de ser muito melhor que a de Loanda, a agua é igualmente filtrada, e julgo que vêem do interior os filtros que lá usam, de um grés mais compacto do que o que se emprega nas construcções. O açougue fica situado n'uma elevação, e algum tanto afastado do centro da villa.

As ruas estão por calçar; — tencionavam dar principio a esse melhoramento, o que me não pareceu muito acertado, em quanto não tiverem fixado com plantações de arvores, ou outras edificações, as areias que os ventos trazem sempre em movimento.

Sem uma barreira no litoral que se opponhaá invasão das areias, e que sirva para no futuro fornecer madeiras de construção, mal poderá Mossamedes conseguir ter nas suas excelentes ruas um piso comodo e uma comunicação fácil com o sitio tão concorrido das Hortas. Dizem-me que já tentaram a sementeira dos pinheiros, mas sem resultado. Houve por força má direcção n'essa experiência, porque o pinheiro ha de dar-se n'um clima tão benigno como aquelle : longe de desanimar, deveriam repetir por mais vezes, e em díferentes pontos, outras tentativas, porque o seu bom êxito muito contribuiria para a prosperidade d'aquella terra.

Convinha primeiro plantar ao longo da praia cinco ou seis fileiras de coqueiros, que se dão bem na agua salgada,para se poder estabelecer uma linha de defeza, como se pratica nas Landes, e ao abrigo d'ella ir semeando os pinheiros, que nunca poderão vingar, se depois de semeados os deixarem abandonados e entregues ás invasões das areias. Vingada a primeira sementeira, essa mesma serve de resguardo ás que depois quizerem fazer.

É muito para sentir que se tenham occupado tão pouco de plantações: apenas na praça da Colónia se vêem algumas arvores mal resguardadas. O Governador Leal tentou edificar a villa no sitio mais alto e onde as areias são menos abundantes, mas a commodidade dos desembarques, e sobre tudo o receio que muitos tinham que alli se não encontrasse agua, fizeram com que preferissem a baixa. Tempo virá em que aqueloutro terreno será mais apreciado, sobre tudo se se levar a cabo o Palácio projectado. A falta d'agua já a não devem recear, porque também aquelle governador a encontrou a pequena profundidade. "


O Governador Leal depois de ter deixado Moçâmedes, na sequência dos acontecimentos descritos, voltou em 1866 a ocupar o lugar de Governador.  Segue outro texto sobre o mesmo assunto:

"Fernando Leal e os acontecimentos revolucionários de 1866

Já há muito que o Governador Fernando da Costa Leal vinha sendo acusado de prepotência e iniquidade pelos colonos de Mossâmedes e quase ao termo do seu segundo governo a situação chegou ao rubro manifestando-se sobre a forma de sedição, que perturbou a acção administrativa distrital. De entre as acusações contam-se obstáculos de ordem económica, peias no giro normal das actividades, empecilhos por supostas violações de direitos.

Com data de 27 de Fevereiro de 1860, um grupo de 33 signatários solicitando a intervenção a Câmara apresentou um documento , existente no Arquivo Municipal, onde se pode ler:


«Estamos cansados» de «representar tantas e repetidas vezes, já ao Governo da Província, já ao Governo do Reino, já às Cortes de conformidade com as leis que nos rege, acerca das muitas arbitrariedades e injustiças, constantemente praticadas pelo Governador Fernando da Costa Leal, durante o tempo que tem administrado o Distrito; de não termos sido atendidos em nossos justos pedidos; de não nos ter sido reconhecida a utilidade do direito consignado e garantiso pelo disposto no parag 17 do artº 145 º da Carta Constitucional, visto não ter diso dada até agora a devida e urgente atenção às nossas queixas» . 


«Pretendemos» por tais motivos, «pedir a intervenção da Câmara para fazer constar ao senhor governador Fernando da Costa Leal que, lembrados de como nossos avós falavam às autoridades, chegando a dizer a um rei absoluto: «se não nos governar bem, escolheremos outro melhor», não o queremos mais um momento governador do Distrito, que não nos obrigue a lançar mão dos últimos recursos para o conseguirmos e para o que estamos todos dispostos». E a representação termina textualmente: «É isto que respeitosamente vos pedimos, Senhores Vereadores deste Municipio, é esta a expressão de todo este Povo».

Como resultados imediatos foi nomeado um governo provisório para a deposição do Governador.
É o próprio Governador que em resposta, sugerira à Câmara que nomeasse quem o substituísse ou que de novo representasse ao Governo-Geral ou ao de Sua Majestade, tendo a Câmara deliberado unânimemente que o Governador entregasse o Governo, desde logo, a um Conselho composto dois seguintes vogais:


-O Juis de Direito da Comarca, e, no seu impedimento, Juiz Ordinário;
-O Delegado Procurador da Coroa, e, na sua falta ou impedimento, o Dubdelegado do Julgado;
-O Secretário actual do Governo;
-O Escrivão da Delegação da Junta da Fazenda Pública;
-O Oficial mais graduado do Batalhão de Caçadores Nº 3;
O Pároco da Freguesia;
Manuel Fortunato de Couto Aguiar; "


                                                                                                                                                                               
 

UM MOTIM EM MOSSÂMEDES NO ANO DE 1866, por José Manuel da Costa: ver 

Boletim Geral das Colónias . IV - 040. PORTUGAL. Agência Geral das Colónias, Vol. IV - 40, 1928, 254 pags.


RELATÓRIO DA VIAGEM FEITA АО RIO DOS ELEFANTES EM NOVEMBRO DE 1854


«Desde muito tempo que se falava no rio Cunene, na fertilidade de suas margens, e na sua riqueza mineral; porém estas notícias, apenas colhidas de indivíduos que feiravam pelo sertão, nada diziam respeito à sua foz, havendo por isso incerteza se era ou não navegável em toda a sua extensão. Resolvido pois a prestar algum serviço ao meu país, tomei a deliberação de ir pessoalmente à foz daquele rio, a fim de conhecer de que grau de importância se tornaria para o comércio de África aquele rio, que desagua na costa ocidental, e não na contra-costa, como erradamente vem marcado no mapa que faz parte dos ensaios de Lopes Lima sobre a estatística das nossas possessões ultramarinas; digo que vem marcado erradamente, porque tendo a sua origem no país chamado Nano, nome gentílico, e que significa terras altas, divide Molembo, Rombe e Camba, que ficam na margem direita do Canhamo, que fica na margem esquerda, descrevendo uma curva até ao litoral do distrito de Mossâmedes, em latitude de 17° 15', o que se conclui da descrição que os feirantes do mato fazem do seu curso, bem como do que dizem os moimbas e mossimbas, povos que habitam na margem esquerda, e que entretêm algumas relações com o povo de Craque, povoação ao sul de Mossâmedes, a dia e meio de viagem. Finalmente em abono desta opinião vem a planta junta n.º 1, copiada de um atlas geográfico em inglês (Bowles's new one sheet map of Africa) no qual se vê a direcção que o rio leva da origem à sua foz, e que pouco difere da que os feirantes ou fonantes descrevem.

«Na firme tenção de dar uma notícia exacta da sua foz, e ver até que ponto era navegável, em 3 de Novembro, depois de lavrado, assinado e arquivado o competente auto na secretaria do governo (copia n.º 1), embarquei na escuna Conselho, bem como os srs. Bernardino F. F. Abreu e Castro, director dos colonos, Antonio Acácio de Oliveira Carvalho, capitão do brigue Aurora, José Duarte Franco, piloto do mesmo navio, e o colono Antonio Romano Franco, os quais mostraram vivos desejos de me acompanhar nesta digressão, e a que gostosamente não pude deixar de anuir. Pelas onze da noite saímos da baía de Mossâmedes, seguindo o rumo do sul, e ao segundo dia de viagem levantou-se por SO um vento rijo que nos obrigou a ir de capa seguida por algumas horas. No terceiro dia abonançou mais o tempo e prosseguimos na nossa derrota; até que finalmente no dia 8 chegámos à latitude da ponta do norte da grande baía dos Peixes (planta n.º 2), onde entrámos nesse mesmo dia. Esta vasta baía, que tem de largura 6 milhas e meia, e 18 de comprimento, é limitada a leste por grandes dunas de areia, e ao oeste por uma península também de areia, cuja máxima altura acima do nível do mar será de 8 a 9 palmos, e oferece um bom abrigo às embarcações de qualquer lote. A baía é muito abundante de peixe, sobretudo de baleias, como tivemos ocasião de observar. Se porventura ali se estabelecessem feitorias de pesca, estou certo que os lucros seriam avultados para quem se dedicasse a este ramo de indústria; e posto que o país que a circunda não ofereça sinal de vegetação, a não ser algum pequeno arbusto da família dos cactos, contudo tem muito próximo água doce; e na costa que segue ao sul da baía, na extensão do 80 milhas, muitos troncos de árvores que logo supusemos, como depois se verificou, serem oriundos das margens do rio Cunene, os quais, sendo lançados ao mar na ocasião das cheias pela sua grande e forte corrente, são depostos pelas marés no litoral ao norte da boca do rio. Pela ocasião de nos aproximarmos do fundo da baía figurou-se-nos ver algum arvoredo e um grande lago, o que tornava mais risonho o aspecto do país, mas esta ilusão durou poucos momentos; era a refracção que nos convertia os pequenos arbustos em grandes árvores, e o fenómeno da miragem que nos fazia tomar por lagos o que apenas eram planícies de areia em que reflectiam as supostas árvores e outros objectos elevados. Estivemos os dias 8, 9 e 10 fundeados na baía, na intenção de continuarmos a viagem por mar e irmos deparar com a boca do rio; porém sendo aquele ponto pouco conhecido, havendo o receio de ser difícil a sua entrada, e não acharmos próximo um abrigo seguro para a escuna, decidiu-se fazermos por terra o resto da viagem ao longo do litoral.

«Feitos os preparativos necessários, pelas oito horas e dez minutos do dia 11 desembarcámos e pusemo-nos em marcha a pé, no número de dez brancos e onze negros, que nos serviam para conduzir os comestíveis. Depois de havermos descansado duas vezes, tendo-se caminhado por areias movediças, marcha bastante penosa debaixo de um sol ardente, fizemos alto pelas cinco horas da tarde na praia das Esponjas, onde armámos barraca e passámos a noite, tendo sido o nosso trajecto até ali de 14 milhas, rumo SSO. Pelas quatro horas da tarde do dia 12 prosseguimos a nossa jornada na direcção NS caminhando por grandes bancos de granito, cortados no sentido longitudinal e transversal por veios de basalto, ficando-nos por leste grandes dunas de areia. A marcha foi menos penosa em razão do piso ser mais suave, e de termos tido maior número de descansos por causa dos carregadores que iam bastante fatigados. Às quatro e meia da tarde, tendo percorrido 12 milhas, acampámos junto ao litoral, sem que houvesse sequer um pequeno sinal que nos indicasse a proximidade de um rio. Quando se deu ordem para a ração de água, o que assim se tornava necessário, pois que apenas levávamos duas ancoretas dela para vinte e uma pessoas, ficámos um pouco desanimados, sabendo que apenas contávamos com cinco a seis quartilhos de água, sem esperança de a havermos em lugar próximo.

«No entretanto tomou-se a resolução de mandar duas pessoas um pouco mais para o interior, encarregados de fazerem escavações em terrenos baixos em procura de água, infrutuoso trabalho. Ainda não descoroçoados, e na firme tenção de obviar todas as dificuldades à nossa marcha, partiu para o mesmo fim o sr. Abreu Viana acompanhado de algumas pessoas. Mal sabíamos que apenas distávamos do rio 4 e 1/2 milhas. Pelas nove e meia da noite voltaram da sua expedição trazendo em duas garrafas uma porção de água límpida e fresca tirada do rio que no dia seguinte íamos ver.

«Passámos a noite alegremente, e ansiosos pelo romper da aurora para chegarmos ao nosso fim desejado. Não tardou muitas horas. Às quatro da manhã levantou-se barraca, e pelas cinco e meia chegou-se á margem direita do rio, légua e meia acima da sua boca. Daquele ponto se notaram logo coroas de areia, as quais aumentavam para a sua foz; e junto a esta existe uma ínsua com alguma vegetação (paisagem n.º 1). Porém não sendo possível conhecer daquele ponto se o rio tinha ou não entrada ampla e livre, fomos ao longo da margem direita até à costa; ali tivemos ocasião de ver que em frente do rio há um banco de areia, que liga completamente com a costa, que na ocasião das enchentes é roto ou transposto pelas águas do rio; e que, quando este leva pouca água, esta é infiltrada na areia. Deve-se aqui notar que Pimentel no seu roteiro diz que a corrente deste rio se faz sentir umas poucas de milhas ao mar; e indica o rumo que uma lancha ou escaler deve seguir na entrada do rio; porém estou intimamente convencido que quando este navegador ali passou foi na ocasião da cheia, que considerando-a como o seu curso regular, não apontou por isso esta circunstância. Ora, se em lugar de fazermos o resto da viagem por terra, fôssemos por mar, sendo o banco bastante alto, e confundindo-se com o resto da costa, não dávamos por certo com o rio, embora a sua latitude se ache bem demarcada. E quando mesmo se pudesse avistar o rio, a costa é tão batida que não permitiria a aproximação de uma lancha, sob pena de ficar destruída. Junto ao litoral, e na margem direita do rio, há bastante vegetação, e ali encontrámos grande quantidade de corças, penélopes, e cabras, que apesar de levarmos as nossas espingardas não foi possível tê-las a alcance de tiro. A costa neste ponto corre a SSO, e não oferece abrigo de qualidade alguma. O rio junto ao banco é bastante espraiado, e apenas permitirá que ali navegue um barco de fundo de prato; as suas margens são pouco elevadas, formadas de areia e calhau rolado com alguma vegetação; voltámos desta digressão para o nosso acampamento, e logo depois, e pela primeira vez deparámos com um elefante passeando na margem esquerda. Houve grande alvoroço no nosso pequeno bivaque com a aparição deste pacifico habitante das margens do rio Cunene, e imediatamente seis indivíduos da nossa comitiva passaram o rio a vau para lhe darem caça, não sem risco de vida na passagem do rio por causa dos jacarés, em que é abundante.

«Alguns dos caçadores mais atrevidos dispararam as suas armas bem perto do animal, mas este, sem alterar a sua marcha, foi seguindo o seu caminho sem que fizesse o menor caso dos seus perseguidores. No seu passo moroso, mas largo, ganhou aos caçadores grande dianteira, apesar de estes se esforçarem pelo alcançar, e encaminhou-se para o ponto da margem correspondente àquela onde tínhamos a barraca. Não foi sem algum receio que vimos o animal atravessar o rio na nossa direcção; pusemo-nos em defesa começando a fazer-lhe fogo, o que não impediu que efectuasse a passagem com bastante sossego, e seguisse para o interior pela margem direita sacudindo de vez em quando as suas enormes orelhas como sinal demonstrativo de lhe ser estranha e pouco agradável a música das balas.

«Passámos o resto do dia e noite perfeitamente sossegados, tendo-se previamente decidido, visto termos ainda mantimentos e grande abundância de água, explorarmos o rio até onde pudéssemos. No dia 14, pelas quatro horas da manhã seguimos ao longo da margem direita, encontrando a cada passo de um e outro lado do rio grandes medas de lenha, e troncos grossos semelhantes àqueles que vimos na costa. As margens vão-se elevando a pouco e pouco, e o rio estreitando-se sem que seu curso seja interrompido; mas a duas horas de viagem encontrámos grandes cachoeiras (paisagem n.º 2). A margem esquerda é formada de elevadas dunas de areia, e a margem direita de grandes rochas graníticas cortadas a prumo, o que nos obrigou a afastar um pouco da margem, e a seguir pelo espaço de quatro horas e meia primeiro que voltássemos ao rio. Foi este um dia de marcha mais penoso que tivemos, e sobretudo para os carregadores, em razão do terreno ser cortado por grandes ravinas, que ora eram transpostas, ora torneadas.

«Não sendo possível prosseguir mais naquele dia em razão do grande cansaço, caminhámos para o rio a fim de na sua margem escolhermos um local onde passássemos a noite; efectivamente chegámos a um sitio agradável e pitoresco, mais rico de vegetação, sendo a maior parte dela composta de cedros de dimensões muito menores que os da Europa; as margens são aqui um pouco espraiadas, oferecem, sobretudo á direita, fácil trânsito, sem que contudo deixe de ser orlada de grandes rochedos, continuando pela margem esquerda sem interrupção as dunas de areia. Neste lugar encontrámos grande quantidade de bosta de elefante, pegadas de zebras, corças, raposas, macacos, e de leão. A direcção do rio é de NE quarta de L. «Em 15 continuámos a marcha com grande escassez de mantimentos, sem esperança de obtermos caça de qualidade alguma. Pelas nove horas e meia apertando mais o calor fizemos alto para descansar e almoçar o resto do nosso farnel, na firme tenção de retrocedermos, e ganharmos a baía no mais curto espaço de tempo, para não passarmos por crise de fome num país onde se não encontrava vestígio algum de gente. Felizmente durante o descanso avistou-se um elefante com seu filho em uma ilhota de capim, a menos de tiro de fuzil. Houve logo ideia de acometer a mãe para lhe apanhar o filho, mas a que eu não anuí, pois que sobre mim pesava grande responsabilidade, se por desgraça algum da comitiva fosse vítima do seu atrevimento; estivemos por algum tempo vendo o animal andar de roda do filho, como querendo abrigá-lo de alguma agressão, até que por fim o desamparou e seguiu pelo rio acima. Logo que o perdemos de vista consenti que fossem dar caça ao filho: em breves minutos um dos soldados que nos acompanhava, soldado preto e desembaraçado, transpôs o espaço que mediava entre nós e o animal, e à queima-roupa lhe disparou um tiro que o varou de espádua a espádua. Foi imediatamente conduzido por seis pessoas para o lugar onde estávamos, aberto e esfolado, esquartejado, e distribuído em rações. Pesava 7 arrobas, apesar de ser recém-nascido, o que se verificou por não ter coisa alguma nos intestinos, e somente uma porção de leite contido no estômago. Mandou-se logo cozer e assar uma porção de carne, e posso asseverar que é excelente. «Pouco depois prosseguimos mais satisfeitos a nossa viagem: o aspecto do país que íamos percorrendo era sempre o mesmo, com a diferença porém da vegetação ser mais desenvolvida (paisagem n.º 3), e as pegadas de diferentes animais serem em maior número, com especialidade as de elefante, o que leva a crer que nas margens do rio, mais para o interior do país é onde persistem grandes manadas de elefantes, e que em certas épocas do ano descem às margens por que caminhámos.

«Desde a boca do rio até ao lugar a que pudemos chegar, que se calculou ser de 21 milhas, encontrámos oito elefantes dirigindo-se para o interior do país. Até este ponto o rio não tem importância alguma, é bastante estreito, tortuoso e cheio de cachoeiras, e por isso inavegável. Ainda mesmo que se destruíssem as cachoeiras, o que não era impossível, o rio nunca poderia ter a sua foz completamente desembaraçada; porquanto sendo a margem esquerda formada por grandes morros de areia, com facilidade é levada pela força da corrente, e em ocasião de cheias, até junto da sua foz, aonde sendo o rio mais espraiado, é ali depositada, em consequência da velocidade da corrente ser menor. Se o rio é navegável em alguns dos seus pontos não o sabemos, nem tão pouco a que distância nos ficam os povos que habitam suas margens; o que divisámos foi uma cordilheira de montanhas na direcção NS, e bastante elevadas, que supusemos distarem de nós de 6 a 7 léguas. Não nos dispusemos a transpô-las em razão das poucas ou quase nenhumas comodidades com que fizemos esta viagem; além de que a nossa missão era outra, e estava cumprida; e por isso no dia 16 regressámos à grande baía dos Peixes na direcção NO quarta N., onde chegámos no dia 17 pelas dez horas da manhã; tendo sido nosso trajecto por terra e a pé trinta e tantas léguas. Seguiu-se o embarque, e pela uma hora da tarde fez-se a escuna de vela, e às quatro horas da tarde do dia 18 lançava ferro na bela baía de Mossâmedes. Logo depois do desembarque lavrou-se um novo auto (cópia n." 2) das circunstâncias que se deram na viagem, e dos motivos que nos levaram a alterar a denominação daquele rio. Os resultados desta digressão vão-se sentindo; vários moradores de Mossâmedes, e que costumam negociar para o mato, preparam-se para fazer por terra uma excursão às margens do rio dos Elefantes, onde decerto vão achar mais uma fonte de riqueza para o comércio do estabelecimento: se porventura tratarem amigavelmente com o gentio daquelas paragens, o que decerto influirá para que de futuro venha pessoalmente negociar a Mossâmedes, a exemplo dos povos dos Gambos, Huila, Jau, Humpata, Quilengues, Humbe, Camba, Mulondo e outros.

«Mossâmedes, 20 de Novembro de 1854. Fernando da Costa Leal.»

Transcrito da Nota 9.ª de Exame das viagens do Doutor Livingstone, por D. José de Lacerda, Lisboa, Imprensa Nacional, 1867, pags. 515-520. Actualizou-se a ortografia, mas manteve-se a pontuação.



Foram governadores de Mossâmedes no primeiro decénio da sua fundação (1949-1859):

O capitão de Fragata António Sérgio de Sousa (1849/1851);
O major José Herculano Ferreira da Horta (1851-1852):
O capitão-tenente Carlos Frederico Botelho de Vasconcelos (1852-1854);
O tenente António do Canto e Castro (1854);
O capitão Fernando da Costa Leal (1854-1959)
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O major José Herculano Ferreira da Horta (1851-1852)

-Governou o distrito apenas 14 meses, pois que, tendo tomado posse do cargo a 10 de Agosto de 1851 deixou de o exercer em 3 de Outubro de 1852.
- Presidiu, com notável zelo, à 5ª, 6ª e 7ª sessões do Conselho Colonial Português.

O capitão-tenente Carlos Frederico Botelho de Vasconcelos (1852-1854);

-Assumiu a administração do Distrito em 3 de Outubro de 1852.
-Desenvolveu rigorosa e severa fiscalização, escreve Brito Aranha, sobre os rendimentos da colónia e sobre os objectos da fazenda nacional, que, naquela época, eram escassíssimos, mas também conseguiu, de acordo com o Governo Geral da Província, e, tendo para isso as necessárias ordens do Governo da Metrópole, que cessassem os abonos que os colonos recebiam,e que, alimentando a ociosidade de muitos deles, atrasavam consideravelmente o desenvolvimento dos trabalhos agrícolas». (Memórias Histórico Estatísticas).

A acção do Governador teve bons resultados uma vez que fez regressar ao trabalho aqueles que, ante os infortúnios dos primeiros tempos, dele se iam afastando, o que os beneficiou e beneficiou o Distrito.

O tenente António do Canto e Castro (1854)
Apenas geriu a administração do Distrito por 23 dias de 04 de Fevereiro de 1854, data da sua posse, até 26 do mesmo mês e ano.

Bibliografia: Manuel Júlio de Mendonça Torres
«Moçâmedes nas fases de origem e da primeira organização»,
1º volume. Agencia Geral do Ultramar