Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2007

Aglomerados rurais nas margens do rio Bero e Giraúl . A Fazenda dos Cavaleiros.


[Fazenda+dos+CAVALEIROS.JPG]




A História do Distrito de Mossãmedes seria mutilada se ignorássemos os testemunhos escritos deixados pelos viajantes, e que se pressupõem sinceros, embora, como não poderia deixar de ser, perspectivados sob o prisma da mentalidade da época, nos possam vir a agradar ou  a desagradar.

.................................................................................................................................................................... Extracto do livro «Quarenta e Cinco Dias em Angola», de autor anónimo, publicado em 1862


(Trata-se mais uma vez da «Quinta dos Cavalleiros» (imagem acima), um dos símbolos da fixação do primeiro grupo de portugueses que, idos do Brasil, fugidos aos lastimosos acontecimentos de Pernambuco ocorridos a 26 e 27 de Junho de 1848,  chegaram a Mossãmedes no dia 04 de Agosto de 1849, para alí, em solo que consideravam Luso,  se fixarem e desenvolverem as suas propriedades agrícolas nas margens férteis dos rios Bero e Giraúl ).


«...Sigamos para a quinta dos Cavalleiros. Vamos vêr esse campo de batalha, onde o gentio ainda há pouco deu provas da sua estupidez e covardia. Teremos de dar uma pequena volta, mas não importa; — proporciona-nos a occasião de vermos a propriedade do mais excêntrico dos facultativos.


O cirurgião-médico de Mossãmedes, além de sèr habilissimo na sua arte, é um excellente homem, estimado de toda a gente que tem a felicidade de o conhecer. Lapa e Faro é o seu nome, estudou quatro annos na escola do Porto, frequentou o quinto em Lisboa, entrou para o serviço da armada, e acha-se, não sei como, estabelecido em Mossãmedes, onde gosa dos melhores créditos. Dotado de um génio independente, obsequeia a todos, mas não se torna importuno com pedidos. Qual outro Robinson, poderia o acaso lançal-o em alguma ilha deserta, que pouco se affligiria com isso : habilidoso em todos os officios, é elle que se veste, se calça, e faz os seus chapéos — mas tudo parece mais obra de um hábil mestre, que de um simples curioso. Para mais commodamente visitar os seus doentes, construiu um carro de novo género, tendo por motor um boi-cavallo guiado por um moleque.


Não me era possível vêl-o mettido no seu carro, de chicote na mão, sem se me figurar que ia dentro de um andor dos que se usam nas aldeias do Minho. Preferindo viver no campo, construiu, perto das Hortas, uma casa apalaçada de gosto exquisito, mas que produz magnifico effeito vista a certa distancia: no interior tem uma sala triangular, e conservou na sala de jantar uma grande arvore, que existia n'aquelle sitio. Apesar de casado em Portugal, parece estar no firme propósito de trocar Vizeu, sua terra natal, por Mossamedes, onde tenciona occupar-se da cultura do algodão.


Continuemos agora a nossa excursão.


O caminho, ainda que em parte aberto de novo, é triste e fastidioso: são 13 kilometros de passeio forçado, qual se não respira senão pó, e em que o espirito do viajante cansa na contemplação de um monte árido, de côr monótona, que se estende á direita, e continua ainda além do sitio que vamos visitar; á esquerda fica-nos o rio Béro, que na maior parte do anno está sêcco n'uma distancia de quinze léguas, apresentando sobre a areiado seu leito uma leve crusta de lodo, que o sol faz gretar e arquear em forma de telha, pôde ser transitado, e é até uma sofrivel estrada.


D'esse mesmo lado descobrem-se vários terrenos cultivados, e algumas habitações de lavradores. Entre ellas acolá se avista a de uma portuense celebre, que tendo ido para o Brazil, fez parte da colónia que foi d'aquelle Império para Mossãmedes. D. Isabel d'Austria, era uma senhora muito prendada e de bastante instrucção, que falleceu ha poucos annos ; no cemitério velho vé-se o seu túmulo, mas com o nome quasi ininteligivel. Esta senhora dedicou-se á agricultura e á educação dos seus escravos e escravas : ellas ainda hoje são das mais procuradas, e algumas adoptaram e conservam o nome da sua primeira possuidora.


Esse costume é muito frequente em Angola, e até certos Régulos do interior teem pedido como grande honra a alguns Governadores geraes a mercê de poderem usar de igual nome, inclusivamente do de família.


Eis-nos na quinta dos Cavalleiros. É uma extensão immensa de terreno, cultivado á maneira do Brazil, com excellentes plantações de canna d'assucar de magnifica qualidade, bello algodão, muita mandioca e bananas.


Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro Esta propriedade pertence a um individuo que fazia parte da colónia brazileira, e que hoje se acha na Europa, com pouca tenção de voltar a Mossamedes.


Dentro da habitação do fazendeiro está uma boa machina americana de limpar o algodão, que trabalha com a maior regularidade, dando óptimo resultado. A pequena distancia existem as ruinas do engenho do assucar, que não funcciona por falta de meia dúzia de traves para o reparar provisoriamente !


Tudo quanto do terraço podemos alcançar com a vista foi aqui ha tempos devastado e roubado pelos Munanos ou Nanos, espécie de vândalos do interior, que só vivem de pilhagem. Quando a fome os aperta fazem as suas correrias pelos povos que se dizem nossos vassallos, e a pretexto de cobrarem os tributos, a que não teem direito, roubam o gado aos pastores, devastam tudo por onde passam, e recolhem ao Nano, levando os prisioneiros que poderam fazer, para serem vendidos nas proximidades de Benguella, ou resgatados por grandes quantias.


Cinco mil d'estes gentios tentaram uma invasão em Mossamedes onde já não faltava medo, porque não estavam então preparados para lhes poderem resistir. Entraram pelo lado do norte, que é o mais mal guarnecido, — com quanto fosse fácil forma um reducto a quatro léguas de distancia da villa, para conter em respeito estes bárbaros, — chegaram á quinta, onde umas dezoito pessoas mal armadas os contiveram durante umas poucas de horas; lançaram o fogo e talaram todas as plantações, incendiaram o engenho e a habitação, e retiraram a final, levando prisioneiros o fazendeiro e parte samedes com os trajes que trazia quando veio ao mundo, e alguns escravos que depois conseguiram fugir vieram apresentar-se-lhe.


Assim ficou em poucas horas, este homem laborioso, reduzido quasi á miséria; mas graças aos esforços e hábil administração da pessoa a quem o proprietário deixou entregue a sua quinta, a não serem as ruinas do engenho, nada nos poderia fazer acreditar n'uma semelhante devastação.


Póde-se dizer que a quinta já se acha talvez em melhor estado, do que antes da invasão, mas muito mais se teria conseguido se o fazendeiro contasse o numero de escravos precisos para o serviço. Com muitos sacrifícios tem comprado alguns, mas o seu numero ainda está longe de chegar ao que d'antes era, e esse mesmo, na actualidade, seria insufficiente.


O Governador geral deveria animar este homem brioso, pondo ao seu serviço, durante quatro ou cinco annos, um numero avultado de libertos; quando não, continuará, por falta de braços, a perder-se a colheita da canna e do algodão.


Foi por occasião d'esta invasão que o Governador de Mossamedes deu a mais evidente prova da sua inépcia. Apenas teve noticia que os Munanos(1) se aproximavam, o seu primeiro cuidado foi de flanquear uma loja em que vende manteiga, com quatro peças d'artilheria, e convidar os habitantes para o coadjuvarem. Para o resolver a enviar soccorros á quinta, foi preciso descompôl-o : — mandou então a muito custo uma peça, mas com balas que lhe não serviam !
...»
In Quarenta e cinco Dias em Angola


(1) - Convém não ignorar que nos seus primórdios a colonização de Mossãmedes caminhou a par com as constantes invasões de que eram alvo por parte das chamadas «guerras do Nano», ou seja, dos «munanos». Conforme vem citado no mesmo livro, estes, «quando a fome os aperta fazem as suas correrias pelos povos que se dizem nossos vassallos, e a pretexto de cobrarem os tributos, a que não teem direito, roubam o gado aos pastores, devastam tudo por onde passam, e recolhem ao Nano, levando os prisioneiros que poderam fazer, para serem vendidos nas proximidades de Benguella, ou resgatados por grandes quantias.»




 Ainda relacionado com a «fazenda CAVALEIROS»

 

4 РАRТЕ NAO OFFICIAL ANGOLA. EXTRACTO DA RELAÇÃO DE UMA VIAGEM
 A Roça    Dos Cavalleiros, em Mossamedes,  PELLO PRIMEIRO TENENTE DA ARMADA  JOÄO FRANCISCO REGIO DE LIMA.


A Roça do Sr. Bernardino situada na encosta d'uma montanha, na margem do S. do rio Веrо ou Rio de mortes, occupa a melhor posição que em todas aquellas proximidades se pode achar; pois que além de que о terreno ali se torna um pouco favoravel à cultura, aproveita a corrente de agua, única ali no tempo das cheias, que Ihe passa quasi pelo centro da fazenda; e é á falta d'ella, quando faltam as chuvas, que se deve a cultura não poder 1er aquella animação que devia. Entretanto aos esforços do Sr. Bernardino, que com tantos inconvenientes, desvantagens e falta de material e pcssoal tem arrestado, se deve o haver hoje próximo a Mossãmedes um engenho de moer cana de assucar, casa para cristalisar, purgar, etc., e distillador para extrahir aguárdente da melhor que tenho visto, e em grau muito subido.

A roça compöe-se de um grande barracäo, coberto de palha, mas perfeitamente arranjado, o qual se acha repartido ao meio, existindo n'uma das metades o engenho para moer a cana pela força de bois. O engenho é simples: compöe-se de urna grossa barra vertical, girando sobre dois eixos nos seus extremos, a qual por meio de um syslema de rodas dentadas рое em movimento tres cylindros quasi tangenciaes e dispostos a formarem os seus eixos um prisma triangular. Da barra vertical saem quatro barras um pouco inclinadas para baixo, as quaes se ligam dois bois a cada uma, que a fazem girar, pondo em movimento todo o engenho. Os cylindros postos em movimento, introduz-se a cana por um dos lados entre elles, indo sair pelo opposto, poróm reduzida quasi unicamente ao bagaço, tendo deixado seco lodo, o qual passa para uma pia que se acha inferiormente, d'onde depois passa para outras caldeiras. Na outra metade do barracäo acham-se dispostas quatro grandes caldeiras, com as competentes fornalhas, para as quais passa o suco da cana extrahido no engenho; ahi elle toma o ponto ou consistencia necessaria, passando depois à purgaçào. Em seguida a este barracäo acha-se um armazem de grande comprimento, o qual dos dois lados é guarnecido de vigas, sobre as quaes se acham dispostas tábuas com buracos onde se introduzem uns vasos de barro da forma de urna pyramide cónica, cujo vértice fica para baixo e no qual elles têem um pequeño orificio: estes vasos sao dispostos simétricamente em alinhamentos, passando pelos orificios dos vértices de todos elles calhas que vao terminar em dois grandes tanques de pedra no extremo do armazem. N'estes vasos se deita o liquido que sáe das caldeiras, o qual ali se vae solidificando e crislalisando, saindo o melaço e mais impurezas pelo orificio, passando para a calha e dahi para o tanque. E a esta operaçao que dào o nome de purgaçao do assucar. Na occasiäo em que ali estivemos, achava-se o armazem completo de um lado, tendo muito próximamente quatrocentas arrobas de assucar a purgar; e um pouco que o Sr. Bernardino nos mostrou, vimos ser muito claro, e como nao suppunhamos que se podesse extrahir logo directamente. Em seguida á casa da purgaçào, passado um pequeno espaço, existe um outro armazem bastante comprido, no extremo do qual tenciona o Sr. Bernardino montar um engenho, para da mandioca fazer a farinha de pau: depois seguem-se tres casas que servem de depósitos, sendo urna d'ellas onde presentemente se faz a farinha n'um pequeño engenho movido por braco de pretos: perpendicularmente a este armazem segue-se urna correnteza de casas terreas, n'um do edificio, das quaes metade servem de depósitos para guardar différentes objectos, e a outra metade serve de morada aos habitantes da roça, em quanto fila não toma uma forma mais regular; pois que o intento do Sr. Bernardino é fecha-la em quadrado, deixando no centro uma espécie de pateo: pelo lado de trás da casa que serve de morada, existe o curral que serve para o gado, com um ripado de dois metros de altura, o qual o leão não poupa, pois que segundo nos contaram ali saltou dentro algumas vezes, tornando a sair saltando pelo ripado com um boi sobre o costado.

Em seguida á morada existem uma pequena cabana para negros, e um pequeno telheiro, coberto de palha, para alojar gado durante o dia. No ponto determinado proximamente pelo encontro das linhas tiradas da casa do engenho e da cubata Ao gado, e pelo qual o Sr. Bernardino tenciona formar o quadrado para o completo estabelecimento da roça, está uma pequena barraca onde está o alambique destinado á distillação da aguardente. Compõe-se de um barracão onde existem tinas alinhadas de encontro ás paredes, aonde o melaço e mais sueco da cana destinado á formação da aguardente se lança, e onde fermenta, e das quaes só passado certo numero de dias, dependente da qualidade do liquido, da qualidade da tina e da posição em que ela se acha, passa ao alambique, do qual se extrahe pura aguardente de 29 e 30 graus, tão clara e límpida que se poderia confundir com agua pura a não ser o cheiro activo que possue.

O alambique collocado fora do barracão é mui pequeno, e o Sr. Bernardino tenciona em breve montar um outro de muito maiores dimensões. Como a lenha não é em abundância, serve o bagaço ou resto que fica da cana, depois de extrahido o sueco todo, para sustentar o fogo no alambique, sendo este mais um proveito que a cana pôde fornecer. Para E. da casa do engenho e deposito estendera-se por toda a margem do rio as plantações de cana perfeitamente dispostas, bem como muitas bananeiras, por um espaço muitíssimo longo, tendo já em muitos lugares encanamentos arranjados para quando as aguas começam com muita força.

À povoação de Mossamedes, situada no fundo da excellente babia d'aquelle nome, e pelos inglezes denominada Little Fish Bay algum incremento tem tomado depois da sua fundação, principalmente n'estes últimos ânos. A povoação da primitiva da fundação acha-se quasi abandonada, hoje substituída por outra, formada próxima, separadas por uma ponta denominada a Ponta Negra, a qual se estende um pouco para o NO, e sobre a qual está collocada a fortaleza. Admiramo-nos que em Mossamedes não houvesse uma igreja, pois que apenas existem três paredes no local onde ha muito está destinado o faze-la: a fortaleza era formada de pedra solta; agora é que se lhe começaram a fazer as muralhas de alvenaria, tendo, quando ali estivemos, já prompta a cortina que olhava para o mar, com sete canhoneiras completas, tudo formado com bastante solidez, e toda a obra devida aos esforços do Capitão Leal, que ali se achava governando. Além d'isto em Mossamedes apresentam-se as difficuldades a todos os momentos; pois que quasi.ao mesmo tempo falta o material e o pessoal: para a construcção da muralha utilisaram-se de dois soldados servindo de pedreiros, outro para picar a pedra, e um outro servindo de serralheiro; acontecendo, em quanto ali estivemos terem as ferramentas todas estragadas e não lerem um pouco de carvão de pedra para lançarem na forja para novamente as arranjarem, valendo-lhe um pouco que nós lhe podemos fornecer. É a falta de material e pessoal, o mesmo mal de que o Sr. Bernardino se queixa para o arranjo completo da roça.



.................................................................................................................................................................
Kifrnctn ilnnin carta do Dr. Phynleo-nicVr da Provincia de Angola, Jacquen 1%'leolau de Nitlll*. sobre o enfado da Colonia de Mossãmedes». 


Aportámos a Mossamedes no dia 20 de Novembro (18.HS).

Esta Colónia está em progresso. O Governador do Districto, Fernando da Costa Leal, edificou de pedra a igreja, que ficou muito bonita; e tambem construiu de pedra a parte da fortaleza do lado do mar. Vimos plantações extensas de algodão a uma légua e a duas distantes de  Villa; nos Cavalleiros ha plantações riquíssimas de canna saccarina, algodão, mandioca, batata europêa e do Brazil (Cará) de 3 até 10 e 11 arráteis cada uma. Esta plantação dos Cavalleiros pertence ao incansável e intelligente Director da Colónia, Bernardino de Figueiredo.

Vimos moer a canna, coser e preparar o assucar, e distillar aguardente de excellente melaço. Vimos as duas machinas de descaroçar algodão em movimento. O algodão e bello, tão bom ou melhor do que o de Moçambique, que ainda é silvestre.

O Director Bernardino exporta por anno cincoenta arrobas d'este género. Vi seis qualidades de feijão, repolhos grandes, excellente hortaliça etc. etc. As uvas dão duas vezes por anno, e são saborosas. No paiz dos Gambos e dos Huilas ha bello trigo duas vezes por anno, tão bom como o das margens do Zambeze; e tudo isto promoveu aquelle laborioso colono com trinta negros, em quatro annos, edificando officinas etc. Com mais três ou quatro annos terá elle um rendimento para viver na Europa como um fidalgo.

Aqui vi pela primeira vez na África o uso de carros puxados por bois, e com estes moer a canna. Vi o arado de ferro, invenção moderna, e vi finalmente que a agricultura não só é possível, mas proveitosa e recompensadora na África.

O Commercio foi pouco este anno. Exportaram-se 600:000 arrobas de peixe secco. O azeite de peixe (cação) faz-se em abundância na bahia das Pipas, cinco léguas ao norte da Villa. (um morador (Paiva) disse-me que o anno passado se vendeu entre 50 e 100$000 réis a pipa. O movimento commercial foi no dito anno de 200:000$000 réis.

Ha três moinhos de assucar, e vae montar-se o quarto. A exportação da batata foi considerável n'este anno. O clima é excellente. Vêem-se boas cores nos habitantes; vê-se grande numero de lindas creanças, cheias de vida e saúde, e a Villa augmenta todos os dias.
FONTE
-------------

Conforme relatório datado de 19.06.1877 do governador do Distrito, Fernando Augusto da Costa Cabral, eram os seguintes os aglomerados rurais que constituiam as fazendas agricolas situadas nas margens dos rios Bero (Hortas, Quipola e Cavaleiros) e do Giraúl.


Hortas-
António Moreira da Silva e Sousa, António Acácio de Oliveira Carvalho, António Jacinto Teles, João José de Oliveira, Manuel de Oliveira Soares, Rodolfo Adão


Quipola-
António Moreira da Silva e Sousa, António Rodrigues Boa Tarde, Aires Correia de Sousa, Casal de Manuel Ferreira de Lima, Domingos Gomes Galambas, Inácio Saraiva Serrão Pimentel, Joaquim de Paiva Ferreira, José Joaquim da Costa, José Augusto Liberman, José António Todo Bom, Luis Soares Ferreira, Manuel Pinto e Silva, Manuel Moreira da Silva e Manuel José Machado.


Cavaleiros-
António Tomás dos Santos
Aguiar & Poire
Casal de Justino António Ferreira dde Carvalho
Casal de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
Dâmaso Moreira da Silva e Sousa
Elias Fortunato
José Ferreira Soares
Maria Madalena Rodrigues
Simião José Abreu


Giraúl-
Aires Borges de Azevedo
Francisco José Moreira
Inácio Eugénio Ribeiro
José Joaquim da Costa
José Ferreira Duarte Leitão
Liberman & Pereira
Manuel de Almeida Soares
Moreira & Irmão

Um total de 39 propriedades, importantes e produtivas.

Nas das Hortas, e sobretudo dos Cavaleiros, que se estendiam pelas margens do rio Bero, abundavam plantações de cana de açucar, nas do Giraúl, culturas de algodão. Mais desviadas de Mossãmedes havia mais dez fazendas, inclui o mesmo relatório, mais a norte, nas margens do rio S. Nicolau, mais a sul, nas margens do Curoca.

Fonte: Relatório datado de 19.06.1877 do governador do Distrito, Fernando Augusto da Costa Cabral,


........................
"...A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa "Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal. Na viagem, sucumbiram, com bexigas, 3 adultos e 5 crianças.

Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais tarde Bernardino chamou de Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que os novos colonos íam reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES.

Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique, cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores. No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.

No dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21 tiros. A maior parte dos colonos ali compareceu e houve arraial com largada de foguetes. Almoçaram e jantaram em barracas improvisadas.

Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros.No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de Moçâmedes. Faz viagens de estudo, contacta sobas, colabora com as autoridades, sobe a Chela, entra na Huíla, visita a lagoa dos cavalos marinhos, que fica a 4 léguas ao norte de Lopolo, onde os rios gelam em Maio e Junho. Já lá existem alguns colonos. Outros irão fixar-se noutras áreas do planalto da Huíla em consequência do estudo feito. Uma vida de líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia.

 
Mas a natureza não se compadeceu dos recém-chegados. Uma estiagem de 3 anos secou as terras, perdendo-se todas as sementeiras. A 1ª. colónia luta com falta de tudo, desde alimentos a vestuário. A situação é desesperada. Alguns opinam mudar a colónia e comentam: "Antes fôssemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas cheias de carne e comíamos pão com fartura, do que padecer com fome neste deserto." Bernardino mantém-se firme e lança a máxima: "Vence quem perseverar até ao fim".O governador do distrito oficia a desesperada situação dos colonos. Há um intenso movimento de solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes e tudo se vai normalizando.


Entretanto, em Pernambuco, os portugueses organizam, a expensas suas, uma segunda leva de colonos (125) para se dedicarem á agricultura em Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa. Viajam na barca Bracarense e no brigue Douro, da marinha portuguesa. Chegam a Moçâmedes no dia 26 de Novembro de 1850. Dedicam-se também à pesca. Lançam mão a pessoal conhecedor da técnica de escalagem e secagem do peixe que trabalhou na feitoria montada no estabelecimento pelo olhanense Cardoso Guimarães, 7 anos antes.

Bernardino reconhece que os colonos conseguiram vencer as adversidades e o deserto. São o maior exemplo de perseverança em toda a Província.Moçâmedes engradece-se ràpidamente e é elevada a vila por decreto de 26 de Março de 1855. Em 1857 já existem 16 pescarias onde trabalham 280 escravos. Ao festejarem o décimo aniversário da chegada da colónia, no dia 4 de Agosto de 1859, verificaram a existência de 83 propriedades agrícolas nas margens do rio Bero, 3 no Giraúl, 2 no Bumbo, 3 em S. Nicolau, 1 no Carujamba, 3 no Coroca, 7 na Huíla.

Tinha-se materializado o sonho do Barão de Moçâmedes, Luz Soriano e Sá da Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela. Foi graças à liderança forte de Bernardino que esse desiderato foi possível. Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição da escravatura.Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados 20 anos não poderia haver escravos; mas, 11 anos depois, em 1869, aboliu o estado de escravidão.

Um dia visitou Moçâmedes um amigo da família de Bernardino. Esteve na Fazenda dos Cavaleiros. Um negro idoso apontou a ruína duma casa onde muitos anos antes teria vivido um branco. Não se lembrava do nome. Num alto, a ruína domina toda a extensão da terra, numa vigília constante de mais de uma centena de anos. É também o Sítio da Bandeira onde os colonos íam beber a Pátria Portuguesa, naquela terra adoptiva de Angola e onde foi sonhada uma cidade: a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe da República de Angola.
Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
publicado por Cláudio Frota em in  www.memoriaseraizes.blogspot.com

Sem comentários:

Enviar um comentário