Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Noruegueses e a caça à baleia na Praia Amélia em Moçâmedes, Angola, no início do século XX.


Fábrica dedicada à caça da Baleia na Praia Amélia  (primeiras décadas do sec XX) Foto do site cujo link vem expostoAs fotos fabulosas que seguem, de um tempo que não volta mais, mostram-nos  como decorria em Moçâmedes, nos inícios do século XX, uma parte importantissima da actividade pesqueira naquela região, a "caça à baleia".



As instalações da Praia Amélia  (primeiras décadas do sec XX) . Foto do site cujo link vem exposto.


As instalações foram-se modificando com o correr do tempo...



Praia Amélia: a origem do nome

Praia Amélia, era assim chamada, porque em l842 ali encalhou a escuna "Amélia", da Marinha de Guerra Portuguesa (1) . A escuna "Amélia" era o aviso "Princesa D. Amélia", da esquadra miguelista, comprado em Inglaterra e apresado pelos liberais em 1833, em plenas lutas do liberalismo contra o absolutismo em Portugal. Apesar do seu pequeno porte o navio era valente, ligeiro e óptimo para qualquer golpe de mão. Em 1842 levantou ferro para Angola como correio marítimo, em 13 de Dezembro desse ano, quando se achava próximo da Ponta Sul da baía de Moçâmedes, encalhou em pedra de 1.5 braças, saltando fora, e acabou por se afundar. ( Fonte: Arquivo da Marinha).
                                                                
A caça aos cetáceos no sul de Angola. Como tudo começou?

Lembrando um pouco a história, a caça à baleia teve a sua origem entre o século XIV e princípios do século XV, no golfo da Gasconha, zona atlântica rica em cetáceos para onde partiam pescadores idos da Bretanha e das Vascongadas, em perseguição aos gigantescos mamíferos, perseguição de tal ordem que estes animais acabaram por fugir para as costas de Portugal e da Espanha, e daí para os mares da América do Norte. A França era nessa época a maior potência marinheira do mundo, mas por volta de 1870, a liderança da actividade passou a caber à Inglaterra, seguida da Noruega e da América, que ganharam prioridade na matança de baleias, que se faziam desde a Geórgia do Sul à África Equatorial. Em 1910 a matança de baleias tomou grandes proporções, com o abatimento de mais de 10 mil, e a situação prosseguiu até que em 1914 se procurou legislar o extermínio destes animais através de acordos internacionais, com regulamentos severos, protetores da espécie, que obrigavam os industriais ao aproveitamento dos despojos, mas todas estes esforços acabaram por perder o interesse com a deflagração da Guerra de 1914-1918. 

Foi por esta altura que, face às grandes necessidades de matéria gorda em todo o mundo,  a Noruega resolveu organizar frotas para caça aos cetáceos no Artico, e é dessa época a instalação na Praia Amélia, a 6 km a sul do centro da cidade de Moçâmedes (Namibe), para onde a Knut Knut & Sons OAS, fez desviar uma flotilha, e fundou uma fábrica de óleos e guanos de grandes proporções para a época, dedicada à industrialização  da carne e da gordura de óleos e guanos de cetáceos (baleias, cachalotes, golfinhos), que a sua frota abatia.

Enquanto a captura dos cetáceos se fazia em zonas marítimas limitadas, as instalações fabris eram construidas em terra, porém, com a necessidade de caçar mais longe, uma vez que os cetáceos afugentados da costa, com a perseguição que lhes era feita se desviavam para outras zonas,  houve que adoptar navios-fábrica , onde se realizava todo o trabalho de transformação dos despojos, desde os óleos aos torteaux alimentares.  Foi então que os noruegueses instalados na Praia Amélia resolveram abandonar a fábrica, e servindo-se dos navios da flotilha levaram consigo toda a produção da caça aos cetáceos feita em águas angolanas. E como não tinham pago os direitos aduaneiros atribuidos a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio daquelas instalações fabris.  

Anos mais tarde, em 1936, utilizando os navios da flotilha, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul, desde o Ilhéu das Rolas a Porto Alexandre, abatendo baleias e levando-as para o navio-fábrica, onde faziam a industrialização de toda a sua produção. 
  
Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca, ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português.
Quanto às espécies dos mamíferos, mais abundantes nos mares de Angola, seriam, segundo o relatório do Veterinário Dr. Carlos Carneiro, “a baleia preta (Megaptera longimana), a azul (Balaenoptera sibaldi), a fina (Physalus antiquorum), a rithwal (Balaenoptera guai), o cachalote ou permacete (Catodon macrocephalus) e a toninha (Delphinus sp). Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim.



Encontrámos em "Pescas em Portugal: Ultramar - um apontamento histórico." Revista Ciencias, by  António Martins Mendes, Faculdade de Medicina Veterinária, da Universidade Técnica, Lisboa , sobre a pesca dos cetáceos, com algumas informações do Dr Carlos Carneiro na obra  “O Mar de Angola”, que passamos a transcrever:

"...Acaba esta parte do seu relatório, referindo a pesca dos cetáceos e escrevendo que a sul de Moçâmedes na “Praia Amélia” (e não “Porto Amélia” como já vimos escrito...) existia uma fábrica de preparação de óleos e guanos de baleia, paralisada havia já dois anos e pertencente a uma companhia norueguesa. Quanto às espécies dos mamíferos, mais abundantes nos mares de Angola,
seriam: “a baleia preta (Megaptera longimana), a azul (Balaenoptera sibaldi), a fina (Physalus antiquorum), a rithwal (Balaenoptera guai), o cachalote ou perma- cete (Catodon macrocephalus) e a toninha (Delphinus sp).Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas  costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim. Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam  as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. Voltaremos a este assunto, mas entretanto diremos que Vilela a ele também se referira rapidamente escrevendo que a intensidade da perseguição às baleias no mar de Angola obrigara-as a procurar outras paragens para só reaparecerem 20 anos depois."

 
 
 
Baleeiro na Praia Amélia


Baleia a ser  erguida do mar para a ponte e Fábrica, na Praia Amélia, através de um estrado de madeira

 
Baleia a ser  erguida do mar para a ponte e Fábrica, na Praia Amélia, através de um estrado de madeira




Já nas intalações: corte e escala de  cetáceos




Corte e escala de  cetáceos
 

Corte e escala de  cetáceos



Corte e escala de  cetáceos

Corte e escala de  cetáceos


Corte e escala de  cetáceos
 
Corte e escala de  cetáceos 
 
 Corte e escala de  cetáceos
 

Partes do animal a serem levadas para o interior das instalações fabris



Os tambores de óleo para exportação
 



Quem viveu em Moçâmedes, decerto não se cansou de ouvir, dos seus antepassados, histórias sobre a estadia desses noruegueses, tripulantes dos barcos da pesca à baleia, pertencentes a uma empresa norueguesa que se instalou na «Praia Amélia» (1), a seis quilómetros a sul da cidade, com uma fábrica de grandes proporções para a época, a Knut Knut & Sons OAS, onde durante vários anos, desde 1918 até 1929, se industrializou a carne e a gordura dos cetáceos que a sua frota abatia. 

Os noruegueses que trabalhavam nessa fábrica da Praia Amélia marcaram uma época. Eles praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso burgo. Ali permaneceram durante o citado período, dali partiram em 1919, e não mais voltaram, ainda que as gentes pacíficas da terra não tivessem de todo perdido a vã esperança de um breve regresso. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. 


Também permaneceram as memórias desses tempo romântico nas ossadas desses grandes animais espalhadas por todo o litoral, fazendo recordar os velhos tempos daquela actividade dedicada à industrialização de óleos e guanos de cetáceos na Praia Amélia. Actividade que decorreu a tal ponto que ainda às vésperas da independência de Angola, apareciam  ossadas espalhadas ao fundo da Praia das Miragens e na «Praia das Conchas».  



Em Moçâmedes, tripulantes dos barcos da pesca à baleia, pertencentes à empresa norueguesa que se instalou na «Praia Amélia»



Curiosos junta a uma baleia que deu à costa na praia, em Moçâmedes

Baleia que deu à costa na praia, em Moçâmedes



Desconheço de todo se as instalações dos noruegueses  se encontravam situadas no local onde mais tarde passaram a estar  as instalações fabris de Venâncio Guimarães, ou as de João Duarte, na Praia Amélia. As primeiras fotos aqui apresentadas remetem-nos mais para as de Venâncio Guimarães.

Sobre a pescaria de João Duarte,  numa fase posterior à dos noruegueses, consultar aqui:   http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2014/08/joao-duarte-e-pescaria-da-praia-amelia.html
 


MariaNJardim




(1) Praia Amélia, assim chamada porque em l842 ali encalhou a escuna Amélia da Marinha de Guerra Portuguesa. A este respeito transcrevo parte de um texto do Blog Tropicália:

"...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, forma uma enseada, que termina da banda do Sul na ponta da Anunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e só a custo se percebe do mar. Fica em 15° 16' Sul.A uma milha e seis décimos para ONO. da ponta do Noronha, fica o extremo setentrional do baixo da Amélia, nome que lhe foi posto por ter naufragado ali, em 1842, a escuna de guerra portuguesa Amélia, muito perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns 3 metros de água, em alguns sítios. É todo de rocha e areão, tem na fralda ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional; perto dele e da banda do Oeste se encontram 22 m e mais, separa-o do continente um canal por onde só devem navegar lanchas.Por alturas do ano de 1840, a quem afirme ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira; julgamo-lo porém muito arriscado, assim por poder acalmar ali o vento e encostarem as águas para cima do baixio, por haver sempre seu rolo de mar.Dilata-se o baixo da Amélia por entre 15°14' e 15º18' Sul, vai até a umas 3 milhas da costa. Pode-se navegar por aquelas paragens, enquanto estiver a ponta Negra descoberta da ponta do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito décimos de milha para Norte dele."



Ainda sobre cetáceos em Moçâmedes...



Ainda sobre cetáceos em Moçâmedes (baleias, cachalotes e toninhas... ),  o Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres no seu livro «O Distrito de Moçâmedes nas fases da Origem e da Primeira Organização. 1485-1859» . refere que no tempo do 5º Governador de Moçâmedes,   Fernando Leal, (1) este afirmara no seu relatório de 6 de Junho de 1857 , ser a costa de Moçâmedes abundante em cetáceos. sobretudo baleias, cachalotes e toninhas. A pesca, porém, da primeira dessas espécies era somente realizada nas águas distritais pelos norte-americanos, julgando Fernando Leal que os Estados Unidos desfrutavam, então, universalmente, a primazia em tão rendosa indústria, pois nela empregavam avultado número de navios, cuja relação havia lido no jornal americano Walemen´s Shipping List, pela qual concluiu deveriam sair, todos os anos, da Norte América, nada menos de oitocentos, «a percorrer os diferentes mates do globo».
 

Refere ainda, sobre navios baleeiros norte-americanos nas águas do Distrito, que na referida época.
(
1485-1859), "viam-se com muita frequência cruzar o Atlântico, entre a costa do Distrito e a ilha de Santa Helena, quarenta a cinquenta navios norte-americanos, apetrechados convenientemente e servidos por tripulantes hábeis e expeditos. A abundância de cetáceos nas águas distritais justificava a permanência nelas de navios destinados à sua pesca. Os navios baleeiros norte-americanos que percorriam a costa do distrito tinham apenas duzentas a trezentas toneladas de arqueação, e, circunstância digna de nota, dos vinte a trinta marinheiros que os tripulavam, grande parte eram portugueses, naturais dos Açores e de Cabo Verde, considerados pelos capitães norte-americanos como os mais destros arpoadores.Na perseguição das baleias, os navios da grande nação norte-americana, navegavam, quase sempre, pouco afastados da costa, ora dirigindo-se para o Sul até ao Porto de Pinda e a Baía dos Tigres, ora encaminhando-se pelo norte até à baía de Moçâmedes, onde por vezes ancoravam para se abastecerem de refrescos. Ao aparecimento de uma baleia, aproximavam-se dela, e, feita a pontaria, depois de calculada a distância, um marinheiro, quando não arremessava à mão o ferro frio, disparava a whaling-gun, carabina de grandes dimensões, da qual partia um projéctil alongado: a bomblance. Atingida e morta, a baleia era logo içada para o navio, em cujo costado se conservava suspensa, até ser ali cortada em pedaços, que iam sendo atirados para o convés. Uma máquina especial movida à manivela, dividia depois esses pedaços, com extraordinária rapidez, noutros mais pequenos. Estes últimos eram, em seguida, metidos em duas grandes caldeiras de ferro, assentes em fornalhas de tijolo, que se viam a dois terços do navio, para o lado da proa. Derretidos os pedaços contidos nas caldeiras, os baleeiros tiravam delas o azeite, tendo gasto na sua fabricação muito pouca lenha, porque aproveitavam sempre, como combustível, os ossos e os torresmos. Fernando Leal no seu lúcido relatório donde extraimos a notícia que aí fica, declara-nos que os baleeiros norte-americanos «não perdiam ensejo algum que se lhes oferecesse de perseguir a baleia, quando ancorados no porto de Mossãmedes». e  que «havia dias» (o relatório tem a data de 14 de Abril de 1857) «tinham aparecido na baía dois baleotes, e um dos navios que nelas estavam a refrescar deu-lhe caça com quatro escaleres, conseguindo arpoá-los e conduzi-los para bordo»."


(1) Fernando Leal, foi o 5º Governador de Moçâmedes: ver AQUI



Aos interessados na História de Angola e na História de Moçâmedes, hoje Namibe, deixo-vos a referência a este livro, intitulado "Demonstração geografica e politica do territorio portuguez na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."  escrito em Lisboa em 1846 e publicado no Rio de Janeiro em 1848, portanto, às vésperas do início da colonização de Moçâmedes.  O seu autor, Joaquim Antonio Menez, escreveu este livro no desejo de chamar a atençào dos portugueses sobre as vantagens e recursos que a Metrópole poderia recolher do vasto e rico território de Angola, e lamenta que Portugal após a administração vigorosa e civilizadora de Pombal em pouco tempo tenha destruido as beneficas disposições que podiam tornar florecentes as Provincias d'além mar, que se estavam  mal,  pior ficaram, agravando a sua decadência. O autor esteve em Angola no ano de 1842, dezesseis anos após a sua última estadia no território, e ficou surpreendido com a decadência. Viajou na escuna Amélia que naufragou em Moçâmedes, esse célebre episódio que deu o nome à Praia Amélia. Percorreu  pontos da costa até Luanda, que nessa altura apresentava já os sintomas de uma vida quasi extinta. Acabou por regressar a Lisboa em 1845, atrozmente perseguido, devido ao conceito que fazia da administração e a vontade de prestar algum serviço à Nação. Seriam as determinações saídas da célebre Conferência de Berlim (1884-5) que iriam obrigar Portugal a lançar um outro olhar sobre as suas colónias africanas, essencialmente para a nova "joia da corôa", Angola, que durante séculos não fora além de mero entreposto de tráfico de escravos para o Brasil e Américas...



MariaNjardim


Ver também:
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2014/03/mossamedes-mocamedes-e-caca-da-baleia.html

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