Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2007

Colonos algarvios em Mossâmedes, Moçâmedes, depois Namibe, nos finais do século XIX e filhos ali nascidos: descendentes de Ana da Piedade Frota e de Manuel Martins Gaivota






-À memória dos meus antepassados, bisavós, avós e pais, que viveram a saga povoadora dos portugueses em África;
-Aos meus filhos, os seus continuadores, no regresso à origens europeias, em 1975;
-Aos meus netos, os primeiros destinatários deste trabalho.



  1. APRESENTAÇÃO

Começo por vos fazer fazer a apresentação da primeira fotos que deixo aqui expostas. Estes são os meus avós maternos, Thomás de Sousa e Maria da Conceição Martins de Sousa. A bébé que se encontra na foto é a minha mãe, Olga da Conceição de Sousa, no dia do seu baptizado, em 27 de Outubro de 1912, em Moçâmedes, Angola. Uma bela foto através da qual podemos observar o rigor da indumentária da época e a postura austera de dois jovens que viviam ainda o início da segunda década das suas vidas, mas já com tantas responsabilidades...

A avó Maria da Conceição, com o nome de solteira Maria da Conceição Frota Martins, era filha de José Martins e de Ana da Piedade Frota, naturais de Faro e de Olhão. Naquele tempo era comum porem alcunhas às pessoas, daí que meu avô materno Thomás de Sousa era também era conhecido por Thomás de Sousa "Guedelha", como era conhecido Por "Gaivota" o pai da avó Conceição. As alcunhas por vezes chegavam a constar dos registos paroquiais de baptismo e do casamento, e muitas vezes as pessoas eram mais conhecidas pela alcunha que pelo seu próprio apelido. Também era normal adoptar-se o apelido dos padrinhos por ocasião do baptismo, e não o do pai.  Inda assim, torna-se mais fácil coordenar a genealogia masculina que a feminina, na medida em que as mulheres, ao casarem, acabam por perder referências familiares,  ao tomarem para si o apelido de família dos maridos, o que as torna mais aparentemente mais afastadas das suas famílias de origem.
                                                                 
Esta narração começa em Olhão, o ponto de partida, num qualquer dia de um mês, algures num tempo agitado e longínquo, que remonta a uma fase da história europeia, que ficou marcada pela  Conferência de Berlim (1884-5), a célebre Conferência que determinou a "Partilha de África" entre as potências europeias, e pelo Ultimato Inglês, em 1891. 

Moçâmedes, o ponto de chegada, era em finais do século XIX era uma vila implantada entre o deserto, o mar, e a foz do rio Bero, sem qualidade de vida, mas já se haviam estabelecido outros conterrâneos que ali viviam do seu trabalho duro, lado a lado com os seus empregados negros,  que no início da colonização escravos libertados, não tanto por sua livre vontade,  mas por determinação do Estado português, e agora já negros livres emem regime de contrato. Ali se estabeleceram definitivamente dedicados à induatria da pesca, e jamais voltaram a pisar a pátria mãe. Ali tiveram filhos que lhes deram netos, ali lhes nasceram bisnetos, enquanto a pequena Moçâmedes se foi transformando numa atraente e pequena cidade, de acordo com o esforço dos seus moradores.


Segue, para situar um pouco de História para enquadramento na época:


ENQUADRAMENTO NO TEMPO HISTÓRICO


Após a Conferência de Berlim, a expansão da colonização portuguesa em terras  de África impunha-se.  Portugal tinha que ocupar com famílias  portuguesas, e desenvolver as colónias que por direito histórico reivindicava como suas, sob penas de as vir a perder em favor de outra potência europeia que reunisse melhores condições para o fazer.   Na referida Conferência, Portugal apresentou às demais potências o chamado Mapa-côr-de rosa, através do qual reivindicava  para si o vasto território entre Angola e Moçambique. Mas a Inglaterra que sonhava com um Caminho de Ferro que ligaria a África do Sul ao Egipto, tinha outros projectos para África que colidiam com os interesses portugueses. E para obrigar os portugueses a recuar apresentam o Ultimato em 1890 e ameaçam Portugal com uma guerra caso continuasse com a pretensão, facto que teve como resultado uma desistência humilhante. A nação portuguesa levanta-se em protestos, e os republicamos, aproveitando a situação, acusavam a Monarquia dos males que estavam acontecendo ao país. Sabe-se também que o episódio Serpa Pinto acabaria por desencadear o Ultimato. Em 8 de Novembro de 1889, o explorador envolver-se-ia num recontro armado com os Makololos, povo que vivia nas margens do Niassa, do qual resultariam várias mortes. A Grã-Bretanha, que havia declarado a zona sob proteção, reage declarando que haviam sido dizimados súbditos britânicos. A contenda agudizou-se, com o Governo britânico a enviar memorandos, exigindo crescentes garantias de que Portugal não interferirá nos territórios em disputa. Nasce então uma onda de patriotismo, que é aproveitada com exortações à população reafirmando as virtudes nacionais, entre elas o esforço civilizador dos portugueses na África. A Portuguesa, o actual Hino nacional que, em Janeiro de 1890, muitos entoavam nas ruas na versão: “Contra os bretões, marchar, marchar!”.  Mas nem só os ingleses preocupavam. Temia-se as pretensões da Alemanha em ampliar a sua esfera de influência ao norte do Cunene, nos territórios situados ao norte da catarata de Ruacaná. O acordo luso-alemão de 1886 havia delimitado a fronteira com o sudoeste alemão, sem que fossem eliminadas de vez as tensões que renasceriam no início do século XX.  E  para intensificar a vigilância na região, Portugal procurou reforçar a fixação de colonos que se registara na segunda metade do século XIX, no litoral de Moçâmedes e desde 1884, no planalto da Huíla. Por esse tempo em Angola foram recebidos colonos portugueses casapianos, alemães e boers . Portugal tinha dificuldades enormes em captar interessados em fixar-se no território. Portugueses preferiam emigrar para o Brasil e Américas. Também havia dificuldades em  custear a deslocação, o alojamento e a subsistência nos primeiros meses. O recurso eram  degredados.  No início da década de 1880 tinha chegado uma primeira colónia proveniente do Transvaal que se fixou em 1881, em Humpata, a colônia de São Januário. Em 1890 esta colónia foi ampliada por novo contingente de recém-chegados, atingindo o total de cerca de 350 homens, mulheres e crianças. Com a chegada de mais colonos são agudizados os conflitos provenientes da ocupação de terras pertencentes às populações pastoris locais, e também devido à colaboração dos boers enquanto auxiliares das campanhas punitivas e de ocupação contra o "gentio rebelde", como ocorreu no Humbe (Bender, 1980:117-18; 148-49).  Os boers em 1890 requereram subsídios e um código especial para regular autonomamente a vida interna da sua comunidade, facto que não agradou a autoridade pela ameaça que daí pudesse resultar para o domínio português. Estavam criadas as condições para a  sua retirada próxima  do Sul de Angola.

Este era em linhas breves o ambiente que levou elementos da minha familia a emigrar para o Sul de Angola, nessa década a seguir ao Ultimato, indo juntar-se , às  "levas"  sucessivas de  olhanenses tinham começado a chegar aos mares de Moçâmedes, viajando de sua conta e risco sem quaisquer ajudas estatais desde 1861. Eram familias inteiras, incluindo bébés e até mulheres grávidas, avançaram rumo às terras desérticas do Namibe, servindo-se nas suas longas viagens de caíques, palhabotes e barcos à vela, para o efeito reforçados a cobre, não fosse o pior acontecer. talvez levados  como tantos outros pela propaganda que lhes fizera acreditar que lhes esperaria um futuro promissor, que a Pátria-mãe em crise lhes negava. O propósito único era o de explorarem, pelo trabalho árduo saído das próprias mãos, a riqueza pesqueira daquele farto mar, sendo a sua fixação facilitada pela benignidade do clima, favorável à fixação de europeus, que nada tinha a ver com a doentia Benguela.



O Mapa Cor-de-Rosa desenhava novas fronteiras no Império africano ligando Angola e Moçambique. Os ingleses, que sonhavam com um caminho-de-ferro ligando a África do Sul ao Egipto, impõem um ultimato aos portugueses: Ou esquecem o mapa ou têm guerra.

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O Mapa Cor-de-Rosa desenhava novas fronteiras no Império africano ligando Angola e Moçambique. Os ingleses, que sonhavam com um caminho-de-ferro ligando a África do Sul ao Egipto, impõem

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O Mapa Cor-de-Rosa desenhava novas fronteiras no Império africano ligando Angola e Moçambique. Os ingleses, que sonhavam com um caminho-de-ferro ligando a África do Sul ao Egipto, impõem

- See more at: http://ensina.rtp.pt/artigo/ultimato-ingles/#sthash.Ubg29NK9.dpuEm 1891 a Inglaterra, a velha aliada, declarou guerra a Portugal, caso a nação portuguesa persistisse nesta reivindicação. Portugal era na altura um país rural, potência frágil que tinha perdido a colónia do Brasil, independente desde 1822, e para além disso encontrava-se em grande crise financeira. Aliás, toda a 1ª metade do século XIX português foi de revoltas, guerras, confrontos, e as invasões francesas no início do século, levaram à fuga do rei e corte para o Brasil, e deixaram a agricultura desmantelada. Na 2ª metade do século XIX, na ânsia de recuperar, Portugal endividou-se, e passou a olhar para as colónias de África como a salvação de um país que corria o risco de ser anexado à grande Espanha.  Perante a afronta do Ultimato Inglês (1891), não teve outro remédio se não  recuar, mas a humilhação caiu como uma bomba no seio de uma população, até então desinteressada das colónias africanas, que preferia emigrar para o Brasil, Hawai, etc.   Sabe-se que em 1892, talvez estimulados pela onda patriótica contra o Ultimato Inglês, ou talvez mesmo pelas facilidades concedidas pelo Regulamento da Salga de Peixe em África, naquele ano conforme publicado pelo Governo, houve um reanimar da emigração algarvia para terras de Moçâmedes, ou seja, a partir de 1892 e até 1902 novas levas de olhanenses seguiram para Angola.  
Não cabe  neste trabalho a pormenorização da acção olhanense naquelas paragens, mas, compulsando este blogue poderá o leitor encontrar uma abordagem a esse assunto e a outros,  dedicados a Moçâmedes,  fruto de todo um esforço de pesquisa e estudo, que na minha qualidade de descendente de olhanenses, interessada em compreender o processo histórico, tenho vindo de uns anos a esta parte a desenvolver. 







A NOSSA FAMÍLIA E A VIDA EM MOÇÂMEDES, ANGOLA




Falemos então um pouco mais da nossa família, cuja partida para as terras de África se enquadra nas "levas" de algarvios que partiram para Moçâmedes, entre 1892 e 1902.  Sei que  meu bisavós tal como todos os algarvios que se fixaram na região de Moçâmedes, partiram e fixaram-se sem qualquer ajuda do Governo português.

Sei também que outros elementos da família já se encontravam em Moçâmedes e Porto Alexandre e até na Baia dos Tigres, e que a  avó Maria da Conceição partiu  na primeira década da sua vida indo ao encontro de sua irmã bastante mais velha, Maria de Jesus Frota Martins, casada com António dos Santos Almeida, que tinha partido juntamente com as suas filhas Maria Júlia e Leontina alguns anos antes, e que em Porto Alexandre, o 1º destino,  e em Moçâmedes  já lhe haviam nascido mais alguns filhos.  

Segundo o livro de Memórias de Mário Lopes o 1º filho nascido em terras de África foi logo à entrada de Porto Alexandre, no  6 de Janeiro de 1895, o José. Este acabara  de nascer no interior do palhabote após terem passado por  Moçâmedes,  com Porto Alexandre à viata, povoação a 90 km a sul,  onde a familia se  fixou. 

Maria de Jesus era a irmã mais velha, mesmo bastante mais velha, da minha avó materna, Maria da Conceição, ambas filhas de Ana da Piedade Frota, e de José Martins (Gaivota).  António dos Santos Almeida, seu marido, era irmão do meu avô paterno, João Nunes de Almeida, ambos  filhos de Fernando dos Santos Almeida e de Maria da Piedade. Todos eles gente oriunda de Faro e Olhão. Em meios pequenos como era Olhão, era comum casarem-se primos e primas. Aliás, em meios pequenos e de pouca mobilidade das pessoas, os casamentos tendem a ocorrer entre pessoas de idênticas origens e idênticos níveis culturais, e passou a ser assim também em Moçâmedes, até que a cidades cresceram, a mobilidade aumentou, e passaram a ser habitadas por gentes das mais diversificadas origens.
Maria de Jesus quando com seu marido e filhas embarcou rumo a Moçâmedes, em Dezembro de 1894,  para em seguida derivar para Porto Alexandre,  ia grávida de quase sete meses. Segundo relato inserido num Caderno sobre o assunto da autoria de Mário Lopes, descendente de poveiros que veio a casar com uma bisneta de Maria de Jesus, até atingirem o Equador, a viagem foi serena, com ventos predominantes de sul a favorecerem a navegação à vela, com costa à vista. Na parte final do percurso a situação piorou consideravelmente, sendo forçados a fazer muitas paragens, tendo a viagem que normalmente seria feita em cerca de 30 dias, durado mais de dois meses. A partir do Cabo de Santa Maria foram surpreendidos por um temporal, frio intenso e nevoeiro cerrado, tendo os ventos predominantes de sudoeste soprado violentamente destruido o velame, acabando por se perderem.  O recurso foi a constituição de um velame com lençóis e roupas das mulheres e, quando a tempestade amainou, dias depois, tinham passado pela baía de Moçâmedes, porto de destino, e estavam com terras de Porto Alexandre à vista.  Foi então que Maria de Jesus não suportando mais as dores do parto, mesmo ali, ajudada pelas suas companheiras de aventura, encoberta por esfarrapadas velas que a resguardavam dos olhares masculinos, com a ajuda de Deus e das suas companheiras de aventura, deu à luz, no dia 06 de Janeiro de 1895, o seu filho José, de seu nome completo, José dos Reis Almeida, em memória ao "Dia dos Reis". A seguir a José, e já em Porto Alexandre, Maria de Jesus Frota e António dos Santos Almeida tiveram mais cinco filhos, todos varões.

Fixados de início em Porto Alexandre,  o casal e os filhos mudaram-se para Moçâmedes, e passaram a morar numa casa do bairro da Torre do Tombo, onde passaram a conviver com a grande colónia de olhanenses que ali se encontrava, alguns familiares, e outros aos quais se iriam ligar por laços de família.  (1)


Mais ou menos na mesma altura mesma altura em que partiram para Moçâmedes Maria de Jesus e António Almeida, desembarcaram naquelas praias de Moçâmedes,  idos de Olhão, os primos Carolina dos Santos Frota e Manuel Fernandes Frota, que de início se fixaram na Baía dos Tigres e mais tarde se transferiram para a Praia Amélia, praia a 5 Km do centro da vila. Estes primos teriam viajado no  palhabote S. José, de Manuel Pereira Gonçalves, dois anos após a Conferência de Berlim, ou seja, em 1887, e levaram consigo a primeira armação à valenciana que se montou naquelas paragens, de que foi primeiro mandador o olhanense Manuel  dos Santos Frota. 

Continuando a descrever a odisseia dos meus familiares por terras de África, a minha avó Maria da Conceição Frota Martins (1ª foto), nascida em 1889,  era ainda criança, quando orfã de sua mãe, foi mandada pelo pai, José Martins (de alcunha Gaivota) para Moçâmedes-Angola, para junto da Maria de Jesus, a irmã bastante mais velha que ela, casada com António dos Santos Almeida, e que ali se encontravam desde 6 de Janeiro de 1895. Maria da Conceição, viajou para Moçâmedes com apenas 8 anos de idade, portanto já em finais do século XIX, na companhia de um Senhor que chegámos a conhecer e a quem chamávamos Ti Silva, porém nas vésperas da partida, já em Lisboa, foi vítima de um acidente, ao ser arrastada pelo comboio, não morreu por milagre. Após uns dias no Hospital, em Lisboa, seguiu viagem ainda com uma ligadura  atada à cabeça, e durante a viagem no navio "Ambaca", passou mal, teve febre, mas conseguiu sobreviver e chegar ao destino. Com o correr do tempo, deu-se a melhoria dos transportes marítimos, facto que ajudou a incrementar, ainda que muito lentamente,  a colonização portuguesa  em terras do sul de Angola. 

A minha avó materna, Maria da Conceição, e sua irmã Maria de Jesus, filhas de José Martins (Gaivota) e de Anna da Piedade, tinham mais dois irmãos,  o Joaquim Martins (Gaivota) e o Manuel Martins (Gaivota). 

Pormenorizando: seguem alguns dados sobre a minha árvore genealógica (materna) por via da minha avó Maria da Conceição, ramo Frota:

Esta é a certidão de registo de baptismo da minha avó, datada de 24 de Novembro de 1889:

«N.º 344
Dia 24 de Novembro
Maria, 2ª
Aos vinte e quatro dias do mês de Novembro do anno de mil oitocentos e oitenta e nove, na Egreja paroquial desta freguesia da ? de Olhão, concelho da mesma, diocese do Algarve, baptizei solenemente um indivíduo de sexo feminino, ao qual dei o nome de MARIA, e que nasceu n'esta freguesia às quatro horas da tarde do dia quinze do corrente mês, filha legítima, segunda de nome e do primeiro matrimonio de JOSÉ MARTINS GAIVOTA, maritimo, e d' ANNA DA PIEDADE, naturais desta freguesia, e ?? de São Pedro da cidade de Faro, recebidos n'esta d' Olhão da qual são parroquianos, moradores na ? do Forno; neta paterna de JOSÈ
). Após os primeiros tempos em Porto Alexandre onde de início se havia radicado Maria de Jesus e António dos Santos Almeida, MARTINS GAIVOTA E JOANNA DOS SANCTOS e materno de JOAQUIM PEDRO FROTA e ANNA MÁXIMA. Foram padrinhos, José d'Andrade Archanjo, proprietário, e sua mulher Maria do Carmo, d'esta frequesia, o que disseram os próprios. E para constar, lavrei em duplicado o presente assento, que depois de lido e conferido perante os padrinhos, comigo assignou somente o padrinho, porque a madrinha não sabe escrever. ??? José de Andrade Archanjo, Manuel António Joaquim da Trindade.... »
(as restantes assinaturas estão cortadas.)


(*)Torre do Tombo o nome do arquivo central do Estado Português desde a Idade Média. Com mais de 600 anos, é uma das mais antigas instituições portuguesas.

Maria da Conceição, baptizada em 24 de Novembro de 1889, era filha de Anna da Piedade Frota Martins e de José Martins (Gaivota), ela natural de Faro, ele, natural de Olhão, S Pedro. Era neta paterna de José Martins (Gaivota) e Joanna Sanctos, e neta materna de Joaquim Pedro da Frota (nascido em 1806),  e de Anna Máxima (da Encarnação),
tinha os seguintes irmãos: 
Joaquim Pedro da Frota (casado com Mª Rosário),
Francisco Lopes Frota (1833-1973), casado com Maria do Carmo e falecido em 1873), 
Mandador Manuel Joaquim Frota (nascido em 15.01.1838 , falecido em 14/10/912, casado com Maria Teresa), e
Maria (nascida em 03.02.1840). 

Por sua vez, o meu trisavô Joaquim Pedro da Frota era filho dos meus tetravós José Pedro da Frota (nascido em 24.06.1753) e de Josefa da Encarnação (natural de Beja), e irmão de Anna (nascida em 11.12.1774), Mestre João Evangelista (nascido em 01.05.1786. Teve Rua em Faro) e Ignácia (nascida em 13.06.1791).

O meu tetravô José Pedro da Frota, (nascido em 24.06.1753) era filho de Florêncio da Frota e de Liberata Maria. Tinha por irmãos Manuel, Marcos (nascido em 24.01.1748), Antonio Martins (nascido em 12.06.1750), Anna Rosa, Francisco e Francisca.

O meu pentavô, Florêncio da Frota, (nascido em 11.05.1710 e falecido em 05.03.1776), pai de José Pedro, era filho de Diogo Rodrigues e de Maria Almeida (1º matrimonio). 

A partir daqui perde-se o apelido Frota.

Sabe-se, porém que Diogo Rodrigues (nascido em 12.04/17..?), pai de Florêncio era filho de Diogo Fernandes e de Ignês Rodrigues (nascida em 1640/50). Tinha por irmãos Bartolomeu Rodrigues (casado com Domingas Gomes)

Cheguei assim ao meu hexavô, graças a uma pesquisa efectuada por Claudio Trindade Frota nos arquivos de Faro. Daqui para trás perdeu-se a referência aos Frota. Refere  Cláudio Frota, no blog Memórias e Raizes, que os Frota provêm de uma familia medianamente abastada. Creio que isto poderá querer dizer, de vida algo desafogada para a época.


Nos primeiros anos em Moçâmedes a minha avó Maria da Conceição viveu com a irmã, cunhado e primos no Bairro da Torre do Tombo. Na adolescência,  por se ter incompatibilizado com o "mau feitio" desta irmã bastante mais velha, foi viver para a Praia Amélia, a 5 quilómetros, a sul, do centro da vila de Moçâmedes, em casa dos primos  Manuel Fernandes Frota e Carolina dos Santos Frota, que nessa altura se  tinham transferido da Baía dos Tigres.  Foi na Praia Amélia que a minha avó, aos 20 anos de idade, em 1910,  saiu vestida de noiva, para atravessar uma parte do deserto numa tipóia,  a caminho da Igrejinha de Santo Adrião,  onde se casou com o meu avô Thomás de Sousa (2).  

Deste avô, em termos de genealogia, poucas referências possuo. Apenas que era filho único e que faleceu aos 33 anos de idade, na flor da vida, no fatídico ano de 1918,  vítima do surto de Pneumónica, que chegou a Angola levado pelos navios que entravam na baía. Meus avós possuíam uma pescaria junto do morro da Torre do Tombo, o célebre morro das inscrições registado por Gregório José Mendes em 1785 quando da sua expedição ao sul de Angola. Ficava perto das instalações do Sindicato da Pesca, no início do morro que termina na Ponta do Pau do Sul.  Quando contraiu a doença o avô Thomás estava tratando dos serviçais africanos que haviam adoecido com aquele mal. Não soube precaver-se.   Contva-se que o mal matou os mais jovens e os mais fortes, e ele era uma pessoa bastante jovem e saudável. A pneumónica, epidemia de cariz extremamente maligno que deflagrou nos anos de 1918/9, ceifou mais de quarenta milhões de pessoas em todo o mundo,  e chegou a Moçâmedes levada por navegantes, nas suas viagens pelo mundo. Era filho único de Thomás de Sousa (Guedelha de alcunha) e de Maria da Piedade. Segundo informações que colhi da tia Maria do Carmo (irmã da minha mãe, filha de um segundo casamento de minha avó com Manuel Paulo, juntamente com a tia Hélia e o tio Eugénio) , o avô Thomás estava ligado à família aos Caleres, por via de sua mãe, era também prima de José de Deus Sousa (construtor de barcos que possuía um estaleiro em Moçâmedes), casado com D. Filomena, pais de José de Sousa ( conhecido por José malcriado casado com Angela Martins Nunes), de Henrique de Sousa (casado com Guilhermina), de Ivone Sousa  (casada com José Serra), de Leonilde (casada com o prof. Marques). D. Filomena era meia irmã de João Rodrigues Trindade (marido de Lucinda Ferreira), e por morte do 1º marido José casou com Manuel Fernandes da Larga). Segundo a mesma tia Carminha, íntima de Beatriz Caleres Radich, era também primo da esposa do Sr. Pinheiro, que nos anos 1940/50 tinha uma loja de modas perto do antigo campo de futebol. Tudo gente do Algarve que  vivia em Moçâmedes, e cujos laços familiares desconhecia. Aliás foi-me dito por uma familia que a origem do apelido Caleres está relacionado com o facto de a familia com este apelido ter possuido no Algarve um escaler que fazia viagens para o Norte de África.

Sei que os meus avós maternos montaram uma pescaria na Torre do Tombo, e ocuparam também algumas dessas famosas «grutas» ou «furnas», escavadas a punho na rocha branda do «morro da Torre do Tombo», onde em 1875 o mesmo Gregório José Mendes, encontrou inscrições impressas por mareantes e corsários que por ali passaram e ali faziam «aguada»,  antes de prosseguirem viagem. Essas mesmas inscrições que inspiraram o nome «Torre do Tombo», em analogia irónica com Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa (*) e que uma tia minha recorda ter visto nos seus tempos de escola. Essas «grutas» tinham sido transformadas pela maior parte dos pescadores em armazéns, onde se guardava, com porta e cadeado, o material das pescarias, redes e outros apetrechos, e segundo testemunhos da época, chegaram a ser  habitadas por alguns pioneiros da colonização quando, chegados a Moçâmedes, em 1849 e 1850, vindos de Pernambuco Brasil,  não conseguiram lugar nos barracões há época erguidos junto à praia para os acolher.  Elas teriam servido também de habitação temporária a algarvios que desde 1861 iam chegando, e a alguns  madeirenses que em 1884 e 1885 ali desembarcaram, rumo  às terras altas da Huila.

Mais adiante pormenorizarei alguns aspectos ligados às "grutas" ou "furnas" que meus avós haviam comprado ao Estado português, com escritura feita. 

Sei que a minha bisavó Maria da Piedade  cheirava rapé, o que não devia ser lá muito comum entre as mulheres. Sei também que no quadro da solidariedade familiar no seio das famílias antigas,  minha bisavó Piedade quando o filho faleceu levou a nora, ou seja, levou a minha avó Maria da Conceição para  sua casa, com as duas filhas, a minha mãe Olga, a bébé da 1ª foto, e a tia Lidia, de 9 e 4 anos de idade. Sei também que desde jovem o avô Thomás se revelou uma pessoa muito trabalhadora e empreendedora, e que aos 30 anos de idade, para além de uma pescaria, já tinha uma grade casa que mandou construir no Bairro da Torre do Tombo,  que ficava próxima de uma pedreira que existia próxima do local onde meio século mais tarde foi construída a Escola Comercial e Industrial Infante D. Henrique. 



Lembro-me de visitar a minha avó Maria da Conceição, diariamente, quer na infância quer na adolescência, quando ela era já era casada com Manuel Paulo, depois de meu avò Thomás de Sousa ter falecido com a Pneumónica. Vivia com a tia Carminha que estava viúva, e tinha um filho, o José Manuel Paulo Nascimento, e que mais tarde casou com António Gonçalves de Matos, de cuja união nasceu a Margareth. Na minha infância lembro-me a viver na mesma casa os tios Hélia e Eugénio Paulo.  Era naquela casa grande da Torre do Tombo a caminhar para a vila, que durante a minha infância e adolescência celebrávamos as nossas festas, Páscoa, Natais, Aniversários, etc. Era um casarão térreo, bem ao estilo português algarvio, cujo terreno envolvente ocupava todo um quarteirão.  Possuía um extenso corredor que dava acesso a vários quartos e terminava numa sala de jantar que convergia para uma varanda que por sua vez desembocava num enorme quintal com anexos onde ficava a cozinha, a casa de banho e o quarto dos criados. Havia no quintal , como era comum nas casas de Moçâmedes daquele tempo, canteiros com flores e uma grande Palmeira, cuja combra à noite me assustava quando era criança.   Mais tarde foram construídas mais duas habitações no dito terreno e ainda sobrava uma extensão que dava para um campo de futebol ou até mais. Numa parte do terreno adjacente havia caramanxões de videiras e outras árvores de fruto como mamoeiros, papaieiras e figueiras.
A avó Maria da Conceição era uma mulher de armas, no bom sentido do termo.  Viúva e só, com duas filhas para sustentar e educar, num tempo e num lugar onde as privações eram imensas, teve que lutar pela vida, quando ficou viúva, e fazer face ao seu destino. Naquele tempo era fácil para uma mulher branca e viúva voltar a casar, uma vez que as mulheres  brancas eram em Angola em muito menor número que os homens brancos. Muitos homens partiam sozinhos, ainda solteiros, outros, casados receavam fazer-se acompanhar das suas famílias. Apesar de já mais saneada, Angola tinha adquirido a fama de terra de febres e de epidemias como o paludismo, a malária, etc, fatais para os europeus.  De início eram muitas as mulheres que morriam de parto por falta de assistência médica e enfermagem. Aliás, a minha avó paterna Maria da Beatriz Ferreira de Almeida morreu de parto de gémeas, dada a demora que a parteira levou a chegar a sia casa. 


Como referi atrás, a minha avó Maria da Conceição voltou a casar com Manuel Paulo, um Sr que era primo de António Paulo, mais conhecido por António da Rita, ligados às famílias Paulo e Bento, cuja residência ficava na Avenida Felner, como se chamava então a avenida sobranceira ao mar que liga a baixa da cidade à Torre do Tombo. Para quem conhece, António da Rita, era casado com Rosarinha, pais de Anete e sogros de Maurício Andrade.  Dessa união nasceram a Maria do Carmo (n.1925), a Hélia (n. 1930) e o Eugénio (Lilica), perfazendo o total de cinco filhos, juntamente com minha mãe Olga da Conceição e com a Tia Lidia Rosa. Por curiosidade, a Hélia veio a integrar, em finais da década de 1940 uma das duas equipas pioneiras de basquetebol feminino de Moçâmedes, ou seja, uma das equipas que o Sport Moçâmedes e Benfica havia criado para se disputarem entre sí, uma vez que era o único clube da terra que na altura possuía a modalidade. No blogue «Gente do Meu Tempo» encontra-se uma fotografia dessa mesma equipe de jovens pioneiras no desporto feminino que por essa altura começara a despontar.


Voltando a referir-me às "grutas" que ficavam junto à pescaria dos meus avós, e que cheguei a conhecer, direi que eram diferentes e únicas. Nada no género havia por ali. Estavam devidamente tratadas, rebocadas e caiadas no seu exterior e interior, possuíam duas amplas assoalhadas que comunicavam entre si como se fosse uma casa de habitação, e até possuíam à entrada os tradicionais portões gradeados em ferro que as fechavam a cadeado, e no lado de fora plantadas 2 palmeiras.  O segundo marido de minha avó, Manuel Paulo, trabalhava no Sindicato da Pesca e Derivados do Distrito de Moçâmedes, mais tarde Grémio da Pesca de Moçâmedes, ali mesmo ao lado da sua pescaria, e dava-lhe jeito ter ali perto um local onde pudesse descansar, apesar de possuírem a casa da Torre do Tombo, daí ter feito questão de melhorar o aspecto das "grutas" ou "furnas".  E requintou de tal maneira que retirou o material da pescaria que ali ficava guardado e levou-o para dois quartos em adobe que mandou construir entre as grutas e o telheiro da pescaria e ponte onde ficavam os tanques de  salga de peixe. Eram três os compartimentos para onde se subia através de uma escada em cimento, cada um com a sua posta e janela.  Numa dessas «furnas», os meus avós faziam de sala de descanso, na outra faziam de sala de apoio a refeições, e era ali que muitas vezes almoçavam quando o trabalho não deixava tempo para se deslocarem à sua residência, no bairro da Torre do Tombo. Como as «grutas» ou «furnas» ficavam num plano superior ao da praia, acedia-se a elas através de um lance de escadas em cimento que partia do fundo de um corredor que passava entre os ditos quartos que faziam de armazém e que ficavam junto da estrada que os separava da pescaria e respectiva ponte. Lembro-me de ter ouvido contar que os meus avós, em determinado período, chegaram a ter alugadas as ditas  "grutas".

Recordo algumas histórias sobre estas "grutas" e uma delas referia-se ao ano de 1938, quando as mesmas receberam no decurso da visita do Chefe do Estado, General Carmona,  a visita de sua esposa Maria do Carmo Fragoso Carmona e de sua filha, Cesaltina Carmona Silva e Costa, na companhia do general Amilcar Mota, e de outros elementos da Comitiva. Aliás era comum sempre que havia uma visita oficial de alguma alta patente do Estado português a Moçâmedes, visitarem aquele histórico local, e nesta altura os visitantes foram levados para ali num dos automóveis de aluguer de Mário de Sousa, acompanhados  pelo Dr. Carlos Carneiro, à época um conceituado veterinário naquela cidade. Finalmente a tia Carminha irmã mais nova de minha mãe confidenciou-me que por se chamar também Maria do Carmo, a esposa do Presidente Carmona quis levá-la consigo para estudar na Metrópole, ideia que minha avó não aceitou.


Estes são retalhos da vida de alguns de familiares meus que se fixaram em Moçâmedes, essencialmente nesse período de grandes mutações históricas entre 1880 e 1914, as mais significativas dos tempos modernos, uma vez que devido ao clima que fazia da região de Moçâmedes a Sintra de Africa, foi ali, como atrás referi, que no decorrer desse período,  por força das determinações saídas da Conferência de Berlim (1884-1885) se deu início a um novo paradigma colonial com consequências quer para o colonizado quer para o colonizador. 

Naturalmente os meus bisavós, nem os seus familiares etc,  não tinham consciência do passo que iam dar ao partir para Moçâmedes, e sofreram as angústias desses tempos em que os povos autóctones  resistiam à integração, e acabaram vencidos pelo exército português, habituados que se encontravam a dispor do seu próprio destino, sem outras ambições para além do gado, a sua grande riqueza que por vezes valia uma fortuna, pois muitos deles eram povos nómades que não valorizavam os valores do capitalismo ocidental que procurava dominar o mundo.



Na realidade tanto as familias portuguesas que naquele tempo emigraram para aquelas terras do nada, foram instrumentalizados para servirem o projecto das elites de Portugal, país pequeno onde a maioria das pessoas vivam pobres , mas que persistiu em manter-se Império. 

Já é tempo de distinguir esta gente, gente de trabalho, que foi levada pela corrente da História, viveu seu tempo e sua época, serviu-se de meios pacíficos na sua luta pela vida,  investiu na terra o fruto do seu trabalho, acomodou-se talvez, mas nada tinham a ver com «colonialistas», accionistas de Companhias Majestáticas, monopolistas, estrangeiros poderosos em consórcio com Metropolitanos, todos eles bem na vida, sediados na Metrópole sem nunca porem o pé em África, os verdadeiros protegidos do sistema, que exploravam as riquezas Angola, à sombra de leis injustas e discriminatórias, do Pacto Colonial e Indiginato , etc,feitas para eles.

Antes da Conferência de Berlim (1885-5) já África era explorada por grandes Companhias estrangeiras, e por capitalistas que, sem exporem no terreno, lá de longe exploravam as suas riquezas. Aquela Conferência obrigou ao povoamento e fixação, e uma nova página da História para os povos, como sempre sob o impulso de uma minoria.




 Moçâmedes , com a chegada dos algarvios, foi-se enchendo de pescarias, situadas na Torre do Tombo
 E também estaleiros para construção de barcos de pesca...


 
As pescarias existentes junto ao morro da Torre do Tombo, em  Moçâmedes, em finais do século XIX. Todas estas pescarias encobriam as célebres grutas cavadas na rocha branda do morro onde em 1875, Gregório José Mendes havia encontrado inscrições deixada por mareantes que ali longo dos séculos por ali passavam e ali faziam aguada, para continuar viagem...

Nossos avós ainda chegaram a conhecer as célebres inscrições, verdadeiros documentos históricos que não chegaram aos nossos dias
Estas são inscrições representativas da chegada no navio Sado a Moçâmedes, com alemães para a região, e alunos da Casa Pia de Lisboa. E da chegada no navio  Índia com as primeiras famílias de madeirenses, em 1884,  rumo povoamento das Terras Altas da Huíla

 
 Outra perspectiva das primitivas pescarias junto do Morro da Torre do Tombo. A pescaroa da minha avó Maria da Conceição vê.se ao fundo, è esquerda. A pescaria do meu pai, que começou por ser do meu avô ficava mais a sul, mais perto da Ponta do Pau do Sul.e do canto inferior esq. desta foto. A meio a pescaria e instalações de João da Carma, que sobem o morro, e incluía a ponte
As pescarias existentes na baía de Moçâmedes, em finais do século XIX

Instalações de pesca da firma Morgado & Morgado, na Torre do Tombo





Esta foto tirada pelo mesmo fotógrafo, no mesmo dia e no mesmo local mostra-nos o casal Isaura da Encarnação Almeida d' Andrade e de Júlio Gonçalves Moura d' Andrade.  A minha avó Maria da Conceição (foto acima) tinha uma irmã bastante mais velha que ela, a Maria de Jesus, que era a mãe de Isaura da Encarnação, a senhora desta foto, que era sua sobrinha.   No mesmo dia foi a baptizar a pequenita Isaura, filha de Isaura da Encarnação e a minha mãe, Olga da Conceição, como podem ver. Eram primas.
(1)
Os filhos de D, Leontina e de Manuel Viegas Serxam eram: Isolina, Umbelina, Odete, Cesaltina, Eugénio, Edmundo, Toneca e  Rosária.

Ficam mais estas recordações que deixo aqui para os meus filhos, netos e familiares e para os vindouros da nossa familia.

 MariaNJardim


(1) Um deles vem referido no livro de registos de correspondência recebida, 1892-1896, da Alfândega de Moçâmedes, era Domingos da Costa Russo, mestre do caíque Santa Rita (o sei caíque possuía um registos de despacho em 05 de Fevereiro de 1892, para Lândana, de uma carregação de 805 amarrados de peixe). Russo dedicava-se ao transporte de cabotagem para os portos do norte de Angola, Congo e Gabão. O mesmo livro faz referência à família de Tomás Caetano Lopes Russo, nascido em 1830, filho de João Lopes Guedelha e de Ana Russo, então contando já 64 anos de idade, mestre do caíque Restaurador, que viria a falecer aos 78 anos de idade, em 1908, achando-se então já viúvo de Maria do Carmo Gonçalves Lopes. Deixou dois filhos, Tomás Caetano Lopes e Maria do Carmo que por opção e voto acabou celibatária. Segundo vem escrito no Caderno de Mário Lopes já atrás referido, Tomás, nascido em Olhão em 1861, era mestre de costa, e teria ido para Moçâmedes para fugir ao serviço militar, constando que acabou enfeitiçado por uma negra de nome Raquel, filha de um soba do interior de Benguela, que passou a acompanhá-lo nas suas viagens como se de esposa se tratasse.  Maria do Carmo acabou celibatária porque seu noivo, José, um amigo de infância do irmão Tomás, que o acompanhava nas suas viagens, perdera-se de amores por outra beldade da mesma tribo já prometida  a um indígena que acabou por o matar.  Dos amores de Tomás Caetano Lopes e Raquel nasceram Maria do Rosário, Tomás,  Maria do Carmo e Maria Eugénia, cinco filhos e filhas que foram sendo educados pela celibatária Maria do Carmo,  na casa da Torre do Tombo, tendo as três filhas, quando chegadas à idade escolar,  passado a frequentar um colégio de freiras, onde receberam uma educação esmerada, verdadeiro luxo naquele tempo. A tal ponto que a mãe africana, a  Raquel, quando as  visitava, tratava-as por "meninas". Eram os ganhos do pai Tomás na cabotagem que possibilitaram pagar a educação das filhas. Este registo é metido aqui, porque Maria do Rosário, nascida em 1899, acabaria por casar, em 1917, com José Caetano de Almeida,  (o menino nascido à entrada em Porto Alexandre, filho de Maria de Jesus, (a irmã da minha avó materna Maria da Conceição), e  de António dos Santos Almeida (irmão do meu avô paterno, João Nunes de Almeida).

Segundo nos conta Mário Lopes no mesmo Caderno de recordações, Tomás Caetano Lopes chegou a ser dono e comandante de um palhabote, que cabotava entre os portos de Angola e do Congo, e  quando se demorava em Moçâmedes acolhia-se no bairro da Torre do Tombo, em casa dos compadres Manuel Viegas Seixal e Leontina, onde vivia, também a sua irmã Maria do Carmo juntamente com os seus quatro filhos que tiveram uma educação esmerada. 
E que Tomás exibia-se aperaltado, janota, vestido com roupas caras, pulseiras, correntes e anéis em ouro, relógios de pulso, etc, quando desembarcava do seu palhabote, o que naturalmente fazia a inveja a muitos. E que um dia, depois de dar dinheiro ao chefe da casa, o compadre Seixal para sustento dos seus, despercebidamente levava o cofre que possuía para o fundo do quintal, e que os íntimos julgavam conter jóias, dinheiro, e outros objectos valiosos conseguidos na sua longa vida de trabalho de marinhagem.   Uma noite, por volta dos anos 1920, após ter chegado Moçâmedes febril, Tomás foi atacado por uma perniciosa, arrastou-se até ao fundo do quintal da casa de Manuel Viegas Seixal, carregando o dito cofre, tendo voltado de mãos vazias. O mal que o atacara deixou-o entrevado e sem fala, até que a morte o levou. Ainda tentado balbuciar algumas palavras sem o conseguir, para desespero seu e da familia que lhe assistia ao último alento. Escavações foram feitas em busca do "tesouro" que nunca foi encontrado, tendo a partir de então nascido o mito de maldição lançada sobre o Tomás da Russa, ao ponto de D. Leontina (1) ter acabado por abandonar aquela casa onde antes e depois morreram tuberculosos dois filhos da sua vasta prole de 8 filhos.
Para se conhecer um pouco mais da História de Moçâmedes, convido a consultar estas páginas do meu blog:
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2012_02_04_archive.html
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2009/03/as-grutas-da-falesia-da-torre-do-tombo.html
http://memoriaseraizes.blogspot.pt/2007/04/manuel-joaquim-frota-mandador-pioneiro.html


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