Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2007

José Joaquim da Costa, chefe da 2ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil), que em 1850 chegou a Mossâmedes (Angola)



O busto de José Joaquim da Costa, en local de honra na Avenida do Namibe, mais ou menos na     direcção na Estação do Caminho de Ferro. Nos momentos a seguir à independencia de Angola, em 1975, foi retirado deste mesmo jardim o busto que ali se encontrava do chefe da 1ª colónia, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro. Sabe-se que Bernardimo e o "velho Costa", eram de extactos sociais diferentes  e que havia entre ambos uma cera animosidade. Não se sabe a origem da preferência dos angolanos. De qualquer modo um gesto de grande magnanimidade a colocação do busto de um "colono bom".


 
José Joaquim da Costa, cujo busto encontra-se actualmente exposto sobre uma coluna de mármore, em lugar de honra, em plena Avenida, na cidade do Namibe,  foi  o chefe da 2ª Colónia, composta 144  portugueses emigrados no Brasil, e seus descendentes  luso-brasileiros,  que partiu de Pernambuco para Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe), a 13 de Outubro de 1850, na barca portuguesa Bracarense, acompanhada pelo brigue Douro, onde chegou no dia 26 de Novembro. 

Em Mossâmedes encontravam-se já, desde  04 de Agosto de 1849, levados pela barca  brasileira "Tentativa Feliz", capitaniada  pelo mesmo Brigue, um primeiro grupo de colonos chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, ali chegados após setenta e quatro dias de turbulenta viagem.  

O  Brasil tornara-se uma nação independente em 1822, e os seus naturais não viam com bons olhos o ascendente económico e político dos portugueses. Surgiram então tumultos e perseguições aos portugueses, que foram depreciativamente apelidados de “marinheiros”,  a vida tornou-se para estes nossos compatriotas  difícil, para não dizer impossível.   “Os praieiros”, movimento de uma facção liberal, exigiam a expulsão dos  portugueses solteiros e a nacionalização do comércio a retalho.
  Tal como os demais portugueses que aportaram em Mossâmedes no dia 26 de Novembro de 1850, também José Joaquim da Costa  não aceitou a perda da nacionalidade portuguesa, como condição para continuar no Brasil independente, e,  animando um grupo de portugueses, tal como fizera Bernardino Abreu e Castro com a 1ª colónia,  partiu na sua companhia rumo a Mossâmedes, a fim de se juntarem ao anterior núcleo ali estabelecido desde 04 de Agosto de 1849, para estabelecerem em conjunto o «povoamento e o progresso em África da terra portuguesa».

O grupo chefiado por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro contou com o apoio do Estado.  A 2ª colónia  conseguiu chegar a Mossâmedes, mas graças ao produto de uma subscrição promovida entre compatriotas seus.  Quanto à 1ª colónia, Bernardino, homem indomável, arvorando-se em porta-voz dos seus compatriotas, escrevera ao Ministério da Marinha e Ultramar, solicitando a concretização de tal pretensão, e impondo condições que viu satisfeitas, tais como navios para os colonos abandonarem o território gratuitamente, com provisões para seis meses, ferramentas, utensílios agrícolas, auxílio financeiro para aquisição de maquinaria para a industrialização da cana sacarina e ainda isenções de direitos sobre os bens, a publicação de uma lei para isentar de impostos alfandegários por dez anos, etc.
 
Os primeiros anos foram muito difíceis, devido à novidade de uma nova terra, com outro clima e o desconhecimento das plantações na época certa. Colonos descontentes  escreviam à familia, falando de Mossâmedes  como «um lugar de degredados, onde os colonos eram tratados como tais»pior que a ilha de Fernando Noronha que «os não deixava sair sem completar dez anos» , "que o clima era péssimo", etc , etc.

 
Conforme os Annaes do Município de Mossâmedes, uma boa parte dos colonos chegados em 1850, vindos do Rio de Janeiro e da Baía, acabaram despersuadidos ao primeiro intento, e  dos que levaram consigo dinheiro destinado a possíveis negócios, muito poucos ali ficaram. Porém os que ficaram animaram os seus predecessores, com os quais logo confraternizaram, procurando, em conjunto vencer as agruras com que se confrontavam. Foram estes, que deixando o Brasil num estado de ânimo mais tranquilo, encorajaram os primeiros colonos que se encontravam num estado de ânimo desesperados, «famintos, quase nús, desalentados pela miséria», ao ponto do assentamento de praça que lhes solicitavam ou ofereciam era para eles considerado um benefício já que pelo menos teriam que comer e vestir. (B.O. nº 272, de 14 de Dezembro de 1850 e Anais do Municipio).  O texto refere um total de 144 colonos, tendo ficado em Mossãmedes 107 (32 do sexo masculino e 75 do sexo feminino), e partido para Luanda 37, incluindo mulheres e menores.

Num documento oficial de animação e de exortação que o Governo Geral de Angola havia feito publicar no Boletim Oficial nº 272 de 14 de Dezembro de 1850, um dia após o regresso do brigue Douro, comandado pelo capitão de fragata da Armada Vicente José dos Santos Moreira Lima, e da barca Bracarense, que havia transportado a 2ª colónia da cidade de Pernambuco, podia-se ler a seguinte passagens:

«Entre os colonos há indivíduos de que o Estabelecimento deve tirar muita utilidade e proveito, porque não é pequeno o numero de  operários e agricultores - é um princípio de uma verdadeira riqueza e felicidade para toda esta Província, que todos devem auxiliar e coadjuvar pelo menos a seu alcance. O Governo de Sua Majestade olha atentamente, e com esperança, para esta colonização, e essas benéficas vistas serão com diligência por nós secundadas, ainda mesmo quando for necessário, com quaisquer sacrifícios.»


                      
                   Francisca Alexandrina da Silva Costa, esposa de José Joaquim da Costa








Herondina da Costa Brito, filha de José Joaquim da Costa e de Francisca Alexandrina da Silva Costa


São insuficientes os elementos que possuímos capazes de esboçar o perfil bibliográfico de José Joaquim da Costa. No entanto segundo notícia incerta no suplemento nº 7 , de 4 de Agosto de 1892, do periódico O Sul de Angola, sabe-se que nasceu em 13 de Maio de 1813 em Vila do Conde (distrito do Porto) e faleceu sem se fotografar. Sabe-se também que nessa viagem foi acompanhado de sua esposa e filha.

Na impossibilidade de colocar nesta página uma fotografia de José Joaquim da Costa, coloquei acima a do busto em sua homenagem nos jardins do Namibe, bem como as de sua esposa, Francisca Alexandrina da Silva Costa e de  sua filha, Herondina da Costa Brito, retiradas do livro de Manuel Júlio de Mendonça Torres, «O Distrito de Moçâmedes nas Fases de Origem e Primeira Organização: 1485-1859».

Segundo refere  mo mesmo livro,
Mendonça Torres, José Joaquim da Costa teve uma vida embaraçosa quer na infância quer na mocidade, e foi desalentado que emigrou para Pernambuco, Brasil, onde lutou pela vida com grande tenacidade, venceu obstáculos e  a sorte parece tê-lo afagado.  Em Mossâmedes foi agricultor,  proprietário da Fazenda Boa Vista, situada na Várzea com o mesmo nome,  onde  ergueu o engenho de fabricação de açúcar dominado Patriota. 

Em relatório enviado por José Joaquim da Costa ao então Governador Geral da Província de Angola, o Chefe da 2ª colónia referindo-se à região de Capangombe, salienta a conveniência de se levar li a cabo a cultura da cana de açúcar e o fabrico do açúcar, sendo para tal necessário despertar capitalistas que formassem uma Companhia com fundos necessários, evitando a desvantagem das pequenas propriedades (Ver AQUI).  Foi na sequência desse relatório que foi criada a colónia de Capangombe para onde foram enviados a seguir, uma colónia de 101 indivíduos (86 do sexo masculino e 15 do sexo feminino, "de diferentes cores e idades",  a partir de Luanda, embarcados para Mossâmedes, no vapor "Zaire"), conforme relatório do Governador Sebastião Lopes Calheiros e Meneses, de 12 de Julho de 1892.

Entretanto nasce o município de Mossâmedes quando já existem 36 casas de pedra, oito de adobe e a Igreja de Santo Adrião, das primeiras construções efectuadas.


Nas nossas pesquisas encontramos uma referência a Nestor José da Costa, o filho do chefe da 2ª colónia,  José Joaquim da Costa, que se pressupõe já ter nascido em Mossâmedes, e que foi um exímio caçador que muito se distinguiu na época, tal como  José Anchieta, naturalista, que colheu no deserto do Namibe e enviou para o Museu Nacional de Lisboa milhares de exemplares entre os quais cerca de cinquenta novas espécies.


 
  José Anchieta


Outro nome sonante dos primórdios da colonização de Mossâmedes  foi o do popular Dr. Lapa e Faro, facultativo da província, possuidor de um veículo que havia mandado construir, leve e cómodo, para transportar pelos areais de Mossâmedes as pessoas de sua casa nas caçadas que habitualmente costumavam empreender, e que «servia também para o transporte de pessoas doentes ou fragilizadas.

No Relatório Governador Geral da Província de Angola, Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes - Ano de 1861 a partir da pg. 194, poderão ser encontradas bastantes referências ao Chefe da 2ª colónia, José Joaquim da Costa, incluso no Relatório dirigido ao então Governador de Angola e relacionado com a cultura da cana e fabrico de açucar em Capangombe.

Algumas destas informações foram colhidas do Boletim da Sociedade de Geografia, 2ª série, nº1 de 1880, onde vem publicado um relatório da viagem de exploração efectuada pelo segundo tenente António Almeida Lima, de 1 de Janeiro de 1879.







Pesquisa e texto de MariaNJardim










 


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