Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2007

Componente da 2ª colónia de Pernambuco (Brasil) : António Francisco Nogueira e Narciso Francisco de Sousa: 1850






 

 
António Francisco Nogueira, componente da Segunda Colónia,
                                                      autor do livro «A Raça Negra».
 

Créditos de imagem: Caderno comemorativo da fundação 
de Mossamedes, datado de 4 Agosto de 1991.



 



 
António Francisco Nogueira, literariamente A. F. Nogueira, integrou a colónia formada em Pernambuco, em consequência da Revolta Praieira, que em 1849-50  chegou à região de Moçâmedes, na expectativa de substituir um Brasil em estado de revolta nativista por uma nova “Terra da Promissão”. 


Com a intentona que a independência do Brasil inspirou nas cidades de Benguela e Luanda, denominada Confederação Brasílica, em 1822-23, sob a égide de um dito “partido brasileiro”, constituído por brasileiros, portugueses e angolanos, saltava à vista que a narrativa da Portugalidade no futuro de Angola teria vários pronunciamentos.

António Francisco Nogueira, não tinha uma profissão definida (fora comerciante, agricultor e bancário), revelou-se durante a sua permanência no Sul de Angola como um etnógrafo autodidacta com artigos em jornais de Angola e da Metrópole e, por último, com um importante livro de ensaios com o título genérico de A raça negra, publicado em 1880 em Lisboa, de que é obrigatório fixar esta passagem:
[…] E não nos impressiona a objecção de que civilizar os indígenas das nossas possessões de África é o mesmo que emancipar essas colónias. Se ao mesmo tempo que educando o Negro tratarmos de aclimar o Branco onde isso for possível este será ainda por muito tempo um apoio seguro para nós. Mas dado que afinal a colónia se venha a emancipar – e esse é o destino de todas as colónias – que devemos preferir: conservá-la estéril e improdutiva como até agora, ou convertê-la em uma nação amiga, e mesmo irmã ao menos sob o ponto de vista da civilização e dos costumes?
[…] Ora o Negro é o nosso auxiliar indispensável nessa empresa. Se civilizando-o o tivermos emancipado, nem por isso teremos deixado de conseguir o nosso fim, antes o teremos conseguido plenamente. Oxalá que a Europa, a civilização, a humanidade, nos tivessem a lançar em nosso rosto muitas dessas faltas!

Conforme Leonel Cosme, in "A literatura e as guerras em Angola. No Princípio Era o Verbo:


"...Este colono-sertanejo antecipava a visão realista de Afonso Costa quando, mudado o regime português, afirmava que “a República não vai continuar a Monarquia, no que diz respeito a processos de administração colonial”. Mas, no essencial, continuou. Três décadas depois, o jornalista José de Macedo, que durante alguns anos foi o redactor principal do jornal de Luanda Defeza de Angola, afecto à Maçonaria, de regresso a Portugal, escreveu em 1910 um livro de grande impacto, Autonomia de Angola, em que observa:
Porque é preciso que isto se saiba, que isto se diga, bem alto: em Angola há uma, embora pouco poderosa, mas em todo o caso latente, corrente separatista. Ninguém que lá tenha vivido desconhece que não só entre os indígenas civilizados (e há-os que honram o seu nome) como entre os colonos europeus, existe uma manifestação de hostilidade, que nem pelas armas, nem pela maior centralização se poderá já extinguir.
Macedo sabia bem do que falava: em 1901 tinha vindo a lume, impresso em Portugal, um libelo escrito por destacadas personalidades angolanas, civis e religiosas, que sob anonimato verberavam as críticas racistas de um deputado português de visita a Angola. Intitulava-se esse livro Voz de Angola Clamando no Deserto, cujo primeiro depoimento – “Solemnia Verba” –, por muito apaziguador que fosse, não iludia o que subjaz à expressão latinista: Solene Advertência. "

 
Quanto à situação do negro, António Francisco Nogueira procura demolir preconceitos darwininstas, etc,  em relação à capacidade de evolução civilizacional da raça negra, e  levanta entre outras, a problemática do trabalho, ou seja, o modo como se persistia em encarar o negro como simples instrumento de trabalho
 




 







Narciso Francisco de Sousa, foi um dos componentes da segunda colónia chegada a Moçãmedes no ano de 1850, vinda de Pernambuco (Brasil), por ocasião da onda de antilusitanismo gerada pela revolução praieira que tornara insuportável a vida dos portugueses naquela ex-colónia.
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Sabe-se que em Moçâmedes, Narciso Francisco de Sousa foi proprietário de um fazenda em S. Nicolau, a norte de Moçâmedes, onde, entre outras espécies agrícolas, se dedicava à cultura da urzela. 


Há notícias de que a propriedade de Narciso Francisco de Sousa se vira envolvida na onda que alguns autores chamaram de «revolta dos escravos», e que a sua propriedade abandonada pelos escravos que ali trabalhavam na apanha da urzela .


Por essa altura as autoridades de Angola procuravam implementar o decreto de Sá da Bandeira que em 1836 havia proibido o tráfico de escravos africanos para o Brasil e Américas, mas não tocara na mão de obra escrava considerada mais do que nunca imprescindível para o desenvolvimento económico do território que se procurava promover através da fixação de novos colonos.


As costas de Angola eram constantemente patrulhadas por navios da marinha portuguesa, e os traficantes de Luanda e Benguela ao verem-se perseguidos trataram de desviar os navios para as pequenas e discretas enseadas do Ambriz e norte de Moçâmedes. Apanhados nas malhas da lei, os navios eram apresados e os escravos passavam a mudar de estatuto tomando a categoria de «libertos» categoria intermédia entre o escravo e o completamente livre, e passaram a ser canalizados como mão de obra «liberta» mas escrava, uma vez que não se podiam negar, dada  necessidade de braços  imprescindíveis para o desenvolvimento de Angola nesses primeiros tempos da fixação.


Assim, enquanto se tentava aplicar a lei de 1836, paralelamente, os escravos que eram libertados dos navios apresados, passavam ser enviados para as plantações, pescarias, etc., que começavam a despontar,  carentes de mão de obra indígena, misturando-se com outros serviçais.  Estava-se em pleno ápice das revoltas escravas em Angola. O temor de um retrocesso na aplicação da lei que levasse de novo aos embarques ilegais atingiam todos os escravos.

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Créditos de imagem: Caderno comemorativo da fundação de Moçâmedes, datado de 4 Agosto de 1991.


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