Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Primeiros colonos portugueses em Capangombe e Bumbo: José Leite de Albuquerque e Francisco José da Costa Jubim

























José Leite de Albuquerque e Francisco José da Costa Jobim

 


José Leite de Albuquerque:


«No Bumbo, sitio para o interior, a algumas léguas de Mossamedes, ia prosperando a cultura da cana e da mandioca. O colono José Leite de Albuquerque era o que alli mais se distinguia pelos seus trabalhos agrícolas. Outros colonos seguiam o seu exemplo, empregando-se activamente na cultura dos férteis terrenos que têem á sua disposição, e de que tanto proveito podem tirar. In Annais Conselho Ultramarino- Parte não oficial

 

Francisco José da Costa Jobim

«Componente da «Colónia de Capangombe», proprietário de algodoais na Fazenda Tampa, situada nas margens do riacho do mesmo nome no Concelho do Bumbo.»



                                 Colónia de Capangombe e Bumbo ( fotos : Boletim Geral do Ultramar)








 Transcrição de parte do RELATORIO DO GOVERNADOR GERAL DA PROVINCIA DE ANGOLA, Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, ano de 1861:

Na costa, comprehendida entre Benguella e Mossamedes, ha algumas feitorias de pesca e de apanho de urzella, e alguns estabelecimentos agricolas.

No interior de Mossamedes a nossa dominação não é mais util. A leste da villa, cuja população é avaliada em 2:200 habitantes, comprehendendo os suburbios, temos na distancia de 75 kilometros proximamente o concelho do Bumbo, que antes do estabelecimento da nova colonia de Capangombe tinha um unico morador com a sua familia, e os pretos da sua fazenda. A leste do Bumbo, subindo a serra da Chella, e ás planicies elevadas que demoram ao oriente da serra, temos o concelho da Huilla, que distará 140 kilometros da costa, com uma pequena povoação de brancos, resto da companhia agricola de caçadores n.° 3, que tão pouco correspondeu ao que custou, e ao que d'ella se esperava. Do chefe d este concelho dependem os pacificos sobas da Humpata e do Jau. A leste da Huilla, e a meia distancia do Humbe, temos o concelho dos Cambos, cuja população é a guarnição que ali mantemos, e cujo soba de continuo excita contra nós o odio do gentio, em virtude de desintelligencias havidas com as auctoridades. Emfim a sueste dos Gambos está o Humbe, onde desde a occupação temos andado sempre em guerra, para sustentar o novo soba que ahi collocámos.

Convem notar-se, que do interior de Mossamedes não recebemos um real de imposto directo, nem d'ali nos fornecem recrutas; e que o mesmo se pôde dizer do districto do Ambriz, vistoque o dizimo de Encoge é nominal; devendo acrescentar-se que no principio do anno passado ainda a propria villa de Mossamedes não pagava decima. Do mesmo modo cabe aqui dizer, que os concelhos da linha oriental, os de Malange e Cassange, são tambem quasi inteiramente improductivos.

(...) 

Mereceu a minha particular atlenção tudo que podia tender ao desenvolvimento da provincia, em ordem a promover a sua producção, offerecer ao commercio os precisos meios de troca, e a equilibrar n'esta colonia, quanto possivel, a importação com a exportação de generos para o exterior.
Dificil porém é esta tarefa, como se vô do estado em que já disse achar-se esta provincia. As circumstancias moraes da sua população não permittem aspirar, por ora, senão á exploração, e não em larga escala, das industrias rudimentares, que pouco adiantam a tomar os productos da mão da natureza.
Com esse intuito, e a fim de encaminhar a um melhor estado de cousas, prohibi as queimas que por costume destroem a vegetação no paiz; ordenei que se não cortassem as palmeiras existentes, e incitei á plantação de novas, por ser esse um ramo de industria, que considero aqui muito productivo, pelo valor dos oleos, e porque, sendo já habitual aos pretos, está tambem mais em harmonia com os seus habitos de indolencia e preguiça, por exigir poucos cuidados e esforços. 

(Doc. n.°8 40 e 41.)

Tentei um ensaio importante de colonisação branca, e procurei desenvolver a cultura de generos coloniaes de valor, estabelecendo a colonia de Capangombe nas terras d'este nome, entre a villa de Mossamedes e a Huilla. Estas terras, separadas  da Huilla pela serra da Chella, são consideradas como proprias para essa cultura. Estabelecendo esta colonia, que poderá ganhar grande importancia, tive tambem em vista dar por aquelle meio segurança á villa de Mossamedes, contra as guerras do Nano, e força aos pontos que já occupámos a leste, assim como ver, se creando n'aquellc ponto uma valiosa agricultura de generos ricos de exportação, animava na planura superior da Umpata e da Huilla a cultura dos generos pobres que ali se dão, e que hoje se não cultivam por falta de extracção, abrindo em Capangombe um mercado ao consumo; porque de outro modo aquellas nossas occupações serão sem valor nem resultado. (Doe. n.os 42, 43 e 44.)
Por outro lado, se as necessidades economicas me aconselhavam a retirar do deposito de Loanda os degradados e libertos, onde faziam uma despeza inulil ao estado, quiz tambem com isto ajudar o desenvolvimento agricola do paiz, e reforçar a acção civilisadora, que cumpre por todos os modos exercer na colonia. Enviei pois grande numero de degradados para Capangombe, e distribui alguns libertos a colonos vindos do Brazil, que para ali se dirigiram.

pg. 94
A colonisação tambem mereceu a minha mais seria attenção, e ahi fica encaminhada para differentes pontos, e lançados os fundamentos de uma grande e importante colonia em Capangombe.

Esta provincia acha-se pois em estado que póde dizer-se de regular administração, ou encaminhada á sua prosperidade, effectuadas algumas reformas importantes que tenho proposto ou indicado ao governo de Sua Magestade.
Durante a minha administração foi alterado o socego publico pelas hostilidades dos povos gentios em dois pontos; no districto do Ambrize no do Golungo Alto. Não fallarei em pequenas excursões no districto de Mossamedes, que acabavam quando cheguei a esta provincia, e outras de pouca importancia.

 (...)


Na costa, comprehendida entre Benguella e Mossamedes, ha algumas feitorias de pesca e de apanho de urzella, e alguns estabelecimentos agricolas.
No interior de Mossamedes a nossa dominação não é mais util. A leste da villa, cuja população é avaliada em 2:200 habitantes, comprehendendo os suburbios, temos na distancia de 75 kilometros proximamente o concelho do Bumbo, que antes do estabelecimento da nova colonia de Capangombe tinha um unico morador com a sua familia, e os pretos da sua fazenda. A leste do Bumbo, subindo a serra da Chella, e ás planicies elevadas que demoram ao oriente da serra, temos o concelho da Huilla, que distará 140 kilometros da costa, com uma pequena povoação de brancos, resto da companhia agricola de caçadores n.° 3, que tão pouco correspondeu ao que custou, e ao que d'ella se esperava. Do chefe d este concelho dependem os pacificos sobas da Humpata e do Jau. A leste da Huilla, e a meia distancia do Humbe, temos o concelho dos Cambos, cuja população é a guarnição que ali mantemos, e cujo soba de continuo excita contra nós o odio do gentio, em virtude de desintelligencias havidas com as auctoridades. Emfim a sueste dos Gambos está o Humbe, onde desde a occupação temos andado sempre em guerra, para sustentar o novo soba que ahi collocámos.

Convem notar-se, que do interior de Mossamedes não recebemos um real de imposto directo, nem d'ali nos fornecem recrutas; e que o mesmo se pôde dizer do districto do Ambriz, vistoque o dizimo de Encoge é nominal; devendo acrescentar-se que no principio do anno passado ainda a propria villa de Mossamedes não pagava decima. Do mesmo modo cabe aqui dizer, que os concelhos da linha oriental, os de Malange e Cassange, são tambem quasi inteiramente improductivos.
 (...)

N.° 41

O governador geral da provincia de Angola e suas dependencias determina o seguinte:

Praticando-se em geral n'esta provincia, e com especialidade nos concelhos da fronteira interior, o prejudicialissimo abuso de lançar fogo ao mato sem necessidade nem proveito algum, apenas com o fútil pretexto de apanhar alguma caça, e muitas vezes por habito, sem esse mesmo pretexto, a ponto de apresentar o paiz o aspecto da mais lastimosa devastação, queimado todo o arvoredo e povoações inteiras, e destruido o desenvolvimento de novas arvores; 

sendo demais essas queimas prejudiciaes á creação da caça, que em parte ê aniquilada pelas chammas, sem que se possa allegar que afugentem e desiruam as feras, não vulgares na maior parte dos concelhos da provincia; hei por conveniente determinar o seguinte:

l.° É expressamente prohibido em toda a provincia de Angola lançar fogo ao mato sob as penas comminadas pela lei vigente aos incendiarios.

2.° Quando, para fins de cultura, for preciso queimar mato ou capim, nunca a queima poderá ser feita em terreno com arvores, ou por forma que estas sejam damnificadas, ficando os que em contrario houverem procedido, sujeitos ás penas do artigo antecedente, e responsaveis pelo prejuizo que causarem e pelas arvores que houverem queimado.
3.° Nunca, em caso de queima maior, se poderá proceder sem previa licença dos chefes ou dos commandantes das respectivas divisões, competenternente auctorisados, os quaes ficam responsaveis o obrigados a dar conta aos chefes.
4.° As auctoridades empregarão todo o cuidado no cumprimento do quo fica determinado, e usarão dos meios que julgarem mais adequados para impedir as contravenções, procedendo a inquerito para descobrir os contraventores; e bem assim os governadores de districtos e chefes darão parte em seus relalorios das occorrencias havidas, e da maneira como foi cumprido o que acima se acha disposto.
As auctoridades e mais pessoas a quem o conhecimento d'esta competir, assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio ao governo em Loanda, 16 de outubro de 1861. = Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral.

pg 194     N.° 42

O governador geral visitou Mossamedes em fevereiro de 1861, logo que tomou posse do governo da provincia: e impressionado pela pequena área de terrenos cultivaveis nas proximidades da villa, e pela notavel aridez dos restantes, tratou de indagar se haveria terras productivas mais proximas do que na Huilla, onde se podesse estabelecer cultura de generos coloniaes. Obteve varias informacões, e entre estas sobresaíram as dos terrenos de Capangombe, apresentadas por differentes pessoas, e especialmente pelo governador do districlo, o tenente coronel Antonio Joaquim de Castro, que voltando de uma viagem á Huilla, em companhia dos negociantes e agricultores Leite, Franco e Roxo, entraram nas terras de Capangombe, que acharam de notavel amenidade e vegetação, e apropriadas a promettedora cultura.

Passados dias, foi o governador visitar a fazenda dos Cavalleiros, distante da villa uma legua, e pertencente ao agricultor Bernardino Freire de Figueiredo, e ahi se renovou a discussão sobre o mesmo assumpto em presença dos principaes habitantes de Mossamedes, entre os quaes se achava o maior cultivador de algodão, João Duarte de Almeida.

Ninguem ainda conhecia bem as terras de Capangombe, nem se imaginava que a superficie adequada á cultura fosse tão grande, como depois se encontrou; não obstante serem alguns de opinião que os valles e terras aproveitaveis se estendiam a grande distancia para o lado de Quilengues.
Depois desta reunião, o cultivador de canna, José Joaquim da Costa, offereceu uns apontamentos que o governador lhe pediu, e que abaixo são transcriptos.

Em vista pois destas informações, resolveu o governador geral a exploração das terras de Capangombe, e regressando a Loanda mandou organisar uma expedição e colonia composta de 100 individuos approximadamente, que partiram de Loanda no mez de maio de 1801, acompanhados pelo tenente coronel João Jacinto Tavares.

Esta colonia saiu de Mossamedes para Capangombe com o mesmo tenente coronel, então governador do districlo, e apesar de alguns embaraços, e de se haver extraviado, e em parte dispersado no caminho, chegou ao seu destino no dia 26 de maio , e ahi reuniram todos os individuos que compunham a expedição.

Assim foi fundada a promettedora colonia de Capangombe, importante pela situação e maior salubridade nas regiões africanas. Rival da ilha de S. Thomé, que ha pouco lhe forneceu as primeiras plantas de café, lhe chama o governador de Mossamedes Fernando da Costa Leal no periodo do seu relatorio de 15 de fevereiro de 1866, publicado no Diario de 13 de junho, como segue:

A cultura do café em Capangombe tem progredido em grande escala, e não só ha a notar a abundancia da producção, como tambem a superior qualidade do genero; dentro de alguns annos Capangombe rivalisará em exportação com a ilha de S. Thomé, como já rivalisou em qualidade, e ganhou o premio na exposição industrial do Porto. É esta uma cultura que deve ser animada, e que eu tenho sido incansavel em lhe proporcionar todos os meios ao meu alcance.

«N'esta nova colonia já hoje se acham estabelecidas 19 propriedades agricolas e 9 moinhos, e a sua população é de 46 brancos, 17 pardos e 528 pretos, sendo l4 pretos livres, 45 libertos do estado e 469 libertos dos particulares. »

N.° 43 RELATORIO OFERECIDO A SUA EXCELENCIA O EX. Governador Geral Da ProvIncia DE ANGOLA SOBRE A CONVENIENCIA DA CULTURA DA CANA E FABRICO D0 ASSUCAR NO SITIO DENOMINADO CAPAMGOMBE, NO  DISTRICTO DE MOSSAIEDES, PELO AGRICULTOR JOSÉ JOAQUIM DA COSTA

III.° e Ex.° sr. — O ardente desejo que me domina pela prosperidade de Mossamedes, e dá patria, a attencão que vejo agora a governo de Sua Magestade prestar a esta rica e vasta provincia, os bons desejos de qoe v. ex.a se acha possuido pelo seu progresso, e, finalmente, os conhecimentos praticos que possuo, resolveram-me a oferecer a v. ex. a presente exposição relativa á conveniencia da cultura da canna, e suas vantagens no fabrico do assucar no sitio denominado Capangombe, n dois dias e meio de viagem, ou distancia d'esta villa, para onde se póde fazer uma estrada carreteira em pouco tempo e com pequeno dispendio, segundo me «insta por pessoas que já lá furam por caminhos ou trilhos do gentio em zigue-zagúe.

Sendo porém imperfeito este relatorio, v. ex.a dignarse-ha desculpar-me pelos erros, aproveitando d'elle a parte essencial, o dignando se tambem mandar dar-lhe publicidade no Boletim pfficial da provincia, a fim de ver se á vista das demonstracões da prodncção da canna, desperta os capitalistas de Portugal e compatriotas do Brazil a formarem uma companhia para tal fim com os fundos necessarios, dos quaes não podendo agora calcular quaes os precisos a empregar para a superficie de terra adiante descripta, pela brevidade da saida do vapor em que v. ex.a se retira da proveitosa visita, que a este districto se dignou effeituar, promello faze-lo o mais breve possivel, para em seguida ser addicionado a este trabalho.

Cumpre-me tambem declarara v. ex.aque, sendo muito limitados os terrenos n'este districto, proprios para a cultura da canna, só convem pertencer todo o que ha por distribuir, e com especialidade o de Capangombe, a uma companhia que tenha os fundos necessarios para tirar dVllt» todo o proveito de tudo quanto for proprio para lal fim. pois está provado que os terrenos concedidos para a cultura da canna a pessoas com poucos fundos, sao precisa de/.enas de n n nos para passarem de engenhocas que não tiram resultado, nem muilas vezes para despezas de custeio, e isto em terreno de meia legua de comprido e igual porção de largura, terreno este que pôde dar una grande resultado; e de mais, quando morre o proprietario de uma d'estas propriedades em Africa, morre com elle a propriedade, o que não acontece com uma companhia.

Para provar o que deixo expendido a v. ex.a, relativamente á desvantagem das pequenas propriedades (pequenas por falta de fundos), em referencia ás grandes, citarei a v. ex.a a provincia da Bahia, onde em 1854 havia l :200 engenhos, produzindo o total, segundo se coligiu das casas de arrecadação para exportação, de pouco mais de 3.000:000 de arrobas, alem do que se consumiu, que é menos, e o mel que ficou, sendo tal prodilcção o resultado dos referidos 1:200 engenhos, que dando-se, termo medio, meia legua para cada um, são 600 leguas, ao passo que pelo systema que vou descrever, por meio
dos melhores apparelhos e fundos necessarios, são precisos sessenta e tantos engenhos em pouco mais de uma legua de comprido e igual largura, sendo precisas vinte e tantas mil pessoas, quando para os 1:200 da Bahia, regulando, termo medio, a 100 pessoas, são precisas 120:000.

Cumpre-me tambem dizer a v. ex.a que, quando tenha exito uma tal empreza, deve ser abolida a lei da alheação de 21 de agosto de 1856, e só haver- o tributo de 5 por cento depois de passados dois annos de exportação do assiicar de cada engenho que tal companhia for levantando. Deus guarde a v. ex.—Mossamedes, 9 de março de 1861.—Ill.mo e ex.'no sr. governador geral d'esta provincia. = José Joaquim da Costa, agricultor.
PARTE I
DA SUPERFICIE DE TERRENO PRECISA PARA UMA DADA PRODUCAO A FIM DE SERVIR PARA PONTO DE PARTIDA, A QUAL É CALCULADA
PELO TERMO MÉDIO, E BASEADA NA EXPERIENCIA E THEORIA

Estabeleço um terreno com o comprimento de 60 braças de 10 palmos, que multiplicadas por igual largura, dão uma superficie do 3:600 braças, que plantadas de canna crioula, por ser a que convem mais, como explicarei quando tratar da plantação, dão 3:600 covas, as quaes produzindo, termo medio, 50 cannas, dão 180:000; e pesando cada uma 4 arrateis, dão 720:000. que reduzidos a arrobas, são 22:000 por cada quadrado da superficie acima mencionada. 1'lantando-se 2:500 quadrados rfestes, resultantes de. 3:000 braças de comprido e igual largura, temos a produrção total de 56.250:000 arrobas de canna, das quaes tirando-se, termo medio, 10 por cento de seu peso em assucar e mel, lemos 5.625:000 arrobas. A densidade saccharina no saccharometi o de Baumé é de 10 graus, termo medio.

Não sei se no referido sitio ha esta quantidade de terreno ou mais, porque ainda lá não fui, e nem é possivel, sem que para este fim seja nomeada uma commissão interessada, e demorar-se ali o tempo necessario. Algumas pessoas que já ali foram por interesse proprio, dizem que ha bastante terreno; e o gentio que ali morou, e retirou por via das continuas guerrilhas que ali passam a roubarem gados aos cubaes, diz que as terras são cortadas por cinco riachos, só correntes no tempo das chuvas, que são de outubro a abril, e que ao correr d'ellas e reintrancias das serras, ha muitos terrenos bons; porém mesmo dado o caso que só haja esta porção propria para a cultura da canna, pôde esta ser dividida em duas partes, sendo uma applicada para mantimentos e outros misteres, e quando a da canna cansar (só cansam as terras quando o dono descansa), pôde mudar para aquella, e d'esta maneira vem a ser o resultado de 2.800:000 arrobas de assucar e mel annualmente; e sendo tratada a soca com a attenção aconselhada, não descansando os donos para não cansar a terra, pôde assim dar corte por um consideravel numero de annos. A primeira planta gasta, aqui no litoral, dois annos a crear-se. Não sei se acolá será o mesmo, mas julgo que não, em rasão de não haver tanto frio. 

Julgando ter-me explicado bastante sobre a primeira e mais interessante parte, continuarei com o mais, conforme tenho promettido; a saber:
2.  Sobre a forma de plantar e estrumar quando seja preciso:
3.  Despesas provaveis para a construcção da estrada,
ferramentas, viaturas, numero de braços indigenas e europeus (estes só para empregados), mantimentos para o primeiro anno, roteamento de terras para mantimentos no anno seguinte, plantio de canna para semente no seguinte anno, custo do primeiro engenho que logo deve ser montado no segundo anno (que será a vapor), botica, facultativo, enfermeiro e capellão;
4.  Das vantagens que resultarão para a marinha mercante e receita para o estado;
5.a Da formação da companhia, da forma da applicaoão dos fundos e acquisição dos braços;
6.a Finalmente, da creação das abelhas na Huilla, oleo de ginguba, tabaco e outros generos.

Mossamedes, 9 de março de 1861.—José Joaquim da Costa.

Esta exposição, unica offerecida por escripto, é aqui apresentada para dar uma idéa da opinião, que havia em Mossamedes, a respeito das terras de Capangombe, opinião que levou, juntamente com outras informações posteriores, ao estabelecimento da colonia.

N.° 44
Foram depois enviados mais colonos para Capangomhe, como se vê pelo seguinte documento.
O governador geral da provincia de Angola e suas dependencias determina o seguinte:
Hei por conveniente determinar que uma colonia composta de cento e um individuos portuguezes, dos quaes oitenta e seis do sexo masculino e quinze do sexo feminino, de differentes cores e idades, seja transportada para a villa de Mossamedes por conta do governo, debaixo da direcção e commando do capitão de infanteria José Gaspar da Silva Valle Lobo, a bordo do vapor portuguez Zaire, que deve largar do porto de Loanda no dia 13 do corrente mez, a fim de se estabelecer nas terras de Capangombe, situadas na vertente occidental da montanha da Cheia, districto de Mossamedes. Outrosim determino que á mesma colonia sejam fornecidos, por uma vez sómente, os utensilios e as ferramentas precisas para o seu primeiro estabelecimento, e ração diaria, emquanto pelo governo geral não for determinado o contrario.
As auctoridades e mais pessoas a quem o conhecimento d'esta competir assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio do governo em Loanda, 12 de julho de 1862. — Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral.
Este documento e o seguinte têem relação com o periodo do relatorio, a que se referem os precedentes documentos, e com os dois periodos em seguida áquelle. O governador geral da provincia de Angola e suas dependencias determina o seguinte:
Conformando-me com a proposta do governador interino do districto de Mossamedes, hei por conveniente approvar a construcção de dois fortes na margem direita e esquerda do rio Bero, denominando-se, um da Boa Esperança e outro dos Cavalleiros; e nomear commandante d'aquelle o alferes da 2.a companhia movei da mesma villa. Francisco Antonio de Mesquita, e d'este o administrador da propriedade dos Cavalleiros, Francisco Marques da Silveira, ambos com a graduação de capitão de segunda linha, na conformidade do § 10.° do artigo 18.° do decreto de 15 de julho de 1857; cumprindo-lhes conservar sempre os mencionados fortes em bom estado de defoza e conservação.
As auctoridades e mais pessoas, a quem o conhecimento d'esta competir, assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio do governo em Loanda, 3 de janeiro de i862. =Sebasiião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral.
O governador geral da provincia de Angola e suas dependencias determina o seguinte:
Attendendo ao que me requereu Antonio Martins dos Santos Junior, e outros portuguezes vindos do Rio de Janeiro, pedindo permissão e auxilio para irem estabelecer uma colonia nos sitios denominados Quiamba ou Quangariapata, no concelho dos Dembos, com o lim de cultivarem café e algodão:

Hei por conveniente, annuinJo ao pedido dos supplicantes, determinar que lhes sejam dados os meios de transporte para o local designado, abonando-se-lhes um subsidio por espaço de seis mezes igual ao que se tem dado a outros colonos estabelecidos no districlo de Mossamedes.
Outrosim hei por conveniente determinar que aos supplicantes sejam fornecidos por uma vez sómente os utensilios e ferramentas precisas para o seu primeiro estabelecimento; devendo os chefes dos concelhos do Alto-Dande e do< Dembos regular-se, pelo que respeita a estes individuos, pelas instrucções que lhes serão remettidas pela secretaria do governo geral.
As aucloridades e mais pessoas, a quem o conhecimento d'esta competir, assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio do governo em Loanda, 5 de setembro de 1862. =Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral.

Ver também AQUI
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 Francisco José da Costa Jobim , editor, administrador, proprietário e director do Jornal "O Sul de Angola"



Nota da autora do blog:

No Livro do Visconde Giraul sobre a colonização de Mossâmedes (Moçâmedes, actual cidade do Namibe), a pgs 165, podemos encontrar referências à penúria de meios e ao desinteresse pela colonização de Angola, cuja primeira experiência no sul foi feita com a chegada de portugueses fugidos de Pernambuco, na Barca Tentativa Feliz, em 1849 (1ª colónia), não teve continuidade do apoio governamental, uma vez que a 2ª colónia que veio dar força e ânimo à 1ª, fez-se ali chegar com a ajuda de subscrição de portugueses que continuavam  a residir no Brasil.  O desinteresse estava relacionado com a ideia enraizada da insalubridade dos terrenos incapazes para a cultura, e com  noticias vindas chegada do sul onde se dizia que "o clima é péssimo", "é um lugar para degredados, onde somos tratados como tais; pior que a ilha de Fernando Noronha; não nos deixam daqui sair sem completarmos 10 anos". Para além de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia que lhe imprimiu o alento necessário para subsistir, o Visconde Giraúl, cita o nome de José Leite de Albuquerque, referindo que foram homens como eles que , com a sua tenacidade e engenho, levaram as recém chegadas comunidades a vencer obstáculos de toda a ordem, permitiram que a agricultura vingasse, o comercio se estabelecesse e resistisse.

"A constância, porém, de alguns colonos, entre outros deviam mencionar-se com merecido louvor os nomes de Bernardino Freire de Figueiredo Castro e José Leite de Albuquerque, e a tenacidade do governador em sustentar o seu empenho, venceram todos os obstáculos. As circunstancias foram a pouco e pouco melhorando, a população crescendo, o comércio e a lavoura progredindo, a ponto tal que sob representação dos habitantes, a humilde povoação de Mossâmedes, foi em 26 de Março de 1855 elevada à categoria de villa."

No relatório que o Visconde do Giraúl apresentou à Câmara dos Deputados, em Lisboa, em Março de 1859, enquanto por um lado faz referências aos 2 anos seguidos de seca, refere a a escassez de sementes e a falta de conhecimento do tempo de semear e do comportamento climático da região. Faz referencias aos três engenhos de cultura de cana açúcar ali chegados, destinados a Mossãmedes, Bumbo e Bela Vista. A cultura do algodão e de géneros alimenticios também é referida, esta ultima que já era objecto de exportação para Luanda e para baleeiros americanos que operavam entre os mares de Mossâmedes e a Ilha de Santa Helena. Refere também a criação de uma fábrica de óleo de peixe, e o estabelecimento de feitorias de pesca e um número crescente de concessões urbanas para habitações.







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