Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Famílias antigas de Mossâmedes (Moçâmedes-Namibe): Familias Abreu e Jesus. Manuel de Abreu, «O mata-Porcos»


O casal Manuel de Abreu e Anastácia Jesus de Abreu,  
com os filhos  Manuel de Abreu (à dt.) e Raul de Abreu (à esq.)

Os modos de se vestir e de se apresentar para o mundo revelam o modo de ser de cada época da história da humanidade. Nesta época (1ª foto), as senhoras ainda usavam vestido comprido, e era chic vestirem as crianças com fato de marujo, como era normal verem-se crianças pequenas do sexo masculino vestidas como meninas, com vestidos de folhos, laços no cabelo, cabelos compridos, caracóis, etc., E também era tido como normal, meninos brincarem com bonecas. Talvez porque deste modo as mães, ainda que por breves anos, matassem o desejo de terem a seu lado a menina que tanto ansiavam, e que o «destino» lhes havia negado... É o caso do pequeno Raúl de Abreu que vemos aqui ao lado de sua mãe, à esq. na foto. Quanto à indumentária masculina, os homens usavam correntes que seguravam relógios de bolso, o que também constituía na época um distinto em termos socias. Mudam os tempos, mudam as mentalidades e as modas também, mas ficam registos interessantes como este, que para além de trazerem à recordação familiares antigos, ficam para sempre inscritos na história dos costumes e da moda de determinada época, dos povos e das regiões...



O casal Raúl Abreu e Zenóbia Trindade Abreu,  junto dos filhos,
Fernanda (Babá), Nito e Leta, todos nascidos em Moçâmedes. Raúl de Abreu, irmão de Manuel de Abreu, era uma dos filhos de Manuel de Abreu e Anastácia Jesus de Abreu ((1ª foto, à dt) 


A família ABREU foi uma das famílias pioneiras da colonização do Lubango, que no último quartel  do século XIX chegaram a Moçâmedes, integradas na 2ª colónia de madeirenses, que partiu do Funchal, Ilha da Madeira, a 08 de Junho de l885, no vapor "ÁFRICA", tendo ali chegado em 19 de Agosto do mesmo ano, para em seguida escalarem a Serra da Chela, a pé ou em carroças boeres,  rumo às Terras Altas da Huíla. Iam juntar-se aos  primeiros colonos madeirenses que haviam chegado a Moçâmedes no vapor "India", em 1884, com o mesmo destino, iam promover o  povoamento das Terras Altas da Huila, de acordo com o projecto de Câmara Leme.

Contexto Histórico

Por essa altura, sob impulso da Sociedade de Geografia de Lisboa,  havia chegado ao fim a célebre Conferência de Berlim, realizada entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de Fevereiro de 1885, com o objectivo de organizar, por meio de regras, a ocupação da África pelas potencias coloniais. África acabou retalhada, tendo como resultando uma divisão territorial que misturou etnias, e não respeitou os  diferentes povos que desde há muito viviam naquele continente. 

Participaram nessa Conferência, a Alemanha, a Grã-Bretanha, a França, a Espanha, Portugal, a Itália, a Bélgica, a Holanda, a Dinamarca, a Suécia, a Austria-Hungria e Império Otomano e os Estados Unidos.

Convém  também referir que até bem dentro do século XIX, a ocupação portuguesa no Sudoeste de Angola não passava de pouco mais que algumas feitorias ao logo da costa, sem penetração interior.  As primeiras famílias portuguesas que começaram a chegar a Angola foram na direcção de Moçâmedes, ali chegadss nos anos 1849 e 1850, vindos de Pernambuco, Brasil, e por esta altura os poucos portugueses que tinham avançado rumo ao interior, haviam-no feito por sua conta, risco e proveito,  para além de algumas incursões científicas ao interior recentes, na senda de Stanley, como as de Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens que haviam efectuado a travessia de África, do Atlântico ao Índico (Capelo; Ivens, 1881, 1886), apoiados pela recém-fundada Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), criada para promover o ideário colonial,  apoiar iniciativas e divulgar os seus resultados.

Acontece também que o Sul de Angola, muito próximo de territórios alemães e dos interesses expansionistas britânicos era  um dos lugares de vulnerabilidade de fronteira e de tensões intraeuropeias, e encontrava-se já ali, nos anos 1880 uma coluna de boeres que, fugindo ao controle britânico, tentava nas "terras altas de Mossâmedes", a Huila, preservar o seu modo independente e altivo de vida,  que subvertia a lógica da governação imperial, mas que as autoridades portuguesas viam como colonos brancos a aproveitar, mas que tanto podiam ser tomados como potencias elementos essenciais de colonização, como ameaça.

Portugal, de acordo com os ditâmes saídos da Conferência de Berlim,  foi forçado à ocupação efectiva e à redefinição dos territórios que reclamava por direito histórico como seus. Tinha que os controlar, que os penetrar, conhecer, e demonstrá-lo. Tinha que estabelecer limites e desenhar fronteiras, mesmo que na prática aglutinasse numa mesma colónia estados africanos inimigos tradicionais.  Caso contrário teria que ceder os territórios africanos a outra potência em condições para tal.  O direito histórico perdera todo o valor. Impunha-se a ocupação efectiva e o desenvolvimento dos territórios. , uma vez que este perdera todo o valor. 

Era uma nova lógica de dominação imperial, fruto do avanço da Revolução Industrial e do desenvolvimento do capitalismo europeu, que levou à busca de novos mercados para escoamento da produção industrial,  para investimentos, e acesso a matérias-primas.  A mão-de-obra barata das colónias interessava aos investidores, numa altura em que na Europa a classe trabalhadora organizada em poderosos sindicatos e partidos políticos, tinha conseguido melhores salários e melhores condições de trabalho.  

Portugal era então um país desfasado das tendências europeias, apesar dos seus marinheiros, comerciantes e traficantes terem chegado ao território antes dos seus congéneres europeus. Um país traumatizado por meio século de conflitos que ali tiveram lugar, desde as invasões francesas que levaram à fuga do rei e da corte para o Brasil, até aos confrontos entre liberais e absolutistas que levaram ao triunfo do liberalismo em 1834, passando pela independência do Brasil em 1822, de onde vinham os proventos que permitiram durante séculos a manutenção de uma  corte perdulária, e de uma nobreza agarrada ao brilho do ouro e das pedrarias, enquanto o povo humilde emigrava e o país real definhava. A questão colonial estava longe de atrair os interesses públicos, havendo muitos intelectuais como Oliveira Martins que condenavam a exploração das colónias, com base em critérios económicos.   Para além do mais  o fluxo de migração de continentais e ilhéus encontrava-se dirigido para as economias de plantação estrangeiras, incluindo as do Hawai e a Guiana. Havia que contrariá-lo, e dirigi-lo para o sudoeste de Angola, para as Terras Altas de Moçâmedes, a Huila, apontadas como um paraíso para europeus, de clima ameno e livre dos principais males dos trópicos. Um dos argumentos políticos usados pelo governo português para promover a emigração/colonização do Sul de Angola passava precisamente pelo combate à sangria de gente feita pelos angariadores de migrantes, que os levavam para trabalhos forçados sob o domínio de outras nações.



A fundação de Sá da Bandeira por madeirensea

Foi pois no quadro de uma Angola cobiçada por potências estrangeiras, que  a Câmara Leme, o simples condutor de Obras Públicas ao serviço do Distrito, nasceu o sonho do povoamento dirigido para as terras do planalto do Lubango, nomeadamente na Huíla, Humpata, Palanca e Bibala região maravilhosa para a agricultura, com abundância de água, terrenos férteis, clima de uma amenidade incomparável, cuja serranias faziam-lhe lembrar a remota Madeira.

A ideia vinha ao encontro da preocupação governamental de contrabalançar os contingentes boers, emigrados da África da Sul para as terras planálticas da Huila, mas ultrapassava os limites da administração do Governo-Geral. O assunto era da competência do Ministro do Ultramar, e só em Lisboa se podia gizar tal projecto de recrutamento de povoadores para o Lubango.

Alegando a necessidade de uma licença graciosa para retemperar a saúde, Câmara Leme partiu para a Metrópole, onde bateu às portas do Ministério da Marinha e Ultramar, cuja pasta era ocupada por Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, que dedicava ao Ultramar todo o seu carinho e inteligência. e foi assim que teve inicio o povoamento do planalto interior de Moçâmedes, onde em 1880 diversos colonos, sem apoios, haviam avançado para a Chibia, onde se fixaram.

Foi então que  na Metrópole editais começaram a surgir nos adros das Igrejas, e se passou a oferecer as somas  consideradas necessárias para o transporte de colonos para as possessões portuguesas em África, incluindo o Planalto da Huila, proporcionando-lhes meios para o primeiro estabelecimento agrícola, contando que se obrigassem a residir ali pelo menos por espaço de cinco anos. (como se poderá verificar consultando o Diário de Governo de 1881).O Governador de Moçâmedes, Sebastião Nunes da Mata, conforme as ordens emanadas do Governo-Geral, deu instruções a Câmara Leme, e as orientações indispensáveis para a realização do seu projecto. 

Em 1884, em 12 de Outubro partiu do Funchal o vapor "Índia", rumo ao sul de Angola, carregando no bojo uma colónia constituída por 222 madeirenses, destinados a Moçâmedes e ao Lubango.    A 18 de Novembro chegaram ao porto de Moçâmedes acompanhados de D. José da Câmara Leme.  Alguns deviam seguir ainda para a Humpata, onde já estavam instalados os boers, enquanto outros seguiriam para a Chibia. Durante essa viagem nasceram diversas crianças,sendo uma delas. em 19/11/1884?  do sexo feminino, a quem atribuíram o nome de Maria India (Maria India de Souza Garcia).

E foi assim que, com 222 colonos, com as alfaias agrícolas que puderam adquirir e com as sementes e espécies vegetais que lhes pareceram mais adequadas, partiu  no navio «Índia» o primeiro contingente de madeirenses, que chegou a Moçâmedes em Novembro de 1884. Forneceram-lhes as verbas indispensáveis para a compra de ferramentas e a aquisição das sementes e plantas que tencionavam aclimatar.

A travessia do Deserto e a subida da serra foi uma epopeia, em que o Director teve de evidenciar todas as qualidades de chefia e de autoridade, Em 25 de Dezembro, os "colonos" chegam ao Planalto da Huila, depois de terem permanecido alguns dias na " Pedra Branca", de onde avistavam o Morro Maluco e onde, segundo alguns relatos nasceram algumas crianças (?). Em 19 de Janeiro de 1885 instalam-se nas margens do rio Caculovar, onde ergueram dois "barracões". Foi a fundação da colónia.  

Em 18 de Junho, no navio "África" embarcaram mais colonos, totalizando 428 nesse ano. Em 19 de Agosto chegam ao Lubango os 349 colonos madeirenses destinados ao sul de Angola.

Naturalmente os nossos colonizadores madeirenses, a maioria analfabetos e pouco ou nada esclarecidos,  tal como o povo português em geral, gente pobre e iletrada desconheciam completamente toda esta movimentação que envolveu a "Partilha de África" pelas potências europeias de então. A saber, em finais do séc XIX, segundo estatísticas, o analfabetismo em Portugal era de 85%. Não admira se tivermos em conta que a escola pública em Portugal foi inaugurada no século XIX, após a queda do Absolutismo e o triunfo do Liberalismo em 1834, era reduzida ao ler , escrever e contar, que se no início do século o analfabetismo era de 95%,  no alvorecer do século XX não desceu dos desceu dos 80% 

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A família ABREU foi uma dessas famílias que integraram a 1ª colónia de madeirenses, que chegou a Moçâmedes no vapor "India", se instalou no Lubango, arreigou à terra com todas as tradições e riqueza humana do seu berço natal. Não foi vertiginoso, mas foi seguro o crescimento de Sá da Bandeira que em 1889 era elevada a sede do concelho do Lubango. 

Através da lista que se segue, podemos facilmente detectar a frequência com que os apelidos das famílias de Manuel Abreu e de Anastácia de Jesus, surgem integrados nas 1ª e 2ª colónias de emigrantes, nos anos de 1884 e 1885, tendo uns ficado em Moçâmedes, mas a maioria subido a Chela para se fixarem em Sá-da-Bandeira (Lubango), parecendo tratar-se de duas famílias interligadas entre si por vários casamentos. 


Os nomes que seguem foram retirados das listas do livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres. 1º volume:

 

Integraram a 1ª colónia desembarcada em Mossâmedes
a 18(19) de Novembro de 1884, composta por 222 (213 ?) colonos madeirenses vindos a bordo do "ÍNDIA" , saído do FUNCHAL, em 12 de Outubro, de acordo com o projecto de D. JOSÉ DA CÂMARA LEME:

--- FRANCISCO MARQUES DE JESUS - natural de Santa Ana(48 anos), casado com JOANA ROSA DE JESUS; filhos : - Maria(17), Manuel(13), Francisco(5) e João (16 meses ?).
--- FELISBERTO GONÇALVES DELGADO - natural de Porto Monis(4o anos), casado com MARIA DE JESUS.
--- FRANCISCO GOMES FARIA - natural de Curral das Freiras(26 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel (1),João (nasceu a 1/6/1885).
---JOSÉ FERREIRA JÚNIOR - natural de S. Martinho(20 anos). Casou com MARIA DE JESUS em Janº/1886; filho : - Manuel(17/9/1886).
--- LUIS DE ABREU FARIA - natural de Ribeira Brava(30 anos), casado com CRISTINA DA SILVA DE JESUS; filho - Manuel(20 anos).
--- MANUEL PAULO DE FREITAS - natural de Boaventura(35 anos), casado com BASÍLIA DE JESUS; filhos :- Maria(3) e Manuel(nascido em Dezº 1886.
--- MANUEL VICENTE FERREIRA - natural de S.Jorge(42 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(8), Maria(6) e António(2).










Integraram a 2ª colónia de madeirenses, em 18 de Junho de l885, embarcados no vapor "ÁFRICA", no FUNCHAL, rumo a Mossãmedes/Angola, tendo ali chegado em 19 de Agosto:



~-- ANTÓNIO DE ABREU, natural de Boa Ventura(24 anos),casado com MARIA DE JESUS.
----ANTÓNIO GOMES JÚNIOR - natural de S. Roque(32 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Matilde (21), Gregório(9), Maria(3 meses).
--- ANTÓNIO MANUEL GOUVEIA - natural de S. Vicente(31 anos), casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Maria(4), Manuel(7 meses), Isabel(nascida a 28/9/1886), Maria(nascida 23/7/1887).
--- ANTÓNIO MARQUES LUIZ - natural de Santa Ana(46 anos), casado com JOAQUINA FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(14), José(12), Carolina(8), Ana(6), Luisa(3) e António (22 dias).
--- FRANCISCO DE GOUVEIA - natural de Ribeira Brava(25 anos),casado com ISABEL DE JESUS GOMES.
--- JOSÉ DE ABREU - natural de Tábua, casado com MARIA DO NASCIMENTO ; filhos : - Maria(23), Vitorina(20), Francisco(18), Antónia(16), Virgínia(12), João(10), Manuel(7), António(3).
--- JOÃO NUNES - natural de Ribeira das Galinhas(20 anos),solteiro. Casou com MARIA DE JESUS em 1/8/1887.
--- JOSÉ DE CASTRO - natural de Santo António(49 anos),casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Luis(15), Alexandre(13) e Augusto(1).
--- JOÃO DE FREITAS - natural do Machico(43 anos),casado com CRISTINA DE JESUS; filhos : - Romana(13), Maria(12), Augusta(10), Cristina(7), Manuel(5), Tereza(2) e Alexandrina(1 mês).
--- JOÃO DOS SANTOS - natural de S.Martinho(29 anos),casado com JUSTINA DE JESUS; filha - Maria(2) e cunhado JOSÉ DE PONTES(17 anos).
--- JOÃO MARQUES CALDEIRA - natural de S. Jorge(45 anos), casado com MARIA ROSA DE JESUS; filhos - Maria(16),FRancisco(12) e José(8).
--- JOÃO SOARES DE ABREU - natural de Porto da Cruz(40 anos), casado com MARTA ROSA; filhos : - Rosa(6), João(4), José(nascido a bordo em 20/5/1885).
--- JOÃO DE FREITAS GOMES - natural de Santa Ana(48 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(20),António(16), Joaquina(12) e António(primo - 19 anos).
--- JOÃO MARQUES LUIS - natural de Santa Ana(41 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Manuel(6),Maria(4), Gertrudes(2) e João (nascido a bordo em Outubro de 1885).
--- JOÃO DA COSTA - natural de Machico(32 anos), casado com FRANCISCA DE JESUS; filhos : - Maria(13),Francisca(10),José(8), Francisco(6) e João(4 anos).
--- JÓSÉ DE ABREU PEREIRA - natural de Tábua(42 anos), casado com VIRGINIA ROSA; filhos : - António(11), Jacinto(7), Maria(4) e Manuel Francisco(pupilo).
--- JOÃO FERNANDES DA SILVA - natural de Calheta(50 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(12), Cristina(7)e Maria(6 anos).

Em 5 de Abril de 1884 haviam já chegado a MOSSAMEDES 42 (44 ?) colonos, com o padre LECONTE, para a Colónia de "S. JANUÁRIO DA HUMPATA", aonde já se encontravam cerca de 280 boers chegados da ÁFRICA DO SUL, conforme autorização do governo português.

De 16 a l9 de Janeiro de 1885 concretizou-se a sua instalação e a fundação da "Colónia SÁ DA BANDEIRA. Fixaram-se nos "BARRACÕES" (Bairro da Machiqueira), ficando abrangidos pelas disposições da Portaria nº 132, de 8 de Abril de 1884 e "Instruções" do governo do distrito (de 22 de Dezembro de 1884),com direito a distribuição de sementes, alfaias agrícolas, objectos de uso pessoal e de defesa, gados (bovino e suíno) e o subsídio diário de 300 réis para os homens, de 200 réis para as mulheres e de 100 réis para menores de 18 anos durante um ano (ou mais).A "Colónia de SÁ DA BANDEIRA" ficava dependente do Concelho da HUMPATA. Era assim dado início ao novo Concelho do LUBANGO.

                                                                 
Virá o tempo em que a televisão e o cinema descobrirão o argumento perfeito para uma história real e apaixonante. Para já, fixemos os tópicos dessa aventura, recolhidos em publicações diversas.
                                                                           

MariaNJardim

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Manuel de Abreu exibindo o troféu de caça
no quintal da casa da Rua dos Pescadores, em Moçâmedes

 
 Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes na frente de uma carrinha «Brokway». 
Na esquina desta Rua ficava a Loja de Rogério Ilha, e os Armazéns de Antunes da Cunha



Manuel de Abreu, o «mata-porcos»

Manuel de Abreu pai (na 1ª foto) era um dos filhos de José de Abreu (natural de Tábua) e de Maria do Nascimento, tendo por irmãos Maria, Vitorina, Francisco, Antónia, Virginia, João, Manuel e António. 

José de Abreu, seu pai, enquanto na Ilha da Madeira de onde era natural já exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que continuou de certo modo a exercer, quando resolveu emigrar para Mossâmedes, onde era proprietário do «Bazar do Povo». Esta loja, vendia de tudo um pouco, e  ficava situada na Rua das Hortas, em frente à loja do Graça Mira e Jacinto, numa esquina, onde mais tarde passaram a ficar os «Armazéns da Beira», cujo principal sócio era Pedro Bento Rodrigues (Pedro Padeiro), e onde, ainda mais tarde passou a estar a «Casa Inglêsa», e ultimamente a firma «Santos & Cabeça.
Mas o que nos traz aqui é uma  faceta de Manuel de Abreu filho (o menino da 1ª foto à esq.), a de exímio caçador dos animais do Deserto do Namibe, em Moçâmedes. Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à actividade da sua família e também sua, ligada ao comércio de carnes, daí a alcunha de "Mata-Porcos").

Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consumo da população não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu filho  ia para o deserto caçar os animais selvagens que ele próprio esquartejava e preparava para pôr à venda no seu «Bazar do Povo» apetrechado do respectivo talho.

Aconteceu porém que em pouco tempo o gostinho pela caça acabaria por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu filho, e de seu grupinho de amigos que passaram a frequentar o Deserto do Namibe, não já apenas para matar gazelas, olongos, guilengues, e outros animais tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, por puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade fugindo às perseguições de que eram alvo, tornando mais difícil o transporte dos animais abatidos para a cidade.

Mas como o engenho humano não pára, eis que um dia Jacinto Gomes, outro emigrado da Ilha da Madeira a viver em Moçâmedes, ao regressar de umas férias na Metrópole, trouxe consigo um casal de cães galgos que passaram a ajudar, perseguindo e rodeando a caça, de modo a atrair os animais para mais próximo do alvo dos atiradores. Lamentavelmente não seria por muito tempo, porquanto subitamente estes galgos viriam a morrer não se sabe bem de quê. 


Foi quando o Engº Bernardo de Figueiredo, natural de Moçâmedes, no regresso da Alemanha trouxera consigo uma moto com «side-car», veiculo que veio facilitar as caçadas, sempre necessárias, e para fazer o gosto ao dedo. O Engº convidava o «Mata-porcos» para o acompanhar e o ajudar posteriormente no esquartejamento dos animais. Outras vezes era Raúl de Sousa, mecânico por excelência que o acompanhava nessas caçadas de «side-car» pelo Deserto do Namibe. 


Exibindo o troféu de caça. De braços no ar, Manuel de Abrei filho, o Mata-Porcos, e o irmão Raul de Abreu



 
  Manuel de Abreu, à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com 
carroceria a camionete para que todos pudessem se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe. 
O 2º à dt.,  Raul de Abreu, o 3º, David Abreu... Anos 30.





                                                          
Manuel Abreu segurando a zebra acabada de capturar

E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para além do bom peixe que no rico mar da terra sempre existia com fartura.


Mas ainda não ficamos por aqui, pois com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como o reverso da medalha nunca deixa de estar presente, é precido dizer que muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de outros antílopes mais corpulentos, incluindo equideos. Os abusos chegaram a tal ponto que, quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por probir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.

Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado lá ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que o fazia sem que a pessoa em causa ficasse a apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente da terra a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.










As crianças da família, observando no quintal da casa de Manuel de Abreu, a leoa abatida



 

Caçada no deserto do Namibe, com toda a família envolvida.  Angelo Abreu (1º à esq.), seguido de  algumas 
jovens  da família  vestidas a preceito. Manuel Abreu  e esposa (à dt.), ao lado de João Abreu;  sentada e a 
segurar o chifre do guelengue, Emilia Abreu (?)

                                                                            

A respeito de caçadas no Deserto do Namibe. Uma história e algumas curiosidades:


O acto corajoso de um componente da segunda colónia...

Na vida dos antigos colonos aconteceram factos isolados que se constituiram em momentos reveladores de enorme capacidade de decisão e coragem. Conta-se que um componente da segunda colónia se defrontou com um leão e o matou para salvar a própria vida e a dos seus companheiros.

Foi no Quipola, a 14 de Fevereiro de 1854. Havia várias noites que as fazendas dos colonos eram assiduamente visitadas por um leão, que, em cada visita, sofregamente, se vinha banqueteando com uma descuidada rêz. Pouco satisfeito com tão inoportunas visitas, o dito colono lembrou-se de, na tarde do dia 13, lhe pesquisar o rasto, e tendo-o encontrado, engendrou uma armadilha, colocando sobre ele, em sentido transversal, um pedaço de linha de barca, cuja estremidade prendeu ao gatilho duma espingarda carregada, avisando os vizinhos do ocorrido. Anoiteceu, O colono, já recolhido em casa, adormeceu. Por volta das oito horas ouviu uma estrondosa detonação que ecoou pelo vale do Bero. Convencido que o leão havia caído na armadilha ergueu-se, tomou rapidamente a refeição matinal e passando pelas moradas vizinhas a todos foi comunicando a boa nova, tendo ficado assente irem, pelas pegadas, procurar e matar o leão, caso estivesse apenas ferido. O leão, atingido no flanco, no auge do desepero estilhaçara a espingarda e arrremeçara-a, bramindo, para longe. Procuraram a fera José Francisco Azevedo, Manuel Marcelino, João Fernandes Moreira, João Francisco Ribeiro, José Franscisco Moreira e Manuel José Machado. Meterem-se por numerosos carreiros, sem método nem organização, e ao mínimo ruído imaginando tratar-se da fera, imprudentemente desfechavam à toa as armas de que se fizeram acompanhar. O leão, perseguido, deambulava furioso pelo espesso mato. Em determinada altura os moradores até então dispersos, juntaram-se numa clareira e dalí continuaram a disparar, quando, de chofre, lhes surgiu pela frente o leão furioso avançando rapidamente para o velho Marcelino, que, tendo a arma descarregada, voltou-se para fugir. Logo a fera o alcançou e cravou-lhe nas costas as garras das patas dianteiras, rasgando e pondo-lhe a nú as costelas. Perto, muito perto estava José Francisco de Azevedo, que, com a arma descarregada, num acto heróico destinado a salvar a própria vida, pediu a um dos companheiros a arma carregada e descarregando sobre o leão, salvou a vida, salvando simultaneamente a dos restantes colonos. A fera num ronco de dôr e cólera intensa, largou a presa e preparou-se para se lançar sobre o atirador, que empunhou a arma pelo cano e, brandindo-a com vigor, esmagou-lhe o crânea com a coronha. A fera atordoada, tombou, e, num breve estertor, morreu.

A notícia espalhou-se por Mossãmedes, e acorreram ao Quipola grande número de colonos para verem o leão morto. O velho Marcelino, feitas as disposições de última vontade, faleceu no dia seguinte.

Caçadores que se distinguiram à época da formação do distrito de Mossãmedes

Recuando atrás, muito atrás, aos tempos da formação do Distrito, nunca é demais salientar os nomes de três caçadores que ficaram ligados a este vastíssimo e atraente Deserto, atraidos que foram pela abundância e variedade de animais que nele têm o seu habitat. Um deles foi Nestor José da Costa, filho do chefe da 2ª colónia chegada a Mossãmedes em 1850 proveniente de Pernambuco (Brasil), José Joaquim da Costa. Outro, foi José Anchieta, naturalista, que colheu no deserto do Namibe e enviou para o Museu Nacional de Lisboa milhares de exemplares entre os quais cerca de cinquenta novas espécies. Outro nome, é o do popular Dr. Lapa e Faro, facultativo da província, possuidor de um veículo que havia mandado construir para transportar pelos areais de Mossãmedes as pessoas de sua casa nas caçadas que habitualmente costumavam empreender. Tratava-se de um carro leve e comodo, que além de conduzir passageiros, servia também para o transporte de pessoas doentes ou fragilizadas.


Nota: Estas informações foram colhidas do Boletim da Sociedade de Geografia, 2ª série, nº1 de 1880, onde vem publicado um relatório da viagem de exploração efectuada pelo segundo tenente António Almeida Lima, de 1 de Janeiro de 1879





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Clicar AQUI para ler A excelente crónica de Newton da Silva sobre a caça no deserto de Moçâmedes, onde na época existiam, como se pode ler in B.G. Ultramar, 343, da autoria de Manuel Júlio de Mendonça Torres, numerosas espécies tais como leões, leopardos, hienas, chacais, zebras, guelengues, gazelas, perdizes, tuas, cegonhas, flamingos, etc., para além de suricatas, elefantes, olongos, rinocerontes, palancas, impalas, gungas,onças, girafas rinocerontes, e outras tantas espécies mais, que o tempo e a guerra pos-independência fez o favor de espantar e dizimar.

(Silvestre Newton da Silva faz uma crítica cerrada e brilhante ao vandalismo dos caçadores furtivos que já nessa altura, em 1958 vinham dizimando a fauna do Deserto do Namibe, em busca de troféus que para nada mais serviam senão para serem «exibidos a ingénuos pacóvios...». Silvestre Newton da Silva foi um jornalista profissional que a determinada altura da sua vida abandonou o jornalismo para se tornar Gerente do Banco de Angola em Moçâmedes, e posteriormente abandonou o Banco de Angola para, juntamente com Raúl Radich Júnior, criar a empresa Cicorel que se dedicava ao comércio, à construção civil e à industria extractiva de mármores e granitos. Foi graças a esta empresa que os mármores e granitos de Moçâmedes se tornaram conhecidos além fronteiras, e que vendidos em bruto, chegaram a ser transaccionados para toda a parte, dada a sua qualidade, como sedos célebres mármores de Carrara se tratasse.)
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Ver tb:

http://princesa-do-namibe.blogspot.com/2011/03/familias-antigas-de-mocamedes-os-abreu.html

4 comentários:

  1. Deparei com este belo trabalho por acidente.
    Curiosamente este é um assunto atrás do qual ando há algum tempo por ter na minha família um bisavô, José Vieira (de Santa Cruz - Madeira), que para ali foi com mulher, Matilde da Silva, tendo tido em Mossâmedes um filho: Manuel Vieira (meu avô), que, a acreditar-se na data de nascimento dada no seu registo de casamento, nasceu em 1887 vindo 8 anos depois para a Madeira e aqui ficando com sua mãe. O pai voltou a Angola e de novo (em data para mim desconhecida)para a Madeira onde viveu e faleceu.
    Gostaria muito de saber mais alguma coisa deste bisavô.
    Será que existe alguma possibilidade de o conseguir.
    Parabens. Belo trabalho!
    Maria de Fátima Vieira de Abreu
    Funchal

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  2. Exma Sra
    Se me enviar o seu email, poderei encaminhá-la para um familiar que com mais autoridade poderá talvez informá-la. Cumprimentos e obrigada pel visita.

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  3. É de facto uma bela surpresa, encontrar este tipo de informação.
    Desde já muito obrigado pela informação e parabéns pelo Blog.
    Sou natural de Sá da Bandeira, e a minha família também, cujos nomes são, de Abreu, Gomes, da Silva, e Guerreiro. Tudo das 1ªs colónias.

    Se me puder ajudar um pouco mais, sobre qualquer destas famílias, ficaria muito agradecido.

    Obrigado

    Rui C. Guerreiro de Abreu

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  4. Tmb sou da familia abreu da ribeira brava(madeira) que emigrou para o lubango

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