Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2007

Mossâmedes, Moçâmedes , Namibe: Torre do Tombo e falésia no último quartel do século XIX









































































 




























Fotos inéditas da Torre do Tombo em outras eras...


 


Nesta foto, a zona mais ao fundo, de costas para o deserto, era conhecida por "Bairro Feio" . A zona mais próxima era cheia de depressões no terreno que duraram até 1975. sem terraplenagem. A Torre do Tombo foi no tempo colonial , até pelo menos aos anos 1940, um bairro bastante dinâmico, cujos habitantes na sua maioria oriundos do Algarve, sobretudo de Olhão, ali começaram a se estabelecer desde 1861, para se dedicarem à industria pesqueira, quer como pescadores, quer como industriais. Foi sempre um bairro descurado pela autoridade competente, sendo no entanto aquele que mais contribuiu, para a economia da cidade de Moçâmedes e até do distrito.





Aqui nasceu Mossãmedes, a actual cidade do Namibe!

Mossãmedes, Moçâmedes, Namibe..., de início era não era mais que um areal desertico junto à foz onde Bero ou Rio das Mortes ia desaguar...

«Angra do Negro»
, assim lhe chamaram os primeiros navegantes que em tempos remotos ali aportaram. Mas havia quem lhe chamasse outros nomes: "Tchitoto tchobatua" (buraco dos passarinhos) era o nome por que era conhecida pelos mucubais; "Ombala» (terra do litoral oceânico), assim lhe chamavam os Muhilas, Mossungo, nome do soba da região pelo qual era conhecida.

Não se sabe ao certo se a designação «Angra do Negro» teria a ver com o embarque de escravos para o Brasil. Pensa-se que não, pois foi tardia a fixação dos portugueses por estas paragens agrestes e pouco convidativas.
Benguela sim, e Luanda foram incontestavelmente portos marcados por esse tráfico que ficou para sempre a representar a maior nódoa da colonização portuguesa e europeia em terras de África. O interesse pela fixação em terras ao sul de Benguela veio a acontecer bastante depois da independência do Brasil em 1822, quando, perdidas aquela colónia e as riquezas que representava, Portugal se vira finalmente, para África. Mossãmedes seria, quando muito, o símbolo dessa viragem. Para bem ou para mal de angolanos e portugueses, foi a partir daí que começou a colonização. Até aí Angola não passou de um interposto de tráfido de escravos para o Brasil.


Foi aqui que, em pleno «morro», «grutas» foram escavadas a punho
na rocha branda por mareantes que em tempos remotos por ali passavam e ali faziam «aguada» (forneciam-se de água e descansavam). Foi aqui que foram encontradas impressas «inscrições» registadas em pelo Tenente Coronel Pinheiro Furtado, comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa de visita em 1785 à Angra do Negro.

Mais tarde, lá para meados do século XIX, foram essas grutas que abrigaram os primeiros colonos algarvios que, estimulados pelas promessas do Governo português, a quem interessava a fixação, partiram de Olhão para Mossãmedes em busca de melhores condições de vida, e que, em levas sucessivas, voluntariamente, sem apoios governamentais, continuaram pelo século XX a dentro a chegar... Os primeiros, em caiques e barcos à vela (pequenas cascas de noz, de vela latina triangular, utilizados na pesca e comércio de cabotagem na costa portuguesa, no norte de África e no Mediterrâneo).

Foi aqui que os primitivos algarvios e os que vieram a seguir instalaram as primeiras pescarias e reconstruiram as suas vidas, e inaugurarem uma nova era de progresso para um distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar.

Foi perto daqui, que, mais tarde, no local a 1km da vila, aos poucos começaram a surgir aqui e ali, as primeiras casas e a tomar forma esse bairro habitado por pescadores e constituído por um térreo casario, ao qual ironicamente fora dado o nome de «Torre do Tombo» (5ª foto), em analogia com o Arquivo Arquivo Nacional Português, devido às inscrições impressas no morro. No início construidos em pau-a-pique, mas que incluia já um tipo de construção erguida com pedra e cimento. Não tardou que o Hospital , ladeado de pavilhões infecto-contagiosos, chegasse às populações carecidas (5ª foto à esq.).

Nas fotos 1 e 2, ainda que apagadas, vêem-se algumas das «grutas» que mais tarde foram aproveitadas como armazém de material das pescarias. Como se pode facilmente verificar, o «morro» ou falésia da Torre do Tombo corria nesta altura directo ao mar, não existindo uma estrada sequer que permitisse o acesso dos proprietários às suas pescarias, construidas mais a sul, no local designado «Pedras», onde em finais da década de 1950 passaram a ficar a ARAN e o cais-acostável.

Nas fotos 1 e 3 vêem-se instalações que mais tarde seriam ocupadas pelo Sindicato da Pesca de Mossãmedes, organismo detentor de vastos armazéns e casas para o pessoal contratado, pontes, etc. , criado em 1929, numa altura em que Mossãmedes atravessara uma grande crise , não porque não houvesse peixe mas porque este não escoava para o exterior , e, ou apodrecia nos armazéns ou era deitado ao mar.


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AS INSCRIÇÕES ENCONTRADAS IMPRESSAS NO «MORRO»

Em 1785 o Tenente Coronel Pinheiro Furtado, comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa, visita a Angra do Negro, (designação do lugar onde mais tarde seria erigida a cidade de Moçâmedes da época colonial portuguesa, hoje, cidade do Namibe, no sul da república angolana) e registou as inscrições gravadas por mareantes e corsários na rocha branda.
Talvez tivesse sido este oficial português o primeiro que chamou ao morro das inscrições Torre do Tombo, pondo uma ponta de ironia na analogia com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome. Eis as inscrições:
1645-José da Rosa Alcobaça
1665-O capitão josé da Rosa Alcobaça passou por aqui indo para o Cunene no patacho Nossa Senhora da Nazareth em 4 de Janeiro de 1665.
O Piloto Pederneira
O sargento Domingos de Morais em companhia de José Rosa Alcobaça.
Bernardo Quado Goya
1666-André Chevalier
1723-Kenny
1762-Tomás Decombo
1765-Luís Barros
1768-W. Taylor
1770-Tomás Decombo
Manuel Rodrigues Coelho
Martin

In «Moçâmedes» de Mendonça Torres


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«...Visitei a Torre do Tombo, sitio junto da bahia, que assim appellidam, e onde os visitantes e os colonos vão inscrever os nomes n'um grés mole de que é composta parte da costa. A lista é numerosa : lá se acham alguns nomes de certas notabilidades portuguezes, esculpidos
por filhos, irmãos, ou primos, que o mau fado ou a ambição levaram áquellas praias ; e outros desconhecidos, mas talvez não menos iílustres, com datas de quasi dous séculos. »
In «Quarenta e cinco dias em Angola»

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