Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2007

Colonos algarvios chegados a Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola) em finais do século XIX e as primeiras gerações ali nascidas... (Família Frota)


 

  
Nunca é demais publicar neste blog alguns dos textos assinados por Claudio Frota, sobre a odisseia dos olhanenses que começaram a fixar-se em Mossâmedes a partir de 1861, bem assim como a de seus antepassados, que um dia, resolveram partir de Olhão para Mossâmedes (Moçâmedes, Angola) num palhabote, nesses tempos a seguir à Conferência de Berlim (1884/86) em que em relação às colónias passou a vigorar o «princípio da ocupação efectiva» e já não sireito histórico que Portugal reivindicava. Tempos de crise para Portugal, que após a independência do Brasil, em 1822, era obrigavaso a olhar com interesse renovado para as possessões africanas. Tempo do célebre “mapa cor-de-rosa”, que, ao colidir com os interesses da velha aliada Inglaterra levara à reacção do governo inglês, em 1890, sob a forma de ultimato exigindo a retirada de Portugal do território entre Angola e Moçambique que reivindicava. Tempo de choque profundo à pressão britânica, de manifestações de repúdio contra os ingleses e contra coroa portuguesa, de aproveitadamento pelo emergente Partido Republicano que conduziu ao descrédito o regime monárquico, já de si abalado por uma grave crise financeira. Foi também um período de grande fervor patriótico, com o qual se procurava reabilitar o duramente atingido orgulho nacional. Um ano depois do ultimato, em 31 de Janeiro de 1891, eclodiu no Porto a primeira revolta republicana que embora sufocada, serviu para revelar a existência de uma ameaça real às instituições vigentes, que viriam a sucumbir menos de duas décadas depois, no dia 5 de Outubro de 1910.
JANEIRO DE 1893-A GRANDE VIAGEM E MOÇÂMEDES, NOVO BERÇO FAMILIAR 


Foram inúmeras as viagens que os olhanenses fizeram para o sul de Angola. Serviram-se das canoas de pesca, de palhabotes de transporte e de caíques que eram utilizados na pesca e sobretudo no comércio marítimo. Os vapores, em carreiras regulares, levaram muitos povoadores na expectativa de um melhor futuro. Os barcos de pesca, as linhas de pesca, as redes e as diversas artes que existiam na época foram transportadas pelos seus proprietários, na certeza de melhores dias. Não fora a audácia dos pioneiros algarvios que não olharam a sacrifícios para transporem o mar e levantarem uma indústria na costa de Angola, a sul de Benguela, pouco se teria feito.

Nas histórias que se contam não se procura enfeitar realidades ou enfatizar pormenores. Na paz serena do dever cumprido as gerações mais velhas contam o que há para contar, depois de reflexões e reflexões, sobre tempos de vidas consumidas na labuta diária árdua, em lugares remotos e em condições de vida difíceis de suportar, nas empresas criadas por empreendedores audaciosos ou em trabalhos por conta própria. O que era necessário fazer-se, fez-se. Os capitais foram surgindo no investimento, em consequência das valias do progresso. As gerações seguintes encontraram os alicerces firmes de uma casa em construção, e quem constrói uma casa constrói a vida, algo de definitivo e seu, transforma o meio, usufruindo-o em cada dia numa progressão imparável, onde se constrói o futuro e se modela a alma.

O barco que transportou os meus avós em Janeiro de 1893 na grande viagem para África bem podia ter sido o caíque Judith do mestre Sebastião dos Reis, pela coincidência de datas entre o dia de início das operações de cabotagem por aquele caíque na costa angolana (24 de Fevereiro de 1893) com a época de chegada dos meus avós ao porto de Moçâmedes cuja data se situa também na segunda quinzena desse mês e ano. Era um caíque modesto com 17,5 metros de comprimento e cerca de 40 tons. de porão.

O que se sabe, na verdade, é que o barco da grande viagem dos meus avós para África, partiu do porto de Olhão, talvez do cais "bate estacas" junto à praça do peixe, num dia de Janeiro de 1893. A bordo íam 3 passageiros especiais para a família Santos e para a família Frota, todos eles naturais de Olhão: a Carolina de 21 anos de idade, o Manuel de 24 e o pequeno Manuel de 18 meses, filho de ambos. Navegaram 41 dias pelo Atlântico até aportarem Moçâmedes, a actual cidade do Namibe, no sul da República de Angola, onde desembarcaram. Contava a minha avó Carolina que as fraldas do seu pequeno Manuel secavam no mastro daquele barco e o dia de embarque fora uma despedida definitiva à sua terra natal, à família e aos amigos que ficavam. Deixaram, também, as regalias que o "Compromisso Marítimo" oferecia aos mariantes e aos pescadores da vila nele inscritos: o médico, a botica e as ajudas nas aflições. Levavam a esperança de uma nova vida em África, a promessa de um advir mais promissor por terras de Moçâmedes. Não se conta qualquer facto relevante passado durante a viagem. Chegaram simplesmente ao porto de destino, sem sobressaltos, numa viagem tranquila. A terra era estranha, pisada pela primeira vez por aquele jovem casal na flor da idade e com um filho pequenino nos braços. Reencontraram o seu meio social, conterrâneos que labutavam por aqueles mares há alguns anos, alguns instalados na vila, capital do distrito que proporcionava melhores condições de estar, outros nas praias isoladas, beneficiando dos abastecimentos que "os dias do pão fresco" veio trazer: a água potável transportada de Moçâmedes em barris em substituição da água salobra das cacimbas (poços) escavadas na areia e o pão fresco, também levado de Moçâmedes, em substituição da mandioca cozida e outros géneros necessários à vida.

PRIMEIRO DESTINO: A BAÍA DOS TIGRES

As memórias da minha avó Carolina indicam como primeiro destino a Baía dos Tigres, onde se encontrava já instalada, ao que se supõe, a "armação à valenciana" pioneira de Manuel Joaquim Frota, meu bisavô, pai do meu avô Manuel, levada de Olhão e instalada em Moçâmedes em 1887, transportada depois para aquela praia, em data indeterminada, alguns anos depois. "Trabalharam juntos, pai e filho", contava um familiar, rebuscando nas memórias de palavras ditas e de histórias vividas anteriores ao seu tempo.

Contava a minha avó Carolina que conheceu a violência das garrôas, o vento do deserto, que abria frestas na sua casa de madeira por onde entravam as areias das dunas, levadas por esse vento forte, trazendo desconforto ao pequeno Manuel, que sentia na camita as areias que se depositavam. A minha avó, vigilante, ía sacundindo as roupas de cama do seu bebé Manuel, contava. Àquela praia, quase na foz do rio Cunene, já chegara os "dias do pão fresco" assim chamados os dias de chegada dos barcos das carreiras regulares de abastecimento e a minha avó encomendava o leite em pó, o pão fresco de Moçâmedes, a água potável que vinha em barris , os frescos. Por vezes a água era insuficiente e a solução era escavar na areia até se encontrar a água salobra que era consumida como último recurso. Segundo alguns livros, por essa altura, a população branca reduzia-se a sete casais de olhanenses ou nem tantos e era uma praia onde não se vislumbrava um ponto verde. Não existia lenha para cozinhar, serviam-se das cabeças de peixe seco como combustível para o fogão e para o aquecimento nos dias de inverno. É curioso notar a existência de cães selvagens, eram de grande porte e peludos, cuja raça fora estudada muitos anos depois. Originária da Terra Nova, Canadá, dóceis, quando criados em cativeiro junto do homem e adaptados à circunstância de terem de sobreviver naquele deserto. Eram porventura sobreviventes de algum naufrágio, dizem uns, ou levados pelos holandeses que conquistaram Angola, aquando do domínio filipino, dizem outros. O que é certo é que esses cães mantinham também uma luta heróica pela sobrevivência, lambendo a película de água doce que existe à superfície do mar e alimentando-se do peixe que dava à costa ou tentando abocanhar de surpresa os que nadavam perto, numa espera calculada. Os únicos animais selvagens que existem na zona. Não existem tigres. O nome, Baía dos Tigres, tem origem nas sombras projectadas nas dunas que mais parecem listas escuras semelhantes às listas que os tigres ostentam. Visão obtida do mar.

Decerto que o desencanto daquele lugar, o clima agreste bastante agressivo, a dificuldade de se obter o essencial para a subsistência familiar e o isolamento teriam de provocar ansiedades e desilusões. A Baía dos Tigres não era a "Terra Prometida" que aquele jovem casal sonhara para realizar o seu futuro. Houve desentendimentos com o mandador e pai, contava o mesmo familiar continuando a rebuscar memórias.

Saíram daquele lugar próprio para desterrados com destino a Porto Alexandre, hoje Tômbua onde permaneceram não se sabe por quanto tempo. Um familiar refere-se a uma "concessão régia" concedida ao meu avô ou ao meu bisavô para montar uma pescaria ou para construir uma casa naquela praia (nesse terreno foi construída uma escola, mais tarde). Porto Alexandre oferecia melhores condições de vida. A água potável vinha das margens do rio Curoca que passava perto. Era um rio seco, mas fàcilmente se obtinha a tão necessária água para uma população já bastante numerosa de duzentos habitantes brancos e quatrocentos pretos. Havia também as cacimbas (poços) de água salobra que era consumida como último recurso e os frescos chegavam mais amiúde, por estar mais próxima a fonte de abastimento que era a então Vila de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe e das fazendas existentes nas margens do rio Curoca que também elas abasteciam a urbe em crescimento.

Os dois primeiros filhos nascidos em África, o Miguel e o José faleceram muito jovens. Foi uma época perturbada por esses acontecimentos que causaram grande sofrimento no seio da família e talvez por isso pouco mencionada.

Moçâmedes seria o destino definitivo do jovem casal. Na Praia Amélia, a 6 kms. do bairro Torre do Tombo, foi instalada uma empresa da pesca da baleia por noruegueses em 1918, onde o meu avô se empregou. Instalaram-se numa casa de madeira adjacente à fábrica. Os noruegueses eram exímios tocadores de concertina, alegres e divertidos, mas no ano de 1929 partiram para nunca mais voltarem. Um dia o meu pai surpreendeu-nos com umas modinhas antigas tocadas num brinquedo oferecido a um neto, o João Carlos Frota Carranca, que não se lembra do facto por ser muito jovem. Embora o instrumento fosse um brinquedo e evidentemente com limitações próprias e estando o meu pai há mais de 30 anos sem tocar, demonstrou ter ainda uma grande agilidade nos dedos, denotando ter sido um excelente instrumentista nos seus tempos de juventude, espelho dos seus excelentes mestres.





Por fim a fixação definitiva na Torre do Tombo que se tornou o bairro, a casa, a escola e a morada da primeira geração, uma prole de doze filhos: para além dos já mencionados: Manuel, Miguel e José, a Ilda, a Felicidade, a Silvéria, o Serafim, o Mário, o Henrique, o José (Zeca), a Maria da Conceição, que faleceu muito jovem e o Álvaro. Eram unidos e amigos. No cimo dessa união familiar estava o meu avô, o mandador das armações à valenciana Manuel Fernandes Frota e a grande "matriarca" e educadora que foi a minha avó Carolina dos Santos Frota. Na casa grande, na Torre do Tombo nasceram os primeiros netos. A sala de jantar enchia-se, agora, com a garotada da segunda geração. Conheceram o avô Manuel a tratar das redes no seu enorme quintal. Faleceu nos finais da década de 1930.

 Carolina dos Santos Frota

Conheci a minha avó Carolina já muito velhinha. Faleceu nonagenária.Um dia um neto de Carolina na curiosidade dos seus 6 ou 7 anos perguntou à sua mãe porque é que a avó Carolina foi com o avô para a Baía dos Tigres. A pergunta apanhou a mãe de surpresa e não teve resposta imediata. Perante a insistência respondeu de sopetão: "porque andava sempre atrás do teu avô". Os tempos eram outros. Já os céus eram cruzados por avionetas que encurtavam distâncias e há perguntas que não têm resposta fácil. Esse neto é o penúltimo de uma vasta lista de 35, compreendeu há muito, porque é que Carolina tivera sempre o carinho dos filhos e os netos à sua volta, em respeito e admiração. À mesa grande da sala de jantar reunia-se a vasta prole de filhos e netos. Carolina amara incondicionalmente e soubera transmitir os valores da família pela forma mais credível: pelo exemplo de uma vida dedicada, nos bons e nos maus momentos, sempre ao lado do seu marido Manuel.

Do sítio onde estiverem: o Manuel, a Carolina, os doze filhos que tiveram, os netos e bisnetos que foram chegando, quer sejam nos altos promontórios das rotas dos caíques, quer no cimo da falésia da Torre do Tombo ou ainda na açoteia da casa cúbica da Rua João dos Santos na baixa de Olhão que pertencera à família Santos, eles observam-nos e congratulam-se com a lição aprendida. Olham a mesa grande muito aumentada onde se sentam agora gerações e gerações da sua prole a comungarem os valores semeados.

              Manuel Joaquim Frota-O Mandador Pioneiro das Armações à Valenciana


Ía o nosso tempo em África e já Manuel Joaquim Frota era uma referência na história de Olhão. A ele se deve a ída para Angola da primeira "Armação à Valenciana" da pesca da sardinha, decorria o ano de 1887. Foi montada em Moçâmedes, seguindo depois para a Baía dos Tigres...."

É a parte inicial do texto de homenagem que foi prestada a Manuel Joaquim Frota por cerca de 30 bisnetos e trinetos, frente à sua catacumba, no cemitério velho de Olhão, no dia 7 de Outubro de 2000.
No ano seguinte promoveu-se novo encontro, desta vez com divulgação organizada para que a informação pudesse chegar a todos os familiares de norte a sul do País.
A resposta excedeu todas as expectativas. Cancelaram-se compromissos e reuniões e no dia 6 de Outubro de 2001, cerca de 100 descendentes do mandador pioneiro, nascidos em Angola, encontraram-se novamente no cemitério velho de Olhão, numa sentida homenagem. A nova geração nascida em Portugal esteve também presente.

 
Manuel Joaquim Frota, nasceu em Olhão no dia 15 de Janeiro de 1838. Em 1887, com 49 anos de idade decidiu fazer a travessia do Atlântico a bordo do palhabote S. José, de Manuel Pereira Gonçalves, levando a primeira "Armação à Valenciana" da pesca da sardinha que Angola conheceu e que foi montada na então Vila de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe. Não se sabe o local onde foi instalada, talvez na Torre do Tombo, na praia onde foi construído o cais comercial, na ponta do Noronha. Demorou-se pouco tempo por ali e antes de 1893, ano de chegada do meu avô, já estaria montada na Baía dos Tigres.

Outras armações foram chegando: a de Lourenço Morgado que foi instalada, provàvelmente no lugar da primeira ou muito próximo, e a de Francisco de Sousa Ganho, montada no Baba.

As armações fixas, eram as artes de pesca mais avançadas dessa época e de grande rentabilidade, que fizeram aumentar a produção do pescado naquela zona do litoral angolano.

Poucos familiares conheciam a aventura africana deste nosso ascendente. Porque decidiu emigrar numa idade já um tanto avançada para este tipo de aventura? Porque mudou os seus planos de permanência em África? São perguntas que ficarão sem resposta certa, mas um familiar recordava-se que talvez houvesse um motivo forte para o seu regresso a Olhão: recordava-se de comentários feitos no seio da família que em dado momento, a minha bisavó reconsiderou o embarque definitivo para África, criando a dúvida se lá teria estado alguma vez. O motivo desta decisão da minha bisavó, talvez esteja nas difícies condições de vida que o meio sul angolense oferecia naquela época, com relativa excepção para a vila capital do distrito: Moçâmedes.

Manuel Joaquim Frota, o mandador pioneiro, regressou a Olhão em data indeterminada e faleceu no dia 12 de Outubro de 1912 aos 74 anos.


O TESTEMUNHO DE MR. GRUVEL

As armações à valenciana foram aparecendo no distrito de Moçâmedes em grande número: na Lucira, no Mocuio, em Porto Alexandre, na Baía das Pipas, no Baba, etc., e até mais do que uma em cada uma dessas praias, e com elas o aumento da produção do pescado e do peixe seco que era comercializado nos portos de Angola, Congo Francês, Gabão e S. Tomé, levados pelos caíques olhanenses. O desenvolvimento tornou-se imparável e suscitou a admiração de portugueses e estrangeiros pela obra que se estava a realizar naquela zona de África.
Mr. Gruvel era um oficial da marinha francesa, que encarregado pelo seu governo de fazer um inquérito às pescarias da costa Ocidental de África em 1909 referiu-se a Angola, nestes termos:
"Não podemos deixar Angola sem falarmos da impressão extraordinária que nos deixaram dois dos principais centros de pesca: Porto Alexandre e Baía dos dos Tigres.
O que poderá ser a vida sedentária dum europeu numa região formada de areia pura, sem um traço de vegetação, estendendo-se tão longe quanto a vista pode alcançar? Um vento violento que sopra muitas vezes em verdadeiras tempestades, levanta quase todo o dia nuvens duma areia fina que penetra por toda a parte; bebe-se, come-se e ...sufoca-se!
É neste país de desolação, ao pé do qual Port-Etienne parece um verdadeiro paraíso, que vivem isolados do resto do mundo, bebendo água que vai de Moçâmedes, cerca de trezentos brancos em Porto Alexandre e cem na Baía dos Tigres."
"Não temos maneira de felicitar todos os portugueses que habitam este deserto, pela admirável coragem de que dão prova, vivendo assim nessas regiões de desolação".
A terminar:" Quando se vêm os milagres de energia que os portugueses têm tido que dispender para criar esta magnífica indústria de pesca em semelhantes regiões, pensa-se que temos de desesperar do nome francês se não conseguirmos fazer tão bem ou melhor que eles ...não apresentando nada de comparável ao que existe em Porto Alexandre e sobretudo na Baía dos Tigres."
Por portaria editada no Diário de Governo de 27 de Junho de 1925 o governo português louva o esforço colonizador no distrito de Moçâmedes, terminando nestes termos:

"Manda o Governo da República Portuguesa pelo Ministério das Colónias que seja dado público testemunho do muito apreço em que é tido o valioso trabalho realizado por estes colonos, que tanto honram a Pátria e por esse motivo sejam louvadas as populações de Moçâmedes e Porto Alexandre por serem os principais núcleos desta colonização.

Paços do Governo da República 27 de Junho de 1925"
3ª foto retirada de http://paterhu.multiply.com/journal/item/34
texto e fotos 2ª e 4ª in: www.memoriaseraizes.blogspot.com



A CATACUMBA ABANDONADA

Decidi um dia entrar no cemitério velho de Olhão, naquele que é uma das principais fontes documentais da cidade, com arquivo próprio.
O funcionário era um simpatizante da pesquisa histórica e prontificou-se consultar os inúmeros registos ao seu dispor. Dois deles chamaram a minha atenção: a sepultura abandonada de um tio-bisavô, Francisco Lopes Frota e a catacumba, também abandonada que servia de última morada ao meu bisavô Manuel Joaquim Frota, o mandador pioneiro das armações à valenciana. Desloquei-me aos dois lugares onde fiz um breve recolhimento. Francisco Lopes Frota era um dos irmãos mais velhos do meu bisavô e não deixou descendência. Mais tarde, numa visita, constatei não existir mais a pedra da sua sepultura. A catacumba do mandador, meu bisavô, encontrava-se sem qualquer identificação, só em parede caiada, graças ao zelo dos funcionários. A minha bisavó migrou para Lisboa com a restante família deixando Olhão para sempre, daí não ter podido cuidar da sua manutenção. Existiu uma chapa, posta por um parente que tinha um táxi mas caíu e perdeu-se,(um gesto de rara sensibilidade vindo de um sobrinho-neto do meu bisavô). Há muitos anos era visitada por familiares ligados à minha bisavó, a família Lota, recordava-se o funcionário que manteve uma forte relação de amizade com o meu parente taxista José Sérgio Frota e que nutria por ele grande respeito e admiração por ser um talentoso apresentador de teatro e autor de várias peças representadas na saudosa sala do teatro velho de Olhão por artistas amadores da cidade. Tive o grato prazer de o conhecer, já reformado, numa breve visita em sua casa, perto de Lisboa, há cerca de 20 anos.


Confesso que, diante daquela catacumba, senti-me deveras emocionado. Ali estava sepultado o meu bisavô, um "africanista olhanense" que fez uma viagem épica a bordo de um palhabote e que era pioneiro das armações á valenciana. A sua pele fora curtida pelas maresias do mar de Moçâmedes e pelas garrôas e lestadas da Baía dos Tigres. Na certidão de óbito vinha mencionada a idade aparente: 88 anos, quando na verdade tinha 74.


Prometi, naquele recolhimento, encontrar a melhor forma de lá colocar uma lápide. Como propriedade particular que era, só ao proprietário era concedida a autorização para tal e o proprietário era a minha bisavó Maria Teresa Frota, falecida há muito em Lisboa. Decidi então fazer o pedido por escrito à Câmara Municipal de Olhão e juntar uma fotocópia da página de um livro onde menciona o meu bisavô como pioneiro. E assim fiz.


A autorização demorou quatro longos e expectantes meses. O pedido veio, finalmente, deferido. Manuel Joaquim Frota ía ter lápide na sua catacumba por ter sido reconhecido o mérito da sua iniciativa pioneira. A família Frota, nascida em Angola, soube respeitar a memória daquele nosso ascendente comparecendo em grande número às homenagens que lhe foram prestadas. A primeira, a mais restrita, no dia 7 de Outubro de 2000, 113 anos após um sonho africano e 25 anos após a nossa chegada e dispersão por Portugal. A segunda com divulgação a todos os familiares de norte a sul do País. Uma iniciativa ímpar do meu primo Rui e do meu irmão Walter que criaram uma autêntica máquina de divulgação, e no dia 6 de Outubro de 2001, cerca de cem familiares descendentes de Manuel Joaquim Frota, encontraram-se, numa sentida homenagem. As recordações brotaram, nas intervenções de grande qualidade que se seguiram ao almoço, num total de 110 presenças. Recordámos a velha Torre do Tombo onde nasceram e viveram os meus tios e pai, uma prole de 12 irmãos; a praia Amélia onde o meu avô trabalhou na pesca da baleia; as agruras por que passaram os meus avós na Baía dos Tigres devido ao clima hostil e ao isolamento; ao perfil de todos eles, pela vida de rectidão que levavam, desenhado pelo meu primo José Manuel, com a espontaneidade e boa disposição a que nos habituou e a que se deve aos muitos anos na rádio como chefe de produção do Rádio Club de Moçâmedes e como repórter da antena 1 em Portugal, um grande comunicador; as palavras sábias do meu primo Mário Ângelo, homem de grande carácter e elevada cultura, que viajou desde Coimbra e seguiu para Madrid nesse dia para uma conferência, não deixando, por isso, de estar presente. Um envolvente, belo e inesquecivel exercício da memória. Um pensamento foi aflorado e comungado por todos: "quando o passado está presente o exercício da memória é quase um dever". É quase um dever, diria, quando esse passado tem a dignidade do dever cumprido.
Outros encontros se sucederam, desta feita em Alcácer do Sal, com um récord de 120 presenças no primeiro lá realizado.
Seria memorável e talvez inédito nas famílias portuguesas, um encontro global em Portugal de uma família que espalhou o seu apelido por diversos países do mundo. Muitas foram. A nossa foi uma delas: Portugal, Angola, Brasil, Estados Unidos, Argentina, etc., (sabendo que a de Angola entronca sómente na de Olhão), a exemplo dos Galvão, que têm organizado os seus encontros em França, com um número de presenças que rondam os mil, segundo consta. Um encontro global dos Frotas a realizar-se em Portugal, seria por bem em Alcácer do Sal ou Setúbal, cidades onde moram os pergaminhos do apelido e os portos de onde partiram em demanda das terras brasileiras nos séc. XVI a XVIII, onde se fixaram, e onde ainda residem os seus inúmeros descendentes.

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