Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 27 de novembro de 2007

O Chafariz da Praça Leal em Mossãmedes, depois Moçâmedes, actualmente cidade do Namibe, em Angola










Este edificio de 1º andar só encontrei nesta foto do inicio do século XX. Soube mais tarde que incendiou. É um  testemunho silenciosos da Mossâmedes  do tempo das Campanhas do Sul de Angola, como se encontra assinalado no verso. Este cenário mostra parte do ambiente em que a tropa portuguesa se movimentou. Em 1915, depois de desembarcar em Moçâmedes, o tenente-médico Monteiro d'Oliveira, integrado na expedição de Pereira d’Eça subiu ao planalto e prosseguiu para Leste e na direcção do Cunene. O objectivo era enfrentar a ameaça alemã vinda do Sudeste Africano e as populações sublevadas naqueles territórios. Seu neto encontrou num envelope com a inscrição "Mossamedes 1914", duas colecções de postais sobre esta cidade.





 










                           Enquadramento da Praça Leal na cidade, junto da Alfândega e do Jardim
 



Mais recente, mas ainda do tempo colonial. Chafariz muito bem enquadrado ma paisagem urbana. Entretanto deitaram abaixo o edificio à esq. e no seu lugar foi construído um edificio de 1º andar , moderno, sem carácter, e completamente desenquadrado.
Autor: João Manuel Mangericão
Várias perspectivas da Praça Leal de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe. Esta Praça ostenta a meio um artistico chafariz que segundo informações foi construido por Manuel da Costa Mangericão, um dos componentes das colónias de emigrantes vindas do Brasil 1849/50 para dar início ao povoamento branco da região,


Quando, entretanto, Moçâmedes começou a ter os primeiris táxis, esta Praça passou também a ser conhecida como a Praça de Táxis.   Recordo outros taxistas de Moçâmedes, tais como o velho Sereeiro (finais da década de 40, princípios dos anos 50). O velho Sereeiro, como lhe chamávamos, era uma figura "sui generis", de grandes bigodes retorcidos, à moda antiga, pai do Zé e do Álvaro (tocador de maracas do célebre conjunto "Os Diabos do Ritmo"). Sua esposa, D. Beatriz, fazia as melhores bolungas da cidade (bebida fermentada feita de fuba (farinha de milho) ou de cascas de abacaxi, que faziam concorrência à melhor laranjada do Pereira Simões, Sereeiro era proprietário de um mini-taxi, conhecido na época pelo «bébé do Serieiro»,  o ganha pão da família. Antes de aceitar a corrida, Sereeiro perguntava sempre: «Vai para longe?».

Recordo outros taxistas de Moçâmedes nas décadas de 50/60/70, um, de nome Pinto, um deles jogou futebol no Atlético Clube de Moçâmedes e mais tarde no Ginásio Clube da Torre do Tombo . Lembro-me ainda de outros taxistas, tal como Manuel Guedes, Morais Leite, e Quinha Almeida. Ficam mais esta recordações!



















E Mossãmedes foi crescendo e tomando as areias ao deserto do Namibe...





































 












 

Fotos de Mossâmedes que nos dão várias e interessantes perspectivas da cidade nas primeiras décadas do século XX. 

As cinco primeiras fotos encontram-se datadas de 1930. Nelas podemos ver, em toda a sua extensão,  o jardim da Avenida da Praia do Bonfim que vai desde o Palácio do Governador ao velho campo de futebol de terra batida que sobreviveu até ao fim dos anos 60.

Impressiona na 1ª foto a densa profusão de arvoredo que existia na época nesta Avenida, quer no tronco central, quer nas laterais, sobretudo na zona do Horto Municipal, mais a dt. e ainda mais a dt., as casuarinas próximas da Praia das Miragens. Ampliando com um clic, podemos ver , entre outros o edifício do Banco de Angola e o edifício da Alfândega ladeado por dois jardins, um dos quais foi mais tarde transformado no Cinema da terra. À dt. do imenso arvoredo de casuarinas podemos ver os terraços doa armazéns dos Caminhos de Ferro e a meio das árvores, o telhado daquele que fora o primeiro Casino da terra. Mais a esq. o edifício do antigo Posto Metereológico que foi mais tarde demolido.

Na 2ª. foto, numa vista aérea sobre a cidade, podemos ver como a cidade se reduzia na época a cinco ruas paralelas ao mar, e respectivas perpendiculares. Embaixo, à esq., o Bairro Maria Inácio e a dt. o velho campo de futebol. Curioso e ver-se a imensidão de quintais que ficavam nos espaços interior entre prédios voltados para duas ruas.

Na 3ª. foto, uma bonita perspectiva da cidade, através da qual podemos ver o edifício dos Caminhos de Ferro e os respectivos armazéns, próximos da praia das Miragens, na zona conhecida por Praia do Chiloango. Surpreende ver que a cidade acabava ali, praticamente na Rua da Fabrica , tendo apenas a penetrar o deserto, a dt. na foto, o antigo bairro da Guarda Fiscal.

Na 4. foto, uma pespectiva da cidade a partir do deserto.
São fotos de Nelson Nóbrega "...fotografias tiradas de avioneta e oferecidas pelo seu avô materno, José Pereira Craveiro, natural de Mossãmedes, às suas filhas Maria de Lourdes Craveiro Nóbrega e Maria Delfina Craveiro Coimbra, ambas também nascidas na cidade. Todas elas datam de 3 de Junho de 1939."


Na 5. foto, uma bela perspectiva do edifício da Alfandega, ladeado na época de uma imensidão de árvores que ainda hoje fariam falta a cidade. À direita, o local onde mais tarde foi construído o Cinema. A esq., a Praça Gomes Leal, mais tarde também praça de táxis. Em frente, podemos ver a meio do arvoredo, o primitivo Quiosque em ferro onde se vendiam refrescos, cerveja, tabaco, etc.,que mais tarde foi demolido. Próximo ficava o  obelisco dedicado a Sá da Bandeira que podemos ver aqui na última e 8ª foto já após ter sido daqui deslocado para uma praceta próxima do «Bairro da Facada».

Na 6ª foto: Vista central de Mossãmedes, onde se vislumbram as palmeiras, os barracões junto da ponte e ao fundo o mar, para além, é claro do casario da zona.

Na 7ª foto: Um trecho da Rua das Hortas

Na 8ª foto: Vista central de Mossãmedes, podendo ver-se o cruzamento entre Rua das Hortas e Rua 4 de Agosto. Projecta-se o edifício dquele que foi o Hotel Central explorado pela família Gouveia, encimado pelas carcterísticas «águas-furtadas». Ao fundo, o mar.
 

 Na 9ª foto:  O obelisco que foi transferido para o largo que ficava próximo do Bairro da Facada, em frente a loja de José Duarte. Foi na década de 40 que segundo familiares meus foi feita essa transferência. O obelisco fora transportado, deitado em cima de varias vagonetas sobre carris dos caminhos de ferro colocados nas ruas para o efeito, devido ao seu peso e altura. No local onde até 1975 se encontrava haviam sido antecipadamente retirados um chafariz que ali existia bem como um certo numero de árvores.


Postais antigos de Mossãmedes: Praça do Peixe e carregadores indígenas
















1º: Carregadores numa das ruas de Mossãmedes

2º: A Praça inicial de Peixe perto da Fortaleza no início do século XX.

Já cerca de 1943/1944 a Praça de Peixe em Moçâmedes ficava junto à praia entre o piquete Alfândega e capitania depois passou a ficar a 1/3 da falésia zona declive da Igreja para o mar. Essa praça não passava de um barraco situado na praia, na direcção da Igreja e do Palácio, onde o sr. Olímpio de Jesus, zeloso funcionário da Câmara Municipal, cobrava os "terrados", que nada mais era , do que uma pequena taxa/imposto que os pescadores pagavam , para que lhes fosse permitido vender o peixe nas bancas daquele improvisado mercado. É claro , que a maior parte do peixe não chegava a passar pelas bancas, pois era vendido logo à chegada da "chata" à praia.
Durante as horas da maré cheia ficava um carreirinho de menos de 1 metro entre a Fortaleza e o barco desde há muito alo naufragado por onde se podia passar, esse navio de ferro que acabou fragmentado pelo tempo soterrado sob a nova marginal de Moçâmedes.Uma linda Peixaria em Moçâmedes


Final dos anos cinquenta
na minha memória surge uma imagem,
ou , talvez , no início dos sessenta
na Marginal sem terraplenagem.
Era uma falésia de amarela terra
da Fortaleza até ao porto
areia,mais areia... um cenário de serra,
um espaço semimorto.
Barquinhos de pesca lá estávam
com peixes fresquinhos pulando ,
no sopé da encosta se alinhavam
e com orgulho a mercadoria mostravam.
A peixaria era mais acima
a meio da íngreme encosta,
era um "buraco"cavado na areia
condicionado à criativa proposta.
Único ponto da cidade,talvez ,
de venda rápida e rentável
de acesso difícil...uma pessoa por vez,
nos estreitos degraus da peixaria adorável.
Lá ia eu de manhãzinha...
Era meu programa favorito
com o cozinheiro e ...bem comportadinha
íamos falando em peixe frito.
Que aventura sensacional
descer até à "caverna"
sentar-me e ...olhando aquele mar genial,
espaço azul que o horizonte governa.
Os pescadores eu via chegar
com cestas cheias a abarrotar
de cachuchu,mero,carapaus
sardinhas,garoupa.peixe-espada
dourado,corvina,pungo
e tantos e tantos mariscos.
Tudo isto eu vi de perto
na "caverna" imaginei-me pirata
naquela encosta do nosso deserto...
Era real...tal enseada tão farta.

Teresa Caeneiro (Sanzalangola)

Familias antigas de Moçâmedes: Costa Santos e Gomes de Almeida




1ª foto:
Mais uma foto de familias antidas de Moçâmedes. Esta, da família Costa Santos.

Sentadas as avós Balbina (à dt.) e Júlia Augusta (à esq.). De pé,
Manuel e Hortense Costa Santos acompanhados dos quatro filhos mais velhos: Julieta (frente à mãe); Manuel (frente à avó Balbina, à esq.); Isabel, ao colo da avó Júlia, ao centro); Júlio (ao colo do pai, à esq.). Mais tarde, de Manuel e Hortense nasceriam ainda José Enoch, Fernanda, Henrique (Quito) e Albano (Carriço). Todos naturais de Moçâmedes, nascidos na Rua dos Pescadores.
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Alguns dados genealogicos:

Albano da Costa Santos c. 1875 e Balbina Amelia David de Jesus c. 1875 eram os pais de Manuel da Costa Santos, nascido em Santarém, Tremes, Santiago c. 1900 + Angola, Mossâmedes 1951, casou com Hortensia Pestana c. 1900. Foram pais de  Julieta da Costa Santos, Isabel Pestana da Costa Santos (casaa com Norberto Santos) , Manuel Pestana da Costa Santos (casado com Aurora N), Fernanda Pestana da Costa Santos, 17.08.1925 (casada com Jose Lopes Corado), Jose Onoh da Costa Santos (casado com Maria Eugenia Almeida Carvalho), Henrique Pestana da Costa Santos (casado com Helena N.) e Albano da Costa Santos (Carriço - casado com Olga de La Sallete)





 

2ª foto:
 

José Almeida (enfermeiro), Francelina Gomes Almeida e os seus filhos, Júlio Gomes de Almeida à esq. Paulo Almeida (ao colo) e Zeca Almeida, à dt., todos eles nascidos em Moçâmedes. Data da foto: década de 20.

Júlio Gomes de Almeida viria a ser solicitador e a casar com Lita Pestana, tendo como filhos Minelvina Almeida e Julio Almeida. Paulo Almeida viria a casar com Maria do Céu Almeida, filha do venerando «ti» Oscar de Almeida. Zeca Almeida trabalhava nas Finanças .



Os modos de se vestir e de se apresentar para o mundo revelam o modo de ser de cada época da história da humanidade. Nesta época, anos 20 do século XX, como se pode ver pela foto, era chic  vestirem-se as crianças com de fato de marujo, assim como era comum verem-se crianças de colo do sexo masculino vestidas como meninas, cabelos compridos, caracóis.
Mudam os tempos, mudam as vontades e as modas também, mas ficam registos interessantes como este, que para além de trazerem à recordação familiares antigos, ficam para sempre inscritos na história da moda de determinada época, país, região...

Foto cedida por Calinhas a Sanzalangola.
i
dem cedida por Minelvina Almeida

texto de MariaNJardim



GENEALOGIA DA FAMILIA COSTA SANTOS


quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Familias antigas de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe): Familia Antunes da Cunha : 192






Eis o retrato de mais uma das antigas famílias da então Moçâmedes (Moçâmedes/Namibe), a familia ANTUNES DA CUNHA.  Em cima, da esq. para a dt.: Basílio José da Cunha, José Antunes da Cunha e Albino Antunes da Cunha. Embaixo: Nelson Emílio da Conceição Antunes da Cunha, Amélia Matias da Cunha, Maria José Antunes da Cunha,  Maria de Lurdes Antunes da Cunha, Eugénio Faustino da Cunha e Joaquim Albino Antunes da Cunha.




A loja da familia Antunes da Cunha em Porto Alexandre, em 1930. Na 1ª porta do lado esq. Albino Antunes da Cunha e o irmão José. Fotos do livro Recordar Angola, de Paulo Salvador.

O mesmo livro refere que esta familia após ter emigrado para Angola, ter-se-ia radicado em Porto Alexandre (actual Tombwa).  Albino da Cunha, natural de Laceiras (Vizeu), nascido no ano de 1906, foi o primeiro que resolveu partir, tendo fundado a casa comercial Antunes da Cunha em 1918. 
Em 1919 casa com Eugénia do Ó Faustino, filha de Porto Alexandre e descendente de colonos vindos de Olhão (Algarve), para iniciar ali uma nova vida. 


Em 1921 chega a Porto Alexandre um seu irmão, José Antunes da Cunha, também originário da Beira Alta, que já havia estado em terras de Angola como deportado político por oposição a Sidónio Pais e por atitudes contestatárias durante o serviço militar. Então, já casado, associa-se a Albino da Cunha  e criam a  unidade fabril «Antunes da Cunha, Lda.», dedicada a farinhas, conservas e óleos de peixe. 
Em 1924 abrem uma casa comercial em Moçâmedes.

Tal como outros comerciantes e elementos representativos das "forças vivas" da cidade de Moçâmedes, os Antunes da Cunha estiveram presentes em recepções, cerimónias de inauguração oficias, sessões de boas vindas a entidades governamentais, etc. etc.  Em 1938, quando da visita a Moçâmedes do Presidente da República portuguesa, Óscar Fragoso Carmona à cidade, José Antunes da Cunha tomou a palavra na qualidade de presidente da Associação Comercial. Nas entrelinhas do seu "mui respeitoso discurso", podemos concluir desapontamento manifestado face à incompreensão de que estavam sendo alvo por parte da Metrópole (1):


«em Africa, os homens exclusivamente se afirmam pelo seu trabalho e pelo sacrifício, pela tenacidade e o desassombro»...; 

«Os colonos aqui fazem-se e formam-se por si mesmos, sob a influência do nobre desejo de vencer, estimulado pela energia e tenaz, e pela ambição de viver e progredir»

«Somos assim por cá, Sr. Presidente da República, e no entanto eu sinto hoje, eu sinto neste momento, com alguma aflição, e com bastante pena, que, em frente de Vossa Excelência, Chefe do meu país, primeiro Magistrado da Nação, símbolo da unidade moral e política da minha Pátria, é afinal bem tímido o meu espírito»

«As preces da minha alma não conseguem provocar o generoso milagre que eu queria e que eu desejava para neste momento me sentir elevado à altura das circunstâncias, ao nível da minha ambição....»



Recorde-se que golpe militar de 28 de Maio de 1926 pôs fim à 1ª República e deu lugar à instauração do Estado Novo levando ao fim, em Angola, a política hábil desenvolvida por Norton de Matos, à qual haviam aderido elevado número de "colonos" brancos das principais cidades, que visavam para colónias uma autonomia progressiva de modo a conduzi-las mais tarde à independência, continuando estas li­gadas a Portugal por laços sentimentais e por inte­resses recíprocos. Norton Matos em relatório datado de  1924 referia "tremendos perigos que rodeavam Angola sendo o unico meio a colonização intensiva e o fomento economico". 

Ora, esta actuação de Norton de Matos e aquilo que na verdade não seria mais que um descontentamento difuso, um desejo de afirmação e de autonomia face à Metrópole por parte dos colonos, do que um verdadeiro separatismo branco, inviável numa época devido à já referida escassez de população branca, desagradou ao Estado Novo, receoso sobre o futuro do Império. Em consequência, o fim da figura do Alto Comissário que é substituida pela de Governadores Gerais. As colónias perdem autonomia administrativa e financeira e tem lugar à centralização, deixam de poder contrair empréstimos ao estrangeiros, e desenvolve-se uma politica de mistificação, defesa e fomento do Império, como parte da ideologia nacional.



Em 1939, José Antunes da Cunha parte para Portugal onde abrem uma sucursal em Lisboa para escoamento dos seus produtos para a Europa, exportando farinha de peixe para a Alemanha (Hamburgo e Bremen), directamente de Porto-Alexandre. Por outro lado, a sede na Rua dos Correeiros, em Lisboa, garantia a compra de tecidos e bens para abastecer os armazéns de Angola.
Nunca mais José regressou ao Namibe. Albino da Cunha, sim, ali se radicou definitivamente, e ali faleceu em 1973, dois anos antes da independência de Angola. Foi um dos grandes empreendedores, a nível do comércio e indústria de Moçâmedes. Extremamente trabalhador, homem sério e bom, deu à cidade uma prole de filhos que na Metrópole acabariam por se licenciar, e que não apenas lhe herdaram os genes positivos, como lhe seguiram o rastro e até ultrapassaram.

 Foto de familia


Esta bela foto (clicar sobre ela para aumentar) do tempo em que o transporte  ainda se fazia  em carroças puxadas a bois, mostra-nos um grupo de crianças e adolescentes elegantemente vestidas, preparando-se para serem conduzidas a um cerimonial. À janela da casa da familia Antunes da Cunha dois dos seus elementos femininos, e , caminhando no lado de fora, junto da mesma duas senhoras elegantemente vestidas. À esq, dois africanos encarregados de orientar a condução da referida carroça e a dt. elementos masculinos da mesma familia.

Para saber mais, clicar AQUI 


quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Pioneiros da colonização de Porto Alexandre (actual Tombwa), distrito de Moçâmedes, Namibe: Francisco de Sousa Ganho, Francisco de Sousa Ganho Junior, António Fernandes Peixe e José Carne Viva



Francisco de Sousa Ganho (pai)

(Reprodução de uma fotografia amavelmente cedida pelo neto do fotografado, Dr. Tolentino de Sousa Ganho (in Boletim Geral do Ultramar . XXVII - Nº 322 - Vol. XXVII, 1952, pg.40) .




Francisco de Sousa Ganho era natural de Olhão,  e nasceu no ano de 1830.  tendo falecido em Moçâmedes (a actual cidade do Namibe), em 13/7/1895. Era filho de Francisco de Sousa Ganho e de Teresa de Jesus Ganho, e foi componente do primeiro grupo de colonos algarvios que, em 1859 partiu para Moçâmedes, a bordo da barca «D. Ana».



   
Francisco de Sousa Ganho Júnior  (filho)



Seu filho Francisco de Sousa Ganho Júnior (que fez a viagem na barca D. Ana com o seu pai e tios, com 9 anos de idade), era natural da freguesia de Stª. Isabel, Lisboa, nasceu a 11/11/1850, e faleceu nesta cidade a 13 de Junho de 1895. 
Ambos os Ganho estavam dispostos a ir para Moçâmedes na sua canoa de pesca, mas conseguiram entrar na barca D. Ana, que fazia parte da Empresa "Lusitana",  comandada por José Guerreiro de Mendonça e pilotada por José Guerreiro Nuno, ambos naturais de Olhão, integrando esse primeiro grupo  de colonos algarvios, do qual fizeram parte:
Francisco Sousa Ganho (pai)
Maria Catarina Peixe (esposa)
Francisco de Sousa Ganho (filho) de 9 anos de idade 
António de Jesus Ganho (irmão do primeiro)
António Fernandes Peixe
Lourenço Fernandes Peixe
e José Carne Viva, cujo verdadeiro nome era José Martins

Levaram consigo a primeira canoa de pesca do alto que ali apareceu. 

Foram eles, pois que abriram caminho à corrente migratória de Olhão para Moçâmedes nos idos anos de 1860, (vêr post "OS OLHANENSES A SUL DE BENGUELA"), conforme nos conta o Dr. Alberto Iria. 

Os Ganho estiveram na Baía das Salinas,  na ponta sul do rio Bentiaba, onde se dedicaram à pesca à linha e à extração de óleo de fígado cação. Rumaram depois para P. Alexandre (a actual cidade de Tômbua) e Baía dos Tigres, sendo dos primeiros a fixarem-se nessas praias, onde montaram a sua primeira pescaria. 
O Júnior teve a sua primeira pescaria na Baía dos Tigres. Possuíam o caíque "Restaurador" que fazia o comércio de cabotagem na costa até S. Tomé, Gabão e Congo Francês. Estiveram no Mocuio, Baía das Pipas, e Baba, onde possuiam uma "armação à valenciana", (a terceira que foi instalada no distrito)  destinada à pesca da sardinha.

Francisco de Sousa Ganho foi também o primeiro olhanense a construir uma casa em Moçâmedes. 




In "Os caíques do Algarve no Sul de Angola" de Alberto Iria, conta-se o seguinte episódio muito curioso de  Sousa Ganho, e  retrata igualmente a luta pela sobrevivência daqueles homens, com um grande realismo, quando escreve:


"Em 3 de Fevereiro de 1871 o olhanense Francisco de Sousa Ganho indemnizou Maria da Cruz Rolão por ter lançado ao mar as madeiras para construção duma casa e mais utensílios de pesca que Maria da Cruz Rolão desembarcava na Praia do Sal ao norte da Vila de Moçâmedes".

 E a seguir "declarou perante testemunhas que promete sob palavra de honra viver bem com os seus visinhos residentes na Praia do Sal ou em qualquer parte deste distrito".(Maria da Cruz Rolão foi mais tarde heroína de Porto Alexandre e regedora). Pensa-se que sucederam alguns descontentamentos na fixação das populações em certas praias. Há ainda um registo de 1921 em que foi concedido passaporte de Mossâmedes para Lisboa a Tolentino de Sousa Ganho, médico, casado com uma brasileira do Rio de Janeiro D. Adelina Salvatério Santos e a 2 filhas, Maria e Suzana, respectivamente de 7 anos e 14 meses. Tolentino era filho do Júnior. 

"Começaram por viver quase como os indígenas, em toscas cabanas de pau a pique com varas de mangue e cobertas de capim. Foi nessas primitivas cubatas onde a princípio viveram, numa incómoda promiscuidade de homens, mulheres e crianças."  

"A alimentação destes primeiros colonos era deficiente e cem por cento de peixe, temperado quase sempre pelo óleo de palma, e comendo o pão de mandioca do serviçal negro." "Por isso é que mais tarde, quando de Moçâmedes caciques começaram a levar para o Sul, diziam eles com certo orgulho e justificada vaidade aos que para lá foram estabelecer-se depois: Ai!... Vocês já vieram no tempo do pão fresco!"

Maria da Cruz Rolão é a histórica Regedora de Porto Alexandre que se evidenciou pela coragem e mereceu ser refereciada pelos políticos da época. Segundo o autor reataram a amizade que sempre uniu as gentes de Olhão. Tornaram-se elementos integrantes da população de Porto Alexandre, possivelmente vizinhos porque a população era escassa. 
Foram os primeiros brancos que se estabeleceram naquelas paragens para se dedicaram, eles próprios à pesca substituido os indígenas substituido os indígenas que trabalhavam nas 16 pseudo-pescarias dos luso-brasileiros vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849, para darem início à colonização de Moçâmedes.

E assim se deu inicio a uma verdadeira revolução na actividade piscatória nos mares ao sul de Benguela. Foi o sucesso desta experiência que permitiu que fossem criadas as condições para que se estabelecesse a forte corrente migratória de algarvios  que não apenas veio revigorar a colónia, como consolidar a industria pesqueira em todo o distrito. E assim  começou a verdadeira colonização do sul de Angola. 
  
É a experiência deste punhado de pioneiros que, a expensas suas, tudo fizeram: aquisição de barcos ou pagamento de passagens para a viagem; casas, utensílios para a pesca! E, sem delegação de quem quer que fosse, constituíram-se garantes da soberania de Portugal nas áreas mais inóspitas do Pinda à Baía dos Tigres.


No "Livro de Registos de Passaportes de 1921" encontra o Dr. Iria a seguinte descrição:

 «Foi concedido passaporte de Moçâmedes para Lisboa a Tolentino de Sousa Ganho, médico, casado com D. Adelina Salvatério Santos, natural do Rio de Janeiro, Brasil, e a duas filhas Maria e Suzana, respectivamente de 7 anos e 14 meses». Recentemente o senhor Pedro Ganho corrige esta informação num comentário no post "OLHÃO-TERRA DE PESCADORES/NAVEGADORES, A MAIOR DIÁSPORA COLONIZADORA A SUL DE BENGUELA :«Permitem-me duas correcções: Tolentino de Sousa Ganho tinha uma filha Suzana e um filho Mário, meu avô. A minha avó era Adelina Salvatori Santos. Mário Ganho casou em Coimbra com D. Gracinda, tem hoje 96 anos, 23 netos e 6 bisnetos. Cumprimentos de Coimbra, Pedro Ganho "




António Fernandes Peixe foi outro dos componentes da barca D. Ana, na companhia de Lourenço Fernandes  Peixe e fixou-se em Porto Alexandre





Outras informações:
De Anuário de Portugal do ano de 1909, cito:


- JOSÉ MARTINS GAGO - Armação de Pesca na Bahia dos Tigres em 1909
- JOÃO MARTINS NUNES - Delegado da Repartição de Fazenda de Bahia dos Tigres e Porto Alexandre em 1909
- FRANCISCO JOSÉ de SOUSA PEIXE - Juiz Popular de Porto Alexandre em 1909
- FRANCISCO de SOUSA GANHO - Armação de Pesca em Mossamedes,1909


Porto Alexandre A sede de Concelho deste nome abrange a costa maritima desde o Cabo Negro até á Foz do rio Cunene ao N. de cabo Frio. - Foi elevada á categoria de Concelho em 1895.Era uma delegação do Concelho de Mossamedes,creada em 1894.


Foi em 1860 que se estabeleceram os primeiros Europeus na Bahia de Porto Alexandre. - A sua população actualmente é de 1786 habitantes,sendo 371 Europeus,na sua maioria oriundos do Algarve.

A emigração dos olhanenses começou muito antes da elevação da povoação de OLHÃO à categoria de Vila (1808), mas apenas para Lisboa, Oeiras, Barreiro, Aldeia Galega e Caparica, onde se foram fixando, aos poucos, e onde a maioria exercia a actividade marítima. Ao aproximar-se a 2ª metade do século XIX, a actividade dos maritimos olhanenses estendeu-se ao Mediterrâneo Oriental, através de relações comerciais que levam os maritimos a navegar até ao Mar Negro e Odessa (Russia) onde compram cereais, e a outras terras distantes como Oram, Nemours, Philippoville, Sardenha... É a época em que tem início as chamadas "Carreira de Gibraltar" e "Carreira de Marrocos", e a emigração olhanense deriva para o Norte de África, onde se dedica, à arte da pesca, ao comércio, ou actuando como uma espécie de agentes contrabandistas da terra natal. Em meados do século XIX a emigração dos filhos de Olhão intensifica-se rapidamente rumo às colónias portuguesas, especialmente no Distrito de Moçâmedes, em Angola, e tem início a fixação algarvia da região, de onde outros vão mandando para as familias, na terra natal, parte do produto do seu duro e porfiado trabalho, muito poucos regressam definitivamente ao fim de uns anos, levando consigo pecúlios mais ou menos avultados, contribuindo para a prosperidade de Olhão, mas onde a maioria se fixa para sempre realizando uma notável obra de colonização.

Para acabar, vai um poema alusivo ao assunto:

  


Veio trazido nos braços das miragens
de oiro sobre azul,
de oiro qu sol punha nas paisagens
do desertos do Sul...

Troxe- um sonho lindo que ficou
nas botas de suor com que regou
a terra esbraseada.

Arrastou-o a trágica ilusão
que um dia lhe pôs em cada mão
a foice e a enxada.

Veio e ficou...

Foi cavaleiro andante nas anharas
irmãs gémeas das searas
da terra que o gerou.

Pôs em cada semente que lançou
uma oração
e em cada sulco que abriu no chão
foi semeando a esmo
farrapos d'alma, pedaços de si mesmo
como quem se coloca a sí mesmo num caixão

E mesmo assim ficou...

Comeu o pão que o diabo amassou
com lágrimas e fel
e febre, e gritos
contra o calor cruel,
o sol e a sede
e a fome que passou
pelos atalhos malditos
das florestas virgens
e as vertigens
que Leste lhe soprou
na face envelhecida.

E mesmo assim, ficou...

E um dia a terra esquiva abriu-lhe os braços
e do seio ruim,
num milagre de amor,
a virgem possuída
brotou em caule, rebentou em flor
e concebeu em milheirais sem fim.

Ele ficou então p'ra toda a vida...

(Helder Duarte de Almeida - filho de Moçâmedes

Segue parte de um texto retirado de "Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5. 1898":


(...)

"....O clima d'esta região pode considerar-se regularmente salubre. Não há pântanos e por isso não existem as febres palustres. A temperatura é mais baixa e por isso mais supportavel do que em Mossamedes ; o thermometro oscilla entre 14 e 21 graus; apenas à noite sente-se um pouco de frio.
O maior inconveniente de Porto Alexandre é o não haver arborisação alguma que attenue a violencia da viração do sueste, constante n”esta época, e que é origem de infiammações das vias respiratorias. Apezar do pouco aceio dos pescadores que lançam as vísceras dos peixes pela praia, o que origina um cheiro insupportavel e atrahe grande quantidade de moscas, considero o clima superior ao de Mossamedes.

Outro inconveniente é a falta de agua potável. A que existe perto da povoação é salobra e até salgada. Agua potavel só se encontra no rio Koroka e é d'ahi que os moradores mandam-na vir para beber, reservando a da povoação para os animaes e para a preparação dos alimentos. Não havendo terrenos araveis, não ha hortaliças. Os moradores mais abastados fornecemse das fazendas agrícolas do Koroka. Notei qur a falta de vegetaes na alimentação era causa de algumas pessoas soffrerem de escorbuto, sobretudo as creanças. A povoação assenta sobre areia solta occupando o fundo da bahia na parte sul, abrigada pelo norte por uma ponta de areia, formando uma espaçosa bahia em melhores condições de abrigo e segurança que a de Mossamedes. Veja-se o mappa do almirantado inglez` que representa bem a configuração da bahia.

E' um porto excellente e está. perfeitamente sondado. As casas estendem-se ao longo da praia, occupando a extensão de 2 kilometres em uma só fila. Todas têem a frente para o norte e são protegidas do lado do sul por um cercado de canniço, formando um angulo agudo para o sueste. Esta disposição tem por fim evitar a accumulação de areias sobre o fundo das casas. O vento sopra sempre do sueste, arrastando dunas de areia sobre as casas. A disposição em angulo agudo do cercado cortando o vento, faz com que as areias sigam para a praia, de um e outro lado da casa. D'ahi resulta que as casas são todas separadas umas das outras, ficando entre ellas espaço suficiente para as areias correrem livremente, o que dá. origem á. formação de monticulos nos intervallos de umas para outras. As casas são pequenas e terreas e dispostas ao comprido, ao longo da praia. São feitas de estacaria coberta de barro. Cada casa custa, termo medio, 3008000 a 500$000 réis. 0 tecto efeito de varas compridas cobertas com uma camada de argamassa de areia e cal. Diante de cada casa encontra-se a pescaria. Esta compõe-se de umas construcções muito rudimentares, feitas de canniço e palha, com o tecto plano, onde estendem o peixe salgado para seccar, e por baixo ficam as tinas com agua e uma mistura de sal com areia (extrahido das salinas ao sul da bahia), onde salgam o peixe.

O processo de pesca é o seguinte. Cada pescador tem uma ou mais embarcações pequenas tripuladas por tres a quatro pessoas (ordinariamente serviçaes pretos). Prendem a popa da embarcação quatro a seis linhas de pesca. terminadas por um anzol duplo, figurando umapequena ancora ou dois anzoes presos um ao outro, com as unhas oppostas,por meio de uma fita branca. O conjuncto do anzol dá-lhe a apparencia de um pequeno peixe. Postas as linhas ao mar, largam a embarcação a toda a velocidade. Os peixes, vendo correr aquelles pequenos objectos brancos, que são os anzoes, e julgando serem peixes pequenos, correm atraz e deixam-se prender. A quantidade de peixe apanhado por este processo tão imperfeito regula por quatro a seis arrobas por dia por cada embarcação. Este é o processo mais usual entre os pescadores. Alguns, porém, possuem redes com que apanham muito peixe, mas estas são tão ordinarias que em pouco tempo estão estragadas. Um dos melhores ramos de commercio aqui é o fornecimento de redes e mais aparelhos de pesca. Tenho visitado todas as pescarias e vejo que as redes e as linhas de pesca são de uma qualidade muito inferior, deteriorando-se no fim de pouco tempo. Existem apenas nove pescarias com redes, e estas mesmo não produzem muito, porque o material é pessimo, sendo necessario concertal-as constantemente, d'ahi resulta que a maior parte dos pescadores prefere a pesca á. linha, que lhes fica mais barata. Os poucos que usam rede calculam que gastam por dia 43500 réis sómente em concertos e reparações do material.

Cada pequena embarcação com as vellas e remos custa, em média, 4008000 réis. São feitas no Algarve, d'onde são naturaes os pescadores. Actualmente já. fabricam aqui embarcações com madeira vinda da Europa.

A' tarde recolhem do mar todas as embarcações. Logo que fundeam, lançam o peixe a praia diante das armações e começam o trabalho da salga; tiram-lhe as vísceras e espalmam-n`o, como se faz ao bacalhau, em seguida mettem-no dentro de tinas contendo agua com o sal misturado com areia. Ahi fica o peixe um a dois dias, depois tiram-no, lavam-no na agua do mar para perder a maior parte da areia e estendem-no sobre o tecto da armação, que é da altura de um metro e meio. No fim de 8 dias está. o peixe secco. Batem-no para fazer cahir a areia e fazem pacotes de duas arrobas, embrulhando-0 com uma esteira de palha, a que chamam mateba, fabricada nas fazendas do Koroka.

As despezas de empacotamento de duas arrobas correspondem a 100 réis, comprehendendo uma esteira 50 réis, uma corda 50 réis. Este empacotamento é feito por conta do comprador. O pescador vende o peixe solto e por arroba.

Depois de secco o peixe procedem á. divisão em duas qualidades, cada uma com o seu preço:

1. qualidade - peixe grande; comprehende seis especies do melhor peixe, taes como: corvina, pungo, tainha, pargo, etc., custa 900 a 18000 réis a arroba.

2. qualidade- peixe pequeno; comprehende diversas qualidade de peixe meúdo e de menor estimação. taes como: chopa, alvacora. sarrajão, etc., custa 800  900 réis a arroba.

Muitas espécies de peixe pequeno são despresadas. taes são as sardinhas que existem em grande quantidade, mas que salgadas e seccas não dão interesse. Um agricultor de Mossamedes pretendeu, ha alguns annos, aproveitar as sardinhas e outros peixes pequenos que os pescadores desprezam, e para isso mandou montar uma fabrica de conservas em latas na pequena bahia do Pinda. ao norte de Porto Alexandre. Creio que por falta de azeite esta fabrica pouco resultado deu, estando actualmente abandonada.

O peixe é comprado por duas ordens de negociantes: 1.' Os commerciantes de Mossamedes, que para este negocio teem casas filiaes aqui e recebem o peixe em troca de productos europeus. Existem duas casas filiaes de maior importancia: uma da firma Figueiredo & Irmão, e outra da casa Sousa Lara & C). cujo unico negocio é comprar peixe aos algarvios em troca de generos europeus. 2.` Os outros negociantes de peixe são algarvios, proprietarios de hiates, que não pescam. mas empregam-se exclusivamente na compra, transporte e venda do peixe pelos portos do litoral de Angola. Congo, S Thomé. Gabão, etc.. vendendo o peixe aos agricultores d'estas localidades por preços que lhes deixam 100 0/0 de ganho, e regressam a Porto Alexandre carregados de contrabando. madeira para construcção e lenha, de que ha absoluta falta n'esta terra. Estes negociantes pagam o peixe a dinheiro. mas a. prazo de 3 ou 4 mezes. o tempo necessario para realisarem a venda e carregarem os navios de madeira no Zaire. o que lhes não custa dinheiro, porque existe muita lenha e paus de construcção pelas margens d'este rio, tendo elles apenas o trabalho de os mandar cortar e carregar. Para evitar o contrabando, o governo acaba de collocar em Porto Alexandre uma auctoridade aduaneira.

O preço do peixe vendido nos portos do litoral, regula: de Benguella até o Ambriz (portos ao sul do Zaire) -15500 réis a arroba de primeira qualidade, e W300 a de segunda; do Zaire até S. Thomé (portos ao norte do Zaire) - 15800 réis a arroba de primeira qualidade e 18600 réis a de segunda.

Os commerciantes de Mossamedes enviam o peixe pelos paquetes da Empreza Nacional.

Na bahia dos Tigres, que é muito mais abundante de peixe do que Porto Alexandre. estão estabelecidos apenas sete pescadores, os quaes usam o systema de redes. São as pescarias mais productivas do litoral e os seus proprietarios são pescadores ricos. A razão porque existem ali tão poucas pescarias é porque a navegação para aquella bahia é difficil por causa do vento sueste que frequentemente origina temporaes na costa. Para navegar até a bahia dos Tigres é preciso empregar embarcações grandes como os hiates; as embarcações usadas em Porto Alexandre não poderiam resistir aos temporaes do sul. O mar dentro d'aquella bahia. forma. vaga alta a que só podem resistir embarcações de borda alta.

Aqui mesmo na zona de Porto Alexandre ha logar para montar uma pescaria em grande escala. Quando passei pelo cabo Negro reconheci a existencia de uma enseada vasta e bem abrigada pelo cabo e ao norte d'elle, onde as embarcações dos algarvios vão pescar, quando o vento Sueste é forte e os apanha no mar alto. Costumam os pescadores abrigar-se ao norte do cabo e ahi pescam, emquanto dura a viração torte.
Devo tambem dizer que frequentemente apparecem baleias dentro da bahia de Porto Alexandre, que os pescadores não apanham, porque não teem embarcações nem aparelhos apropriados.
O movimento annual do peixe é de:
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Porto Alexandre . . . . . . . . . . . ...... . 150.000 arrobas = 2.250.000 kilos Bahia dos Tigres . . . . . . . . . . . . 50.000 ,, z 750.000 ,, Total. . . . . .. 200.000 ,,            =3.000.000 ,,
Porto Alexandre compõe-se de 50 casas com a população de 700 pessoas, sendo 300 brancos e 400 negros. Ha 100 embarcações de pesca e 20 hiates e cahiques. Existem duas escolas para os dois sexos, uma pequena capella, delegação de saude delegação aduaneira, administração do concelho e destacamento militar. Está. em communicação com os portos da província e da metropole pelos paquhtes da Empreza Nacional.