Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Familias antigas de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe): Familia Antunes da Cunha : 192






Eis o retrato de mais uma das antigas famílias da então Moçâmedes (Moçâmedes/Namibe), a familia ANTUNES DA CUNHA.  Em cima, da esq. para a dt.: Basílio José da Cunha, José Antunes da Cunha e Albino Antunes da Cunha. Embaixo: Nelson Emílio da Conceição Antunes da Cunha, Amélia Matias da Cunha, Maria José Antunes da Cunha,  Maria de Lurdes Antunes da Cunha, Eugénio Faustino da Cunha e Joaquim Albino Antunes da Cunha.




A loja da familia Antunes da Cunha em Porto Alexandre, em 1930. Na 1ª porta do lado esq. Albino Antunes da Cunha e o irmão José. Fotos do livro Recordar Angola, de Paulo Salvador.

O mesmo livro refere que esta familia após ter emigrado para Angola, ter-se-ia radicado em Porto Alexandre (actual Tombwa).  Albino da Cunha, natural de Laceiras (Vizeu), nascido no ano de 1906, foi o primeiro que resolveu partir, tendo fundado a casa comercial Antunes da Cunha em 1918. 
Em 1919 casa com Eugénia do Ó Faustino, filha de Porto Alexandre e descendente de colonos vindos de Olhão (Algarve), para iniciar ali uma nova vida. 


Em 1921 chega a Porto Alexandre um seu irmão, José Antunes da Cunha, também originário da Beira Alta, que já havia estado em terras de Angola como deportado político por oposição a Sidónio Pais e por atitudes contestatárias durante o serviço militar. Então, já casado, associa-se a Albino da Cunha  e criam a  unidade fabril «Antunes da Cunha, Lda.», dedicada a farinhas, conservas e óleos de peixe. 
Em 1924 abrem uma casa comercial em Moçâmedes.

Tal como outros comerciantes e elementos representativos das "forças vivas" da cidade de Moçâmedes, os Antunes da Cunha estiveram presentes em recepções, cerimónias de inauguração oficias, sessões de boas vindas a entidades governamentais, etc. etc.  Em 1938, quando da visita a Moçâmedes do Presidente da República portuguesa, Óscar Fragoso Carmona à cidade, José Antunes da Cunha tomou a palavra na qualidade de presidente da Associação Comercial. Nas entrelinhas do seu "mui respeitoso discurso", podemos concluir desapontamento manifestado face à incompreensão de que estavam sendo alvo por parte da Metrópole (1):


«em Africa, os homens exclusivamente se afirmam pelo seu trabalho e pelo sacrifício, pela tenacidade e o desassombro»...; 

«Os colonos aqui fazem-se e formam-se por si mesmos, sob a influência do nobre desejo de vencer, estimulado pela energia e tenaz, e pela ambição de viver e progredir»

«Somos assim por cá, Sr. Presidente da República, e no entanto eu sinto hoje, eu sinto neste momento, com alguma aflição, e com bastante pena, que, em frente de Vossa Excelência, Chefe do meu país, primeiro Magistrado da Nação, símbolo da unidade moral e política da minha Pátria, é afinal bem tímido o meu espírito»

«As preces da minha alma não conseguem provocar o generoso milagre que eu queria e que eu desejava para neste momento me sentir elevado à altura das circunstâncias, ao nível da minha ambição....»



Recorde-se que golpe militar de 28 de Maio de 1926 pôs fim à 1ª República e deu lugar à instauração do Estado Novo levando ao fim, em Angola, a política hábil desenvolvida por Norton de Matos, à qual haviam aderido elevado número de "colonos" brancos das principais cidades, que visavam para colónias uma autonomia progressiva de modo a conduzi-las mais tarde à independência, continuando estas li­gadas a Portugal por laços sentimentais e por inte­resses recíprocos. Norton Matos em relatório datado de  1924 referia "tremendos perigos que rodeavam Angola sendo o unico meio a colonização intensiva e o fomento economico". 

Ora, esta actuação de Norton de Matos e aquilo que na verdade não seria mais que um descontentamento difuso, um desejo de afirmação e de autonomia face à Metrópole por parte dos colonos, do que um verdadeiro separatismo branco, inviável numa época devido à já referida escassez de população branca, desagradou ao Estado Novo, receoso sobre o futuro do Império. Em consequência, o fim da figura do Alto Comissário que é substituida pela de Governadores Gerais. As colónias perdem autonomia administrativa e financeira e tem lugar à centralização, deixam de poder contrair empréstimos ao estrangeiros, e desenvolve-se uma politica de mistificação, defesa e fomento do Império, como parte da ideologia nacional.



Em 1939, José Antunes da Cunha parte para Portugal onde abrem uma sucursal em Lisboa para escoamento dos seus produtos para a Europa, exportando farinha de peixe para a Alemanha (Hamburgo e Bremen), directamente de Porto-Alexandre. Por outro lado, a sede na Rua dos Correeiros, em Lisboa, garantia a compra de tecidos e bens para abastecer os armazéns de Angola.
Nunca mais José regressou ao Namibe. Albino da Cunha, sim, ali se radicou definitivamente, e ali faleceu em 1973, dois anos antes da independência de Angola. Foi um dos grandes empreendedores, a nível do comércio e indústria de Moçâmedes. Extremamente trabalhador, homem sério e bom, deu à cidade uma prole de filhos que na Metrópole acabariam por se licenciar, e que não apenas lhe herdaram os genes positivos, como lhe seguiram o rastro e até ultrapassaram.

 Foto de familia


Esta bela foto (clicar sobre ela para aumentar) do tempo em que o transporte  ainda se fazia  em carroças puxadas a bois, mostra-nos um grupo de crianças e adolescentes elegantemente vestidas, preparando-se para serem conduzidas a um cerimonial. À janela da casa da familia Antunes da Cunha dois dos seus elementos femininos, e , caminhando no lado de fora, junto da mesma duas senhoras elegantemente vestidas. À esq, dois africanos encarregados de orientar a condução da referida carroça e a dt. elementos masculinos da mesma familia.

Para saber mais, clicar AQUI 


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