Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

2009 : Bicentenário do nascimento de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes








Recebi esta mensagem da «comissão de instalação do busto» em homenagem a Bernardino Freire de Abreu e Castro, que passo a divulgar:

«Bernardino vai ser homenageado na sua terra natal, Nogueira do Cravo em 2009 (Bicentenário do seu nascimento). Queremos fazer-lhe um busto! No entanto os apoios estão dificeis por parte da autarquia.
Se quiserem saber mais ou colaborar com a comissão de instalação do busto fica aqui o endereço:

ruiarguina@hotmail.com »
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«Passados quase duzentos anos do seu nascimento, são muitos os que na sua terra natal desconhecem a história de tão nobre homem, no entanto já anteriormente muita gente quis honrar seu nome. Exemplo disso mesmo, é o “Jornal O Catre”, um jornal da década de 80, que era dirigido pelo Grupo de Jovens Unidos a Cristo, que já em Novembro de 1985 publicava a história de Bernardino pedindo que se fizesse justiça ao nome de tão grande figura. Em Fevereiro de 1987, o mesmo Jornal pedia que se atribuísse a uma Rua Nogueirense, o nome deste, e em Maio de 1988, lembrou a Autarquia que o seu pedido ainda não tinha merecido a melhor atenção, tendo vindo mesmo a ser feita a vontade dos Jovens e a devida homenagem a este grande homem.
Está também planeado, para a data em que se assinalam os 200 anos do nascimento de Bernardino, o erguer de um busto do mesmo na terra que o viu nascer. Iniciativa louvavél em que certamente será necessária a colaboração de todos para que se consiga alcançar esse objectivo. Que esta pequena e abreviada biografia sirva, para além de dar a conhecer a história de vida de tão grandiosa figura, para mover a população Nogueirense e não só, a colaborar e a divulgar tão nobre e justa causa. »

RF/CM
in:
http://olharnogueiradocravo.blogspot.com/2007_10_01_archive.html
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Do mesmo blog, passo a transcrever:

Bicentenário do Nascimento de Bernardino - Parte I

O "Olhar Nogueira do Cravo" dá hoje início à publicação de um trabalho acerca da vida e obra do nosso ilustre Bernardino Freire Figueiredo Abreu e Castro, elaborado com o objectivo de vir a ser distribuído pelos presentes no dia da sua Homenagem, a decorrer no próximo dia 3 de Outubro.
Uma vez que esta mesma distribuição poderá ser impossibilitada por limitações financeiras, faseadamente será colocada toda a informação neste blog, existindo ainda a possibilidade de o documento ser facultado na integra por meio digital a todos os interessados.


Homenagem da sua terra natal ao ilustre Nogueirense, fundador da cidade de Mossâmedes e com notável actividade em três continentes.

Por: António Serra


BIOGRAFIA


Nasceu em Nogueira do Cravo. O seu percurso de vida desde estudante a político, militar, jornalista, exilado, professor, escritor, patriota, colono, agricultor e juiz, deixa marcas indeléveis nos continentes Europeu, Sul -Americano e Africano, culminando neste último com a fundação da cidade Angolana de Mossâmedes em 4 de Agosto de 1849, hoje chamada de Namibe, após a independência daquela nossa antiga província ultramarina.

O seu baptizado foi em quatorze de Dezembro de mil oitocentos e nove na Igreja Paroquial de Nogueira do Cravo, conforme o atesta o respectivo registo.

Nascido na rua do Saco, era filho de Alexandre Nunes Vieira de Barros e Rita Gouveia Freire de Figueiredo, neto paterno de Manuel Nunes de Campos e de Joaquina Bernarda, que moraram na Casa da Torre, também conhecida por Casa dos Mouros ou Casa do Penedo. Os seus avós maternos eram Francisco Abranches Figueiredo e Josefa Maria de Abreu, naturais de Avô. A sua ascendência remonta a D. Pedro e Dª. Inês de Castro.

A sua matriz religiosa e política, herdou-as de seus familiares, profundamente religiosos e fervorosos adeptos da monarquia vigente, vindo a tomar partido directo quando atingiu a sua maioridade e se confrontavam então os absolutistas liderados pelo seu “adorado Monarca Senhor D. Miguel” e os Liberais que apoiavam as teses do seu irmão D. Pedro.

Nos seus primeiros anos, até atingir a maioridade, terá vivido em casa dos pais, mas aos vinte anos de idade vai para Coimbra, onde se matricula na Universidade de Coimbra em 1829, frequentando os primeiro e segundo anos de Leis. Porém, o ambiente aqui vivido não era o melhor face às suas convicções políticas e, assim, abandona os estudos e envereda pela via revolucionária, nas hostes de D. Miguel, atingindo o posto de Tenente de Caçadores. Porém, não teve a sorte de seu lado, pois que este monarca foi derrotado e obrigado a sair de Portugal. Não obstante uma convenção realizada em Gavinhos, tendente a pacificar a região entre liberais e absolutistas, Bernardino envolve-se novamente nas escaramuças e participa, bem como seu irmão Alexandre, numa revolta chefiada pelo seu parente Dr. Luiz Paulino, todos naturais de Nogueira do Cravo.

Num meio tão pequeno como o nosso, só lhe restou esgueirar-se e refugiar-se em Lisboa. Com outras armas, continua a conspirar tornando-se jornalista em órgãos do partido dos absolutistas, como no Alcance e no Portugal Velho, onde terá chegado a fazer parte da redacção deste jornal, até que foram extintos por força da nova Constituição.

Com um ambiente claramente hostil, difícil em se mover, desgostoso, prefere abandonar voluntariamente o território Nacional rumo ao Brasil, do que ter de se sujeitar aos novos senhores, isto é aos liberais.

Com trinta anos de idade parte assim para o Brasil, indo fixar-se no Recife em Pernambuco, não procurando a emigração como o alvo de enriquecimento fácil, mas sim como um intelectual que, longe da sua pátria, não se subordinando ao regime que vigorava em Portugal, enveredou por uma nova actividade durante os dez anos que pôde estar no Brasil.

Começa então a leccionar no Colégio Pernambucano, onde faz parte do corpo docente e, não satisfeito com isso, dedicou-se a estudar profundamente a História, donde resultam a publicação de alguns livros de índole didáctica como a História Geral em seis volumes, o Compêndio Elementar de Cronografia e o mais conhecido neste momento e que possuímos, que é o romance histórico, descritivo, moral e crítico, com base nos encontros entre Portugueses e Holandeses de 1648 a 1649, nos montes de Guararapes, na zona do Recife, onde vivia, presumo, já que tinha o seu escritório na Rua da Cadeia Velha, n.º 3. Digamos que é a fase do professor, do intelectual, erudito e escritor.

Só que os ventos da adversidade voltam a aparecer no horizonte. O Brasil tornara-se uma nação independente, cerca de vinte anos antes e os seus naturais não vêm com bons olhos o ascendente económico e político dos Portugueses.

Surgem então “Os praieiros”, movimento de uma facção liberal que propôs a expulsão de Portugueses solteiros e a nacionalização do comércio a retalho. Surgiram tumultos e as perseguições, apelidando depreciativamente os portugueses de “marinheiros”, tornando a vida muito difícil nos últimos dois anos, para não dizer impossível, a estes nossos compatriotas. É aqui que surge o carisma de um líder que não gosta do que vê - Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro. Faz circular pelos seus compatriotas a ideia de transmitir ao Governo Português o que se estava a passar, pedindo providências, entre as quais o transporte para um ponto das nossas possessões na Ásia ou em África onde, como colonos, se quisessem estabelecer. Não foi nada fácil, mesmo perante as atrocidades sofridas, convencer os seus compatriotas a partir. Foram quinze dias difíceis para os convencer, mas Bernardino, homem indomável, armando-se em porta-voz daquela gente, escreve ao Ministério da Marinha e Ultramar que envidasse todos os seus esforços para concretizar tal pretensão. Impôs condições que viu satisfeitas, como navios para os colonos abandonarem o território gratuitamente, com provisões para seis meses, ferramentas, utensílios agrícolas, auxílio financeiro para aquisição de maquinaria para a industrialização da cana sacarina, isenções de direitos sobre os bens, a publicação de uma lei para isentar de impostos alfandegários por dez anos, etc.
Com tudo o que é previsível salvaguardar e com as devidas garantias, lá partiram de Lamarão, do porto de Pernambuco, rumo ao sul de Angola, às quatro horas da tarde do dia vinte três de Maio de mil oitocentos e quarenta e nove em dois navios com 166 pessoas, sendo um de escolta.

Não chegaram todos, pois oito pessoas pereceram na viagem com as bexigas, sendo três adultos e cinco crianças, não obstante Bernardino ter levado, como condição para a mesma e instalação final, um sacerdote, artífices de vários ofícios, dois farmacêuticos e uma bem sortida botica.

O primeiro barco, o Brigue Douro, chega no dia um de Agosto, mas só desembarcam com a chegada da barca Tentativa Feliz no dia quatro de Agosto, após setenta e quatro dias de viagem. Há grande recepção e festa, mas Bernardino não descansa. Em dezasseis de Agosto segue no mesmo barco brigue Douro, para Luanda, onde apresenta cumprimentos ao Governador-Geral e se demora dois meses tratando de formalidades para o funcionamento da sua colónia.

De regresso a Moçâmedes, é içada a bandeira portuguesa em 21/10/1849 às 7 horas da manhã, com salva de vinte um tiros, arraial e foguetes. O local passou a chamar-se o Sítio da Bandeira e foi aí que escolheu erguer a sua habitação. Os outros colonos fizeram o mesmo noutros locais que escolheram para as suas fazendas e plantações com os respectivos engenhos agrícolas e sementes, trazidos do Brasil.

Os primeiros anos foram muito difíceis, devido à novidade de uma nova terra, com outro clima e o desconhecimento das plantações na época certa. Grassa o descontentamento e Bernardino, agora agricultor, no meio do povo exclama “ Só será salvo o que perseverar até ao fim”. E, convicto que venceria, passados dez anos, exactamente em 4/8/1859, faz no notário, a célebre Escritura de Promessa e Voto (*).

Entretanto nasce o município de Moçâmedes quando já existem 36 casas de pedra, oito de adobe e a capela de Santo Adrião, das primeiras construções efectuadas.

Bernardino é um precursor da abolição da escravatura pela qual se bate e aplica na sua própria fazenda escrevendo em 1857 “os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis. Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros...não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. ”E a sua postura teve eco. Portugal abolia o estado de escravidão em 1869.

Bernardino aproxima-se do fim. Nos seus escritos não deixa de perceber-se uma certa nostalgia da Pátria, de Nogueira e de sua mãe.

A década de sessenta corre muito mal a Bernardino. A sua fazenda e equipamento foram destruídos por outros povos. O Governo-geral de Angola é impotente para lhe resolver a situação criada, com ajudas e redução de impostos, para se reorganizar e recuperar. Vem a Lisboa onde se demora ano e meio pedindo apoios directamente. Regressa a Mossâmedes sem nada e só passados seis anos lhe dão resposta com despacho miserável. Não recupera dos prejuízos e dívidas dos cinco anos que ainda viveu.

Em 14/11/1871, com 62 anos de idade, faleceu, pobre, quando regressava de Luanda, ao serviço da comunidade, vítima de uma pneumonia dupla. O povo de Moçâmedes nunca o esqueceu, ao contrário da sua terra. Nunca é tarde para, ao menos, perpetuarmos a sua memória e divulgarmos o seu honroso e épico percurso de vida. A oportunidade vai surgir em Novembro do ano 2009 por ocasião do bicentenário do seu nascimento. Tem a palavra o povo de Nogueira.
Poderão, os mais cépticos, questionar o que fez Bernardino em Nogueira do Cravo, sua terra natal. Os promotores desta justa homenagem não têm dúvidas do quanto ele fez por Nogueira do Cravo. Lendo as fonte impressas a que no final fazemos referência, os muitos textos que circulam na internet, o reconhecimento do mérito pela diáspora angolana, ou ainda o que dele escreveu o poeta Padre Gil Duarte “


Bicentenário do Nascimento de Bernardino - Parte II

Resumo do percurso de vida de um grande líder.

CONTERRÂNEO
14/12/1809- Baptizado/Nascimento em Nogueira do Cravo.

ESTUDANTE
1829- 1º Ano de leis na Universidade de Letras Coimbra
1830- 2º Ano de leis
1831- Não matriculado.

POLÍTICO
1831 - Não aparece matriculado no 3º ano da Universidade, dada a inflamada atmosfera política adversa aí vivida. Ele que, enquanto político, dizia no atestado do seu comportamento “Tem mostrado em todo o tempo grande adesão ao nosso adorado monarca o Senhor D. Miguel I não cessando de vociferar pela defesa dos seus inaudíveis direitos...).

MILITAR
1831/1834- Alistou-se no exército voluntário realista de D. Miguel, como Tenente de Caçadores, participando na guerra civil, defendendo os ideais absolutistas, contra o exército liberal de D. Pedro IV.
26/05/1834- Assina-se a convenção de Évora Monte. O monarca derrotado tem 15 dias para abandonar o país. Bernardino tem 25 anos.
01/ 06/1834- D. Miguel parte para o exílio depois de dissolvidos os seus regimentos. Acabara a guerra, mas não principiara a paz. Após a capitulação, Bernardino envolve-se num plano para devolver o trono a D. Miguel.
1835- Entretanto e para acabar com as guerrilhas, foram convocados pelo Governador Civil Henriques Seco para uma reunião em Gavinhos (Convenção de Gavinhos) os representantes de miguelistas e liberais, que teve como consequência estabelecer a paz política na região, o que não evitou a continuação de escaramuças nas quais se envolveu Bernardino.
1837- Revolta na Serra da Estrela. Juntamente com seu irmão Alexandre e Dr. Luiz Paulino de Figueiredo Fragoso de Abreu (seu parente, amigo, conterrâneo e chefe da rebelião) participa, para aclamar de novo, como rei, o senhor D. Miguel. Derrotado, deixa Nogueira do Cravo, foge com seu irmão para Porto da Balsa na Pampilhosa da Serra. Furta-se assim à captura e justiça do vencedor e esgueira-se das Beiras para Lisboa.

JORNALISTA
Bernardino passa a viver na clandestinidade em Lisboa. Faz-se jornalista, colabora no órgão Alcance e, mais tarde, trabalha assiduamente no jornal Portugal Velho, também clandestino e que defende os ideais absolutistas, enquanto outros companheiros continuam as guerrilhas contra o governo. Neste jornal fará parte do corpo de redacção.
04/08/1838- Estes jornais tiveram o seu fim com a Constituição Setembrista, dado serem órgãos do partido absolutista.

EXILADO
1839- Exila-se voluntariamente e emigra para o Brasil, fixando-se no Estado de Pernambuco. Renuncia a toda a actividade política. Assim, estando longe da metrópole, alheava-se mais das actividades do Governo Português.

PROFESSOR
Dedica-se ao ensino no Colégio Pernambucano onde fez parte do corpo docente, regendo as cadeiras de História, Geografia e Latim. Terá fundado um jornal.

ESCRITOR
Como erudito professor e para desempenhar a sua profissão dedica-se a um estudo aprofundado da História. Publicou algumas obras de índole didáctica, sendo a mais importante a História Geral (1841), em seis volumes: 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o 2º. Sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. Sobre a História Antiga e Grega, o 4º. Sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º. Sobre a História Moderna e o 6º. Sobre a História de Portugal e do Brasil. Em 1845 edita o Compêndio Elementar de Chronologia e em 1847 o romance histórico, descritivo, moral e crítico, Nossa Senhora dos Guararapes.
Destes livros possuímos este romance. Segundo M.J.Mendonça Torres que em 1949 contactou um parente, já falecido, este possuía a obra completa.
1844- Entretanto na Assembleia Provincial de Pernambuco é proposta a expulsão de portugueses solteiros, como é o caso de Bernardino. Há um movimento de hostilidade dos naturais, contra aqueles que, nascidos na Europa, faziam a sua vida no Brasil, como acontecia no restante continente americano.
8-9-10/12/1847- Violência no Brasil com arruaceiros, exigindo a expulsão dos portugueses solteiros.

PATRIOTA
13/07/1848- Do Recife, endereçou uma carta ao Ministério da Marinha e Ultramar, solicitando mapas e relatórios sobre Angola com informações detalhadas. Pede auxílio material que permita o transporte de pessoas e bens desde o Recife até ao local a definir em Angola. Entretanto organiza uma colónia agrícola de povoadores.
O Governo faz a proposta no parlamento para a afixação da colónia em Mossâmedes. Recebe (Bernardino) através de Luz Sariano do Ministério um relatório detalhado, com mapas, memórias e tudo-“Memórias sobre a Angra do Negro”. Através destas é dado todo o apoio de auxílio e meios de deslocação solicitados e envia-lhes os barcos “Douro e Vila Flor” para a sua segurança do Recife.
26/10/1848- O Governo resolve aceitar o oferecimento dos colonos portugueses atendendo à pretensão de Bernardino e faz expedir a portaria n.º 2063. “Mandar expedir as providências necessárias para a passagem dos mencionados portugueses, para o lugar das possessões em África, que por eles for escolhido.”
26/12/1848- Nesta data é criada no Recife uma comissão especial, presidida pelo Cônsul de Portugal, Bernardino e mais quatro portugueses. Mas, segundo Castro Alves, reuniram-se a primeira vez em 23/01/1849 os dois primeiros e só em 27/01/1849, foi alargada aos restantes.
31/01/1849- O Diário de Pernambuco desta data, publicou um edital datado de 29/1, em que o presidente comunicava que o Governo concedia as seguintes facilidades... (atrás referidas: passagens, sustento e facilidades...).
02/02/1849- Ataque das forças do Praieiro no Recife, em que nomeadamente os portugueses têm a ajuda dos dois brigues acima referidos.
27/03/1849- Começa a funcionar a comissão, que leva a que tudo esteja pronto para o embarque de modo a dirigirem oportunamente a viagem dos colonos para o porto que escolhessem, em qualquer das províncias d`Africa.
29/03/1849- O Governo-geral de Angola informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o local de Mossâmedes.
15/05/1849- Diário de Pernambuco Noticia “que o cidadão português Bernardino se retira para Moçâmedes, levando na sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça, pode ser apresentada no seu escritório da Rua da Cadeia Velha, n.º 3.... e aqueles que lhe devam contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo António, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se.”
23/05/1849- Às 4 horas da tarde, a colónia saiu do Porto de Pernambuco, rumo a Mossâmedes, na barca brasileira Tentativa Feliz c/166 pessoas (ou 180?), incluindo um cirurgião e um barbeiro, fundeando nessa noite no Lamarão. Estiveram lá todo o dia e saiu no dia 25, seguida do brigue de guerra Douro, encarregado de acompanhar a barca à vela. (há descrição da viagem por Bernardino)

COLONO
01/08/1849- Após dias de viagem entra na baía de Mossâmedes o Brigue Douro, avistando longo areal, servido pelo rio seco Bero.
04/08/1849- Com 74 dias de viagem, desembarcam após a chegada da barca Tentativa Feliz. Na viagem pereceram 8 pessoas. Têm recepção de boas vindas por parte de entidades distritais e indígenas. O Governador-geral que os esperava há dias teve de regressar a Luanda por necessidade de serviço.
16/08/1849- Bernardino segue no brigue Douro para Luanda, a fim de apresentar cumprimentos ao Governador-geral.
22/08/1849- Chega a Luanda onde se demora dois meses, após ter sido recebido pelo Governador-geral “com as mais decididas provas de contentamento”.
13(14)/10/1849- Bernardino é investido no Conselho Colonial de Mossâmedes, após o que faz viagens de estudo.

AGRICULTOR
21/10/1849- Içada a bandeira Portuguesa às 7 horas da manhã, no Vale dos Cavaleiros. Salva de 21 tiros (houve arraial…, foguetes.). O local passa a chamar-se o sítio da Bandeira. Aí Bernardino, líder incontestado de rija têmpera, ergue a sua habitação. Começa então a inspeccionar a região procedendo-se à distribuição de terras na foz do rio Bero no Vale dos Cavaleiros, entre outros lugares, instalam os engenhos agrícolas do açúcar trazidos de Pernambuco e principiam a construção da Capela de Santo Adrião, cuja primeira pedra tinha sido lançada a 27/07/1849, uma semana antes. É que a travessia atlântica foi extraordinariamente lenta e o Governador-geral, de nome Adrião, não pôde esperar. Hoje é a Igreja Paroquial de Santo Adrião.
1850- (Abril) -Bernardino envia, com entusiasmo, ao ministro da Marinha, a primeira amostra de aguardente fabricada na colónia.
13/10/1850- Sai do Brasil mais uma colónia de 145 (125?) emigrantes
26/11/1850- Chega a Mossâmedes esta 2ª colónia com mais 125 pessoas de Pernambuco.

JUIZ
13/12/1852- Decretada a criação do lugar de juiz ordinário de Mossâmedes, cujas funções Bernardino veio a exercer durante vários anos, dando mostras de elevado sentido de justiça.
24/11/1854-Bernardino, em carta dirigida ao Ministro da Marinha, preconiza e consegue a cultura do algodão, menos exigente em água.
26/03/1855- Decretada a elevação de Mossâmedes a vila.
07/05/1855- Por carta régia desta data, Mossâmedes é elevada a Vila.
1856- Existem 36 casas de pedra e 8 de adobe e nasce o Município de Mossâmedes.
22/12/1856- Bernardino elabora o mapa da sua actividade económica, como era exigido pela edilidade, mostrando que o passivo aumentava. A causa foi o incêndio que em Junho desse ano devastou a sua propriedade, destruindo a maior unidade industrial do distrito.
1857- Entretanto a vida segue e bate-se pela abolição da escravatura. Aplica-a na sua fazenda.
1858- Portugal decreta que passados 20 anos, não haverá mais escravos, como se verá em 25/02/1869.
04/08/1859- Décimo aniversário da chegada da colónia. Escritura de Promessa e Voto como testemunho público do seu reconhecimento, conforme texto mais à frente e em que intervém Bernardino.
14/03/1860- O vale dos Cavaleiros, onde se situa a exploração agrícola de Bernardino é invadida e destruída, o que acontece pela segunda vez.
21/04/1860- Por despacho desta data se dá conhecimento que, a bordo do vapor português D. Stephania, viaja para Lisboa o passageiro do Estado, Bernardino. O objectivo da viagem é, uma vez que o Governador-geral de Angola foi impotente para ajudar os agricultores e face à destruição, ir junto do Governo da Nação procurar ajuda e diminuição nos impostos.
Regressa a Mossâmedes, passado ano e meio em Lisboa, sem conseguir o que pretendia.
24/04/1866- O despacho desta data do Conselho Ultramarino, passados seis anos, nada resolve. Nos cinco anos que se seguiram até à sua morte, não consegue refazer-se da totalidade dos prejuízos sofridos. Os seus compromissos jamais puderam ser amortizados. Não mais recupera.
25/02/1869- Data da publicação do decreto que “abole o estado de escravidão em todos os territórios da monarquia portuguesa.”
14/11/1871- Faleceu aos 62 anos de idade, pobremente, quando regressava de Luanda em serviço da comunidade. O povo de lá nunca o esqueceu. E a sua terra natal? Saberá o que dela disse o Patriarca de Nogueira do Cravo?
...


Ainda sobre Bernardino

A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em
Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns
trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião
Praieira. A campanha não limitou-se, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à
agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses
fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial
ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que
muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia.
Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou
em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se
fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de
guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos
emigrantes naquele lugar.
O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo
qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial
(criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco
Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo
concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e
sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais;
"instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada
e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado
(19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de
Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida
em Moçâmedes.
Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife
pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de
nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se
ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e
cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto"
referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192,
que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito,
existentes naquele Arquivo.
O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de
27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para
permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22;
no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-se
para Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando
em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu
escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo
que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se".Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.
A história da emigração para Angola de grande número de portugueses residentes em Pernambuco, em 1849 e 1850, ainda não está conhecida com pormenores, embora existam alguns trabalhos a respeito. O episódio está ligado à campanha anti-lusitana que precedeu a Rebelião Praieira. A campanha não limitou-se, como é sabido, a violentos artigos de jornal, mas foi até à agressão física e ao assassínio de portugueses. Em 13 de julho de 1848, um dos portugueses fixados em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, dirigiu um memorial ao governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas aqui e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde fundassem uma colônia.

Era então ministro do Ultramar o historiador Simão José da Luz Soriano que se interessou em atender o pedido, indicando a região de Moçâmedes, no Sul de Angola, como local para se fixarem. De Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, Douro e Vila Flor, e instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes naquele lugar.

O Diario de Pernambuco de 31 de janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial(criada no Recife em 26.XII.1848 e composta de B. F. F. de Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário), comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias; transporte para móveis e objetos pessoais; "instrumentos artísticos ou agrícolas e de quaisquer sementes"; terrenos na colônia a ser fundada e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Pouco depois foi nomeado (19.1V.I849) em Portugal o Capitão de fragata Antônio Sérgio de Sousa (depois Visconde de Sérgio de Sousa, avô do ilustre escritor Antônio Sérgio), governador da Colônia a ser estabelecida em Moçâmedes.

Aqueles dois brigues portugueses prestaram inúmeros serviços durante o ataque ao Recife pelas forças do Praieiro (2.II.1849), recolhendo a bordo, os seus oficiais, sem distinção de nacionalidade, muitas pessoas que e tão surpreendidas de susto e de terror buscavam auxiliar-se ali, ou na sua aflição iam, inda que a seu pesar, precipitar-se nas ondas que banham as praias e cais desta cidade", diz um agradecimento de J. A. S., no Diario de 10.II, seguido de vários outros, no mesmo jornal de 15 e 16.II.1849. Do brigue "Douro", conserva-se o "livro de quarto" referente a 1848-49, no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Arquivo de navios, códice 1.192, que não me consta tenha sido aproveitado, como aliás muitos outros documentos a respeito, existentes naquele Arquivo.

O ataque ao Recife apressou a partida dos emigrantes. No Diario de Pernambuco de 27.II.1849 começaram a aparecer notícias de pessoas que partiam (exigência da Polícia para permissão de embarque). No Diario de 27 são 7 os nomes; no de 19.III são 10; no de 2.IV são 22; no de 12.IV são 23 e no de 4 são 16. No dia 15 de maio apareceu o de Abreu e Castro: "Retira-separa Moçâmedes o cidadão português Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, levando em sua companhia 3 criados. Qualquer conta que deva na praça pode ser apresentada no seu escritório da rua da Cadeia Velha n. 3... e aqueles que lhe devem contas, mesmo ainda do tempo que dirigiu o colégio Santo Antônio, querendo pagá-las, ali podem dirigir-se". 
Fonte: MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956.

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