Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Baía das Pipas, a origem do nome






A Baía das Pipas foi uma dessas muitas praias, situadas na costa angolana a norte de Moçâmedes e ao sul de Benguela, para onde convergiram a partir de meados do século XIX emigrantes portugueses, de inicio provenientes de Pernambuco (Brasil), em 1849 e 1850 e que ali estabeleceram pequenas pescarias para consumo próprio, que ficavam entregues a serviçais africanos, enquanto viviam em Moçãmedes onde se dedicavam à agricultura e ao comércio, e mais tarde, a partir de 1861, algarvios, maioritariamente olhanenses, que ali se fixaram dedicando-se à pesca, numa luta insana contra todas as contrariedades com que se depararam, com carências de toda a ordem, na busca condições de vida que a pátria mãe lhes negava.  

Trata-se de uma zona piscatória que teve a sua época mas que foi perdendo a importância acabando por se tornar numa zona praticamente despovoada procurada esporadicamente para pescarias desportivas e banhos de mar.

A denominação «Baía das Pipas» ficou a dever-se a um incidente ocorrido no ano de 1842 que levou a Estação Naval Portuguesa a mandar queimar grande número de pipas, destinadas a embarque num navio negreiro, que se encontravam armazenadas na pequena baía ao sul do Mocuio. Esta queima era perfeitamente justificável, dado que segundo as disposições do Decreto de 10 de Dezembro de 1836 de Sá da Bandeira que veio pôr fim ai tráfico de escravos para o Brasil,  deveriam considerar-se como indícios de tráfico o achado, ou seja: «uma quantidade extraordinária de pipas ou barris, quando não cumpridas, por parte do capitão do navio, determinadas formalidades» e «uma quantidade de água em pipas ou tanques, maior do que a necessária para consumo da equipagem dum navio mercante».
 

Retenha-se que Moçâmedes quando nasceu já havia sido abolido o tráfico de escravos por Decreto de 10 de Dezembro de Sá da Bandeira. Porém  houve um período que se estendeu até 1869, quando se deu a abolição defintiva, em que os embarques passaram à clandestinidade e desviaram-se dos portos tradicionais de Luanda e Bengiela para o Ambriz e para pontos da costa, praias desertas a sul de Benguela, na direcção do distrito de Moçâmedes. 

Não será honesto, pois, incriminar os sacrificados colonos, gente trabalhadora, de crimes que não cometeram, mas é necessário que se saiba que  foi após a independência do Brasil, em 1822, e mais propriamente a partir de 1836  que Angola começou  muito lentamente a libertar-se de três séculos de má memória e de má reputação para Portugal e para os portugueses, como entreposto de comércio de mão de obra escrava para aquela colónia,  e começou   a ser olhada em termos de fixação de familas portuguesas, sendo Moçâmedes o maior exemplo.  

Foi pois em Moçâmedes  que as convicções abolicionistas do barão de Sá da Bandeira tomaram corpo, ainda que o Decreto de 10 de Dezembro de 1836, que começara por ser aplicado em relação os navios portugueses a partir de território português, constituisse um marco de referência para os legistas, não tivesse representado de imediato o fim para os traficantes negreiros. O Tratado de Julho de 1842 passou a considerar  pirataria o tráfico que utilizasse barcos portugueses, e o vil negócio passou a ser tolerado como contrabando perigoso para os traficantes que furassem o bloqueio naval.  A maioria  dos comerciantes e elementos das casas brancas e mestiças de Luanda e de Benguela e seus clientes, tendo-se seguido uma longa luta  no decurso da qual puderam contar com colaboração ou com a cumplicidade permissiva de de alguns Governadores  a começar pelo primeiro encarregado de fazer cumprir o Decreto de 1836, Manuel Bernardo Vidal (1837-1839), que foi destituido.
 
 
Com o Governador Geral de Angola Pedro Alexandrino da Cunha, este estado de coisas começou a mudar, ainda que,  mesmo na vigência do Governador os traficantes continuassem a subornar funcionários ou a encontrar  pontos de embarque menos vigiados.  É aqui que segundo André Pellissier, o historiador francês,  numa tentativa de fuga às patrulhas que vigiavam a costa , o  tráfico  desviara as suas rotas para as enseadas mais discretas de Moçâmedes e do Ambriz.  Teria sido o caso da Baía das Pipas, a sul de Benguela,  já no distrito de Moçâmedes. Não consta que na  povoação de Moçâmedes houvesse quintais onde ficavam aprisionados escravos vindos do sertão a aguardar o embarque para o Brasil ou para as Américas. Não consta que comerciantes de Moçâmedes tivessem redes de traficantes e  que se servissem do vil negócio. Aliás não faria sentido que  Moçâmedes, fundada  12 anos após o promulgação do Decreto de Sá da Bandeira, numa época em que navios patrulhavam a costa na luta contra o tráfico negreiro, se abrisse ao proibido negócio.  Sabe-se sim que, com a fixação de colonos portugueses a partir de meados do século, os negreiros passaram a lutar em duas frentes, contra o poder central e contra os utilizadores da mão de obra servil, seus concorrentes. É o que explica certa animosidade existente na época entre Benguela e Moçâmedes, onde se experimentava um novo paradigma colonial que tinha que atrair a mão de obra disponível em seu favor..

Sabe-se que os escravos que iam sendo libertados dos navios aprisionados não ganhavam de imediato a liberdade e que, transformados em «libertos», um meio termo entre o escravo e o livre. ficavam a aguardar em Luanda, que o Governo procedesse ao seu envio como mão de obra  considerada necessária e imprescindível ao desenvolvimento do território angolano. 

Sabe-se que para Moçâmedes e Capangombe foram enviados pelo Governo Geral  contingentes de  brancos «degredados» e  de negros «libertos»  que se encontravam retidos em Luanda. A própria lei portuguesa da época favorecia essa possibilidade, consciente de que de outro modo não seria possível levar para a frente a colonização.


Pesquisa e texto de MariaNJardim

Alguma bibliografia consultada:

-História das Campanhas de Angola: Resistências e Revoltas - vol. 1 Rene Pelissier

-Decreto de 10 de Dezembro de 1836, de Sá da Bandeira

-texto sobre «Escravidão e Revoltas de Escravos em Angola» (1830-1860) de Roquinaldo Ferreira



1 comentário:

  1. E engraçado baia das pipas onde morava a minha avo e bisavó encontrei esta foto pq pensava que encontrava fotos da minha mae no concurso miss moçamedes 1972 nome ( Elsa jardim)

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