Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Professor Carriço: explorações científicas no deserto de Moçâmedes




Sobre o KANE-WIA, o mítico morro do Namibe, transcrevo o texto que segue:
 
«No interior da província do Namibe, em Angola existe, próximo do Virei, um morro conhecido pelo nome de Kane-Wia, termo que, em idioma Tchierero (língua dos Mucubais) significa “quem o subir não volta” ou "quem sobe não volta". Contava-me o meu avô (João Craveiro de Tombwa) que nunca ninguém ousou subir este morro porque as histórias contadas pelos Mucubais referiam que quem subisse este acidente geográfico não mais regressaria. Portanto, O Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”. »

Do blog de Namibiano Ferreira





 
Carrisso no Deserto do Namibe, com um mucubal


carrmend

Carrisso e Mendonça no Deserto do Namibe, junto a uma Welwitschia

Carrisso e o Herbário de Coimbra

Fátima Sales (2007)

(adaptado de Sales, F. 2005. Carrisso: implicações no desenvolvimento da Botânica. In: Freitas, H., Amaral, P., Ramires, A. & Sales, F. Eds. Missão Botânica, Angola (1927-1937). Imprensa da Universidade: Coimbra)

O espólio do Herbário COI tem sido enriquecido com as contribuições científicas de vários botânicos. Um dos seus directores, Luíz Wittnich Carrisso, contribui em muito para a sua larga colecção de plantas africanas, quer pelas expedições que organizou a Angola durante as quais foi colhido grande quantidade de material, quer pelo legado de entusiasmo pela investigação das plantas dessas paragens.

Carrisso nasceu na Figueira da Foz a 14 de Fevereiro de 1886, filho de Ignácio Augusto Carrisso e da holandesa Leopoldina Wittnich. Faleceu repentinamente de síncope cardíaca aos 51 anos a 14 de Junho de 1937 no deserto do Namibe (Mossamedes), em Angola, no final da sua terceira expedição científica a este país. Por esta altura Carrisso tinha uma longa história de homem das ciências e homem público; era há 19 anos Professor Catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e Director do Instituto Botânico Júlio Henriques. Estava acompanhado por sua esposa, Ana Maria de Sousa Wittnich Carrisso, Francisco da Assunção Mendonça (naturalista do Instituto Botânico de Coimbra), Jara de Carvalho (assistente do Instituto Botânico de Coimbra), Francisco de Sousa (colector do Instituto Botânico de Coimbra), Arthur Wallis Exell (naturalista do British Museum, Londres) e esposa e o John Gossweiller (botânico suíço ao serviço de Portugal em Angola).


A 1 de Junho de 1927 Carrisso e Mendonça partiram para a primeira Missão Botânica a Angola. A verba era pouca e, portanto, a organização foi modesta contando apenas com material simples para herborizações e equipamento fotográfico. Viajaram em condições difíceis como era, aliás, costume na época em África e está patente em várias memórias fotográficas. Mais de metade do tempo passam-no na zona remota do noroeste de Angola mas também visitaram o deserto do Namibe (Mossamedes). Foram ainda a Cabinda e ao Congo Belga. Chegaram a Lisboa a 13 de Dezembro do mesmo ano com grande quantidade de material vegetal.Totalmente enfeitiçado por África (quantos o não ficam??), Carrisso regressou a Portugal e, de imediato, planeou a segunda expedição, a qual teve lugar em 1929, e teve o título “Missão Académica a Angola”. A expedição foi pensada com um grande sentido pedagógico, como uma grande aula prática de campo. Nela participaram 22 pessoas entre professores universitários de todo o país, alunos universitários dos últimos anos, Mendonça, Carrisso e Ana Maria, sua esposa.

A experiência científica e pessoal constituiu qualquer coisa de único na vida dos aprendizes de expedicionários tendo-se estabelecido uma ligação profunda entre os elementos do grupo. Partiram de Lisboa a 10 de Agosto, percorreram 6.000 km em Angola onde estudaram a flora, a fauna, as potencialidades económicas, as condições de vida social e os problemas locais. A viagem fez-se, primeiro de barco, ao longo da costa, depois utilizando o sistema ferroviário e depois por estrada. De regresso passaram por São Tomé onde admiraram a sua vegetação tropical. Durante estas duas explorações científicas a Angola foi colhido muito material vegetal. Durante 3 anos Carrisso e Mendonça prepararam um Syllogue Florae Angolensis do material colhido [sumário de colecção de exemplares]. Ao trabalhar com esse material, arquivá-lo, determiná-lo e tentar lidar com a sua nomenclatura foi reconhecida a necessidade de, como recomenda a boa metodologia taxonómica, compará-lo com a maior quantidade de material possível e estudar a bibliografia relevante.

Nesse tempo não havia nem grandes colecções de África em Coimbra nem uma biblioteca adequada; como colaborador, Carrisso contava apenas com Mendonça. Dado que as melhores colecções e conhecimentos sobre a flora de Angola estavam em Londres, no British Museum Carrisso estabeleceu, então, uma colaboração oficial entre o Conselho da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e o British Museum para a elaboração da obra Conspectus Flora Angolensis, obra de âmbito incomparavelmente maior do que o preliminar Syllogue. Em 1934 convidou Exell (naturalista experimentado em trabalho de campo e de herbário) para tomar conhecimento dos trabalhos já iniciados em Coimbra. Convidou Gossweiller com o mesmo objectivo. Organizou a visita de Mendonça aos herbários de Londres e Berlim-Dahlem tornando-o num naturalista cosmopolita. Passaram-se quase 7 anos na elaboração deste primeiro fascículo do volume 1 do Consp. Fl. Angol. Durante este tempo tornou-se óbvio que as expedições florísticas a Angola não se podiam dar por terminadas. Preparou-se, então, a terceira missão. Do ponto de vista científico esta terceira expedição foi a melhor organizada, e foi a mais frutuosa do ponto de vista botânico. Havia mais experiência e melhor conhecimento da área a explorar; os anos de estudo da flora tornaram os objectivos mais precisos; a equipa tinha o número ideal de botânicos experientes. Em Fevereiro de 1937, poucos dias depois de publicado o primeiro fascículo do Conspectus Flora Angolensis, Carrisso e os seus companheiros de Coimbra partiram de Lisboa rumo a Luanda. Lá juntaram-se a Exell, sua esposa e Gossweiller e iniciaram uma viagem em que colheram cerca de 25.000 exemplares de herbário. Esses exemplares têm sido um contributo precioso para a elaboração do Conspectus (ainda hoje inacabado) e outros estudos florísticos na área de Angola. No total, as três viagens somaram cerca de 30.000 km, mais do que os 28.000 km da rede de estradas de Angola à altura.

O material de herbário colhido durante estas expedições foi juntar-se às colecções do alemão Friedrich Welwitsch (1806-1861) e Gossweiller constituindo o todo material de referência de uma parte muito interessante de África. De facto, Angola estende-se dos paralelos 5º (incluindo Cabinda) – 18ºS e dos meridianos 12º –24º E, ou seja, cobre uma variedade enorme de habitats, da floresta tropical ao deserto, da orla marítima, passando pela longa escarpa até ao vasto planalto interior o qual, no seu extremo este, vê passar o rio Zambeze. Espécies novas descritas de Angola têm muitas vezes distribuição ou em todo o sul da África ou na África central — daí a grande importância destas colecções históricas. Carrisso foi mais um homem de acção, um explorador, um condutor de homens e eventos, do que um investigador de laboratório ou de herbário. Não deixou muitos artigos científicos escritos pelo seu próprio punho; mas ficou memória de várias conferências vibrantes e sempre, sempre frontais na apreciação que fazia da sociedade portuguesa.
wel
Segunda-feira, 14 de Junho de 1937. O deserto de Mossamedes (Namibe) pela terceira vez. Expedição a 102 km a sul da cidade de Mossamedes (Namibe). Acampamento a 2 km do Morro das Paralelas. A expedição subia o morro e colhia plantas. Carrisso sentiu-se mal e foi rodeado por Ana Maria e Jara de Carvalho. A expedição regressou aos veículos, Carrisso pelo seu pé, sem ajuda, já se sentindo melhor. À beira da tenda, um cajado numa mão, um molhe de plantas na outra, enquanto lhe preparavam a cama de campanha acabou por concordar que fosse chamado um médico a Mossamedes (Namibe). Deitou-se e ajeitou-se na cama (Cristão, 1937). Não teve filhos. Publicou artigos científicos. Colheu plantas. Semeou ideias.Texto integral AQUI
........................................................................................................................................................................

------------- "ALGURES NO DESERTO DE MOÇAMEDES" ------------

..." Quem sai de Moçâmedes pela estrada asfaltada em direcção a Porto Alexandre, percorridos cerca de dezassete quilómetros, encontra à esquerda a estrada-picada que, remando ao Pico do Azevedo, alcança o Virei, o Cainde e o Planalto da Chela : era em tempos idos o caminho dos candongueiros do peixe seco que, fugindo à fiscalização, por ali se aventuravam naquela época, em que o Posto Administrativo do Cainde era o único obstáculo a enfrentar, cujo chefe estava quase sempre ausente na Chibia (área do Concelho a que pertencia) e que mais tarde passou a área do Distrito de Moçamedes, que construiu a Sede da Circunscrição do Virei num local desértico em que um afloramento de água matava a sede às gazelas e era o ponto onde os ditos candongueiros descansavam para à noite galgarem os contrafortes da Chela. Eram homens batidos, que agarrados aos seus camions, atravessavam o arenoso rio Cubal (em Moçamedes o Bero), percorrendo caminhos pedregosos, sempre a subir até à Hunguéria, último "treck" que ligava ao Planalto.

É nessa estrada-picada, a cerca de meio caminho entre o Pico do Azevedo e o Virei que, quem fôr com atenção encontram junto à berma da estrada uma abandonada lage alusiva ao ali falecido botânico Luiz Wittnich Carrisso, que fora professor da Universidade de Coimbra, um notável catedrático (1886/1937). Estudou a flora tropical e foi autor dfe "Flores de África", "Agrostologia de Angola" e "O Problema Colonial perante a Nação", etc.

Aquele homem sucumbiu no seu posto, naquele sítio ermo, onde a curiosa Welwitschia não medra e as Suricatas vegetam a par de uma ou outra Tua pernalta e os arbustos, certamente por ele estudados, mais densos à volta daquela modesta laje , perecem querer protegê-lo do sol ardente que ali se faz sentir; qualquer pessoa de formação cristã que ali se apeie, sente a tristeza daquele quadro abandonado e, ao ler o epitáfio naquela laje gravado, nostalgicamente não deixará de ali fazer uma oração em homenagem a tão ilustre botânico.



Desconhecendo a causa que o vitimou, não posso deixar de recordar os velhos pioneiros do deserto e suas zonas limítrofes que, se falassem, poderiam fazer alguma luz sobre aquele caso de uma época remota da tipóia e do Boi Cavalo que, com os carregadores se aventuravam na vida, bebendo águas inquinadas, sujeitos ao paludismo e à Biliosas.
Só mais tarde, com o aparecimento do carro boer, cuja lentidão das longas juntas de bois que o atrelavam, lhes transmitiam mais segurança, começaram a penetrar no sertão, abrindo trilhas aos lugares susceptíveis de água e contacto com o gentio. Muitos por lá ficaram vitimados pela malária e as Biliosas (doença transmitida por um vírus africano), cuja imobilidade era, para esses casos, a mais recomendada, impossibilitando-os de procurarem recursos".

-- (Artigo de ANTÓNIO LUIS CORREIA, ex-residente na CHIBIA e LOBITO)--
in Blog AngolaBrasilPortugal
...............

Missão Académica a Angola
Alguns Aspectos Cinematográficos da Viagem
(reportagem da segunda expedição, realizada em 1929)


Para saber mais, clicar AQUI
e AQUI
 Monumento no Deserto do Namibe ao Dr. Carrrisso
 Welwitschia Mirabilis
Para mais informação: ver AQUI
e AQUI

 http://www.publico.pt/portugal/noticia/neste-powerpoint-dos-anos-1930-esta-um-capitulo-da-ciencia-colonial-1682072

2 comentários:

  1. Prof. Carriço sócio honorário da Royal Geographical Society Londres UK

    Este blog é um fabuloso documento histórico
    F. Lima

    ResponderEliminar