
Estas são as casas da ex-Rua 4 de Agosto, rua perpendicular ao mar que tinha início na Avenida da Praia do Bonfim, passava pela Câmara Municipal, e subia até à estrada da Circunvalação. Nesta rua moraram noutros tempos, entre outros, a família Carvalho, a família Tendinha, Constantino e Aurélia do Ó Faustino, e na 1ª casa, à dt. ficava a Igreja Evangélica.
São casas térreas, de traça tipicamente portuguesa, cujo interior, regra geral, é dividido a meio por um corredor que separa duas alas onde ficam os quartos, e as salas, sala de jantar e sala de visitas, terminando com uma «marquize» a toda a largura da casa, e com um pequeno quintal/jardim, onde ficava a cozinha, a dispensa e a casa de banho.
Com a construção destas casas, a cidade de Moçâmedes avançou um pouco mais deserto adentro, porém terminavam aqui as casas de traça tradicional portuguesa que ficaram a caracterizar a parte central da cidade. Em seguida, veio a época das vivendas, que começaram paulatinamente a invadir as areias do deserto, para o que contribuiu a criação em finais da década de quarenta da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe» e a adesão crescente de associados interessados a virem um dia, por sorteio, número de ordem, ou por antecipação de capital, a concretizar o sonho de adquirirem direito à sua habitação.
Em Angola não havia a concessão de créditos bancários destinados à construção e compra de habitação própria, e quando esta Cooperativa começou a expandir-se em termos de grandeza, foi grande a luta dirigida pelo seu presidente, Mariano Pereira Craveiro para obter legislação conducente à construção de habitação por facções, bem como os susbsequentes normativos para a regulamentação dos condóminos.
Foi, pois, com a grande ajuda desta Cooperativa que Moçâmedes foi aos poucos deixando de ser apenas aquela cidadezinha onde dominava uma arquitectura de velha traça portuguesa, para se encher de lindas e floridas vivendas, ao mesmo tempo que novas ruas, e avenidas eram rasgadas, e bonitos jardins iam tendo lugar. Importa pois ter presente, que, não fosse o sistema Cooperativo, Moçâmedes teria, neste aspecto, um ritmo de desenvolvimento bastante mais lento, na medida em que, à época, era uma terra onde economicamente raros se destacavam, com excepção daqueles que tinham interesses na indústria piscatória, no Comércio e dos poucos dedicados à Agropecuária.
Citando o exemplo de mim própria, direi que aos 7 anos de idade os meus pais inscreveram-se como sócia da Cooperativa «O Lar Namibe», tendo começado a partir daí a pagar uma determinada quotização mensal. 25 anos depois, em 1972, adquiri o direito à construção. Poderia ter sido contemplada por sorteio, como poderia ter sido contemplada por nº de ordem, antecipando desse modo a construção. Podia até, se dispuzesse de dinheiro fazer uma oferta em leilão. Não foi isso que aconteceu, porque nunca encontrei na minha terra a tal «árvore das patacas» que muitos lá ao longe julgavam existir. Tive que esperar 1/4 de século, o tempo limite para aquisição do referido direito, porque ao fim desse tempo ainda não havia conseguido as economias necessárias para avançar por minha conta para a construção. Foi necessário 1/4 de século de sacrifícios e privações para que esse sonho viesse a ser possível, porque os Bancos, na altura, não emprestavam dinheiro a juros para compra de habitação.
A minha habitação, fruto de sacrifícios e privações, ficou pronta nas vésperas da independência. Limitei-me a fechar a porta, a dizer-lhe adeus, bem como a dizer adeus para sempre, à cidade que me viu nascer e que fora berço dos meus filhos e onde haviam nascido os meus pais. Sobre o recheio da minha habitação (que incluia toda a sorte de coisas ali deixadas por mim, bem como de familiares e amigos em pânico que ali as foram depositar quando da diáspora), soube mais tarde que fora levado para algures em Angola, num qualquer camião, por guerrilheiros da UNITA (*) em fuga, nos momentos a seguir à independência de Angola, aquando da recuperação pelo MPLA, da cidade de Moçâmedes. Com o recheio, foram as coisas mais caras para mim: os albuns das minhas recordações, os quadros a óleo que durante tantos anos pintei, o enxoval totalmente feito e bordado por mim. Quanto ao resto, custou, mas já me habituei, até porque posso considerar-me uma das felizes contempladas da sorte em terras de Portugal. Contemplados da sorte, porque cheguei a Portugal em 1975, de mãos vazias é certo, mas, felizmente com emprego, e como referi, em menos de um ano, graças à facilidade dos Bancos ao crédito para habitação, consegui aceder de maneira muito facilitada à habitação própria. Comparando com a situação anteriormente descrita, seria caso para dizer: afinal onde ficava essa famosa «árvore das patacas»? É que em Angola nunca a vi!
MariaNJardim
Foto gentilmente cedida por: Ruca/Cubal:
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http://cubal-angola.blogspot.com/
São casas térreas, de traça tipicamente portuguesa, cujo interior, regra geral, é dividido a meio por um corredor que separa duas alas onde ficam os quartos, e as salas, sala de jantar e sala de visitas, terminando com uma «marquize» a toda a largura da casa, e com um pequeno quintal/jardim, onde ficava a cozinha, a dispensa e a casa de banho.
Com a construção destas casas, a cidade de Moçâmedes avançou um pouco mais deserto adentro, porém terminavam aqui as casas de traça tradicional portuguesa que ficaram a caracterizar a parte central da cidade. Em seguida, veio a época das vivendas, que começaram paulatinamente a invadir as areias do deserto, para o que contribuiu a criação em finais da década de quarenta da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe» e a adesão crescente de associados interessados a virem um dia, por sorteio, número de ordem, ou por antecipação de capital, a concretizar o sonho de adquirirem direito à sua habitação.
Em Angola não havia a concessão de créditos bancários destinados à construção e compra de habitação própria, e quando esta Cooperativa começou a expandir-se em termos de grandeza, foi grande a luta dirigida pelo seu presidente, Mariano Pereira Craveiro para obter legislação conducente à construção de habitação por facções, bem como os susbsequentes normativos para a regulamentação dos condóminos.
Foi, pois, com a grande ajuda desta Cooperativa que Moçâmedes foi aos poucos deixando de ser apenas aquela cidadezinha onde dominava uma arquitectura de velha traça portuguesa, para se encher de lindas e floridas vivendas, ao mesmo tempo que novas ruas, e avenidas eram rasgadas, e bonitos jardins iam tendo lugar. Importa pois ter presente, que, não fosse o sistema Cooperativo, Moçâmedes teria, neste aspecto, um ritmo de desenvolvimento bastante mais lento, na medida em que, à época, era uma terra onde economicamente raros se destacavam, com excepção daqueles que tinham interesses na indústria piscatória, no Comércio e dos poucos dedicados à Agropecuária.
Citando o exemplo de mim própria, direi que aos 7 anos de idade os meus pais inscreveram-se como sócia da Cooperativa «O Lar Namibe», tendo começado a partir daí a pagar uma determinada quotização mensal. 25 anos depois, em 1972, adquiri o direito à construção. Poderia ter sido contemplada por sorteio, como poderia ter sido contemplada por nº de ordem, antecipando desse modo a construção. Podia até, se dispuzesse de dinheiro fazer uma oferta em leilão. Não foi isso que aconteceu, porque nunca encontrei na minha terra a tal «árvore das patacas» que muitos lá ao longe julgavam existir. Tive que esperar 1/4 de século, o tempo limite para aquisição do referido direito, porque ao fim desse tempo ainda não havia conseguido as economias necessárias para avançar por minha conta para a construção. Foi necessário 1/4 de século de sacrifícios e privações para que esse sonho viesse a ser possível, porque os Bancos, na altura, não emprestavam dinheiro a juros para compra de habitação.
A minha habitação, fruto de sacrifícios e privações, ficou pronta nas vésperas da independência. Limitei-me a fechar a porta, a dizer-lhe adeus, bem como a dizer adeus para sempre, à cidade que me viu nascer e que fora berço dos meus filhos e onde haviam nascido os meus pais. Sobre o recheio da minha habitação (que incluia toda a sorte de coisas ali deixadas por mim, bem como de familiares e amigos em pânico que ali as foram depositar quando da diáspora), soube mais tarde que fora levado para algures em Angola, num qualquer camião, por guerrilheiros da UNITA (*) em fuga, nos momentos a seguir à independência de Angola, aquando da recuperação pelo MPLA, da cidade de Moçâmedes. Com o recheio, foram as coisas mais caras para mim: os albuns das minhas recordações, os quadros a óleo que durante tantos anos pintei, o enxoval totalmente feito e bordado por mim. Quanto ao resto, custou, mas já me habituei, até porque posso considerar-me uma das felizes contempladas da sorte em terras de Portugal. Contemplados da sorte, porque cheguei a Portugal em 1975, de mãos vazias é certo, mas, felizmente com emprego, e como referi, em menos de um ano, graças à facilidade dos Bancos ao crédito para habitação, consegui aceder de maneira muito facilitada à habitação própria. Comparando com a situação anteriormente descrita, seria caso para dizer: afinal onde ficava essa famosa «árvore das patacas»? É que em Angola nunca a vi!
MariaNJardim
Foto gentilmente cedida por: Ruca/Cubal:
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Amigo
ResponderEliminarA 1ª casa que se vê era a Igreja Evangélica, a segunda era a dos meus avós e da minha infânçia, que saudades.
Sou neta do Sr. Constantino do D'Ó Faustino e da Sra. Aurélia Faustino.
Que alegria ver ali a casa que me viu crescer.
Um beijo
Obg Carla
ResponderEliminarJá acrescentei as suas dicas.
Bjs