O JARDIM DA COLÓNIA
O «Jardim da Colónia» para onde esteve projectado um monumento
aos pioneiros. do qual existe a maquete abaixo, naturalmente arquivada no
Municipio da cidade. Foi o primeiro jardim público de Moçâmedes, assim denominado em
homenagem às 1ª e 2ª colónias de emigrantes que ali aportaram em 1849 e
1850, vindos de Pernambuco (Brasil), e que ficaram a marcar a data da
fundação da cidade.
Situado a poente do edifício da Alfândega, no local onde
no início da colonização se ergueram os primeiros barracões montados
para lhes servirem de alojamento, sobre o pequeno «Jardim da Colónia»,
recolhi informações, de o mesmo se encontrava cuidadosamente tratado pelos
serviços da Câmara Municipal, e apresentava um aspecto viçoso, imprimido
pela profusão de arbustos que contrastavam com a aridez do solo
circunvizinho. Além dos embelezamentos arbustivos que o adornavam, haviam sido ali colocados 12 bancos de jardim que em 1869 se
encontravam vistosamente pintados, bem assim como portas e
gradeamentos. Também existia ali, na mesma altura, um lago e a
necessária "cacimba" de onde era retirada, à bomba, a água para a rega. À
tarde, aos domingos e às quintas feiras, era costume reunirem-se no
Jardim da Colónia uma quantas pessoas para ouvirem as sessões musicais
proporcionadas pela "Banda de Caçadores 3 aquarteladas na Fortaleza de
S. Fernando.

Para este jardim chegou a estar projectado, já no início
do século XX, a colocação de um monumento, entre verduras e
flores, destinado a perpetuar a memória dos pioneiros da fundação de
Moçâmedes (hoje Namibe), e a embelezar a cidade, despertando
"sentimentos de sã moralidade, de amor pátrio, de admiração e encanto pela Arte", dizia-se então. Para o efeito
, em
4 de Agosto de 1919 chegou a realizar-se
no Jardim da Colónia,
com grande solenidade, a cerimónia de
lançamento da primeira pedra, tendo em 1924 a Câmara Municipal de
Moçâmedes solicitado a José Augusto da Cunha Morais, o aconselhamento e
a sua preciosa colaboração escolha na escolha de um dos melhores
escultores portugueses em mármore e bronze
, porém
nenhum outro passo foi dado mais adiante no sentido de ser
levada para a frente essa ideia.
"Simões de Almeida aquiesceu. A
«maquetta» que modelou , veio mais uma vez confirmar , o fino
temperamento, a surpreendente originalidade, e o alto poder de concepção
do grande artísta."
Do monumento, sabe-se que:
"...Num «baixo relevo» que há-de comportar cerca de dezoito figuras,
vê-se representada a «primeira colónia» esmagada pela adversidade; - os
debilitados pelas doenças, as mulheres e crianças numa prostração
dolorida de abatimento; de pé, um grupo dos mais robustos e animosos;
e, entre eles, o seu prestimoso chefe da apontar um navio que, se
divisa ao longe, trazendo a bordo a «segunda colónia» que a todos vem
confortar e ajudar, para que possam prosseguir mais esperançados a obra
iniciada. Encimando o monumento, avulta, numa atitude magnifica de
triunfo, a bem proporcionada figura dum «pescador», como símbolo da
principal industria do Distrito. E, o lado, grave e solene sobressai da
alvura do mármore, o Brasão de Armas do Município em bronze. A
«maquette» é um esbocêto de exíguas dimensões, e nele, por isso, o
escultor não pôde, com perfeita nitidez, fixar expressões, nem marcar
perspectivas. Estes e outros detalhes, porém, serão pelo artista
convenientemente desenvolvidos na execução do trabalho definitivo.
A «maquette» mostra-nos, contudo, o que virá a ser o monumento no seu
conjunto geral.
Quanto
ao prestimoso Chefe aqui referido, a apontar para um navio
que se divisa ao longe, entenda-se a figura de Bernardino Freire de
Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ªcolónia chegada a Moçâmedes, na
Barca "Tentativa Feliz", capitaneada pelo Crigue Douro, a 04 de Agosto
de 1849, para dar início ao povoamento branco da região. Sobre navio que
se divisa ao longe, trata-se também do "Brigue Douro", desta vez
acompanhando a "Barca Bracarense" que transporta consigo a 2ª colónia
que a
todos veio ajudar e dar ânimo, para que pudessem continuar a obra
iniciada.
Transcreve-se na íntegra o texto que segue e
que testemunham a carência de meios que existia na época entre a
comunidade moçamedense e no seio da própria Câmara Municipal que não
conseguiu levar por diante o referido projecto, não obstante a promoção
de um espectáculo para recolha de fundos no então Cine Teatro Garrett e
de um desafio de futebol realizado para o mesmo efeito:
"...O
escultor calculou em seis mil escudos o custo do monumento. E dos
livros de escrituração da Câmara Municipal, verificamos que para
aquisição se encontrava por enquanto depositado no Banco de Angola uma
importancia insignificante. Um pouco mais de quatro mil e quinhentos
angolares. Proveio esta importância de um espectáculo promovido no
Teatro Garrett, pelo autor Tomás Vieira e por um desafio de «foot-ball»
entre funcionários da Alfândega e da Fazenda, e ainda vários
oferecimentos feitos por particulares. Para o que falta, que é quase
tudo! Pensa-se em realizar uma grande festa, abrir subscrição e
conseguir no Orçamento da Câmara um verba especial. É, pois, de crer que
desta vez venha a ser um facto o monumento, maravilhando pela sua
beleza, a recordar o gesto ousado dos fundadores do Distrito, e a
exprimir o preito agradecido dos filhos da terra à gloriosa memória dos
seus ilustres avós.
Alguns pormenores sobre a maqueta:
"...O Sr. Cunha Morais, que fundara com Emilio Biel essa publicação
notabilíssima que se chama «Arte e a Natureza», em que colaboram os mais
brilhantes espíritos do país, mantinha há largos anos com pintores e
artistas, relações pessoais muito amistosas, nascidas da comunhão de
trabalho e convívio intelectual. Versando em assuntos de arte, e
conhecedor do nosso meio artístico, prontamente lhe acudiu à lembrança o
nome já consagrado de Simões de Almeida, Sobrinho, o elegante
estatuário da Criança, do Riso, ds Ninfas do Mondego, o dedicado
medalheiro do Xaá, de Madame X, das Crianças Italianas, o autor de
tantos outros trabalhos de reconhecimento e incontestável mérito. Ao
convite que logo lhe fora feito, Simões de Almeida aquiesceu. A
«maquetta» que modelou , veio mais uma vez confirmar , o fino
temperamento, a surpreendente originalidade, e o alto poder de concepção
do grande artísta.
Assim, não
obastante ter-se chegado a efectuar neste jardim, em 1919, com grande
solenidade, a cerimónia simbólica da colocação da primeira pedra do
monumento, e posteriormente, em 1924, a Câmara Municipal de
Moçâmedes ter confiado a um artista o estudo do monumento, por
anuência do reconhecido amigo da terra, José Augusto da Cunha Moraes, que
aconsehou os melhores escultores de expressar pelo mármore e pelo
bronze, história da colonização do Distrito, o projecto foi abandonado,
e após meados da década de 40 o «Jardim da Colónia» foi pura e
simplesmente desmantelado para dar lugar ao «Cine Teatro de Moçâmedes»
Terminava
aqui, ingloriamente, o sonho da colocação de um monumento destinado a
perpetuar memória dos pioneiros da fundação de Moçâmedes. Este não
seria erigido aqui nem em lado nenhum. Moçâmedes era uma cidade pobre,
possuia uma Câmara pobre, e as autoridades competentes estavam em Angola
para algo mais importante que ajudar os Municipios ou para homenagear
«colonos»!
“... Só em 1924 é que a Câmara Municipal se lembrou de confiar a um artista o estudo do monumento. Para esse fim, dirigiu um oficio ao Sr. José Augusto da Cunha Morais, amigo provadíssimo de Mossâmedes, a solicitar-lhe a obsequiosa anuência em incumbir um dos nossos melhores escultores de expressar, pelo mármore e pelo bronze, a história da Colonização do Distrito. O Sr. Cunha Morais, ,...mantinha, há largos anos, com escritores e artistas, relações pessoais muito amistosas, nascidas da comunhão do trabalho e do convívio intelectual. ....prontamente lhe acudiu à lembrança o nome já consagrado de Simões de Almeida, Sobrinho, ...”
Mais uma vez os Cunha Moraes se encontravam com os Zuzarte de Mendonça na cidade de Moçâmedes...
O fotógrafo José Augusto da Cunha Moraes nas suas
deslocações a Moçamedes terá conhecido Albertina Teixeira Pinto Zuzarte
de Mendonça, filha de Maria Rosa Oliveira Teixeira Pinto e de José Júlio
de Zuzarte Mendonça, Juiz de Paz e Comandante do porto de Moçamedes,
família de grande prestígio naquela região conhecida como a Madeira da
África Ocidental Portuguesa.
José Augusto contraiu
matrimónio com Albertina Mendonça, porém não deixam descendência. As
suas frequentes viagens a Moçamedes acompanhado pela mulher e pelos seus
irmãos, favorecem e proporcionam outros laços familiares entre os
Cunhas Moraes e os Zuzarte Mendonça, a tal ponto que o seu irmão Joaquim
Júlio, após ter sido forçado pelos irmãos mais velhos a acabar com o
namoro com uma mestiça, vem a casar-se com Matilde Teixeira Pinto
Zuzarte de Mendonça, irmã de Albertina.
Mais tarde uma irmã de
José de Sousa Maia, cunhado de José Augusto pelo matrimónio contraído
com Henriqueta da Cunha Moraes, viria a casar com um dos filhos de José
Júlio de Zuzarte Mendonça.
Eventualmente os Zuzarte de Mendonça
estariam numa das vagas de colonos que teriam emigrado dos Açores para
Pernambuco e mais tarde para Mossãmedes onde com esforço e tenacidade
vingaram a sorte daqueles que padeceram com as biliosas e o paludismo.
Mossãmedes inegavelmente marcou estas duas famílias.
Publicada por Grand Monde
E Moçâmedes foi salva...
«Quando a segunda colónia chegou a Mossãmedes em 26 de Novembro de 1850, os primeiros colonos encontraram falhas de recursos de toda a espécie e a sua patriótica tentativa de colonização parecia condenada a sossobrar ingloriamente...»
Minados pela febre, agonizantes,
já temiam aqueles homens fortes
que fosse vão seu feito de gigantes:
-ali jaziam cerca do Rio das Mortes
da Primeira Colónia os emigrantes,
«os maus fados cumprindo em suas sortes -
em covais, nas areias escaldantes,
achando, em grande parte, os certos nortes!
E nessa conjuntura dolorosa,
já não crendo em ajudas deste mundo
viraram-se p`ra o Céu à Milagrosa
Senhora destes Reinos, a Maria
erguendo preces em fervor profundo!
..................................................................
E viu-se como a Santa os atendia!
Moçâmedes, ano do Centenário (1949)
José Trindade