Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 15 de março de 2008

O Observatório Metereológico de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe), mais tarde demolido


  
O Observatório Metereológico «GOMES DE SOUZA», de Moçâmedes. Junto da janela do observatório podemos ler: "1903".
Enquadramento do Observatório Metereológico «GOMES DE SOUZA», de Moçâmedes, junto à praia e muito perto da Avenida da República. Colecção editada por ocasião da subida da "vila de Mossâmedes" a real-cidade, em  1907, com  a presença do Principe Real D. Luis Filipe, filho de D. Carlos e de D. Amélia,  o malogrado Príncipe que pouco após o regresso a Portugal viria a falecer, juntamente com seu pai, vítima do Regicídio.



O Observatório Metereológico de Mossâmedes, «GOMES DE SOUZA», foi assim denominado em homenagem aos trabalhos do ilustrado Director do Observatório de Luanda. A sua construção  ficou a dever-se a uma proposta dirigida ao Governo Geral de Angola pelo DR. JOSÉ PEREIRA DO NASCIMENTO, explorador naturalista que, para levar avante o projecto da sua construção, teve que recorrer a uma subscrição pública, na qual participaram alguns nomes sonantes de residentes na então vila,   como Serafim Simões Freire de Figueiredo, que foi presidente de uma anterior vereação da Câmara Municicipal, o Visconde do Giraul, Alfredo Duarte d'Almeida, Alfredo de Oliveira Luso, Hemry Guilmin, Augusto dos Reis Figueiredo, Filipe Castanheda, Torres & Irmão, Morgado & Morgado e António César Corrêa Mendes. As primeiras observações foram feitas no dia 1 de Janeiro de 1904 pelo ilustre naturalista, apenas com os poucos aparelhos de que dispunha.
A lembrança que tenho deste edifício é do início dos anos 1950. Ficava situado a poente do local onde foi construido o edifício dos Correios (CTT), e próximo do sítio onde nos anos 1960 foi construida uma gasolineira. Era um belo edifício em forma de Torre com alguns traços que nos fazem lembrar a Torre de Belém, salvaguardando é claro as devidas proporções. E por sinal até se encontrava bem enquadrado, como o postal testemunha.

Quanto  aos motivos que levaram à sua demolição, sabe-se que no decurso da visita à cidade do Ministro das Colónias, Dr. Armindo Monteiro, em 1932, quando Salazar era Ministro das Finanças,  a Câmara Municipal apresentou uma exposição em que chamava a atenção para questões tidas como da maior importância, e solicitava ao Governo, entre outras, autorização para reservar para «Praia de Banhos» a zona marítima,  que ia desde o Observatório Metereológico até à Fortaleza de São Fernando, fazendo-se desaparecer dali todas as construções.

"Que seja concedida ao Municipio a faixa maritima, desde o Observatório Metereológico até à Fortaleza, para a Câmara poder livremente embelezar essa faixa e promover uma praia de banhos dos recursos necessários para a segurança e comodidade dos banhistas."  (1)

O objectivo era, feita a concessão, arborizar tôda essa area, a fim de "tirar à cidade, o aspecto desolador que oferece vista do mar, e trazer-lhe uma maior concorrência de turistas na época balnear, notando-se já que êste melhoramento está despertando bastante interesse no Planalto da Huila, sendo natural que o mesmo venha a contecer ao norte, onde o clima não favorece iniciativas desta natureza."

 Na realidade o que pedia esta exposição era que se libertasse a zona da praia «desde o Observatório Metereológico até à Fortaleza São Fernando», e não que o Observatório ou a Fortaleza fossem demolidos.

Sabe-se que muito tempo decorreu entre a referida exposição e o início das obras na zona. Obviamente, poupou-se a Fortaleza, mas a verdade é que estupidamente o Observatório Meteorológico acabou demolido. (ver AQUI)

Como foi possível tal ter acontecido? Grande distanciamento (cerca de 20 anos) entre a data da solicitação ao Ministro (1932) da autorização para o desimpedimento da area, e a data da concretização ddo mesmo? Má interpretação do texto? Falta de sensibilidade em relação à preservação do património arquitectónico e histórico da cidade?  Ninguém desconhece que os edifícios de arquitectura são a memória colectiva de uma cidade, e que,  portanto, não deveriam ser destruidos, mas sim preservados, sob pena de se estar a apagar a história viva de um povo.

Como foi dito este Observatório nasceu do esforço e diligência do Dr José Pereira do Nascimento, explorador naturalista, e foi erguido através de subscrição pública entre os moradores da Vila, com o apoio da Câmara, e dele próprio, que em grande parte concorreu para  a verba consignada a despesas,  com seus trabalhos de exploração, e mesmo com os seus vencimentos. 

Eis o teor de dois oficios enviados em 1904 pelo explorador naturalista ao Governo do Distrito de Mossâmedes: 


"Governo do Distrito de Mossâmedes - Exploração Científica da Província - Nº. 2

Illmo e Exmo. Senhor


Para conhecimento de S.Exa o Sr. Governador do Distrito, tenho a honra de comunicar a V.Exa que tendo vindo a este Distrito em missão de estudo para construir um observatório meteorológico com a aprovação do Governo Geral e para proceder a pesquisas mineralógicas a fim de completar os estudos das minas e da carta mineira deste Distrito, trabalho por mim iniciado em 1894 e de que dei conta ao Governo da Metrópole em um relatório que foi publicado sob o título “Exploração Geográfica e Mineralógica no Distrito de Mossâmedes”, fui surpreendido com a notícia da minha exoneração do cargo de naturalista na ocasião em que, já desembaraçado da construção do observatório, me dedicava à preparação e catalogação das colheitas geológicas e mineralógicas reunidas durante os dois últimos anos de exploração à zona central do Distrito de Luanda, Lunda e Mossâmedes, à elaboração do relatório e carta mineira deste Distrito e da carta geral dos terrenos por mim percorridos e estudados durante cinco anos de estudo nesta Província e à publicação de um dicionário de línguas africanas desta costa.

Para evitar que fiquem perdidos para a ciência a maior parte destes trabalhos, venho rogar a S. Exa. o Sr. Governador do Distrito se digne solicitar de S. Exa. o Governador Geral a minha permanência neste Distrito, por dois a três meses, tempo que julgo suficiente para a conclusão dos referidos trabalhos.


Deus Guarde a V. Exa.
Mossâmedes, 15 de Janeiro de 1904
Illmo e Exmo. Senhor Secretário do Governo do Distrito de Mossâmedes
O Explorador-Naturalista,
(A) JOSÉ PEREIRA DO NASCIMENTO,
Médico Naval de 1ª. Classe


ESTÁ CONFORME:- Secretaria do Governo de Mossâmedes, 16 de Janeiro de 1904 - O Secretário, (A) Francisco da Silva Ferreira.
Fevereiro de 1904 - O Secretário Geral Interino, (a) Ilegível


Governo do Distrito de Mossâmedes - Exploração Científica da Província - Nº. 2

Illmo e Exmo. Senhor

Para conhecimento de S. Exa. o Sr. Governador do Distrito, e das estações superiores, tenho a honra de comunicar a V. Exa. que está concluído o edifício do “Observatório Meteorológico Gomes de Sousa”, em homenagem aos trabalhos do ilustrado Director do Observatório de Luanda, e que comecei a fazer as observações no dia 1 do corrente mês, com os poucos aparelhos de que disponho.

Por esta ocasião devo recordar que, tendo vindo a Mossâmedes retemperar a minha saúde, bastante deteriorada por três anos e meio de viagens de exploração, pelo interior dos Distritos de Luanda e Lunda, propus ao Governo Geral construir, por subscrição pública, um Observatório na Vila de Mossâmedes, onde há mais de 60 ano se fixou e radicou o elemento europeu que se tem progressivamente propagado até à quarta geração, mercê das suas boas condições climatéricas, criando um importante núcleo de irradiação da raça portuguesa em África.

Com o apoio e auxílio do Governo Distrital, e da Câmara Municipal, que patrioticamente perfilharam a minha ideia, abri uma subscrição entre os moradores desta Vila, que me forneceu os elementos necessários para iniciar a obra no fim do ano próximo passado. Para esta construção concorri em grande parte com a verba que o Governo consignou para as despesas dos meus trabalhos de exploração e com os meus vencimentos de explorador naturalista da província.

Dou por bem empregado o sacrifício que fiz, pela satisfação de ter contribuído para dotar com um estabelecimento científico esta bela Vila, a que me prendem a dedicação, estima e gratidão dos seus moradores pelos meus trabalhos de propaganda a favor do seu progresso material e moral.

Construindo à custa de uma subscrição pública sob o apoio da Câmara, era de justiça que o edifício pertencesse ao município. Assim o entendi, convidando a Câmara Municipal, como representante dos moradores, a tomar posse do edifício, cerimónia que se realizou no dia 13 do corrente mês.

Para seu regular funcionamento, carece este estabelecimento de um observador permanente, que pode ser um dos sargentos que tem adquirido prática de observação meteorológica no Observatório de Luanda, bem como carece de uma colecção de aparelhos, sendo de toda a vantagem que a sua direcção técnica fique subordinada ao Observatório de Luanda.

Para terminar cumpro o grato dever de citar os nomes de alguns beneméritos cidadãos que mais contribuíram para este melhoramento, que veio colocar Mossâmedes à altura de um centro de população civilizada, a par das melhores colónias estrangeiras. São os Exmos. Senhores SERAFIM SIMÕES FREIRE DE FIGUEIREDO, presidente da vereação transacta; VISCONDE DO GIRAUL, ALFREDO DUARTE DE ALMEIDA, ALFREDO DE OLIVEIRA LUSO, pela Companhia Comercial de Angola; HENRY GUILMIN, pela Companhia de Mossâmedes; AUGUSTO DOS REIS FIGUEIREDO; FILIPE CASTANHETA, TORRES & IRMÃO; MORGADO & MORGADO; ANTÓNIO CÉSAR CORRÊA MENDES.

Deus Guarde a V. Exa.

Illmo e Exmo. Senhor Secretário do Governo de Mossâmedes

Mossâmedes, 20 de Janeiro de 1904

O Naturalista-Explorador
(A) J. PEREIRA DO NASCIMENTO,
Médico da Armada Real


Pesquisa e texto de MariaNjardim


(1) Boletim Geral das Colónias . VIII - 088, [Número especial dedicado à visita do Sr. Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola]
PORTUGAL. Agência Geral das Colónias, Vol. VIII - 88, 1932, 708 pags.
 http://memoria-africa.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/BGC/BGC-N088&p=480

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