Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 23 de julho de 2008

Cine Moçâmedes: vulgo Cinema do Eurico (anos 50





 

O CINE TEATRO DE MOÇÂMEDES


O "Jardim da Colónia". Neste espaço foi construido o Cine Moçâmedes


 
 Enquadramento paisagístico em postal editado por ocasião do Centenário, em 04 de Agosto de 1949


Este é o Cine Teatro de Moçâmedes (vulgo cinema do Eurico), situado na então denominada Rua da Praia do Bonfim, em Moçâmedes. Este Cine Teatro, que veio substituir o Cine Teatro Garrett, a bela sala de espectáculos de Raúl de Sousa, situada na Rua Calheiros que fazia lembrar o Teatro S. Carlos de Lisboa com as suas frisas, camarotes, plateia, etc., em estilo clássico, salvaguardando, é claro, as devidas proporções, acabou por ser demolido para dar lugar à construção da sede do Atlético Clube de Moçâmedes.

Eram
proprietários do Cine Teatro Moçâmedes Eurico Martins, António Pedro Bauleth, Gaspar Gonçalo Madeira e António Nascimento Marques. A sua inauguração teve lugar em meados da década de 1940, com grande satisfação dos moçamedenses que ansiavam por uma sala de espectáculos à dimensão da cidade, na medida em que, desde a demolição do Cine Garrett, passara a ser no pequeno palco do salão de festas do Ferrovia, na Rua Serpa Pinto, sob a exploração de Raul de Sousa, o local onde decorriam a sessões cinematográficas, obviamente sem grande comodidade.

Importa ainda lembrar que no terreno onde foi construído o Cine Teatro de Moçâmedes existiu até à década de 40 um pequeno largo denominado de «Jardim da Colónia», para onde esteve projectado
um monumento aos «colonos» pioneiros, e cuja primeira pedra havia sido lançada em acto solene, mas que nunca chegou a efectivar-se. (veja AQUI)




 O movimento era enorme aos domingos à tarde...



O Cine Teatro de Moçâmedes foi na década de 50, o grande animador da cidade, a par dos salões de festas do Atlético Clube de Moçâmedes e do Clube Náutico (Casino) onde decorriam aos fins de semana animados bailes e matinées dançantes, e dos campos desportivos espalhados pela cidade onde se disputavam renhidos jogos de futebol, hóquei em patins e basquetebol masculino e feminino.

Até ao surgimento do Cine Esplanada Impala, na década de 1960, era o Cine Teatro de Moçâmedes, a única sala de espectáculos da cidade onde decorriam concorridíssimas sessões cinematográficas, diariamente, a partir das 21 horas, e aos fins de semana, também, sessões de matinée a partir das 17 horas da tarde. Na década de 1960, a cidade de Moçâmedes, como todas as cidades de Angola, conheceu um significativo crescimento demográfico, e o Cine Esplanada Impala veio colmatar uma lacuna que já se fazia sentir na matéria, já que a bilheteira da única sala de espectáculos sempre esgotava. A partir da mesma década, também o Cine Teatro de Moçâmedes passou a exibir aos domingos à tarde suas sessões, a das 15 e a das 17hs.









Esta bela foto tirada à entrada do Cine Moçâmedes , em 1946,  junto a um Cartaz publicitário do filme "Romance Sensacional", interpretado por Ester Williams e Van Jonhson, mostra-nos  um grupo de jovens estudantes finalistas da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes: Maria Emilia Ferreira Ramos, Francisco José Magalhães Monteiro, Albano Pestana da Costa Santo (Carriço) , Humberto dos Santos Pinho Gomes e Maria Edith Lisboa Frota. Era o tipo de filme que sempre agradava, um musical romântico. Moçâmedes sempre gozou da fama de ter mulheres bonitas, fama que aqui se confirma plenamente. Mas  eles não ficavam atrás!
 
 
O Cinema do Eurico como lhe chamavam... Foto Salvador, anos 1950


O interior do Cine Teatro de Moçâmedes
Escadaria de acesso ao 1º piso


Foi neste Cinema, o Cinema da minha infância e da minha adolescência, local de risos e de lágrimas, de apertos de mãos e suspense, que muitos namoricos tiveram o seu início, que muitos noivados se consolidaram, e que, no apagar das luzes, carícias furtivas e beijos adolescentes eram roubados em plena projecção, aproveitando a ausência da luz... num tempo em que seria um escândalo dá-los à luz do dia, um tempo em que as «meninas» eram ansiosamente guardadas pelas suas mamãs, que mesmo lá de longe nunca deixavam de as vigiar, não fosse o diabo tecê-las...

Foi neste Cinema, o cinema da minha infância e da minha adolescência, que crianças e adolescentes como eu, sentados nas primeiras filas a partir do palco (2ª plateia, a mais barata), enquanto os pais ficavam mais atrás, na 1º plateia, ou nos balcões e frisas do 1º andar, assistimos aos nossos primeiros filmes de bonecos animados (Pato Donald, Rato Mickey, Poppey, Branca de Neve e os 7 anões, Cinderela, etc. etc), e mais tarde, a tantos filmes musicais, westerens (vulgo «filmes de cowboiadas»), de pirataria, históricos, românticos, etc. Foi ali que nos foram dados a assistir filmes que marcaram essa fase das nossas vidas como o Capitão Morgan, o Gavião dos Mares, Zorro, Tarzan, a Múmia, Frankenstein, O Homem Lobo, As Mil e uma noites, a Lâmpada do Aladino, A Máscara de Ferro, David e Golias, Os 10 Mandamentos, Sissi ,a Jovem Imperatriz, E tudo o Vento Levou, Escola de Sereias, etc etc. Os heróis no ínicio da década de 1950 eram o Errol Flyn, o John Weissmuller, o Tyrone Power, o Gary Cooper, o John Wayne, o Glen Ford, o Alan Ladd, o Clarck Douglas, o Victor Mature, o James Mason, o Humphrey Bogart, o Robert Taylor, o Clark Gable, o Fred Astaire, o Frank Sinatra, etc... As heroínas, eram a Betty Davis, a Elizabeth Taylor, a Ava Gardner, a Olívia d' Havilland, a Ginger Rogers, a Ingreed Bergman, a Dorothy Lamour, a Ester Williams, a Vivien Leigh, a Rommy Schnneider, etc. etc. Aliás, no interior do Cine Teatro de Moçâmedes, enquanto subíamos as escadarias que nos levavam ao 1º andar onde ficavam os camarotes e os balcões, logo os nossos olhos se deparavam com dezenas de fotos de muitos destes e destas artistas que decoravam as paredes laterais, e que funcionavam como autênticos ídolos ou modelos para nossa juventude.

Filmes houve que passaram cujos musicais que os acompanharam marcaram uma época. Foi o caso do Filme ANNA em que Silvana Mangano canta e dança «El Negro Zumbón»
. Recordo-me como de imediato o popular conjunto musical«Os Diabos do Ritmo» incluiu no seu reportório este género musical que todo o mundo começou a dançar com grande habilidade e graciosidadenos bailes e matinées dançantes nos salões do Atlético Clube de Moçâmedes e do Casino. A letra: «Ya viene el negro zumbon, Bailando alegre el baion Repica la zambomba. Y llama a la mujer Tengo gana de bailar el nuevo compass Dicen todos cuando me ven pasar "¿ Dhica , donde vas?" "Me voy a bailar, el baion!"... O ritmo uma mistura de rumba e baião. Silvana Mangano tem o crédito de cantora, tanto no filme quanto no disco, mas quem canta é Flo Sandon, cantora italiana. A partir desse filme, espalhou-se entre nós, raparigas de então, a moda das calças à Anna, isto, em meados da década de 1950. A música El Negro Zumbón, do compositor, pianista e director de orquestra Perez Prado. foi feita para este clássico filmado em 1951 e dirigido por Alberto Lattuada. Contracenaram com Silvana Mangano, Vittorio Gassmann e Ralf Vallone. Nessa altura a cultura musical brasileira já tinha uma indústria fonográfica poderosa e sos eus sucessos invadiam outras culturas, incluindo a nossa, neste cantinho de África. Foi o caso do êxito da canção «A namoradinha de um amigo meu», de Roberto Carlos, entre os mucubais, povo secularmente impermeável à aculturação. 
 




 O Quiosque do Faustino, alí mesmo ao lado...

Na década de 50 os filmes que passavam neste Cinema eram passados pela censura, e muitos eram interditos a menores de 17 anos, como foi o caso do inofensivo «O Monte dos Vendavais.» baseado num romance de Emilly Bronte publicado por volta de 1846, considerado um clássico da literatura inglesa. Recordo que nesse dia eu própria estava a assistir a este filme na companhia dos meus pais, bem como todo um grupo de adolescentes que ali se encontravam com ou sem familia, e fomos pura e simplesmente postos na rua. Isto após termos entrado com bilhetes comprados e o filme estar já próximo do intervalo. Fomos postos na rua, porque o filme que estava correr fora, já a meio da primeira parte considerado por um elemento da comissão de censura, impróprio para a nossa idade. O mesmo é dizer, não estava de acordo com os princípios morais estabelecidos pelo Estado Novo para a educação dos juventude. «O Monte dos Vendavais» transportava consigo ideais de liberdade e de independência que era necessário não deixar germinar na juventude de então. Alguém daquela comissão que também estava ali a assistir, a determinada altura levantou-se e deu essa ordem ao porteiro. E no entanto, não era mais que a história de um casal que no decurso de uma viagem resolve adoptar uma criança que vai suscitar sentimentos antagónicos nos seus dois filhos naturais, ou seja, de afastamento humilhação, ódio e ciúme, e de aproximação e amor platónico, redundando num enredo trágico tipo Romeu e Julieta, passado na época vitoriana. Em contrapartida, não havia mal algum que as crianças e a juventude de então vissem filmes onde os americanos matavam índios como bichos... É claro reclamámos e recebemos de volta o dinheiro.  Nesse tempo não eram exigidos à entrada os bilhetes de identidade, o que facultava aos jovens adolescentes e sobretudo às raparigas, que amadureciam mais cedo, a possibilidade de, através de uma toilette mais senhoril, enganarem o porteiro, que na dúvida, não se atrevia a não as deixar entrar.

Quando tocava para intervalo era ver a malta correr aos gelados (sorvetes), aos caramelos e aos rebuçados no bar do Cinema ou ao Quiosque do Faustino, ali perto, onde de tudo vendiam, rebuçados, bombons, ginguba (amendoins) , tremoços, gelados, carbo-cidrais, cocopinhas, etc. Mais tarde, a alternativa, era o café Avenida que ficava ali mesmo ao lado.

Recordo ainda outra faceta das sessões de domingo à tarde no Cine Moçâmedes. A estas sessões, às quais chamávamos, à boa maneira francesa, de matinées, acorriam muitas crianças e adolescentes e alguns africanos, na maioria criados domésticos que, para pagarem o mínimo possível ficavam geralmente nas últimas filas da 2ª plateia, junto do palco . Quando corriam os western's, era vê-los todos, sem excepção, a baterem palmas de euforia quando aparecia a 7ª cavalaria a defender as caravanas que estavam sendo atacadas pelos índios, ou então a esconderem a cabeça, indignados, quando os índios tiravam o escalpe aos brancos e faziam destes trunfos de guerra.

Em Moçâmedes havia a prática das entradas à «boleia» nas sessões cinematográficas que um ou outro rapazinho atrevido conseguia, passando despercebido do porteiro. Ou então chegando mesmo a pular a janela lateral, quando não eram agarrados pelos vigilantes e postos fora, mesmo com as namoradas ao lado a assistir.... Que vergonha então sentiam, alguns chegavam a confessar!!!


A respeito de «boleias»
quero registar aqui o nome de uma benemérita senhora de Moçâmedes, a Dona Aninhas de Sousa, esposa Raúl de Sousa, o já aqui citado proprietário do antigo Cine Garrett, e mãe do Lico de Sousa, que foi vereador da Câmara Municipal de Moçâmedes, e cujo nome ficou ligado ao Parque de Campismo da cidade. Como acima referi, quando da demolição do Cine Garrett, Raúl de Sousa alugou o salão do Ferrovia onde fazia passar as suas sessões cinematográficas. Ora, a chegada ao Ferrovia de Dona Aninhas, sua esposa, era sempre ansiada por algumas crianças que ficavam à porta daquela associação à sua espera, porque que assim que ela chegava, entravam com ela.


Mas no Cine Teatro de Moçâmedes não se realizaram apenas sessões cinematográficas. Ao seu palco subiram peças de teatro, actos de variedades, espectáculos de revista à portuguesa, teatro de comédia, espectáculos de bailado, etc. etc. Ali cantaram Alberto Ribeiro, Tony de Matos, Horácio Reinaldo, Luís Piçarra, Marisol, Carlos do Carmo, Trio Odemira, Duo Ouro Negro, Nelson Ned, e tantos outros grandes cantores que o tempo não deixa recordar. Ali actuaram o Orfeão Académico de Coimbra (que de visita a Moçâmedes fizera uma serenata nas escadarias do Palácio da Justiça -Tribunal), o Humberto Madeira, o Octávio de Matos, etc.



Carlos Moutinho e Cecília Victor

Ali coristas vindas da Metrópole apresentaram os seus shows, ali declamou o grande João Villaret, e na década de 50 decorreram os animados «Programas da Simpatia» patrocinados pelo Rádio Clube de Moçâmedes e pelo grande radialista, Carlos Moutinho, onde não faltavam concursos vários, de canto, de dança, testes de conhecimentos gerais, etc. etc.
 


Nélinha Costa Santos cantando "Avé Maria de Schubert. num "Programa da Simpatia". Foto Salvador
E tantas vozes bonitas de gente da terra tivemos o prazer de ouvir cantar. Recordo a noite em que Nélinha Costa Santos com sua voz de soprano a cantar Avé Maria de Schubert foi aplaudida de pé; recordo a Fernanda Braz de Sousa (música clássica); o Mário Cantor (Canções ligeiras, tais como «Amor dou-te o meu coração... que foi um autêntico sucesso); a Maria Lídia com a sua voz melodiosa, em dueto com José Manuel Frota; a Maria José Camacho (Moçâmedes nasceu à beira mar..., outra canção de grande sucesso na cidade); o Adriano Parreira (tenor), o Jerónimo Ribeiro (tenor); o José Patrício; o Armando Duarte de Almeida (fados de Coimbra); e tantas outras vozes cujos nomes dos intérpretes não recordo de momento. A Lena Rocha, menina ainda, mas já com uma voz forte e bem timbrada a cantar «O Calhambeque», de Roberto Carlos, mais tarde, em 1965, editada em EP para DECCA. E ainda, o «Grupo Boa Vontade» com Dina Chalupa, e o grupo de dança rítmica e ballet de Mme Sybleras, sem esquecer as festas e teatros dos estudantes finalistas, os desfiles de vestidos de chita e trajes de Carnaval. 

 


 



 




Mas este Cine Teatro também teve os seus momentos tristes; e o pior aconteceu com a grande tragédia que abalou o nosso pequeno burgo, quando num fatídico dia em que decorria o filme «Amanhã será tarde», a casa dos filmes, no 1º andar, começou a arder após uma explosão, e apanhou algumas pessoas pela frente, projectando outras pelas janelas fora. Morreram bombeiros, morreu Jorge Madeira (sobrinho do industrial e comerciante, Gaspar Gonçalo Madeira), jogador de futebol do Benfica e defesa central da selecção de Moçâmedes. Jorge nem sequer tinha ido ao Cinema. Tinha regressado de um treino, e ao passar junto ao Cine Moçâmedes foi apanhado quando alguém na bilheteira lhe pediu um lenço para se proteger do fumo. Foi precisamente no momento em que acabara de entregar o lenço, quando se volta de costas, que uma grande explosão fez a casa das filmagem ir pelos ares, e arrastou-o consigo. As queimaduras e os danos que Jorge Madeira sofreu foram de tal ordem que veio a falecer oito dias depois. Nessa explosão Dina de Sousa Chalupa, a concorrente feminina que ficou conhecida pela sua participação nos 1ºs. rallies das Festas do Mar, participou em várias provas automobilistas, na década de 1950, em Moçâmedes, e mãe dos dois conhecidos hoquitas, foi projectada também foi pelos ares e não morreu por um triz.

Também nos primeiros tempos do Cine Teatro quando ainda funcionava com um gerador de electricidade houvera ali um acidente, em que um dos proprietários, Eurico Martins, perdeu um braço, apanhado pela correia do mesmo gerador. O casa onde nessa altura estava alojado o dito gerador ficava ali mesmo ao lado do Cinema, e com a chegada da electricidade à cidade acabou por ser demolida e dar lugar ao novo e moderno edifício onde, nos finais da década de 50 se instalou a Pastelaria Avenida.



Nos anos 60 surgiu uma segunda casa de espectáculos em Moçâmedes, o Cine Esplanada Impala, propriedade de que eram sócios Norberto Gouveia, Artur Pinho Gomes e ?..., e veio fazer concorrência ao Cine Teatro de Moçâmedes, mas mais no Verão, pois as noites de Inverno em Moçâmedes, sobretudo no mês de Junho, Julho e Agosto eram geladas, e o Impala, com a sua arquitectura neo-modernista de espaços abertos e ao ar livre, tornava-se um lugar desagradável levando a que muita gente preferisse o «veterano» Cine Teatro Moçâmedes, o popular Cinema do Eurico...


Resta ainda referir que este Cinema foi palco de um animado comício político aquando da campanha eleitoral de Humberto Delgado. Estava-se em plena ditadura salazarista, numa época em que as anteriores candidaturas da oposição eram forçadas a desistir por força das pressões e perseguições decorrentes da próprio regime e da falta de condições para a liberdade da votação. Foi o caso do caso do general Norton de Matos, de Arlindo Vicente, etc., não foi o caso de Humberto Delgado. A candidatura do general Humberto Delgado despertou em todo o país um enorme entusiasmo, e tornara bem evidente o descontentamento que pairava em relação à política do Estado Novo. Mariano Pereira Craveiro, o empreendedor presidente da Sociedade Cooperativa «O Lar do Namibe» (2) era um republicano de raiz maçónica, oposicionista do regime, e fez parte, juntamente com Carlos Martins Cristão e outros moçamedenses, da campanha a favor do General Humberto Delgado nas eleições presidenciais realizadas no ano de 1958 contra o Almirante Américo Tomás. Recordo ainda o discurso arrebatador proferido por Carlos Martins Cristão que, sentado ao lado de Pereira Craveiro, junto a uma mesa colocada no palco do Cine Teatro de Moçâmedes, com a sua forte e bem timbrada voz dizia, referindo-se ao regime vigente: «Eles é que têm as armas...eles é que têm os canhões, nós só temos os braços para trabalhar...»    Escusado será dizer que os resultados oficiais das eleições deram a vitória ao candidato Américo Tomás, que se foi mantendo na Presidência da República até 1974. De facto a candidatura do General Humberto Delgado motivou uma forte mobilização da Oposição Portuguesa em Angola tendo-se aqui registado a única vitória distrital do general em todo o espaço eleitoral. O general Humberto Delgado o “General Sem Medo” contestou as eleições e afirmou sempre a sua vitória. A sua derrota foi atribuída à viciação dos cadernos eleitorais e ao não controlo das urnas de voto pela oposição. A sua ousadia viria a custar-lhe a vida, anos mais tarde, quando, caindo numa cilada, foi assassinado pela Pide no dia 13 de Fevereiro de 1965, em Villanueva del Fresno, Espanha.
(incluo no final link para hiperligação com o livro "Comunidades Imaginadas" por Luís Reis Torgal,Fernando Tavares Pimenta,Julião Soares Sousa, que nos fala sobre o assunto.)

Mais que uma forma de lazer ou de evasão ao fim de cada semana de trabalho, o Cine Teatro de Moçâmedes, tal como todos os Cines do mundo, deu o seu contributo para a grande mudança ao nível das mentalidades que se verificou no pós última Grande Guerra. Moçâmedes era uma cidade onde os modelos se mantinham perenes e onde nada de novo costumava acontecer, pelo menos até ao início da década de 1950 . A máquina dos sonhos contribuiu para uniformizar os corpos moldar espíritos, generalizar tipos de comportamentos, estilos de vida, posturas, modas, penteados, etc. E ao impôr modelos, moldou até os próprios sonhos dos espectadores...

O Cinema foi ainda utilizado como arma de guerra durante a 2ª Guerra Mundial, como poderoso meio de difusão de modelos sócio-culturais e de padronização de comportamentos. Veículo de propaganda política e de impregnação ideológica dos regimes ditatoriais da Europa, o Cinema teve papel fundamental na política e na formação da opinião pública, ao manipular censura, propaganda, crítica reprovadora de alguns comportamentos sociais ou regimes políticos. Recordo como os documentários que abriam as sessões de Cinema veiculavam a propaganda do Estado Novo. Mas o Cinema também serviu de meio de instrução .Todos aprendíamos algo de novo em cada sessão, os mais cultos e os menos cultos, e neste caso contribuiu para reduzir a diferença de conhecimentos entre pessoas instruídas e pessoas não instruídas, proporcionando ainda ao grande público programas culturais que de outro modo lhe estariam interditos.

Através da segunda foto podemos verificar a grande afluência que tinha o Cine Teatro Moçâmedes nas tardes de domingo. Na década de 60 este Cinema passou a proporcionar duas sessões domingueiras, em matinées, para além da soirée. E foi sempre assim muito concorrido até uns meses antes independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, quando começou a ponte aérea para a Metrópole e com ela, a debandada geral da população de origem europeia.

Quando se deu o 25 de Abril em 1974, e começaram as conversações para a independência de Angola, um novo Cinema já estava em fase adiantada de construção e não iria faltar muito tempo para ser inaugurado. Era uma sala de espectáculos de arquitectura neo-modernista, mas, ao contrário do Cine Esplanada Impala, era bastante fechada, e ainda hoje se encontra por acabar, mais de 30 anos após a independência de Angola. Esta nova casa de espectáculos, que creio pertencia dos mesmos proprietários do Cine Teatro de Moçâmedes, está situado por detrás dos modernos edifícios públicos que naquele tempo se encontravam ocupados pela Associação Comercial, as Repartição de Finanças e o Governo do Distrito, na então Avenida Felner, a avenida sobranceira ao mar que faz a ligação entre a parte baixa da cidade e a Torre do Tombo.


Estas são recordações de um tempo que já lá vai e não volta mais, tempo da minha juventude, de gente saudável e irrequieta, cujas memórias venho procurando neste blog registar. E só faz sentido fazê-lo, porque como tantas outras, na imensa Angola daquele tempo, fomos uma comunidade que num repente se esfumou, e que dela, hoje dispersa pelo mundo, só restam recordações ténues quando não apagadas, que imagens e textos como este vão ajudando a lembrar...

MariaNJardim


Ver AQUI
Ou aqui:
https://books.google.pt/books?id=RXM_7xcpYvcC&pg=PA70&lpg=PA70&dq=Humberto%20delgado%20em%20benguela%20venceu&source=bl&ots=F0L9ZQ9XkD&sig=266jnWSyoYKzpic_UR9vHvTPraU&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwiohKH4uvjKAhXD2hoKHTPLCDkQ6AEIIDAA#v=onepage&q=Humberto%20delgado%20em%20benguela%20venceu&f=false

5 comentários:

  1. Adorei ver estas im agens e ler estes textos sobre a minha terra e os anos da minha infância. Cinsidero este o melhor blogue sobre a Angola que todos nós recordamos, com a nostalgia que nos proporcinam sempre as memórias maravilhosas dos tempos que não voltam mas que estão sempre vivos nbos nossos corações. Os meus netos adoram também ver estas imagens, que eu vou comentando, de forma a que as minhas raízes sejam transplantadas para eles. Acho importante que elas perdurem nas novas gerações porque fazendo isto, eles continuarão a história da nossa Angola, que foi berço dos seus avós. Parabéns por este trabalho magnífico.
    Vera Lucia

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  2. Gostei muito de ler este artigo ainda por cima ilustrado com o meu bilhete da única vez que lá fui em Dezembro de 1974. O filme foi "Ele era Invencível" com Brad Harris e John Barracuda (tenho escrito no verso). Morava em Sá da Bandeira e num fim-de-semana de praia passado em Mocâmedes, fui a uma sessão à noite. Este cinema deve estar para vós, como o Odeon estava para os "chicoronhos" Abraço fraternal a todos os Mocâmedenses.

    Jorge Duarte

    jomagudu@gmail.com

    http://jomagudu.googlepages.com/

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  3. Gostei muito de ler este artigo sobre o vosso cine-teatro ainda mais, ilustrado com o bilhete da única vez que lá fui. Morávamos em Sá da Bandeira e fomos passar um fim-de-semana a Moçâmedes. À noite fui com o meu irmão ao cinema. O filme chamava-se "Ele era Invencível" com Brad Harris e John Barracuda (está escrito no verso e se virem ao lado do nº 7 coseguem ver "Barracuda" ao contrário). Lembro-me de ouvir contar a história do incêndio. Eu tnha 14 anos em Dezembro de 1974...
    Abraço a todos

    Jorge Duarte - jomagudu@gmail.com

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  4. Muito obrigada pelos comentários. Um agradecimento especial à Vera Lúcia, minha conterrânea, pelo elogio aqui deixado. Espero continuar a merecê-lo, e a sentir o prazer das vossas visitas.

    Um abraço
    MariaNJardim

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  5. wonderful blog about the history of cinemas in namibe. i´m very interested in the neo modern style curved concret-building which is on the big place near by the military station. who is able to give me more informations ... architect, function, year of construction etc. every help is more than welcome. all the best, alfred

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