Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 4 de outubro de 2008

Manuel Abreu (o Mata-porcos), exibindo um troféu de caça, uma leoa abatida no Deserto do Namibe - 1922



Manuel Abreu, o Mata-Porcos


Anos 30. Noutros tempos dizia-se que leões rondavam vila de Moçâmedes... para quem não acredita, prova está aqui. Havia mesmo leões em zonas circunvizinhas. Manuel Abreu (filho), mais conhecido por «Mata-Porcos», no quintal da sua casa da Rua dos Pescadores, em Moçâmedes exibe a leõa que acabara de abater.


*

O porquê "MATA PORCOS"?

O patriarca remoto desta família, José de Abreu, avô de Manuel Abreu (filho) enquanto na Ilha da Madeira exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que Manuel, seu neto, continuou a exercer em Moçâmedes, para onde a família se mudou, e onde era proprietário do «Bazar do Povo», loja que ficava situada numa esquina da Rua das Hortas com a Rua 4 de Agosto e onde vendia de tudo um pouco.

Mas Manuel de Abreu era também um exímio caçador dos animais do deserto de Moçâmedes. Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à sua actividade do comércio de carnes.

 

Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consumo da população não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia, uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu ia para o deserto caçar os animais selvagens, que ele próprio esquartejava e preparava, para pôr à venda no seu «Bazar do Povo», apetrechado do respectivo talho.



Aconteceu porém que em pouco tempo o gostinho pela caça acabou por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu e do seu grupinho de amigos que passaram a frequentar o Deserto do Namibe, não já apenas para matar gazelas, olongos, guelengues, e outros animais, tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, pelo puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus de caça, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade para mais longe, para fugirem às perseguições de que eram alvo,  difícultando o transporte dos animais abatidos para a cidade.


Mas como o engenho humano não pára, eis que um dia Jacinto Gomes, outro emigrado da Ilha da Madeira a viver em Moçâmedes, ao regressar de umas férias na Metrópole, trouxe consigo um casal de cães galgos que passaram a ajudar, perseguindo e rodeando a caça, de modo a atrair os animais para mais próximo do alvo dos atiradores. Lamentavelmente não seria por muito tempo, porquanto subitamente estes galgos viriam a morrer não se sabe bem de quê. 


Foi quando o Engº Bernardo de Figueiredo, natural de Moçâmedes, no regresso da Alemanha trouxe consigo uma moto com «side-car», que este veiculo veio facilitar as caçadas, sempre necessárias, e para fazer o gosto ao dedo, o Engº convidava o «Mata-porcos» para o acompanhar e o ajudar posteriormente no esquartejamento dos animais. Outras vezes era Raúl de Sousa, mecânico por excelência, que o acompanhava nessas caçadas de «side-car» pelo Deserto do Namibe. 

 

E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para
além do bom peixe que no rico mar da terra sempre existia com fartura. Mas ainda não ficamos por aqui, pois com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como o reverso da medalha nunca deixa de estar presente, é preciso que se diga que muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de outros antílopes mais corpulentos, incluindo equideos.  Os abusos chegaram a tal ponto que, quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por probir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.

Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado lá ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que o fazia sem que a pessoa em causa ficasse a apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente da terra a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.





Crianças da familia observam a leoa abatida.no quintal da casa de Manuel de Abreu, na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes


  Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes, na frente de uma carrinha «Brokway».  Imagino como seria o primeiro carro de Moçâmedes, o carro do Dr. Lapa e Faro, médico na década de 1860 em Moçâmedes, que ohavia mandado construir para transportar as pessoas para caçadas pelos areais do deserto. Trata-se de um carro que além de conduzir passageiros, servia também para transportar doentes e combalidos.



Exibindo o troféu de caça. De braços no ar, Mata-Porcos, e Raul de Abreu
Manuel Abreu, à esq., David Abreu (óculos). António Abreu (?)…

 

 Manuel Abreu (3º, da dt para a esq.), David Abreu (2º à dt.), Raul Abreu ao volante

 
Manuel de Abreu à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com carroceria a camionete para que todos pudessem se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe. O 2º à dt., de branco é filho de Manuel, o Raul de Abreu, o 3º, David Abreu... Repare-se como naquele tempo ia-se para o deserto caçar de fato e gravata...

 

 
                          Manuel de Abreu, à esq., segurando a corda atada ao pescaoço da zebra.


Grupo de que faz parte Angelo Abreu (1º à esq.), Manuel Abreu (5º, à partir da dt.) e esposa (senhora 3ª à esq. da qual apenas se vê o chapéu), João Abreu? e algumas senhoras vestidas a preceito, entre as quais sentada e a segurar o chifre do guelengue, Emilia Abreu (?)...




 


Raúl de Abreu, à esq e Manuel de Abreu de cigarro na boca, à dt. com familiares e amigos, exibindo o troféu da caça: um enorme guelengue. 

 
A IDA DA FAMILIA ABREU PARA MOÇÂMEDES

A foto que segue mostra-nos Manuel Abreu, o "Mata Porcos" quando ainda criança, à esq., vestido de menina com  laços e uma boneca na mão, na companhia de seus pais Manuel de Abreu (pai) e Anastácia de Jesus, e de seu irmão Raúl de Abreu, à dt, vestido de marujo e também segurando oma boneca. .




A foto: Os modos de se vestir e de se apresentar ao mundo revelam o modo de ser de cada época da história da humanidade. Quando esta foto foi tirada, no Lubango, no início do século XX, como podemos ver, as senhoras ainda usavam vestidos compridos, e era chic, em certos estratos sociais, vestirem as crianças à marujo, assim como era comum verem-se crianças pequenas, do sexo masculino, geralmente o 2º filho do casal, vestidas como fossem meninas, com vestidos de folhos, laços no cabelo, cabelos compridos, caracóis, etc. Também era tido como normal, os meninos brincarem com bonecas. Talvez porque deste modo as mães, ainda que por breve período de tempo, matassem o desejo impossível de terem a seu lado a menina que tanto desejavam... Quanto aos homens, estes usavam grossas correntes, em prata ou em ouro, que seguravam relógios de bolso, o que também constituia um distinto em termos sociais, colete e gravata, esta contornando uma gola de camisa diferente da que conhecemos nos dias de hoje. Para além dos bigodes retorcidos, é claro! Mudam os tempos, mudam as mentalidades e as modas também, mas ficam registos interessantes como este, que para além de trazerem à recordação familiares antigos, ficam para sempre inscritos na história dos costumes e da moda de determinada época, povo e região


Manuel de Abreu pai era filho de José de Abreu, natural de Tábua, e de Maria do Nascimento. Dos quatro que se encontram nesta foto, apenas Manuel de Abreu pai integrou a 2ª colónia de madeirenses, em 1885,  quando tinha 7 anos de idade, viajando na companhia de seus pais e de 7 irmãos, Maria, Vitorina, Francisco, Antónia, Virginia, João, Manuel e António (mediando entre os 23 e os 3 anos de idade). Os três da foto, Anastácia e os filhos de ambos, Manuel (o "Mata Porcos") e Raúl,  eram  já nascidos no Lubango.  Foto do início do século XX

Portanto, em 8 de Junho de 1885, no vapor "ÁFRICA", partiu do Funchal (Ilha da Madeira) uma 2ª colónia composta por 206 madeirenses rumo a Moçâmedes (à época Mossâmedes/ actual cidade do Namibe, em Angola), onde chegaram a 19 de Agosto do mesmo ano. Iam juntar-se aos madeirenses ali chegados em 1884. Após uma estadia de cerca de um mês em Moçâmedes, tal como acontecer com os seus companheiros, partiram, a pé, e em carroças boers, atravessarem o deserto e escalaram a Serra da Chela, para ali, a muitos quilómetros do mar, se fixarem através das maiores adversidades, e contribuirem para o povoamento europeu da terras altas da Huila (Sá da Bandeira/Lubango).


Antecedentes

O primitivo impulso para a deslocação dos colonos da Ilha da Madeira para o Lubango veio do receio de Portugal face à ambição das nações europeias dirigidas para o sul do território, nomeadamente da parte da Inglaterra, a velha aliada, e da Alemanha. Foi então que o condutor de Obras Públicas ao serviço no Distrito de Moçâmedes, Câmara Leme, impressionado com o paradisíaco vale do Lubango, procurou levar a cabo diversas tentativas tendo em vista o povoamento dirigido naquelas terras desabitadas do planalto sul de Angola, nomeadamente na Huíla, Humpata, Palanca e Bibala, região excepcional para a agricultura, cujas serranias faziam-lhe lembrar a Ilha da Madeira, seu berço natal, onde abundavam terrenos férteis, água pura e cristalina, e onde encontrariam um clima de uma amenidade incomparável em África. Aliás, no ano partida do 1º contingente de colonos madeirenses, teve inicio a Conferência de Berlim (1884-1885) que teve a participação de 15 países, 13 pertencentes à Europa, incluindo Portugal, e o restante advindo dos Estados Unidos e da Turquia,  tendo por objectivo a elaboração de um conjunto de regras que dispusessem sobre a conquista da África pelas potências coloniais da forma mais ordenada possível, mas que acabaria resultando em uma divisão nada pacífica (Partilha de África).

A ideia de Câmara Leme veio ao encontro da preocupação governamental de contrabalançar os contingentes boers, emigrados da África da Sul para as terras planálticas da Huila, acossados pelas forças militares inglesas, e levou-o a deslocar-se à Metrópole para a expôr ao Ministro da Marinha e Ultramar, uma vez que o Governador Geral da Colónia não possuía poderes para tal. E foi assim se desenvolveu na Ilha da Madeira toda uma campanha de angariação de povoadores que visava ao mesmo tempo contrariar o fluxo migratório dos madeirenses para o Hawai, ilhas Sandwich, Demerara, onde em alguns destes locais, conforme a imprensa da época passou a veicular, se praticava uma autêntica escravatura branca.

Assim teve início a fixação da 1ª colónia de madeirenses em terras do Lubango, que constituiu uma verdadeira epopeia, ainda que o processo tivesse merecido uma planificação mais cuidada, na esteira da transferência dos portugueses de Pernambuco para Moçâmedes, em 1849. A colónia agrícola destinada ao planalto da Huila foi programada nas secretarias do Ministério da Marinha e Ultramar, em Lisboa, no primeiro semestre desse ano em que teve início a célebre Conferência.

Portugal estava a braços com uma sistemática crise financeira e social, e o recrutamento efectuado através da imprensa e de editais colocados no adro das Igrejas, ao qual apenas responderam apenas os madeirenses, não foi selectiva nem organizativa o quanto baste, e acabou por obedecer apenas a exigências de natureza política. O Estado limitou-se "arrebanhar", candidatos sobretudo onde a pobreza era mais premente, como era o caso da ilha da Madeira,  gente indiferenciada, sem emprego, que deambulava por cidades e vilas: Funchal, Machico, Câmara de Lobos, etc, que por razões de ordem social e/ou económica estava disposta a partir para rumos desconhecidos. Câmara Leme apodou-os de "vadios". Na Ilha da Madeira por aquele tempo, a miséria dos campos levou à fuga para as vilas e cidades, de gente não preparada, sem condições para acompanhar as transformações em curso, gerando uma tensão permanente entre os antigos moradores.  Na Madeira não existia terreno fértil por demarcar, e por esta altura os que quisessem sobreviver apenas encontravam no Estado a oportunidade de uma oferta de passagens e de um pouco de terreno para cultivar, lá muito longe onde os esperava um futuro não menos incerto. Foi, pois, neste desassossego que partiram mar fora, muitos dos 222 madeirenses, que embarcaram no Funchal, no vapor "Índia", destinados ao povoamento do planalto da Huila. Quanto à coesão e à diversidade deste grupo, afirma António Trabulo: “Na maioria dos casos, os emigrantes não se conheciam. […] Pouco mais de metade dos novos colonos trabalhava a terra desde sempre. Os outros eram marinheiros sem barco, pescadores sem rede, artífices sem emprego, ladrões, umas tantas prostitutas em idade da reforma e alguns chulos. Unia-os a pobreza e a esperança numa vida melhor. […] A bordo, as famílias foram obrigadas a dividir-se… homens e mulheres ficaram separados e apenas as crianças pequenas puderam acompanhar as mães.”  In TRABULO, António – Os Colonos. Lisboa: Esfera do caos Editores Lda. 2007, p. 22-25.

Por essa altura, tinha chegado à Colónia de S. Januário, na Humpata, um inglês de nome Mr Botha, que vinha convencer os colonos boers ali instalados, a regressarem ao Transval, e a integrarem uma acção contra os povos revoltosos da Damaralândia, e para os aliciar, assegurava haver ali marfim em quantidade. Mas o grupo boer preferiu avançar até ao Bailundo, a noroeste Benguela, e daí avançar até ao Quipungo, Caconda, bacias Cunene e Cubango, e acabaram por se instalar em Otchinjau. Para estas digressões, que tiveram o apoio Governadores Geral e de Moçâmedes, chegou a ser organizada uma subscrição de recolha de fundos para prendas aos sobas da região.

Voltando ao 1º grupo de colonos madeirenses, estes saíram do Funchal no vapôr "India", acompanhados de D. José da Câmara Leme, o Director da colónia, também ele madeirense, conhecedor do sul de Angola, (Câmara Leme tinha construído a ponte de cais em Moçâmedes, destinada a barcos de pequeno calado). Chegados a Moçâmedes , o "India" esteve ancorado ao largo, na baía, enquanto decorreu o desembarque, através de escaleres,  e os colonos foram alojados em barracões provisórios, ficando  a aguardar a saída para o planalto, prevista para os dias seguintes, porém os carros bóers, contratados no Bumbo e na Humpata pelas autoridades portuguesas, sequer tinham dali saído, pelo que tiveram que aguardar em Moçâmedes cerca de um mês, até que em meados de Dezembro de 1884, já o tempo tinha aquecido, partiram rumo ao Planalto. Também os carros disponíveis se revelaram insuficientes para transportar todas aquela gente e suas modestas bagagens, que incluíam alfaias agrícolas e géneros alimentares, para o período de carência que se avizinhava. A colónia foi dividida em dois grupos,  cerca de metade dos colonos ficaram a aguardar por um segundo transporte de pessoas e bens. Foi uma viagem atribulada, por estradas não pavimentadas, sob um sol escaldante, comendo pó pelo caminho, ou debaixo de chuvas torrenciais, após transporem o Deserto e chegar ao sopé da Chela. O primeiro momento complicado surgiu-lhes na descida para o vale do rio Giraúl. Superada a grande subida, chegaram a um plateau que conduzia à chamada "Pedra do Major", onde passaram a primeira noite. Manhã cedo do 2º dia, voltaram à longa e estafante caminhada por uma espécie de estrada plena  de pedregulhos, por onde caminharam sem parar até à chamada "Pedra Grande", um bloco de granito pouco elevado, existente na zona entre Moçâmedes e a Serra da Chela, onde resolveram descansar, uma vez que era totalmente impossível alcançar o Munhino, antes do pôr-do-sol. No dia seguinte chegaram à região do Munhino, zona ocupada por um vale fértil e verdejante a cerca de 40 km da Bibala (Vila Arriaga), onde encontraram plantações de milho, cana de açúcar e batata doce, e algumas construções dispersas. Descansaram no leito de areia, e retomaram a marcha até alcançarem o início da subida da Serra da Chela. O percurso até à Bibala (Vila Arriaga), a cerca 900 metros de altitude, levaria dois dias a percorrer. Pideram observar outras plantações de cana sacarina e alguns campos de algodão. Estafados, pernoitaram próximo de uma das casas mais afastadas do povoado, e na madrugada seguinte retomarem o caminho, tendo que aliviar a carga dos carros bóers, e os empurrar para que estes conseguissem vencer as sucessivas e perigosas subidas, até finalmente chegarem ao vale do Lubango, onde encontraram à sua espera dois barracões provisórios, erguidos no local que passou a ser conhecido por "Barracões", nas margens do rio Caculovar, ou seja, no limite sudeste do extenso vale do Lubango. A viagem tinha demorado nove dias tendo a escalada da Serra da Chela consumido cerca de 100 horas de grande canseira. 

Na manhã seguinte, serra abaixo, viajariam para Moçâmedes as carroças boers. Iam buscar a gente que ficara à espera. E alguns dias depois chegava ao Planalto da Huila a segunda leva deste primeiro contingente de colonos oriundos da Madeira. Concretizava-se assim a iniciativa do ministro Pinheiro Chagas, de instalar uma colónia agrícola no vale fértil do Lubango.

Chegaram exaustos e ansiosos, tristes e vencidos pelo cansaço,  homens, mulheres e crianças, que haviam caminhado a pé e em carros boers, que atravessaram o escaldante Deserto do Namibe, e subiram a serra da Chela por caminhos acidentados, em períodos de chuvas torrenciais, que não se fizeram esperar.  E mais desanimados ficaram quando, após descarregaram os carros viram os 4  barracões de pau-a-pique que os aguardava, cobertos a capim, mandados construir para eles, onde tiveram que ficar divididos (dois para casais e crianças, os outros dois para filhos crescidos e solteiros um para cada sexo), sem as mais elementares comodidades, e onde promiscuidade entristecia.   Em separado foram erguidas cubatas destinadas ao director da Colónia, ao médico, secretaria provisória e ambulância.

A 19 de Janeiro foi fundada oficialmente a Colónia Sá da Bandeira, em homenagem ao Marquês com o mesmo nome, que à época chefiava o Ministério do Ultramar, a qual passaria a ser dirigida pelo condutor de Obras Públicas D. José da Câmara Leme. Foi ali rezada a 1ª missa pelo padre José Maria Antunes, reitor da missão da Huíla. 25 MEDEIROS, Carlos Alberto – A Colonização das Terras Altas da Huíla (Angola).

Os primeiros tempos foram difíceis de suportar. Sentiam-se como que numa enorme prisão sem grades, desiludidos, revoltados, sem meios financeiros para regressar à sua Ilha da Madeira, mais pobres que nunca, incapazes de decidir e expôr os seus protestos, sujeitos a castigos e a punições, e acabaram por ficar. Uma situação complicada que obrigou Câmara Leme a evidenciar todas as suas qualidades de chefia e de autoridade. Ainda mal refeitos da estafante subida da Chela, foi-lhes ordenado que iniciassem a abertura de uma vala que conduziria a água do Mucúfi até à zona escolhida para centro do povoamento, local onde se distribuiriam terrenos aos colonos, e que ficou  praticamente concluída em finais de Fevereiro. E também construção de um açude regulador da captação de água.

Para os mais diligentes e para os mais abnegados, não tendo outro remédio, foi o arregaçar de mangas, o meter ombros com ardor e entusiasmo à tarefa urgente de desenvolver condições de vida na selva e criar uma povoação próspera que começaram a desbravar. Outros aceitaram mais facilmente as ordens do promotor, de arrotear e semear os campos, e a ideia de que o Lubango a partir de então era a sua terra e a terra dos seus filhos, acolhendo os aconselhamentos dos padres e das irmãs da Missão da Huila. E assim de imediato os colonos se meteram tarefa de desenvolver condições de vida na selva que desbravaram com denodo, e, em menos de trinta dias realizaram os trabalhos indispensáveis para fazer a inauguração oficial da "Colónia de Sá da Bandeira", a 19 de Janeiro de 1885. Era na altura governador de Moçâmedes, Sebastião Nunes da Mata.

Ao primeiro contingente, seguiu-se um segundo, de 206 colonos, também eles embarcados no Funchal, em 18 de Junho de 1885,  no vapor "África", que chegou a Moçâmedes em 19 de Agosto desse ano, perfazendo o número global de 428 pessoas.  Este grupo de colonos já obedeceu a um melhor critério de selecção, evitando-se tudo quanto fossem considerados marginais, deportados, etc., como era a prática dos governantes portugueses com relação às colónias de África. Foi neste contingente, como referido atrás, que a família de Manuel de Abreu se integrou.

A seguir outros portugueses foram chegando à região de Moçâmedes que então englobava o Planalto da Huila (Terras Altas de Mossâmedes), vindos de vários pontos do território metropolitano,  funcionários públicos, professores, homens de negócios, de comércio, de industria, agricultores, isoladamente, e todos juntos operaram no Lubango um ritmo de crescimento considerado por muitos superior às demais cidades de Angola. Não foi vertiginoso, mas foi progressivo e seguro o crescimento de Sá da Bandeira, que em 1889 era elevada a sede do concelho do Lubango, e mais tarde, com Norton de Matos, em 31 de Maio de 1923, ascenderia a cidade.

Algumas famílias de madeirenses, mais tarde se transferiram para Moçâmedes,  onde se dedicaram à pesca, à agricultura e ao comércio.  Foi o caso da família de Manuel de Abreu, o "Mata Porcos", à qual esta postagem  refere.


AS FAMÍLIAS ABREU E JESUS NA LISTA DOS COLONOS MADEIRENSES


Através dos nomes que seguem, tirados da lista dos colonos de 1884 e de 1885, podemos facilmente detectar a frequência com que os apelidos das famílias Abreu e Jesus, surgem . Sabe-se que uns acabaram por se radicar em Moçâmedes, mas que a maioria subiu a Chela e fixou se definitivamente em Sá-da-Bandeira (Lubango). Parece tratar-se de duas famílias bastante interligadas entre si atraves de casamentos. Os nomes que seguem foram retirados das listas do livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres. 1º volume: 

Familiares que integraram a 1ª colónia desembarcada em Moçâmedes a 18(19) de Novembro de 1884, composta por 222 (213 ?) colonos madeirenses vindos a bordo do "ÍNDIA" , saído do FUNCHAL, em 12 de Outubro, de acordo com o projecto de D. JOSÉ DA CÂMARA LEME:


--- FRANCISCO MARQUES DE JESUS - natural de Santa Ana(48 anos), casado com JOANA ROSA DE JESUS; filhos : - Maria(17), Manuel(13), Francisco(5) e João (16 meses ?).
--- FELISBERTO GONÇALVES DELGADO - natural de Porto Monis(4o anos), casado com MARIA DE JESUS.
--- FRANCISCO GOMES FARIA - natural de Curral das Freiras(26 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel (1),João (nasceu a 1/6/1885).
---JOSÉ FERREIRA JÚNIOR - natural de S. Martinho(20 anos). Casou com MARIA DE JESUS em Janº/1886; filho : - Manuel(17/9/1886).
--- LUIS DE ABREU FARIA - natural de Ribeira Brava(30 anos), casado com CRISTINA DA SILVA DE JESUS; filho - Manuel(20 anos).
--- MANUEL PAULO DE FREITAS - natural de Boaventura(35 anos), casado com BASÍLIA DE JESUS; filhos :- Maria(3) e Manuel(nascido em Dezº 1886.
--- MANUEL VICENTE FERREIRA - natural de S.Jorge(42 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(8), Maria(6) e António(2).


2
Familiares que integraram a 2ª colónia de madeirenses, em 18 de Junho de l885, embarcados no vapor "ÁFRICA", no FUNCHAL, rumo a Mossãmedes/Angola, tendo ali chegado em 19 de Agosto:


~-- ANTÓNIO DE ABREU, natural de Boa Ventura(24 anos),casado com MARIA DE JESUS.
----ANTÓNIO GOMES JÚNIOR - natural de S. Roque(32 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Matilde (21), Gregório(9), Maria(3 meses).
--- ANTÓNIO MANUEL GOUVEIA - natural de S. Vicente(31 anos), casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Maria(4), Manuel(7 meses), Isabel(nascida a 28/9/1886), Maria(nascida 23/7/1887).
--- ANTÓNIO MARQUES LUIZ - natural de Santa Ana(46 anos), casado com JOAQUINA FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(14), José(12), Carolina(8), Ana(6), Luisa(3) e António (22 dias).
--- FRANCISCO DE GOUVEIA - natural de Ribeira Brava(25 anos),casado com ISABEL DE JESUS GOMES.
--- JOSÉ DE ABREU - natural de Tábua, casado com MARIA DO NASCIMENTO ; filhos : - Maria(23), Vitorina(20), Francisco(18), Antónia(16), Virgínia(12), João(10), Manuel(7), António(3).
--- JOÃO NUNES - natural de Ribeira das Galinhas(20 anos),solteiro. Casou com MARIA DE JESUS em 1/8/1887.
--- JOSÉ DE CASTRO - natural de Santo António(49 anos),casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Luis(15), Alexandre(13) e Augusto(1).
--- JOÃO DE FREITAS - natural do Machico(43 anos),casado com CRISTINA DE JESUS; filhos : - Romana(13), Maria(12), Augusta(10), Cristina(7), Manuel(5), Tereza(2) e Alexandrina(1 mês).
--- JOÃO DOS SANTOS - natural de S.Martinho(29 anos),casado com JUSTINA DE JESUS; filha - Maria(2) e cunhado JOSÉ DE PONTES(17 anos).
--- JOÃO MARQUES CALDEIRA - natural de S. Jorge(45 anos), casado com MARIA ROSA DE JESUS; filhos - Maria(16),FRancisco(12) e José(8).
--- JOÃO SOARES DE ABREU - natural de Porto da Cruz(40 anos), casado com MARTA ROSA; filhos : - Rosa(6), João(4), José(nascido a bordo em 20/5/1885).
--- JOÃO DE FREITAS GOMES - natural de Santa Ana(48 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(20),António(16), Joaquina(12) e António(primo - 19 anos).
--- JOÃO MARQUES LUIS - natural de Santa Ana(41 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Manuel(6),Maria(4), Gertrudes(2) e João (nascido a bordo em Outubro de 1885).
--- JOÃO DA COSTA - natural de Machico(32 anos), casado com FRANCISCA DE JESUS; filhos : - Maria(13),Francisca(10),José(8), Francisco(6) e João(4 anos).
--- JÓSÉ DE ABREU PEREIRA - natural de Tábua(42 anos), casado com VIRGINIA ROSA; filhos : - António(11), Jacinto(7), Maria(4) e Manuel Francisco(pupilo).
--- JOÃO FERNANDES DA SILVA - natural de Calheta(50 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(12), Cristina(7)e Maria(6 anos).


Ficam estas recordações
MariaNJardim


Nota: As fotos foram dispensadas por Nito Abreu, filho de Raúl de Abreu. Por Nito Abreu foram fornecidos também os elementos sobre a sua familia, aqui descritos. 

Alguma bibliografia consultada:
-Felner, A. de A. Angola: apontamentos sobre a colonização dos planaltos e litoral do sul de Angola. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1940.
- Machado, C. R. Colonização do Planalto de Huíla e Moçâmedes. Boletim da Soc. Geog. Lisboa.
-Medeiros, C. A colonização das terras altas do Huíla. Lisboa, 1976.
-Silva, R. J. C. da S. Subsídios para a História da Colonização do Distrito de Moçâmedes durante o século XIX: capítulo III. Studia, n. 35, p. 421-439, 1972b.
-Torres M. J. de M. O distrito de Moçâmedes nas fases de origem e de primeira organização (1485-1859). Lisboa, 1950.
-Vicente, Pe. J. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1969.



Consultámos também, Net:
Livro Emigração da Ilha da Madeira



A respeito de caça e de troféus de caça...

O moçamedense António A. M. Cristão, publicou no seu livro «Memórias de Angra do Negro -Namibe- Angola», uma crónica assinada por Silvestre Newton da Silva que representa uma sentida alusão aos vândalos e caçadores furtivos que já nessa altura (1958) vinham dizimando a fauna do Deserto do Namibe, em busca de troféus que, segundo autor, para nada mais serviam que a serem exibidos a ingénuos pacóvios...

Silvestre Newton da Silva foi um jornalista profissional que a determinada altura abandonou o jornalismo para se tornar Gerente do Banco de Angola em Moçâmedes, e posteriormente

abandonou o Banco de Angola para, juntamente com Raúl Radich Júnior, criar a empresa Cicorel que se dedicava ao comércio, à construção civil e à industria extractiva de mármores e granitos. Foi graças a esta empresa que os mármores e granitos de Moçâmedes se tornaram conhecidos além fronteiras, e que vendidos em bruto, chegaram a ser em seguida transaccionados, dada a sua qualidade, como se de mármores de Carrara se tratasse.
Clicar AQUI para ler A excelente crónica de Newton da Silva sobre a caça no deserto de Moçâmedes.


Nota: Tudo o que for retirado deste blog deverá respeitar a sua proveniência)

1 comentário:

  1. E lindo recordar a epopeia destes homens, verdadeiros herois, desbravadores duma terra desconhecida e cheia de carencias , perigos e doencas. Hoge com todas as mordomias e qualidade de vida proprias da nossa epoca e difil imaginar todo o esforco e sofrimento pelo qual esses homens passaram. Deveria erguer-se uma estatua a esses primeiros desbravadores, verdadeiros duma epopeia que o tempo nao pode apagar.

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