Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Quiosque de Moçâmedes (Quiosque do Faustino) em fase de construção e já pronto e enquadrado na Avenida.

  
O "Quiosque do Faustino"  surge aqui muito bem enquadrado. Estava-se na 1ª metade dos anos 1950
Um troço da AVENIDA, vendo-se ao fundo o Quiosque do Faustino. À dt o Cine Teratro de Moçâmedes. Postal lançado na comemoração do Centenário, em 04 de Agosto de 1949

A AVENIDA vendo-se a meio o Quiosque do Faustino. Postal lançado na comemoração do Centenário, em 04 de Agosto de 1949

Faustino, o proprietário do Quiosque de Moçâmedes, e esposa


Este bonito Quiosque que se manteve durante décadas a côr rosa, nasceu com um belo enquadramento, no centro dos jardins da vasta Avenida da República, em finais dos anos 1940, em frente ao edifício da Alfândega, e em local onde  até então ficava muito próximo um obelisco erigido à memória de Marquês Sá da Bandeira, o General que havia mandado promulgar, a 10 de Dezembro de 1936, o decreto de abolição do tráfico de escravos.

No início da década de 1950 esta Avenida foi objecto de grandes melhoramentos, e transformou-se num local ainda mais atrente, rodeado de canteiros cobertos de flores de variadíssmas qualidades e das mais diversificadas cores, que era um encanto ver. Bancos de jardim surgiram em maior número, num verdadeiro culto ao divertimento e ao lazer. A Avenida era o nosso "Picadeiro", ou melhor, era um verdadeiro "Passeio Público", onde ranchinhos de rapazes e de raparigas passeavam para cá e para lá, em doce confraternização. O Rádio Clube de Moçâmedes, sob a direcção de Carlos Moutinho levava a cabo aos domingos, em plena Avenida, a seguir às matinés das 5h da tarde do Cine Moçâmedes,  programas de rádio que eram transmitidos através de altifalantes pendurados em árvores que entrevistavam pessoas, lançavam para o ar música a pedido, que incluia tangos de Gardel e outros géneros musicais que faziam partir de emoção os jovens corações. Lá para os finais dos anos 1950 os bailes de finais de tarde,  aos domingos, então disputados entre os salões do Atlético e do Casino, passaram a ser mais frequentes, os encontros desportivos multiplicaram-se, surgiram outros divertimentos e estes usos e costumes são ultrapassados.





Batalha de "cocotes" de farinha, entre Bilibaus e Tragateiros, por ocasião do Carnaval de 1955, nos jardins da Avenida da República,  em frente ao "Quiosque do Faustino".


Este Quiosque transformou-se, na década de 1950 no ponto de encontro de um grupo de «velhotes» da terra que para ali convergiam, religiosamente, ao fim do dia, onde permaneciam até à hora do jantar, em agradável  «cavaqueira», enquanto jogavam uma partida de damas ou dominó, e  tomavam a tradicional «café», talvez um cognac ou uma qualquer bebida. Eram eles o veterano Virgilio Gomes (do Armazém), ou Virgilio Russo, grande contador de anedotas que inventava com grande imaginação e talento, também «carinhosamente» conhecido por «Virgilio aldrabão», devido ao insólito das mesmas anedotas. Era o industrial e comerciante João Duarte, residente num grande casarão de traça colonial bem portuguesa, situado na Torre do Tombo, proprietário de uma pescaria na Praia Amélia, que era alí deixado religiosamente, todos os dias ao declinar o sol, pelo «chauffeur» da sua «limousine». Era o velho Pequito da Farmácia da Praça Leal, que acabou os seus dias com uma paragem cardíaca enquanto sentado no interior da mesma Farmácia. Era o velho Pimentel Teixeira, que trabalhava na farmácia do Sindicato da Pesca, na Torre do Tombo, e que faleceu de uma queda da bicicleta, seu transporte habitual, depois de ter  descido a descida da Fortaleza, e de ter sofrido o embate contra uma carrinha que fizera uma paragem brusca, quando passava em frente à empresa de Gaspar Gonçalo Madeira, na Rua da Praia do Bonfim. Era o velho Cabral (conhecido por «caído da Lua»), que andava sempre de fato branco e laçinho, e morava na Rua da Praia do Bonfim, num velho edificio recuado, de 1º andar, ao lado do Salvador fotógrafo. Era o velho Ringue, solteirão de origem holandesa (boer), domiciliado no Hotel Moçâmedes, ex-produtor de tabaco na zona da Bibala, que fora vigarizado por uma tabaqueira e acabou por perder a sua propriedade, tendo acabado por viver os últimos anos da sua vida como tradutor de algumas empresas da cidade. Mas havia outros frequentadores do Quique do Faustino nesses 1ºs anos da sua construção, cujos nomes de momento não me ocorrem. Aliás ainda no tempo do Padre Basílio, portanto em tempos mais atrás, há notícia que o dito padre, de cuja fama de malandreco e atiradiço para as raparigas,  não escapava,  frequentava este Quiosque, onde aparecia aos finais de tarde com o seu inseparável chapéu preto para se pôr ao corrente das últimas novidades. Mas creio que deveria frequentar mesmo era o primitivo quiosque de ferro.

Frequentava na época essa zona, não o Quiosque, mas ali perto, uma figura típica, natural de Moçâmedes, um homem que possuia uma bem timbrada e forte voz, e em tempos havia sido um brilhante administrativo, mas que por motivos que desconheço acabaria por perder o tino, e levava os seus dias sentado num banco do jardim que funcionava como fosse o seu local de trabalho, o "escritório" : era conhecido por Faria das Baleias. Faria apesar de indigente, nunca perdeu a sua educação e cumprimentava sempre, atenciosamente, toda a gente que via e que por ali passava. Abandonado pelos seus, como se dizia, recolhia-se ao fim do dia para pernoitar  no interior de um velho moinho em ruinas, onde tinha por companheiros os seus muitos cães.



Sabemos que recentemente a côr do Quoisque foi mudada para amarelo laranja, uma côr mais ao gosto dos povos dos trópicos. Também sabemos que este Quiosque sofreu algumas alterações na sua estrutura, com o acrescento de mais um pequeno andar. Ladeando lateralmente os jardins da Avenida, do lado da Praia das Miragens, ficava um belo caramanchão onde cresciam trepadeiras cobertas de flores vermelhas que era um gosto de se ver. 

Mas recuemos no tempo até aos anos 1930 e 1940... Como podemos ver pela foto que segue o edificio da Alfândega de Moçâmedes tinha na altura, à sua frente, em plena Avenida, onde foi construido o definitivo Quiosque, um obelisco  de grande sobriedade que fora para ali trazido, proveniente da "Praça Sá da Bandeira", (1) uma praça que existiu ocupando o quarteirão onde foi construída a Escola Portugal. Este este  monumento de grande sobriedade, também conhecido por monumento ao “Esforço da Colonização”, foi erguido sobre um plinto prismático, o qual ostentava referências, escritas e gravadas, aos heróis da gesta colonizadora. Desconhece-se o seu estado actual.


 


Havia também, a uns metros mais a sul,  um primitivo Quiosque de ferro, bastante mais pequeno e estreito, pintado de verde escuro, com o tecto beje, e com idênticas funções,
porém acabou por ser  também retirado, e nunca mais ninguém soube o que foi feito dele.  Era, como se pode ver pelas fotos, um quiosque de estilo romântico idêntico aos que hoje em dia ainda podemos ver numa ou noutra rua de Lisboa.

 
 A praça junto do Bairro da Facada, para onde foi transferido o Obelisco a Sá da Bandeira, simbolo da liberdade relacionado com a abolição do tráfico de escravos para o Brsil e Américas, e onde se encontra presentemente
http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/EB087.pdf


O obelisco foi transferido para o largo em frente à casa comercial de João Pereira Correia (foto imediatamente acima), próximo do «Bairro da Facada», onde ainda hoje se encontra, porém já sem a histórica dedicatória, o que é de lamentar. Por curiosidade acrescentarei que o transporte do referido obelisco foi efectuado em «vagonetas» rolando sobre carris, que foram na altura colocados apenas para o efeito, na estrada,  ao longo da Avenida e até ao novo local, sendo em seguida retirados.
O primitivo quiosque de ferro podia ter sido aproveitado tal como foi o obelisco, e colocado em outro local (foto acima ), uma vez que fazia parte do património urbanístico da cidade,  mas acabou num qualquer amontoado de «ferro velho», numa das lixeiras da cidade. Ainda há a referir que era em redor dele que no decurso da 2ª Grande Guerra Mundial (1939/1945) se reuniam os homens da terra para ouvir os noticiários difundidos pela BBC de Londres. Eram poucas as famílias que na cidade possuíam aparelhos de rádio, que na altura ainda eram alimentados a bateria.  No anúncio  colocado abaixo podemos ver dois modelos desses aparelhos de rádios .

As pessoas mais antigas de Moçâmedes, guardavam também no seu pensamento notícias  dessa outra guerra de 1914/18, que envolveu as nações mais ricas da Europa, e cujos antagonismos económicos, coloniais e políticos ameaçaram arrastar a África para o conflito. Nessa altura não havia emissões de rádio, nem havia energia eléctrica. Os candeeiros das ruas eram alimentados a óleo de cetáceos (baleias) produzido numa fábrica de noruegueses que existia na Praia Amélia . As notícias sobre a guerra a que se tinha acesso vinham através de jornais que passaram a ser vendidos no pequeno quisque, ou eram transmitidas oralmente, porque, não esqueçamos, em Moçâmedes desembarcaram Companhias de Guerra que, subindo a Chela, rumaram à região do Cunene para combater as populações indígenas sublevadas e instigadas pelos alemães. Refiro-me às campanhas de África  que redundaram no desastre de Naulila, (18 /Dezembro/1914). AS forças expedicionárias portuguesas desembarcaram em Moçâmedes em 9 de Outubro de 1914, a recuarem perante o ataque alemão a partir da Damaralândia. Os alemães, aproveitando a animosidade dos cuanhamas, atravessaram o Cunene e chacinaram as guarnições portuguesas, no começo da guerra de 14-18. Também desembarcaram em Moçâmedes, em 7 de Abril de 1915, as forças do general Pereira D'Eça para vingar a derrota de Naulila e recuperar o Cuanhama. Em 2 de Setembro com a ocupação de N'Giva, terminou essa campanha. Foi um alívio para as comunidades pacificas que viviam em Moçâmedes. A Alemanha tinha dado um salto económico  entre 1880 e 1914 e não aceitou a partilha da Ásia e da África na base do direito histórico que Portugal reclamava. Era forte concorrência entre as potências europeias na busca  de matérias-primas, mão de obra africana, e  mercados consumidores. A Conferência de Berlim (1884-5) dividira Africa pelas potências europeias industrializadas e para a Alemanha Portugaldevia ficar fora da partilha.  A guerra de 1914/18 aconteceu, como voltou a acontecer uma nova Guerra, em 1939/45, devido às pretensões da Alemanha de ser a potência mais forte do mundo.  Portugal defendeu sempre, e a todo o custo, as fronteiras de Angola, da intromissão de outras potências, muito sangue português foi vertido, como muito sangue dos autóctones nestras guerras. A despeito dos erros cometidos na colonização, o que ninguém poderá negar, é que o povo angolano ficará para sempre a dever aos portugueses a definição das fronteiras do imenso território que receberam na hora da Independência,  bem como a própria identidade angolana.  A língua portuguesa está permitindo unir  povos de etnias diferentes aquilo, aquilo que os etnocentristas têm procurado cindir. 
Isto para dizer que todos os episódios da guerra eram seguidos atentamente, o quanto possível, na cidade por aqueles que frequentavam  o primitivo quiosque, e já na ultima de 1939/45  através dos tais aparelhos de rádio alimentados a bateria...  



 

MariaNJardim
Ver também AQUI

6 comentários:

  1. Bom dia
    Meu nome é Fernando e sou Madeirense. Meu sextavô foi para a Africa entre 1820 e 1890. Gostaria de obter mapas das regiões de Moçamedes e Luanda desta época ou pelo menos, próximo.
    Existe registro dos colonizadores Madeirenses desta época?
    Eu tenho relatos de família que contam um pouco da vida nestas cidades na época.
    Obrigado pela atenção
    Obrigado pela atenção
    Meu email:
    fernandojorgegouveia@hotmail.com

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  2. Sobre o comentário anterior, gostaria de saber sobre Moçamedes e Lubango (e não Luanda). Lubango era uma vila que foi levada a categoria de cidade com o nome de Sá da Bandeira.

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  3. OI PESSOAL
    QUE ALEGRIA... QUE GOSTO... DE VER O QUIOSQUE DO MEU QUERIDO PAIZINHO...
    QUANTAS SAUDADES... QUANTAS LAGRIMAS CORRI...
    MANUEL FAUSTINO JUNIOR

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  4. Desculpe não ter respondido, pois só agora vi o comentário. Brevemente responderei. Cumps

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  5. SAUDADES DE 1 DAS PROPRIEDADES DO MEU PAI, DEUS O TENHA NO CÉU, ONDE PEQUENO FUI MUITO FELIZ , 1 LUGAR PARADISIACO

    SINTO SEMPRE 1 NOSTALGIA , APROVEITO MANDO ABRAÇOS DE SAUDADES A IRMAÕS MEUS EMIGRADOS , Q SEMPRE FOMOS MUITO FELIZES

    SAUDAES DO CORAÇÃO , E 1 DIA AGENTE SE ENCONTRA TODOS JUNTOS DE NOVO CECILIO FAUSTINO

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  6. A vida é cheia de recordações , dá me sempre 1a nostalgia, lembrar me de quanto eu fui muito feliz , juntamente c 1a família feliz e despreocupada . Brevemente

    havemos de nos encontrar todos ..., Aproveito para mandar muitas saudades aos meus irmãos, e restante família que utiliza este blogue mandem me fotografias da

    MINHA CASA agora ou antes muito obrigado

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