Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 21 de dezembro de 2008

A primeira traineira de Moçâmedes: década de 1940




A PRIMEIRA TRAINEIRA DE MOÇÂMEDES

Esta enorme «traineira» que aqui vemos em Portimão encostada à muralha do porto, num local muito próximo da «Casa Inglêsa» (o café que tem à venda o melhor que se fabrica na doçaria regional algarvia), foi a primeira traineira que sulcou os mares de Moçâmedes. Chegada a Portugal, em tempos mais atrás, encomendada pela Cooperativa «Galinho», que se dedicava à pesca da sardinha, era movida a vapôr através de caldeiras. Mais tarde, por volta dos anos 1940, foi adquirida pela família Grade, residente em Moçâmedes, mas teve que passar pelos estaleiros de Portimão onde foi submetida a várias modificações, que incluiram a retirada do cano, uma vez que passou a funcionar a motor a gasoil.
Foi levada até Luanda fazendo porte da carga de um navio, porém de de Luanda para a Baía dos Tigres, onde ficava a pescaria do proprietário, viajou pelos seus próprios meios.O primitivo nome que lhe foi então dado foi o de «Nossa Senhora da Luz». Ao chegar a Moçâmedes foi baptizada com o nome da filha do proprietário: «Maria José». Viajaram com ela, António Gonçalves de Matos (Sopapo) e outros algarvios dedicados à arte da pesca, que acabaram por se radicar em Moçâmedes, onde ficaram até à independência de Angola, em 1975. Quando se deu a independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, esta enorme traineira já tinha sido vendida a uma sociedade de que faziam parte Virgilio Gonçalves de Matos, Francisco Velhinho e Miguel de Freitas. Perante o agravar dos conflitos entre os movimentos em luta, e a degradação das condições de vida na cidade de Moçâmedes, os sócios resolveram partir de avião para o Brasil, enquanto a traineira atravessou o mar, rumo às terras de Santa Cruz (Brasil), conduzida pelo seu mestre, de origem madeirense, cujo nome não recordo, que com ele levara a família constituída pela mulher seis ou sete filhos. No Brasil, mais propriamente em Santos, esta traineira acabaria por ser vendida dada a dificuldade na aquisição de licenças de pesca para barcos estrangeiros. Nesse mesmo dia em que a enorme traineira partiu de Moçâmedes, com uma diferença de horas, partiu também na sua traineira rumo ao Brasil, José Vicente Arvela. Nunca se encontraram pelo caminho. A primeira foi dar a Porto Seguro, esta, a S. Salvador da Baía. Imagine-se o que foi a chegada à baía da traineira de José Arvela, sem prévio aviso às autoridades portuárias daquela cidade, com a bandeira portuguesa desfraldada ao vento. A traineira entrou descontraidamente e ficou ali fundeada à espera. Do modo como foram recebidos o seu proprietário jamais esquecerá. A bordo subiu o chefe do Comando do 2º Distrito Naval do Brasil - Salvador da Baía, que logo lhes ofereceu alojamento e alimentação por um ano.



MariaNJardim

Foto gentilmente cedida por Vicente José Arvela, bem como as respectivas informações.

Estaleiros da Torre do Tombo: finais da década de 40



















Foto do livro «Era uma vez Angola... » de Paulo Salvador.

O fluxo de algarvios para Moçâmedes, iniciado em 1860, dez anos após a chegada de portugueses vindos de Pernambuco (Brasil) por força da revolução praeeira, foi o mais importante no que diz respeito ao desenvolvimento da actividade pesqueira em terras do Namibe. Conhecedores que eram das artes de pescar e daquilo que pensavam vir ali a instalar, levaram consigo linhas, anzóis, para a pesca de vários tamanhos de peixes, de fundo e de superfície, chumbadas, roletes de cortiça, cabos variadíssimos, modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc. 

Mas uma simples rede de não mais que cem braças de comprimento, alada de terra a pulso, não permitia pescar para além do necessário para a subsistência do grupo, não chegava para abastecer o interior nem os povos disseminados pelas altas terras da Huila. Também os pequenos barcos de pesca já não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais algarvios para que viessem instalar os seus estaleiros em Moçâmedes, de modo a que ali construíssem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

Sobre os primeiros construtores navais que chegaram a Moçâmedes, refere Carlos Cristão em Memórias de Angra do Negro - Moçâmedes- Namibe (Angola) desde a sua ocupação efectiva:

«(...) A convicção e a vontade de vencer convenceram outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi assim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se transferiram, do Algarve para Moçâmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de «avô Leandro» e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peyroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo. (...)»


Nota: Hoje tive a notícia de que o meu avô paterno Thomás de Sousa estava ligado a
José de Sousa - conhecido por José de Deus, construtor naval de grande prestígio.

MariaNJardm

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

E lá para a década de 60, vieram os imponentes edifícios públicos, e outros de vários andares...






























A partir de meados da década de 50, Moçâmedes começou a perder o ar pitoresco que a caracterizava, e começou, paulatinamente, a ser invadida, aqui e alí, por modernos edifícios públicos de algum porte, bem assim como alguns prédios de vários andares, inclusive no centro histórico, descaracterizando a cidade, e tudo isto, escusadamente, numa terra onde o espaço não falta.

As primeiras duas fotos mostram-nos os bonitos edifícios das Finanças e da Associação Comercial (ao tempo da colonização).


A 3ª foto mostra-nos três desses novos prédios da baixa de Moçâmedes. O da esq., o mais elevado, então propriedade de José Alnes, que veio substituir o antigo Aero-Clube de Moçâmedes, que era à época um prédio bem enquadrado naquele previlegiado local, de esquina para a Praça Leal, ou Praça de Táxis, e que foi pura e simplesmente demolido.

Será que os actuais e futuros dirigentes da ex-Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, irão dar continuidade a esta hecatombe, e que daqui a 10, 20 ou mais anos estaremos em face de um centro histórico completamente descaracterizado, com prédios altos em vez do baixo casario, num autêntico crime de lesa partrimónio histórico e cultural?  Ou será que, pelo contrário, irão ter o sentido histórico que faltou àqueles que ainda no tempo colonial deram início a esta delapidação? Temos notícia que muitos edificios antigos estão a ser recuperados o que denota isso mesmo. Esperemos que nunca desistam para bem do Namibe!

Afinal não foi a «Angra do Negro», Mossãmedes, a primeira urbe edificada por europeus em Angola,  a uma velocidade que pasma, tendo em menos de 10 anos alcançado o estatuto de vila?  E com um outro fito que não o de mero entreposto de escravos? 


A cidade do Namibe tem História, que só é possível contá-la e recontá-la aos vindouros se a  Moçâmedes, a Mossãmedes,  e a «Angra do Negro»  de outros tempos continuar a ser lembrada...