Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Fábrica Africana : Companhia do Sul de Angola (posteriormente Sociedade Oceânica do Sul "SOS")





Trata-se da primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 , a Fábrica Africana de Figueiredo (1)e Almeida, Lda. Repare-se, em cima, à esq, nas casas existemtes na altura na Avenida Felner, já a entrar pela Torre do Tombo, algumas das quais ainda lá estão.



Outra perspectiva da Fábrica Africana que nos permite ver os carris de ferro que ligavam a ponte ao interior da mesma. Era através de que se deslocavam sobre estes carris, que o peixe, entrando em linha recta para Fábrica. era descarregado para em seguida ser escalado e cozido em grandes caldeirões. A fase seguinte era a do enlatamento e por fim o engradamento,. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano como  podemos ver.



Foto: Homens de chapéu e de gravata à porta da entrada da Fábrica Aficana (proprietários e empregados a aguardam a visita de alguma entidade?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu em 1932 a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro. Será que esta foto é dessa altura?


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura...



As caldeiras para cozedura e o peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração



O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras

O encaixotamento


 

 

As duas fotos imediatamente acima, foram retiradas do portal Memória Africa,  Boletim Geral das Colónias  (Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica. 

Através da leitura do mesmo Boletim das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407 , na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, em 1932, se denominava "Fábrica Africana", e que o sector de legumes e conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, restando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, administrador da "Companhia de Mossâmedes".  

Nesse dia, a visita do Ministro das Colónias, segundo aquele Boletim, visitou outra empresa fabril de conservas de peixe, propriedade de Manuel Costa Santos, mas não refere o local em que a mesma se encontrava instalada. (2)

Sabe-se que, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim,  esta fábrica encontrava-se dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente para a praia, e foi destinada de início a enlatados de legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), a carne de vaca ou de porco, de peixe em salmouras e escabeche, ou mesmo a algumas semi-conservas de charcutaria, conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes.

Como se pode ver pela duas fotos acima,  no topo das janelas da Fábrica Africana  encontrava-se escrito os produtos enlatados que ali se produziam: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc., bem como símbolo da Fábrica, uma águia.

Há indicações que na década de 1920 e 1930 exportava-se para o mercado italiano e para os Congos Belga e Francês e o Gabão produtos de alta qualidade que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.


Transcrevemos a seguir um passagem de um apontamento histórico de Antonio Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes (3), subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar- onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 1920, e 1930 do século passado:
 
... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921 (...)  No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. 



Encontram-se também referências desta Fábrica como sendo propriedade da "Companhia do Sul de Angola", tendo Josino da Costa como arrendatário, e tendo como gerente Olimpio Aquino.

Nos anos 1950 esta Fábrica era designada "Sociedade Oceânica do Sul" (S.O.S), e  há uma referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez...Angola " a um indivíduo de nome Santana como tendo sido proprietário da referida Fábrica (?).

 
A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe.

O peixe era transportado para o interior da fábrica através de «vagonetas» sobre linha férrea, que ali faziam a sua entrada, em linha recta, onde era descarregado para ser escalado  e cozido em grandes caldeiras. Em seguida vinha a fase do enlatamento, e por fim o encaixotamento. 

No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por pessoal africano feminino como aqui podemos ver (enlatadeiras).

Sabemos que na década de 60, e após um período aureo de grande produção como "Sociedade Oceânica do Sul"(SOS), esta fábrica deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à empresa "Produtos de Angola Lda" (PRODUANG) cujos sócios eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira, acabando por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique. Esta situação mantinha-se em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se na cidade do Namibe.
 
Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer.  Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam preservá-la, enquanto representativa desta fase e da principal indústria da região de Moçâmedes.

Pesquisa e texto de MNJardim



(1) Poderemos encontrar referencias à Figueiredo & Almeida limitada  que possuia em Mossâmedes, em tempos mais recuados,  uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus: AQUI 

(2) O texto não refere, mas temos conhecimento que a poente da Fábrica Africana, chegou a laborar uma fábrica  ligada à industria piscatória, pertencente a Costa & Pestana. Durante muito tempo podiamos ver alí, junto do início da falésia da Torre do Tombo, o cano do escoamento de fumos

(3) E ainda  em Industria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, rMemórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão

Notas à margem do texto: No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono  que  instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da " Companhia de Moçâmedes", proprietária da referida fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana. 


Créditos de Imagem:
Fotos de ICCT  (7)
foto livro de P. Salvador (1).


Alguma bibliografia consultada:

 Boletim Geral das Colónias  (Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias, N.88 - vol VIII. 1932, pg 407
"Apontamento histórico" de Antonio Martins Mendes,  Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa
Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão 
"Portugal em Africa: revista scientifica", Volume 5 1898


Ver também

WELWITSCHIA MIRABILIS


WELWITSCHIA MIRABILIS

Moçâmedes é a terra de nascimento da minha mãe e da minha avó e avô maternos e, foi lá que aportou a minha bisavó materna quando ainda tinha poucos anos de vida, depois de uma longa viagem com início na ilha da Madeira.

E é precisamente no deserto de Moçâmedes que se encontram os ÚNICOS exemplares da espécie da flora deste nosso planeta - a WELWITSCHIA MIRABILIS - que eu enquanto residi em Angola tive a oportunidade e a felicidade de a ver e apreciar

A 3 de Setembro comemora-se o dia da Welwitschia Mirabilis, planta desértica, descoberta nesta data no ano de 1859 pelo botânico explorador austríaco Frederich A. Welwitsch
Frederic Welwitsch (1809-1878) foi para Lisboa em 1839.
Posteriormente conseguiu autorização para entrar em Angola, para onde embarcou
a 8 de Agosto de 1853.
Fez demoradas explorações botânicas e descobriu a Welwitschia Mirabilis no deserto de Moçâmedes (actualmente com o nome de Deserto do Namibe).

A planta que recebeu o binome de Welwitschia Mirabilis Hook. F. era tão diferente, morfologicamente de todas as espécies botânicas conhecidas, que dada a grandeza dessa diferenças, não “cabia” em nenhum dos géneros já descritos.
Houve, por isso, a necessidade de criar um género novo, o qual ainda se conserva, como uma única espécie consequentemente.
Houve ainda que definir uma nova família de plantas para este único género, a família das WELWITSCHIACEAE.
WELWITSCHIA , é também conhecida por "Tumbo", pelos autóctones, nativos da região do deserto de Moçâmedes.


As suas flores são unisexuadas.
Os estames masculinos atingem aproximadamente 6 cm (antenas com 3 divisões) localizam o óvulo estéril envolto pelo periano.



Welwitschia é uma planta da família das gimnospérmicas adaptada á vida nas regiões desérticas da África tropical.
É uma planta acaule de grandes dimensões, com a forma de um gigantesco cogumelo dilatado e côncavo de 50 a 75 cm de altura que parece partida pelo golpe de um machado em tiras. As suas grandes folhas, duras e muito largas, deitadas no chão, arrastam-se pelo deserto podendo atingir dois ou mais metros de comprimento.
Diversos trabalhos mundiais sobre a Welwitschia encontram-se em exposição em vários
Jardins botânicos espalhados pelo mundo.

Que se encontram descritos no livro Botanical Gardens of the World

Entre outras pessoas que deram igualmente o seu contributo na pesquisa desta espécie no período de 1953 a 1955, podemos destacar os seguintes Professores:
A.H. Church,
E. Salisbury,
Henri Humbert,
Jose Dalton Hooker,
Luís Wittnich Carrisso,
Melo Geraldes,
R. J. Rodin,
W.J.Hooker
Mais recentemente, Maria Helena Boavida
Coisas que já se disseram acerca da "welwitschia mirabilis":

"A "welwitschia mirabilis", descoberta nas vizinhanças do Cabo Negro, da costa odicental africana, é a mais curiosa das gnetaceas e talvez que de todas as dicotiledoneas. Este bizarro vegetal é conhecido entre os indígenas pelo nome de TUMBO."
(Dr. José Dalton Hoecker, Presidente da Socidade Real de Londres e sócio da Academia das Ciências de Paris)
"Uma das curiosidades do deserto de Moçâmedes é a célebre "welwitschia mirabilis", planta estranha, verdadeiro aborto do reino vegetal. O caracteres aberrantes do seu aparelho vegetativo, conferem-lhe um lugar de destaque no conjunto das formas vegetais."
(Dr. Luís Wittnich Carrisso, Professor de Botânica da Universidade de Coimbra.)
"A "welwitschia mirabilis" é uma das maiores maravilhas que tem produzido a natureza."
(Dr. Augusto Henriques Rodolfo Griesbach, Professor de Botânica da Universidade de Göttingen)
"É sem sombra de dúvida a planta mais maravilhosa e também a mais feia que jamais trouxeram a este país."
(Regius Keeper, do Royal Botanic Gardens, Kew - 1863)
"Foi nos anos de 1858/59 que o botânico austríaco Dr. Welwitsch, contratado pelo governo português, descobriu e classificou a "welwitschia mirabilis", dando-lhe o nome de "tumboa bainesii". Os caracteres desta notável planta são de tal modo desconsertantes, que vindo a ser estudada há perto de 80 anos pelos mais eminentes botânicos, ainda hoje se discute qual o lugar que lhe compete na escala botânica, como se pode ler nos autores citados e nos trabalhos de Baines, Anferson, Júlio Henriques, Hallier, Chodal, etc..
A "welwitschia mirabilis" por consenso geral é tida como a maior descoberta botânica do século XIX e, em todo o globo, é o distrito de Moçâmedes o único lugar em que ela vegeta, havendo centenas de milhares na parte desértica, desde os minúsculos exemplares, até aquelas que, pelo seu porte, demonstram uma existência multissecular."
(M.A. de Pimentel Teixeira)
Consultar ainda:

in PSITACIDEO........
Mais sobre o assunto:
explorador zoologico Francisco Newton in
http://www.triplov.com/newton/welwits.html

Banha de Andrade O Naturalista José de Anchieta
http://hybris.no.sapo.pt/newton/welwits.html



....



Além de Welwitsch, quem visitou a Welwitschia, porque a sua missão incluía o deserto de Moçâmedes e saber se o curso do Coroca tinha ligação com o Cunene, foram Capelo e Ivens, como eles próprios contam em De Angola à Contracosta. 

As missões em África tinham muitos opositores. A ala liberal nunca foi colonialista, apoiava as independências. Capelo e Ivens iniciam a travessia de África de 1884 por Moçâmedes, seguem pela Huíla, descem o rio Caculovar até ao Humbe e prosseguem até Quiteve pela margem direita do Cunene.  Decifram o enigma dos morros de ferro magnético ( o Tongotongo é um morro, no Hai - Huíla).  Onde abbundava o sesquióxido de ferro magnético, encontrando-se grandes massas de magnetite, que produzem sobre a agulha os mais extraordinários desvios. O morro era conhecido também pelo nome de morro Sagrado, onde os indígenas da localidade celebravam anualmente uma festa. Os locais por onde Júlio Henriques faz passar Newton - Chimpumpunhime, Xicussi, etc., são estações do roteiro de Capelo e Ivens.

Antes deles e de Welwitsch, o pioneiro da exploração de Moçâmedes, Huíla, Bumbo, Cunene, Giraul, Cubal, etc., foi Gregório Mendes, no final do século XVIII. Quanto ao enigma da foz do Cunene, invisível por no tempo seco as águas se infiltrarem nas areias e nem chegarem ao mar, só em 1854 Fernando Leal a descobriu.

O Lubango foi um dos locais de colheita de Newton em situação de ubiquidade (errática).No dua 31 de Dezembro de 1881. Frank Newton, na Secretaria do Governo de Moçâmedes, tratava de qualquer documento, pelo que pagou $185 de emolumentos (Boletim Official de Angola). Se Newton andou pela Huíla, conheceu Duparquet, até porque os exploradores se alojavam nos fortes, nas roças ou nas missões. Mas conheceu-o depois de 1883. Porém, como Duparquet morreu no ano seguinte, e Newton, em 1883, não saiu do Giraul, de Monhino nem de Bibala, em Moçâmedes, só o pode ter conhecido  através da  literatura.