Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 31 de março de 2009

As «grutas» da falésia da Torre do Tombo. As «inscrições». As obras de construção do cais acostável.




«...Conhecia-as como as palmas das minhas mãos, porque eram as «grutas» ou «furnas» dos meus avós! Imagine-se, compradas ao Estado, registadas na Conservatória de Moçâmedes, e a pagar impostos por elas ao Estado! »

 MariaNJardim





MEMÓRIAS COM HISTÓRIA


1. As «grutas» ou «furnas» dos meus avós!


Finalmente consegui a foto que tanto gostaria de colocar aqui, e  que facilita a minha exposição: as «grutas» ou «furnas» que no tempo colonial foram pertença dos meus avós! 

Apresentando aqui já um estado avançado de degradação, esta verdadeira «casa» foi construida a partir de 3 «grutas» ou «furnas» contínuas que existiam um pouco acima da base do «morro» da Torre do Tombo, em Moçâmedes,  e que juntamente com dezenas de outras faziam parte de um famoso grupo de «grutas» ou «furnas» escavadas na rocha branda por mareantes que em tempos remotos por ali passavam, e que ali faziam «aguada», isto é, abasteciam-se de água e descansavam, para em seguida prosseguirem viagem, nas suas digressões pelo vasto mundo. 

É claro que essa "casa", tal como aqui se apresenta já nada é daquilo que foi no tempo em que a conheci. Inda assim dá para ver o troço de escadas que nos conduzia ao seu interior, a porta da entrada , as janelas, e a envolvência que se mantêm reconhecíveis.

Olhando melhor para a foto, parece incrível que os meus avós tivessem conseguido transformar 3 três dessas "grutas" ou "furnas" na casa perfeitamente habitável que conhecemos. Eram 3 divisões, com passagem entre si, ventiladas através de janelas envidraçadas para o exterior, numa delas encontrava-se uma verdadeira sala comum devidamente mobilada, com mesa, cadeiras, louceiro, etc., onde se podia comer uma refeição e dormir como em qualquer casa comum, e até ostentava um quadro pendurado, e um relógio de parede. Na segunda divisão ficava o quarto de dormir, com uma cama de casal, duas mesas de cabeceira e um guarda roupa. Na terceira, dividida em duas, ficava de um lado a casa de banho com chuveiro à moda antiga, desses em zinco, que ficavam pendurados no tecto, que subiam e desciam  com a ajuda de uma corda, quando nele se colocava água, uma vez que naquele tempo sequer havia água canalizada. Mais perto de uma das janelas ficava um  fogão a lenha, e havia também no exterior das «grutas» ou «furnas» um forno construído em tijolo e barro, com porta de abrir e fechar, onde se podia cozer o pão, bolos, etc.  O tecto era alto,  em forma de abóbada, e tal como as paredes da entrada, encontrava rebocado e caiado de branco.  Na parte de fora havia   vasos com flores que davam alguma alegria àquele ambiente árido, seco, e da cor da terra. No exterior havia também uma árvore raquítica que não medrava devido à salinidade e à secura e aridez do terreno. Penso que era uma palmeira.





Foto: Ao centro desta foto vêem-se as instalações pesqueiras de João da Carma, pai de João Martins Pereira, o último proprietário, a  ex-Morgado&Morgado, de concessão régia.  Ora se de concessão régia, obviamente estamos presente de uma pescaria fundada em data anterior a 1910,  data da implantação da República em Portugal. As «grutas» ou «furnas  dos meus avós  vêem-se no canto superior esquerdo desta foto, enquanto ainda nada mais eram que isso mesmo. Como se vê , por esta altura encontravam-se  a maior parte já cobertas por pescarias.



Meus avós arranjaram as suas "grutas" ou "furnas" com paixão e o apego àquele histórico local que ficava próximo das instalações das instalações do Sindicato da Pesca onde meu avô trabalhava. Sei que era ali que ele almoçava e dormia a sesta, regressando ao fim do dia para a casa grande da Torre do Tombo,  que ficava próxima de um local onde havia uma pedreira, e do edifício onde mais tarde foi construida a Escola Industrial e mais tarde foi erguida a Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique, de Moçâmedes. Isso facilitava-lhe a gestão do tempo, permitia-lhe não apenas estar perto do local de trabalho como estar de olho na pescaria.

 

 Nesta foto podemos ver o aspecto do morro numa época mais recuada, cuja data se desconhece mas não mais para trás que a data da descoberta da fotografia. Por esta altura a terra solta do morro descia até ao mar, não permitia a construção de um simples carreiro, menos ainda de uma estrada...

Esta foto tirada mais de perto dá-nos a ideia do estado deplorável do do «morro» que descia até à praia, não deixando espaço para as pescarias. Inda assim já havia ali algumas eiras ou giraus onde se secava o peixe, no mar uma canôa e em terra uma «chata», pequeno barco que leva os pescadores até às embarcaões.



Resta referir que  pela forma tão bem cuidada como as «grutas» ou «furnas» dos meus avós se apresentavam, eram motivo de curiosidade de altos dignitários do governo português, que de passagem por  Moçâmedes  não deixavam de as visitar, conduzidos para ali, naquele tempo, pelo grande amigo de Moçâmedes, o muito estimado veterinário Dr. Carlos Carneiro. 

Embora não venha referido no programa oficial da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar de Fragoso Carmona, em 1938, estas «grutas» ou «furnas» foram visitadas por sua esposa, Maria do Carmo Fragoso Carmona e por sua filha, Cesaltina Carmona Silva e Costa, que ali se deslocaram acompanhadas de vários elementos masculinos e femininos da comitiva presidencial, de entre os quais, Maria do Carmo Vieira Machado, esposa do Ministro das Colónias, Francisco José Vieira Machado. Antes porém já havia sido visitada por um outro elemento da Comitiva, o General Amílcar Mota, que para ali se deslocou no automóvel do moçamedense Mário de Sousa (o conhecido proprietário de uma oficina de reparação de automóveis e de um taxi) para combinar o momento da visita. Mário de Sousa sempre disponibilizava o transporte para estas deslocações. Era um tempo em que eram escassos os automóveis na cidade.  

Por esta altura o nome «Maria do Carmo» era muito usado em Portugal, daí que tivesse acontecido um episódio curioso quando da visita a estas «grutas» ou «furnas», das duas senhoras Maria do Carmo Fragoso Carmona, esposa do Presidente da República e Maria do Carmo Vieira Machado, esposa do Ministro das Colónias. Aconteceu que uma das filhas dos meus avós também se chamava Maria do Carmo. E foi então surpreendida que a esposa de Presidente Carmona a beijou e a convidou para ir com ela para a Metrópole estudar para um bom colégio. A menina tinha então doze anos de idade. Foi então que minha avó, meia atordoada só conseguiu dizer que a sua filha ficaria em Moçâmedes junto de seus pais, que era o seu lugar, agradecendo com um grande sorriso tão carinhoso convite. A Carminha nunca esqueceu, e já velhinha sempre questionou a oportunidade perdida!



 
Foto que se pressupõe seja do último quartel do século XIX, onde se pode ver a base do morro soterrada por aluimento de areias.  

Hoje sabemos
que  no início a areia do «morro» descia até ao mar,  não deixando espaço para as pescarias, e que o acesso às  pescarias que mais adiante ficavam situadas na base do morro, tinha que ser feito através das embarcações de pesca. 

A este respeito, existia uma cópia de um documento no arquivo da Câmara Municipal que referia ter ocorrido em  Moçâmedes,  no ano de 1858,  o desentulhamento e a reprodução das inscrições, das quais, dizia aquele documento, existem cópias no arquivo da Câmara Municipal. Portanto, 9 anos após a chegada dos colonos fundadores, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849. Nesse documento adiantava-se que não fora encontrada a  inscrição de 1641, referida a D. ANTÓNIO MENESES DA CUNHA,  considerada a mais antiga das inscrições, e citada no número 8 do «Jornal de Mossãmedes», de 25 de Novembro de 1881.


Não admira que a iniciativa fosse tomada por particulares, porquanto já no século XX num tempo em que o degredo continuava ainda a ser um meio  utilizado para o povoamento e colonização, pescadores da Torre do Tombo proprietários das pescarias a eles recorreram a degredados estacionados na Fortaleza de S. Fernando, a cumprir penas, para procederem à abertura de uma passagem que permitisse um mais fácil acesso às pescarias. Algo precário  e rudimentar, como as fotos testemunham, incapaz de deixar passar um qualquer veículo automóvel.

Sabemos também que  foram registadas pela primeira vez pelo Tenente Coronel Pinheiro Furtado, comandante de uma missão de reconhecimento portuguesa, quando fazia uma visita, em 1785,  à «Angra do Negro». (1)  E que foi este oficial português o primeiro que chamou «morro» da «Torre do Tombo» ao local, chamando a atenção para as «inscrições» ali encontradas impressas na rocha branda por mareantes e corsários que por ali passavam e que ali faziam «aguada», ou seja, abasteciam-se de água potável e descansavam, antes de prosseguir viagem nas suas digressões pelo vasto mundo. Pinheiro Furtado colocava uma ponta de ironia na analogia do «morro» da Torre do Tombo com o Arquivo Nacional Português com o mesmo nome.
 
Outra novidade para nós foi saber que estas «grutas» serviram de primeira morada aos pioneiros algarvios que, idos de Olhão começaram a chegar a Moçâmedes a partir de 1861,  sem quaisquer ajudas dos Estado, fazendo-se transportar de conta própria, em caíques, palhabotes e barcos à vela, e que a despeito de muitas e variadíssimas contrariedades, ali se foram estabelecendo, construindo as suas primeiras habitações, lançando ao mar as primeiras redes, e dando início ao desenvolvimento de uma nova era para o Distrito, cuja riqueza seria proporcionada pelo mar.

 

















Assisti à demolição das pescarias que circundavam as base do morro, e que se prolongavam até certo ponto, na direcção da Fortaleza de S Fernando, demolições essas que deixaram as famosas «grutas» ou «furnas» a descoberto. Confesso que nunca pensei fossem tantas, mas à época, e lamentavelmente, não lhes dei qualquer importância. Não admira!  Não estávamos sensibilizados para a importância deste histórico local. Nem eu nem ninguém!  Os programas das escolas, cingidos que se encontravam a regulamentos, não se referiam nem a elas nem às «inscrições», o mais importante era decorarmos nomes dos apeadeiros dos Caminhos de Ferro portugueses,  serras, montes, vales e montanhas do território metropolitano e ilhas adjacentes. A política de então era o silenciamento em relação às grandes questões que tocavam a todos nós! 

Se é certo que a primeira grande insensibilidade registada contra este histórico local teve lugar por ocasião da construção das primitivas pescarias dedicadas ao atum que fizeram desaparecer as  «inscrições» mais antigas gravadas na rocha branda do morro da «Torre do Tombo», conforme refere Manuel Júlio de Mendonça Torres na obra O DISTRITO DE MOÇÂMEDES não é menos certo que nova insensibilidade se registou quando, com a demolição dessas mesmas pescarias, na década de 1950, por força da construção do cais acostável, foram retiradas do morro, sem só nem piedade, na fase dos aterros e terraplanagens, milhares de toneladas de terra que desfiguraram a topografia do terreno. Estas «grutas» até então encobertas pelas pescarias, passaram a ficar mais expostas à progressiva erosão do tempo, e à impiedosa mão do homem, e, após a independência de Angola, mais ainda se vêm estragando, bastando comparar o aspecto de então com o seu aspecto actual



No «morro» da Torre do Tombo, as «grutas» ou «furnas» encontram-se  devastadas pelo tempo,  as «inscrições» já há muito não existem. Em nome do progresso, as obras da construção do 1º troço do cais acostável e da Avenida Marginal tiveram início em 1954,  com o lançamento da 1ª pedra em cerimónia inaugural no decurso da visita a Moçâmedes do Presidente da República, General Craveiro Lopes.
 
Um lugar com tanta  História e com tantas memórias, hoje uma sombra de si mesmo, condenada à transformação em nome da modernidade.
 

Em 1957 o 1º troço foi inaugurado, com a presença do Governador Geral. Na foto, momentos da inauguração, com a presença do Governador Geral.

Celísia Calão, basquetebolista do Ginásio Clube da Torre do Tombo na década de 1950, entrega as chaves da cidade à chegada do Governador Geral.

Entidades representantes das "Forças Vivas" da cidade de Moçâmedes recebem no cais o Governador Geral de Angola  .


Chegados aqui lembro a necessidade, quanto possível, da preservação deste histórico local, que apesar do aspecto cinzento, árido, seco e agreste,  guarda História, muita História,  desde o tempo das primitivas navegações, quando foi ponto de passagem nas digressões de corsários e mareantes pelo vasto mundo. Já não guarda  é certo as famosas «inscrições», ali deixadas impressas desde o século XVII, mas aquilo que resta das famosas  "grutas" ou "furnas" são testemunhos vivos desse passado longínquo que ficou para trás. Elas fazem em parte da História de Angola, da História de Portugal e da História Universal. Representam um dos ex-libris da cidade.




                                                        

 Eis o estado actual de algumas das "grutas" ou "furnas" na actualidade.

Jamais deveríamos esquecer que a velha "Angra do Negro" de Diogo Cão,  a «Mossungo Bitôto» para os povos indígenas,  desde tempos imemoriais, foi visitada pelos primeiros navegantes e  corsários que por ali passavam, no decurso das suas navegações pelo vasto mundo, ali escavaram a punho "grutas" ou "furnas" na rocha branda do «morro», ali deixaram para os vindouros «inscrições» que a voragem do tempo e a acção do homem fizeram para sempre desaparecer!



Termino com este texto de Mário Pinto de Andrade, carregado de significado, escrito pelo primeiro sociólogo angolano e Presidente, à época, do recém fundado MPLA, quando da prisão de Agostinho Neto pela PIDE:

"...A cultura compreende tudo o que é socialmente herdado ou transmitido, o seu domínio engloba uma série de factos dos mais diferentes: crenças, conhecimentos, literatura (muitas vezes tão rica, então sob a forma oral, entre os povos sem escrita) são elementos culturais do mesmo modo que a linguagem ou qualquer outro sistema de símbolos (emblemas religiosos, por exemplo) que é o seu veículo, regras de parentesco, sistemas de educação, formas de governo e todos os outros modos segundo os quais se ordenam as relações sociais são igualmente culturais; gestos, atitudes do corpo, até mesmo as expressões do rosto, provêm da cultura, sendo em larga escala coisas socialmente adquiridas, por via da educação ou da imitação; tipos de habitação ou de vestuário, instrumentos de trabalho, objectos de trabalho, objectos fabricados e objectos de arte, sempre tradicionais, pelo menos em algum grau - representam, entre outros elementos, a cultura sob o seu objecto material»
in Mário Pinto de Andrade Do Preconceito Racial e da Miscigenação [inédito].




MariaNjardim

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(1) "Angra", a designação do lugar onde viria a ser erigida a cidade de Moçâmedes


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Ainda as «grutas» ou «furnas»e as «inscrições»...





Esta foto mostra-nos várias "inscrições" impressas na rocha branda do morro da Torre do Tombo, bem como a entrada para uma "gruta" ou "furna" escavada na base do morro, estando as ditas "inscrições", ÍNDIA e SADO, reais ou forjadas, intimamente ligadas à História de Moçâmedes.
 

A verdade é que a "inscrição"  ÍNDIA nos remete para a chegada a Moçâmedes, em 19 de Novembro de 1884, do navio com aquele nome, que  largara do Funchal, na Ilha da Madeira, a 18 de Outubro de 1884 carregando no bojo mais de duas centenas de madeirenses, incluindo homens, mulheres e crianças, e tendo ali chegado com mais uma criança nascida a bordo.  Era o primeiro contingente de europeus que iam dar inicio ao povoamento branco das "Terras Altas  de Mossâmedes", a Huila. Iam concretizar um projecto de colonização organizada, numa época de grande concorrência e pressão internacional, em que decorria a célebre Conferência de Berlim (1884-1885), cujo objectivo era definir as regras para a partilha de África entre potências industrializadas europeias. Portugal detinha os chamados "direitos históricos" mas não detinha a "ocupação efectiva" que passou a ser uma prioridade. A maior parte do interior do território angolano era ainda desconhecido.
Sobre a odisseia dos madeirenses em terras de África poderá consultar mais dados AQUI 


Quanto à "inscrição" SADO, esta remete-nos para a chegada a Moçâmedes do brigue assim designado, em Julho de 1857, transportando consigo 12 alunos da Casa Pia de Lisboa, e uma colónia de 29 alemães, com destino à colonização das Terras Altas de Mossâmedes, a Huila. Iam com o patrocínio de Sá da Bandeira, e com a recomendação ao Governador para que constituíssem com eles uma aldeia que deveria denominar-se "KRUSS", apelido do contratador.  Este grupo 16 dias após ter desembarcado em Moçâmedes marchou durante 7 dias com paragem de 2 dias no Bumbo, segundo informação de Francisco Godinho Cabral de Melo de 22 de Junho de 1957. Acabaria por desaparecer sem deixar vestígios, segundo Pereira do Nascimento (in "O Distrito de Mossamedes"), ou segundo Ponce de Leão (in artº n. 4 do Jornal de Mossamedes), "esfacelou-se pelos erros da sua organização. Os alemães desgostosos perante os insucessos no interior acabaram por se estabelecer em Moçâmedes onde prestaram relevantes serviços.






































Do Boletim do Conselho Ultramarino: "Legislação Novissima", Volume 3 By Portugal, Portugal. Conselho Ultramarino, transcrevemos a seguir a lista dos nomes colonos alemães , bem como outros dados alusivos ao assunto:

"
-ADOLFO SPANGENBERG(24 anos,fundidor, natural de NORDHEIN,casado com BÁRBARA,de 28 anos, natural de LANFEN)

-ANDRÉ KREISZIMANS (30 anos,lavrador,natural de BREITENHEIM, casado com DOROTHEA de 24 anos,natural de ESCHDERF e com : seu filho ALBERTO, de 5 anos, natural de BREITENHEIN; sua avó SOFIA EINER, de 59 anos, natural de ESCHDORF)--- ANDREA KOPP, 26 anos, lavrador, natural de ROLLSNHANSCUSIN(HANOVER),:

- CARLOS KOCH (25 anos, pedreiro,natural de TRIPTIS, casado com GUILHERMINA WOCH,de 23 anos,natural de MIERIT)

- CRISTÓVÃO KREISZIMANS, 59 anos. lavrador, natural de BREITENHEIM,com sua filha DOROTHEA, de 17 anos,com a mesma naturalidade;

- FELIX MEYER,23 anos, lavrador, natural de CANTH(PRÚSSIA);

- FRANCISCO GERHARDI(28 anos,alfaiate,natural de GIEBOLSHANSEN, casado com ANASTÁCIA, de 27 anos, natural de MOLILINGEN, na SUÍÇA)

- FRIEDRICH HS´NIG, 17 anos, pedreiro, natural de WASCHINGEN

- GEORGE REINHARD (35 anos,lavrador,natural de KETTELSHAL)

- GUILHERME SCHUTZE (23 anos,lavrador,natural de MUNSTER)

- GUILHERME SPANGENBERG (28 anos,carniceiro, natural de NORDHEIN, casado com CATARINA,de 20 anos,natural de LANFEN)

- HENRIQUE BOSSE(33 anos,ferreiro,natural de GOSSLAR) - JOCOB KNOBLICH, 16 anos, alfaiate,natural de KUSTERDINGEN;

- JOSÉ HUTTEMNULLER,21 anos, lavrador,natural de HENTEN, casado com CHISTINA, natural de HEMPF)

- LUIS HERMAN, 33 anos, pedreiro, natural de GUSSEN;

- MARTIN HESS(23 anos,sapateiro,natural de ROHVBACH, casado com CHRISTINA HESS,de 24 anos,natural de NEID,com um filho nascido durante a viagem

- RODOLFO ADAM(23 anos,lavrador,natural de ELBING) ---

Manda Sua Magestade El-Rei, pela Secretaria d Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, remetter ao Governador Geral da Província de Angola a inclusa copia das condições, com que foram engajados os vinte e nove colonos allemães, que, a bordo do brigue de guerra Sado, seguem viagem para o Districto de Mossamedcs, a fim de que o mesmo Governador G eral, tomando d elias conhecimento, as faça cumprir, o que igualmente se ordena cm Portaria da data de hoje áo Governador do dito Districto.

Paço, em 28 de Fevereiro de 1857. =Sâ da Bandeira."

CONDIÇÕES A QUE SE REFERE A PORTARIA D'ESTA DATA
.


Os colonos allemaes, destinados para Mossâmedes, sujeitar-se-hào desde a data do seu desembarque ás condições seguintes:

1. " Prestarão obediência a todas as determinações tendentes á policia, segurança e utilidade geral da colónia, que lhes forem intimadas pelo respectivo Governador do Districto.

2. " Prestarão mutuo auxilio nos trabalhos ruraes e nos de edificação das habitações, destinadas ao seu primeiro estabelecimento,- na fórma que for determinada pela sobredita Auctoridade.

3. " Estas habitações só poderão ser feitas segundo um plano de povoação previamente approvado, e nos logares para isso concedidos pelo Governador do Districto.


OBRIGAÇÕES DO GOVERNO PARA COM OS COLONOS.


1. Os colonos serão conduzidos a Mossamedes por conta do Governo, e soccorridos, durante a viagem, de mantimentos sadios e abundantes.

2. a Receberão ração diária sadia e abundante, desde o dia do seu desembarque, e durante um anno depois da sua installaçào, ou o equivalente em dinheiro.

3. O governo fornecerá gratuitamente a cada colono do sexo masculino, e maior de dezesseis annos, uma espingarda e armamento correspondente, que será obrigado a conservar em bom estado, para própria defeza e da colónia, no caso de serem atacados por inimigos.

4.1 A cada chefe de família, ou colono sem familia, se dará o terreno necessário em que deve construir a sua casa, com uma porção sufficiente para horta.

5. Alem do terreno mencionado no artigo antecedente, ser-lhe-ha dada, em conformidade com a Lei de 21 de Agosto de 1856, uma porção de terra sufficiente para que o colono e sua familia possa vi

ver commodamente pelo seu trabalho, e em todo o caso não menos do que a que cada colono possa rotear.

6.* Os terrenos assim concedidos são livre propriedade do colono, para d elles dispor como quizer, comtanto que os tenha cultivado dentro do prazo de cinco annos.

7.1 O Governo obriga-se a fornecer aos cojonos sem meios, até que elles tenham os necessários para a restituição d'estas despezas, a assistência medica e de botica de que possam carecer. Cada colono receberá as sementes apropriadas á natureza do terreno, e na quantidade necessária á cultura durante o primeiro anno, assim como os instrumentos agrários, taes como enxadas, pás e outros a que estiverem costumados a fazer uso no seu paiz. Aos artistas o Governo concede também as ferramentas necessárias, próprias dos seus officios, assim como a todo o colono os utensilios de cozinha necessários.

8.a Os colonos serão isentos por dez annos de todos e quaesquer tributos, aquelles que romperem terrenos incultos simplesmente; vinte os que desseccarem paúes; e trinta annos os que tirarem terrenos ás marés.

9 .a Os colonos podem usar do direito de dispor livremente de suas pessoas, ficando na colónia, ou indo-se embora, como quizerem.

10.a O Governo obriga-se a prestar-lhes toda a protecção e defeza, pela mesma fórma por que o faz aos súbditos portuguezes ali residentes e estabelecidos.

11 .a Os colonos terão os mesmos direitos ás pastagens dos seus gados, nas terras communs, que os outros habitantes dos logares em que se acharem estabelecidos.

12.a As condições .acima serão extensivas ás familias e amigos dos actuaes colonos, que no prazo de dois annos, contados da data do presente contrato, quizerem ir estabelecer-se em Mossamedes, com tanto que o numero desses novos colonos nâo exceda a cento e cincoenta indivíduos.

AD1TAMENTO À OBRIGAÇÃO QUINTA.


§ 1,° Esta porção de terreno será regulada na rasão de 20 hectares, ou proximamente 50 acres inglezes, para cada colono masculino, e mais 10 hectares, ou 25 acres por cada pessoa de familia que tiver, comtanto que toda esta extensão de terreno nâo exceda a área de 50 hectares, ou 125 acres.

§ 2.° O colono, que tiver recebido a primeira concessão de terreno, tem direito a outras, ate' adquirir a área de 50 hectares, logo que tiver cultivada pelo menos metade do terreno da primeira concessão. Fica entendido que a concessão de terrenos é igual tanto para os colonos com familia, como para os colonos sem familia. Os filhos dos colonos, logoque se queiram estabelecer sobre si, por terem saído do pátrio poder, têem direito a receber uma área de terreno igual á que tiver sido concedida aos outros colonos.

Secretaria d'Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, em 28 de Fevereiro de 1857. Sa da Bandeira. In Boletim do Conselho Ultramarino: legislação novissima, Volume 3 By Portugal, Portugal. Conselho Ultramarino








 Hoje já nenhuma destas "inscrições", verdadeiras preciosidades, podem ser vistas em Moçâmedes, porque pura e simplesmente deixaram de existir. Porém à época em que esta foto foi tirada, tal como vem legendado, estas eram as mais recentes "inscrições" do morro da Torre do Tombo, a Ocidente da povoação.


Quanto ao desaparecimento das «inscrições» mais antigas, diz-nos Manuel Júlio de Mendonça Torres, moçamedense, autor da obra O DISTRITO DE MOÇÂMEDES, que estas foram enormemente danificadas quando no morro da Torre do Tombo foram instaladas as pescarias por famílias dedicadas à pesca do atum, e que outras mais recentes acabaram também por  desaparecer. Mendonça Torres adianta ainda que Brito Aranha, nas suas Memórias Histórico-Estatísticas (1883), refere que os Governadores Fernando da Costa Leal (1854-1859 e 1863-1866) e José Joaquim da Graça (1866-1870), deixaram, igualmente, lembrança de si naquele morro. Também se perderam a maioria das «grutas» ou «furnas»,  de incalculável valor histórico, escavadas a punho na rocha branda, desde tempos imemoriais, para serviram de abrigo a mareantes e corsários que por ali passavam e que ali faziam «aguada», ou seja, abasteciam-se de água potável e descansavam antes de prosseguir viagem, e que faziam parte de um numeroso conjunto que percorria a base do morro da «Torre do Tombo», zona mais a sul que contorna a baía, e  termina na Ponta do Noronha, ou Ponta do Pau do Sul.






 Clicar sobre o Postal. É uma foto panorâmica que mostra bem como era então este local





"A velha ponte-cais

de traves carcomidas,
O morro triste,

 a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre

 da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

(In "Poemas Imperfeitos" de
Joaquim Paço D´Arcos.









Era assim que o poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, premiado diversas vezes, Joaquim Paço D´Arcos via Moçâmedes. Paço D'Arcos enquanto criança esteve em Moçâmedes entre de 1912 e 1914, com seu pai que foi Governador do Distrito.  Não admira, o início do século XIX foi um tempo de estagnação no  desenvolvimento de Moçâmedes e de Angola. Joaquim Paço D' Arcos escreveu este poema sobre Moçâmedes, naqueles 
tempos que antecederam a implantação da l República em 1910, foram tempos de total anarquia em Angola, tendo muitos  portugueses sido levados a abandonar o território. E durante a l República portuguesa, a situação não foi melhor. Desde a Conferência de Berlim (1884-5) procurava -se, com muita dificuldade, fixar as bases de uma nova administração,  promover o povoamento com famílias portuguesas e levar a cabo o desenvolvimento económico da colónia. Este foi um tempo em Angola preenchido com preocupações ligadas à demarcação da fronteira sul cobiçada pelos alemães. Salienta-se Norton de Matos, que em 1912 havia reacendido a esperança de um tempo novo, mas a fronteira sul ainda por demarcar e a revolta dos autóctones eram uma realidade do que resultou a última fase das Campanhas Militares do Sul de Angola, que fizeram de Moçâmedes o seu porto de desembarque. Muito haveria mais para dizer.



 
 Um trecho do morro de Torre do Tombo



O morro da Torre do Tombo visto do mar. Esta é a zona onde ficavam as instalações da firma Morgado & Morgado, que conhecemos como propriedade de João Martins Pereira.





Estas são as instalações pesqueiras da firma de João da Carma/Morgado& Morgado, de concessão régia. Aqui podemos ver, à direita, uma das "grutas" ou "furnas" encoberta  pelas instalações pesqueiras.  Imagem de Missão hidrográfica, 1930-40. IICT

O morro e as  "grutas" ou "furnas" vistos do mar




 Clicar sobre o Postal. É uma foto panorâmica que mostra bem como era então este local








AINDA SOBRE AS «FURNAS» e sobre as «INSCRIÇÕES» DO MORRO DA «TORRE DO TOMBO»..




 As pescarias até meados de 1950

Não temos notícia da data exacta em que começaram a surgir as primeiras pescarias que até à década de 1950 contornavam a base do morro da Torre do Tombo que circunda a baía e se estendiam para os lados da Fortaleza,  mas tudo aponta para que tenham começado a surgir a partir de 1961, com a chegada da primeira leva de  algarvios vindos de  Olhão, que ali se estabeleceram, e se espalharam pelas praias desérticas a norte e a sul de Moçâmedes.  Consta que os colonos pioneiros vindos do Brasil e cujo actividade económica foi voltada para a agricultura, também montaram umas quantas pescarias, mas estas a norte de Moçâmedes, destinadas à pesca para consumo, estando as mesmas entregues a seviçais quimbares.

A baía e o morro...
A zona mais a sul do Bairro da Torre do Tombo




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AINDA SOBRE OS «DEGREDADOS» METROPOLITANOS DA FORTALEZA DE MOÇÂMEDES




Já quase em  meados do século XX, persistia em Portugal a velha mania de fazer de Angola um lugar de destino para degredados a cumprir penas dos mais variados tipos de crimes,  pessoas sentenciadas de homicídios, roubos, fraudes, sodomia, mulheres consideradas prostitutas, condenados por crimes de furtos, promessas de casamento não cumpridas, vicio de jogo, adultério, sedução,  etc. etc. Portugal lançou mão da pena de degredo para punir criminosos, mas o objectivo era tentava colonizar. Era a velha lógica do absolutismo, no contexto da construção do império colonial português, que perdurou ao longo de quase sete séculos.



Um desses degredados, o Sr LINO  foi protagonista de uma história que ouvi contada pelos meus avós na minha infância. Este senhor foi requisitado para o trabalho da abertura da estrada, na década de 1940. A criatura, um bom homem afinal, era oriunda da Póvoa de Varzim, latoeiro de profissão, sempre se  afirmou inocente em relação ao crime de assassinato que lhe haviam culpado. Os pescadores da Torre do Tombo acreditavam na sua inocência, consideravam-no uma pessoa educada e  de porte irrepreensível.  O pobre senhor quando num dia azarento ia  manhã cedo de bicicleta para o trabalho, à berma da estrada, junto a uma ravina, encontrou caído um homem ensanguentado, e,  julgando-o ainda vivo, tentava arrastá-lo para a estrada a fim de pedir socorro, mas o assassino encontrava-se escondido por detrás de uma árvore, e para se ilibar, incriminou-o,  pondo-se aos gritos a chamar-lhe "assassino... assassino..." .  

E assim foi encarcerado e enviado para Angola. Apesar do apoio que lhe proporcionaram em Moçâmedes, minado pelo desgosto, e saudoso da sua terra e da sua família  (tinha uma filha a estudar para professora e teve que desistir), foi acometido de doença súbita enquanto fazia os trabalhos da estrada, e acabou por falecer a caminho para o Hospital, quando estava a ser para ali transportado numa tipóia. A prova da sua inocência chegou alguns anos mais tarde, quando à beira da morte, arrependido, o assassino acabou por confessar a autoria do crime.


MariaNjardim



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domingo, 8 de março de 2009

Memória - Fantásticas "Garratts" - As Antigas Viagens de Comboio de Moçâmedes a Sá da Bandeira (Sul de Angola)



"Garratt" - mítica locomotiva das grandes distâncias africanas!

Lembro com nitidez o instante da minha infância em que vi uma pela primeira vez - semelhante à que aqui vos deixo. Parada e poderosa nos carris de uma estação ferroviária do Sul de Angola, luzindo com um brilho baço de limpeza recente, soprando da chaminé baixa fumos enegrecidos e espessos, esguichando dos flancos um vapor esbranquiçado e impaciente - "fschhhhh..." . A pedir viagens, apeadeiros, descobertas - "fschhhhh...". Fiquei mudo e extático, esmagado na minha pequenez pela presença imóvel mas fremente do monstro. Sentia-me ao mesmo tempo intimidado e encantado pela novidade, acostumado que estava às maquinazinhas quase de brinquedo que haviam percorrido, até então, os carris de bitola estreita entretanto substituídos por outros mais largos para poderem acolher os gigantes de ferro recém-chegados.

Aconteceu na cidadezinha de Moçâmedes (hoje Namibe), urbe tranquila e doirada, de arvoredos dispersos pelas ruas direitas, traçadas, a régua e esquadro, entre os areais do deserto e uma baía de águas azuis e translúcidas. (Na parte inferior da fotografia, mais ou menos a meio, ali onde começa uma rua, diante daquele grupo de árvores cónicas, está a casa amarela e branca onde vim ao mundo nuns finais de Janeiro de grandes calores.)


De um lado da cidade ficava o deserto profundo, povoado de animais furtivos e de uma multidão de "Welwitschia Mirabilis", plantas rastejantes que sempre me fizeram evocar legiões de caranguejos vegetais a fugirem, açodados, da presença perigosa dos intrusos. Para Gastão Sousa Dias (1), sempre com o justo verbo, a "welwitschia" é " a planta filha do deserto, que, na sua forma e contextura estranhas, parece querer significar toda a aridez, todas as torturas da sede , todo o horror da adaptação a um meio hostil".



Do outro lado, apertando o casario e o deserto num abraço de frescuras atlânticas, a espaçosa baía com o moderno porto de mar, onde acostavam os paquetes imponentes das Companhias de Navegação portuguesas (a Colonial e a Nacional). O Uíge, o Infante Dom Henrique, o Moçambique, o Pátria, o Império, o Angola, tantos outros...

De vez em quando atracavam vapores estrangeiros ou vasos de guerra de canhões sossegados e recolhidos, pois ali não havia, nem chegou a haver, nesses tempos lusitanos, qualquer novidade bélica. A tripulação de um navio japonês que por ali passou um dia deixou como lembrança à estação de rádio local (Rádio Clube de Moçâmedes - R. C. M.) um disco de música romântica do seu país, de 45 r. p. m. E, meses a fio, soaram na baía e nas dunas vizinhas, por cima das "welwitschias" e das casuarinas, as estrofes doridas e exóticas de um cançonetista nipónico destroçado por terríveis males de amor. Entre a população comovida ninguém percebeu jamais, de ciência certa, de que sofria o japonês. Suspeitavam, apenas - pelo tom melado, pelas fracturas de voz, pelas bruscas interjeições... E, suspeitando, todos gostavam de o ouvir. O R. C. M. fazia-lhes a vontade. Até que o disco-lembrança fatalmente se riscou e o infeliz apaixonado se calou de vez.


Este era o edifício da estação ferroviária de Moçâmedes (aqui no seu estado actual). Naquele tempo ele resplandecia ao sol do mar e do deserto, no seu ocre imaculado, marginado de faixas arroxeadas. As portas centrais, de topos arredondados, davam acesso às bilheteiras e à gare. Defronte da estação começava a "Avenida" (onde terminavam os muros do velho campo de futebol). A "Avenida" era um espaço extenso, que cortava a cidade de norte a sul, com os seus canteiros de flores multicoloridas, tanques de água, buganvílias e palmeiras.

Aqui passeavam, nas tardes de domingo, com sedutores vagares, ranchinhos perfumados de jovens meninas, cruzando olhares fugidios com os pretendentes, em cenas discretas que as correspondentes famílias (a mãe, o pai, os avós, os manos mais velhos) patrulhavam a prudente distância. Das arvorezinhas baixas da "Avenida" pendiam instalações sonoras, de cujos altifalantes escorriam incessantemente os êxitos musicais da época - de Amália Rodrigues, de Tristão da Silva, de Alberto Ribeiro, de Maria Clara. Ouvia-se a Casa Portuguesa, o Nem às Paredes Confesso, a Canção do Cigano, a Fonte das Sete Bicas. E soavam ainda tangos plangentes e requebrados, trazendo aos crepúsculos sul-angolanos uma inusitada e muito romântica sugestão argentina. Foi nesses primeiros anos que tomei conhecimento, sem saber a quem pertencia, daquela voz castigada e roufenha a chorar por "mi Buenos Aires querido". Só muito depois soube tratar-se do desditoso Carlos Gardel. Que assim embalou, a milhares de quilómetros, e muitos anos depois de partir, o começo de muitos e tórridos amores moçamedenses.


Era por aqui que ficava, então, a estação ferroviária da cidade. E foi por detrás desta vetusta fachada que me encontrei, na minha infância, e nos termos acima descritos, com a minha primeira "Garratt". As "Garrats" apareciam na parte de trás da estação para movimentarem comboios extensos - de passageiros, de mercadorias ou mistos - entre Moçâmedes (Namibe) e Sá da Bandeira (Lubango). Não tardei a descobrir que as guardavam em enormes oficinas próximas da estação. Sentava-me num muro que dava para as instalações ferroviárias e desse poiso privilegiado vigiava-lhes durante horas as manobras, as idas e vindas daqueles monstros de belas linhas.

As locomotivas ficavam a aquecer, acumulando vapores e energias, durante as horas que antecediam as grandes viagens pelas planuras e montanhas do Sul de Angola.


Punham-nas em ordem, recuperavam-lhes mazelas de estiradas anteriores, limpavam-nas, acarinhavam-nas. Elas possuíam três corpos distintos, o que as tornava extraordinariamente manobráveis nas apertadas passagens das montanhas africanas. O maquinista seguia no corpo do meio. No da retaguarda recolhia-se o combustível (lenha, carvão). No da frente, fruto das fornalhas incandescentes, acumulava-se a tremenda pressão do vapor que as fazia poderosas e imparáveis.

Chegado o grande momento abandonavam o refúgio para irem "formar comboio". Resfolegando - fschhhhh... - alinhavam diante da estação com as carruagens e os vagões. Sempre resfolegando - fschhhhh... - aprontavam-se para o primeiro avanço depois de recolherem tripulações e passageiros. Despedidas derradeiras. E o último aviso-chamada da "Garratt", o apito imperativo e forte, que soaria amiúde durante as centenas de quilómetros da viagem.




De súbito, com ruídos sincopados e fortes, a máquina punha-se em movimento. Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan... Cilindros, êmbolos, pistões, bielas, eixos das rodas, tudo trabalhando em perfeita sincronia numa nuvem rumorosa de vapor branco, emprestando vida e movimento àquele corpo imenso de metal escuro. A princípio lentamente, com uma espécie de preguiça mecânica, logo depois com outro balanço, a seguir preparando-se para as grandes velocidades do caminho. Fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi... - fu-ca-tchi... Lubango, aqui vamos nós.



Na despedida de Moçâmedes, a "Garratt" tinha de transpor a ponte do Bero, nas "Hortas", um oásis de verdes intensos abençoado pelas cheias periódicas do rio.

"Nestas paragens os rios mantêm-se secos na maior parte do tempo. Porém (...), dá-se nos primeiros meses do ano uma ex­traordinária metamorfose, quando os ventos empurram até ao planalto as gordas nuvens fuliginosas das chuvas torrenciais. As águas despenham-se então para oeste ao longo das vertentes da Chela, alagam as depressões das terras baixas e origi­nam enxurradas tumultuosas ao correr das nervuras fluviais que procuram o oceano. No fim das chuvas subsiste durante algum tempo a correnteza mansa, pouco rumo­rosa, de vários rios, que deslizam através do deserto por leitos de areia macia, or­lados, aqui e ali, por canaviais e arbustos rejuvenescidos (...).
As águas não tardam a sumir-se, engolidas pelo solo poroso e ávido. Em inúmeros locais, porém, conservam-se vastos lençóis de águas subterrâneas, que se podem alcançar com es­cavações su­perficiais. Formam-se também depósitos abundantes de detritos or­gânicos, arrasta­dos pelas cheias. São adubos preciosos, que favorecem o verdejar repentino de plantas nutritivas, excelentes para o gado e para a multidão de herbí­voros selva­gens que por ali se movimentam." (2)


"A vinda periódica das águas explica a persistência da vida nesses lugares toca­dos por uma espécie de irreali­dade magnética, feita de dias luminosos e chamejan­tes que, na época própria, se submergem em mantos vaporosos de cacimbo impe­netrável.
Este é um mundo impregnado de aromas intensos e envolventes, despren­didos de um misto de madei­ras secas, lodos antigos, maresias penetrantes, capins calcinados e fumosidades longínquas transportadas nas abas do vento desde povo­ados escondidos. Terá sido em parte aquele magnetismo, aliado à possibilidade da vida, o poderoso instiga­dor da atracção que levou os invasores hereros, primeiro, e os conquistadores portugueses, mais tarde, a tenazes acções de fixação nesses er­mos de sol e sede." (2)


Primeiras paragens: o Saco (onde mais tarde se construiria um porto gigantesco para escoamento do minério de Cassinga) e o Giraul. Forcejando, forcejando, a máquina galga depois milha sobre milha, na paisagem escalvada.
E apita, apita, no seu aceleradíssimo e imparável fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi... E apita de novo.
Que som este! Quem alguma vez ouviu o chamamento de uma "Garratt" jamais o poderá esquecer. É um silvo simultaneamente rouco, estridente e lancinante. É um grito de coisa viva e pensante, não de máquina inerte e bruta. Tanto pode soar a queixume como a brado de triunfo, tanto é apelo como despedida, tanto traduz alegria como raiva. A voz vibrante de uma "Garratt" é um dos sons mais inebriantes e comoventes que se podem escutar.




Já se vêem as penedias vizinhas da Raposeira, que anunciam as do Caraculo. "O terreno tem a violência bárbara dum inferno escalvado. A marginar a linha, pedregulhos sobre pedregulhos parecem construções ciclópicas executadas por mãos ciclópicas. De vez em quando surgem grandes morros pelados, de pedra lisa, duma fealdade nua e parda - semelhando, nas suas formas estranhas, bossas de camelos ou dorsos de tartarugas." (3)


Agora procuram-se as terras do Luso, do Cuto do Munhino. Numa carruagem ouve-se um acordeão de estudantes (será o Nelson, de Moçâmedes?), soam as sentenças solenes do Carlos, "O Mosca", estalam gargalhadas desprendidas e jovens. Fala-se com súbita gravidade da presença numerosa de leões na zona, sobretudo no Cuto, que é o quilómetro 101. Por sobre tudo isto, o fu-ca-tchi ... fu-ca-tchi da "Garratt", o odor intenso da sua fumarada, a magia da nossa África (4)."Horas e horas o comboio arfa pelo deserto despido; as paragens, não tendo particularidade que as caracterize, são conhecidas pela numeração quilométrica; e o som do êmbolo, matraqueando rudemente, é o único ruído que acorda o silêncio morno e abafado do areal infinito." (1)

Rios secos, águas ocultas, vida fervilhando em redor...
Fu-ca-tchi... - Fu-ca-tchi...- Fu-ca-tchi... (4)

"Errando pelo interior desértico ou semidesértico, meteram por cami­nhos que iam subindo devagar ao longo de ravinas, planuras e montes cónicos iso­lados." (2)

Aqui e ali, vidas fugidias de guelengues, espantados pelo silvo da "Garratt", confundidos com o seu bafo escuro...

Já se deixou para trás o Munhengo, logo depois Assunção, vieram a seguir as Gargantas (a Grande e a Pequena). A "Garratt" progride em grande velocidade, acerca-se da sua maior adversária antes de chegar ao destino.

"Agora o terreno agita-se um pouco. Pequenas ondulações sucedem-se. E à nossa frente, lá ao longe, elevam-se os degraus da serra da Chela, negros e verticais, singularmente recortados no céu (...) Entre eles destaca-se o Morro Maluco (Cha-Malundo), cuja conformação é realmente caprichosa, recurvado como uma garra." (1) (4)

É agora, só mais um esforço! Sopra a "Garratt" afanosa, silva, matraqueia, devora espaços - desejosa do maior dos combates...

E, de repente, ao quilómetro 186, a barreira esmagadora da Serra da Chela, o grande obstáculo que separa a "Garratt" de Sá da Bandeira (Lubango)!
Aos pés da montanha imponente, o casario raso, colorido e ameno da bela Vila Arriaga (Bibala).
Lá no cimo, como um rasgão trágico, o corte mítico da Tundavala.
"De súbito, depararam com as escarpas da Chela, cujas cristas rompem os céus a mais de dois mil e trezentos me­tros de altitude. A partir do cume, esta regi­ão, planáltica, baixa aos poucos para leste até formar a bacia do Cunene, o lendário rio que, descrevendo uma curva des­comunal, abraça todo o Sudoeste an­golano até ao mar. Foi junto ao sopé desses im­ponentes paredões que os pastores detiveram o passo num primeiro momento." (2) (4)
Foi aqui também que a "Garratt" se deteve, a ganhar forças e balanço.
Daqui a uns minutos, será a última batalha da minha máquina indomável. (Continua)
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(1) Gastão Sousa Dias - África Portentosa - Seara Nova - Lisboa - 1928.
(2) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Editorial Estampa - Lisboa - 1999
(3) José Maria d'Eça de Queiroz - Seara dos Tempos - Edição do autor - Sem data
(4) Esta foto, como algumas mais desta viagem (sobretudo as da Bibala e da Chela), são de Okawa Ryuko, que já temos citado e voltamos a recomendar vivamente. Blogue: Angola: Huíla Namibe Kunene Luanda


Do blog Torre da Historica Ibérica