Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A ponte de embarque e desembarque de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe). O Piquete da Guarda Fiscal


Perspectiva da Praia das Miragens, ponte e barcos, numa fase de maré cheia, em finais do século XIX, quando a ponte era ainda bastante longa, ou depois de ter sido aumentada, em consequências dos progressivos assoreamentos. Esta foto já nos mostra, ao fundo o edifício do Matadouro Municipal, um dos mais antigos de Moçâmedes e também o do Cabo Submarino e o do primeiro Colégio.

A ponte em tempo de maré vazia


Esta foto já é do início do sécilo XX, uma vez que já ali se encontra o Observatório Metereológico que foi demolido na década de 1950


Até 1873 não havia em Moçâmedes qualquer ponte de embarque/desembarque, destinada a pessoas e mercadorias. Segundo o autor anónimo do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola» publicado em 1862, «...não obstante a extensão e a superioridade do fundeadouro, na baía os embarques e desembarques faziam-se aos ombros dos nativos que desastrados por vezes compeliam os passageiros a um banho forçado.» Nesse livro o autor sugere a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura aproximadamente das construções regulares, com estacarias para embarque/desembarque de pessoas e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega.

Era assim que eram feitos os embarques e os desembarques antes da primeira ponte de cais em Moçâmedes


A primeira ponte foi inaugurada em 1873, construída em madeira assente sobre estacas que pouco tempo após ruiu e se inutilizou. Assim informou o superiormente o Governador Costa Cabral em seu relatório de 19/06/1877, no qual propunha a urgente substituição da mesma, lamentando a inexistência de outros meios de embarques/desembarques que se faziam em ocasiões de grandes calemas com perigosos riscos pessoais e sensíveis prejuízos para as mercadorias.

A actual ponte começou a ser construida a partir de 1880, e foi inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881 pelo Governador Nunes da Mata, conforme refere Manuel Júlio de Mendonça Torres, in Conspecto Imobiliaário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879, Boletim do Ultramar PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar, Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pag. Portanto 30 longos anos após a fundação de Moçâmedes, com a chegada dos primeiros colonos vindos de Pernambuco (Brasil).

Refere também o autor do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», que já Fernando da Costa Leal, que foi governador de Moçâmedes entre 1854-1859, e que estivera empenhado na construção de uma ponte que convergisse na direcção da Alfândega.
De 1859 até 1861 foi governador de Moçâmedes,  António Joaquim de Castro, e de 1861 até 1863 foi  João Jacinto Tavares. Nada consta relacionado com a ponte de Moçâmedes. Voltou Fernando da Costa Leal a cumprir mais um mandato, entre 1863-1866, e apesar do seu empenhamento, tudo continuou na mesma. E sobre o Governador que se lhe seguiu, Joaquim José da Graça (1866-1870), há uma referência In Archivo Pittoresco, Semanário Ilustrado,  vol x, 1867, que mostra bem a penúria da colonização portuguesa nesta época, o que não admira tendo em conta aquilo que foi o desenrolar do século XIX português percorrido por toda uma série


"...Noticias posteriores dizem que o governador ultimamente nomeado, o sr. Graça, completando o pensamento do seu antecessor, o sr. Costa Leal. ia mandar construir o caes em frente da alfandega, para o que encontrara já alli amontoado não pouco material; mas, como lhe faltassem para isso os necessários meios, abrira uma suhscripção particular entre as pessoas mais abastadas e mais interessadas do municipio, e esta subscripção  em alguns dias, produziu logo a quantia de 20000 réis. A construção do caes é de grande utilidade, pois torna mais commodo e menos perigoso o desembarque de pessoas e mercadorias."
Subscrições públicas eram aliás o meio a que os colonos recorriam quando o apoio estatal era ausente, como aliás se veio a verificar em Moçâmedes em várias situações e nas diferentes épocas.
Passaram ainda por Moçâmedes mais dois governadores, Estanislau de Assunção e Almeida (1870 até 1871) e Lúcio Albino Pereira Crespo (1871 até 1876) . Foi em 1873, 24 anos após a fundação de Moçâmedes, quando já muitos colonos fundadores haviam perecido, que a primeira ponte em madeira, assente sobre estacas, foi inaugurada. Mas esta pouco tempo depois ruiu e se inutilizou, conforme informou superiormente o então governador Costa Cabral (1877-1878), ao mesmo tempo que propunha ao Governo a urgente substituição, e lamentava a inexistência no local de outros meios de embarque/desembarque que se faziam em ocasiões de grandes calemas com perigosos riscos pessoais e sensíveis prejuízos para as mercadorias, e para o avanço da economia do Distrito. 

Seguiu-se em 1878 o Governador Sebastião Nunes da Mata, e de 1878 até 1879 o Governador  Francisco Ferreira do Amaral. Volta a ser Governador de Moçâmedes , de 1880 a 1886 Sebastião Nunes da Mata, e foi então que, segundo Manuel Júlio de Mendonça Torres, a actual ponte foi inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881, conforme mencionado in Conspecto Imobiliário do Distrito de Manuel Júlio de Mendonça Torres que "...Pinto de Balsemão no relato da sua viagem a Moçâmedes, declara em ofício datado de 27 de Março de 1868  que "...o edifício da Alfândega, primorosamente acabado, obra do benemérito Governador Leal,  era dos mais regulares, elegantes e sólidos que havia em toda a  Província" lamentando porém, que não lhe correspondesse o movimento que seria para desejar, "visto que estava quase sempre ermo de fardos

Apesar dos projectos do Marquês de Sá da Bandeira, o paladino da abolição do tráfico de escravos (1836), empenhado num novo paradigma colonial de ocupação com famílias portuguesas e progresso económico, Angola continuava a marcar passo, o que se devia à situação difícil que Portugal atravessava, e à  falta de capitais, de investidores, e também de gente capaz disposta a emigrar. O português continuava a preferir o Brasil. Angola, terra de febres tinha fama de cemitério para os europeus, factor que reduzia, inclusivé, o tempo de serviço de governadores nas colónias.




Esta foto é do principio do século XX e mostra um pequeno trecho da ponte do lado da escada por onde se subia/descia



Dá para imaginar como era difícil a vida dos primeiros colonos idos de Pernambuco, chegados a Moçâmedes nos anos 1849 e 1850, onde se dedicarem essencialmente à produção agricultura e ao comércio. Os pioneiros tiveram o apoio do Estado português na sua deslocação, e em alguns engenhos de fabrico de açúcar que lhes foram abonados, com a condição de os pagarem com o rendimento das primeiras safras. Nos primeiros meses da sua estadia, beneficiaram da distribuição de terras e pouco mais. Chegados ali tiveram que trabalhar duro para erguer do nada a povoação, e pagar a dívida contraída. Aos que chegaram em 1850 valeu-lhes para a sua viagem um determinado montante conseguido através de subscrições. As eternas subscrições iam suprindo a falta de apoio do Estado, que tão cedo acabou por os abandonar à sua sorte. Inda assim a sua acção, coadjuvada pelos serviçais que iam conseguindo angariar, (numa altura em que o tráfico de escravos para o Brasil era perseguido, os navios negreiros apresados, e os ex-escravos a mando do Governo português tinham que durante 10 anos contribuir com o seu trabalho para o desenvolvimento de Angola),  foi de  foi de tal modo relevante, que em 1855, seis curtos anos após a sua àquele areal desertico,  à pequena povoação foi concedida a categoria de vila, como reconhecimento pelo esforço efectuado. A ter em conta que nos três primeiros anos as culturas haviam sido avassaladas por uma seca terrível que se abateu sobre Moçâmedes.

Moçâmedes era então uma vilazinha prometedora, limpa e arrumada, de traçado moderno, como não houvera outra em Angola. Assim a elogia o autor do livro "45 dias em Angola". A seguir aos luso-brasileiros começaram a chegar os pescadores olhanenses, navegando por sua conta e risco, em caíques, palhabotes e outros barcos à vela, iam também eles sem quaisquer apoios estatais, com o fito único da riqueza piscícola daquele farto mar, mas ainda mal haviam conseguido erguer-se, já o recém criado sistema de impostos caía sobre os colonos.

Não é possível compreender toda esta ausência de meios, sem nos debruçarmos, nem que seja a correr, sobre o Portugal daquele tempo. Um Portugal que logo no início do século XIX se viu percorrido por uma infinidade de situações adversas que se prolongaram por toda a 1ª metade do século: invasões francesas, fuga do rei e corte para o Brasil, revoluções e contra-revoluções, lutas sangrentas que acompanharam a transição do absolutismo para o liberalismo, crises e mais crises, agrícolas, económicas, financeiras, comerciais, demográficas, etc etc. Tudo isto representa um panorama que hoje dificilmente se consegue imaginar, e que se estendeu à data da fundação de Moçâmedes.


O povo português era um povo pobre, o analfabetismo no início do século XIX, rondava os 95% e no início do século XX, apesar dos esforços, era ainda de 75% entre a população com idade superior a 7 anos. O ouro do Brasil  tinha alimentando uma corte opulenta proporcionando-lhes um prestígio que os fez ignorar a miséria do  povo e o atraso em que o país se afundava. Com a perda do Brasil a situação agravou-se, já que era inexistente no Portugal da época, uma base social capaz de sustentar e dar impulso a uma política de expansão colonial.



E a 2ª metade do século XIX foi nas primeiras décadas de regeneração do Portugal metropolitano exaurido, que procurava levar por diante uma política de desenvolvimento, sobretudo na agricultura e nas vias de comunicação e transportes e em infra-estruturas sociais, que acabaria por gerar excessivo individamento.

Voltado para a resolução dos problemas da sua Metrópole, restava a Portugal poucas energias para uma efectiva viragem para as colónias de África, apesar do empenhamento do Visconde de Sá da Bandeira, o paladino da abolição do tráfico de escravos (1836), e apesar do seu ambicioso projecto em prol de um novo paradigma colonial de povoamento e de progresso económico das possessões africanas, onde a presença portuguesa se limitava à administração e ocupação de algumas áreas estratégicas ao longo da costa, onde marinheiros, comerciantes e traficantes portugueses tinham chegado antes dos seus congéneres europeus, e aí tinham estabelecido entrepostos de comércio e cidadelas, nalguns casos cidades, como Luanda e Benguela. Portugal detinha o estatuto de país descobridor, mas não correspondia a uma ocupação efectiva, uma vez que pouco mais havia que o tráfico de escravos para o Brasil e Américas  e negócios a ele associados que geraram novas camadas sociais, como foi o caso das elites crioula.  Não floresciam comunidades europeias  como na América do Norte, Austrália ou na África do Sul.  Carecia de gente e de condições económicas e financeiras para ocupar um território 14 vezes e meia maior que a Metrópole, cujo hinterland ainda se encontrava por explorar.


Em meados do século XIX, os territórios africanos ocupados por Estados europeus estenderam-se para o interior, onde eram disputados interesses contraditórios e irreconciliáveis. A partir da década de 1870, ficou claro que apenas o «direito histórico» não seria suficiente e que a presença portuguesa dependia do alargamento territorial para o interior e do correspondente controlo das possessões reclamadas. Em 1877, à semelhança dos seus parceiros na "corrida" a África, Portugal lançou um conjunto de iniciativas de exploração e investigação cientifica, destinadas a conhecer os territórios compreendidos entre Angola e Moçambique, que levaram às famosas expedições de Serpa Pinto e de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, alegando direitos históricos. A Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada em 1875, patrocinou essas grandes travessias destinadas a explorar e estudar o território, dando continuidade às anteriores expedições portuguesas oitocentistas, e efectuando a ligação das duas costas, do Atlântico ao Índico. Procedeu-se a explorações mineralógicas e geológicas, a par do reconhecimento geográfico e cartográfico. Procurava-se assim abrir caminho para capitais e colonos . 

Nos anos 1884 e 1885, para evitar conflitos, as principais potências europeias decidiram, na Conferência de Berlim “repartir” a África entre si, segundo o «princípio da ocupação territorial efectiva". A prioridade das Descobertas que Portugal reivindicada deixara de ter qualquer valor, o mesmo é dizer que tal como as outras potências as potências ocupantes tinham que exigir o reconhecimento da soberania sobre os territórios tradicionalmente pertencentes a uma ou várias etnias, bem como a definição das fronteiras e o consequente envio maciço de tropas, o que redundou na escalada dos conflitos principalmente com as tribos africanas. 

E se em meados do século XIX quase não havia missionários em Angola em consequência da onda anti-religiosa que acompanhou o trunfo do liberalismo,  e o processo de laicização da sociedade, em 1884-5 a Conferência de Berlim garantia a liberdade de instalação de missionários nas colónias, considerados que como a única presença visível e produtiva da soberania portuguesa em grande parte de vastos territórios coloniais africanos, ignorados pela administração pública e pelas empresas portuguesas. Procurava-se abrir caminho para capitais e para colonos, empresa difícil num tempo em que Africa era vista pelo seu clima doentio,  um continente fatal para europeus, e era escasso o número de investidores e de famílias interessadas em ali se fixar. Nesse esforço de colonização, e numa altura em que decorria ainda a Conferência de Berlim, Portugal conseguiu enviar para as terras Altas da Huíla dois contingentes de colonos madeirense, desviando para o efeito a corrente migratória que estava sendo dirigida na direcção das Ilhas Sandwich, no longínquo Havai, ilhas Caribe, Guianas. etc. Os madeirenses foram os únicos a responder à chamada. Fugiam da pobreza estrutural de uma sociedade deveras estratificada, onde só alguns podiam viver com dignidade. Iam para lugares longínquos onde muitas vezes eram obrigados a trabalhos próximos da escravatura, e onde deixavam o suor e o sangue em canaviais de açúcar. Ao planalto da Huíla na década de 1970 tinham começado a chegar colónias boers, gente de espírito indomável, que embora úteis ao projecto colonial, geravam preocupação ao governo português. Havia que compensar colocando ali madeirenses...

Este era, em pinceladas breves, o contexto histórico da época em que a ponte de embarque/desembarque de Moçâmedes foi inaugurada no dia 04 de Agosto de 1881. Esta ponte finalmente foi construida, e iria ser a porta de entrada para os batalhões e  armamento militar vindos da Metrópole.  necessário ao desenrolar das Campanhas Militares do Sul de Angola. Iam com a dupla missão, de dominar as populações nativas insubmissas, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral, e das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações, ali tinham vivido, e assegurar os contornos da fronteira sul face à cobiça da Alemanha, a quem na “partilha” coubera o Sudoeste Africano (actual Namibia).


Esta ponte tal como o Caminho de Ferro de Moçâmedes, e o comboio inaugurado em 1905, só avançou quando avançou numa época em que imperativos estratégicos e militares a tornaram imprescindível, e  não tanto por imperativos económicos do Distrito e Interland.
 
Por ela não passaram apenas pessoas comuns, gente de trabalho e de negócios, mercadorias, e até gado que era introduzido em batelões através de guindastes, etc etc. Esta ponte tem História, ela encerra em si momentos de um passado que nos ajudam a perceber o presente e a nos relançarmos no futuro.

Por ela passaram exploradores, cientistas, investigadores, geólogos, missionários, padres, bispos, cardeais... Por ela passou um Principe real, passaram Presidentes da República, Governadores Gerais, Ministros, etc etc. Cada um com a sua missão.

A inauguração do cais acostável, em 1957, marcou o início da decadência desta ponte, da qual hoje em dia apenas resta o esqueleto. 

Apesar de todos os condicionalismos que acompanharam a sua hostória, esta ponte foi útil para à economia, não apenas no Distrito como também do Interland. Era através dela que tudo escoava, no ir dos navios de carga, de passageiros, etc, dos caíques e palhabotes nas suas viagens de cabotagem, etc, desde os tempos em que o fundeadouro permitia encostar à ponte, antes dos assoreamentos, até tempos mais próximos em que os navios ficavam ao largo, fundeados a meio da baía, e a carga para ela convergia através de batelões,  os passageiros através de pequenos "gasolinas" .

Uma ponte que guarda História, mas que parece ninguém querer salvar!

MariaNJardim.




Esta curiosa foto mostra-nos a ponte com o guindaste a colocar gado bovino para dentro de um batelão. Ao largo dois grande navios e um palhabote
 

 Nesta foto  do início do século XX já a praia estava muito preenchida, e a Estação do Caminho de Ferro já estava em funcionamento. Parece-me, contudo, ainda não haver campo de futebol



Foto de finais do século XI, com batelão a receber carga através de guindaste

 
 A ponte de Moçâmedes em dia de chegada de D. António,  Bispo de Angola

 Gravura da Alfândega e pavilhão.à esq.
 

A ponte de Cais de Moçâmedes e o Piquete da Guarda Fiscal, 1870-1888. Foto do album de Cunha MoraesResultado de imagem para ponte moçamedes e piquete


A ponte encontrava-se ligada ao Piquete da Guarda Fiscal através de um corredor por onde rolavam "vagonetas" sobre carris, e que no seu vai e vem levavam e traziam as mercadorias...


A chegada a Moçâmedes do Dr  Ramada Curto, Conselheiro Governador Geral da Província, para presidir à assinatura da acta, e  o assentamento da primeira pedra no cunhal  leste da Esstação do CFM, no dia 28 de Setembro de 1905.

Assentamento da primeira pedra no cunhal leste da Estação do CFM

 

Esta foto regista o momento da passagem pelo  Piquete da Guarda Fiscal de Moçâmedes, em 1 de Outubro de 1905, já de regresso a Luanda, do Conselheiro do Governador Geral da Província de Angola, Dr. Ramada Curto e comitiva, após terem assistido a vários eventos,  no dia 28 de Setembro de 190, relacionados com a inauguração  da Estação principal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes  , a  assinatura da acta e assentamento da primeira pedra no cunhal leste da Estação, e, no dia 29, à partida do primeiro comboio de Moçâmedes para o Saco, que teve por  passageiros o Conselheiro Governador Geral, o Governador do Distrito e Engenheiro Director dos Caminhos de Ferro de Luanda e os restantes convidados. O evento culminou  num   copo d'água naquela povoação, oferecido pela comissão de festejos, composta de comerciantes e agricultores de Moçâmedes.
Importa ainda referir que esta visita ocorreu numa altura em que problemas graves, internos e externos, ocorriam na Metrópole e nas colónias de África.  Estava-se num período crucial da história portuguesa (ver AQUI ), atravessada por uma grave crise política, social e económica, que coincidia com a decadência da Monarquia e a alvorada da República, em que a tutela portuguesa no imenso território de uma África cobiçada e considerada necessária ao progresso europeu, era colocada em cheque. Era contra o Golias germânico, entre outros, que o pequeno Portugal tinha de se haver. A coabitação, a dominação e a influência dos Portugueses, por antigas que fossem, podiam a todo o momento ser contestadas pelos seus súbditos, vassalos e vizinhos.


No início do século XX, já a ponte se enchia de toldos e de gente, embaixo e em cima, para assistir a eventos desenrolados na baía, neste caso corridas de natação. 
Idêntica à anterior
 
 O "Salvador Correia" descarregando material de guerra para as Campanhas do Sul de Angola, na ponte de Moçâmedes. 1904?





Não podemos ignorar que Moçâmedes foi palco de vários acontecimentos ligados à demarcação da fronteira sul, dada a resistência dos autóctones à colonização portuguesa, e as pretensões da Alemanha, a quem coubera na "partilha de África" o Sudoeste Africano (Namibia).

São vários os relatórios oficiais sobre a época incluindo o do então Governador Geral, Dr. António Duarte Ramada Curto, e do coronel Artur de Paiva, comandante  da coluna de operações no Humbe, em 1898, que naquele ano se organizou para castigar o massacre dos dragões do conde de Almoster – documentos estes que devem existir no Arquivo do antigo Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar.


As revoltas no sul de Angola haviam sido de alguma forma torneadas ou ignorados, mas não resolvidas, como os grandes revezes sofridos em Setembro de 1904, pelos expedicionários portugueses no Cuamato, em que um guia ovimbundo que fora deportado para o Humbe os levara a cair numa emboscada em Umpungo.

No dia 25 de Setembro de 1905, o jornal português O Século, recorda o dia 25 de Setembro de 1905:

"...É hoje dia de luto nacional e mui principalmente para as armas portu­guesas, por passar o primeiro aniversário do trágico massacre das nossas forças na margem esquerda do Cunene (...). Atacados de surpresa por forças cuamatas muito superiores, não temendo a aventura perigosa que se ia travar, mal imaginando o seu fim tenebroso, oficiais e praças, numa comunhão de pensamento, somente se lembraram de que, ali, no interior do sertão, repre­sentavam a honra do País, que deviam conservar imaculada, e o nome portu­guês, que tinham de levantar bem alto. "

Na mesma página de O Século, na parte reservada aos sufrágios, podia ainda ler-se uma comunicação lacónica: Amanhã, pelas 11 horas da manhã, na igreja dos Mártires, rezar-se-á uma missa por alma do tenente Luz Rodrigues, outra vítima da catástrofe, missa a que tencionam assistir os oficiais do batalhão de caçadores de el-rei, a que o desditoso extinto pertenceu. (...)".  





Desembarque de Paiva Couceiro? em Moçâmedes

 Gravura do edifício da Alfândega
 
 Foto que regista um momento da construção da Estação do Caminho de Ferro de Moçâmedes, no início do século XX


 Através desta foto podemos ver a 1ª fase do cais acostável de Moçâmedes concluída e o que restava das antigas pescarias ainda por demolir, para a conclusão da obra e  avanço da construção da Avenida Marginal.

 

 Aspecto do cais em dia de chegada do primeiro navio
 

O 1º troço das obras do cais comercial , iniciadas em 24.06.1954,  por ocasião da visita à cidade e distrito do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes, foi inaugurado em 24.05.1957. com a presença do Governador Geral de Angola.
 

 Aspecto do cais acostável ainda em fase de construção, mas já recebendo navios nas partes concluídas

 


 Concluido!



Avancemos no tempo...
 

Sobre esta ponte cais, não cessam os pedidos ao Governo para que fosse reabilitada, e já em 1934 fomos encontrar no Boletim Geral das Colónias nr. 88 de 1932,  dedicado à visita do Ministro das Colónias de Salazar, Dr. Armindo Monteiro, uma petição ao mesmo Ministro em prol do seu melhoramento, salientando-se "o estado caótico da única ponte cais de existente em Moçâmedes, que embarcação alguma podia ali atracar, sendo as descargas  das mercadorias importadas efectuadas por lanchas, de forma morosa, tendo que se aguardar a maré cheia,  e mesmo assim correndo o risco de se despedaçarem de encontro a ela, bastando para tal um pouco de calema." 

Chamava-se  também "a atenção para o facto de esta situação não se coadunar com o nível elevado de exportação do distrito à época, sendo o porto frequentado por regular navegação nacional e estrangeira, correndo-se o risco de se ficar, num futuro bem próximo, sem a navegação necessária que garanta a exportação normal dos produtos, dada a demora nos carregamento dos vapores que deixam de aceitar carregar por fretes por não compensam o dispêndio resultante da permanência no porto."  Sugeria-se que se "poderia servir das estacas cimento armado que  na época se encontravam dispersas pela praia desde  há uns anos atrás, quando se pensou no prolongamento da ponte actual, bem assim como vigas ferro para assentamento  do leito, um bate estacas e uma caldeira a vapor."

Moçâmedes vivia praticamente da pesca e esta encontrava-se também afundada numa grave crise por falta de escoamento o peixe apodrecia nos armazéns. A agricultura estava arrasada e nada tinha a ver com tempos áureos criação da "Companhia de Mossâmedes". A precaridade de meios era tal que o próprio Memorial entregue ao Ministro Armindo Monteiro pela Câmara Municipal  não deixa mentir.



Conta-se que nesses tempos em que não existia o cais acostável, inaugurado em 1957, e os navios fundeavam ao largo, houve necessidade de se descarregar carruagens destinadas ao Caminho de Ferro de Moçâmedes e como na época era a firma Duarte d'Almeida, agentes da Companhia Nacional de Navegação (CNN), que possuía um estaleiro na Torre do Tombo na antiga praia do cano, hoje zona marginal, teve de construir algumas barcaças bastante grandes para se fazer a descarga. As barcaças eram encaminhadas para a antiga praia da Capitania que ficava junto à ponte, onde foram montados carris ficando ali a aguardar a altura própria da maré para que fossem removidas as carruagens para terra firme. Nesta operação bastante difícil e instável trabalharam entre muitos alguns carpinteiros da época, Gilberto, Celestino, Manuel e António Valente, André, etc., gente anónima que merece ser aqui lembrada.
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O Piquete da Guarda Fiscal, vendo-se ao fundo o portal do edifício da Alfândega por onde entravam as "vagonetas" que deslizavam sobre carris de ferro desde a ponte, transportando as mercadorias que eram recolhidas na ponte após  descarregadas dos navios através dos batelões,  com passagem pelo Piquete.
 Mas não eram apenas mercadorias que passavam por este piquete, também  por ali passavam pessoas que embarcavam e desembarcavam rumo à Metrópole com passagem pelos portos de Luanda, S. Tomé,  ou rumo a Moçambique com passagem pela para a Africa do Sul, ou  até mesmo para fazerem uma breve visita aos navios. E também visitantes, residentes em Moçâmedes que iam a bordo dos navios, por sistema, sobretudo senhoras, comprar coisas que não se encontravam à venda nas lojas que a cidade havia, muitas das quais eram submetidas à passagem neste piquete (à saída) por apalpadeiras em busca de contrabando.

Quanto ao Piquete da guarda-fiscal, este acompanhava a estrutura da ponte inaugurada em 1881 e tal como a ponte funcionou até 1957, enquanto não foi construído o cais comercial e a avenida marginal. Era um tipo de construção interessante, do século XIX, de traça romântica, que  acabou por desaparecer. Ficava ligado à ponte através de carris de linha férrea, e era por ali que passavam, e se fazia o controle da saída e entrada de mercadorias e pessoas, no seu vai e vem dos navios, ancorados a meio da baía para a ponte e desta para os navios. As mercadorias através de quatro batelões, barcos possantes e sem motor,  que eram por sua vez rebocados por um  pequeno barco a motor. As pessoas em barcos a motor alimentados a gasolina, chamados, por analogia, «Gasolinas». Eram pequenos barcos, agradáveis à vista,  pintados de branco, que podiam possuir uma cabine totalmente fechada, ou meia fechada, com bancos corridos, e que comportavam cerca de 50 pessoas, sentadas e de pé.    Na década de 1940 eram proprietários dos dois «Gasolinas» de passageiros existentes,  Raúl de Sousa e Mário de Almeida, e  mais para início da década de 50 um deles seria vendido a António Bauleth.   Havia  ainda um  «Gasolina» da Alfândega cuja função era a de transportar os funcionários, guardas fiscais etc. Quanto aos batelões, creio que eram proprietários a família Duarte de Almeida.  Os batelões eram, como já foi aqui referido, barcos de carga de forte construção, cujo fundo até à linha de água era coberto por chapas de cobre, e cuja função, era a de, num sistema sincronizado, rebocar os batelões carregados de mercadorias  e até gado, da ponte para o navio cargueiro,  e vice versa.



Sobre esta ponte encontrei este poema, sobre o qual não faço comentários.


Moçâmedes, Beijada pelo Deserto

"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

De "Poemas Imperfeitos"

Joaquim Paço D´Arcos. Viveu em Moçâmedes de Setembro de 1912 a Fevereiro de 1914.








                           

(Para mais informação, ver AQUI)

Assuntos relacionados passíveis de interesse:

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Estatistica geral das alfandegas de Loanda, Benguella, Mossamedes e Ambriz ...  1890/94

6 comentários:

  1. Sou cabeçe-de-peixe dos sete costados...
    Ainda só tenho sessenta e dois (a fazer) anos, mas recordo-me perfeitamente destas edificações antigas e que foram sendo derrubadas, umas transferidas para outras zonas, outras alteradas.
    É bom recordar e ter para recordar, pois é viver.
    Obrigado pelo bom trabalho aqui realizado.
    Abraço.

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  2. Muito obrigado por me mostrar a história da minha da terra onde nasci em 1951 na freguesia de Sto. Adrião e vivi alguns anos nas residencias do cabo submarino...
    não consigo ver as imagens desse edificio, com muita pena!!!
    Muitos e sinceros parabéns por esta iniciativa.
    Carlos Botto

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  3. Muito obrigada pela visita. Continuarei a enriquecer os textos na medida em que for adquirindo mais informações.

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  4. eeeee piquete e bem velinho mesmo

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  5. gostava de fazer um pedido o meu bisavô era fazendeiro em capangombe, ele era muito requisitado para ser uma espécie de guia para os estrangeiros, o nome dele era Manuel Pereira Fernandes (Maneco), gostava de saber se não tem fotos dele... o meu e-mail é fabio.lerutche@hotmail.com obrigado

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  6. Muito obrigado. Publiquei pois pode alguém passar por aqui e saber responder. Cumps

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