Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O perfil moral dos colonos fundadores da cidade de Moçâmedes - Namibe) em 1849 e em 1850



Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (14.12.1809 /14.11.1871)
Nogueira do Cravo - Recife - Mossamedes
Político, militar, exilado, professor, escritor, patriota, colono, juiz e agricultor; fundou a cidade de Mossâmedes em 04.08.1849.

O perfil moral dos antigos colonos

Na sua obra «Moçâmedes», 1º volume, Manuel Júlio de Mendonça Torres avança as qualidades de carácter que na sua óptica enformam o perfil moral dos antigos colonos que chegaram a Mossamedes, idos de Pernambuco (Brasil), em 1849 e 1850. São elas: honestidade, o amor da pátria, o sentimento religioso, a energia da vontade e a paixão exaltada.

O escritor procura fundamentar o seu critério, fazendo apelo aos seguintes testemunhos:

1. Declarações do Ministro Visconde de Castro efectuadas em sessão parlamentar de 12 de Junho de 1849, onde sublinha que nos actos da Comissão de Pernambuco «presidiu a maior circunspecção na escolha, que fez, das pessoas que deviam formar a colónia», e que ele próprio «proibiu que da colónia fizessem parte degredados».

2. Instruções de 16 de Abril do mesmo ano dirigidas a Sérgio de Sousa determinando que fossem vedadas licenças de embarque para as colónias a degredados por crimes graves e atentatórios das garantias sociais, bem como a condenados pelo crime de tráfico de escravatura, sendo ainda estabelecido que nenhum dos moradores da Província poderia estabelecer-se na Colónia sem provar não estar incurso naquelas excepções, por justificação em julgado (Instruções, artº 21º.).

3. Instruções Provinciais de 30 de Março de 1849, pelas quais o Major Ferreira da Horta teria de se regular no estabelecimento da Colónia de Pernambuco, através das quais o Governador Geral da Província Silveira Pinto recomendara que «os Portuguesas que vinham formar a colónia fossem tratados com o maior cuidado, atenção e carinho», atitude reveladora do alto conceito que este Governador possuia em relação aos componentes dessas duas colónias.

4. Documento com que no decurso das suas pesquisas se havia deparado na Secretaria da Câmara de Moçâmedes, referido a 23 de Março de 1859, onde se salienta «...nunca lhes haver cabido até àquela data a responsabilidade de uma única infracção das leis penais, asseverando aquele documento que para bem assegurar a índole de um povo, era costume recorrer-se à crónica judiciária.»

Mendonça Torres considera ter havido por parte dos governantes da época uma clara intenção de assegurar os melhores resultados para a colonização do sul de Angola evitando que os colonos viessem a ser contaminados em seus contactos por gente de outros caracteres que não os seus, ou seja, por degredados por crimes graves e atentatórios das garantias sociais, bem por condenados pelo crime de tráfico de escravatura. E avança ainda alguns aspectos que considera bastante reveladores das qualidades de carácter que atribui aos colonos de 1849 e 1850:

O Amor da Pátria, como qualidade de carácter dos primitivos colonos, encontrava-se, para Mendonça Torres patente na sua renuncia a renegar a Pátria, atitude também salientada pelas referências do antigo Governador de Moçâmedes, Alfredo Felner ao periódico «Mossamedes» de 04 de Agosto de 1926.

O Sentimento Religioso estava para Mendonça Torres sobremaneira representado na Escritura de Promessa e Voto, de 4 de Agosto de 1859.

A Energia da Vontade encontrava-se para o mesmo autor patente quando a seguir aos momentos de profundo desalento que invadiram os ânimos dos colonos logo após a sua chegada a Moçâmedes (tantas haviam sido as desgraças sofridas e os revezes suportados), são dominados por uma febril e perserverante ânsia de actividade do que resultou o sucesso da colonização de Moçâmedes. 

A este respeito transcrevem-se as palavras de Alfredo Felner:

«...O seu trabalho foi tanto que, em dez anos, a 4 de Agosto de 1859, ao festejarem o seu 10º aniversário, verificaram haver feito: nas margens do Bero que tiveram que conquistar e defender das enchentes do rio, oitenta e três propriedades; no Giraul, três; no Bumbo, duas: em S. Nicolau, três: no Carunjamba, uma; no Coroca, três: na Huila, sete; e, ainda, a ocupação comercial dos Gambos, da Camba, do Humbe e do Malondo, percorrendo o Sul de Angola emtodas as direcções, com as suas caravanas. e levando a sua penetração, até além Cunene aonde iam buscar o marfim. Pela Alfândega de Moçâmedes tinham exportado em 1858 e 1859: vinte e oito toneladas de cera, vinte e um mil couros; cento e oitenta bois, quatro mil e quinhentos litros de aguardente, duzentas toneladas de óleo de peixe, sete mil novecentos e cinco quilos de marfim, seiscentos e quarenta toneladas de peixe seco, cento e sessenta e quatro toneladas de urzela, cento e quinze toneladas de batata e dezasseis toneladas de carne seca.

Que mais queriam que fizessem ?
Eu sinto, neste momento, ao dar aos novos estes números, a comoção dum sacerdote, ao abrir o Relicário, para mostrar a Hóstia Sagrada.
Faço-o perante o Altar da Pátria, com a mesma unção com que os sacerdotes o fazem perante Deus. »
(Do periodico Moçâmedes, de 4 de Agosto de 1926).

A Paixão Exaltada, é representada pelo protesto apresentado a 26 de Novembro de 1857 , em plena sessão, por uma Comissão do povo à Câmara Municipal, contra a ordem tida por injusta e violenta do assentamento de praça a dois colonos, ordenada pelo Governador, Fernando da Costa Leal. E também no requerimento dirigido à Câmara Municipal, em 27 de Fevereiro de 1866, por um grupo de colonos, onde são feitas acusações ao Governador Fernando da Costa Leal, cujo final versava assim:

« ...lembrados de como nossos avós falavam às autoridades, chegando a dizer a um rei absoluto, se nos não governar bem escolheremos outro melhor, não o queremos mais uma hora, nem mais um momento, governador deste distrito; que nos não obrigue a lançar mão dos últimos recursos para o conseguirmos e para que estamos todos dispostos».

A este respeito, Mendonça Torres lembra ainda a campanha movida nos anos 1880 e 1881 contra o governador José Bento Ferreira de Almeida, que envolveu:

1. requerimentos aos governos Central e da Província pedindo uma sindicância aos actos do Governador;

2. autorização concedida pela Câmara ao seu presidente para passar procuração ao dr. Manuel de Arriaga, advogado em Lisboa, a fim de requerer em juízo, a expensas dos munícipes, procedimento criminal contra o Governador, por ter atribuido, falsamente, ao povo de Moçâmedes, a intenção de uma revolta para depor o governo legalmente constituido;

3. representação do Rei, a renovar o pedido de sindicância contra um funcionário (dizia a representação) « que abusou demasiadamente do poder que Sua Magestade lhe confiou», e, ainda, o opúsculo intitulado Sobras dum Governo, do tenente Rogado Leitão, em resposta à conferência proferida por Ferreira de Almeida, na Sociedade de Geografia, em 20 de Novembro de 1880, publicada depois em livro, no qual (escreve Rogado Leitão) «a falta de verdade e o ódio ressaltam de página em página, e o leitor chega à persuasão de que foi escrito num momemto de inconveniente irritabilidade; não persuade, não aduz, não edifica; decompõe, aumenta e vicia».


Bibliografia consultada: «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres
«Quarenta e cinco Dias em Angola»



Algumas anotações sobre Bernardino e a fundação de Moçâmedes 

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro em oficio de 13 de Abril de 1857 dirigido ao Governador Geral José Rodrigues Coelho Amaral expôs a sua posição acerca das ideias repressivas ao tráfico de escravos.

O retrato de Bernardino foi inaugurado em 04 de Agosto de 1882, no 33º aniversário da fundação da colónia em homenagem à veneranda figura do chefe da 1ª colónia, na sala das Sessões da Casa da Câmara , na presença de todos os funcionários e grande número de cidadãos. No auto da inauguração invocou-se aquele dia da chegada ao areal ermo de terras incultas e inexploradas, para onde trouxeram a vontade de vencer, as suas máquinas e engenhos  onde rasgaram ruas, construiram casas, desenvolveram a agricultura e o comércio e dedicaram-se também, nas prais mais ao norte, Baia das Pipas, Baba, Lucira, ainda que em menor escala, a actividades ligadas as artes da pesca. O retrato foi colocado na sala após lido o auto pelo Vice Presidente José Luis Oliveira, tendo sido corrida a cortina que o cobria. Assinaram o auto: Nunes da Mata (governador),  Damião Rodolfo  Santa Brígida e Sousa (Pároco),  João Cabral Pereira Lapa e Faro (médico municipal).


 Pesquisa e texto de MariaNJardim

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