Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

As águas das cheias do rio Bero em Mossãmedes (Moçâmedes-Namibe) transbordando para as furnas de Santo António





























































Em Moçâmedes raramente chovia, mas de vez em quando era a valer... Uma dessas vezes foi na década de 1940.  Nessa altura, as margens do rio Bero ainda não estavam reguladas, a chuva foi tanta que as águas transbordaram  do leito, alagaram os terrenos marginais, e avançaram rumo à  parte baixa da cidade, tendo o caudal na sua passagem transvasado como uma cascata  para o interior as «furnas de Santo António» (1ª e 2ª fotos). As ruas ficaram de tal modo alagadas que algumas pessoas chegaram a utilizar pequenos barcos para poderem se deslocar de um lado para outro.

Na 3ª foto , creio que tirada na rua da Praia do Bonfim, paralela à Avenida principal, vê-se um automóvel (táxi)  a romper as águas, sob o olhar  admirado de alguns residentes. Segundo informações inclusas no livro Recordar Angola, de onde  a foto foi tirada, pertencia a um  Sr. de nome Cabral.

As «furnas de Santo António» ficavam próximo do antigo aeroporto de Moçâmedes (o velho campo de aviação), e no ano de 1972,  aproveitando a morfologia do terreno, foram ocupadas  pelo novo Estádio Municipal, que pode ser visto, no dia da sua inauguração, clicando AQUI.. 
 

AS CHEIAS DA MINHA INFÂNCIA


       Na nossa terra, em Angola, as cheias,
       sempre vieram e continuaram a vir
       dos altos abruptos da Xela, de roldão,
       lembro-me disso bem, não esqueci, não… 

       Saltavam do leito do Bero e cobriam a linha
       e as muitas fazendas que nas margens tinha,
       travando o Camacove(*)  no Giraul, ou no Saco-Mar,
       invadindo as aldeias e Hortas que podia encontrar…

        Arrasando povoados e destruindo plantações,
        deixavam Mossâmedes, sem o recurso à água pura
        do Planalto e a beber da sua, após fortes ebulições,  
        filtrada em “Sanga de pedra”(1), para ser mais segura…

        Cheias que, na sua imparável e imponente  cavalgada,
        chegavam a inundar as  ruas  e os ares da Baixa da Cidade,
        ameaça esta contra a qual a cidadela não estava preparada(2)
        pois, para um surto palustre, só a quina tinha tal capacidade…

        Era ali que a inocência infantil se fazia atrevida e sem peias.
        Era o tempo das crianças correrem descalços, sem meias… 

         Para todas, aqueles eram dias de muito rir, de muito brincar.
         De pôr barcos de papel a navegar sob, um céu d’andorinhas,
         de correr e tentar apanhar aquelas lindas e velozes libelinhas
         paradas sobre aquelas águas barrentas que o Sol fazia brilhar.

        Tudo ia bem, até que frutas e verduras começavam a desaparecer.
        Vinha então o tempo de irmos todos dias p’rá porta da kitanda.
        Tínhamos que comprar frescos e frutas, desse lá por onde der.
         E compravam-se até ervas mais velhas que o Kaparandanda(3)

         Mas não há mau tempo que não finde, nem bom que deixe de vir.
Um dia, lá chegava o Camacove com água e frescos p’ra a gente.
   Ao porto chegam Fardos de Roupa  e caixas deQuinino Americano
     e, só nesse dia, fomos à praia inaugurar o nosso Verão desse ano…

Aguentem lá essas cheias, Manas,
Patrícias Minhas, Australianas

KANDANDOS

Do

NECO

6.03.2010 


1ª foto: Habitantes de Mossãmedes, na época, apreciando o espectáculo que foi a queda em cascata das águas do Bero para o interior das «furnas» de Santo António em Mossãmedes.
2ª foto. Outra perspectiva das ditas  «furnas».
3ª foto. O Estádio Municipal


 MariaNJardim
1ª e 3ª fotos: Foto Salvador

1 comentário:

  1. Muito bem, gostei, linda poesia e página que guarda muita coisa da nossa terra. Parabéns!

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