
O Posto Experimental do Caraculo, exploração modelo saída do sonho do veterinário Dr. Santos Pereira, enquanto director da Estação Zootécnica da Humpata (Huila), fica situado na região do Caraculo, a 70 km de Moçâmedes (Namibe), na estrada para Sá da Bandeira (Lubango), a região que fora escolhida pelo Estado português na década de 50, para exploração em grande escala de ovelhas Karakul destinadas ao abate nos três primeiros dias de vida, tendo como objectivo o comércio de peles
Santos Pereira ao ter presenciado no decurso de uma visita ao Sudoeste Africano (Namibia), como naquelas terras desérticas se procedia à criação do gado ovino de raça Karakul, tão entusiasta se revelou, que apresentou uma proposta ao então Governador Geral de Angola, Agapito da Silva Carvalho, e seria o próprio veterinário a trocar a
vida confortável que levava no planalto, pelo isolamento do deserto,
ao escolher o local e ao lançar as bases da exploração modelo, assumindo-se como diretor do Posto Experimental do Caracul
fundado em 1948, cuja produção de peles viria a ganhar um prémio internacional, tendo o Caraculo sido considerado uma das regiões que produzia as melhores peles do mundo, dada a sua leveza e brilho.
Os trabalhos de inspecção de crias e preparação das peles.

Veterinário Dr. Santos Pereira inspeccionando as crias.

Figura 3 – “Casa do diretor”, Posto Experimental do Caracul, c. 1960
A casa do diretor, a qual demonstrava, segundo Gilberto Freyre, “que era possível viver um português em Caracul em verdadeiro oásis”:
“Tal era residência do diretor de Posto, toda cercada de trepadeiras, entre as quais uma latada com cachos de uvas tão lusitanamente frescas que à primeira vista parecem postiças… as parreiras rebentam em uvas gordas, junto à varanda das casas e ao alcance das mãos dos meninos e da própria gente grande mais saudosa de frutas e dos aromas de Portugal” (Freyre 1980 [1953]: 374).
Figura 2 – Manuel dos
Santos Pereira, “Construções estilo caracul: como construir
economicamente casas circulares com tetos de tijolo”, Posto Experimental
do Caracul, julho de 1958
Fonte: Arquivo do IPAD (IPAD / MU / DGE / RRN / 1548 / 16195).

“Bairro indígena” do Posto Experimental do Caracul, c. 1960
Fonte: Arquivo do IPAD (IPAD / MU / DGE / RRN / 1548 / 06127).
Na 1ª e 2ª fotos, o Presidente da Republica portuguesa, Almirante
Américo de Deus Tomás, acompanhado pelo Ministro do Ultramar e de outras
individualidades, observa alguns exemplares de ovinos trazidos de
Angola para a exposição na Metrópole.À esq., podemos ver Raul Radich
Junior, o industrial moçamedense, Presidente da Associação Comercial da
sua cidade que ali se deslocou.
A região do Caraculo reunia condições similares à das estepes e semi-desertos do Turquistão Oriental, actual Uzbequistão, assim como das regiões do norte do Irão e do Afeganistão, onde a raça já existia há 1.000 anos, tendo, a partir dai se espalhado gradualmente para outras regiões da Ásia Central, Ásia Menor e sul da Ásia até à India e China. Foram as condições adversas sob as quais evoluiu a raça Karakul, que deram a estes animais força longividade, resistência, resistência aos parasitas, etc., de tal modo que, se tiverem acesso a uma alta disponibilidade de forragens, são capazes de armazenar energia, principalmente através de sua cauda gorda, para sobreviverem a períodos de falta de alimentos, situação que outras raças não aguentariam. A raça Karakul suporta grandes variações de temperatura, do frio ao calor intenso e deve ser criada e mantida em locais secos, longe de pastagens alagadiças, em regiões com vegetação típica de deserto e com disponibilidade de água limitada, uma vez que armazenam muita gordura em suas caudas, como resultado de uma adaptação desenvolvida para a sobrevivência em ambiente inóspito, tendo chegado a percorrer 30km em busca de alimento e água.
O cordeiro Karakul é abatido nos três primeiros dias de vida para se obter uma pele de qualidade superior, a nobre pele conhecida por ASTRAKAN, muito apreciada e reservada especialmente à confecção de casacos de senhora. ASTRAKEN é nome de uma cidade do Mar Cáspio onde os franceses adquiriam as suas peles, pois à medida que os cordeiros crescem, as ondulações do velo vão se espaçando e a coloração vai se tornando acinzentada , havendo também perda da maciez.
Conforme refere A.M.Cristão no seu livro «Memórias de Angra do Negro-Moçâmedes» , pg. 104, nos anos 70, tecnicamente apoiado e incrementada por este PEC oficial sob a orientação do seu iniciador e director, coexistiam já 17 criadores particulares, mais de 60.000 cabeças e já se haviam realizado 5 leilões de peles (sendo o último em Londres, com 800 peles). Refere ainda que não foi tarefa fácil dada a carência de ovelhas locais, já que os criadores nativos que dispunham de algumas, não queriam se desfazer delas com vista a cruzamento. Como recurso fora trazida do Quénia a «Massai» tendo em vista uma produção no mais curto espaço de tempo. E assim se conseguiu que em 1975, o numero se elevasse para as 60 000 cabeças , numero que muito iria contribuir para a economia do território, pela venda das suas tão cobiçadas peles, tidas como as mais perfeitas.
Para lêr mais:
http://etnografica.revues.org/3403 http://etnografica.revues.org/3403
http://www.crisa.vet.br/raca_2001/karakul.htm
http://memoria-africa.ua.pt/Digital_Show.aspx?q=/LNEC/LNEC-Memoria-N210&p=1
http://memoria-africa.ua.pt/Digital_Show.aspx?q=/LNEC/LNEC-Memoria-N210
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