Em Moçâmedes raramente chovia, mas de vez em quando era a valer... Uma dessas vezes foi na década de 1940. Nessa altura, as margens do rio Bero ainda não estavam reguladas, a chuva foi tanta que as águas transbordaram do leito, alagaram os terrenos marginais, e avançaram rumo à parte baixa da cidade, tendo o caudal na sua passagem transvasado como uma cascata para o interior as «furnas de Santo António» (1ª e 2ª fotos). As ruas ficaram de tal modo alagadas que algumas pessoas chegaram a utilizar pequenos barcos para poderem se deslocar de um lado para outro.
Na 3ª foto , creio que tirada na rua da Praia do Bonfim, paralela à Avenida principal, vê-se um automóvel (táxi) a romper as águas, sob o olhar admirado de alguns residentes. Segundo informações inclusas no livro Recordar Angola, de onde a foto foi tirada, pertencia a um Sr. de nome Cabral.
As «furnas de Santo António» ficavam próximo do antigo aeroporto de Moçâmedes (o velho campo de aviação), e no ano de 1972, aproveitando a morfologia do terreno, foram ocupadas pelo novo Estádio Municipal, que pode ser visto, no dia da sua inauguração, clicando AQUI..
AS CHEIAS DA MINHA INFÂNCIA
Na nossa terra, em Angola, as cheias,
sempre vieram e continuaram a vir
dos altos abruptos da Xela, de roldão,
lembro-me disso bem, não esqueci, não…
Saltavam do leito do Bero e cobriam a linha
e as muitas fazendas que nas margens tinha,
invadindo as aldeias e Hortas que podia encontrar…
Arrasando povoados e destruindo plantações,
deixavam Mossâmedes, sem o recurso à água pura
do Planalto e a beber da sua, após fortes ebulições,
Cheias que, na sua imparável e imponente cavalgada,
chegavam a inundar as ruas e os ares da Baixa da Cidade,
pois, para um surto palustre, só a quina tinha tal capacidade…
Era ali que a inocência infantil se fazia atrevida e sem peias.
Era o tempo das crianças correrem descalços, sem meias…
Para todas, aqueles eram dias de muito rir, de muito brincar.
De pôr barcos de papel a navegar sob, um céu d’andorinhas,
de correr e tentar apanhar aquelas lindas e velozes libelinhas
paradas sobre aquelas águas barrentas que o Sol fazia brilhar.
Tudo ia bem, até que frutas e verduras começavam a desaparecer.
Vinha então o tempo de irmos todos dias p’rá porta da kitanda.
Tínhamos que comprar frescos e frutas, desse lá por onde der.
Mas não há mau tempo que não finde, nem bom que deixe de vir.
Um dia, lá chegava o Camacove com água e frescos p’ra a gente.
Ao porto chegam Fardos de Roupa e caixas deQuinino Americano
e, só nesse dia, fomos à praia inaugurar o nosso Verão desse ano…
Aguentem lá essas cheias, Manas,
Patrícias Minhas, Australianas
KANDANDOS
Do
NECO
6.03.2010
2ª foto. Outra perspectiva das ditas «furnas».
3ª foto. O Estádio Municipal
MariaNJardim
1ª e 3ª fotos: Foto Salvador



