Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 18 de março de 2010

António Aniceto Monteiro, um ilustre filho de Mossamedes ( a ex-Mocamedes, actual Namibe - Angola)


Em meados dos anos 40 e durante a sabática

Digitalização de Jorge Rezende
Agradecimentos a Edgar Ataíde
© Família de António Aniceto Monteiro
António Aniceto Monteiro é o primeiro investigador moderno português em Matemática. Foi um dos impulsionadores do Movimento Matemático que, entre 1936 e 1947, a partir de Lisboa, lançou os fundamentos do que foi na altura, e que poderia ter continuado a ser, uma verdadeira Escola de Investigação, de Divulgação e de Ensino daquela Ciência em Portugal. No que diz respeito à investigação científica foi ele, sem dúvida, a figura central do Movimento Matemático.  Há três nomes maiores do Movimento Matemático (1936-1947): Bento de Jesus Caraça, Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro. Não se pode dizer que este último tivesse uma envergadura menor do que os outros dois. É o menos conhecido porque foi obrigado a exilar-se em 18 de Fevereiro de 1945, nunca tendo sido professor de uma escola portuguesa.
*   *   *

Os pais de António Aniceto Monteiro

Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
Ver:
Angola e António Aniceto Monteiro
Maria Joana Lino Figueiredo da Silva
António Ribeiro Monteiro (1880-1915)

Intervenção no "Colloquium António Aniceto Monteiro", 4 de Junho de 2007

Angola e António Aniceto Monteiro
Jorge Rezende (*)



Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro

Estas fotografias dizem respeito à segunda estadia (depois de 16 de Dezembro de 1910) do tenente Monteiro em Angola. Devem ser datadas já de 1911 a 1915. Ver: Angola e António Aniceto Monteiro.



                   António Aniceto Monteiro – O matemático que olhava Portugal de longe

António Aniceto Monteiro nasceu em 1907, em Moçâmedes, filho de um oficial do Exército que viria a desaparecer quando cumpria uma comissão de serviço em Angola. Tal como tem acontecido com muitos jovens desde 1803, ano da fundação do Colégio Militar, a sua Mãe recorreu aos serviços do nosso Colégio e Aniceto Monteiro ingressou nele a 1 de Novembro de 1917 com o nº78.

Decorria o ano de 1917 e em Portugal anunciava-se o milagre de Fátima e apelava-se à oração pela Paz, pois na Europa ela era uma utopia. Na Europa Ocidental assistia-se à 1ª Grande Guerra, 1914-18, onde o desprezo pelos direitos humanos levou ao massacre de dezenas de milhões de civis inocentes. Entretanto, na Europa Oriental, dava-se a revolução bolchevique na Rússia que viria a ter grandes reflexos na futura conjuntura política europeia e mundial. Em contraponto na Inglaterra, livre do flagelo da guerra, a paz, a democracia, o respeito pelos direitos humanos e os desenvolvimentos económico e social eram uma realidade. Longe estaria Aniceto Monteiro de pensar, nesse momento, que algumas consequências destes acontecimentos políticos iriam afectar decisivamente o seu futuro.

Mas, voltemos a Aniceto que vai frequentar o Colégio até 1925 onde se revela um aluno mediano, nada fazendo crer que mais tarde se tornaria num ilustre matemático, internacionalmente reconhecido. Aniceto Monteiro possuía uma formação cívica sólida e foi, ao longo da sua actividade colegial, distinguido com três louvores, designadamente, dois pelo seu “procedimento moral”; no entanto, jovem e irrequieto que era, também sofreu castigos um dos quais no último ano por fumar, hábito que não o largou a vida inteira. Terminou o Curso Complementar de Ciências no Colégio Militar com a média geral de 12 valores e 14 valores a Matemática tendo, contudo, na generalidade melhores classificações em Física.

No ano seguinte Aniceto matricula-se no Curso de Ciências Matemáticas da Faculdade de Ciências de Lisboa, concluindo a sua licenciatura em 1930 com a média de 15 valores. De 1931 a 1936, é bolseiro do Instituto para a Alta Cultura, em Paris, tendo, em 1936, obtido o grau de Doutor em Ciências Matemáticas pela Universidade de Paris com a menção distintíssima de “très honorable”. O seu doutoramento foi orientado por Maurice Fréchet, professor da Sorbonne, e mereceu do júri, para além da mais alta classificação, a seguinte referência: “agradecemos ao Instituto para a Alta Cultura por nos ter enviado um candidato que revelou grande entusiasmo e aptidões excepcionais para a investigação” Destaquei apenas esta frase de vários parágrafos da carta, elogiosa, que foi dirigida ao Instituto para a Alta Cultura.. Em França, Aniceto contacta com a investigação Matemática e com os moldes da sua organização e aí ganhou incentivo para o prosseguimento das suas investigações. Regressa a Portugal com o entusiasmo de um jovem que sempre teve “uma atitude rica perante a vida” que, como um cidadão exemplar, entende que tendo sido bolseiro, deverá retribuir ao País os frutos do seu trabalho e da sua capacidade.



Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro




Mas se, em 1917, ano em que se torna “menino da luz”, os tempos não são fáceis para a Europa, em 1936, ano em que regressa a Portugal, a conjuntura política Europeia adensa-se e adivinham-se novos e terríveis conflitos cada vez mais desumanos. A Europa continua a não encontrar a Paz e a retardar os caminhos da democracia quer através de novos conflitos regionais étnicos, quer através de regimes ditatoriais. Os desenvolvimentos económico e social de alguns países, alicerçados numa democracia com respeito pelos direitos humanos, continua a não ser um exemplo para muitos dirigentes políticos europeus. À criação do regime comunista implantado na Rússia, com a revolução bolchevique, respondem alguns países da Europa Ocidental e Mediterrânica, entre os quais Portugal, com regimes ditatoriais de direita, cerceando as liberdades civicas de muitos cidadaos, impedindo-os ate de exercer actividades profissionais no seu pais.
Digitalização de Jose Marcilese© Família de António Aniceto Monteiro
António Aniceto Monteiro, Lídia Monteiro e filhos no Porto
(22 de Março de 1944)

Foi exactamente isto que aconteceu com Aniceto Monteiro quando chegou a Portugal. Nesse tempo, era obrigatório assinar um compromisso de fidelidade (estabelecido pela Constituição Política de 1933) para ter acesso à função pública. Aniceto recusa-se a assinar tal compromisso, mesmo depois de pressionado por vários amigos, alguns deles meninos da luz como ele, porque, apesar de não ter qualquer actividade de carácter político, Aniceto considerava o dito compromisso “um insulto à sua inteligência”. Entretanto, os apelos da comunidade matemática repetiam-se e o Regime continuava a negar-lhe o ingresso na carreira universitária. Apesar de consciente que, enquanto se mantivesse o Regime do Estado Novo, seria marginalizado no seu país, Aniceto Monteiro não era homem para desistir e, por isso, não podia deixar de fazer o que sabia e o que mais gostava – exercer funções docentes e de investigação – o que fez mesmo sem auferir qualquer remuneração.

A crise de desenvolvimento da cultura matemática portuguesa era uma realidade. Até Fernando Pessoa através de Álvaro de Campos se referiu ao fraco reconhecimento, que no país, se atribuía ao conhecimento científico afirmando “o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso”. Para inverter esta situação, Aniceto Monteiro, apesar de não ser professor no ensino oficial, fez parte de um movimento pela renovação da cultura matemática portuguesa, para a modernização do ensino e da investigação científica, tendo uma participação associativa muito activa no seio da sociedade civil, conjugando vontades e articulando esforços. Neste âmbito foi um dos três impulsionadores do Movimento Matemático em Portugal, com Bento de Jesus Caraça e Ruy Luís Gomes. Associando-se a estes e a outros eméritos cientistas portugueses participou também na criação da Junta de Investigação Matemática, do Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa, da Fundação da Sociedade Portuguesa de Matemática, da qual foi o seu primeiro Secretário-Geral e das revistas científicas da área: Portugaliae Mathematica e Gazeta Matemática. A Portugaliae Mathematica veio colmatar uma brecha nas publicações de nível universitário que se verificou com o desaparecimento, no início do século, da primeira revista portuguesa da especialidade e passou a constituir um local privilegiado para a publicação de trabalhos portugueses inéditos. A Gazeta Matemática era dirigida aos professores de Matemática e aos estudantes universitários para melhor informação sobre o movimento matemático nacional e aos pré-universitários para prepararem devidamente o seu ingresso no ensino superior. Para Aniceto Monteiro, já nesta altura, os jovens, ainda no ensino secundário, já representavam o futuro cientifico em Portugal.

Finalmente, a 2ª Guerra Mundial, 1939-45, está a terminar mas, os ventos de mudança não parecem querer chegar a Portugal tão cedo e o Regime, apesar da vitória dos aliados, irá continuar a não tolerar espíritos livres nem movimentos modernizadores. A repressão aumenta e torna-se imperioso silenciar os intelectuais. O Regime prepara a depuração, a nível universitário, mesmo daqueles que assinaram o compromisso político recusado por Aniceto Monteiro.

Sobrevivendo em condições económicas precárias, Aniceto Monteiro aceita, em 1945, um contrato como professor de Álgebra Superior na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro, tendo sido recomendado nada mais, nada menos por: Albert Einstein, John von Neumann e Guido Beck. Aí irá, durante quatro anos, organizar o ensino e promover a investigação em Matemática junto dos jovens universitários brasileiros, colaborar na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas do Rio de Janeiro e influenciar um grande número de futuros matemáticos desse país.

Enquanto outros países tudo faziam para importar cérebros Portugal bania-os. Como foi possível a um país como Portugal não aproveitar o saber de um Matemático recomendado nomeadamente, por Einstein , “apenas” Prémio Nobel da Física em 1921, e John von Neumann que para além de Físico Nuclear, realizou trabalhos muito importantes em Física Quântica, foi especialista na Teoria de Jogos (Matemática/Economia) e criador do ENIAC o primeiro computador da nova geração!

Apesar do modo como foi tratado pelas autoridades portuguesas, Aniceto Monteiro estabeleceu, sempre, relações científicas com o país continuando a orientar teses de doutoramento e a constituir um marco de referência para os jovens Matemáticos Portugueses. Mas o Governo Português continuava a não lhe perdoar a sua verticalidade e generosidade e mais uma vez, através da Embaixada Portuguesa no Brasil, o perseguiu influenciando a decisão da não renovação do seu contrato por parte da Faculdade Brasileira. Lá teve, em 1950, Aniceto Monteiro de procurar novo país de acolhimento.

Esse país foi a Argentina onde, para além de ter leccionado em três Universidades, desfrutou, a partir de 1957, da grande oportunidade de criar um projecto cientifico de raiz, fazendo do Instituto de Matemática de Bahía Blanca um dos centros de Matemática mais importantes da América Latina, associado a uma Biblioteca, de nível internacional, adequada à realização de trabalhos de investigação, à qual em sua homenagem foi dado o seu nome. É designado «Professor Emérito da Universidade Nacional del Sur» na Argentina e jubila-se em 1975.

Em 1977, regressa a Portugal, passados trinta e dois anos de exílio e aqui permanece, como investigador do Instituto Nacional de Investigação Científica, até 1979. Em 1978, é distinguido com o Prémio Gulbenkian de Ciência e Tecnologia tendo a Revista da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar feito uma referência dessa atribuição ao “bom e querido Aniceto”. Que manifestação de afecto e de camaradagem por parte dos outros meninos da luz. Regressa à Argentina continuando a trabalhar até aos seus últimos dias, pois a sua paixão pela matemática não tinha limites. Vem a falecer em Bahía Blanca, em 1980. Em 2000, o então Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, concede-lhe a título póstumo, e no âmbito das comemorações do Ano Internacional da Matemática, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada. Mais uma vez o nosso país, deixa partir um daqueles que se afirmaram como uma referência, homenageando-o e à sua obra de forma tardia.

Com a sua energia, visão e persistência Aniceto Monteiro dinamizou, por onde passou, a criação de Centros de Investigação e Bibliotecas que deixaram uma marca muito precisa do seu pensamento científico de que a Ciência era para ser partilhada por todos e não apenas por alguns. Foi, sem dúvida alguma, um percursor da globalização dos conhecimentos a nível do ensino, da investigação e da divulgação científica.

Fez parte de uma geração que tudo fez para que Portugal entrasse na modernidade mas, muitos deles, como Aniceto Monteiro foram impedidos de realizar, no nosso País, a sua ambição científica.

O seu comportamento cívico exemplar e o seu carácter, com certeza muito enraizados na sua personalidade pela educação colegial, foram determinantes para as suas actividades profissional e social granjeando de todos que com ele trabalharam e privaram o respeito, a estima e uma amizade duradoura.

Referi, apenas, alguns aspectos da vida de um dos maiores matemáticos portugueses do século XX , de reconhecido mérito internacional, que foi António Aniceto Monteiro aluno 78 de 1917-25 e que será mais uma das grandes referências do nosso Colégio no Âmbito da Matemática juntamente com Fernando Vasconcelos aluno 56 de 1887 e Luís Albuquerque aluno 89 de 1929.

Muito obrigado pela vossa atenção

Vasco Lynce de Faria

Referências: Ana Gerschenfeld “António Aniceto Monteiro - O matemático que olhava Lisboa de longe” - PÚBLICO Comunicação Social SA (Maio 2007).

António M. Fernandes “António Aniceto Monteiro” Educação e Matemática –Revista da Associação de Professores de Matemática (Junho 2007).

José Manuel Sena Neves “António Aniceto Ribeiro Monteiro – Centenário do nascimento de um notável matemático (ex-aluno 78 / 1917-25 do CM) – Revista O COLÉGIO MILITAR (Julho 2007).

Sociedade Portuguesa de Matemática

“António Aniceto Monteiro – Uma fotobiografia a várias vozes” Coordenadores: Jorge Rezende, Luíz Monteiro e Elza Amaral (Maio 2007).

1958
“Ele fundou tudo quanto havia a fundar, participou em tudo quanto havia a participar”
Jorge Rezende
FONTE 

António Aniceto Monteiro: um testemunho sobre o impacto recente da sua obra em Álgebras da Lógica

Seminário de Álgebra
"António Aniceto Monteiro: um testemunho sobre o impacto recente da sua obra em Álgebras da Lógica"Isabel Ferreirim (Universidade de Lisboa, Portugal)
Sexta-feira, 09 de Novembro de 2007, 14h30, Anfiteatro


Complexo Interdisciplinar da Universidade de Lisboa
Av. Prof. Gama Pinto, 2
1649-003 Lisboa




António Aniceto Monteiro tem uma rua com o seu nome em Bahía Blanca, Argentina.
António Aniceto Monteiro não tem qualquer escola ou rua com o seu nome em Portugal ou em Angola, onde nasceu!

Seria de máxima justiça que, pelo menos, fosse dado o seu nome a ruas de Namibe, de Lisboa e do Porto.

O seu amor à terra onde nasceu (Mossâmedes, actualmente Namibe) justificam-no plenamente. Que António Aniceto Monteiro tenha nascido em Angola deve ser motivo de orgulho para os angolanos e também um incentivo para a juventude de Angola.

Todo o trabalho que realizou em Portugal com relevo para Lisboa e para o Porto não está reconhecido ao nível da toponímia das duas cidades. Muito se proclama a necessidade de promover a Matemática em Portugal, mas nenhuma escola portuguesa tem o nome de um dos seus maiores promotores no século XX.
Ver CRONOLOGIA

*    *   * 

CERTEZAS

Vejo as nuvens do céu
os sonhos da minha infância
claridades azuladas
na infinita distância.

Vejo no céu estas nuvens
Brancas, negras, azuladas
que se esfuman num momento
e deformam sem cessar.

Os sonhos da minha infância
Mortos no céu para sempre?

Na infinita distância
Os vazios transparentes.
Azuis, roxos, encarnados
que se turvam num instante
e deformam sem cessar.

Claridades azuladas
Vivas no céu
desde sempre.

Tenho os pés postos no chão
e firmados com vigor
Nos sonhos da minha infância.
Não são sonhos são certezas
que só encontro na Terra!

Claridades azuladas
de transparente constância.
Não estou parado no tempo
Não tenho os olhos fechados!
Na infinita distância
Claridades azuladas
Não são sonhos são certezas
Que só encontro na Terra.

[António Monteiro, 1959]

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