Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 11 de março de 2010

Mossamedes in Revelacões da minha vida e memorias de alguns factos e homens meus ... By Simão José da Luz Soriano 1860


  Luz Soriano quando escrevia a História da Guerra Civil 1866-1890)

1. Quem foi Luz Soreano?


SIMÃO JOSÉ DA LUZ SORIANO: NOTA BREVESIMÃO JOSÉ DA LUZ SORIANO: NOTA BREVE

Nasce em Lisboa a 8 de Setembro de 1802. Foi abandonado pelo pai [Domingos José Soriano, barbeiro de profissão e que partiu para o Brasil – cfª Dicionário de Autores Casapianos, Lisboa, 1982, p.186] e vai viver para Famalicão da Nazaré com a mãe (empregada de servir). Entra, por intermédio de um seu tio [frade carmelita, ibidem] na Casa Pia a 31 de Agosto de 1811 ["data em que a Instituição reabriu no Convento do Desterro", ibidem].

Em Agosto de 1813, Luz Soriano, "saiu para aprender o ofício de Encadernador" [ibidem]. Vai para Coimbra, sua "forte ambição", para estudar, mas é "roubado de todos os seus haveres", tendo regressado, depois de trabalhar "como criado de lavoura" (na Azambuja), à Casa Pia. Abandona-a, de novo, devido a incompatibilidades escolares com o administrador da Instituição e decide-se pela "vida monástica". Tenta ingressar, curiosamente, no Mosteiro de Santa Maria da Arrábida [ibidem], mas não é aceite por "não saber latim". Decide, então, estudar engenharia. Parte para Coimbra [a 7 de Junho de 1825 – ibidem], instalando-se no "velho colégio da Broa". Troca Engenharia por Medicina, tornando-se bacharel anos depois, na cidade onde diz ter assado "o melhor tempo da sua mocidade".

Defendendo, ainda como estudante, o ideário liberal, liga-se (1828) à revolução constitucional do Porto, "proclamada em 16 de Maio" [cfª. Dicionário Biographico Portuguez, de Inocêncio Francisco da Silva]. Malograda a intentona, é obrigado a exilar-se em Espanha, fazendo aí parte do Batalhão de Voluntários Académicos [Dicionário, ibidem]. Parte para Plymouth e depois para a Ilha Terceira [Fevereiro de 1829, ibidem], tomando parte no desembarque do Mindelo, "vindo depois na expedição ao Porto em 1832", em cujo cerco serviu. Refira-se que veio de Plymouth para Angra, via ordens do Marquês de Palmela, e transportada pela galera "James Cropper" [chegada no dia 14 de Fevereiro de 1829 – Dicionário, ibidem], a "imprensa" para "uso da junta provisória", que Luz Soriano e outros "voluntários" montaram e que tinha na sua chefia Pedro Alexandrino da Cunha [alferes do regimento nº43 – ibidem]. Sobre a questão da introdução da imprensa nos Açores, a que este facto se refere, é conveniente consultar o Dicionário do Inocêncio, onde é transcrita um carta de Luz Soriano [do Conimbricense n.º 3:944] que clarifica o assunto.

Com a vitória liberal, entra como Amanuense de primeira classe na Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros [Dezembro de 1832] e acaba o seu curso de Medicina [1842]. Deputado por Angola (1851-54). É aposentado (1867) no cargo de oficial maior do Ministério da Marinha e do Ultramar.

Escritor prolífico [com dezenas de obras publicadas], é como historiador e memorialista (notável) que é reconhecido. A sua merecida e estimada bibliografia histórica é de importância fundamental para o estudo da instauração do liberalismo em Portugal.

Morre em 18 de Agosto de 1891, "deixando testamento que teve larga divulgação por conter disposições realmente merecedoras dessa publicidade, e entre elas algumas que bem revelam o seu civismo e o seu acrisolado amor à Pátria" [ibidem]. Aí, contempla especialmente a Casa Pia de Lisboa [deixando-lhe, entre prestações pecuniárias e imóveis vários, a sua "vasta Biblioteca"] e a Misericórdia de Coimbra.

Foto: in Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Publicações Alfa, 1993.

                                                                         

                                                                 

2. Que importância teve Luz Soreano para o arranque da colonização de Mossâmedes (Moçâmedes/Namibe)?


"...Reconhecendo que as nossas provincias d'Africa nada mais tem sido desde a sua descoberta até ao nosso tempo do que um simples viveiro de escravatura para a America, e feitorias commerciaes, de não grande monta para a Europa, busquei, tanto quanto em mim cabia, vêr se á provincia de Angola dava uma mais subida importancia do quo aquella, que até então tivera. 

É sabido que o clima d'Africa é bastante damnoso aos europeus, e tanto mais, quanto mais se aproximam da equinocial. Dizia-se que no interior do paiz alguns pontos havia, proprios para colonisação europêa, o que na pratica se não verificou, pelo malogro de algumas tentativas desta especie, provindo isto, tanto da falta das indispensaveis cautelas no transporte dos colonos, como da insalubridade de taes pontos, como aconteceu com o presidio do duque de Bragança, como acontece com o Bembe, e como acontece com o Ambriz. 

Revendo o cartorio da antiga secretaria do ultramar, onde toda a correspondencia de Angola posterior ao meado do seculo passado, vi que o clima de Cabinda, ao norte do rio Zaire, ponto .onde se começara a levantar um forte, por auxilio de uma expedição, que para alli sahira de Loanda aos 17 de julho de 1783, estava effectivamente incluido na regra geral da insalubridade para os europeus, apesar da fama, que tivera em contrario, attenta a grande mortalidade, que alli soffreu a força expedicionaria. 

Vi mais que a politica de alguns gabinetes estrangeiros, e particularmente o inglez, nos contestava fazer por aquella parte effectiva a nossa auctoridade, como o demonstrou a expedição naval, que a França empregou contra a nossa expedição de Cabinda, onde em 1784 fez demolir o forte, que alli começámos a levantar. A este estado de insolita e inesperada hostilidade, seguiram-se as nossas reclamações, das quaes resultou a convenção de Madrid de 30 de janeiro de 1786, pela qual a França declarou respeitar os direitos, que a coroa deste reino pertendia ter áquella parte da costa africana. Todavia a Inglaterra tem sido para nós mais severa sobre este ponto do que a propria França, a Inglaterra, que pelos tratados de 19 de fevereiro de 1810 e 22 de janeiro de 1815, e convenção addicional de 28 de julho de 1817, reconheceu formalmente a reserva dos direitos da coroa de Portugal aos territorios da Africa Occidental, comprehendidos entro o quinto gráu e doze minutos, e o oitavo gráu de latitude meridional. É ella a unica potencia, que com frivolos pretextos nos tem ultimamente embaraçado fazer effectiva a jurisdicção portugueza nos citados territorios. 

Conseguintemente intendendo que, tanto por esta causa, como pela insalubridade do clima dos territorios ao norte de Loanda, as nossas tentativas coloniaes haviam de ser sempre infructuosas, ou mal succedidas, dediquei desde então toda a minha attenção aos territorios ao sul de Benguella, não só porque alli ninguem nos contestava o nosso dominio, mas sobre tudo por ver que, estando já bastante distantes do equador aquelles territorjos, era de suppor que o seu clima fosse já mais analogo ao do Cabo de Boa Esperança, e por tanto ao da Europa. Reputei eu tanto mais urgente a occupação destes territorios, quanto que em França algum viajante instava com o seu governo para os mandar invadir. No quarto volume, documento n.° 13, da viagem que Mr. João Baptista Douville fez a Angola em 1827, vê-se apparecer alli bem descripto o porto e o sertão de Mossamedes. Mais se vê ter elle fortemente despertado a attenção do governo francez por meio de uma memoria, dirigida ao ministro das colonias, sobre aquelle porto, rogando-o encarecidamente para que nelle mandasse levantar um presidio para degradados. Douville dizia haver alli agua doce, serem risonhas as margens do rio, que o avisinham, serem pacificos os povos dos sertões limitrophes, e finalmente ter observado que a temperatura das costas pelas duas horas da tarde de um dia de dezembro de 1827 era de 23 a 24 gráus de Reaumur, achando igualmente que a 10 leguas da costa sobre um monte elevado, a temperatura era de 19 gráos, no mesmo momento em que o thermometro marcava 22 sobre a costa. A leitura de tudo isto convenceu-me cada vez mais da urgencia de se segurar a todo o custo o porto e o sertão de Mossamedes, antes que o governo francez annuisse ás instancias de Douville, e nos expellissem do sul de Angola pelo mesmo modo por que nos tinham expellido do norte.

Com a leitura da viagem deste francez coincidiu igualmente achar eu no archivo da secretaria do ultramar um officio do barão de Mossamedes, que depois foi conde da Lapa, descrevendo a importante exploração, que em 1785 mandára fazer aos sertões do sul de Benguella. A respectiva expedição sahira de Loanda aos 12 de junho d'aquelle anno, e posteriormente de Benguella, dirigindo-se á chamada Angra do Negro, á qual desde então se poz o nome de Mossamedes por obsequiosa memoria de quem ordenára a expedição. Tanto a descripção desta bahia, como a da grande serra e valle do Bumbo, que d'ella dista tres dias de viagem, segundo as ultimas participações, e 28 leguas (é distancia excessiva) segundo o cumputo do chefe da expedição, o famoso sertanejo d'aquelle tempo, Gregorio José Mendes, são de attrahir a attenção do mais impassivel leitor, circumstancia que em mim se deu no mais alto gráu. Apesar dos esforços do conde da Lapa, a bahia de Mossamedes continuou a permanecer no total esquecimento do nosso governo, para d'elle sahir no nosso tempo. Para aquelle porto se emprehendeu uma outra expedição em 1839, ordenada pelo vice-almirante, Antonio Manuel de Noronha, que para ella commissionou a corveta Izabel Maria, do commando do meu fallecido amigo, Pedro Alexandrino da Cunha, que então era capilão-tenente da armada. A corveta foi até á vasta Bahia dos Tigres, d'onde voltou para o norte, por se não verem n'aquellas costas, quer olhando para o interior do paiz, quer para o sul, senão vastos campos de areia solta, sem terem um só vegetal, vindo finalmente ao porto de Mossamedes, cujo aspecto e vantagens foram muito elogiados pelo commandante deste vaso. Ao vice-almirante Noronha succedeu-lhe, como governador de Angola, Matiuel Eleuterio Malheiros, que em fevereiro de 1840 mandou levantar um forte em Mossamedes, dando-lhe por governador o tenente de artilheria de Benguella, João Francisco Garcia Moreira, que para lá partiu com 26 praças de pret, e duas peças de artilheria. Entretanto o forte quasi que não passava dos alicerces, quando alli tocou em fms de setembro de 1842 o governador geral d'aquella provincia, José Xavier Bressane Leite, successor de Malheiros. As noticias officiaes de Mossamedes, que a instancias minhas se pediram a Bressane, e ao seu successor, Lourenço Germak Possollo, e as repetidas ordens, que pelas minhas rogativas para alli expediram os ministros da marinha com quem servi, para se dar importancia áquelle porto, cada vez me convenceram mais de que elle não só era salubre, mas que até tinha todos os elementos de se constituir n'um importante ponto commercial, com relação aos sertões, que o avisinham, apesar de estar cercado de areias, como é todo o littoral de Angola. Todos estes sertões se apresentaram aos officiaes de marinha, que os visitaram, com os mais lisongeiros auspicios para o estabelecimento de colonias europeas, particularmente a liuilla, Gambos, e Humpata, a mais de 30 ou 40 leguas de Mossamedes, todos situados além da notavel serra de Chella, cujos territorios tem logares muito ferteis, e de excellente clima. De todos estes sertões o da Huilla foi o que por si teve melhores informações, considerandose como um paiz muito apto para o estabelecimento de caudelarias, em razão das vastissimas pastagens, que tem, onde os indigenas pastoream numerosas manadas de gado vaccum.

Attentas pois todas estas vantagens, não admira, que me deixasse preoccupar por todas as descripções, que me chegaram á mão, e incessantemente instasse com todos os ministros da marinha e ultramar para que não deixassem ficar em abandono um porto, que tanto se recommendava para uma colonisação europea. Com a falta de recursos, que para tal fim se dava, coincidiu tambem o esmorecimento de alguns especuladores, por não terem correspondido ás suas vistas os interesses das feitorias commerciaes, que lá tinham mandado estabelecer. Bem longe disto me desvanecer das ideas, que concebi em favor de Mossamedes, cada vez mais me convenci da necessidade da sua colonisação, pela firme persuasão de que a rivalidade de Benguella era uma das poderosas causas do malogro de semilhantes feitorias. Mas quando os interesses commerciaes, e os da projectada colonisação não correspondessem ainda assim á minha espectativa, intendia que mesmo neste caso era indispensavel assegurar Mossamedes, pela urgente necessidade que tinhamos de assegurar todo o littoral, que vae desde a enseada de Moeni-Calanga, assente em doze gráus e cinco minutos de latitude sul, e que de facto se considerava então como o ultimo limite á beira-mar do districto de Benguella, até á bahia de Mossamedes, assente em quinze gráus e dez minutos. Com a occupação definitiva de mais estes tres gráus, ou 54 leguas de costa, mais outra vantagem tinhamos, tal era a de assegurar igualmente no interior do paiz os sertões correspondentes a esta occupação do liltoral, e tanto mais, quanto o nosso presidio de Quilengues se achava quasi abandonado pela viva guerra, que então os negros lhe faziam. Além do que fica exposto, linha, e ainda presentemente tenho a crença de que dentro de um seculo ou seculo e meio, aquelles nossos sertões terão de ser demarcados com relação aos dominios dos Boêrs, ou as possessões inglezas da colonia do Cabo da Boa Esperança, e tratar de obviar desde já futuras contestações, assegurando de facto o que de direito nos pertence, aconselhava-o a prudencia, e exigia-o a politica. Por conseguinte, encarada por qualquer modo que fosse esta questão, era para mim manifesta a necessidade de tornar cada vez mais forte a occupação da bahia de Mossamedes, necessidade reclamada por todas as considerações, que sobre este objecto se podiam fazer.

Obvias eram portanto as razões, que me levavam a cuidar com todo o empenho na segurança d'aquella bahia, e tão obvias e patentes, que todos os ministros, com quem disto tratei, as julgaram sempre attendiveis, e effeclivamente as attenderam, tanto quanto estava ao seu alcance, não emprehendendo coisa mais séria pela inteira falta de meios pecuniarios, que o orçamento geral do estado lhes não facultava. D'uma grande somma de escravos, apresados a bordo do brigue brasileiro Caçador, ordenou-se em 4 do agosto de 1844 que cincoenta casaes marchassem como libertos para Mossamedes, a fim d'alli se empregarem nos trabalhos da agricultura. Mais se ordenou em 22 d'aquelle mez que em Mossamedes se organisasse uma companhia de linha debaixo do mesmo plano, que a dos mais presidios da provincia, devendo entrar nella não sómente os brancos, mas lambem os homens de cor. Para este fim auctorisou-se o respectivo governador geral a nomear para ella os officias que precizasse. Em conformidade com estas medidas foi para Mossamedes alguma artilheria, e outros mais objectos, necessarios para se guarnecer o respectivo forte, pondo-o em estado de fazer respeitar o porto, quer por mar, quer por terra. Finalmente d'uma grande porção de degradados, que a charrua Princeza Real conduziu para Angola em setembro de 1845, ordenou-se que quarenta desembarcassem em Mossamedes para fazerem parte da respectiva companhia de linha, devendo o commandante da charrua deixar alli com elles a maior porção de mantimentos, que lhe fosse possivel. Sei muito bem que o porto de Mossamedes é geralmente cercado de areas e alturas agrestes, como todas as costas d'aquellas paragens, e por conseguinte destituido de grandes porções de terreno vegetal. Sabia igualmente que, no tempo a que me refiro, o commercio do sertão limitrophe ainda para elle não estava encarreirado, de que resultára o facto, já citado, de haverem alguns especuladores mandado retirar algumas feitorias, que lá tinham estabelecido. Alguns officiaes de marinha houve, que fortemente murmuraram da presistencia do governo em querer dar importancia a um ponto, que, segundo elles, a não podia ter por aquellas circumstancias. Eu mesmo, entrando casualmente n'uma casa de pasto, ouvi estarem-se fazendo ao governo por aquelle motivo censuras um pouco asperas e desabridas; mas pela minha parte nenhum peso lhes dei, não só pelas razões, que já acima expuz, mas tambem pela convicção, que tinha, de que o tempo havia de atenuar no todo, ou em parte o que dizia respeito aos inconvenientes allegados, como actualmente vae acontecendo, não perdendo da lembrança de que areaes são igualmente os territorios de Loanda, e além disso sem agua potavel, o que não acontece a Mossamedes, e nem por isso deixa de ser aquella cidade a mais importante povoação da Africa Occidental. Os cuidados, que prestei á segurança do novo porto, não me embaraçaram de attender á dos seus sertões limitrophes, convencido que o dominio das costas é sempre ephemero, em quanto se não asseguram os seus respectivos sertões. Com estas vistas de assegurar o littoral e interior de Mossamedes se mandaram embaixadores aos regulos do Bumbo e da Huilla para se presentearem, e se levarem a prestar vassalagem á coroa portugueza, como praticaram, assentando-se com elles pazes, confirmadas pelos competentes tratados. Para garantir o dominio da Huilla, talvez o mais importante dos sertões de Mossamedes, como já disse, para lá se mandou ir a gente de que foi possivel dispor, e que ao principio consistiu em um sargento com quatro paisanos com uma mulher e seis casaes de libertos. Mesquinho era similhante presidio; mas em fim já era um nucleo para maiores empresas de colonisação, quando no futuro se quizessem levar a effeito. Os trabalhos a que me entreguei para a segurança e colonisação de Mossamedes, não se reduziram sómente aos do um simples official de secretaria do ultramar, chefe de repartição; mas até a tomar tambem sobre mim os de escriptor publico. Nas vistas pois de provocar alguma emigração para Mossamedes confeccionei uma memoria, descriptiva deste porto, das suas vantagens para a navegação e commercio, da salubridade do seu clima, o melhor de toda a provincia de Angola, e finalmente das vantagens e fertilidade dos sertões lemitrophes. 


(Esta memoria acha-se impressa no n.° 3 da 6.a serie dos Annaes Maritimos c Cotoniacs do anno de 1846.)

"...Sem embargo do que fica exposto confesso que da minha parte havia ainda bastante falta de confiança na proficuidade dos esforços, empregados para a segurança e colonisação de Mossamedes, por que em fim desanimado o commercio de tirar d'alli as vantagens, que dos mais pontos da provincia tirava, o progresso da colonisação havia de ser sempre ephemero. Uma circumstancia imprevista veio porém fortificar e engrandecer aquelles meus esforços. Os partidos politicos, que em differentes pontos do Brasil se debatem, e particularmente em Pernambuco, tornam-se geralmente oppressores dos portuguezes ali i residentes, aos quaes os brasileiros perseguem por toda a forma ao seu alcance. Offendidos e desgostosos por aquella causa muitos dos nossos concidadãos, que se achavam em Pernambuco, lembraram-se de ir fundar na nossa Africa uma colonia agricola, e neste sentido officiou um delles ao nosso governo na data de 13 de julho de 1848, communicando-lhe aquella resolução, e pedindo se lhe enviassem as memorias, relatorios, ou quaesquer escriptos, que no ministerio do ultramar houvessem, descrevendo os pontos, que na nossa Africa se olhavam como adequados para aquelle fim. Entre os documentos collegidos, e mandados para Pernambuco, foi tambem a minha memoria, e por ella é que se guiaram os que se resolveram a ir fundar na nossa Africa a sua projectada colonia. O governo nomeou uma commissão em Pernambuco para tratar dos aprestos, adequados ao embarque dos colonos, auctorisando-a a sacar pelas respectivas despesas, e remettendo-lhe além disso ordens da commissão liquidataria das companhias do Grã-Pará e Maranhão, Pernambuco e Parahiba, para pelo seu respectivo cofre se fazerem os precisos adiantamentos. Para occorrer a"s despesas de todos estes arranjos, o governo fez tambem uma proposta ás cortes, da qual resultou a carta de lei de 3 de julho de 1849, pela qual foi auctorisado a despender até á quantia de dezoito contos de réis com a colonia de Mossamedes. A bordo da galera brasileira, Tentativa Feliz, comboiada pelo brigue de guerra Douro, sairam fmalmente de Pernambuco em 23 de maio do mesmo anno 1849 coisa de 300 colonos de ambos os sexos, chegando todos ao logar do seu destino no dia 4 de agosto. Para governador daquelle ponto fora nomeado um official de marinha de muito bom nome, reputação e intelligencia, tal como o capitão de fragata, Antonio Sergio de Sousa, ao qual se deram umas instrucções, por mim feitas e elaboradas, as quaes, verdadeiramente fallando, nada mais são do que uma segunda memoria, complementar da primeira, sobre o modo de realisar a colonisação de Mossamedes. Alguns engenhos de assucar, comprados por conta do governo, acompanharam esta primeira expedição colonial, á qual se seguiu depois uma segunda, que de Pernambuco saiu no dia 13 de outubro de 1850 a bordo da barca Bracharense, igualmente comboiada pelo dito brigue Douro, chegando a Mossamedes no dia 26 de novembro. As despesas desta segunda expedição não as costeou o governo, mas sairam do producto de uma subscripção, tirada por entre os cidadãos portuguezes, residentes em Pernambuco.

Por infelicidade da colonia do Mossamedes muitos individuos acompanharam estas duas expedições, sendo inteiramente inuteis para uma empresa destas, d'onde resultou que, chegados ao seu destino, immediatamente abandonaram a colonia, infundindo assim um grande desalento pelas murmurações e queixas, que imprudentemente levantaram, algumas vezes com razão, outras sem ella. Além destas, outras contrariedades experimentou a colonisação de Mossamedes, sendo a de maior vulto a guerra, que por uma mal intendida rivalidade lhe levantaram os commerciantes de Loanda e de Benguella. A estes males se vieram depois reunir uma espantosa esterilidade, resultado da fnlta de chuvas e innundações do rio Bero, o mau sustento que o estado fornecia aos colonos, a mortalidade que por estas causas os perseguiu, a ignorancia dos tempos de semear, e finalmente a falta de sementes. A natural consequencia do tudo isto foi o desalento de quasi todos os colonos, e o imminente risco de se perderem todos os esforços e despesas, que para tão importante fim se tinham feito. Felizmente o tempo e a presistencia de alguns dos referidos colonos por tal modo venceu estas contrariedades, que hoje já nenhum receio me infunde a colonisação de Mossamedes, cujo progresso tem sido bastante sensivel nestes ultimos annos.  

A agricultura tem alli tido um successivo augmeuto, particularmente depois que a pratica tem feito conhecer, que as especulações commerciaes nem sempre são tão solidas e proficuas, quanto o amanho das terras. Quatro engenhos de assucar se acham presentemente montados no districto de Mossamedes, um na povoação deste nome, que o decreto de 26 de março e a carta regia de 7 de maio de 1855 elevaram á cathegoria de villa; outro no Bumbo, onde ha o melhor estabelecimento agricola da colonia, com relação á cultura da canna sacarina e da mandioca ; outro na Equimina, assentando-se o quarto no sitio da Boa Vista, em local onde ha bastante canna, com a outra vantagem de offerecer bons commodos aos lavradores. Além da cultura da canna, os colonos de Mossamedes tambem se tem entregado á cultura do algodão, cuja plantação não tem lido maior desenvolvimento em razão das más colheitas, que houveram ultimamente, não pagando o trabalho do agricultor. Os generos necessarios ao sustento dos colonos não só chega já para alli se manterem, mas até mesmo para exportação, em vista das remessas, que d'alli se tem feito para Loanda, e do que já se vende aos navios balieiros americanos, que em numero consideravel frequentam aquclle porto, para receberem refrescos de vegetaes e gado, do qual tambem ultimamente se tem feito alguma exportação para a ilha de Santa Helena. O facto é que em quanto em quasi toda a parte da provincia de Angola se fez consideravelmente sentir a falta de subsistencias nos annos de 1856, 1857, e 1858, no districto de Mossamedes não só houve para as necessidades dos seus moradores, mas até alguma coisa se exportou dos generos alimenticios. Com tudo isto ha coincidido o desenvolvimento do fabrico do azeite de peixe, pelas muitas feitorias de pesca, que lá se tem estabelecido, o accrescimo das construcções urbanas, e o incessante pedido de terrenos para mais casas.

Segundo a memoria, lançada nos annaes do municipio de Mossamedes, com relação ao anno de 1857, vê-se que a mortalidade fora nulla nos ultimos colonos, idos para aquelle ponto, quando n'outro tempo regulava na razão de 20 por cento. Nos mesmos annaes, com relação ao anno anterior de 1856, se lia já o seguinte, debaixo do ponto de vista de salubridade: «O clima de Mossamedes é hoje um paraiso, em comparação do que ainda era no « anno de 1850; é seguramente o melhor de toda a Africa, é superior ao de todo o Brasil, superior ao de muitos logares de «Portugal, e igual ao melhor e mais temperado deste ultimo paiz.» Todo o territorio da circumferencia da villa é agreste e montanhoso, como já disse, sendo apenas susceptivel de cultura nas margens de alguns rios. No Bumbo, distante a E N.E. tres dias de viagem de Mossamedes, já se encontra uma vegetação muito desenvolvida,, tendo arvores e matas não somenos ás do Brasil, com bellas madeiras, tanto em qualidade, como em dimensões. O paiz do Bumbo consiste n'um extensissimo valle, que a  E., ou nascente, tem a serra de Chella, assaz elevada, correndo do norte ao sul. A escabrosidade desta serra a torna de difficil subida, tendo para o conseguir de se passar pela beira de muitos precipicios. Galgada a serra, encontra-se o sobado da Umpata, cujo terreno é fertilissimo, e abundante de aguas, com bellissimas campinas, onde os respectivos pretos cultivam milho, massamballa, massango, batata ingleza, e outros legumes, havendo aqui e no Bumbo bastante gado vaccum, e ovelhum. A duas ou tres legoas de distancia da Umpata, e na direcção de E., está o sobado da Huilla, paiz que igualmente tem ferteis terrenos, sendo cortado por muitas ribeiras e rios, cujas margens tem bellas pastagens, onde os indigenas pastoream bastantes manadas de gado vaccum. Ao sul da Huilla fica o sobado do Jau, cujos terrenos, apesar de mais extensos, são todavia de vegetação menos luxurienta, que os da Umpata e Huilla. Outros sobados se seguem ainda, como Mucuma, Hay e Cambos, sendo este um dos maiores em população. A E. dos Cambos encontramse as povoações de Mulondo, Camba e Humbe, na margem d'aquem do Cunene, que por estas terras corre n'uma curva, para ir desaguar no Oceano, pela bahia dos Tigres. O mais extenso e povoado dos sertões, além do Cunene, é o Coanhama, onde poucos brancos tem ido em procura do marfim, que alli se diz abundante. A E SE.
do Coanhama fica a terra do Donga, d'onde em distancia de 4 a 5 dias de viagem para o S. se encontram as grandes minas de cobre, que abastecem todos os sertões limitrophes. Deste metal, que os indigenas fundem, formam elles um vergalhão de um quarto de pollegada de grossura, com cinco palmos de comprido, de que fazem bracelletes para as mulheres, e que enrolado nos braços, a começar do pulso, vae em espiral até ao cotovello.

Por esta rapida descripção do littoral e sertões do districto de Mossamedes poderá-o leitor ajuisar do importante serviço, que fiz ao paiz, em provocar, tanto como empregado, como escriptor publico, a colonisação de um ponto com que assegurei á coroa portugueza tão vastos e ferteis territorios. A este impulso, que provoquei, quanto em mina coube, se tem posteriormente seguido as proficuas medidas, que se tem ultimamente ordenado para aquelle ponto. Considerando a Huilla, em vista das informações, que d'alli lhe tem vindo, como o mais adequado ponto para nelle se fundar uma colonia agricola, para alli se mandaram, a bordo do brigue Sado, vinte e nove colonos allemães, que, por arribada do navio, que do Baltico os conduzia para a America, tinham entrado no Tejo. Chegados a Mossamedes, de lá partiram para a Huilla, cujo terreno lhes agradou summamente, vendo-o tão cortado de ribeiras, e riachos, um dos quaes passa pela frente, e outro pela retaguarda do local das suas respectivas habitações. Escolhida uma varzea fertil, e pouco distante da respectiva fortaleza, deu-se começo á povoação desta nova colonia, procedendo-se ao alinhamento e demarcação das ruas no dia 19 de julho de 1858. O nome de Vista Alegre foi o destinado para esta nova e esperançosa povoação. Pelas recentes noticias, que o governador de Mossamedes dirigiu ao ministerio da marinha e ultramar, datado da Huilla aos 15 de julho do mesmo anno 1858, soube-se que n'aquelle ponto se achava elle residindo para regular os negocios da colonia portugueza o allemã. Entre as obras, a cuja construcção procedéra para beneficio d'ella, figuravam : l.° um moinho de agua paia cereaes; 2.° uma olaria para fabricar tijolo e telha; 3.° uma fabrica de cortumes, propriedade particular; 4.° finalmente uma machina movida por agua para serrar madeira. O mesmo governador affirmava que as colheitas do trigo se podiam alli obter tres em cada anno, em março, maio, e dezembro, semeando-se em janeiro, março, e outubro, c que todos os productos da Europa alli se podiam aclimatar C). Quanto ao estado sanitario dos colonos não podia ser melhor, prova evidente da benignidade do clima. Do Rio de Janeiro tinham ido para Mossamedes, a bordo do patacho Paquete do Loanda, dezeseis passageiros, alguns d'elles abastados, nas vistas de se estabelecerem no interior do districto, dedicando-sc á agricultura. Pelos ditos passageiros constava que da mesma cidade do Rio de Janeiro outros mais individuos sabiriam em breve com aquellas mesmas vistas. Para maior segurança dos territorios de Mossamedes mandou-se estabelecer um pequeno forte i.m Porto Pinda, ao sul de Cabo Negro, e na sua proximidade. Por decreto de 15 de julho de 1857 se organisou a força militar da provincia de Angola, devendo ter em Mossamedes o seu respectivo quartel o batalhão de caçadores n.° 3, creado segundo o referido decreto. A primeira companhia deste batalhão sahiu directamente do Lisboa para Mossamedes no 1.° dia de outubro de 1858 a bordo da nau Vasco da Gama. indo na força de 104 homens, incluindo os seus respectivos officiaes, 50 mulheres, e 44 menores. Toda esta força foi destinada a constituir a colonia militar da Iluilla, em conformidade com as portarias, expedidas pelo ministerio do ultramar em 26 de dezembro de 1857. Levava esta colonia comsigo tres contos de réis em dinheiro para as primeiras despesas da sua sustentação, o seu competente armamento, 21 peças de artilheria, polvora em proporção, e mais petrechos ile guerra, importando os objectos militares em 7:262£287 réis, o os não militares em 1:7630337 réis. Já antes da sabida desta força outra tinha partido em 4 de maio de 1858 a bordo do brigue Forttmato com destino á guarnição de Mossamedes. Compunha-se esta ultima força de 80 praças ao todo, não fallando em 400 degradados, nas mulheres e filhos de muitos destes, que tambem foram para Angola na mesma nau Vasco da. Gama. Todas estas providencias devem constituir Mossamedes a segunda povoacao.
Sem embargo de todas estas vantagens, os colonos allemães, desavindose com o governador de Mossamedes, allegando falta de cumprimento nas promessas, que se lhes fizera, abandonaram a colonia, subindo dalli para a America em 1839, perdendo o governo as consideráveis despesas, que com elles tinha feito. Era má gente, ceimpropria para esta colonisação do Angola, e pude ser que dentro em poucos annos seja a primeira, segundo as lisongeiras noticias, que d'alli tem vindo depois da chegada de todos estes reforços. A estatistica d'aquelle ponto em 1857 era a seguinte: fogos na villa de Mossamedes, Aguada, Boavista, Cavalleiros c Macalla, 91. Predios na villa C8, sendo 34 de pedra, M de adobe, e 23 de pau a pique. As cubatas de palha eram 6. Em construcção estavam 4 predios de pedra, c 14 de adobe. Os predios da Aguada eram 16 de todo o genero, na Boavista 33, nos Casados 5, e nos Cavalleiros e Macalla 3. A população livre era de 275 individuos, sendo 132 brancos maiores e menores do sexo masculino, 81 ditos do sexo femenino, sendo o resto composto de pardos e pretos. Os libertos eram 99, o a população escrava montava a 837 individuos, vindo assim o total de todas as classes e sexos a elevar-se a 1:211 pessoas, só na villa de Mossamedes. Á vista pois do exposto concluo que se me não cabe a exclusiva gloria desta esperançosa colonisação em totalidade, cabe-me seguramente em grande parte, sendo eu o que mais que ninguem me empenhei em achar nos vastos dominios de Angola algum sertão, que pelo seu clima, e fertilidade se prestasse ao estabelecimento de colonias agricolas, que com o andar do tempo nos supprissem a falta, que nos fez a separação do Brasil, dando animação, e vida ao nosso frouxo e decadente commercio. Se preenchi ou não as vistas a que me propuz, o tempo é quem o ha de dizer, e sendo pela affirmativa, como julgo que será, tenho para mim que paguei bem à minha patria, não só as despesas, que fizera com a minha educação, mas até o ordenado com que me tem retribuido o meu trabalho como official ordinario da secretaria da marinha e ultramar. Talvez que depois de morto me venham então as honras posthumas, quando já para nada me servem, nem ao menos para me desvanecer com ellas...."

(i) Os que quizerem ver o interessante relatorio desta viagem, consultem os Ensaios Statisticos de Lopes Lima no volume 3.°, parte de Benguella, png. i i e seguintes, ou o n.° i- dos Annaes Maritimos o Coloniaes de 1845.


PAGINAS 569, LINHAS 3

"... Estando ja muito adiantada a impressão desta obra, chegaram a Lisboa em principios de maio de 1860 noticias bem desagradaveis da provincia de Angola. O governador geral desta provincia, José Joaquim Coelho do Amaral, querendo imprudentemente estender a sua auctoridade ao reino do Congo, buscou impor a este paiz um rei da sua escolha na pessoa do marquez de Catende, preto altamente odiado pelos povos, que devia governar. Para conseguir o seu intento, mandou o dito governador uma força ao Congo, onde foi batida e dispersa, ainda antes de chegar ao ponto do seu destino, morrendo no conflictuoo seu commandante, cuja cabeça os pretos espetaram n'um pau, passeando com ella em triumpho. Novos reforços sairam de Loanda para o Ambriz, chegando o proprio governador geral a ir pessoalmente ao Quicembo para desagravar-se das offensas recebidas do inimigo. Todavia nada fez, voltando d'alli com mais desaire do que foi, suppondo-se não ter visto bem a força dos pretos rebeldes. Desde então a sublevação dos mesmos pretos appareceu nas proprias povoações, situadas entre o Bembe e o Ambriz. Os sublevados, atacando Quibatla no dia 3 de março do dito anno 1860, obrigaram a força portugueza deste ponto a retirar-se sobre o Ambriz. Chegando á margem do rio Loge por toda a parte se viu alli atacada e perseguida pelo fogo inimigo, de que resultou lançarem-se os seus soldados confusa e precipitadamente ás aguas d'aquelle rio, julgando que lhes desse vau, no que se enganaram. Neste logar pereceram 106 individuos ao todo, uns afogados, outros devorados ainda vivos pelos jacarés, contando-se no numero das victimas 65 soldados, 8 sargentos, e a esposa do proprio commandante da força, que apenas contava 22 annos de idade. De todas estas desgraças deu-se como causa primaria o respectivo governador geral, não só pela imprudencia das suas aspirações sobre o Congo, como tambem pela presistencia e teima em nomear para o commando dos differentes presidios e districtos homens indignos de similhantes commissões. O facto é que a gerencia do governador geral Amaral tem sido uma das mais calamitosas, que alli se tem experimentado, sendo este talvez o castigo das offensas, que fez á moral publica, nos intertuctorios do seu ultimo enlace matrimonial, circumstancias que lhe fizeram perder inteiramente o respeito dos seus subordinados. Eis-aqui o fructo colhido dessa alta capacidade, que os seus antigos amigos lhe suppunham. Quanto nos não enganam os juizos, feitos sem provas cabaes sobre que assentem '
Em quanto isto se passava nos nossos dominios do norte de Angola, outros factos succediam de não menor gravidade nos seus sertões do sul. É sabido que no Hamho e no Nauo, sertões visinhos a Caconda, se costumam os pretos, seus moradores, levantar de annos em annos, para irem contra os pretos do sol, onde roubam gados, devastam searas, ecommettem todas as mais atrocidades d'uma guerra destruidora. Tal foi o que nos referidos sertões aconteceu no citado mez de marco de 1860, de que resultou ser batida pelos ditos pretos a força portugueza, que contra elles sahiu do forte da Huilla, morrendo o seu commandante, e mais sete individuos da sobredita força. Além deste funesto caso, outro teve igualmente logar nas immediações de Mossamedes. Os sublevados vieram da Huilla a Humpata, d'aqui ao Bumbo, e por fim ás visinhunças de Mossamedes, roubando e devastando nos sitios dos Cavaleiros, e Casados os estabelecimentos agricolas e engenhos, que alli havia, ficando inteiramente arruinado o colono Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, homem que tão pertinaz foi na colonisação de Mossamedes, já por ser elle quem capitaneou a primeira porção de colonos, que para alli foram de Pernambuco, e já pelos esforços que empregou em realisar a sobredita colonisação. Vendo arruinado o seu estabelecimento agricola, veio de Angola para Lishoa, sendo por tanto de esperar que a sua falta occasione serios embaraços aos progressos da colonia.
Em consequencia de todas estas noticias o governo da metropole pediu ás cortes duzentos contos de réis, com que fez sair de Lisboa para Loanda um novo governador geral com uma força de seiscentos a setecentos homens, dividida em dois batalhões, destinada a submetter os pretos em sublevação. Alem disso o mesmo governo estabeleceu tambem uma mesada regular para acudir ao deficit d'aquella provincia, auctorisando o novo governador geral a sacar sobre o thesouro publico até uma certa somma. O commercio de Loanda é digno de todos estes sacrifícios, porque montando elte em 1849 apenas a uns cincoenta contos de réis de valores, subiu no anno de 1S58 á elevada somma de 2.215:730^870 rs., entre importações e exportações, só com relação, a Portugal. li portanto forçoso cuidar-se em assegurar aquella importante provincia, e essa segurança jamais poderá ter o caracter de permanencia em quanto nos seus sertões se nfio estabelecer um systema de fortificação com que todos elles se dominem. As de primeira ordem, consideradas como praças fortes, não podem ser menos de tres, uma no norte, fundada no Bembe, ou S. José d'Encoge, outra na Quissama, e outra em Caconda. Cada uma destas praças deve ser guarnecida por um corpo, prompto sempre a acudir a qualquer ponto, onde os pretos comecem a formar Sanzalas, ou arraiaes de sublevação. Entre estas praças e o littoral se levantarão os fortes necessarias para igualmente conservarem na devida obediencia os pretos dos seus respectivos districtos. Lembre-se o governo que se as rivalidades se dão sempre entre as colonias e a metropole, havendo homogeneidade de cor, com muita mais raztio deve esperar essas rivalidades em Angola, onde a diversidade da cor ha de tornar muito mais energicos os ciumes entre brancos e pretos, e tanto mais, quanto roais se forem policiando os pretos d'aquella provincia. Mais vale que isto se previna a tempo, do que acudir ao mal, quando difficil for o seu remédio...."  

 By Simão José da Luz Soriano 1860


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