Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 24 de março de 2010

OS PRIMEIROS PRODUCTORES DO DISTRITO DE MOSSÃMEDES NA EXPOSIÇÃO DO PORTO EM 1865

Front Cover
João Duarte de Almeida 
João Duarte d'Almeida
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro  
Bernardino Freiré de Figueiredo Abreu e Castro
Joaquim Paiva Ferreira

Joaquim Paiva Ferreira

[1ªcolonia+Bumbo.png]
José Leite de Albuquerque


A cultura do algodão  iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumiiu no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Moss
ãmedes chegou a ser, de todos os portos da província, aquele por onde se fazia mais larga exportação daquela preciosa malvácea. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no distrito, que iria medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca, merecera, de igual modo, a atenção e os vigilantes cuidados aos antigos colonos.
Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.»

PRODUCTOS DO DISTRITO DE MOSSAMEDES
DA RELAÇÂO DOS PRODUCTOS DA PROVINCIA DE ANGOLA ENVIADOS PARA A EXPOSIÇAO DO PORTO

PRIMEIRA DIVISÄO.
307. Bernardino Freir de Figueiredo Abreu
e Castro, Mossamedes. Gesso em pedra.
369. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossamedes. Gesso em camadas.
376. O mesmo: - Cobre
377. O mesmo :-Bumbo -braceletede Cobre
395. Nogueira Souza e Comp., Mossamedes - Cafe
401. Affonso Lage - Mossamedes - feijao Quiburi
406. Conselho Ultramarino, Mossamedes  -Massambala branca
A Comnissao da Provincia (Mossamedes - Massango
407- Massambala branca
408 - Massambala rubra
409-Conselho Ultramarino, Mossamedes -Massango
410- A Comissao da Provincia Mossamedes - Massango
414- Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (Mossamedes) -Fruto  de Umpeque
415- A Comnissao da Provincia (Mossamedes) -Mendhoin

CLASSE 4.a 
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (Mossamedes)
488. Assucar mascavado.
489. Assucar branco
CLASSE 6."
520. Conselho ultramarino, Mossamedes. Urzela de arvore.
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (.Mossamcdcs)
525. Urzella do arvore.
536. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossainedcs. — Sal amargo
550. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossamedes.Óleo de uuaueque
557. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro. Mossamedes. Aguardente de cana.
558. José Joaquim Costa, Mossamedes Aguardente de cana.
559. José Leite de Albuquerque, Mossamedes.— Aguardente de cana.
560. Augusto Guedes Cuchicho Garrido, Mossamedes.Aguardente de cana.
Joaquim de Paiva Ferreira (Mossamedes)
561. Aguardente de 24 graus
668. Álcool de 36 grau
TERCEIRA DIVISÃO.
CLASSE 21.a
João Duarte d'Almeida (Mossamedes)
565. Capulhos de algodão arbóreo.
666. Capulhos de algodão rasteiro.
567. Conselho ultramarino, Mossamedes. Algodão com caroço.
570. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossamedes.— Algodão com caroço.
578. Affonso Lage, Mossamedes. Algodão com caroço.
575. O mesmo, Mossamedes.— Algodão amarello com caroço.
579. Affonso Lage, Mossamedes.—Algodão amarello com caroço.
Luiz .José de Oliveira (Hossamedes)
580. Fio de algodão.
581. Grosseria d'algodão.
583. Sarja de algodão.
583. Panno tecido com algodão amarello.
584. Cotim de algodão.
585. Cobertor de algodão.
587. Manoel dos Santos Ferrão, Huilla. — Pelle de bezerro.
588. Conselho ultramarino, Huilla.Solla.

Inclui Fotos de 4 proprietarios concorrentes a esta exposição, incluidos na lista. Tenha-se em conta que esta exposição realizou-se em 1865, ou seja, 16 anos apos a chegada dos primeiros colonos que idos de Pernambuco fundaram em 1849 a povoação de Mossamedes

Sobre José Leite de Albuquerque, ver referencias elogiosas por  Francisco Travassos Valdez Jornal do Commércio publicado periodico "O PORTUGUES" 1862 , artigo intitulado Ultramar "O Triunpho" , em como chegado de Pernambuco, Brasil a Mossamedes em 1849, após 13 anos de trabalho arrendara a sua Fazenda no Bumbo (cana de açucar e aguardente) e passou a viver na Metrópole de rendimentos. Ver mais ou menos a meio da página:AQUI

Sobre João Duarte de Almeida
A viver no Brasil desde 1838, em 1849,  por força da onda de antilusitanismo que grassava em Pernambuco, viajou para Angola na barca Tentativa Feliz, integrado na 1. colónia de emigrantes chefiada por Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, que vinha dar inicio a povoamento de Mossãmedes.

Em1859 era proprietário de três fazendas em via de desenvolvimento, uma, situada na Várzea dos Casados, outra em S. Nicolau, e a terceira no Coroca.  Foi o maior cultivador de algodão do distrito de Mossãmedes, e cultivou tambem a cana de açúcar para aguardente. No decénio de 1849-1859  também se dedicou  a outros ramos de actividade, como o da indústria de charqueação e o da colheita da urzela. Em 1890 possuía o maior empreendimento agrícola da Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400 serviçais a trabalharem para si. Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola. Concorreu a várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), sendo-lhe conferidas medalhas de ouro pela boa apresentação dos seus produtos.
Lutou ao lado de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro pela abolição  da escravatura em Angola (do Livro intitulado "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro" by Vicente, Jose (Gil Duarte), pg 1959, e sobre a repressão do tráfico de escravos, correspondia-se com o Ministro Sá da Bandeira que, em carta que lhe dirigira, o considerava o braço direito da abolição da escravatura. Era agraciado com as comendas das ordens de Cristo e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Exerceu em Mossãmedes os cargos de juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal.

Testemunhou, com o doutor Lapa e Faro, o acto solene do reconhecimento, manifestado pelos antigos colonos, na Escritura de Promessa e Voto, de 4 de Agosto de 1859.

Casou com D. Amélia Josefina da Costa (foto acima), filha de Jose Joaquim da Costa, chefe da 2 colonia ida de Pernambuco para mossamedes, em 1850, seu companheiro de colonização, e tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida. Alfredo. Faleceu a 9 de Julho de 1898. Repousa, sob artístico mausoléu «aristocrático» que ainda hoje e pode ver no Cemitério de Mossãmedes, como tantos outros portuguêses que se transferiram na primeira metade do século XIX de Pernambuco para Mossãmedes, em túmulos de estilo luso-Católico.
Nota: No principio da decada de 1860 Mossamedes possuia 11 fazendas onde se cultivava algodao,  empregando 350 escravos e libertos, sendo o total de 350, a maior parte das quais pertenca de Duarte de Almeida. Da producao anual nessa epoca calculava-se em 1780 arrobas de algodao.
 .

Fontes:
in «Moçâmedes», 1º volume de Manuel Júlio de Mendonça Torres
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É já admiravel este desenvolvimento da cultura da preciosa planta textil em Mossãmedes, mas não é tudo: no primeiro semestre do anno de 1866, a exportação subiu a 105:239 kilogrammas, na importancia de 67:5385918 réis, isto é, foi superior em 5:5435518 réis ã exportação de todo o anno de 1865.

E não só melhorou em quantidade, como vemos, mas tambem em qualidade; pois, segundo informações hem fundadas, o algodão em Mossamedes já é mui considerado nas fabricas de Portugal pela sua excellente qualidade, e goza egualmente de hom credito em Inglaterra, pelo que tem mais valor no mercado que o de outras procedencias. A importância da nossa producção colonial, sobre tudo em Inglaterra, onde as industrias sahem o que lhes convem e sõ apreciam o que é hom e util, lisonjeia-nos, na verdade, e póde servir de estimulo e incitamento para os futuros povoadores da Africa Occidental, tão desprezada, tão esquecida, e, principalmente, tão desconhecida c tão mal apreciada.
Em 1865, a importação pela alfandega de Mossamedes foi de 86:0675606 réis.
A exportação foi de 148:8315485 réis   CONT...



"... Grupo de gente boa e menos boa e até má, que, com todas as suas contradições, iniciou a construção de uma cidade de que toda a gente que nela viveu ou vive se orgulha.

"...No futuro, o neo-colonialismo obedecerá a esquemas de Estados, subordinados a programas das multinacionais. A colonização portuguesa foi feita ao sabor do espírito aventureiro de um povo que se sentia mal-tratado na sua própria terra. O Estado só apareceu para estragar."

    In "Os colonos"

de Antonio Trabulo

***



Cântico

Bendito seja quem te visionou
Aquém do grande mar,
E, escorraçando medos te encontrou
E sorriu ao teu virgem despertar!

Bendito seja quem te abriu o seio
E nele fecundou o gosto pela vida!
E misturou o trigo e o centeio
Com o maná da terra prometida!

E quem te deu a vida incondicionalmente,
Só pelo gosto puro de ser teu;
E quem por ti lutou e o sangue quente
Por ti feliz verteu!
E mais sincerasmente:
BENDITO SEJA QUEM POR TI MORREU!


Bendito seja quem te pôs a água
No seio do deserto a arder em mágoa!
Bendito quem te deu cravos e rosas
E carnes sãs e frutas saborosas!


Bendito quem te deu as velas brancas,
Os risos claros e as almas francas!
 

Bendito seja quem te abriu as ruas
E que te fez linda como virgens nuas!
Benditos sejam todos os que lutam,
Os que aqui vivem, sofrem e labutam,
Pioneiros do Sonho e da Verdade!
Benditos sejam todos! Que o meu grito
Repercuta sonoro no infinito
E faça eco em Deus na eternidade!

(Angelino da Silva Jardim, poeta moçamedense)

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