Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 29 de maio de 2010

As grandes «calemas» que em Março de 1955 assolaram a costa de Moçâmedes e destruiram pescarias...









Pescarias entre o Canjeque e a Praia Amélia ( Canjeque sul), no momento em que estavam a ser fustigadas pelas grandes "calemas" que assolaram a costa de Moçâmedes em  Março de 1955


 


Perspectiva feliz da baía de Moçâmedes tal como eram antes do desmantelamento das antigas pescarias e início da construção do cais comercial e avenida marginal. Havia também na Praia Amélia,as pescarias do Venâncio Guimarães e  de João Duarte, no Cangeque a da Sociedade da Ponta Negra Lda. de Virgilio Almeida, António Bernardino e A. Matos e no Saco a de Torres & Irmão e ....   Lda.




As grandes calemas de 1955 em Moçâmedes (Namibe)


A zona entre o Canjeque e a Praia Amélia era e ainda é a zona mais  fustigada e mais desabrigada das «calemas» que  de longe em longe assolavam a costa de Moçâmedes.  Em Março de 1955 as «calemas» foram avassaladoras, e, durante dois longos dias destruiram pontes, arrancaram telheiros, partiram tanques de salga de pescarias recentemente inauguradas por seus proprietários que haviam sido, sem quaisquer indemnizações, deslocalizadas da Torre do Tombo, quando do início do projecto da construção do cais comercial e da avenida marginal. Fácil será avaliar o montante dos prejuízos  causados, sem quaisquer ajudas estatais em época de calamidades.






Porque foram então estas pescarias construídas neste local? Não haveria outra solução a encontrar?



Tudo começou com o desmantelamento das primitivas pescarias situadas na Torre do Tombo, como já referido, por força da construção do cais acostável e da avenida marginal, na década de 50. Quanto à ajuda do Estado, por iniciativa do Ministro do Ultramar e do Governador Geral, em colaboração com o Grémio da Pesca e do Banco de Angola, segundo opinião de muitos dos directos interessados, a solução encontrada, voltada para vôos mais altos, «não tinha pernas para andar»,  pois não resultou no financiamento imediato a essa dúzia e meia de pequenos industriais, mas na formação,  bastante tempo depois, da  «União dos Industriais de Pesca da Torre do Tombo», com a instalação no Saco do Giraúl de uma fábrica de farinhas e óleos de peixe».  Para além de irrealista, por não ter em conta as reais necessidades dos pequenos industrias-pescadores, chegou fora do tempo, porque a maioria, gente modesta, e com falta de meios para poderem fazer face a tais contrariedades, acabaram por perder  as instalações onde laboravam e ficar  na miséria, vindo a ser outros que nada tinham a ver com a situação gerada, mas como poder económico, a beneficiar de referito projecto. Apenas uns poucos deixaram os seus barcos ao largo, na baía, e passaram a dedicar-se à pesca de espécies destinadas à venda em fresco nas peixarias da cidade de Moçâmedes, sem que o Estado tivesse procedido a qualquer indemnização, alegando estarem as mesmas abrangidas pela faixa marítima.  Os poucos que possuiam algumas economias, com pessoal a pagar e compromissos a vencer, avançaram para a construção de novas pescarias nesta zona entre o Canjeque e a Praia Amélia à época a única disponível, porém a mais desabrigada, pois não havia muito a escolher. A alternativa  era a deslocalização das pescarias para outras praias do distrito,  a centenas de quilómetros das moradias desses mesmos proprietários que na sua maioria eram proprietários-pescadores.  O resultado foi que as pescarias que tinham sido construidas na zona referida foram alguns anos depois  tragadas pelas ondas do mar enfurecido e ficado no estado que aqui nos é dado a ver. 


Outros houve que se juntaram em sociedade, compraram as instalações da antiga «Sociedade da Ponta Negra» que havia entrado em regime de falência, com dívidas de impostos ao Estado. Estes foram os únicos que tiveram algum sucesso, porque se tratava de uma zona do Canjeque mais abrigada, porém já estava lotada. 

Nas reuniões que se seguiram em prol da dita «União dos Industriais de Pesca da Torre do Tombo», problemas de vária ordem foram colocados pelos «novos associados» de tão importante empreendimento e se resumiam mais ou menos no seguinte:

1. Entendia
essa dúzia e meia de pequenos industriais deslocalizados das suas pescarias na Torre do Tombo,  que  instalação no Saco do Giraúl de uma fábrica de farinhas e óleos de peixe para onde deveriam remeter o pescado, ficava fora de mão, e que o produto da pesca não daria para  suprir as despesas com deslocações , sendo grande a perda de tempo nas mesmas.
 

2. Entendiam que a dita fábrica, apenas com uma traineira, não seria rentável e que chegados ali os barcos para descarregarem o pescado teriam que ficar à espera uns dos outros enquanto o peixe se deteriorava.

3. Queixavam-se os pequenos industrias que era ilusória a situação que se apregoava de virem a ser  sócios participantes de uma excelente unidade de indústria munida de fábrica de farinhas e óleos de peixe nestas condições.
Vivia-se uma época em que os créditos bancários não eram prática corrente. Existia uma flagrante falta de capitais, e não havia onde os obter.  Só havia um único banco, o Banco de Angola, o emissor da colónia, mas com sede em Lisboa, e este não proporcionava crédito a longo prazo, o único que fomenta riqueza firme, e não pagava juros nem às pequenas poupanças.  Angola apresentava na época uma deflação (vazio monetário) crónica. As pessoas para contornarem o flagrante vazio de moeda. e conseguiam solver os seus compromissos, recorriam a letras e sucessivas reformas. Ter-se uma letra protestada (que não foi paga dentro do prazo) era uma enorme vergonha! Mesmo na indústria de Pesca que era a base da economia citadina era comum o uso do vale onde o devedor punha a assinatura e a data  para  que o fornecedor/credor permitisse levantar a mercadoria e pagá-la mais tarde.

Não me lembro de ter conhecido em Angola um milionário que vivesse permanentemente na colónia. não havia poupança, não havia investimentos, não havia macro desenvolvimento económico. Era o  recurso ao "agiotismo" praticado por alguns moçamedenses que lá ia suprindo as necessidades de alguns e engordando um pouquinho a carteira de outros, num negócio de trazer por casa. Angola não dispunha de um mercado moderno, a industria sobrevivia, mas na base de salários baixíssimos, quase um mercantilismo do século XIX, e no caso das pessoas não disporem de poupanças não só tinham uma vida complicada como podiam esperar uma velhice de miséria, ou a dependência em relação aos filhos.

A concentração de todas as decisões em Lisboa foi total durante o tempo colonial  e tornou-se uma obsessão. Angola nunca teve uma simples autonomia e ai do governador que ousasse ir um pouco mais longe auscultando os asseios das populações e agindo em conformidade. Em Lisboa sempre imperou uma mentalidade de poder absoluto em relação às colónias. Os povos coloniais eram encarados como crianças que precisavam de ser tuteladas e não eram ouvidos nem achados para nada. Por outro lado, o conhecimento científico da colónia deixava muito a desejar. Todos os estudos eram efectuados em Lisboa, daí os falhanços em algumas iniciativas mesmo que efectuadas com a melhor das intenções.

 

Ainda a  respeito deste assunto, passarei a transcrever algumas informações recolhidas do Boletim Geral do Ultramar nº 383, de 1957,  pg 202, sobre a inauguração da dita fábrica d
e farinhas e óleos de peixe.


«No Saco do Giraul, com a presença do Governador Vasco Nunes da Ponte realizou-se a cerimonia de lançamento da primeira pedra do edifício que a União dos Industriais de Pesca da Torre do Tombo ali vai construir para a instalação de uma moderna fábrica de farinhas e óleos de peixe.



Depois das cerimónias da benção, lançada pelo Reverendo Pe. Rebelo, e do lançamento da primeira pedra   pelo Sr. Dr. Nunes da Ponte, usou da palavra o Sr. João Martins Pereira Junior, seguindo-lhe o Sr. governador do distrito que proferiu  seguinte alocução: 

"As cerimonias de colocação da primeira pedra  de uma obra são por vezes ingratas porque as segundas e demais pedras levam meses ou anos a seguir-se àquela primeira. E até acontece nunca mais chegarem . Se as pedras falassem, creio que por esse mundo fora se ouviriam os gritos de muitas primeiras pedras solitárias, a reclamar as companheiras.

Podemos estar certos contudo, que tal não acontecerá com esta primeira pedra.  Está assegurado o financiamento da obra que hoje se inicia. E brevemente será decidido o consurso para aquisição das máquinas ao fabrico da farinha e óleos de peixe.


A fábrica que neste terreno irá ser construída não representa apenas outra instalação de pesca no distrito. Tem um especial significado. Será mais uma demonstração do que pode a união de esforços. O Ministério do Ultramar, o Governo Geral , o Banco de Angola, o Grémio da Pesca e cerca de meia dúzia de industriais de Pesca, quase todos modestos, conjugaram as suas vontades e as suas possibilidades para resolver os problemas desses industriais cujas instalações na Torre do Tombo tiveram que ser demolidas em consequência das obras do Porto. E dai vai nascer uma importante empresa. Alguns pequenos industriais tornar-se-ão, assim, participantes, sócios de uma excelente unidade da sua indústria. Creio que, noutras condições, isso constituiria, para a maior parte deles não só uma impossibilidade absoluta como uma oportunidade com que nem se ousaria sonhar. Espera-se que esta empresa tenha um bom futuro traduzida em lucros apreciáveis. Se assim for, a própria sociedade poderá e deverá adquirir embarcações modernas, essas embarcações serão de todos e os rendimentos da sua actividade serão repartidos igualmente por todos.


Esta fábrica assume ainda relevo por apontar o caminho do futuro , o caminho que a industria de pesca de Moçâmedes terá de seguir o mais rapidamente que for possível: a mecanização completa da produção dos derivados de pesca.  


São conhecidas as dificuldades que são levantadas à exportação de farinhas de Angola, pelo facto de parte do produto não ser fabricado  segundo os processos mais eficientes.


Ora, a industria da pesca para a qual Moçâmedes contribui com metade , ou pouco menos do valor total, é actualmente como actividade económica que interessa a grande numero de pessoas e firmas  a segunda de Angola. Os valores da sua exportação revelam um progresso constante, e entram na casa ds centenas de milhares de contos. Apresenta portanto a pesca um profundo interesse geral. 


O Grémio da Pesca em representação dos industriais do Distrito está conduzindo negociações para assegurar a esterilização das farinha de peixe. A esterilização será um solução imediata, que razões de urgencia exigem, mas não deve fazer esquecer a ínica solução plenamente satisfatória, que consiste, repito, na integral mecanização do fabrico.Só assim a industria de pesca angolana poderá competir com outros paises nos mercados comsumidores, onde a concorrência é cad vez maior. 


Sei que a direcção do Grémio da Pesca e, creio , a maior parte dos industriais, estão conscientes desta verdade e dispostos a conjugar as suas energias e as suas possibilidades com o esforço, que o Estado projecta realizar para o reapetrechamento da industria. 


Não me pareceu porem, receosa  referência ao assunto , porque mesmo a verdade, para ter a aceitação geral, tem que ser repetida muitas vezes.


Mas voltemos à presente cerimónia. A ela preside a esperança e a confiança no futuro. Dentro de alguns meses, quem passar aqui verá, no lugar deste areal, uma fábrica excelente. E dentro de poucos anos, quem aqui passar, na povoação do Saco, visitará certamente fábricas novas, depósitos de carburantes, instalações portuárias e hortas verdejantes. Na verdade, meus senhores, o desenvolvimento do Saco está ligado ao desenvolvimento de Moçâmedes. E creio que o futuro não será ávaro com Moçâmedes.» (De o «Comércio de Angola»)


Mas será que não havia uma solução viável para todos?




Na escolha do local para a construção do cais-acostável, o Estado acautelou, dando a preferência à zona das primitivas pescarias, por ser a mais protegida das «calemas», não obstante a menos espaçosa e arejada que a do Saco do Giraúl.
Em nome do progresso, os pobres industriais que haviam sido expoliados das suas pescarias, na Torre do Tombo, e tiveram que se afastar, e construir, sem qualquer ajuda, novas pescarias neste local, viram inatalar-se, em seguida no local a ARAN, de capitais metropolitanos. E a seguir chegaram os arrastões a devastar os mares de Moçâmedes com uma outra forma de captura de peixe em grande escala como testemunha o site Mar de Viena .  Moçâmedes tornou-se o porto base onde se passou a fazer os abastecimentos e descargas do pescado para os frigoríficos da ARAN (Associação dos Armadores de Pesca de Angola, SARL), cujo homem forte, ou seja, o maior proprietário, constava-se, era o Almirante Henrique Tenreiro, que fazia parte do triunvirato Salazar/Cardeal Cerejeira/Almirante Tenreiro.

Fica aqui mais esta recordação de um tempo em que a vida não era fácil em Moçâmedes e que nada tinha a ver com o que por aí se apregoava e ainda se apregoa sobre a vida dos brancos naquela «África das mil oportunidades», obviamente, pela boca de quem alí não viveu, não assistiu, nem sabe aquilo que diz... Isto não é lavar as injustiças e discriminações que recairam sobre a outra parte da população, a de origem africana, bloqueada durante séculos na sua evolução civilizacional por culpa dessa mesma política emanada da Metrópole. 



 

Traineira «Luminosa» da «Sociedade Industrial da Ponta Negra, Lda.», a 1ª grande pescaria que surgiu na zona do Canjeque, cujos proprietários eram António Bernardino, Virgilio Nunes Almeida e ? Matos. Mais tarde entrou em crise e foi vendida à PROJEQUE, sociedade formada por um grupo de deslocalizados das primitivas pescarias situadas na baía de Moçâmedes que aqui podemos ver na 8ª e última foto.






Clicar para ver as primitivas pescarias, na Torre do Tombo.

Fotos inéditas, gentilmente cedidas por A.S.Almeida.


(1) CALEMA - Fenómeno natural da costa ocidental africana, caracterizado por grandes vagas de mar. A ondulação forma-se no alto-mar e a ressaca origina correntes muito fortes que, dirigindo-se para a costa, rebentam estrondosamente, provocando graves estragos.


Nota: A sul da Ponta do Noronha, corre a Praia Amélia e o respectivo e perigoso baixio onde naufragou a escuna de guerra que lhe deu o nome. Sobre o baixo Amélia onde com bom tempo se vêem numerosas barcos em plena faina pesca, na época de calemas erguem-se alterosas vagas de rebentação com capelo assustador.

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