Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 30 de junho de 2010

O velho moinho de Mossãmedes



                                    






 O moinho de vento de Mossãmedes
 
Era neste moinho de vento, o único moinho da cidade de Mosaâmedes, do qual ainda hoje restam escombros,  com as velas a servirem de força motriz para movimentar as mós, que o milho colhido nas fazendas agrícolas dos arredoredes, era reduzido a farinha.  Foi mandado construir por João da Costa Mangericão, nascido em 1817, seu primeiro proprietário, componente da 2ª colónia, vinda de Pernambuco, em 1850. À  época ficava uma região praticamente desértica, Mossâmedes, onde haviam acabado de erguer um forte, simbolo da ocupação militar do distrito,  que daria lugar à Fortaleza de S. Fernando.

O milho em bruto ou já transformado em farinha e ensacado, era transportado das fazendas para o moinho e do moinho para o mercado de consumo, no dorso de camelos que tinham conseguido adquirir com muito custo nas Ilhas Canárias, ou era transportado por carregadores autóctones quando se tratava de pequenas quantidades e de curtas distâncias. Referimo-nos a um tempo anterior à chegada dos boers às terras altas de Mossãmedes (Huíla), com as suas carroças puxadas por manadas de bois,  que vieram revolucionar o sistema de transportes.   Era também sobre o dorso de camelos, para além do transporte em barcos, que nesse tempo se faziam o transporte de viveres e de água potável para o Pinda, Porto Alexandre e outras zonas isoladas onde existiam pescarias, como o Chapéu Armado, Mucuio, Mariquita, Baía das Pipas, Bentiaba (S.Nicolau), Karunjamba, Lucira e zonas vizinhas. Este moinho era uma construção que constava das cartas de navegação como indicativo para a entrada de navios na baía de Mossâmedes, pous era visto ao longe.

Com o tempo a cidade foi crescendo, e o moinho acabou por ficar  rodeado do conjunto de habitações, ainda que num largo descampado fronteiro às moradias do legado Pereira da Cruz, tenso por perto tambem  o bairro  erguido já na década de 1950, conhecido por «Sanzala dos Brancos».

Há referências  de que João da Costa Mangericão viajou para Mossâmedes acompanhado de sua família e de seu genro e sócio, Manuel Joaquim Torres (casado com sua filha Maria José Mangericão), e foi quem mandou a construir este moinho e o pôs a trabalhar em 1851, mas devido aos insucessos agrícolas dos primeiros tempos, o moinho só teve regular funcionamento a partir de 1853, ano em que a agricultura distrital começou a desenvolver-se.  João da Costa Mangericão e Manuel Joaquim Torres eram já sócios e construtores civis no Brasil e continuaram a sê-lo em Mossãmedes. Só muito mais tarde, por força, talvez, dos altos e baixos que tanto marcaram o início da história de Mossãmedes, é que a propriedade do Moinho passou a pertencer apenas do seu genro e sócio. Manuel da Costa Mangericão - Mangericão - grafia da época, visto que hoje se escreve com j) , porque usava na lapela uma flor dessa planta.  No que se reporta ao delineamento da planta topográfica de Moçâmedes, refere-se a existência Travessa do Mangericão ede uma rua. também como o toponímico Mangericão.

Colocarei aqui a referência seguinte que poderá vir a ser útil em termos de pesquisa Net, que Manuel Joaquim Torres faleceu em Mossãmedes e seus restos mortais repousam em mausoléu no Cemitério da cidade, hoje Namibe (Angola) constando o seguinte:

Aqui jaz  Manoel Joaquim Torres, natural da ilha de S.  Miguel, filho de  José  Joaquim Torres e de Ignácia Leonor Torres. Nascido em 9 de abril de 1813 e falecido a 27 de Agosto de 1882. Cidadão digno e soldado valente, derramou o seu sangue pugnando pelas liberdades pátrias, nas lutas fratricidas de 1832.  Depreende-se pois, que Manoel Joaquim Torres, (n.1813-f.1882) teria aos 19 anos de idade enfileirado nessas lutas fraticídas, entre liberais e absolutistas, que se seguiram ao golpe de estado de 1828, em que as forças fieis a D. Miguel sobem ao poder.

Em locais onde moinhos eram inexistentes, o milho era metido numa espécie de tigela enorme, feita manualmente a partir de um tronco de madeira dura, e batido com um pau (pilão) com cerca de 60/100 cm de altura, e uma das extremidades arredondada, até ser transformado em farinha. Esta prática ainda hoje é muito usada em toda a Angola entre os povos afastados das cidades e dos locais onde se pode comprar a farinha de milho (fuba).

MNJardim

Alguma bibliografia consultada:
Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, «O Distrito de Moçâmedes - nas fases de origem e da Primeira organização 1485-1859, a pgs 344 e 345.)

Ass. Fernando in Geneallnet: Na relação de colonos consta um "João da Costa Mangericão, casado com Bernarda de Jesus e seus filhos Ana Teresa e José" (sic). Será que este João e o José Joaquim eram irmãos?...  »

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