Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 14 de agosto de 2010

Emigração - escravatura branca em Mossãmedes nos primórdios da colonização: 1851




Na Revista universal Lisbonense , encontramos os seguintes textos, que se revestem de interesse histórico, para a compreensão de certos factos ainda ignorados,  respeitantes ao processo de abolição do tráfico negreiro de escravos para o Brasil e Américas, e que em muitos aspectos assumiu contornos de escravatura branca, de Portugal para a antiga colónia do Brasil,   e do Brasil para Angola, bem assim como sobre os  primórdios da colonização de Moçâmedes (Namibe), e os anos que vieram a seguir:
....

Paço das Necessidades, em 2 de Julho de 185l.José Ferreira Pettana.


EMIGRAÇÃO

ESCRAVATURA BRANCA MOSSAMEDES.
Chamamos hoje a mais seria attenção do Governo e da imprensa sobre a importante carta, que ao diante publicámos do nosso illustre e mui patriótico correspondente de Pernambuco o Sr. António Bernardo Coutinho. O perfeito conhecimento dos factos aqui referidos, manifestado em toda a carta, e o credito que nos merece quem a escreve,  são motivos que nos dispensam de acrescentar quaesquer considerações a eloquência e verdade dos factos, que a carta perfeitatamente prova.

14 de Agosto de 1851.
S. J. RIBEIRO DE SÁ. (Carta.) 


Sr. Redactor. — Pelo vapor Paraense entrado hontem dos portos do Sul, recebemos jornaes do Rio, e nos do Commercio do dia 3 do corrente, vejo que entrara naquelle porto, vindo do Faial, a escuna Milheiro 1.°, portugueza , capitão Manoel da Rosa Martins, com 35 dias de viagem , 3 passageiros, e 118 colonos!!! Para os quaes em os seguintes jornaes, se lê o seguinte annuncio. «A bordo da Escuna portugueza Milheiro 1, fundeada defronte da Prainha, ha colonos de ambos os sexos e idades para se engajarem, mirados hontem do Fail; trata-se com o capitão a bordo, ou na rua d'Alfandega n." 39 , sobrado.  Que bella maneira de trazer passageiros?! 121 passageiros em a escuna Milheiro 1.!!! e ainda traz 16 pessoas de tripulação!!!

Oh Sr. redactor não haverá meio de acabar com este infame trafico de escravos brancos? Veja o Sr. Ministro da Marinha o caso que as autoridades fazem das ordens que se expedem pela repartição!

Veja o Sr. Ministro do Reino, se este navio podia sahir sem o Governador Civil dar os passaportes!

Veja o Sr. Ministro dos Estrangeiros, se os Cônsules, ou o Ministro portuguez no Rio, lhe deram parte deste , e de outros carregamentos, como eu lhe avisei,

Sr. redactor! O governo que já pagou a despesa da primeira expedição desta província para Mossamedes, que sabe que por subscripção foi a segunda , e sabe que da Bahia, foi outra que é terceira; a qual alli chegou em o dia 27 de Fevereiro , como logo eu mostrarei , com a copia de uma carta que d'alli vi; e deve saber que do Maranhão deve sahir outra ; porque não olhará para as medidas que lhe cumpre tomar em tal conjunctura?

Não lerá alguma noticia favorável daquella colónia , que faça publicar  e com ella animar aos que habitam em Portugal?

Será preciso que, os que para alli foram para trabalhar, estejam fazendo relatórios das suas diligencias, e soffrimentos , para virem aqui aos seus amigos, pois para aqui é que todos elles tem mais relações, pela demora que já aqui tiveram, (depois que sahiram de Portugal) para então d'aqui os remetter-mos para Portugal, com dispêndio de tempo, que ás vezes não temos sufficiente para este trabalho ; despesa de portes de cartas, e obrigação em que ficamos para a imprensa ahi os publicar?!

Quando o governo tem as suas autoridades, que só podem mais fielmente informa-lo , e o seu jornal aonde as fizesse imprimir;  mas qual a noticia que a tal respeito se encontra?

Ainda não será tempo de se saber que resultado tem obtido a gente que do Brasil para alli tem hido; que progresso apresenta aquella colónia em agricultura , e por consequência em commercio, ou de importação ou exportação?

Eu pedi em cartas de 2 e 7 do corrente, estas informações a pessoas que idas d'aqui, sei que tem bastante curiosidade, mas que talvez não tenham tempo , e jamais poderão ter facilidade em as obter verdadeiras por falta de dados, que só as autoridades possuem : como vou ter (pois já mandei assignar) todas as folhas de Lisboa e Porto, veremos se os particulares são mais cuidadosos do que o governo ; e se com estas noticias , bem positivas  se convencera estes de irem para alli, digo estes, os que estão era o Brasil; e com os que estão em Portugal , e que cá não devem vir, nem sahir de lá para fora ; a industria agrícola  e fabril, deve ser o seu padre nosso constante: jamais emigrarem , seja para aonde for. Para provar-lhe a fortuna a que os conduzem os taes alliciadores que os seduzem, até espalhando dinheiro para os tentarem, (os agentes) o que tudo depois elles pagam, bem pago, quando chegam ao Brazil; vou copiar alguns anúncios, que constantemente se acham em os jornaes ; o seu maior valor é todo o rigor da lei contra os que se retiram das casas para que são contractados; e contra quem lhe der asylo. Eu ainda não pude comprehender como judicialmente isto se faz ; vejo um rapaz de 14 anos que será levado aos tribunaes: já causa se faz respeitar, mas que horror nos não deve causar, quando vir-mos que a justiça concede mais direitos, ou melhores, a quem tem mais dinheiro, ou empenhos; e o que tem um colono, além dos seus algozes? Taes são os mesmos, que nos annucios vai ver, como tendo contractado com elle (que sabe o rapaz de 14 annos? taes são os capitães que os trazem, que sabe-se como os tratam; taes são os consignatários, e donos dos navios, e estes'ainda em maior escalla. O contratante desta faz remessa a outro contrabandista, embora toda a giria da argumentação para se acreditar o contrario ; ora o rapaz sahe da sua terra sempre enganado, salvo quando elle foge á farda , ou a algum crime , (ás vezes até amoroso;) chega ao mar, dão-lhe de comer e beber sempre miseravelmente, deshumanamente, barbaramente, por isso chega á vista de terra, levanta as mãos ao céo, e lança quantas pragas sabe proferir a quem é o culpado do seu tormento; imagina que elles estão findados, o que só mais tarde conhece que errou. Pois o mesmo que os alliciou , e enganou, ou o seu representante quer que elle lhe dó bem depressa o lugar despejado , e por isso o primeiro malvado que apparece pelos annuncios (que vão copiados) é homem honrado pela informação daquelle que o quer ver pelas costas; e Já vai o contracto fazer-se com um rapaz de 14 anos, (sem ter quem lhe doa a sua ingrata sorte). Este honrado homem, mais velho, que contracta, já se vê que que hade saber amarrar a victima , para bem se recompensar da quantia que por elle paga aos taes protectores, que o foram buscar a Portugal para o felicitar; e segue a regra ordinária; se tem escravos trata-os melhor do que o branco, pois que elles custam-lhe mais dinheiro, e se morrerem elle perde-o, quando a sua conveniência e que elles vivam muitíssimos annos; o branco é outra a conta, hade trabalhar muito e no peior, porque satisfeita a quantia, ou o praso do contracto, pôde o diabo leva-lo, que elle já nada perde, e vai contractar outro desgraçado, ao qual succede outro tanto, e assim por diante. Nisto como em todas as coisas, ha honrosas excepções, mas muito poucas. A época da febre bem o evidenciou, ali foi publicado o relatório da Sociedade de Beneficência em o Rio de Janeiro, que bera se explicou, em quanto á conducta da maior parte dos patrões para com caixeiros, quanto mais para com colonos.
Qual é pois a situarão do colono quando contracta ? E a do maior grito de escravidão, só a esperança da melhora o sustenta para encetar a mudança; mas elle fica obrigado a cumprir sempre mais do que rasoavelmente se podia ajustar, (dentro de casa) e se não tem valor para tanto, e foge, tem as penas da tal lei rigorosa, que elle só então sabe que o faz punir, mas que não lho disseram antes de embarcar em Portugal.

Qual é o negocio valido em Portugal sendo ajustado com indivíduo a quem a lei não conhece com a idade, e circunstancias precisas, para se julgar emancipado? Serão válidos os negócios feitos com rapazes de 14 annos?! Mas ve-se serem em o Brazil! Qual será o liomera que se dignará fallar neste objecto em cortes, ou em o Governo?


Quando se porá termo a tantas vergonhas e barbaridades?! Quando se porá um destes bárbaros allíciadores. armadores, (ou donos de navios), capitães, consignatários, tripulações, Cumules, Encarregado de Negócios, Governador Civil, Ministro de Estado, Capitão do Porto, ou de qualquer modo ou maneira culpado nesta vergonha e desgraça, n'um degredo por toda a vida, se não houver castigo maior?

Eu já lembrei, Sr. redactor, algum modo de reprimir, e até mesmo de extinguir este criminoso negocio; se alguma medida não appareccr para chegar áquelle fim , eu renegarei de me considerar portugues, antes quererei ser mouro!

Maldição eterna a quem assim abandona uma nação! Nunca mais só poderá permittir, que um indivíduo sem chegar á idade de se governar, siga do seu lar pátrio para aonde acha tanta depravação; nem mesmo aos que já são homens se deve consentir, sem lhe mostrar o que por cá lhe succede, embora elle persista ; e nesse caso siga ainda que para o inferno , jamais se poderá queixar e soffrerá para seu devido castigo. Como vai ver ha de todas as idades e sexos, com todo o rigor da lei ameaçados.

Em jornal de 3 de Maio de 1851 , le-se : « Gratififica-se a quem aprehender ou der noticia na rua da Candelária n.° 47, dos colonos seguintes: Francisco Machado Borges de 59 annos , Bartholomeu Corrêa de 28 annos, Alexandre Joaquim da Silva de 20 annos, e José Menezes de Oliveira de 19 annos, todas as idades prcscriptas são prováveis, sendo o primeiro e o quarto naturacs da Ilha Terceira , o segundo e terceiro da Graciosa, todos chegados a este porto a 27 de Fevereiro do corrente anno, vindos da Ilha Terceira , na barca Brasileira Maria 2., e se evadiram do deposito do Lazareto: o primeiro no dia 9 da Março, o segundo no dia 11, o terceiro no dia 18, e o quarto no dia 29 de Abril. O annunciante protesta desde já, e sempre com todo o rigor da lei contra os ditos colonos pelas suas passagens, e contra quem os tiver em seu poder. Rio de Janeiro de 2 de. 1851.—João Lopes da Costa, affretador da barca Maria 2." 

No jornal de 2 de Maio, lè-se o seguinte» Grattíca-se a quem aprehender ou der noticia, no largo do Carpim n." 75, de um colono natural da Ilha Terceira, vindo para esta no patacho Visconde de Bruges em7 de Janeiro, por nome João Ferreira, de 14annos de idade cabellos e olhos castanhos, arrastando a voz quando fala, tem muitas verrugas nos pés; o qual acha-se contractado a servir por um anno, e desaparecera no dia 29 do corrente , protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o tiver acoitado. Rio 30 de Abril de 1851.—Dr. Paulo Costa.
 
Egual vem em o do dia l, e no do dia 29 d'Abril, è-se : fugio hontem 27 do corrente, da rua d'Assembléa n. 24, uma colona vinda ha pouco tempo das lhas em o brigue Oliveira, por nome Jacinta Isabel, tan baixa e cheia de corpo , com cara de quem bebe muitui , e tem cabello coitado. Roubou uma porção e prata , jóias , dinheiro em papel e prata, roupa, protesta-se contra quem a acolher, não só pelo resto a sua passagem na forma da lei, como pelos objectos roubados. e gratifica-se a quem dela der noticia.— António José Baptista Bastos.

Faço-lhe remessa , Sr. Redactor, deste impresso que incluo , para egualmente fazer ver a essa gente, no depois de tão penoso tirocínio , se algum destes martyres chega a adquirir alguma coisa, e quer gaia uma pataca, tem da frente as sentenças que nelle apparecem ; será talvez de bom effeito o verem, que cá consentem que venham portuguezes, para se empregarem em a agricultura , ou talvez consintam que eles façam fretes; pois para qualquer outro emprego , não querem ; vejam que querem que se prohiba que tenha loja de alfaiate . sapateiro , ourives , ferreiro, marceneiro, funileiro, carpinteiro, etc. , se não pagar uma licença annualmentc de 800 000 rs. a 2:000 000 rs. , o que acho muito a propósito  com todo este projecto só falta dizer que fica livre de morrer das febres; no entanto tem uma virtude este projecto, assim como os seus auctores, que é serem bastantes em numero para fazer executar aquelle (quando por lei) e dizerem com bastante antecedência , para se estar prevenido com tempo. Eu julgo que isto merece ser ahi publicado em letras bem visíveis, para ser bem visto por quaesquer curtos da vista; e para mais rapidamente chegar ao conhecimento dos que não sabem ler , dar-se aos cegos , para elles apregoarem ; e até aos rapazes das cautellas , visto o muito que elles transitam e gritam. No entanto , aqui se appresenta a somma dos portugueses chegados em o mez de Marco ao Rio de Janeiro, 787, aos quaes se lhe dá o pomposo nome de escravos brancos.

Eu, Sr. Redactor, vou em romaria a qualquer Santo que goze de muita fé , para lhe mostrar o quanto eu fico agradecido, quando estes Srs. fizerem voltar os navios que taes carregamentos trazem , pelo mesmo caminho , com todos os taes passageiros ; e mais me contentarei se o capitão ficar preso, e o consignatário , ou dono , ou affretador tiver um degredo por toda a vida , e em jogar em que possa durar pouco tempo com vida ; não peco que seja morta qualquer pessoa, porque entendo que esta altribuirão só á natureza compete, em os casos mesmo mais graves que se conheçam ; porque , pela qualidade de crime, nenhum mais revoltante eu encaro, do que o dos taes Srs. donos, affretadores, e consignatários dos mesmos navios. Cumpre todavia mostrar que são também navios brazileiros, que se empregam em ir buscar os taes escravos brancos, para virem tirar aos mesmos brasileiros os logares no commercio; o que é falta de patriotismo , e elles não devem commeter, para se poderem queixar dos portuguezes; pois se me queixo é só dos portuguezes que cá os trazem  para elles contratarem aos 14 annos. As cartas que seguem são as que eu copiei, e notei acima.

Sr. T. P. da M. Estima. — Pernambuco.
Loanda 1 de Março de 1851.
Amigo e Sr. — Participo-lhe que me acho arrumado em uma excellente casa , ganhando 25 000 rs. por mez, e que me acho prompto para o seu serviço ; seu primo desarranjou-se da casa em que estava , mas logo se arranja. Dos colonos que vieram para esta cidade só dois é que não se arranjaram , um por que é uma lesma , o outro por ser de costume embriagar-se, que é o F. . . A C.. ., (aqui enche 12 linhas com coisas próprias de rapazes, o segue:

A rapaziada de Mossamedes decidiram-se pelo centro da Colónia, uns foram para os Gambos, terra muito fértil, e regada por um rio, ponto de muitas esperanças para a lavoura , c Commercio ; outros para a Huila , aonde se vae montar um engenho pelo Governo, para o que a escuna Falcão já sahiu daqui carregada de canna , para plantações: outros foram para o Bumbo com o Costa e o Moreira, montar os seus engenhos, aonde se acham muito contentes, e com muitas esperanças; Deus se digue proteger esta terra.

Já se acabaram mais cinco casas na povoação pertencentes á gente da segunda expedição que dahi veio, e estão fazendo mais; esquecia-me dizer-lhe que no Giraúl (perto das hortas) se arranjaram umas calinas, e os andores foram muito felizes, pois tem tirado sai, egual ao de Setúbal, c com muita abundância.


Mossamedes, á primeira vista, altera os ânimos mais resolutos, mais depois de se examinarem os seus contornos , já se cria outra alma ; o homem sente-se com toda a anterior coragem; fique certo que o não estar mais prospera esta Colónia deve-se ao Bernardino.

Ha dias chegaram do Rio de Janeiro dez colonos, e esperamos o navio «General Rego» de lá com mais outra expedição, em que dizem vem duzentos mocetões, Teremos : assim como que o governador desta recebeu aviso do Ministro da Marinha para esperar outra expedição do Maranhão. A exportação de Mossamedes em o anno de 1849 a 1850 em cera , marfim , urzela e peixe secco, foi de 120:000^000 réis. Ahi deve ter chegado o Pavão que dahi veiu , o qual sendo governado pela mulher , aqui-não quiz ficar , apezar de ganhar por dia 2 500 réis; veja se elle ahi ganhava similhante jornal.

O Manjaricão parece que se quer retirar, a que também não admira, visto ter mulher e filhas, e pôde ser verdade que duas delas estavam faltadas para cazarem, como aqui alguém me diz.
Fique certo, caro estima, que Mossamedes é uma terra muito boa , e hade ser feliz quem se dedicar ao campo, a fazer progredir a agricultura, tendo saúde ponto em que felizmente muito ganha esta província, presentemente, ao Brazil; aqui sabemos o que ainda está sucedendo em essa provincia , na Bahia , Rio de Janeiro, Pará e outras.

Se tiver alguma carta para mim, fará favor de ma remetter ainda que seja pelo Rio, pondo a direcção para casa de J. C. de Bittancourt.—Saúde e felicidade . sou de v. attento venerador e criado. — José António Pinto Guimarães. 

. S. O Rangel c o Coutinho foram para os Gambios, o primeiro encarregado de fazer uma pequena fortaleza.


Presadissima filha do meu coração. — Pernambuco.
Mossamedes 27 de Fevereiro de 1851.

Com muito gosto pego na penna para te dizer da minha saúde , que felizmente e boa , e de teu mano egualmente. Já te escrevi por dois navios, e ainda não tive resposta tua. Aqui não ha regalos, que se possa mandar algum , a povoação é muito pequena , ha muitas terras , mas ás vezes faltão as chuvas em tempo próprio; dá-se muito bem o milho e outras plantas, três vezes no anno; por hora o negocio é pouco, mas espera-se que vá melhorando , o clima é muito bom , tanto que de Benguella vem quem é doente , aqui tomar ares.
Aqui estou com casa de chocolate, caffe , comida , e bebida etc.(como sabes era minha tenção) por hora em ponto pequeno, os lucros são pequenos, já comprei uma casa, e estou acabando outra de pedra e cal, que deve estar prompta daqui a dois mezes; também comprei um pequeno sitio (quinta) no qual tenho de hortelão o António Gallego , e me dá hortaliças e frurtas, tanto para gasto de casa, como para vender.




Minha filha, faz muita diligencia para fazer bom negocio, e mais teu mano , pois eu ainda quero que nos juntemos outra vez, ou aqui. ou em Portugal, que isto é muilo bonito, para o conceito do publico, e para mim de eterna consolação; teu mario José Pedro esta na minha companhia , mas pouco me ajuda ; é aqui o mesmo que era n'ossa.

Eu já te disse para me mandares algumas fazendas, porém que seja tudo muito barato, que é para vender igualmente barato; no caixão das obras de folha, não me mandes cocos, que aqui não se vendem. Diz ao Sr. Francisco Barbosa que em tendo navio me mande três barricas de assucar mascavado, uma do branco, quatro de Tirinha de trigo. e seis saccas da de mandioca , e qualquer outra cousa, que elle veja cá se venda; e a conta , que eu pagarei tudo promptamente como costumo.
Teu padrinho morreu em Loanda. Faz da minha, parte muitas visitas a todos, e escreve-me a miúdo; esta serve igualmente para teu mimo. Esta tarde entrou neste porto, vinda da Bahia , uma barca com colonos que aqui já esperávamos , dizem que vem 200 , veremos. — Tua mãe que muito te estima.—Margarida de Jesus.

Em 21 de Maio.

Sr. Redactor. Eu quiz enviar esta em o vapor Tcviot, mas elle não me deu tempo , por isso a augmontarci, e com que será desgraçadamente com a chegada de mais dos taes escravos brancos.

No dia 10 deste entrou no Rio a galera portugneza Flora, capitão António Martins Fiúza de Oliveira, cm 42 dias do Porto, 35 pessoas de tripulação, e 150 passageiros. No mesmo dia 10, a escuna portugueza Leonor, capitão João Joaquim Gomes, em 40 dias do Fayal, 15 pessoas de tripulação c 137 passageiros. Ora aqui lemos desde o dia 2 a 10 de Maio entraram em o Rio de Janeiro 408 porluguezcs, fora alguns dos homens da tripulação que haviam de ficar , pois estes navios jamais podem pagar a tanta gente; metade mesmo é suficiente para a sua manobra; podemos contar 440 pessoas!!! Já disse bastante , em esta data a tal respeito ; esse povo , especialmente do Porto, deve fazer justiça a esses monstros, que ahi vão pejar os navios ; aliás ficarão sem gente ; e cá andarão fugidos uns , presos outros , penando em o martyrio dos contractos outros, e todos em a mais aviltante situação.

Concluirei dando a v. copia do annuncio que o consulado inglez fez, para governo de quem quizer daqui escrever para Portugal , e para qualquer outro ponto; eu dezejo que appareça em a imprensa , qual a regra que ahi se segue para as cartas c jornaes políticos e liltcrarios que se remellem para o Brazil, em as mallas dos vapores inglezes; pois que ainda o não achei em algum.

Diário de Pernambuco 8 de maio.—Consulado britannico em Pernambuco.
Faz-se publico que por ordem do correio geral da Grã-Bretanha em conformidade de um convénio entre o governo de S. M. B. e o Governo de Portuga) , serão expedidas e recebidas as malas para Lisboa , deste consulado, pelos vapores da carreira sem pagamento de porte algum aqui, restando ao agente do dito correio tomar conta ao peto total das cartas e o numero das gazetas que vão, pondo-lhe o respectivo sello da data , não pago , e remettendo a nota do pezo, e numero ao agente britannico em Lisboa, e aqui se ha de cobrar pelo mesmo o respectivo porte á rasão 468 rs. por onça das cartas e 2 ditos por cada gazeta.

Na chegada dos vapores do sul as malas devem logo estar promptas, e immediatamente se ha de unhar na porta do consulado a ultima hora do recebimento, e depois não se receberá mais cartas nem gazetas, por qualquer empenho que se pertencia fazer; isto conforme as ordens geraes, e para o bom andamento do despacho e serviço publico. Regula isto somente para Lisboa , e quaesquer cartas ou gazetas achadas no sacco para qualquer outro porto ou lugar ficam sujeitas a serem detidas e encaminhadas pelo agente depois de receber o respectivo porte aqui de 445 rs. por meia onça ; mas serão incluídas como para Lisboa todas as cartas e gazetas que se acharem Do sacco para o reino de Portugal, e assim encaminhadas para Lisboa em direitura, sem que possa haver reclamação alguma por erros ou lapsos seus a este respeito.


Recife 6 de Maio de 1851.

Ao Christophles , Vice-Consul. — Tendo de concluir, Sr. Redactor , cumpre-me fazer uma confissão, e é, que tenho-me dirigido á imprensa litleraria , para que se não pense que aqui anda espirito de partido, que se lhe attribuiria pelo jornal a que me dirigisse, tanto os que lessem lá , como aqui; eu mesmo não olho como política aquillo que respeita tão de perto, e em tamanho gráo, aos interesses geraes de todos os membros da Nação Portugneza. Da política do Brazil eu nada sei mais, que respeitar todos os Brazileiros, e em quanto eu poder transitar sem ser incommodado , como sempre me tem succedido, nada me auctorisa a levantar a menor queixa. A sua imprensa é que faz bem ver , que o mar não é de leite ; e ainda nesta, eu vejo que exagerados é que produzem o mal, de ambos os lados ; no entanto é forçoso reconhecer que a trovoada se vai formando. Em Portugal desejo que governe aquelle ou aquelle que melhor ou mais se chegarem para a lei, que sejam affastados sempre aquelles que sabem mais sofismas que executal-a; esta habilidade, tem por resultado , maiores prejuízos e a desgraça para mim não tem encantos. Não devo esperar que anjos desçam da alta região em que os imaginamos, para vir governar sem alguns erros; mas erros involuntários são menos prejudiciais ; que os estudados com todo o esmero. Igualmente me falta vaidade para escrever para o publico, mas a modéstia não me priva de informar do que souber aquelles que tão corajosamente manejam a penna, e que constantemente vejo o empenhados , em arrancar Portugal á sua muita e tão antiga apathia. Eis a rasão porque lhe tenho dirigida as minhas informações, e pedidos; incitado pela leitura dos seus escriptos, e pelo que nelles encontrei em os D, 18 e 37 do novo anno.


Já terá ahi chegado o projecto apresentado em a Assembléa {do Rio de Janeiro para no dia 7 de Setembro de 1870 ficar extincta a escravatura em Brazil. Eu procurarei ver as reflexões que a imprensa faz a tal respeito, e em relação aos estrangeiros qua aqui residem. Tendo enviado alguns escriptos á redacção da Revista Popular , espero ver em o dia 2 de Junho, se sobre elles se diz alguma coisa , assim como pedia que depois , toda a mais imprensa se encarregasse de reproduzir o que aquelle jornal disser. O meu tempo é muito pouco, por isto, e pelas minhas fracas ou nenhumas habilitações , eu peça desculpa , para que relevem meus erros, e me considere sempre

Seu constante leitor. *. B. COUTINHO.
In Revista universal Lisbonense / por UMA Sociedade Estudiosa, Volumes 12-13

terça-feira, 10 de agosto de 2010

João Pinheiro Chagas, maçon, republicano, condenado e degredado para Mossãmedes (Angola) em 1891

João Pinheiro Chagas 
João Pinheiro Chagas


 Nasceu no Rio de Janeiro, a 4 de Setembro de 1865. Escritor, jornalista, panfletário, político e diplomata, pertencera à geração republicana do Ultimatum, combativa e conspiradora. Pertenceu à Maçonaria, tendo sido iniciado em 1896. Colaborou em vários jornais, de entre os quais o `Correio da Noite´, o `Tempo´ , o `Dia´, `A Portuguesa´ (1891), `O Panfleto´ (1894), `A Marselheza´ (1897-1898) e `O Norte´(1906). Fundou `A República´ (1890) e a `República portuguesa´ (1890-1891) e dirigiu `O Paiz´. Conhecido pelos ataques à Monarquia, nas colunas de jornais onde colaborou, foi várias vezes processado e condenado. Implicado na revolta do '31 de Janeiro' (1891) foi condenado e degredado para Moçâmedes. Foge e volta ao Porto onde foi recapturado, regressando após ser amnistiado. Conspira na revolta de 28 de Janeiro de 1908, sendo novamente preso, e envolve-se na preparação do 5 de Outubro. Preside ao primeiro governo constitucional (1911), enfrentando a primeira incursão monárquica, no primeiro aniversário da República. Foi ministro de Portugal em Paris, nomeado logo após a implantação da República, defendendo a aproximação com a França republicana. Durante o governo de Pimenta de Castro demite-se desse lugar, não querendo servir 'ditaduras'. Depois da revolução do '14 de Maio' de 1915 é chamado a formar governo em Maio de 1915, o que não acontece, pois é vítima de um atentado. Regressa a Paris, pugnando sempre pela causa intervencionista na Grande Guerra. Depois de um afastamento durante o sidonismo, fez parte da delegação portuguesa à Conferência de Paz e à Sociedade das Nações e regressou a Paris como Ministro Plenipotenciário (de 1919 a 1923). Faleceu em Lisboa, em 28 de Maio de 1925. 

in Fundação Mário Soares






A Africa Portugueza, de Pinheiro Chagas.
LISBOA TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (Imprensa da Casa Real)
110, Rua do Diário de Noticias, 116 . 1890



“...Se tentasse em breves paginas contar-lhes as aventuras d'esta Africa portugueza, que tantas amarguras nos tem custado, saber deveras o que é, ô  que tem sido um paiz, já hoje tão impregnado de sangue portuguez, mas ao qual estão hoje ligados,  como ao ultimo filho que nos resta d'essa gestação  audaciosa de mundos novos que estivemos dando durante dois séculos á luz da civilisação ?


Já em torno d'ellas pairam, como abutres, as cubicas estrangeiras. Em Lourenço Marques o capitão Owen reivindica para a Inglaterra o domí-
nio d'essa bahia, que só quarenta annos depois a arbitragem de Mac-Mahon nos reconhece definitivamente ;já o governo inglez nos impede de estabelecer o nosso dominio na foz do Zaire, e também só cincoenta
annos depois a conferencia de Berlim nol-o reconhece. Com tanta attenção devíamos olhar para essas longínquas regiões, e  comtudo não nos occupavamos senão das nossas  discórdias civis, dos nossos pequenos interesses continentaes.  

As colónias africanas eram o vazadouro para onde despejávamos todas as fezes que tínhamos no reino. Com degredados as povoávamos, com degredados formávamos o seu exercito e, quando não eram degredados, que o compunham, eram batalhões expedicionários que levavam do conti-
nente os mais torpes elementos das tropas nacionaes.

Em 1835, pouco depois de ter acabado a guerra da liberdade, quando se quiz mandar uma expe- dição para Cabo-Verde, organisou-se um batalhão
com os soldados mais ruins e indisciplinados que havia, não no exercito vencedor mas no exercito vencido. Por isso, a façanha que esse batalhão praticou foi matar todos os seus officiaes, á excepção de um ou dois alferes, que escaparam por milagre  

Se essas "colónias não eram senão ninhos de escravos, e era a escravatura a única fonte da sua receita ! . . . Sá da Bandeira appareceu,promulgou a lei de 1836 que abolia a escravatura, e procurou fazel-a cumprir. Mas todos os interesses feridos se sublevavam contra elle. Alcunhavam-n'o de utopista, accusavam-n'o de arruinar as colónias. Os governadores que iam para o ultramar, com ordem expressa de acabar com o odioso trafico, viam-se obrigados a transigir, ou
a fugir.

Em Moçambique, o marquez de Aracaty, um Oeynhausen, tinha de suspender a lei de 1836 porque os escravistas não a deixavam executar.

D. António de Noronha em Angola, depois de uma lucta formidável, tinha de fugir quasi para a Europa. Joaquim Pereira Marinho, em Moçambique,
via-se salteado por toda a espécie de calumnias, e por uma guerra ferocíssima, porque effectivamente debellava os escravistas. O tratado com a Inglaterra concluído em 1842 impunha-nos sacrifícios enormes, sujeitava-nos a continuados vexames, e a tudo nos resignávamos para cumprir lealmente a nossa missão emancipadora. E, emquanto o cruzeiro portuguez se mostrava implacável com os navios que transportavam escravos, emquanto as nossas colónias definhavam porque perdiam uma receita que não era substituída, os navios inglezes tomavam os negros escravos não para os libertar, mas para os levar ás suas colónias, e estas floresciam com o trabalho gratuito dos braços que á escravatura deviam.


De vez em quando algum estadista, algum governador do ultramar pensava nas colónias, muito de relance comtudo, que as guerras civis absor-
viam-nos. Bonitas palavras na camará de vez em quando, actos raríssimos. Apparecia Pedro Alexandrino em Angola, procurando explorar e conhecer a província, implacável com a escravatura, mas tentando deveras fazer alguma coisa útil.

Depois em 1849 appareceu também um homem dedicado, enérgico, de verdadeira iniciativa, Bernardino Freire de Abreu e Castro, que era o verdadeiro fundador da colónia de Mossamedes. Luctava com innumeras dificuldades, mas a colónia lá ia rompendo lentamente, até que afinal se transformou na villa, que é hoje uma das nossas glorias ultramarinas. Ha quarenta annos !

E pouco mais se fazia ! Em 1852 appareceu um decreto, em cujo preambulo se dizia pomposamente que, sendo notório e incontestável que
innumeros emigrantes portuguezes iam procurar trabalho no Brazil, sonhando phantasticas riquezas e não encontrando afinal senão a miséria e a morte, sendo incontestável ainda que os madeirenses iam procurar em Demerara, nos climas inhospitos da Guyana ingleza, as febres que faziam d'essa colónia britânica um cemitério para os portuguezes, era indispensável que se tratasse de derivar para as nossas colónias africanas essa emigração nacional, e com esse louvável intuito de crear um imposto nas colónias sobre a importação dos vinhos e aguardentes de Portugal. Palavras, e só palavras !


Trinta e três annos depois é que o auctor (destas linhas fundava n'esse districto de Mossamedes, tão claramente indicado para a colonisação portugueza, as auspiciosas colónias Sá da Bandeira
e S. Pedro de Ohibia !

O movimento regenerador punha termo êm Portugal ás discórdias civis que tinham alagado de sangue o nosso território, e paralysado o nosso
progresso. Inaugurou-se a politica do fomento, gastavam-se com plena razão rios de dinheiro para fazer estradas no paiz, para fazer caminhos de ferro, mas as nossas colónias africanas não tinham senão um mesquinho quinhão n'esse jubileu do progresso. Pensou-se em tudo que não custasse muito dinheiro. Auctorisou-se a exploração botânica de Angola pelo dr. Welwitsch, que foi maravilhosa, mas que de certo não desequilibrou o orçamento. Creou-se o conselho ultramarino, que deu excellentes indicações, e que chamou um pouco a attenção publica para os negócios coloniaes ; mas, quinze ou dezeseis annos depois, o sr. Latino Coelho aboliu-o porque o julgou dispendioso.

Appareceu Sá da Bandeira em 1856 com o seu velho enthusiasmo pelas colónias, mas sem conseguir arrancar aos seus collegas as  sommas necessárias para a desenvolver. Além disso não tinha quem o ajudasse, e o seu espirito generoso, mas demasiadamente theorico, estragava
as suas concepções por não descer ás particularidades da pratica. Quiz fundar colónias militares em Huilla e em Tete. Foram duas povoações
do reino da Utopia.

Prodigalisou os conselhos e as sementes aos governadores para que elles fomentassem differentes culturas.

Para que servia, quando as innumeras e enormes concessões de terrenos que se faziam no ultramar ficavam constantemente desaproveitadas?

O enthusiasmo do paiz pelas colónias tornou-se bem patente na subscripçao que se abriu para a colónia de Pemba. Sá da Bandeira logrou pôr á testa d'essa subscripçao um dos grandes capitalistas do tempo, Thomaz Bessone, fez com que todos os administradores abrissem subscripçoes nos seus concelhos. Algumas capitães de districto chegaram a dar 30$000 réis, o concelho de Povoa de Varzim subscreveu com dez tostões!

A colónia lá foi ainda assim para Moçambique. Mas, se faltavam a Sá da Bandeira os subscriptores, ainda mais faltavam os auxiliadores. Os colonos foram mal escolhidos, peior escolhido ainda o sitio na bahia de Pemba, onde não havia sequer agua potável. Para a encontrarem tinham de se affastar muito da beira-mar. Um desastre completo coroou esta malfadada tentativa de colonisação.

Se não conseguíamos atinar com o meio de dar ás nossas colónias o desenvolvimento de que ellas careciam, em compensação continuávamos a ser fidelíssimos á nossa missão de antí-escravistas. N'aquelle território da Africa Occidental entre 5 o , 12' e 8 o , em que a Inglaterra não consentia que puzessemos o pé, fazia-se odiosamente escravatura. Estava no poder o primeiro ministério regenerador, era ministro da marinha o visconde de Athouguia, presidente do conselho ultramarino Sá da Bandeira, governador de Angola Rodrigues de Amaral, commandante da estação naval Redovalho. Passou- se por cima da prohibição da Inglaterra, e em 1855 occupou-se audaciosamente o Ambriz. Dentro de uns barracões encontraram-se 150 pretos, que esperavam navio escravista para embarcar. Era flagrante o caso. A Inglaterra não se atreveu a protestar, como os negociantes inglezes, prováveis proprietários dos 150 escravos, se não atreveram a reclamal-os.

Mas nós continuávamos a ser apresentados á Europa como incorrigíveis escravistas, e a Inglaterra, a pátria de Wilberforce, continuou a ostentar a gloria de ser ella a nação chefe na brilhante, humanitária e redemptora cruzada contra a escravidão.

Em Moçambique os plantadores das colónias francezas e especialmente os da ilha da Reunião, antiga ilha Bourbon, tinham tomado o costume de ir
contractar o que elles chamavam trabalhadores livres. Por mais de uma vez, nos próprios tribunaes da ilha da Reunião se reconhecera que es-
ses suppostos trabalhadores livres não eram senão escravos. A Inglaterra chamava a attenção do governo portuguez para essa escravatura disfarçada, que se fazia em Moçambique. Ingenuamente Sá da Bandeira, que acabara de promulgar a lei de 1858, abolindo a escravidão, e que era o complemento da sua lei de 1836, prohibiu que
se consentissem em Moçambique os suppostos contractos de trabalhadores livres. As auctoridades portuguezas informaram o sr. de Méquet, commandante da estação naval franceza, dos abusos que os navios da sua nação praticavam e que tinham dado origem a esta prohibição do governo
portuguez. O sr. de Méquet respondeu que não consentiria que fossem navios francezes a Moçambique fazer esses contractos. Comtudo, n'esse mesmo anno de 1858 um navio de guerra portuguez encontrou em Quitangonha, na bahia de Conducia, uma barca franceza, a Charles-et-Georges, a fazer contractos de trabalhadores pretos livres. Os pre-
tos interrogados declararam que eram levados á força. A barca foi apresada, o tribunal competente proferiu a sentença condemnatoria.

O governo francez de então, o governo de Napoleão iii, reclamou ; nem quiz esperar a decisão dos tribunaes superiores, enviou uma esquadra
ao Tejo, ordenou que o seu ministro, o marquez de Lisle de Siry, retirasse com o pessoal da sua legação, se a barca Charles-et-Georges não fosse entregue. Não o foi. O governo do duque de Loulé respondeu simplesmente : Sois os mais fortes ! Levae-a. E um navio de guerra francez, que tinha um nome condigno da missão que desempenhava, o Tubarão, le Requin, levou a barca Charles-et-Georges.

Tínhamos appellado para a Inglaterra, para a Inglaterra que fora a nação que protestara contra os suppostos contractos de trabalhadores livres, que nos levara a prohibil-os. Encolheu os hom-
bros, e disse-nos : Cedam !

Onze annos depois, em 1839, uma corveta de guerra ingleza, a Daphne, fazia no próprio porto de Moçambique o mesmo que a Charles-et-Georges
fizera na bahia de Conducia.

Simplesmente, em vez de contractar trabalhadores livres, contractava criados livres. Era governador de Moçambique Fernando da Costa Leal, que fora governador de Mossamedes, e que era dotado de uma rara energia. Intimou o commandante da Daphne a que não procedesse as-
sim, o official inglez desdenhou a intimação, Fernando Leal observou-lhe tranquillamente que a corveta Daphne não sairia com os seus contractados do porto de Moçambique, senão debaixo de fogo das fortalezas e depois de ter destruído os meios de resistência que elle tinha á sua disposição.

O commandante da Daphne teve medo do escândalo que isso faria na Europa, e cedeu !

E Portugal continuou a ser apresentado pela Inglaterra ao mundo como um paiz essencialmente e incorrigivelmente escravista !

E as colónias continuavam no seu triste abandono! Lá se percebia emfim que em Moçambique o nosso domínio era insignificante, que até os nos-
sos portos de mar estavam á mercê dos pretos, e alguma coisa se fazia para pôr termo a essa ordem de coisas. Em 1861 tomávamos Angoche,
n'esse mesmo anno reoccupavamos o Zumbo abandonado, mas o official encarregado de tomar posse, ao sair de Tete, não podia atravessar a Chedima e o Dande senão quando lh'o permittiam os régulos indígenas.

Em 1862 o governador de Lourenço Marques auxiliou eíBcazmente o pode-
roso regulo Muzilla nas guerras que este tivera com o seu irmão Mauéva, e obtinha que o Muzilla reconhecido se declarasse vassallo de Portugal ; o governador de Quilimane, Custodio José da Silva, á força de dedicação e de coragem, logrou man-. ter abertas as communicaçoes entre Quilimane, Senna e Tete, mas tudo isto eram factos isolados,
não havia a persistência indispensável. As communicaçoes entre Tete e Zumbo continuaram a ser quasi impossíveis ; a vassallagem de Muzilla
não se tornou effectiva ; a Zambezia, um momento pacificada pelo governador de Quilimane Custodio José da Silva, tornava dentro em pouco a ser um foco de desordens ; Angoche ficava, apezar de
conquistado, em tristíssimas condições ; a vassallagem do Muzilla não passou de ser nominal, e não tardou o próprio regulo a esquecel-a, em Sofala os habitantes, constantemente vexados pelas incursões dos pretos, abandonavam esse antigo padrã das nossas glorias, e refugiavam-se em Chiloane, para onde se transferiu também a sede do governo do districto.

De vez em quando, se alguma catastrophe mais terrível chamava as attenções de Portugal, lá se organisavam uns tristes batalhões expedicionários, que iam, tant bien qae mal, restabelecer a ordem
em Cassange, em Angola ; mas nunca a feira de Cassange se poderá restabelecer, as communicacoes entre Loanda e Ambriz eram interceptadas pelo chamado marquez de Mossul, e emquanto isto
continuava assim, abandonado e decadente, não se parava com a construcção de estradas e de caminhos de ferro em Portugal.

Infelizmente, no meio deste desleixo absoluto, começavam a apparecer na Africa Oriental os viajantes inglezes. Livingstone em seis annos fizera trabalhos que tinham excitado enthusiasmo em Inglaterra. Nós o tínhamos ajudado, as nossas auctoridades tinham-lhe facilitado os estudos, tinham-n^o por mais de uma vez salvado, acolhera-o Silva Porto, o grande africanista portuguez, com a mais cordeal hospitalidade, tinham-lhe dado as mais amplas indicações geographicas os portuguezes de Tete e de Quilimane, e nas suas Fiagens não teve para nós o famigerado doutor senão palavras de ódio e de malevolencia !
A cubiça da Inglaterra fora estimulada ; nunca mais deixaremos de a encontrar no nosso caminho. Como se fosse muito o que despendíamos com
as colónias, apparecem n'este momento os ministérios das economias. Espalha-se a singular doutrina de que as colónias devem viver com os seus próprios recursos, supprimem-se os subsídios, e ufanam-se alguns ministros de apresentar um orçamento ultramarino com saldo positivo. O sr.

Latino Coelho obedece muito a esse principio. Rebello da Silva decretou leis excellentes com explendidos relatórios, mas que não encerram senão palavras que de pouco servem. O que resulta de tudo isto é o terrível desastre da Zambezia. Batalhões organisados segundo o detestável systema habitual, com tão indisciplinados elementos,
que já na metrópole se começaram a insubordinar, vão succumbir ás intempéries do clima, aos ataques dos pretos selvagens. As cabeças dos seus officiaes espetadas na aringa do bonga são o triste documento do nosso desastre. Ficou tumultuosa, apezar de uma pacificação apparente, só conseguida ainda assim depois de muitos annos, aquella rica região que orla o Zambeze. O rendimento da província é insignificante.

Alguma coisa se vae fazendo ainda assim a favor das colónias. A ilha de S. Vicente de Cabo Verde tinha uma situação geographica tão excel-
lente, que os paquetes transatlânticos, apezar de tudo, a procuraram, e o governo conseguiu que  o cabo submarino do Brazil tivesse em S. Vicente uma estação. Estabeleceu-se, com subsidio pesado, uma carreira de vapores para a Africa Occidental, mas como o governo luctou primeiro que se resolvesse a fazer esse sacrifício ! E comtudo, apezar de todo o abandono, as colónias eram taes que poucos annos depois já a navegação se fazia sem subsidio.

Depois de Sá da Bandeira era Andrade Corvo o primeiro ministro que se occupava das colónias com verdadeiro amor. Foi elle que completou a
obra redemptora de Sá da Bandeira, acabando definitivamente e de facto com a escravidão no ultramar, foi elle emfim que teve a coragem de
reclamar para as colónias os melhoramentos que tão prodigamente se espalhavam na metrópole, e de organisar as expedições de obras publicas, que, apezar dos defeitos da execução d ; essa medida,
fizeram ás colónias um bem infinito. Mas que tempo se perdera, e que tempo ainda se perdeu depois, porque os melhoramentos nas colónias fo-
ram feitos aos sacões, sem persistência, sem amor !

Basta lembrarmos que o paiz soube com a máxima indiíferença que Portugal assignára com a republica da Africa do Sul um tratado de limites, pelo qual se restringia de um modo extraordinário o nosso districto de Lourenço Marques, abandonando sem razão nem motivo, sem pressão ao menps de uma nação forte, ricos terrenos auriferos.

Ao menos agora pensava-se mais nas colónias, e concorrera também para isso a fundação em 1875 da benemérita Sociedade de Geographia; mas que desconhecimento dos nossos interesses coloniaes, que desprezo por esses assumptos se manifestou no parlamento, quando discutiu em 1879 a concessão da Zambezia feita ao intrépido explorador Paiva d'Andrada, e em 1881 o tratado de Lourenço Marques assignado com a Inglaterra ! Nem uma coisa, nem outra eram acceitaveis, mas a camará ficava na negação sem lembrar, nem acceitar os alvitres que se propozessem para se substituir o que se rejeitava.

Quando um desastre fulminava as colónias, lá vinha um movimento de sobresalto, e foi assim que o desastre de Bolor na Guiné levou a camara a dar ao governo os fundos necessários para se to-
marem algumas providencias urgentes, para se separar a Guiné de Cabo- Verde, e cuidar um pouco da sua guarnição. Caia porém tudo na apathia antiga.

Assim fora em 1877, graças á iniciativa de Andrade Corvo, que fizera passar na camará uma lei que auctorisou o governo a gastar 30 contos com ex- ploração scientifica, que se organisou a gloriosa ex- pedição em que appareceram pela primeira vez os nomes de Serpa Pinto, de Capello e de Ivens. Em 1880 voltavam os exploradores, Serpa Pinto tendo atravessado a Africa, Ivens e Capello tendo feito exploraçõe importantíssimas nos sertões de Benguella. Foram acolhidos com extraordinário enthusiasmo, mas por ahi se ficou. Só annos depois
se retomaram as explorações.

Houve também por esse tempo uma nova tentativa de colonisação, tão infeliz como a da colónia de Pemba. Foi devida ao sr. Júlio de Vilhena, que, se não pôde ver executada com felicidade a sua idéa, ao menos formulou um excellente regulamento de coionisação, que de muito serviu aos seus successores.

Em Moçambique, entretanto, a semente deitada á terra por Livingstone ia fructificando. Os missionários escocezes invadiam o interior da nossa colónia africana, fundavam o estabelecimento de Blantyre, e nós, com a amabilidade que sempre nos distinguiu, não só os ajudávamos mas até quasi que reconhecíamos a sua independência, estipulando na pauta de Moçambique um simples imposto de transito de 3 °/o para as mercadorias que fossem para a região dos Lagos, como se essa região fosse estrangeira! Sentimos-lhe hoje as consequências.

Os TartufFos escocezes acceitaram com humildade os favores, e, quando emfim os quizemos pôr fora, exclamaram arrogantes : Cest à vous cTen sortir !

Precisa o auctor d'estas rápidas linhas de fallar agora da sua própria obra, mas, como pelas circumstancias que então houve, bastantes acontecimentos importantes se deram, temos de os relatar com a brevidade a que nos temos cingido.

Foi no período de 1883 a 1885 que contractou a ligação telegrapbica de todas as nossas colónias da Africa Occidental com a metrópole. A ilha de  S. Vicente era ligada por um cabo submarino á de S. Tiago, esta a Bolama e Bolama a Bissau.
Da Guiné seguiu o cabo para a ilha do Príncipe, d'aqui para S. Thomé, de S. Thomé para Loanda, Benguella e Mossamedes, e de Mossamedes para o Cabo da Boa Esperança. O telegrapho está funccionando.

Contractou-se o caminho de ferro de Loanda a Ambaca, que já tem varias secções em exploração.

Contractou-se o caminho de ferro de Lourenço Marques á fronteira do Transvaal, e essa linha férrea está em exploração também.

Construiram-se varias pontes importantes em Angola e em S. Thomé.

Contractou-se e realisou-se o abastecimento de aguas de Loanda, e o abastecimento de aguas da cidade do Mindello de Cabo- Verde.

Retomaram-se as tentativas de colonisação em Mossamedes, e doesta vez com resultado melhor. Estão florescentes as colónias madeirenses de Sá da Bandeira e de S. Pedro de Chibia ; e, se o caminho de ferro agora projectado se realisar, serão dentro em poucos dias núcleos poderosos de colonisação.

A conferencia de Berlim resolveu as questões do Zaire. Podemos occupar emfim esse território comprehendido entre 5 o 12' e 8 o de latitude. Tivemos de acceitar, porém, o domínio de um novo Estado africano, o Estado livre do Congo, na margem direita do Zaire. Reconheceu-se-nos comtudo a posse de territórios que tínhamos recentemente adquirido e a que nunca tínhamos aspirado, os de Cacongo e Massabi.

D'ahi proveiu organisar-se o novo districto do Congo, estabelecendo- se por um contracto a navegação regular do Zaire, e comprando-se duas
canhoneiras e uma lancha para a policia do rio. Urgente era acudir á Africa Oriental, onde os estabelecimentos inglezes iam tomando um des- envolvimento assustador pelo lado dos Matabeles. Por isso se reoccupou Manica, ha muito abandonada, e alli se organisou um novo districto. Por isso também se aproveitou a morte do Muzilla, para reatar com seu filho e successor, Gungunha- na, os laços de relações esquecidas, tornando-as porém d'esta vez mais solidas, porque se fez o tratado em Lisboa e se estabeleceram residentes nas terras do regulo.

Outra questão importante havia a resolver em Moçambique, que estava ha quarenta annos pendente. O nosso visinho pelo lado do Norte, o sul-
tão de Zanzibar, considerava como sua a bahia de Tungue, e ahi estabelecera postos aduaneiros, e todos os signaes de domínio contra nós. Tínhamos sempre protestado, mas não conseguíramos obrigal-o a. desistir da sua persistente invasão, até que em janeiro de 1886 o sr.Augusto de Castilho, governador de Moçambique, fez reapparecer na contestada bahia a bandeira portugueza. Era o principio da reoccupação, que no tempo do ministério immediato foi concluída.

Não aconteceu o mesmo ao protectorado portuguez estabelecido em 1885 na costa de Dahomé, que o ministério immediato aboliu. Era uma idéa
sympathica a de fazer com que Portugal grangeasse a gloria de abolir aquelles sacrifícios humanos, que tornam tão horrorosamente legendá-
rio o reino de Dahomé. Pôde ser que o rei bárbaro e pérfido, de quem estão agora os francezes justamente queixosos, nos trahisse como os trahiu a elles, mas, emquanto durou o protectorado portuguez, e bem pouco tempo foi, não se fizeram as sinistras carnificinas.

Finalmente, retomou-se o caminho das exploracoes. Em 1884 Capello e Ivens voltaram á Africa, atravessarain-n'a de occidente a oriente, e regressaram gloriosamente á pátria em 1885, e n'esse mesmo anno foram Serpa Pinto e Augusto Cardoso explorar a região entre o Cabo Delgado e o Nyassa, n'esse mesmo anno ainda partiu Henrique de Carvalho a fazer a sua tão profícua e tão gloriosa exploração de Muata-Yanvo. Os Stanley e os Wissmann sentiam por toda a parte o echo da passagem dos exploradores portuguezes.

Assim a nossa politica colonial africana não tivera a persistência indispensável para o fim a que ella devia aspirar. Quando n'essa vastíssima província de Moçambique era indispensável occupar fortemente os pontos essenciaes para o domínio, e manter na nossa obediência os régulos que tão facilmente sempre nos seguiram, vemos
que em 1861 reoccupavamos o Zumbo, abandonado havia muito e em 1862 fazíamos o tratado com o Muzilla, e só vinte e três annos depois, em
1884, reoccupavamos Manica, e em 1885 fazíamos um mais solido tratado com o Gungunhana ; quando tão necessário era, para a administração,
para o commercio, para a agricultura, sulcar esses sertões com a locomotiva que leva a toda a parte a ordem, a prosperidade* só em 1884 e 1885 se faziam os caminhos de ferro essenciaes de Lourenço Marques e de Ambaca ; finalmente, quando a colonisação persistente, constante, era o grande meio efficaz de tornarmos esses vastos territórios solidamente portuguezes, só em 1849 se fundava a colónia de Mossamedes, e só 36 annos depois em 1885 se fundavam as colónias Sá da Bandeira e S. Pedro de Chibia.

Quando a exploração perseverante e scientifica do interior da Africa tinha de ser o complemento da nossa missão dominadora, deixávamos os nossos negociantes, como Silva Porto, fazer viagens admiráveis, os nossos mestiços percorrer o continente negro em todos os sentidos, sem os fazermos seguir por homens que soubessem conquistar esse continente para a sciencia, e esse commercio para a nossa bandeira, só em 1877 se lançou a primeira expedição scientificamente organisada, só sete annos depois em 1884 se lançaram outras três expedições scientificas de maravilhosos resultados.

E entretanto pairava em torno das nossas colónias a cubica estrangeira, arrojava-se a Europa inteira á partilha da Africa, e nós corríamos perigo de. ser excluidos. Os tratados de 1886 com a França e com a Allemanha impozeram-nos sacrifícios relativamente pequenos a troco do reconhecimento de vastos domínios em Africa Occidental, mas na Oriental é que estava o perigo, porque ahi affloravam o oiro e os diamantes e luzia a cubica nos olhos da Inglaterra. O perigo estimulou-nos e continuou-se, depois de se perder algum tempo, no caminho em que se entrara em 1884 ; novas expedições se tentaram, alargou-se um pouco o districto de Manica, fundou-se o districto do Zumbo, mas já tarde. A Inglaterra intimou-nos brutalmente a parar. Não contamos o resto ; a historia é recente e o coração ainda nos verte
sangue. . .

Ahi está em breves traços a historia da Africa portugueza nos cincoenta e seis annos de regimen constitucional. Preferiríeis ura romance? Não o pôde haver mais dilacerante do que este nosso ro-mance colonial, este romance africano, truncado, abandonado, de que apenas foram escriptos alguns capítulos por uns poetas que se apaixonaram, por esse épico ideal. Que os corações patrióticos dos que me lêem pulsem com a narrativa do que fizemos e do que podíamos fazer, e que se apaixonem também por esse ideal resplandecente. Isso bas- tará para que resurjâmos. O que nos tem faltado é a boa vontade persistente dos governos, e o sincero enthusiasmo do povo.
 
FIM DE TEXTO