Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 14 de agosto de 2010

Emigração - escravatura branca em Mossãmedes nos primórdios da colonização: 1851




Na Revista universal Lisbonense , encontramos os seguintes textos, que se revestem de interesse histórico, para a compreensão de certos factos ainda ignorados,  respeitantes ao processo de abolição do tráfico negreiro de escravos para o Brasil e Américas, e que em muitos aspectos assumiu contornos de escravatura branca, de Portugal para a antiga colónia do Brasil,   e do Brasil para Angola, bem assim como sobre os  primórdios da colonização de Moçâmedes (Namibe), e os anos que vieram a seguir:
....

Paço das Necessidades, em 2 de Julho de 185l.José Ferreira Pettana.


EMIGRAÇÃO

ESCRAVATURA BRANCA MOSSAMEDES.
Chamamos hoje a mais seria attenção do Governo e da imprensa sobre a importante carta, que ao diante publicámos do nosso illustre e mui patriótico correspondente de Pernambuco o Sr. António Bernardo Coutinho. O perfeito conhecimento dos factos aqui referidos, manifestado em toda a carta, e o credito que nos merece quem a escreve,  são motivos que nos dispensam de acrescentar quaesquer considerações a eloquência e verdade dos factos, que a carta perfeitatamente prova.

14 de Agosto de 1851.
S. J. RIBEIRO DE SÁ. (Carta.) 


Sr. Redactor. — Pelo vapor Paraense entrado hontem dos portos do Sul, recebemos jornaes do Rio, e nos do Commercio do dia 3 do corrente, vejo que entrara naquelle porto, vindo do Faial, a escuna Milheiro 1.°, portugueza , capitão Manoel da Rosa Martins, com 35 dias de viagem , 3 passageiros, e 118 colonos!!! Para os quaes em os seguintes jornaes, se lê o seguinte annuncio. «A bordo da Escuna portugueza Milheiro 1, fundeada defronte da Prainha, ha colonos de ambos os sexos e idades para se engajarem, mirados hontem do Fail; trata-se com o capitão a bordo, ou na rua d'Alfandega n." 39 , sobrado.  Que bella maneira de trazer passageiros?! 121 passageiros em a escuna Milheiro 1.!!! e ainda traz 16 pessoas de tripulação!!!

Oh Sr. redactor não haverá meio de acabar com este infame trafico de escravos brancos? Veja o Sr. Ministro da Marinha o caso que as autoridades fazem das ordens que se expedem pela repartição!

Veja o Sr. Ministro do Reino, se este navio podia sahir sem o Governador Civil dar os passaportes!

Veja o Sr. Ministro dos Estrangeiros, se os Cônsules, ou o Ministro portuguez no Rio, lhe deram parte deste , e de outros carregamentos, como eu lhe avisei,

Sr. redactor! O governo que já pagou a despesa da primeira expedição desta província para Mossamedes, que sabe que por subscripção foi a segunda , e sabe que da Bahia, foi outra que é terceira; a qual alli chegou em o dia 27 de Fevereiro , como logo eu mostrarei , com a copia de uma carta que d'alli vi; e deve saber que do Maranhão deve sahir outra ; porque não olhará para as medidas que lhe cumpre tomar em tal conjunctura?

Não lerá alguma noticia favorável daquella colónia , que faça publicar  e com ella animar aos que habitam em Portugal?

Será preciso que, os que para alli foram para trabalhar, estejam fazendo relatórios das suas diligencias, e soffrimentos , para virem aqui aos seus amigos, pois para aqui é que todos elles tem mais relações, pela demora que já aqui tiveram, (depois que sahiram de Portugal) para então d'aqui os remetter-mos para Portugal, com dispêndio de tempo, que ás vezes não temos sufficiente para este trabalho ; despesa de portes de cartas, e obrigação em que ficamos para a imprensa ahi os publicar?!

Quando o governo tem as suas autoridades, que só podem mais fielmente informa-lo , e o seu jornal aonde as fizesse imprimir;  mas qual a noticia que a tal respeito se encontra?

Ainda não será tempo de se saber que resultado tem obtido a gente que do Brasil para alli tem hido; que progresso apresenta aquella colónia em agricultura , e por consequência em commercio, ou de importação ou exportação?

Eu pedi em cartas de 2 e 7 do corrente, estas informações a pessoas que idas d'aqui, sei que tem bastante curiosidade, mas que talvez não tenham tempo , e jamais poderão ter facilidade em as obter verdadeiras por falta de dados, que só as autoridades possuem : como vou ter (pois já mandei assignar) todas as folhas de Lisboa e Porto, veremos se os particulares são mais cuidadosos do que o governo ; e se com estas noticias , bem positivas  se convencera estes de irem para alli, digo estes, os que estão era o Brasil; e com os que estão em Portugal , e que cá não devem vir, nem sahir de lá para fora ; a industria agrícola  e fabril, deve ser o seu padre nosso constante: jamais emigrarem , seja para aonde for. Para provar-lhe a fortuna a que os conduzem os taes alliciadores que os seduzem, até espalhando dinheiro para os tentarem, (os agentes) o que tudo depois elles pagam, bem pago, quando chegam ao Brazil; vou copiar alguns anúncios, que constantemente se acham em os jornaes ; o seu maior valor é todo o rigor da lei contra os que se retiram das casas para que são contractados; e contra quem lhe der asylo. Eu ainda não pude comprehender como judicialmente isto se faz ; vejo um rapaz de 14 anos que será levado aos tribunaes: já causa se faz respeitar, mas que horror nos não deve causar, quando vir-mos que a justiça concede mais direitos, ou melhores, a quem tem mais dinheiro, ou empenhos; e o que tem um colono, além dos seus algozes? Taes são os mesmos, que nos annucios vai ver, como tendo contractado com elle (que sabe o rapaz de 14 annos? taes são os capitães que os trazem, que sabe-se como os tratam; taes são os consignatários, e donos dos navios, e estes'ainda em maior escalla. O contratante desta faz remessa a outro contrabandista, embora toda a giria da argumentação para se acreditar o contrario ; ora o rapaz sahe da sua terra sempre enganado, salvo quando elle foge á farda , ou a algum crime , (ás vezes até amoroso;) chega ao mar, dão-lhe de comer e beber sempre miseravelmente, deshumanamente, barbaramente, por isso chega á vista de terra, levanta as mãos ao céo, e lança quantas pragas sabe proferir a quem é o culpado do seu tormento; imagina que elles estão findados, o que só mais tarde conhece que errou. Pois o mesmo que os alliciou , e enganou, ou o seu representante quer que elle lhe dó bem depressa o lugar despejado , e por isso o primeiro malvado que apparece pelos annuncios (que vão copiados) é homem honrado pela informação daquelle que o quer ver pelas costas; e Já vai o contracto fazer-se com um rapaz de 14 anos, (sem ter quem lhe doa a sua ingrata sorte). Este honrado homem, mais velho, que contracta, já se vê que que hade saber amarrar a victima , para bem se recompensar da quantia que por elle paga aos taes protectores, que o foram buscar a Portugal para o felicitar; e segue a regra ordinária; se tem escravos trata-os melhor do que o branco, pois que elles custam-lhe mais dinheiro, e se morrerem elle perde-o, quando a sua conveniência e que elles vivam muitíssimos annos; o branco é outra a conta, hade trabalhar muito e no peior, porque satisfeita a quantia, ou o praso do contracto, pôde o diabo leva-lo, que elle já nada perde, e vai contractar outro desgraçado, ao qual succede outro tanto, e assim por diante. Nisto como em todas as coisas, ha honrosas excepções, mas muito poucas. A época da febre bem o evidenciou, ali foi publicado o relatório da Sociedade de Beneficência em o Rio de Janeiro, que bera se explicou, em quanto á conducta da maior parte dos patrões para com caixeiros, quanto mais para com colonos.
Qual é pois a situarão do colono quando contracta ? E a do maior grito de escravidão, só a esperança da melhora o sustenta para encetar a mudança; mas elle fica obrigado a cumprir sempre mais do que rasoavelmente se podia ajustar, (dentro de casa) e se não tem valor para tanto, e foge, tem as penas da tal lei rigorosa, que elle só então sabe que o faz punir, mas que não lho disseram antes de embarcar em Portugal.

Qual é o negocio valido em Portugal sendo ajustado com indivíduo a quem a lei não conhece com a idade, e circunstancias precisas, para se julgar emancipado? Serão válidos os negócios feitos com rapazes de 14 annos?! Mas ve-se serem em o Brazil! Qual será o liomera que se dignará fallar neste objecto em cortes, ou em o Governo?


Quando se porá termo a tantas vergonhas e barbaridades?! Quando se porá um destes bárbaros allíciadores. armadores, (ou donos de navios), capitães, consignatários, tripulações, Cumules, Encarregado de Negócios, Governador Civil, Ministro de Estado, Capitão do Porto, ou de qualquer modo ou maneira culpado nesta vergonha e desgraça, n'um degredo por toda a vida, se não houver castigo maior?

Eu já lembrei, Sr. redactor, algum modo de reprimir, e até mesmo de extinguir este criminoso negocio; se alguma medida não appareccr para chegar áquelle fim , eu renegarei de me considerar portugues, antes quererei ser mouro!

Maldição eterna a quem assim abandona uma nação! Nunca mais só poderá permittir, que um indivíduo sem chegar á idade de se governar, siga do seu lar pátrio para aonde acha tanta depravação; nem mesmo aos que já são homens se deve consentir, sem lhe mostrar o que por cá lhe succede, embora elle persista ; e nesse caso siga ainda que para o inferno , jamais se poderá queixar e soffrerá para seu devido castigo. Como vai ver ha de todas as idades e sexos, com todo o rigor da lei ameaçados.

Em jornal de 3 de Maio de 1851 , le-se : « Gratififica-se a quem aprehender ou der noticia na rua da Candelária n.° 47, dos colonos seguintes: Francisco Machado Borges de 59 annos , Bartholomeu Corrêa de 28 annos, Alexandre Joaquim da Silva de 20 annos, e José Menezes de Oliveira de 19 annos, todas as idades prcscriptas são prováveis, sendo o primeiro e o quarto naturacs da Ilha Terceira , o segundo e terceiro da Graciosa, todos chegados a este porto a 27 de Fevereiro do corrente anno, vindos da Ilha Terceira , na barca Brasileira Maria 2., e se evadiram do deposito do Lazareto: o primeiro no dia 9 da Março, o segundo no dia 11, o terceiro no dia 18, e o quarto no dia 29 de Abril. O annunciante protesta desde já, e sempre com todo o rigor da lei contra os ditos colonos pelas suas passagens, e contra quem os tiver em seu poder. Rio de Janeiro de 2 de. 1851.—João Lopes da Costa, affretador da barca Maria 2." 

No jornal de 2 de Maio, lè-se o seguinte» Grattíca-se a quem aprehender ou der noticia, no largo do Carpim n." 75, de um colono natural da Ilha Terceira, vindo para esta no patacho Visconde de Bruges em7 de Janeiro, por nome João Ferreira, de 14annos de idade cabellos e olhos castanhos, arrastando a voz quando fala, tem muitas verrugas nos pés; o qual acha-se contractado a servir por um anno, e desaparecera no dia 29 do corrente , protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o tiver acoitado. Rio 30 de Abril de 1851.—Dr. Paulo Costa.
 
Egual vem em o do dia l, e no do dia 29 d'Abril, è-se : fugio hontem 27 do corrente, da rua d'Assembléa n. 24, uma colona vinda ha pouco tempo das lhas em o brigue Oliveira, por nome Jacinta Isabel, tan baixa e cheia de corpo , com cara de quem bebe muitui , e tem cabello coitado. Roubou uma porção e prata , jóias , dinheiro em papel e prata, roupa, protesta-se contra quem a acolher, não só pelo resto a sua passagem na forma da lei, como pelos objectos roubados. e gratifica-se a quem dela der noticia.— António José Baptista Bastos.

Faço-lhe remessa , Sr. Redactor, deste impresso que incluo , para egualmente fazer ver a essa gente, no depois de tão penoso tirocínio , se algum destes martyres chega a adquirir alguma coisa, e quer gaia uma pataca, tem da frente as sentenças que nelle apparecem ; será talvez de bom effeito o verem, que cá consentem que venham portuguezes, para se empregarem em a agricultura , ou talvez consintam que eles façam fretes; pois para qualquer outro emprego , não querem ; vejam que querem que se prohiba que tenha loja de alfaiate . sapateiro , ourives , ferreiro, marceneiro, funileiro, carpinteiro, etc. , se não pagar uma licença annualmentc de 800 000 rs. a 2:000 000 rs. , o que acho muito a propósito  com todo este projecto só falta dizer que fica livre de morrer das febres; no entanto tem uma virtude este projecto, assim como os seus auctores, que é serem bastantes em numero para fazer executar aquelle (quando por lei) e dizerem com bastante antecedência , para se estar prevenido com tempo. Eu julgo que isto merece ser ahi publicado em letras bem visíveis, para ser bem visto por quaesquer curtos da vista; e para mais rapidamente chegar ao conhecimento dos que não sabem ler , dar-se aos cegos , para elles apregoarem ; e até aos rapazes das cautellas , visto o muito que elles transitam e gritam. No entanto , aqui se appresenta a somma dos portugueses chegados em o mez de Marco ao Rio de Janeiro, 787, aos quaes se lhe dá o pomposo nome de escravos brancos.

Eu, Sr. Redactor, vou em romaria a qualquer Santo que goze de muita fé , para lhe mostrar o quanto eu fico agradecido, quando estes Srs. fizerem voltar os navios que taes carregamentos trazem , pelo mesmo caminho , com todos os taes passageiros ; e mais me contentarei se o capitão ficar preso, e o consignatário , ou dono , ou affretador tiver um degredo por toda a vida , e em jogar em que possa durar pouco tempo com vida ; não peco que seja morta qualquer pessoa, porque entendo que esta altribuirão só á natureza compete, em os casos mesmo mais graves que se conheçam ; porque , pela qualidade de crime, nenhum mais revoltante eu encaro, do que o dos taes Srs. donos, affretadores, e consignatários dos mesmos navios. Cumpre todavia mostrar que são também navios brazileiros, que se empregam em ir buscar os taes escravos brancos, para virem tirar aos mesmos brasileiros os logares no commercio; o que é falta de patriotismo , e elles não devem commeter, para se poderem queixar dos portuguezes; pois se me queixo é só dos portuguezes que cá os trazem  para elles contratarem aos 14 annos. As cartas que seguem são as que eu copiei, e notei acima.

Sr. T. P. da M. Estima. — Pernambuco.
Loanda 1 de Março de 1851.
Amigo e Sr. — Participo-lhe que me acho arrumado em uma excellente casa , ganhando 25 000 rs. por mez, e que me acho prompto para o seu serviço ; seu primo desarranjou-se da casa em que estava , mas logo se arranja. Dos colonos que vieram para esta cidade só dois é que não se arranjaram , um por que é uma lesma , o outro por ser de costume embriagar-se, que é o F. . . A C.. ., (aqui enche 12 linhas com coisas próprias de rapazes, o segue:

A rapaziada de Mossamedes decidiram-se pelo centro da Colónia, uns foram para os Gambos, terra muito fértil, e regada por um rio, ponto de muitas esperanças para a lavoura , c Commercio ; outros para a Huila , aonde se vae montar um engenho pelo Governo, para o que a escuna Falcão já sahiu daqui carregada de canna , para plantações: outros foram para o Bumbo com o Costa e o Moreira, montar os seus engenhos, aonde se acham muito contentes, e com muitas esperanças; Deus se digue proteger esta terra.

Já se acabaram mais cinco casas na povoação pertencentes á gente da segunda expedição que dahi veio, e estão fazendo mais; esquecia-me dizer-lhe que no Giraúl (perto das hortas) se arranjaram umas calinas, e os andores foram muito felizes, pois tem tirado sai, egual ao de Setúbal, c com muita abundância.


Mossamedes, á primeira vista, altera os ânimos mais resolutos, mais depois de se examinarem os seus contornos , já se cria outra alma ; o homem sente-se com toda a anterior coragem; fique certo que o não estar mais prospera esta Colónia deve-se ao Bernardino.

Ha dias chegaram do Rio de Janeiro dez colonos, e esperamos o navio «General Rego» de lá com mais outra expedição, em que dizem vem duzentos mocetões, Teremos : assim como que o governador desta recebeu aviso do Ministro da Marinha para esperar outra expedição do Maranhão. A exportação de Mossamedes em o anno de 1849 a 1850 em cera , marfim , urzela e peixe secco, foi de 120:000^000 réis. Ahi deve ter chegado o Pavão que dahi veiu , o qual sendo governado pela mulher , aqui-não quiz ficar , apezar de ganhar por dia 2 500 réis; veja se elle ahi ganhava similhante jornal.

O Manjaricão parece que se quer retirar, a que também não admira, visto ter mulher e filhas, e pôde ser verdade que duas delas estavam faltadas para cazarem, como aqui alguém me diz.
Fique certo, caro estima, que Mossamedes é uma terra muito boa , e hade ser feliz quem se dedicar ao campo, a fazer progredir a agricultura, tendo saúde ponto em que felizmente muito ganha esta província, presentemente, ao Brazil; aqui sabemos o que ainda está sucedendo em essa provincia , na Bahia , Rio de Janeiro, Pará e outras.

Se tiver alguma carta para mim, fará favor de ma remetter ainda que seja pelo Rio, pondo a direcção para casa de J. C. de Bittancourt.—Saúde e felicidade . sou de v. attento venerador e criado. — José António Pinto Guimarães. 

. S. O Rangel c o Coutinho foram para os Gambios, o primeiro encarregado de fazer uma pequena fortaleza.


Presadissima filha do meu coração. — Pernambuco.
Mossamedes 27 de Fevereiro de 1851.

Com muito gosto pego na penna para te dizer da minha saúde , que felizmente e boa , e de teu mano egualmente. Já te escrevi por dois navios, e ainda não tive resposta tua. Aqui não ha regalos, que se possa mandar algum , a povoação é muito pequena , ha muitas terras , mas ás vezes faltão as chuvas em tempo próprio; dá-se muito bem o milho e outras plantas, três vezes no anno; por hora o negocio é pouco, mas espera-se que vá melhorando , o clima é muito bom , tanto que de Benguella vem quem é doente , aqui tomar ares.
Aqui estou com casa de chocolate, caffe , comida , e bebida etc.(como sabes era minha tenção) por hora em ponto pequeno, os lucros são pequenos, já comprei uma casa, e estou acabando outra de pedra e cal, que deve estar prompta daqui a dois mezes; também comprei um pequeno sitio (quinta) no qual tenho de hortelão o António Gallego , e me dá hortaliças e frurtas, tanto para gasto de casa, como para vender.




Minha filha, faz muita diligencia para fazer bom negocio, e mais teu mano , pois eu ainda quero que nos juntemos outra vez, ou aqui. ou em Portugal, que isto é muilo bonito, para o conceito do publico, e para mim de eterna consolação; teu mario José Pedro esta na minha companhia , mas pouco me ajuda ; é aqui o mesmo que era n'ossa.

Eu já te disse para me mandares algumas fazendas, porém que seja tudo muito barato, que é para vender igualmente barato; no caixão das obras de folha, não me mandes cocos, que aqui não se vendem. Diz ao Sr. Francisco Barbosa que em tendo navio me mande três barricas de assucar mascavado, uma do branco, quatro de Tirinha de trigo. e seis saccas da de mandioca , e qualquer outra cousa, que elle veja cá se venda; e a conta , que eu pagarei tudo promptamente como costumo.
Teu padrinho morreu em Loanda. Faz da minha, parte muitas visitas a todos, e escreve-me a miúdo; esta serve igualmente para teu mimo. Esta tarde entrou neste porto, vinda da Bahia , uma barca com colonos que aqui já esperávamos , dizem que vem 200 , veremos. — Tua mãe que muito te estima.—Margarida de Jesus.

Em 21 de Maio.

Sr. Redactor. Eu quiz enviar esta em o vapor Tcviot, mas elle não me deu tempo , por isso a augmontarci, e com que será desgraçadamente com a chegada de mais dos taes escravos brancos.

No dia 10 deste entrou no Rio a galera portugneza Flora, capitão António Martins Fiúza de Oliveira, cm 42 dias do Porto, 35 pessoas de tripulação, e 150 passageiros. No mesmo dia 10, a escuna portugueza Leonor, capitão João Joaquim Gomes, em 40 dias do Fayal, 15 pessoas de tripulação c 137 passageiros. Ora aqui lemos desde o dia 2 a 10 de Maio entraram em o Rio de Janeiro 408 porluguezcs, fora alguns dos homens da tripulação que haviam de ficar , pois estes navios jamais podem pagar a tanta gente; metade mesmo é suficiente para a sua manobra; podemos contar 440 pessoas!!! Já disse bastante , em esta data a tal respeito ; esse povo , especialmente do Porto, deve fazer justiça a esses monstros, que ahi vão pejar os navios ; aliás ficarão sem gente ; e cá andarão fugidos uns , presos outros , penando em o martyrio dos contractos outros, e todos em a mais aviltante situação.

Concluirei dando a v. copia do annuncio que o consulado inglez fez, para governo de quem quizer daqui escrever para Portugal , e para qualquer outro ponto; eu dezejo que appareça em a imprensa , qual a regra que ahi se segue para as cartas c jornaes políticos e liltcrarios que se remellem para o Brazil, em as mallas dos vapores inglezes; pois que ainda o não achei em algum.

Diário de Pernambuco 8 de maio.—Consulado britannico em Pernambuco.
Faz-se publico que por ordem do correio geral da Grã-Bretanha em conformidade de um convénio entre o governo de S. M. B. e o Governo de Portuga) , serão expedidas e recebidas as malas para Lisboa , deste consulado, pelos vapores da carreira sem pagamento de porte algum aqui, restando ao agente do dito correio tomar conta ao peto total das cartas e o numero das gazetas que vão, pondo-lhe o respectivo sello da data , não pago , e remettendo a nota do pezo, e numero ao agente britannico em Lisboa, e aqui se ha de cobrar pelo mesmo o respectivo porte á rasão 468 rs. por onça das cartas e 2 ditos por cada gazeta.

Na chegada dos vapores do sul as malas devem logo estar promptas, e immediatamente se ha de unhar na porta do consulado a ultima hora do recebimento, e depois não se receberá mais cartas nem gazetas, por qualquer empenho que se pertencia fazer; isto conforme as ordens geraes, e para o bom andamento do despacho e serviço publico. Regula isto somente para Lisboa , e quaesquer cartas ou gazetas achadas no sacco para qualquer outro porto ou lugar ficam sujeitas a serem detidas e encaminhadas pelo agente depois de receber o respectivo porte aqui de 445 rs. por meia onça ; mas serão incluídas como para Lisboa todas as cartas e gazetas que se acharem Do sacco para o reino de Portugal, e assim encaminhadas para Lisboa em direitura, sem que possa haver reclamação alguma por erros ou lapsos seus a este respeito.


Recife 6 de Maio de 1851.

Ao Christophles , Vice-Consul. — Tendo de concluir, Sr. Redactor , cumpre-me fazer uma confissão, e é, que tenho-me dirigido á imprensa litleraria , para que se não pense que aqui anda espirito de partido, que se lhe attribuiria pelo jornal a que me dirigisse, tanto os que lessem lá , como aqui; eu mesmo não olho como política aquillo que respeita tão de perto, e em tamanho gráo, aos interesses geraes de todos os membros da Nação Portugneza. Da política do Brazil eu nada sei mais, que respeitar todos os Brazileiros, e em quanto eu poder transitar sem ser incommodado , como sempre me tem succedido, nada me auctorisa a levantar a menor queixa. A sua imprensa é que faz bem ver , que o mar não é de leite ; e ainda nesta, eu vejo que exagerados é que produzem o mal, de ambos os lados ; no entanto é forçoso reconhecer que a trovoada se vai formando. Em Portugal desejo que governe aquelle ou aquelle que melhor ou mais se chegarem para a lei, que sejam affastados sempre aquelles que sabem mais sofismas que executal-a; esta habilidade, tem por resultado , maiores prejuízos e a desgraça para mim não tem encantos. Não devo esperar que anjos desçam da alta região em que os imaginamos, para vir governar sem alguns erros; mas erros involuntários são menos prejudiciais ; que os estudados com todo o esmero. Igualmente me falta vaidade para escrever para o publico, mas a modéstia não me priva de informar do que souber aquelles que tão corajosamente manejam a penna, e que constantemente vejo o empenhados , em arrancar Portugal á sua muita e tão antiga apathia. Eis a rasão porque lhe tenho dirigida as minhas informações, e pedidos; incitado pela leitura dos seus escriptos, e pelo que nelles encontrei em os D, 18 e 37 do novo anno.


Já terá ahi chegado o projecto apresentado em a Assembléa {do Rio de Janeiro para no dia 7 de Setembro de 1870 ficar extincta a escravatura em Brazil. Eu procurarei ver as reflexões que a imprensa faz a tal respeito, e em relação aos estrangeiros qua aqui residem. Tendo enviado alguns escriptos á redacção da Revista Popular , espero ver em o dia 2 de Junho, se sobre elles se diz alguma coisa , assim como pedia que depois , toda a mais imprensa se encarregasse de reproduzir o que aquelle jornal disser. O meu tempo é muito pouco, por isto, e pelas minhas fracas ou nenhumas habilitações , eu peça desculpa , para que relevem meus erros, e me considere sempre

Seu constante leitor. *. B. COUTINHO.
In Revista universal Lisbonense / por UMA Sociedade Estudiosa, Volumes 12-13

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