Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 10 de agosto de 2010

Visita a Moçâmedes do Presidente da República, Óscar Fragoso Carmona: 8 de Agosto de 1938




 
                                                                                    O navio "Angola"
          

Em 1932, após a tomada de posse como Presidente do Concelho de Ministros, por António de Oliveira Salazar, inicia-se o processo de revitalização de Portugal e do seu Império Colonial. No ano seguinte, é aprovada a nova constituição, onde se define o Acto Colonial, a Carta Orgânica e a Lei da Reforma Administrativa Ultramarina. Assim, criava-se uma unidade administrativa em que o poder central sob o regime autoritário, conservador e nacionalista se estendia da metrópole ao ultramar e todos tinham os mesmos direitos legais e de cidadania, com excepção dos "indígenas". Como Presidente do Conselho de Ministros, Salazar cria um Governo apoiado na censura e numa máquina de propaganda, desenvolvida em favor do seu programa e ideologia, utilizando emissoras de radiodifusão (o Rádio Clube Português, a Rádio Renascença, de cariz católico, e a Emissora Nacional). Progressivamente, o interesse e a aposta desenvolvimentista nas colónias ia aumentando.

Qual era o ambiente que se vivia nas colónias? 

Entre 1930 e 1945 Angola conheceu um período de estagnação – e mesmo de regressão forçada,  económica, social e política.  Em 1935 a maçonaria que esteve activa no consulado de Norton de Matos, é proibida. Ele mesmo,  republicano, maçon,  seguidor do ideário das "Luzes": Liberdade, Igualdade e Fraternidade --- que desenvolveu em Angola um notável e vasto trabalho civilizador, tendo, entre outras medidas, promovido a instrução com a fundação do primeiro liceu em Luanda, a abertura de escolas primárias; a construção de milhares de quilómetros de estrada; a criação de uma instituição de assistência social para indígenas, um trabalho reconhecido pelos democratas ---,  vê todos estes avanços serem considerados subversivos para a Ditadura.  A União Nacional como partido único, fez com que os antigos partidos passassem a funcionar na clandestinidade, ou acabassem por se extinguir. Este clima repressivo, seria mais tarde, em 2 de Outubro de 1945, agravado, com a criação da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), que desempenhava funções administrativas e de repressão e prevenção do crime.


Vejamos o que  sobre esta visita do Presidente da República Óscar de Fragoso Carmona nos diz  o Boletim da Agência Geral das Colónias, vol xiv . nº 16:

 

Moçâmedes, 8 de Agosto de 1938.

"...O «Angola» chega a Mossâmedes às 9 horas precisas.

Notas de reportagem de bordo:
Desde as 9 horas que navegávamos à vista da costa de Mossâmedes. A cidade foi-se pouco a pouco mostrando, com a sua fisionomia de terra de pescadores, branca e graciosa. 

                                     foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16

 "...Às 10 e 15, no meio duma flotilha composta de mais de trezentas canoas e outras embarcações de pesca, embandeiradas, o «Angola» e o «República» navegavam nas águas da baía.

 
  foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


  foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


  foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16

 "...Desses pequenos barcos, e de terra, incessantemente, sobem foguetes no ar. Por cima dos navios que chegam sobrevoam aviões do Aero-clube.


 
A comitiva de cuanhamas e cuamatos, aqueles tendo à frente a sua Rainha Galinacho que se vê sentada ao lado da bandeira portuguesa, aguardam na praia o desembarque...  foto do Boletim da Agência Geral das Colónias, vol xiv,  nº 16



"...Além, na ponte, formava a tropa. Indígenas dançam. Vêem-se pretos do N’giva, da Namacunda, compondo um soberbo friso de bárbara beleza, quarenta cavaleiros cuanhamas, para os quais foi preparada uma aldeia. Os demais negros, agitam bandeirolas das cores nacionais.
Quanto aos brancos que acudiam a receber o Chefe de Estado, formavam considerável multidão. Além da gente de Moçâmedes, viera povo do Lubango, e doutras partes.



Estavam, por isso, cheias e apresentavam um rumoso e animado aspecto as ruas, todas embandeiradas e engalanadas de arcos e plintos com os escudos como os de Môngua  Naulila. Há expectadores até nos telhados, sôbre «marquises». Uma nota comevedora, - aponta um jornalista, é dada pelos antigos colonos da Huíla rodeando a sua bandeira branca que êles amam como um troféu valioso e que ostentam com orgulho. E no meio desses velhinhos, que são um grupo encantador de gente rústica e boa, gente da terra e que para a terra vive, que aqui se fixaram e de que nasceram outras gerações, há dois que, modestamente, como envergonhados ainda de terem sido heróis, ostentam no peito o colar da Torre de Espada do Valor, Lealdade e Mérito.  São Wellen Venter e Bernardino Fernandes Fraga, ambos portugueses e a quem a Pátria deve serviços inestimáveis nas campanhas do Sul de Angola.
Das janelas e varandas, pendem vistosas colgaturas.

O Presidente à entrada do navio na baía...  foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16



Mais de duzentas embarcações festivamente rodeiam o «Angola»...  foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


"...Às 10 horas da manhã efectuou-se o desembarque do Senhor Carmona. Os navios de guerra «Beira» e «República», que comboiou o «Angola», salvam. De terra, a foltaleza de D. Fernando dispara os seus canhões antigos e fazem ouvir a sua voz. Estralejam no ar foguetes; estoiram morteiros.

Um quarto de hora depois, via-se acolhido na ponte pelas individualidades principais da província, por muitas senhoras, e uma delegação de colonos da Huila com seus estandantes.

A vereação achava-se sob o arco que simboliza as portas da cidade -descreve um espectador do espectáculo-. O seu presidente faz entrega das chaves ao Senhor Presidente da República, que, amavelmente, pede para as devolver. Novas e vibrantes manifestações, enaunto de cima, do alto do arco, um grupo de crianças gentos deixa cair flores. «Vivas», aclamações, envolvem talbém o Sr. Ministro das Colónias, Governador Geral e Governador da Província. O hino nacional é ouvido em religioso silêncio. O Senhor Carmona passou em revista a guarda de honra.



Na Rua 4 de Agosto, a caminho do Salão Nobre dos Paços do Concelho
  foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16

Na Rua 4 de Agosto, a caminho do Salão Nobre dos Paços do Concelho
  foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


"...Segue-se o desfile das Companhias de infantaria indígenas que a constituem e depois organiza-se o cortejo para o Município. Sempre no meio de aclamações - conta o Notícias da Huíla - dirigem-se, sob arcos que ornamentam as ruas, para a Casa da Câmara. Mas o entudiasmo é tanto, que o povo invade as ruas, querendo rodear o Presidente, a que não cessa de saudar vibrantemente. As janelas, engalanadas, estão apinhadas de gentis senhoras. Cai uma chuva de flores. E as senhoras e as meninas não são as que menos mantem o seu júbilo. O friso lindíssimo de crianças das escolas primárias de Mossamedes e do Lubango, levam num beijo ao Senhor Presidente da República, a saudade de milhares de crianças suas companheiras, nota enternecedora que rasa os olhos de lágrimas de comoção e de ternura. E neste pequeno campo, grande pela vibração e pelo entusiasmo com que milhares e milhares de portugueses prestam a sua homenágem à Pátria, na pessoa do Presidente da República, vivem-se momentos inolvidáveis. E o Senhor General Carmona, figura bondosa bondosa de olhar enternecedor para tudo quanto o rodeia, sentindo bem a vibração sincera das almas em delírio, agradece, sorrindo, sorrindo sempre, emocionado e dominado. A multidão cerca o edifício da Câmara, pois lá dentro não cabem todos, apesar da sala ser ampla.

O Senhor Presidente da República chegou à Câmara que inaugurou, com a sessão solene, o seu salão nobre. Nas paredes destacam-se os retratos do Chefe do Estado e de Salazar. Os estandartes de todas as edilidades da Província, do Aero Clube, do Gimnásio Atético, do Sporting de Lisboa, do Sporting, da Associação Ferroviária, dos Empregados do Comércio, do Liceu da Huíla, formam no fundo em volta da mesa de honra, onde tomam lugar, entre prolongados «vivas» e aclamações ao Chefe do Estado, o Ministro das Colónias, o Governador Geral, o Governador da Província, e o Presidente da Câmara Municipal.

   foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


Fora, em frente do do edifício, a multidão continua a aclamar o Senhor General Carmona. Por isso, antes da sessão começar, viu-se o Chefe do Estado na necessidade de aparecer na varanda com o Sr. Ministro das Colónias. As aclamações redobram de delírio então. Andam no ar capas de estudantes.


Uma vez no salão, o Senhor Presidente da República começa a sessão solene. Tudo quanto a Huíla e Mossãmedes contam de representativo estava presente: convidados, oficiais da Marinha, do Exército, muitas Senhoras. Em cadeiras reservadas no estrado sentam-se as esposas do Sr. General Carmona, Dr. Vieira Machado, Coronel Lopes Mateus, Capitão Ferreira de Carvalho e outras distintas damas, magistrados, vereadores de Câmaras. Preside o Sr. General Óscar Carmona, que tem à direita o Sr. Ministro das Colónias e o Governador da Huíla, e à esquerda o Dr. Governador Geral e o Presidente do Município.

É o Presidente da municipalidade, Sr. Francisco Monteiro do Amaral, quem primeiro usa da palavra.
Disse:(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 312  a 316)

Depois falou o sr. José Antunes da Cunha, presidente da Associação Comercial e Industrial de Moçâmedes, que disse: 
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 316 a 321)
Seguiu-se no uso da palavra o Governador Provincial da Huila sr. Capitão Ferreira Carvalho.(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 321 a  324)
Chegou o momento mais solene da cerimónia. Toda a assistência , homens e senhoras se erguem e preparam-se para escutar. O Sr. Presidente da República, vai falar. 
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs.324 a 327)  

Depois o sr. General Carmona condecorou as seguintes pessoas : Coronel médico dr. Monteiro do Amaral, com a Comenda de Cristo; Antunes da Cunha e Dr. Carlos Tenreiro Carneiro, respectivamente, presidentes da Associação Comercial e Sindicato do Pesca, com o grau de Cavaleiro de Mérito Industrial, Manuel Seabra, comerciante do Lubango, Caetano Evaristo Peixoto, funcionário ferroviário, oficiais de Mérito Industrial, António Joaquim Ribeiro, de Moçâmedes, e José Nóbrega, do Lubango, agricultores, oficiais de Mérito Agrícola.
  foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16

O Sr. Presidente da Republica dirigiu-se para o antigo palácio do Governo, de carro, que a multidão tirou. Foi uma apoteose. A multidão, - brancos e pretos, - comprimia-se, galvanizada pelo mesmo anseio de saudar. Os estudantes rodeavam o automóvel. Os alunos do Liceu da Huila cobriam o veiculo com as suas capas. O Sr. General Carmona, de pé, comovidamente, agradecia as manifestações de carinho que de novo lhe manifestavam. Chegado àquele Palácio, o Sr. General Carmona apareceu à varanda, a fim de satisfazer as insistências da multidão clamorosa. Igualmente foi chamado o Sr. Ministro das Colónias, que veio acompanhado da senhora de Fragoso Carmona, a qual foram dados, também «vivas» entusiásticos.


Às 13 e 30 foi o almoço na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição» da família Mendonça Torres, à beira do Bero.

Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda e demais família, recebiam com extremos de gentileza. O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva. A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, dquela deliciosa festa íntima.

O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse: (vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330)

Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com a Ordem de Mérito Agrícola.

Nota da visita feita pelos jornalistas à fazenda:

«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e  mão do homem a orientar e  trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.»

Às 16 horas efectuaram-se na sala de recepção do Palácio do Governo os cumprimentos o Sr. Presidente da República. Além das autoridades civis militares e funcionários superiores , haviam acorrido corporações, colectividades económicas, imprensa, e os colonos do distrito de Moçâmedes, estando a recepção imensamente concorrida. Afavelmente, o Sr. General Carmona recebeu cumprimentos , tendo palavras amáveis para todos. O mesmo aconteceu no dia seguinte, quando a população dos colonos e deputação com as autoridades e imprensa da Huila foram levar o Chefe do Estado a expressão da sua respeitosa homenagem. Todos o General Carmona encantou pela gentileza e simplicidades do trato.

O Sr. Presidente da Republica visitou as instalações do Sindicato da Pesca e as fábricas de conservas da Torre do Tombo, cujos operários o aclamavam com ardor.

Após as visitas às fábricas, o Sr. Presidente da Republica, sempre acompanhado pelos Srs. Ministro das Colónias, governador geral e governador da província, e vários membros da comitiva, deu um passeio de automóvel pela cidade.





  foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16

Nesta foto a rainha do cuanhama "Galinacho" sobe à tribuna para cumprimentar o Presidente Carmona


  foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


À tarde e à noite, no coreto da Avenida da República, tocou a banda da 1ª C. I.I. O movimento no lindo jardim de Moçâmedes foi enorme.



Notas da reportagem.

São 19 horas. A cidade iluminada e bela. Os edifícios públicos e a Fortaleza de S. Fernando estão iluminado a electricidade. Vêem-se balões a correr pelas ruas. Encosta sobre o palácio está cheia de luz. O jardim público regorgita de gente.

No Clube Nautico e em outras casas dança-se desde as cinco horas da tarde. O entusiasmo é geral e indescritível. Mossamedes está a dar, com o Lubango, cuja população na maior parte está aqui, um nota de portuguesismo inequecível.

9 de Agosto.

                                     Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16



A nota cativante deste dia, foi a festa infantil que teve por quadro o Jardim Público, à beira mar, oferecida pelo Sr. Presidente da Republica e sua ilustre esposa, sra. D. Maria do Carmo de Fragoso Carmona.

Principiou a festa por um desfile de milhares de crianças de Moçâmedes, Lubango e Huila , - e uma explêndida demonstração do poder de adaptação da nossa gente. Todos aqueles pequeninos eram filhos e até netos de colonos. Lindíssimo espectáculo que arrancou por vezes ardentes palmas à assistência, principalmente ao ser entoado por aquele Portugal de miúdos o hino nacional. Centenas de senhoras presenciaram a festa, tendo algumas delas auxiliado a esposa do Chefe do Estado na distribuição de brinquedos, que dela fez parte.
 

  Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


Depois, o público pequenino sentou-se, em alacre algazarra, às mesas, sobre as quais havia guloseimas em abundância, a encantar os olhos, a alvoraçar o apetite. Terminada a refeição, espalhou-se a pequenada pelo jardim, brincar, até quase ao fim da tarde.  


Eis como um jornalista  de Angola  descreve a festa:

«À tarde, no lindo jardim da linda Moçâmedes, terra encantadora e de encantos, coberto de flores do deserto, na expressão feliz de Vieira da Cruz, realizou-se a parada infantil de que participaram mais de mil crianças das escolas de Moçâmedes e da Huila. Apenas crianças das escolas, porque, necessário é dizê-lo, se todas formassem, as da Huila e de Moçâmedes, formariam uma legião de mais de quatro mil...»


                                        Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16
  


Rapazes e meninas, todas branquinhas, de pele e vestuário, a sorrir ao sol, o sol amigo dos pobres, e a sorrir ao venerando Chefe do Estado, que elas, na sua brandura sentem ser alguma coisa de muito respeitável.

Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16

Impecavelmente formadas a quatro, tambor à frente, bandeira de cada escola em cada grupo, assim passavam durante quase meia hora, saudando o Senhor Presidente, da Repúbliba que embevecido seguia com a vista admirada a longa fila de laçarotes brancos, esvoaçando como pombas nas cabecitas louras e escuras das pequeninas.

"...Estão alí os frutos da colónia, a garantia da perpetuidade da nação portuguesa, disse o venerando Chefe do Estado no seu curso da chegada, referindo-se às criancinhas -.

É assim de facto. As crianças são o repositório de todas as nossas esperanças: esperanças de pais e esperanças dos estadistas. 

Ai do país que descure a preparação da sua infância e o ensinamento da sua mocidade. Mas isto são doutrinas e nós por hojs só queremos noticiar, para mostrar mais tarde, logo que as circunstâncias no-lo permitam, colher os ensinamentos e tirar as conclusões das inúmeras manifestações de que foi alvo o Sr. General Carmona».

Antes de retirar, o Chefe do Estado percorreu , de automóvel as ruas, tendo sido, durante o percurso, sempre, delirantemente aclamado.
                                                                         *  *  *


O Chefe do Estado enviou um rádio ao comandante do aviso «Afonso de Albuquerque»  a manifestar a sua grande satisfação por a guarnição do navio o ter acompanhado nessa grata missão de enaltecer a Pátria do Império Português.


À noite, no Palácio, realizou-se um jantar de gala

Pormenoriza do aspecto da sala, a reportagem  local:

«Profusão de luzes, de flores e de cristais. Notas de distinção e de elegância. A refulgência dos ouros das fardas e a severidade do negro das casacas contrastavam com as cores variadas dos vestidos das senhoras, de grande elegância,sôbre os quais as jóias punham cintilantes fulgurantes».

Abriu a série de brindes, o Sr. capitão Manuel de Abreu Ferreira de Carvalho, governador da província, que disse:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 335 a 339)

Falou depois o sr Eduardo de Mendonça Torres pelos colonos do planalto:


(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg . 339 a 343

Pouco depois pediu vénia para brindar o representante dos colonos da Huíla, sr. João Ricardo Rodrigues, que se expressou nos seguintes termos: vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 343 a 346 )

Encerrou a série de brindes, o Dr. Carlos Baptista Carneiro, pelos urbanismos económicos da Huíla:(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg.

Por último o Sr. Presidente da República pronunciou breves palavras de profundo reconhecimento pelas atenções que lhe têm sido dispensadas e mostrando quão grata tem sido para o seu coração de lusíada esta viagem que o trouxe a terras tão portuguesas, onde todos se congregam para dignificar o nome de Portugal.



10 de Agosto

 
Às 16 horas, realizou-se uma parada militar, a que assistiram, numa tribuna, levantada na Avenida, o Sr. Presidente da República, o Sr. Ministro das Colónias, o sr. Governador Geral, casas civil e militar do Chefe do Estado, e outras altas entidades.



 
Grupo de quarenta cavaleiros cuanhamas, no interior do campo de futebol, a aguardar a integração no desfile. Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


Ao lado da tribuna formava uma força da marinha do aviso «República». Brilhantíssima de impecável garbo a marcha das forças militares.À passagem das unidades, o publico irrompia em aplausos. Ao desfile das duas companhias de Infantaria Indígena, seguiu-se os das deputações indígenas de toda a província. Cada soba vestia farda de pano branco, de alamares verde e encarnados, trazendo na cabeça bonés de pala. Na Avenida comprimia-se o povo curioso do bizarro espectáculo desse desfile. Iniciaram-no os escoteiros.

 
Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16

Vinha depois o grupo dos quarenta cavaleiros cuanhamas que passaram em frente da tribuna, no belo arranque de um galope, a saudarem, agitando no ar os chapéus emplumados, soltando ao mesmo tempo entusiástica gritaria


 

Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16

Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


A seguir, numerosas tribus, cada umaformada por numerosos indígenas, indo à frente a rainha Galinaxo do Cuanhama, com seu trajo de gala e grande séquito de damas, uma das quais, a seu lado, ostentava alto a bandeira portuguesa.

«No local onde estamos, - descreve o representante da Província de Angola, - vê-se a Avenida extensa que é um mar de pretos e de tribus, todos com bandeirinhas nacionais que agitam no ar, produzindo um lindíssimo efeito e comunicando o seu entusisasmo à multidão que irrompe em «vivas» prolongados.


Todas as tribus indígenas, levavam, ao lado, os respectivos sobas e régulos, bem como a bandeira nacional. Sempre que passavam em frente da tribuna presidencial, para saudar o Chefe do Estado, - soltando gritos de entusiasmo, a seu modo, como homenagem do máximo respeito e veneração a Sua Exª - , ouviram-se também , entre os gritos, muitos «vivas» a Portugal e de simpatia pela Nação. Cada tribu apresentou os seus batuques ao som dos quais os guerreiros e dançarinos negros rodopiavam e faziam cabriolas, oferecendo assim um espectáculo inédito, de cor local interessantíssina. Toda a gente o admirou, incluindo aqueles que vivem em Angola.O desfile prolongou-se por longo tempo. Muito curioso o facto de se terem apresentado na parada, indumentárias indígenas das mais variadas, tanto em homens como em mulheres, segundo as regiões. As mães conduziam à mão ou às costas os filhos, visto que associavam a família a estas manifestações.»

Assim foram passando cuanhamas, cuamatos, cacondas, ngivas, naulilas, evales, namacundes, quipungos, quilengues, muílas, muhembes, - as raças bravias do Sul de Angola …

Terminado o desfile a rainha Galinacho, com o seu séquito e as mulheres dos principais sobas, dirigiram-se à tribuna a cumprimentar o Chefe do Estado , que comunicou por meio de um intérprete, e ofereceu à soberana preta cortes de seda, além de outros valiosos presentes,entregando aos chefes medalhas comemorativas da sua visita a Angola.


Grande alegria produziu a gentileza do Sr. Presidente da República, que foi aclamado pelos negros, assim como o nome de Portugal. O Sr. General Carmona retirou-se em seguida para o Palácio, sempre muito ovacionado pela multidão, que também aclamou os Srs. Ministro das Colónias, Governador Geral e Governador da Província.


Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16



Fotos : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16 

 À noite, os edifícios e a fortaleza iluminavam novamente, assim como muitas casas particulares. A Câmara Municipal ofereceu um baile que decorreu com o maior brilho. Moçâmedes apresentava o aspecto de uma animação de que não se guardava memória.


Às 6 horas da manhã, do Palácio do Governo, largou uma extensa fila de automóveis.

Ia-se ao deserto de Mossamedes a caçar. Diversão interessantíssima em honra do Sr. General Carmona. No Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço. Depois repartiram-se em três grupos de caçadores, cada qual com o seu sentido, tomando o do Sr. Ministro das Colónias, a direcção do local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – onde foi prestada homenagem à memória do ilustre professor e naturalista.

«O deserto apresenta aspectos vários e diferentes. Encontra-se areia endurecida sobre a qual os carros deslizam velozes; e noutros pontos pedras soltas. No fundo vêem-se morros altos que o circundam, e árvores de pequeno porte que vivem numa espécie de leito de rios que aqui se chamam danibas e são locais geralmente frequentados por caça de toda a espécie».

 

Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16 

 A primeira peça abatida foi uma gazela com um tiro da carabina do Sr. Dr. Francisco Vieira Machado, que por esse motivo recebeu muitas felicitações. Encontrou o grupo Leste chefiado pelo velho caçador João Teixeira e Raimundo Serrão , várias manadas de cabras das quais foram abatidas algumas.


Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16 


Cerca das 11 horas encontrava-se outra de guelengues, - grandes antiólopes- de que, na perseguição, tombaram três exemplares. O primeiro caiu com uma bala do Sr. António Eça de Queiroz, que também derrubou um famoso e célebre avestruz. Correm lebres. Fora do alcance do tiro, precipitam-se na fuga manadas de zebras. Os operadores cinematográficos não descansam. Os carros rodam a toda a velocidade, em todos os sentidos, e às 13 horas voltam ao Pico do Azevedo, para o almoço.


 
 Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16


Daí a pouco aparece o automóvel que conduzia o Sr. General Carmona, e sua esposa, que haviam saído de Mossâmedes às 11 e meia. O automóvel encontrou uma gazela que o Sr. Presidente encontrara no trajecto, matando-a com um tiro certeiro no coração, dado a mais de 50 metros e com o automóvel em movimento, o que foi aplaudido por todos os presentes.
 
O almoço decorreu com a maior alegria e à-vontade. Conversando com familiaridade, o Sr. General Carmona inquiria de todos acerca dos princípios da caçada. A um brinde do Sr. Eduardo Torres, felicitando-o pelo belo tiro certeiro, o Sr. General Carmona respondeu espirituosamente, dizendo que para não envergonhar os caçadores saira mais tarde, mas uma gazela, teimosamente, viera postar-se na trajectória da bala, sacrificando-se à sua glória de caçador. A assistência levantou três calorosos «vivas», ao Sr. Presidente da República.

Balanço da caçada: 8 cabras, 6 guelengues. 1 avestruz e uma «tua» abatida por um tiro do sr. dr. José Saldanha, secretário do Sr. Ministro das Colónias. O regresso a Mossâmedes, da qual se estava a cerda de 70 quilómetros, fez-se depois das 16 horas. Foi então digna de ver-se a competição dos carros, como numa grande corrida em enorme pista, todos procurando atingir primeiro o carro do Sr. Presidente da República, ao qual formaram por fim um grande séquito até perto da cidade. O Sr. Presidente da República, com um tiro certeiro, abatera outra gazela.Um magnífico fecho da caçada , - escreveram os jornalistas:

À entrada da cidade, próximo do seu acampamento, encontravam-se os cavaleiros cuanhamas, que, compondo alas, aguardam o automóvel presidencial, acompanhando-o depois, no meio de ruidosas aclamações. Todos os outros indígenas dançaram à passagem, dando «vivas» e saudando calorosamente o Chefe do Estado, que, descendo do automóvel com a sua esposa, se acercou das pretas, risonho, afável.

 

A Senhora de Fragoso Carmona, o Sr. Ministro das Colónias, visitaram, antes de deixarem Mossãmedes, os acampamentos indígenas, onde as mulheres lhes ofereceram pulseiras, retribuindo generosamente as ilustres senhoras, o que às presenteadas causou grande alegria. 

Apesar do Sr. Presidente da República se ter ausentado para o deserto, na cidade continuaram sempre no meio do maior interesse e entusiasmo, as festas em sua honra.

Assim, à tarde, realizaram-se na Avenida Marginal várias diversões que estiveram muito concorridas, vendo-se em grande número, crianças que vestiam trajes regionais portugueses.


À noite percorreu a cidade, que continuou a iluminar, uma deslumbrante marcha «aux flambeaux», que, dirigindo-se ao Palácio do Governo, ali saudou o Chefe do Estado, principalmente quando sua excelência apareceu na varanda a agradecer.

O Sr. Ministro das Colónias, que se encontrava ao lado do Sr. Presidente da República, foi também na ocasião vivamente aclamado. 

12 de Agosto


 Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16

O embarque do Sr. Presidente da República para o Lobito estava marcado para as dez horas. Já muito antes daquela hora na ponte-cais e nas proximidades comprimia-se a concorrência. Estava triste o dia, sem sol. Não se tratava duma despedida, depois de dois dias de grande alegria, duma animação como nunca a cidade ali conhecera. Estão as Escolas, - alunos, mestres e estandartes em duas filas; os estudantes do liceu da Huila, os rapazes da Escola de Pesca; o elemento oficial, figuras notáveis da colónia; a guarda de honra; duas companhias de Infantaria Indígena. A multidão é cada vez mais densa. A mocidade escolar solta diversos «vivas» patrióticos: a Portugal, ao Chefe do Estado, a Salazar, ao Ministro das Colónias…



11 horas e meia. 
 
Morteiros estalando no ar anunciam a saída do Senhor Presidente da República do Palácio do Governo. Ao chegar junto das crianças das escolas, o Sr. General Carmona, saindo do automóvel, passou a pé entre elas, que «vivaram» com calor.O Sr. General Carmona afaga-as e despede-se dos professores. Tornando ao automóvel que o vai levar ao ponto do embarque, pelo caminho fora as aclamações não cessam. Um toque de sentido. Os soldados perfilam-se. É o Sr. Presidente que chega. Às vozes do comando os soldados apresentam armas. Segue-se a cerimónia da revista à guarda de honra, finda a qual o Chefe do Estado se despede dos oficiais. A multidão aclama sempre. A emoção da despedida a todos toma. E é no meio de uma multidão compacta, carinhosa, que expande a sua saudade, que o Sr. Presidente da República se dirige para a ponte, onde muitas senhoras compareceram, também para apresentar as suas despedidas às esposas dos Srs. General Carmona e Dr. Vieira Machado.

O Sr. Presidenta da República aperta a mão aos vereadores de Mossãmedes, aos magistrados, aos representantes de associações e organismos e funcionalismo.Depois, num gesto gentilíssimo, a todas as senhoras presentes agradecendo assim o carinho com que o receberam e a sua esposa. Acompanhado pelos Srs. Ministro das Colónias, governador geral e governador da província, embarca em seguida no «gasolina» qie iça imediatamente o pavilhão presidencial. O «República» salva. Dos barcos ancorados soltam-se também saudações.


Recebidos a bordo, o Sr. Presidente da República, o Sr Ministro das Colónias, e pessoas da sua comitiva, logo o Angola levantava ferro e começava a afastar-se..  E desaparecia, por fim, no rumo do Lobito.
»


 



Foto : Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16



"Eu nunca acreditei na existência em Angola de outras tendências que não fossem 
as do engrandecimento da nossa querida Pátria»,   

"Foi uma jornada maravilhosa...".  

"A política imperial a que tenho presidido colocou
 novamente Portugal no rumo dos seus destinos..." *

Presidente da República Portuguesa, General Óscar de Fragoso Carmona


  
FIM 


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Seguem-se transcrições de excertos de textos sobre esta visita, retiradas do Boletim Geral das Colónias 1939:



«....Os que vamos a bordo do «Angola», os que mais de perto convivemos com o Chefe sentimos de cada vez que as obrigações do cargo o obrigam a ficar em terra, penosa saudade. Quando Ele sai,  - o barco parece maior, mais vazio. Aqui em Mossamedes há três dias que só o vemos na rua - nas recepções, nos actos oficiais. Na hora do regresso, ao recomeçar da jornada, vamos todos esperá-lo ao «deck». Está lá sempre a guarda de honra - um grupo selecto de aprumados marinheiros.  Mas as nossas palmas, que o Presidente retribui com generosos apertos de mão, são cada vez mais prolongadas e sonoras.  É como se saudassemos um Chefe da familia, um ente muito querido e muito amado. Portugal , que pela primeira vez mandou às colónias o Chefe da Nação Não há, a este respeito, duas opiniões diferentes. Os efeitos desta visita, nacional e internacionalmente, já se fazem sentir.  Rck, o alegre camarada alemão,  que trabalha sia e noite coligindo toda a espécie de docimentos, siz-nos amiúde: «A África é bem vossa». Ele vê, ele ouve, e como sabe ver e ouvir  -- compreende.
                                                        
O Presidente em Angola não cativou só os brancos-- que vivem na saudade de Portugal distante, que desta rica e vasta província estão a fazer um novo e maior Portugal


Das comemorações de Mossamedes, a bela cidade do extremo sul de Angola, dolorosa conquista à aridez do deserto, focaremos hoje a festa que o Presidente ofereceu às crianças da cidade e da Huila -- e, ainda, o crepitante e estranho desfilar dos indígenas. São dois acontecimentos memoráveis, dois acontecimentos que ficarão na história da cidade enquanto Portugal existir.


Um desfile de crianças brancas, na Metrópole, é vulgar, e talvez, porque temos dois filhos, nunca os vemos sem emoção. Mas um desfile desses em Moçâmedes, a dois passos do calcinante Kalaari tem cambiantes que se não descrevem -- porque apenas se sentem. Sim, também aqui desfilaram para cima de mil crianças, as meninas e os meninos vestidos de roupas brancas, sapatinhos brancos,  cabeleiras bem cuidadas e bem penteadas. Vimo-los de todas as idades -- e quase todos nascidos em Angola. As mães, que se reviam nelas, extaticamente tinham-lhes dado, para que saudassem o Sr Presidente, pequeninas bandeiras com as cores nacionais.  O desfile demorou uma hora larga. Tanto menino -- tanta menina!  Nem um só faltou à parada. Nem um só deixou de saudar o Chefe -- saudando a Pátria-Mãe. E, como eles gritavam. Como a saudade despertara neles a mágua instintiva da ausência!


Pequeninos rebentos em botão de Portugal Novo . Passaram sob flores, entre aplaudos enternecidos. Não se viam olhos enxutos. O Presidente e a esposa, comovidíssimos, beijavam-nos, um a um,  com uma boa palavra, com um lindo brinquedo. O Ministro das Colónias e a esposa, D. Cesaltina Costa e o marido,  colaboraram na obra meritória, edificante, carinhosa. Não houve menino por mais pobrezinho e humilde que não tivesse o seu bonito  -- um rico bonito -- comprado em Lisboa por muitas dezenas de contos. Portugal não esquecia os brancos que não o esqueciam.  E os pais, chorando, exultavam com os filhos: 
--Viva o Chefe da Nação!
Doidas de entusiasmo, as crianças cantavam a «Portuguesa». As suas vozitas flébeis subiam no espaço num canto de esperança e de resgate. E a festa continuou pela tarde fora. Houve uma merenda, a banda indígena tocou, fizeram-se roda à boa moda das nossas províncias. E o Presidente, encantado, lembrando-se certamente dos seus netinhos, que por bem de Portugal não vê há tantas semanas deixou-se ficar entre eles, entre os pequenos, em conversas demoradas e enternecedoras, prendendo-os e prendendo-se. O coração, para os Portugueses, é tudo!

A tarde de hoje, forma, com a tarde de ontem, violento contraste. Ao desfile dos brancos -- crianças a sorrir para a vida -- sucedeu o desfile dos negros,  indígenas do Lubango e do Cunene, quipungos, cuamatos, cuanhamas,  evales, mahumbes, andubos, quacas, cacondas, mucorecos, quilengues...

À frente, aprumada, a banda indígena. Depois os contingentes militares negros --pés descalços, cofiós vermelhos, fardas bem limpas, passo marcial e decisivo. Sob o céu plúmbeo, pesado, sem réstea de sol, os soldados caminham prasenteiramente, numa saudação à Pátria, onde há vida, alegria, emoção. A farda que envergam orgulhosamente, emancipou-os, aproximou-os do branco. Falam Português, muitos deles escrevem na nossa língua, lavam-se, repudiam baixas superstições -- e sonham com Portugal. 

Uma grande clareira --  e inicia-se o desfile das tribus. Abrem o longo e impressionante cortejo, o mais bizarro e estranho de quantos temos visto -- os valorosos cavaleiros cuanhamas. Nem selas, nem esporas. Pernas nuas, agarrando, guiando, conduzindo as montadas -- pernas e torsos nus. Na cabeça, de um negro cintilante, largos chapéus castanhos.  À cintura, curtos e delgados punhais. Passam com estrépito, soltando gritos guerreiros. Os cavalos, de boa estampa, não são ferrados. Frente à Tribuna do Presidente, os seus clamores redobram. A multidão branca aplaude.

Veêm-se sobas e sobetas, de fatos brancos agaloados a verde ou vermelho, pés muito lustrosos, comandando as danças mais estranhas que possam imaginar-se. A rainha Galinaxo, arrasta, num ar cansado, a sua túnica de seda, insensivel aos aplausos. Interessa, pela flexibilidades dos bustos e pela harmonia das  linhas, à corte de raparigas que a segue. Muitas são virgens. Vão quási nuas. Todo o seu luxo está nos penteados -- fantasias macabras que os cabeleireiros de Paris ainda não sonharam. Os corpos, untados de azeite e tacula, tomaram um tom acobreado, quási rubro. São mulheres serpentes, demoníacas mulheres de uma beleza fatal, perigosíssima, capaz de tentar o mais santo dos homens.

Há-as de cabelo inteiramente rapado, há-as ainda com cabeleiras arritmicas e assimétricas, há-as que usam inacreditáveis «crochés» -- numa policromia arbitrária, sem leis  possíveis. Algumas escondem as pernas altas sob apertadas voltas de arame amarelo, outras enfeitam-se com conchas e búzios. A maior parte caminha em semi-nudez,  com um simples «cache sexe» exibindo o torço com garridice e orgulho. Rapazes e velhos confundem-se com as mulheres . Tem o mesmo riso infantil, o mesmo passo incerto,  a mesma exuberante alegria. Na indumentária -- todos se parecem. Colares e brincos -- quase todos usam. Só diferem na maneira de mostrar a sua satisfação , na maneira de saudar Muene Puto. 

Se uns dançam ao som do batuque, com reverências cortesanescas, outros saltam como gorilas, outros ainda guincham como macacos, os terceiros imitam o cantar das aves da selva. As tribus do Lubango, mais silenciosas e calmas, habituadas já à vida pastoril, passam, agitando bandeiras. Neste desfile imenso de tribus vindas de toda a Huíla, o que mais impressiona é o respeito que todos mostram por Portugal.  A bandeira de Portugal vai sempre à frente de cada tribu. E é sempre um rei ou um príncipe, uma rainha ou uma princesa, que a segura. Ai de quem a desrespeitar! Estes pretos semi-bárbaros têm ritos e leis de que são escravos. Portugal é de há muito, uma das suas leis maiores -- o seu maior rito. E Portugal, para eles, sempre que o chefe não está, é aquela bandeira a sua, a nossa bandeira.

Na tarde que morre como nasceu, sem sol -- pesada de nuvens pardas e baixas -- o desfile continua.  Não há, entre os que o veêm, a paleta de um Goya -- o génio ultra-satânico de um Beaudelaire. Exteriormente -- é um mundo de gnomos, animado aqui e ali por um ou outro busto sensual de mulheres. Os efebos, de formas apolíneas são muitos. Os velhos, cansados, de barbas brancas, ainda mais. Aquilo prende, excita, entristece, alucina. Penalizam os corpos, mirrados, secos, torsos, esqueléticos, a tremer de frio. O preto não se resguarda, não conhece o mais elementar dos agasalhos, as mais elementares regras de higiene. Os mucubais, para se defenderem da nortada, embrulham-se na casca dos imbondeiros, os gigantes da flora africana.  Formam «toilettes» irrisórias, inverosímeis. Muitos deles, a completar o quadro, põe na cabeça solideus. São os mais valentes, os mais decididos, os que vivem ainda na pura tradição gentílica...
                                                                 *
O desfile acaba quase noite. A rainha galinaxo, já sorridente, recebe valiosos presentes do Chefe do Estado. Sobas e sobetas são também premiados. Uma grande alegria aquece aqueles corpos.  A gritaria cresce na noite que se adensa. O acampamento, à porta do deserto, movimenta-se como colossal cidade. Repetem-se os batuques estridentes, clamorosos.  Um quibala faz soar o quissange -- melancolicamente. Mas o batuque, de desnalgamentos sensuais, domina, vence, arrasta tudo.  Esta febre de luxúria consome-nos, devora-nos. É um quadro novo, um quadro que talvez não voltemos a ver.  Ficamos na tentação da terra e desta enorme e improvisada senzala. Outros camaradas precedem , ou seguem, o nosso exemplo. As damas de Galinaxo, lascivas e sensuais, querem beber. Beber e fumar. A noite é de festa, festa grande, festa rija. Dá-se-lhes de beber, dá-se-lhes de fumar. Canta-se, dança-se, escuta-se o batuque, ouve-se o tom covo do n'dongo. Noite alta, já com os primeiros alvores matutinos, reentramos no «Angola». Assaltam-nos monstruosas visões. E, tontos de sono e de fadiga, esmagados por emoções, tam contrárias e tam profundas, duvidámos do que vimos, do que ouvimos -- duvidámos de nós próprios. Será certo que só agora começamos a viver?...

Lobito, 13 de Agosto. Deixámos Mossamedes ontem, a meio da manhã, num clarão de apoteose. A cidade piscatória, a cidade que agrupa o homem do mar, o homem da montanha e o homem da planície, pedaço de terra arrancada ao deserto, caldeada em sangue e em mil sacrifícios, não queria seprar-se do Presidente. Acompanhou-o ao cais, entre saudações frementes, hinos de esperança, hossanas de vitória.  E quando o  gasolina do porto cortou as águas  em direcção ao Angola -- marejaram-se  de lágrimas todos os olhos.

Os pequeninos, as crianças que o Chefe do Estado e a Senhora Fragoso Carmona, tam carinhosamente trataram, na mais linda das festas a que temos assistido,  é que davam mais «palmas», é que gritavam mais «vivas». E os seus lencitos acenados por mãos débeis, ficaram muito tempo no cais, ao longo da restinga,  num inocente e saudoso adeus. Não poderia encontrar maior nem melhor representante comemorações Mossãmedes a bela cidade do extremo sul de Angola

Conf. Boletim Geral das Colónias 1939 

                                                                            ****


PERSONALIDADES QUE VIAJARAM COM O CHEFE DO ESTADO NO NAVIO «ANGOLA»

 

D. Maria do Carmo Fragoso Carmona, esposa do Chefe do Estado; D. Cesaltina Carmona Silva e Costa, filha do Chefe do Estado; srs: general Amilcar Mota; chefe da Casa Militar; comandante Jerónimo Weinholtz, ajudante de campo; capitão António da Silva e Costa, oficial às ordens; capitão Mário de Carvalho Nunes, oficial às ordens; dr. Cassiano Neves, medico.
 

O Ministro das Colónias; D. Maria do Carmo Contreiras Machado; capitão António José Caria, chefe de gabinete; dr. Alberto José Lavrador, secretário do Ministro; José Luís da Câmara de Saldanha, funcionário do Ministério das Colónias. Metzner Leone (Diário de Notícias); Leopoldo Nunes (Século); dr. Manuel Múrias (A Voz); Rogério Peres (Diário de Lisboa); dr. Fernando Pamplona (Diário da Manhã); António Eça de Queiróz (Jornal do Comércio e das Colónias); Fernando Baptista (República); Jaime de Carvalho (S.P.N.); Manuel Ribas (Comércio do Porto); Juliano Ribeiro (Jornal de Notícias); dr. Gustavo de Almeida (Novidades); Gabriel Maia (O Primeiro de Janeiro. Notícias da época: Diário de Notícias
(Transcrito a partir do Boletim acima citado)


Observações finais


Com esta visita tiveram início em Angola algumas obras de fomento, tais como vias de transportes e comunicações, hospitais, escolas, etc. que vieram dar algum ímpeto à colonização já que todo o atribulado período da lª República que fora coincidente com a I Grande Guerra (1914-18), e todo  o tempo que ficou para trás fora de estagnação, excepto o curto período do segundo mandato de Norton de Matos  iniciado em 1921. 

O Marechal Carmona aproveitou a visita para promulgar por diploma o projecto  enquadrado no plano fomento das obras que deveriam ser levadas a cabo no período de 1938/1945, nos Caminhos de Ferro de Moçâmedes (substituição do material fixo, largamento da bitola e a rectificação do traçado e prolongamento até ao Tchivinguiro), obras que acabaram por ser travados dada a impossibilidade de aquisição de material circulante e de via, para iniciar o prolongamento previsto, uma vez que as fábricas europeias se encontravam ao serviço da 2ª Guerra Mundial.  Foi o fim da Guerra que permitiu que os trabalhos começaram a andar e os Caminhos de Ferro a dispôr das  potentes GARRAT'S bem adaptadas às lonjuras de África,  capazes de movimentar comboios extensos de passageiros e de mercadorias ou mistos nesse vai-vem entre Moçâmedes (Namibe) e Sá da Bandeira (Lubango), com os seus três corpos distintos que facilitavam extraordinariamente as manobras nas apertadas passagens da Chela.


A respeito do descontentamento por parte de comerciantes e elementos representativos das forças vivas das diferentes cidades, sabe-se que no decurso desta visita discursos houve por toda a Angola,  através dos quais foi manifestado ao Presidente, ainda que velada e suavemente, o descontentamento face à incompreensão de que as gentes do Ultramar estavam sendo alvo por parte da Metrópole.

Em Moçâmedes, o Presidente do Municipalidade, Dr. França Monteiro do Amaral ao usar da palavra na sessão realizada no salão nobre dos Paços do Concelho, referindo-se ao modo como o Presidente estava sendo recebido pela população, com vivas entusiastas e ingénuos, disse: «Se fosse possível eu desejaria que aquelas manifestações tivessem sido gritadas, ainda mais alto para que tivesse a ilusão de serem ouvidas em Portugal, e que todos os portugueses lhe compreendessem o significado». (1)
 

E Antunes da Cunha tomou a palavra,  na qualidade de presidente da Associação Comercial, podenso verificar-se, nas entrelinhas do seu  mui respeitoso discurso, o mesmo desapontamento:

«...em Africa, os homens exclusivamente se afirmam pelo seu trabalho e pelo sacrifício, pela tenacidade e o desassombro»...; «os colonos aqui fazem-se e formam-se por si mesmos, sob a influência do nobre desejo de vencer, estimulado pela energia e tenaz, e pela ambição de viver e progredir»...«Somos assim por cá, Sr. Presidente da República, e no entanto eu sinto hoje, eu sinto neste momemno, com alguma aflição, e com bastante pena, que, em frente de Vossa Excelência, Chefe do meu país, primeiro Magistrado da Nação, símbolo da unidade moral e política da minha Pátria, é afinal bem tímido o meu espírito»....«As preces da minha alma não conseguem provocar o generoso milagre que eu queria e que eu desejava para neste momento me sentir elevado à altura das circunstâncias, ao nível da minha ambição....». (2)

Em Benguela, o Engenheiro Monterroso Carneiro  tomou a palavra em nome da Associação Comercial daquela cidade, tendo sublinhado que as suas justas reivindicações nada mais traduziam para além do justo querer do desenvolvimento  da terra e o direito de Angola ser tratada como a «sua irmã» (3) Metrópole.

Pesquisa e compilação do texto por MariaNJardim




Atenção: Esta postagem foi efectuada a partir de fotos e textos retirados do Boletim Geral das Colónias  XIV - 162 [Número especial dedicado à viagem de S. Ex.ª o Presidente da República a S. Tomé e Príncipe e a Angola (I)] PORTUGAL. Agência Geral das Colónias. Nº 162 - Vol. XIV, 1938, 684 pags. Os discursos foram omitidos porque tornariam o texto demasiado alongado, ficando no seu lugar a devida referência. As transcrições foram efectuadas na íntegra, e no caso de virem a ser daqui retiradas para outros sites e blogs, deverá sê-lo, obrigatoriamente, através de hiperligação. Do mesmo modo deverão ser respeitados os créditos às imagens daqui retiradas e a este blog.



Seguem algumas imagens à margem do texto acima, alusivas à data:



A baixa da cidade engalanada para receber o Presidente. Foto extra-reportagem, cedida por uma conterrânea.


 A rainha Galinaxo do Cuanhama esteve em Moçâmedes a recever o Presidente da República (imagem extra-texto)



 Seguem algumas imagens do desembarque em 1938 do Presidente da República em Cabinda, onde era aguardado pelo Rei do Congo, D. Pedro VII, retiradas do mesmo Boletim Geral das Colónias 1939







Na Ponta do Padrão, diante de brancos, negros, reunidos à volta das autoridades civis, religiosas e militares, o Presidente Carmona depôs uma imensa corôa de louros em bronze ao pé do soclo sobre o qual foi reedificado, em 1919, o padrão de. Diogo Cão, que no tempo das Descobertas era comum erguer nas terras a que abordavam. Em seguida o Presidente pronunciou um breve e patriotico discurso que a todos empolgou.



 O rei do Congo, D. Pedro VII exibe chapéu armado e grande manto de arminho que lhe foi oferecido pelo desditoso principe D. Luiz Filipe na sua viagem a Angola, em 1907. Por  seu lado, o Presidente Carmona presenteou o rei do Congo, nesta viagem, com uma salva de prata com o escudo de Portugal.
 http://memoria-africa.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/BGC/BGC-N163&p=588

 
http://memoria-africa.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/BGC/BGC-N163&p=589




 




"...Em Agosto de 1938, o então Chefe do Estado, Óscar Carmona, ali no areal escaldante na foz do rio Zaire, na presença da marinha de guerra ao som de tambores e clarins na qual prestava guarda de honra e na presença de muitas autoridades gentílicas (sobas das regiões nortenhas e uma grande multidão compacta), depôs uma coroa de flores em bronze, transportada pelos marinheiros vindos dos barcos de guerra, fundeados ao largo.


Nos olhos de todos os presentes marejavam lágrimas sentidas pela grandiosidade do solene momento de evocação e homenagem aos nossos gloriosos antepassados, pelo seu esforço e abnegação. Os vasos de guerra salvaram tiros de canhão enquanto a gente gritava VIVA PORTUGAL. Foi a maior homenagem feita aos pioneiros das descobertas e das conquistas em que os heróis portugueses de antanho deram « Mundos Novos ao Mundo», espalhando a fé e a civilização inscrevendo na história da humanidade o nome glorioso de Portugal.!"

Para ver como tudo começou:  AQUI 


Outra bibliografia consultada:

-J. Velasco de Castro, Lisboa, 1926, pp. 5-19 em «Anotações» anexas a Angola de J. Ferreira Pinto.
-Angola Intangível, p. 387.Artigo de Cunha e Costa no jornal O Dia, cit nas «Anotações» anexas a Angola, pp. 521-522.

 Jirnal da época:
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/PortugalColonial/N64/N64_master/PortugalColonialN64.pdf

1 comentário:

  1. quinta-feira, dezembro 29, 2005
    Huambo à vista

    Os primeiros quinhentos kilómetros estavam mitigados.Seria escabroso pensar em baixar os braços. Não cedesse o corpo,que a mente tambem o não faria estava certo!E ainda seria mais vergonhoso que,não renunciando o corpo a esta dura prova,a alma se lhe antecipasse,e renunciasse por si mesma.Estava pois aportando à cidade do Huambo "por saudosismo diria Nova Lisboa"como era conhecida ao tempo.O chauffer após cumprimentos de despedida e de agradecimento deixara-me no largo do hotel Àfrica. Este largo, ficava bem ao cimo daquela que seria talvez a única avenida da cidade.Fiquei momentâneamente para ali especado!Seriam cerca das nove da noite.Saí daquele torpor e comecei a descer a dita Avenida,de sul para norte como obstinado que estava,nesse facto.Do lado direito os predios sucediam-se uns aos outros.Do lado esquerdo uma àlea de àrvores frondosas acompahavam-nos,até onde a vista alcansava.A linha do combóio de Benguela que seguia a dita avenida em todo a sua extensão,acentava alcandorada em cima de um massiço de terra de três a quatro metros de altura,todo ele guarnecido de grama bem verdinha,e bem tratada,entre a linha e a àlea de àrvores um passeio pedonal,por onde as pessoas passeavam ao longo do picadeiro nas noites serenas e mornas de Àfrica.Quando o comboio circulava em manobra para cima e para baixo, a máquina estúpidamente limpa,negra,da côr do azeviche,com seus tubos de latão e cobre muito brilhantes qual nativa orgulhosa de seus adereços e bissangas,era assim a angola que eu conheci.Nestes pensamentos dou comigo,junto ao Ruacaná Cine,que eu tão bem conhecia.Logo na transversal, lá estava a Casa York; modas confecções para as madames da època. Em frente a muito familiar ,Ribatajana,Cervejaria e casa de Pasto, onde comera em tempos,em tempos idos, grandes bifanas com batatas fritas e ovos tudo a ferver na travessa de barro.Com este pensamento, a boca inundou-se-me de àgua como se de um rebentamento de qualquer barragem se tratasse.Tive que drenar o pensamento,para a realidade presente,e essa era precisamente o inverso,daquele.

    Já não comia nada há muitas horas. Esta e outras viagens que fizera por Angola fora, ensinaram-me uma coisa? Quando tu deixas de comer por incapacidade em obter o alimento necessàrio,a coisa processa-se assim:As primeiras vinte e quatro horas,o desejo de comer é atròs, mantem-se violento por mais vinte e quatro,nas seguintes o efeito corrosivo vai-se atenuando lentamente até desaparecer. Começa então aí uma faze de abstinência forçada. É como se o corpo, desligasse o desejo de comer e começa, aí ele pròprio a consumir-se, dando origem a um emagrecimento forçado que te leva à inanição.Eis pois o motivo porque populações inteiras chegam a inanição total no Sael,Sudão, Etiòpia, Somàlia etc,etc.Cheguei ao local onde iria aguardar por um boleia para Luanda. Situava-se ele já na periferia da cidade do Huambo bem junto ao cine S.João.A estrada vermelhôna que dali rumava ao Bailundo,apresentava-se bem ao meu campo visual embrenhando-se por entre as bissapas até a perder de vista. Junto ao cinema havia um posto de combustível e foi precisamente lá que pedi ajuda.E foi-me concedida,conversei com o homem da bomba até caír, adormeci,em cima de uns sacos de milho, durante longas horas.Com fome, barba grande e irreconhecível.Felizmente os portuguêses,se mais não tiverem têm esta virtude? Quado fora da sua terra,entreajudam-se.Imfelizmente na sua terra que estranha conduta a deles! Aos contemporâneos e concidadãos dar o pequeno louvor, está quedo! Mas ligar o mais alto valor ao facto de serem louvados pelos porvindouros,que nunca viram nem verão jamais,é como se se agastassem pelo facto de que, os que os antecederam lhes não cicundarão de louvaminhas.M.A.

    publicada por drakemberg @ 11:37 da tarde
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