Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Uma viagem a Mossamedes: trechos do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862


Postal da povoação de Mossâmedes (Moçâmedes (Namibe), onde se pode ver o morro de D. Fernando (também chamado na época de Morro da Ponta Negra),  onde foi inplantada a Fortaleza (de início Presidio/Estabelecimento) a demarcar a posse militar da área e áreas circunvizinhas (1839-1840). À dt,  a Igreja de Santo Adrião. Postal
.


Outra imagem do Forte mandado construir em 1840 e reconstruido em 1884, pelo então Governador Geral da Província de Angola - Manuel Eleutério Malheiros que o apetrechou com 26 canhões.
 
 


  Postal da povoação de Mossâmedes (Moçâmedes- Namibe)  

A flotilha que esperou em Moçâmedes o 1º Governador, em 1849
Ver AQUI
Ponte móvel de embarque/desembarque


No livro "Quarenta e cinco dias em Angola", de autor anónimo,  datado de 1862, encontram-se elogiosas referências a Moçâmedes (Mossâmedes) se comparadas com as referências em relação Benguela, à "inóspita e doentia Benguela", cidade portuária a norte de Moçâmedes,  fundada em 1617, que  durante séculos e até bem dentro do século XIX, juntamente com Luanda, serviu  de entreposto  do comércio de escravos africanos para o Brasil e Américas, um negócio que envolveu comerciantes brasileiros, portugueses e africanos (sobas) de outras regiões, que foram responsáveis pelo envio de quase meio milhão de africanos,  e de paragem obrigatória para comerciantes de cera e marfim que se dirigiam a Luanda... 



Interessante  o relato da partida para Moçâmedes:


"...Amanhã levantamos ferro, e seguimos viagem para Mossamedes. Adeus maldita Benguella : — não terás as minhas cinzas! Fica-te com os teus elegantes coqueiros, e com as tuas lindas bananeiras — deixo-te sem saudades — o teu ar mata. Adeus homens óptimos; Deus vos conceda uma óptima cova, onde sejaes optimamente enterrados: — viver n'esse estado não é viver.

Benguela ficava no meio de pântanos e lagoas. Abundavam os mosquitos,  o paludismo era uma constante, e chegou a ser chamada "cemitério de brancos". 


O autor prossegue o seu relato prossegue com uma não menos interessante descrição da costa angolana, entre Benguela e Moçâmedes que transcrevo a seguir: 

"...Vamos seguindo uma costa árida e melancólica, que os homens ainda não conseguiram cultivar, e que o próprio Creador parece ter abandonado. Esta solidão é medonha!... Ao contemplar o horisonte limitado por escarpadas e estéreis montanhas, cujos cumes se confundem com as nuvens, sinto o coração comprimir-se-me de tristeza; volvo o pensamento para a Europa, mas ás saudades que de mim se apoderam, só posso dar allivio vertendo lagrimas de arrependimento. Pátria, familia, e amigos, que eu nunca deveria ter-vos deixado, tornar-vos-hei a ver ainda?...

Quanto é extensa esta costa ! Ha vinte horas que navegamos e comtudo apenas tenho descuberto duas ou três feitorias.  Ah ! lá se avista a Ponta Grossa; estamos na bahia a que os inglezes deram o nome de — Pequena bahia dos peixes — e de um só lançar d'olhos pôde o viajante abraçar toda a povoação de Mossamedes, hoje villa, e á qual os habitantes dão o nome de Praia.

A impressão primeira de Moçâmedes vista do mar e em terra:

Mossamedes, ao inverso de Benguella, apresenta um aspecto triste, porque as suas casas baixas e por em quanto pouco numerosas, estão como perdidas no meio d'um extenso areal.

Em frente de nós e sobre um morro alcantilado temos a fortaleza; á direita, mais para o interior, descobre-se a igreja — mais longe, algumas habitações e o hospital. Á esquerda, na baixa, e em arruamentos regulares está a povoação ; — no fundo, a extensa e longínqua serra de Chella, um dos mais admiráveis caprichos da natureza, mita este quadro de um colorido pouco variado.

A distancia talvez de três quartos de légua, avista-se arvoredo e bella vegetação: — é o sitio das Hortas, alfobre delicioso, onde se reproduzem todos os fructos, hortaliças, e arbustos europeus juntamente com os dos trópicos. Entre as Hortas e a Villa, veem-se espalhados alguns túmulos e cruzes toscas, levantadas em memoria dos primeiros colonos que alli se foram estabelecer. Aquelle cemitério está abandonado, por terem feito outro em sitio mais próprio e convenientemente disposto.

Saltemos em terra e vejamos esta povoação, que tanto nos tem gabado. O clima é delicioso. Sinto renascer, n'uma agradável transição, a energia que o calor abrasador de Loanda me tinha feito perder: já não estou alagado em suor, como hontem ainda me acontecia — julgo estar na Europa.

Mossamedes é uma villa moderna, em que muitos dos melhoramentos indispensáveis estão ainda por executar; assim mesmo muito se conseguiu com os poucos recursos de que poderam dispor, porque o Governo não tem olhado como deveria para aquelle abençoado torrão. É a terra da Província que mais tem sido visitada pelos europeus: — todos os empregados que adoecem, pedem licença para se irem restabelecer á Cintra africana, e isso hoje é-lhes mais fácil com os vapores da «União Mercantil» , do que no tempo em que não haviam senão uns pequenos navios do Estado, em que se viam obrigados a alurar as demoras e caprichos que os commandantes podessem ter nos diversos pontos da costa.

Não há ainda vinte annos, que n'aquelle extenso areal nem uma só cabana se avistava; — agora possue três bellas ruas, bem alinhadas, cortadas por outras tantas que dão accesso á praia, com lindas casas térreas no estylo americano, bem construidase commodamente repartidas. Os colonos estrangeiros, mais avisados, levaram comsigo operários intelligentes, que introduziram innovações desusadas em outros sítios da Provincia, sabendo tirar todo o partido dos raríssimos recursos que o paiz lhes offerecia."


A Fortaleza de S. Fernando (ver AQUI)

A Igreja Paroquial de Santo Adrião


 
 Os barracões no local onde se abriu a Avenida da República

  Outra perspectiva dos mesmos barracões...


A Rua que conhecemos como da Praia do Bonfim


Moçâmedes: Praia, ponte e cidade (postal)

 

Moçâmedes avançando na sua urbanização, de acordo com o projecto 
do Gov. Fernando Costa Leal. Outra prespectiva da Praia do Bonfim

 
 Prespectiva da rua que conhecemos como da Praia do Bonfim

 
 Passeio domingueiro nas Hortas de Mossãmedes.
Foto decida pelo Engº Albino da Cunha a Sanzalangola (Lay Silva)

 O Palácio do Governador...



Sobre a população de Moçâmedes na época e sobre factor habitação:


 "...Successivos comboios de colonos teem ido estabelecer-se em Mossamedes contando actualmente a villa e subúrbios para mais de dous mil habitantes, sendo seiscentos e tantos brancos, mil escravos, e compondo-se o resto de pardos, pretos livres e libertos. As três tríbus circumvisinhas de Crok, Giraúl, e Quipola tem para cima de setecentos habitantes. Os concelhos da Huila, do Bumbo, e dos Gambos, reunidos, apresentam uma população muito mais numerosa, mas os brancos não excedem talvez a cento e setenta, os pardos a trínta, e os escravos e libertos a quinhentos e quarenta, avultando a população em indigenas dos Gambos, que orçam por uns cincoenta mil.

"... As primeiras construcções, foram como no resto da Provincia, compostas de Urtigas, com barro e ramos de palmeira servindo de cobertura: algumas d'essas humildes habitações ainda hoje existem, a parede outras mais elegantes, como para mostrar ao viajante, por que serie d'incommodos tiveram de passar aquelles que se animaram a lançar as bases de uma povoação, que está destinada para ser um dia a mais bella das nossas possessões africanas.Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862
  

             
A tríade Plácio do Governador, Igreja e Hospital...
A Fortaleza, o Palácio do Governador, a Igreja e o Hospital vistos do mar...

O Hospital de Moçâmedes, na Avenida Felner, fronteira ao mar,
 demolido nos finais da década de 1950

 
 O Bairro da Torre do Tombo visto da baía de Moçâmedes
 
 
O autor aborda a relação entre o Governador Fernando da Costa Leal (5º Gov. Moçâmedes) e um certo sector da população:


"...Mossamedes podia ter prosperado muito mais, se tivesse tido sempre governadores tão intelligentes e honrados como Fernando da Costa Leal, a quem ella muito deve. Moço de instrucção, de um carácter enérgico, e de uma honradez exemplar, foi o único governador de Mossamedes que fez obras de reconhecida utilidade, apesar das dificuldades que teve de vencer, e da crua e injusta guerra que lhe moveram alguns habitantes da villa. Ja há muito reconheceram elles os seus erros, porque viram que a inteliigencia, energia e boa vontade foram bem mal substituidas, attendendo-se ao interesse particular e despresando-se completamente os do districto. A verdade que este estado de cousas convém a certos individuos; porque em Mossamedes, se a terra é boa, a gente nem toda o é; há muito quem pesque era aguas turvas, e a quem convenha a desordem e o desleixo.

Esta é infelizmente a grande ulcera das nossas possessões. As ambições, a inveja, e o ascendente que muitas vezes certos empregados subalternos tomam sobre outros mais graduados, mas de menos inteligência, são  causa de muitos devaneios, de muita injustiças, de muita intriga, e acabam sempre pela completa desorganisação do systema administrativo que se tenha tentado seguir. Mas ainda esta não é a maior difficuldade que a authoridade tem de combater, porque havendo sufficiente energia, com pouco custo faz entrar no seu dever os seus subordinados, e facilmente pode afastar para longe aquelles que lhe forem hostis; o que é mais para recear, são certos habitantes que depois de se pilharem, senhores de uma casaca preta, de um chapeo de copa alta, e de um par de luvas brancas, esquecem o que foram, e o que verdadeiramente ainda são, pretendendo como o gaio da fábula, revestido das pennas do pavão, que lhes dão uma importância que elles não merecem e até de que não são dignos. Quando um governador, que conhece o seu lugar, encontra d'esses perus cheios de vento e de soberba, e não transige com elles, tem de luctar constantemente com mil intrigas e embaraços que adrede lhe preparam aquelles, cuja influência foi despresada.

A mania geral em Angola, de ser o favorito dos governadores, dominal-os, e fazer depender da sua approvação certos pedidos e determinações.

O zeloso 5º Governador de Moçâmedes, Fernando da Costa Leal (1854-1859), responsável pela construção da Fortaleza de S. Fernando no local do antigo forte,  pela planta topográfica da cidade, pela conclusão da Igreja, pelo edifício da alfândega, entre as muitas obras a que Moçâmedes lhe ficou a dever
(Oleo existente nos Paços do Concelho da CMM)


"...O Governador Leal emancipou-se d'essas tutorias: e achou-se no campo, luctou com perseverança, pagou a ingratidão com benefícios, e succumbindo com glória, retirou-se, sem que a mais leve nódoa tivesse manchado o seu nome. D'estes homens não convém para as nossas possessões : e por isso teve de recolher a Portugal.

Este zeloso funccionario levantou uma planta de Mossamedes, e n'ella indicou as construcções que tencionava mandar fazer: projecto bem combinado, e conveniente para evitar o desalinho que se nota em todas as terras, onde logo de principio não houve o cuidado de traçar um plano geral de obras. Edificou o quartel, que com quanto seja hoje um dos peores edifícios de Mossamedes, era n'aquelle tempo o melhor que havia, mesmo porque então não se dispunha ainda de muitos objectos que já se encontram no mercado, e também porque os recursos que tinha, eram mui restrictos. Principiou a fortaleza, cujo plano foi depois alterado e estragado por quem o substituiu na direcção d'aquelles trabalhos.

Lançou as fundações de um Palácio para o governador, juntando á custa de muitos sacrificios, grande quantidade de materiaes para a sua continuação.

Edificou uma bella igreja, com residência para o parocho, e tentou estabelecer um moinho, para cujo fim chegou a receber de Lisboa as pedras necessárias, que jazem dispersas na praia onde provavelmente ficarão cobertas pela areia. Visitou o interior, construiu fortes, e deu grande incremento á Colónia da Huilla, onde estabeleceu um moinho, que ainda hoje trabalha com proveito dos colonos e da guarnição.

Actualmente as únicas obras que se vêem em andamento são as da fortaleza, mas essas mesmas seguem com morosidade, porque os operários também se occupam no serviço de alguns particulares influentes. Os materiaes, destinados para o Palácio, tem sido vendidos, dados e roubados!

Contrasta de uma maneira bem singular este estado de dissolução com a actividade que presidiu ao desenvolvimento material, que em outro tempo se manifestara, e que eu tractei de esboçar. Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862



 Sobre Moçâmedes, o seu casario, suas ruas, avenidas, plantações...

"...Em Mossamedes não ha senão uma casa de um andar, e nem é prudente fazel-as ; não só por falta de madeiras solidas, como também por causa do modo de construcçao de que se servem por não haver pedra; pois que a que apparece na villa é um grés friável, ou uma petriíicação curiosa, que se compõe de conchas envolvidas n'uma espécie de betume. Com esta qualidade de pedra é que estão construindo a fortaleza.

O Governador Leal descobriu próximo de Mossamedes gesso de excellente qualidade, de que fazem grande uso na villa, e que os navios poderiam transportar como lastro para Loanda: — é mais um ramo de commercio que tem sido despresado.

As construcções são feitas com adubos seccos ao sol, sem nenhuma outra preparação, e formando pedaços de grandes dimensões. Cada tijolo tem proximamente 4-4 centímetros de comprimento, por 22 d'espessura, e outros tantos de largura : o barro é do melhor que se pôde desejar, e daria magníficos tijolos se os cozessem e os fabricassem do formato francez.

A casa de melhor risco é onde vive o governador, e pertence a um portuguez, natural de Lisboa, estabelecido na ilha de S. Thomé. Afora mais algumas casas particulares, as outras são occupadas por gente de negocio, soldados casados e degredados com officio.

Quasi todas as habitações da Praia tem páteos, onde plantaram palmeiras e coqueiros, no meio dos quaes abrem a sua cacimba, pequeno poço, cujo revestimento interno é formado cora barricas sem fundo, sobrepostas umas nas outras, e d'onde tiram a agua para usos domésticos, sendo alguma de boa qualidade.

Apesar de ser muito melhor que a de Loanda, a agua é igualmente filtrada, e julgo que vêem do interior os filtros que lá usam, de um grés mais compacto do que o que se emprega nas construcções. O açougue fica situado n'uma elevação, e algum tanto afastado do centro da villa.

As ruas estão por calçar; — tencionavam dar principio a esse melhoramento, o que me não pareceu muito acertado, em quanto não tiverem fixado com plantações de arvores, ou outras edificações, as areias que os ventos trazem sempre em movimento.

Sem uma barreira no littoral que se opponha á invasão das areias, e que sirva para no futuro fornecer madeiras de construcção, mal poderá Mossamedes conseguir ter nas suas excellentes ruas um piso commodo e uma communicação fácil com o sitio tão concorrido das Hortas. Dizem-me que já tentaram a sementeira dos pinheiros, mas sem resultado. Houve por força má direcção n'essa experiência, porque o pinheiro ha de dar-se n'um clima tão benigno como aquelle : longe de desanimar, deveriam repetir por mais vezes, e em diferentes pontos, outras tentativas, porque o seu bom êxito muito contribuiria para a prosperidade d'aquella terra."


Convinha primeiro plantar ao longo da praia cinco ou seis fileiras de coqueiros, que se dão bem na agua salgada, para se poder estabelecer uma linha de defeza, como se pratica nas Landes, e ao abrigo d'ella ir semeando os pinheiros, que nunca poderão vingar, se depois de semeados os deixarem abandonados e entregues ás invasões das areias. Vingada a primeira sementeira,essa mesma serve de resguardo ás que depois quizerem fazer.

É muito para sentir que se tenham occupado tão pouco de plantações: apenas na praça da Colónia se vêem algumas arvores mal resguardadas. Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

A problemática da água é abordada:

O Governador Leal tentou edificar a villa no sitio mais alto e onde as areias são menos abundantes, mas a commodidade dos desembarques, e sobre tudo o receio que muitos tinham que alli se não encontrasse agua, fizeram com que preferissem a baixa. Tempo virá em que aqueloutro terreno será mais apreciado, sobre tudo se se levar a cabo o Palácio projectado.

A falta d'agua já a não devem recear, porque também aquelle governador a encontrou a pequena profundidade.

Há em Mossamedes dous operários de merecimento um d'elles é carpinteiro, e faz as vezes de sub-delegado, e d'architecto—fala de papo na Novissima Reforma, e nos differentes estylos d'architectura ; o outro, chamado Espirito Santo, é um d'esses homens como se encontram muitos nas cidades do Minho, e a que dão o nome de—faz tudo. —Uma das suas obras existe na fortaleza: é uma chapa de fundição com letras em relevo, que não achei mal feita, e dei-lhe bastante apreço por ter sido executada n'uma época em que faltavam as cousas mais indispensáveis. Dos outros officios que exerce, nada posso dizer, senão que como cozinheiro, faz detestáveis maças, e deixa queimar os assados. Assisti a um jantar, feito por elle, onde provei um bocado de maçado assado, que me não pareceu delicado manjar. Também ha um excellente funileiro, natural do Porto, e para alli enviado pela Relação."

A bahia de Mossamedes é uma das mais bellas que tenho visto—o seu fundeadouro é magnifico e vasto.

Como na maior parte das nossas possessões africanas, faz-se o desembarque aos ombros de barqueiros, o que sempre apresenta certo risco aos visitantes que se não acharem preparados para tomar um banho de choque.

Um caes bem construido, que nivelle a praia pela altura proximamente das construcções regulares que alli existem, com escadarias para os desembarques, e uma ponte de descarga para o serviço da Alfandega, são as obras mais urgentes. Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

 O edifício da Alfândega de Moçâmedes, em postal,
   
mandado construir pelo Governador Fernando da Costa Leal



"....A Alfandega precisa também ser reformada : a actual é um barracão impróprio e sem accommodações. Uma Alfandega deve ser um edifício isolado, próximo ao desembarque, e com as condições necessárias, não só para os empregados, mas principalmente para armazenar as fazendas, que muitas vezes os compradores não podem recolher nas suas habitações.

Na praia presenceia-se uma scena assaz desagradável e á qual deveriam pôr termo, se os Camaristas quizessem mais tractar dos interesses da terra, e menos de certas intriguinhas, e questões pessoaes, com que ninguém aproveita, e elles muito perdem."Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

 

 
Moçâmedes: vista panorâmica com o Palácio e a falésia (à dt.) ao fundo


Moçâmedes. Grupo de emigrantes algarvios.  Foto de Antunes Salvador

Habitação de uma família de indígenas no distrito de Moçâmedes (postal da época)


O moinho de vento mandado construir por João da Costa Mangerição, da colónia do Brasil (1849-50). *

O edifício da Alfândega em construção. Carro de bois recolhendo água de fonte pública

 
O Jardim da Praça da Colónia para onde esteve projectado um
 monumento aos pioneiros de que existe maquete.
 
Escalação de peixe, na praia, junto à ponte, piquete e Fortaleza de S. Fernando (ao fundo)

Autóctones retirando a rede de arrasto do mar e cães na praia
Autóctones retirando a rede de arrasto do mar. A Fortaleza e o navio encalhado



A Pesca e resíduos piscícolas:


"...Quero fallar da escallação do peixe, que convinha se fizesse em sitio retirado e mais apropriado para esse fim ; onde o vento da barra não cobrisse d'areia fina, como agora acontece, o peixe preparado de fresco, o que o torna impróprio para quem não estiver ainda aífeito como os negros, a trincar areia sem se lhe arripíar os cabellos. Também é costume quando chegam os pescadores virem á praia os pretos comprar o peixe para os seus senhores, e leval-o para casa, já aberto e escamado, para o que vêem sempre munidos d'uma faca. Os cães attrahidos pela esperança de pilharem alguma lambugem,
rodeiam os pretos na occasião do amanho. Alguns mais atrevidos, ou mais famintos, levam a ousadia a ponto de querer partilhar melhor quinhão do que aquelle que lhes
destinam, mas pagam caro o atrevimento, porque o prelo, estúpido e cruel, dá-lhes desapiedadamente com o gume da faca nas mãos, e continua tranquillamente o seu trabalho. Contei n'um dia em que fui ver chegar o peixe, vinte e seis cães, deitados á sombra de uns barcos que se estavam concertando: vi-os levantar de vez em quando a cabeça, e olhar para o lado d'onde deviam vir os barcos, e como nada avistassem, recostar-se, fechar os olhos e dormir. Repetiu-se esta scena muitas vezes, até que chegando finalmente os pescadores, elles ahi se levantam todos, e a passo lento se dirigem ao sitio onde os barcos aportaram. Foi então que tive occasião de notar, que a maior parte d'elles eram aleijados das mãos, e que me explicaram o motivo de sua má sorte. Não sei de que sirva tanto cão em Mossamedes, a indiferença dos habitantes deixa-os assim produzir espantosamente, até que se vejam obrigados a combatelos, como os primeiros colonos tiveram de fazer aos lobos, que todas as noites vinham cumprimentar os seus novos hospedes. O que é muito singular e digno de reparo é, que em Angola, onde o calor é excesssivo, e onde se não encontram tão facilmente como na Europa sitios onde os cães possam beber, não ha lembrança de um só caso de hydrophobia." Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862



Colono de Moçâmedes montado num boi-cavalo, em postal



Os meios de transporte: o boi-cavalo

"...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola : para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar n'um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e á quinta dos Cavalleiros.

Este nome de—boi-cavallo—produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma differença fazia dos outros bois.

Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual á dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os Ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do—passo do boi—. Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo;
mas a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para lhes recordar o seu dever.

Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem visita Mossamedes não deve deixar de dar....» Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862


A Fazenda dos Cavaleiros, de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

 Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

Moçâmedes: Fazenda dos Cavaleiros, de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Chefe da 1ª colónia ida de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes, em1849Um dos símbolos da fixação do primeiro grupo de portugueses que, idos do Brasil, fugidos aos lastimosos acontecimentos de Pernambuco ocorridos a 26 e 27 de Junho de 1848,  chegaram a Mossâmedes no dia 04 de Agosto de 1849, para alí, em solo que consideravam Luso,  se fixarem e desenvolverem as suas propriedades agrícolas nas margens férteis dos rios Bero e Giraúl .


«...Sigamos para a quinta dos Cavalleiros. Vamos vêr esse campo de batalha, onde o gentio ainda há pouco deu provas da sua estupidez e covardia. Teremos de dar uma pequena volta, mas não importa;

"...Continuemos agora a nossa excursão.
O caminho, ainda que em parte aberto de novo, é triste e fastidioso: são 13 kilometros de passeio forçado, qual se não respira senão pó, e em que o espirito do viajante cansa na contemplação de um monte árido, de côr monótona, que se estende á direita, e continua ainda além do sitio que vamos visitar; á esquerda fica-nos o rio Béro, que na maior parte do anno está sêcco n'uma distancia de quinze léguas, apresentando sobre a areiado seu leito uma leve crusta de lodo, que o sol faz gretar e arquear em forma de telha, pôde ser transitado, e é até uma sofrivel estrada.

D'esse mesmo lado descobrem-se vários terrenos cultivados, e algumas habitações de lavradores. Entre ellas acolá se avista a de uma portuense celebre, que tendo ido para o Brazil, fez parte da colónia que foi d'aquelle Império para Mossãmedes. D. Isabel d'Austria, era uma senhora muito prendada e de bastante instrucção, que falleceu ha poucos annos ; no cemitério velho vé-se o seu túmulo, mas com o nome quasi ininteligivel. Esta senhora dedicou-se á agricultura e á educação dos seus escravos e escravas : ellas ainda hoje são das mais procuradas, e algumas adoptaram e conservam o nome da sua primeira possuidora.

Esse costume é muito frequente em Angola, e até certos Régulos do interior teem pedido como grande honra a alguns Governadores geraes a mercê de poderem usar de igual nome, inclusivamente do de família.

Eis-nos na quinta dos Cavalleiros. É uma extensão immensa de terreno, cultivado á maneira do Brazil, com excellentes plantações de canna d'assucar de magnifica qualidade, bello algodão, muita mandioca e bananas.
Esta propriedade pertence a um individuo que fazia parte da colónia brazileira, e que hoje se acha na Europa, com pouca tenção de voltar a Mossamedes.

Dentro da habitação do fazendeiro está uma boa machina americana de limpar o algodão, que trabalha com a maior regularidade, dando óptimo resultado. A pequena distancia existem as ruinas do engenho do assucar, que não funcciona por falta de meia dúzia de traves para o reparar provisoriamente !

Tudo quanto do terraço podemos alcançar com a vista foi aqui ha tempos devastado e roubado pelos Munanos ou Nanos, espécie de vândalos do interior, que só vivem de pilhagem. Quando a fome os aperta fazem as suas correrias pelos povos que se dizem nossos vassallos, e a pretexto de cobrarem os tributos, a que não teem direito, roubam o gado aos pastores, devastam tudo por onde passam, e recolhem ao Nano, levando os prisioneiros que poderam fazer, para serem vendidos nas proximidades de Benguella, ou resgatados por grandes quantias.


Cinco mil d'estes gentios tentaram uma invasão em Mossamedes onde já não faltava medo, porque não estavam então preparados para lhes poderem resistir. Entraram pelo lado do norte, que é o mais mal guarnecido, — com quanto fosse fácil forma um reducto a quatro léguas de distancia da villa, para conter em respeito estes bárbaros, — chegaram á quinta, onde umas dezoito pessoas mal armadas os contiveram durante umas poucas de horas; lançaram o fogo e talaram todas as plantações, incendiaram o engenho e a habitação, e retiraram a final, levando prisioneiros o fazendeiro e parte samedes com os trajes que trazia quando veio ao mundo, e alguns escravos que depois conseguiram fugir vieram apresentar-se-lhe.


Assim ficou em poucas horas, este homem laborioso, reduzido quasi á miséria; mas graças aos esforços e hábil administração da pessoa a quem o proprietário deixou entregue a sua quinta, a não serem as ruinas do engenho, nada nos poderia fazer acreditar n'uma semelhante devastação.


Póde-se dizer que a quinta já se acha talvez em melhor estado, do que antes da invasão, mas muito mais se teria conseguido se o fazendeiro contasse o numero de escravos precisos para o serviço. Com muitos sacrifícios tem comprado alguns, mas o seu numero ainda está longe de chegar ao que d'antes era, e esse mesmo, na actualidade, seria insufficiente.

O Governador geral deveria animar este homem brioso, pondo ao seu serviço, durante quatro ou cinco annos, um numero avultado de libertos; quando não, continuará, por falta de braços, a perder-se a colheita da canna e do algodão.

Foi por occasião d'esta invasão que o Governador de Mossamedes deu a mais evidente prova da sua inépcia. Apenas teve noticia que os Munanos(1) se aproximavam, o seu primeiro cuidado foi de flanquear uma loja em que vende manteiga, com quatro peças d'artilheria, e convidar os habitantes para o coadjuvarem. Para o resolver a enviar soccorros á quinta, foi preciso descompôl-o : — mandou então a muito custo uma peça, mas com balas que lhe não serviam !
Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

Nota: As fotos foram colocadas à margem dos textos. 
As transcrições foram  respeitadas na íntegra.

Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de biblitecas até ser cuidadosamente digitalizado pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem descobertos.



Ver também AQUI

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O «moinho de vento» a que se refere a estatística respeitante ao ano de 1854, junta ao ofício de FERNANDO LEAL, dirigido ao Ministério do Ultramar, em 2 de Janeiro de 1855.



 
*«...Dentro das máquinas agrícolas usadas no Distrito, na sua fase incipiente, interessa particularmente mencionar  o«moinho de vento» a que se refere a estatística respeitante ao ano de 1854, junta ao ofício de FERNANDO LEAL, dirigido ao Ministério do Ultramar, em 2 de Janeiro de 1855. Pertencera a João da Costa Mangericão, que o Governador Sérgio de Sousa considerava um dos artistas mais prestáveis da Colónia. Começou a moer em 15 de Agosto de 1851, como se lê no Relatório de Sérgio de Sousa, de 31 do mesmo mês e ano, mas parece que em face dos insucessos agrícolas dos primeiros anos, que só teve regular funcionamento a partir de 1853, ano em que a agricultura distrital prin.principiara a desenvolver-se. Assente em casa própria, era movido pela acção do vento, sendo de ferro coado todas as rodas dentadas. Moía, termo médio,um cazunguel de grão por hora. Moinho e casa , fora tudo trabalho executado pelo seu proprietário. ( B.O. nº322, de 29 de Novembro de 1851)




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