Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 13 de novembro de 2010

João Francisco Garcia. Jornada pelo sertão, de Benguela a Mossãmedes, em 1839.




Segundo cópia extraída do livro MS "Annaes do Município de Mossamedes", de fls. 1 a 3-V, Annos de 1839 a 1849 

-"Mossamedes cuja bahia foi denominada - Angra do Negro - pelos nossos Navegadôres, foi mandada vezitar pelo Capital General d'Angola Barão de Mossamedes, cuja comissão foi incumbida ao Capitão Mór de Benguella que aqui veio com forças por terra, e a este facto deve a sua denominação. Embora a dacta do seu descobrimento seja muito antiga, o princípio de sua povoação dacta de 1939. Neste anno veio de Benguella a Quillengues, e de aqui a Huilla, Jau, e depois a Mossamedes o Tenente de Artilheiria João Francisco Garcia, onde já achou fundeada no porto a Corveta Izabel Maria commandada por Pedro Alexandrino da Cunha Garcia vinha nomeado Regente. Já então existia no local que hoje se chama - Hortas - huma feitoria bem montada pertencente a Jacomo Fellipe Torres, de Benguella, administrada por hum homem de sobrenome Guimarães, que fazia muito negócio, e se achava acreditada com o gentio, o que lhe accarretou tal perseguição que foi prezo na mesma Corveta para Loanda roubando-se-lhe e destruindo a feitoria acomo protestou contra a violencia, e obteve justiça, mas não reparação. Apezar deste accontecimento ainda assim veio em 1840 Clemente Eleutherio Freire montar outra feitoria de sociedade sociedade com D. Anna Ubertal de Loanda, e em 1843 veio pois veio João Antônio de Magalhães estabelecer outra feitoria de sociedade com Augusto Garrido; porem de todas estas feitorias so existe hoje a de Fernanda, por se ter fundado na pesca e dedicado também à cultura. Começou pois esta povoação por hum presidio em que alem da força millitar e degredados se estabelecêrão algumas feitorias, e d'entre alguns de seus administradôres taes como Fernanda e Freire; bem como o Tenente de Marinha A. S. De Souza Soares de Andreas, e Commandante do Brigue "Tejo", e sua guarnição foi que nascerão os primeiros ensaios da Agricultura. A força de vegetação que se conheceo em algumas sementes lançadas à terra, a descripção feita por alguns officiaes de Marinha; e a benignidade do clima fizerão suscitar a idea da colonização deste local por gente não degredada."

 No semanário O Panorama, de litteratura e instruccão, Volume 8 , Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Portugal), Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Lisbon, Portugal), encontramos o seguinte relato
da dviagem de exploração de Benguela a Mossãmedes, por terra, através de Quillengues, Huilla e Jau, escrito pelo próprio  Tenente de Artilheiria João Francisco Garcia, em 1839, que passamos a transcrever:

                                          Jornada pelo sertão em 1839.

Neste anno de 1839 o Sr. João Francisco Garcia , 1.° tenente de artilharia, atravessou por motivos de serviço, de Benguella a Mossamedes. Por serem de muita importancia todas as noticias que respeitam ás nossas possessões africanas damos o oficio em que o Sr. Garcia relata a sua viagem, de que obtivemos copia pela louvavel curiosidade de um nosso assignante : 

—«Ill.'"° Sr.—Tenho a honra de levar ao conhecimento de V.S.* que, sahindo desta cidade a 19 de setembro passado, afim de dar cumprimento á commissão de que V. S.* me encarregou , — de ir encontrar-me com a corveta Isabel , nas immediações de Cabo-Negro , depois de explorar sertões limitrophes d'aquelle ponto e bahia de Mossamedes; e conjunctamente com o commandante daquella embarcação , consultar sobre a possibilidade de naquella costa se formar um estabelecimento commercial: cheguei a Quilengues a 28 do dito mez , e dalli parti para a Huila a 5 de outubro, onde cheguei a 12 do mesmo. Desde a minha chegada á Huila tratei logo de dispor ao soba dalli a dar-me auxilio para me transportar pelo interior do paiz até á costa, no que encontrei bastante repugnancia ; comtudo á força de dadivas e razões, e pela antiga amizade que com aquelle soha tenho, pude afinal conseguir o dar-me um macota e carregadores , para acompanhar um morador do paiz, do meu conhecimento e confiança, e pago á minha custa, até á costa , de donde, assim que chegasse, deveria tratar de procurar noticias da corveta , communicar com ella , se lhe fosse possivel, e dar-me quanto antes todos os esclarecimentos e noticias que tivesse. Eu fiquei no entanto na Huila, não só por estar soffrendo das febres, mas tambem por me ser ainda vedado o progresso no paiz. Por esta occasião suhe que no Iáu estava prezo , por certos crimes de feiticaria , um sobeta nome Loquengo , hahitante da costa do mar, e como me occorresse que este Loquengo poderia ser de alguma utilidade para meus fins, pelo logar que hahitava, determinei o captiva-lo pela gratidão, fazendo-o soltar; o que pude conseguir pela influencia que o soba da Huila tem sobre o do Iáu , ainda que a bastante custo; porque estes crimes de feiticeria , cousa mui frequente entre o gentio, é a maior parte das vezes um pretexto para os potentados espoliarem os mais fracos, e parece que, neste caso, o soha do Iáu ainda não estava satisfeito com o que linha extorquido ao Loquengo. 

— Intimei a este sobeta que, quando solto, queria que me acompanhasse até á sua terra, ao que assentiu : porem logo que se viu livre , tratou de quanto antes se pór fóra do alcance do seu perseguidor , mandando-me dizer que não esperava por temer ser outra vez prezo ; e que o podaria seguir na certeza de que me recommendaria pelo caminho, e que contasse com, os seus hons officios logo que chegasse á sua terra.

— No emtanto cu não cessava de solicitar a licença de ir pessoalmente até á costa , o que a final consegui, tendo alegado como o principal fim das minhas instancias , o lerem dado á costa dois navios, e que por este motivo ea tinha sido mandado por terra para me juntar com a corveta que andava no mar, afim de pormos no tal sitio uma pedra ou marca para que se não perdessem mais navios.

— Parti da Huila no 1.º de novembro ás 8 da manhã , chegando ás 3 da tarde á libata do soba de Iáu : entre estes dois pontos ha tres leguas de um terreno mui fertil, banhado por um grande rio perenne, que corre a igual distancia das duas libatas, e em cujas margens pastam os gados dos dois povos.— Pelo soba do Iáu fui mui bem recebido e agasalhado a seu modo, prestando-se logo a promptificar carregadores e a nomear um ruacota que me guiasse , acompanhando-me o mesmo soba em todo o primeiro dia de marcha , que teve logar no dia 4 de novembro, até á ultima libata de sua terra onde pernoitei.

— No dia 3 levantei para o Quiácuto, descendo parte do grande despenhadeiro , que aqui faz o terreno e que olha para o sul ; dormimos a cousa de um terço da altura : do cimo desta altura sahe um pequeno rio que serpenteando pelo monte ahaixo, se vem a perder de vista na planicie. Toda a encosta é cuberta de arvoredo carregado de urzela. A este monte, ou antes despenhadeiro chamam os do paiz a munda do Quiácuto: do cimo desta munda se goza de um golpe de vista maravilhoso, descubrindo-se todo o fertil e ameno territorio dos cubaes. No dia 4 acabei de descer a munda, que me custou um penoso dia de marcha, e por fim cheguei á haixa , terra de cubaes; paiz em geral plano em toda a sua extensão, que é mui consideravel ; semeado de montes e outeiros mais ou menos consideraveis, separados por valles e varzeas de grande fertilidade, onde os naturaes cultivam grande porção de massango , e algum milho que consomem mesmo verde , recolhendo o massango para o tempo das sèccas. A quantidade de gado vaccum e ovelhum neste districto é immensa. Neste dia fiquei na libata de Mélequilungo , soba destes arredores, que mui bem me tratou, e me presenteou com bois e carneiros, tudo devido ás recommendações que a meu respeito tinha. Neste logar, que chamam o Quiácuto , soffri hastante incommodo porquanto, os rapazes e creanças que, pela primeira vez viam um homem branco, tinham de mim tal medo , que mal por acaso me avistavam , partiam espavoridos, e se precipitavam aterrados por entre as pedras de que o logar abunda , com grande risco: o que obrigou o soba a ordenar-me que me conservasse dentro da cabana ou libata , que apenas tinha duas varas de diametro e 2% palmos quadrados d'abertura de porta, e que, quando quizesse sahir deste forno, deveria primeiro faze-lo sahir, afim de dar aviso aos rapazes para se porem a salvo atempo.— Ha aqui a fruta chamada mabóque, cuja apparencia exterior é exactamente a de uma laranja : a casca comtudo é mui dura , e partindo-se se encontra dentro uma polpa mui saborosa, um tanto acida e cheia de pevides miudas. 

— Já no districto de Iáu , eu encontrei a figueira agreste, cujo fructo , e inteiramente igual ao figo da Europa em tudo, menos na grandeza, que excede a das maiores peras, e na arvore que os dá que é de mui avultadas dimensões : os naturaes lhe chamam cúios, e os comem, na falta de outro mantimento, cosidos e desfeitos em polme ou malete.—

A uns cincoenta passos do Quiácuto , corre um magestoso rio acompanhado de arvoredo em ambas as margens, e parece vir do sueste : delle tomei agua até a Faiòna, onde a agua que leva já é mui pouca e quasi estagnada.— No dia 5 levantei deste logar, acompanhado de um macota do Mélequilungo, que de muito me serviu nos seis dias de marcha até a Faiòna , fazendo-me fornecer em todo o transito de bois, carneiros e grande copia de leite, dos repetidos e numerosos rebanhos de gado, que por todo este territorio dos cubaes encontrei: a minha comitiva nesta data chegava a cincoenta pessoas.

— A 11 cheguei a Faiona : é uma povoação cercada de muito boa madeira, de paus mui grossos muito altos e direitos : encontrei os mesmos arimos [fazendas], a mesma linguagem, e abundancia de gado. O soba de Faiòna é ao parecer, de 50 annos de idade, muito alegre e franco. 

— Do Quiácuto a Faiòna é o caminho em geral bom, o terreno coherto de madeiras e a vegetação mui vigorosa.

—Tanto esta povoação como a do Quiácuto tem mui pouca gente, e pelo caminho encontrei seis libatas abandonadas, sendo o motivo , o andar esta população espalhada com os numerosos rebanhos, pelos logares deste vasto territorio onde o pasto é mais abundante, e não falta água.

— Esta gente dos Cubáes é a mais simples que eu conheço n'estas partes: todo o seu alvo é tratar dos seus rebanhos, e nada sahem de roubos nem de guerras, como o outro gentio. Não tinham ainda por aqui visto um branco, e por isso a minha presença lhe causou grande admiração: com tudo tem boa opinião dos brancos, e os tratam com amizade. Não conhecem a vil prática de se venderem uns aos outros, e quando apanham algum ladrão dos seus gados preferem o mata-lo ao resgate. Como os gados lhes fornecem com abundancia os meios de subsistencia , tratam pouco da agricultura ainda que o terreno seja mui fertil. Em Faiòna tive a noticia de que a corveta [que elles chamam elefante do mar] estava fundeada n'um logar que depois (•) Vide n.° precedente sube ser a hahia de Mossamedes. Partindo de Faiòna, atravessei um terreno arido, sècco, e sem vegetação, e não vi nem gente, nem gados, até ao dia 16 em que desci uma montanha de areia de grande altura. Ao chegar ao cimo desta descida se observa uma lista de vasto arvoredo que na baixa junto ao monte faz cotovello , estendendo-se para o norte e para o oeste. Este arvoredo marca o alveo do rio de que me tinha separado ha tres dias, que vem aqui ter da banda do norte e vai desaguar na bahia de Mossamedes e Loquengo, no tempo das cheias : agora ainda corria mui pouca agua ao pé do cotovelo no fundo do monte de areia de que fallei, e daqui para haixo só encontrava agua debaixo da areia , o que se obtinha abrindo mesmo com a mão uma pequena cova , e logo a um palmo apparecia mui boa agua. Cheguei finalmente no dia 17 de novembro a Mossamedes, e no mesmo dia communiquei com o commandante da corveta.

— No seguinte dia fui visitado pelo soba Loquengo [aqurlle que eu soltei no Iáu] trazendo-me um boi e dois carneiros.

— Passados dias fomos eu e o commandante á libata do Loquengo que nos tratou muito bem e nos obsequiou o melhor que póde, e ao commandante pediu com grande instancia que o avassalasse afim de ficar protegido contra as vexações do soba do Iáu e outros que o opprimiam, como ha pouco lhe tinha acontecido. Pediu que lhe pozesse um nome, e lhe désse alguma insignia que indicasse a sua auctoridade; estimámos muito estas hoas disposições do soba, e consultando-me o commandante sobre o caso, assentámos de annuir aos seus desejos, e então se Ibe deu o nome de Giráhulo, cuja palavra exprime as relações que os seus antepassados tiveram com os brancos. Depois deste acto que teve logar com o ceremonial do costume, lhe recommendou muito o commandante que tratasse bem os brancos, que désse todo o auxilio aos navios que alli aportassem, e que soccorresse os naufragados, o que tudo protestou fazer de boa vontade. Convidou-o o commandante a ir a bordo da corvela, onde queria corresponder aos seus obsequios, e dar-lhe o distinctivo da sua nova auctoridade. Passados alguns dias foi com efeito o soha a bordo, onde foi mui hem tratado, e alli repetiu todas as promessas anteriores. Na presença da guarnição em parada , lhe poz o commandante uma bella capa encarnada , toda ornada de botões dourados e lavores, todo feito a bordo, e lhe deu uma cadeira , com o que, e uma salva de oito tiros de despedida ficou o homem por extremo contente e satisfeito. Alem do soba Giráhulo de quem tenho fallado, e que tem a sua libata no Loquengo a cousa de 4 a 5 milhas,' na costa do norte fóra da bahia, ha ainda outro mesmo na bahia , a que chamam Mussungo, que pela pouca importancia que parece ter, foi quasi neutro em todas estas transacções ; ficou com tudo muito satisfeito da nossa estada , pois que alem do beneficio que dela lhe resultou na boa porção de fazendas que lhe deixámos, tanto minhas como da corveta, não houve uma unica pessoa tanto de bordo como da minha comitiva que lhe désse o menor desgosto , ou praticasse o minimo excesso.

— Por todos estes motivos ambos os sobas ficaram dispostos a entrar em qualquer transacção com os brancos , e ambos mostraram grande desejo de que alli se fosse assentar algum estabelecimento. Os terrenos que occupam estes dois sobas, são duas varzeas nas margens do rio que desagua na hahia de Mossamedes , deitando um braço para o Loquengo e em amhos os logares tem terrenos que parecem de grande fertilidade, onde tem alguns arimos em que as mulheres cultivam feijão, milho, aboboras e alguma mandioca, que são as plantas que exclusivamente se cultivam por todos estes sertões. Concluidas as minhas observações e as do commandante da corveta, partimos para Benguela , onde me acho prompto a receher as ordens de V. S. 

— Deus Guarde a V. S. — Benguela 13 de dezembro de 1839. — Ill.0'° Sr. governador da Benguela e suas dependencias. (Assignado ) — João Francisco Garcia , 1.* tenente.

In O Panorama: semanario de litteratura e instruccão, Volume 8 Por Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Portugal),Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Lisbon, Portugal)

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