
Transcreve-se a parte de um texto ass. por Jorge Fernandes Alves, pelo interesse de que se reveste para o assunto tratado neste blog:
Tensões nativistas
Depois das agruras da viagem, o português desembarcado no Brasil, depara, particularmente nos tempos pós-independência, com uma luso-fobia acentuada, que sintetiza vários tipos de animosidades ( políticas, económicas, sentimentos de rua contra a caristia...). Pedro Calmon sublinhou devidamente as dificuldades iniciais de um sistema «imigrantista» que substituisse a escravidão, devido a preconceitos ancestrais de xenofobia colonial, cuja informe agressividade espicaçava, nas ruas, o delírio nacionalista». E, «consumada a independência, resta o acto popular de desforra, o mata-maroto que na Baía se repete, pitoresca e tragicamente todo o ano, e em Recife tem aspecto de uma ameça permanente, social da Patuleia, contra o comércio retalhista».
Multiplicaram-se este tipo de motins na época regencial, mas o seu lastro permaneceu durante muito tempo, tendo muitos jornais da época, verdadeiramente incendiários no seu radicalismo jacibino, contribuiso para os criar ou ampliar.
A Revista Universal Lisbonense, dá-nos conta deste ambiente ao longo de vários números, e publica textos de defesa em 1851, escritos por portugueses radicados no Brasil, para divulgação neste país, dado o número elevado de assnantes da publicação aqui existentes. Entre insultos, o Argos Maranhense apontava o essencial: «são mais protegidos do que nós no comércio, dedicam-se exclusivamente a ele, e além dos tropeços que encontramos em uma legislação incoerente com os interesses nacionais, impõem-nos uma barreira insuperável e impedem que brasileiro algum se possa proficuamente ocupar neste ramo de industria. Outros jornais brasileiros, como o Estandante ou o Progresso, afinam pelo mesmo diapasão, numa propagação da luta contra o facto de o comércio a retalho estar em mãos portuguesas, pelo que se apela à nacionalização do comércio.
Esta campanha pela nacionalização do comércio a retalho, no âmbito da hostilidade dos portugueses, terá sido desencadeada em 1842, em Pernambuco, por ocasião da rebelião "praieira" . Mais tarde, em 1844, o mesmo partido praieiro terá peomovido um abaixo assinado em que se requeria ao governo a expulsão de artistas estrangeiros, e a proibição de certas produções industriais por estrangeiros. E, em 1848 (26 de Junho), ainda em Pernambuco, a partir de uma briga entre um estudante brasileiro e um caixeiro português, de que o primeiro saiu ferido, estala um motim anti-português, em que aos gritos de "mata-marinheiro" se liquidaram vários portugueses comerciantes e se solicitou de novo à assembleia provincial a expulsão dos estrangeiros do comércio a retalho, bem como a a expulsão de todos os portugueses solteiros com mais de 15 anos, num cortejo de acusações que proliferavam em jornais e clubes nocturnos. Vários enviados do governo português colocaram-se à disposição dos emigrantes, para os conduzir à alternativa de África, indo algumas centenas construir então a colónia de Moçâmedes, Angola.
Embora amainando è medida em que surgiam medidas graduais no longo caminho da abolição da escravatura e se desenvolviam políticas de emigração, esta animosidade está subjacente ao relacionamento do brasileiro com o português, num clima vivencial qie Pedro Calmon definiu exemplarmente "o contraste entre a transacção lusófila do alto e a trepidante lusofobia das ruas" . Assim, de vez em quando emergem conflitos em que o português se torna "bode expiatório"...
In "Variações sobre o brasileiro". Tensões na emigração e no retorno do Brasil. Revista Portuguesa de História. Tomo XXXIII (1999). U. Coimbra
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