Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 9 de novembro de 2010

Um conto de vez em quando: o Padre Basílio

    A Igreja paroquial de Santo Adrião, vendo-se à esquerda a sacristia




O Padre Basílio


O padre Basílio foi um padre bizarro que passou por Mossâmedes (Moçâmedes-Angola) nos anos 1940, uma vez que possuía um comportamento pouco ortodoxo que não se enquadrava nos padrões morais da época, nem se enquadraria ainda hoje, passados que foram mais de 60 anos, e de tal modo que se tornou para quem alí vivia, como que uma figura mítica, rodeada por uma auréola de negatividade.  Dele se dizia que era rezingão e malcriado, que não gozava da simpatia e dos favores da população, que poucos o amavam e muitos o odiavam, que alguns o toleravam pelos muitos anos que levava pastoreando o mesmo rebanho de fiéis, pelo respeito pela batina negra que vestia, e pelas compridas barbas que pendiam do seu rosto mal encarado e mal amado.

O padre Basílio, tinha o seu próprio código de honra, de ética e de convivência, desajustado para a figura de  uma pessoa que deveria primar pelo exemplo da conduta e da contenção da palavra.  Pai de um casal de mestiços que com ele partilhava a residência paroquial, na parte traseira da Igreja paroquial de Santo Adrião,  nunca escondeu a ninguém a paternidade das crianças, assumindo-a na sua plenitude, como se fosse a coisa mais vulgar deste mundo um sacerdote seguir à letra o preceito da benção de Deus a Noé  aos seus filhos: «Sejam férteis, cresçam e encham a Terra».

Nem o bispo, nem as pessoas mais importantes da cidade, muito menos as beatas mais militantes ousavam frontalmente censurá-lo, com temor das suas reacções ou das represálias contundentes, onde quer que fosse, no púlpito da Igreja, no salão requintado, ou em qualquer esquina ou rua da cidade. E com o avançar da idade mais ainda foi apurando o  seu génio briguento, de tal modo que corria pela cidade, naquela década, que quando a vizinhança uma vez clamou contra a praga de ratos que vinham do templo consagrado à oração, ele próprio decidiu fazer a desratização da sacristia, da Igreja e da residência paroquial...a tiros de revólver.

Outra faceta do mau feitio deste padre era revelada pelo modo como catalogava os seus paroquianos, dos mais carenciados aos mais abastados,  dos pobres de espírito e pobres de cultura aos pobres de estrutura. A estes, esporadicamente, quando se recolhiam no seu confessionário para se libertarem dos pecados, mesmo que  implorassem, não lhes era concedida a penitência nem a absolvição.

Mário Augusto da Silva Lopes 
 
                                            


P.S. O que o meu amigo Mário Augusto não referiu aqui, foi uma cena ocorrida no interior da mesma Igreja, a Igreja Paroquial de Santo Adrião, em Moçâmedes, que teve como protagonistas o mesmo padre Basílio, e duas jovens  estudantes,  e que deu brado em toda a cidade.

Por essa altura  uma das escola primárias da terra funcionava  no edifício do Palácio do Governador, ali mesmo ao lado da Igreja. Contava-se entre as senhoras que viveram aquele tempo (anos 1925-30 +-) que um dia a duas jovens estudantes ao passarem pela Igreja no regresso a casa, apeteceu-lhes empurrar a porta que estava entreaberta, entrar, e ficar ali a rezar um pouco. E se tal pensaram, assim o fizeram. Com o que não contavam as jovens é que lhes iria surgir pela frente, vindo dos lados do altar, o atrevido padre Basílio envolvido numa capa que lhe cobria o corpo nú, e que ao aproximar-se delas, propositadamente, abriu a capa e  deixou-se exibir... Resultado, as jovens envergonhadas saíram correndo, apavoradas, da casa do Senhor Jesus Cristo, e a notícia correu a cidade de canto a canto. A  partir de então as raparigas da pacata  Mossâmedes  que na época ainda se escrevia assim, com dois ss,  passaram a estar avisadas pelas mamãs do risco que corriam, e aconselhadas a nunca ali entrarem sem a companhia de alguém de um adulto da sua confiança.



MariaNJardim

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