Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 25 de dezembro de 2010

As Festas de Nossa Senhora da Conceição do Quipola em Mossâmedes, Moçâmedes (actual Namibe): até aos anos 40/50


Esta é a foto mais antiga que consegui da Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, e das festividades ali realizadas anualmente, no dia 08 de Dezembro. Repare-se no aspecto engalanado do local, nas charretes encostadas à parede lateral da capela, e no recinto à direita (mancha escura em forma de quadrado), espécie de estrado coberto a folhas de bananeiras, onde decorria após a missa e a procissão, o bailarico.   

Quanto à data exacta em que foi construída esta Capela, encontrámos o seguinte texto que sugere que a mesma já existia em 1884.

"...Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes.
"... Além das provas de ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia exame de Francês, e era exactamente a filha do governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata.
"... O prémio referido, de noventa mil reis, foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno.
"...A filha do governador foi também premiada. O coronel Sebastião Nunes da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à capela de Nossa Senhora da Conceição, da Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. Fonte deste texto
 


Foto retirada do livro "Era uma Vez " de Paulo Salvador

Esta foto que se pensa seja datada da década de 1920/30, foi tirada em Moçâmedes, actual cudade do Namibe, por ocasião de uma dessas romarias anuais à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, e deixa pressupôr pela indumentária, tratar-se de um grupo de "elegantes" da classe média de então. Retirando o panorâma de fundo, pela forma como se encontram vestidas estas pessoas, bem podia tratar-se de uma foto tirada em Lisboa, ou até mesmo em Paris. Enquadra-se  nesse periodo que ficou denominado por "Belle Epoque", decorrido entre os anos 1880 e o início da I Guerra Mundial (1914-18), em que floresceu nos países europeus ocidentais, a partir de França, toda uma cultura de lazer e bem estar, em que a moda teve o seu papel de relevo.  A moda feminina tinha dado um grande salto, os vestidos já não eram até aos pés, mas a meia perna ou pelo tornozelo. As senhoras usavam chapéus de vários feitios,  abas largas, abas estreitas, já não apenas para se protegerem do sol, mas porque o chapéu passara a servir  de distinção de classe e de função social. Também a moda masculina mudou, os homens usavam colarinho branco, gravata, e chapéu, preferencialmente o  "chapéu de côco" que podia ser de feltro castanho ou cinzento, ou de palha branco. Em Moçâmedes os "Armazéns Primavera" (1) recebiam encomendas das nossas e dos nossos "elegantes", que mandavam vir as suas toilletes dos " Armazéns Printemps" de Paris.  Paris, a cidade Luz, tornara-se uma referência existencial para os que estavam sintonizados com os ares da Belle Époque, a época de ouro, proporcionada pelas invenções tecnológicas, com o avanço da Revolução Industrial: telefone, telégrafo sem fios, o cinema, a bicicleta, o automóvel, o avião, etc., que inspiravam novas percepções da realidade e tornavam a vida mais agradável. Pelo comboio chegavam a Portugal, vindas de Paris,  as últimas novidades. Paris, a cidade da Luz, referencial de vida para os intelectuais de todo o mundo, cidade  dos cabarés, dos cafés-concerto, das operetas, das livrarias, dos teatros, dos boulevards do cancan e da alta costura...   A moda entre nós era paga com produtos que Moçâmedes exportava para o exterior que serviam de moeda de troca. Na década de 20 e 30 exportava-se para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e  Gabão, conservas de alta qualidade que competiam com as de outras origens por serem mais   baratos, e  em troca, nessa década de crise, em vez de dinheiro, chegavam  a Moçâmedes produtos de vários géneros.2 
Moçâmedes nessa altura possuía uma bela casa de espectáculos, o Cine Teatro Garrett, mais tarde demolido deu ligar ao Atlético, que fazia lembrar o S. Luis, em Lisboa, onde se realizavam saraus de todo o género frequentados pela "gente fina" do burgo que aproveitava para exibir o seu estatuto real ou elaborado,




Grupo de peregrinos junto do comboio que os transportara à Capela da Senhora do Quipola, no dia 8 de Dezembro de 1950. Destacam-se alguns alunos Mocidade Portuguesa e respectivos familiares, entre os quais reconheço, em 2º plano:, e da es. para a dt. Júlia Almeida, Alice Freiras, Ilda Nunes, Idalinda Ferreira, Maria Etelvina Ferreira, Odete Maló de Almeida (a mais alta, à dt.) e Iolanda Freitas. E em 1º plano, entre os jovens mocitários: Soares, Carlos Ferreira ( Carlitos Miroides), Pedro Gomes e João Luis Maló de Abreu (o mais alto).



Ainda nos finais dos anos 40, início dos anos 50, mantinha-se viva a tradição da romagem à capelinha da Nossa Senhora da Conceição do Quipola, romagem essa que reunia grande número de  crentes e de não crentes, sendo para tal posto à disposição da população um comboio que assegurava as idas e vindas, sobretudo nesses tempos mais trás, quando não havia automóvel.


  À chegado do comboio, o ronceiro "Camacouve"....

 
  Caminhando em direcção à Capela...

 

Peregrinos e visitantes, passando por entre os mastros embandeirados erguidos no local



Era  gratuitamente, que o Caminho de Ferro de Moçâmedes transportava as pessoas, ajudando a impulsionar as festas. Ao comboio, chamavam-lhe o «Camacouve» devido à morosidade dos percursos e à pouca velocidade com que caminhava, demorando o dia inteiro para completar os cerca 240 Km que separavam Moçâmedes de Sá da Bandeira. Ultrapassado sim, mas acarinhado, pois era nele e através dele que a população, inda assim, tinha acesso a percursos mais longos e a este tipo de festividades que quebravam a rotina do quotidiano, e que à boa maneira portuguesa "sagrado" e "profano" se misturavam. Ou seja, a romaria incluia uma «missa campal» seguida de procissão, os fieis recebiam a comunhão, cantavam "ossanas", rezavam o terço, e culminava num arraial em recinto de terra batida,  enfeitado com mastros, bandeiras, dísticos, folhas de palmeiras, pavilhões de comes e bebes, barracas que vendiam de tudo: estatuetas, rifas dos mais diversos objectos, gulodices, bebidas, cigarros, etc., e onde as pessoas se distraiam com o tiro ao alvo jogos de argolas e cavalinhos.

 

Esta foto mostra-nos o muito estimado e popular padre Guilhermino Galhano, no fim da missa campal a organizar os peregrinos para a incorporação na tradicional procissão. O Padre Galhano era um padre moderno que foi "carola" do Ginásio Clube da Torre do Tombo e do futebol, modalidade que ele próprio praticou, descontraidamente, lado a lado com os jovens daquele clube pioneiro. Sabia chamar a si os jovens e as crianças da terra, e não se inibia em jogar futebol com as crianças aos domingos, após a missa e a catequese, vestido de batina branca e  meias pretas, com suas longas barbas negras o destinguia dos demais. Os jogos decorriam no descampado que ficava entre a Igreja Paroquial de Santo Adrião e o Palácio do Governador.


   O momento solene da missa campal



O momento da  procissão. Procissão e festividades sempre tinham a participação tanto de europeus como de africanos (kimbares)


O ponto culminante da festa era o baile, que decorria sobre um estrado de madeira, onde gente de todas as idades se divertia ao som da velha concertina ou  do gramofone, que altifalantes pendurados nas árvores das redondezas faziam ecoar. Mas havia outros entretenimentos. Um pouco mais adiante, jovens e criança divertiam-se disputando as tradicionais corridas do saco, do ovo e da colher, etc. Havia ainda o jogo do «pau ensebado», especialmente apreciado pelos africanos "quimbares" que à romaria acorriam, e que decorria no largo em frente  da Capela onde era colocado um mastro de madeira com cerca de 8 metros de altura, impregnado de sebo, no topo do qual era pendurada uma garrafa de bebida (brandy, vinho do porto, aguardente, vinho tinto, etc) que desafiava a quem ousasse subir para a ir buscar. Este concurso era sempre ganho pelos quimbares, cuja estratégia era, para não escorregarem, levavam areia nos bolsos das calças de forma a que, de quando em quando pudessem esfregar as mãos e  subir um pouco mais, até alcançarem o precioso líquido colocado a prémio. Mas não eram apenas quimbares (povo africano e aportuguesado da zona) que se juntavam aos portugueses. Era raro, mas um dia aconteceu, contava-se na cidade, que ao estrado de dança subiu uma mulher mucubal com a sua indumentária tradicional meio desnuda, dançou com um algarvio (Manuel de Faro), proporcionando um delirante e ovacionado espectáculo. Digo raro, porque o povo da etnia mucubal era um povo pastoril, nómada ou semi-nómada, que mantinha as suas tradições, viviam da pastorícia, andavam semi-nus, e eram  resistente à integração. Nada tinham a ver com a população quimbar, aportuguesa, oriunda do norte e do centro de Angola, fruto da miscigenação de várias etnias que se fixaram em Moçâmedes e distrito quando da fundação, ou até mesmo aos da etnia cuanhama de fácil integração. O mucubal raramente se aproximava da cidade, senão em tempos de seca e falta de pastos. A partir da década de 1950 por vezes apareciam na cidade em busca de trabalho na estiva, em cargas e descargas, e as mulheres na salga de peixe. Outras vendiam tomate miúdo que transportavam em "quindas" à cabeça. Mas logo que a situação melhorava, o regresso ao deserto e ao pastoreio era uma realidade.

Estas festividades, que remontam aos tempos em que as pessoas ainda se deslocavam em «charretes» e  em carroças puxadas por  bois, atingiram o auge  nos anos 1920-30, mantiveram-se firmes na década de 1940,  e foram aos poucos perdendo o brilho, até que no decurso da década de 1950, com as novas formas de lazer que foram surgindo, acabaram praticamente  por se extinguir.  Mas sem duvida, elas ajudaram durante o tempos que duraram a tornar mais agradável a vida da população, juntando momentos de  fé religiosa com momentos de lazer e folia, momentos bem vindos a uma população carente de festas e distracções que lhes alegrasse a rotina do quotidiano. Não admira, se pensarmos que ainda nos finais dos anos 1940 em Moçâmedes, muitas casas  eram iluminadas a petróleo, os aparelhos de rádio (ou telefonias) ainda eram alimentados a bateria, e, assim sendo,  às 8 e 9 horas da noite já estava toda a gente na cama. Como não aproveitar todas estas ocasiões?

Ficam mais estas recordações de um tempo que ficou para trás no tempo, e de uma realidade vivida algures num recanto do litoral ocidental de África, na antiga Mossâmedes, na intermédia Moçâmedes, hoje cidade do Namibe,  a  simples, calma e singela cidade erigida entre o deserto e o mar...


MariaNJardim






(1) Os "Armazéns Primavera" ficavam no rés do chão do edifício da familia Zuzarte de MedonçaTorres, na Rua dos Pescadores , por detrás da Alfândega , fazendo esquina com a Rua 4 de Agosto.

(2) A Fábrica Africana de Figueiredo e Almeida, Lda.,  que posteriormente deu lugar à conhecida SOS, tinha colocação fácil nos mercados britânicos, e que as exportações em  tempos de crise com a 1ª Grande Guerra,  reanimaram-se a partir de 1923,  exportação de conservas de atum, sarrajão, cavala, merma, etc., principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, e também para os Congos Belga e Francês e o Gabão.




Coloco a seguir alguns testemunhos e algumas poesias de moçamedenses sobre a citada romaria:


«...Senhora do Quipola


 Eu lembro-me como se fosse hoje. Apanhamos o comboio, de carvão ainda! E quando finalmente chegamos trilhamos aquele terreiro de cor farrusca, onde o cheiro dos assados persistia a me abrir o apetite, mas era garoto e não tinha dinheiro! Passei lá uma tarde maravilhosa com os meus irmãos! Mais tarde a caminho de Moçâmedes a rapaziada entusiasmada cantava uma canção que só ouvi uma vez mas nunca mais esqueci:

Quem quizer ver
é só ir à Quipola.
Comer churrasco
e beber coca-cola!

Pergunta ao João
ele sabe a picada
ele sabe a morada
do meu barracão...

Pergunta ao João...


(paro por aqui... porque a emoção é bastante elevada!)
Estavamos em 1966 (penso)
tony araujo
in Mazungue


***


Outros poemas dedicados a estas festividades:



Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Voltámos a Angola
numa doce oração...
aquecemos o coração
com a Senhora do Quipola...

A tal urbe abençoada,
com fulgor, em romaria...
pede à Senhora do povo
um esgar de calmaria...
desejo de mundo novo!!!

Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Cada um faz a oração
à benção do vinho e do pão...

entre comes e bebes
a Festa esquenta...
tudo mais se inventa...
bailarico p'ros imberbes

há vivas ao mais folião...
há caçador de coração...

estamos no Quipola...
a assentar a meninice
a reunir a mocidade
a rever a traquinice
da tal palavra Saudade

da Menina-Mãe ANGOLA!!!

em marcha lenta
o comboio lá vai...

(recordando...)

Aileda (in Sanzalangola)



***


À Sr.ª da Quipola

Dia da nossa Senhora da Quipola
Que Moçamedense não esquece
Passem lá os anos que passarem
O nosso coração nunca arrefece

Surgem lembranças bem marcantes
Recupera-se o tempo da mocidade
Revive-se cada ano a lembrança
E rola uma lágrima de saudade

Mesmo á entrada da Cidade
Numa simples casinha amarela
Nossa Senhora vai abençoando
Quem passa ou entra na Capela

Era repouso de cada visitante
Na alegria ou revés para louvar
Era fonte do peregrino sequioso
Quando Nela, se queria sedentar

Era a festa, a romaria a procissão,
A homenagem à Senhora nossa Mãe
Por te sabermos nossa protectora,
Nunca te esqueceremos também.

Manuela Lopes






CURIOSIDADES

Sitio do Quipola,  local da região de Moçâmedes, a seguir ao Bero, onde vivia a tribo do soba Moeni-Quipola,  que esteve presente juntamente com o sobas Mossungo e Giraul na recepção de boas vindas aos colonos fundadores, que chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro ali chegaram , vindos de Pernambuco, Brasil, no dia 04 de Agosto de 1849 .


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A povoação indigena  Mossongo Bittoto "... habita as praias e valle proximo do forte: os seus mais notáveis chefes são os Sobas Moeni-Qupola, (sem nenhuma importância entre os seus) e Giraul,
este mais poderoso e mui respeitavel ancião, tem em grande valia as relações com os Portuguezes, que igualmente o consideram pela superioridade de sua posição. O seu dominio estende-se até a ponta do Norte da bahia bastante povoada.

Em geral todos estes povos occupam-se pouco da gricultura, semeam unicamente o indispensavel para a sustentação da vida, que mais empregam em pastorar o gado que possuem em extraordinaria quantidade, no que fazem consistir a sua maior riqueza, cuidadosamente guardada em lugares desconhecidos dos outros povos do interior, quando por estes invadidas as suas povoações por qualquer pretexto de guerra, em que pelejam só por se defenderem de seus aggressores."

Retirei este pequeno texto do livro intitulado "Demonstração geografica e politica do territorio portuguez na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."  escrito em Lisboa em 1846  por Joaquim Amtónio Menez, e publicado no Rio de Janeiro em 1848, portanto, às vésperas do início da colonização de Moçâmedes.
Menez escreveu este livro no desejo de chamar a atençào dos portugueses sobre as vantagens e recursos que a Metrópole poderia recolher do vasto e rico território de Angola, e lamenta que Portugal após a administração vigorosa e civilizadora de Pombal em pouco tempo tenha destruido as beneficas disposições que podiam tornar florecentes as Provincias d'além mar, que se estavam  mal,  pior ficaram, agravando a sua decadência.
O autor esteve em Angola no ano de 1842, dezasseis anos após a sua última estadia no território, e ficou surpreendido com a decadência. Viajou na escuna Amélia que naufragou em Moçâmedes, esse célebre episódio que deu o nome à Praia Amélia. Percorreu  pontos da costa até Luanda, que nessa altura apresentava já os sintomas de uma vida quasi extinta. Acabou por regressar a Lisboa em 1845, atrozmente perseguido, devido ao conceito que fazia da administração e a vontade de prestar algum serviço à Nação.




(ass) MariaNJardim




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