Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Considerações de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro sobre o estado da cultura nas províncias ultramarinas .O caso de Mossamedes


Breve noticia do estado da cultura nas nossas províncias ultramarinas, oferecida á Associação Central da Agricultura Portugueza, pelo sócio Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, e acompanhada de algumas considerações.

Portugal podia ser um povo rico e feliz pela sua cultura no continente europeu, e nas suas províncias ultramarinas. Portugal, em rasão da localidade, que ocupa no mundo, podia ser um povo rico e feliz pelo seu commercio. Portugal, atendendo ás suas ainda extensas possessões, podia ser um povo rico e feliz pelas suas manufacturas, das quaes deviam aquellas ser um considerável mercado.

Se a arte agricola houvera coadjuvado a natureza, este nosso pequeno reino, cujo clima é tão ameno e delicioso; e cujo terreno é tão fértil e produclivo, devia ser hoje na Europa um jardim,
que, reunindo o útil com o agradável, proporcionasse ao maior numero de seus habitantes uma vida, laboriosa sim, mas abastada, commoda e cheia de encantos. Infelizmente, porém, assim não acontece, porque nenhum cuidado tem merecido a nossa agricultura, que por séculos se conservou no estado a que a levaram os nossos primeiros roteadores, os monges, sem que se tratasse de nella introduzir os melhoramentos, que os povos cuidosos introduziram.
Se este desleixo pela cultura no reino, se não notasse ainda centuplicado em as nossas províncias do ultramar, podia Portugal ser hoje na Europa um dos mais consideráveis interpostos dos productos agricolas, que somente se dão entre os trópicos, alguns dos quaes são géneros de primeira necessidade, e de mui subido valor, como são o algodão em rama, o assucar, o café, o cacau e certas especiarias.
É pois o desprezo, a que havemos condemnado a agricultura tanto no rei no, como nas colónias, a primeira origem da nossa pobreza, e a primeira causa da decadência do nosso commercio, e das nossas manufacturas; por quanto se tivéssemos levado os géneros agricolas do reino ás nossas possessões, taes como o azeite, o vinho, e a farinha de trigo, e trazido delas o algodão em rama, o assucar, o café, o cacau, e as especiarias: se lá tivéssemos levado os tecidos, o calçado, os utensílios de todo o género, e os moveis, que ali se gastam, e trazido também aquelles productos, teríamos entretido um extenso e valioso commercio, e creado um considerável movimento artístico e manufactureiro.
Não obstante possuirmos na Europa um tão diminuto terreno, ainda assim não nos faltam braços para se empregarem na cultura, no commercio, e nas artes, como claramente demonstram os factos; pois basta olharmos para a constante e numerosa emigração de nossos compatriotas para países estrangeiros, para vermos, que se se houvessem encaminhado para aquelles três ramos de industria nacional, se teriam levado a um grande desenvolvimento e prosperidade, aos quaes só, por effeito das nossas más administrações tem deixado de attingir.
São isto verdades tão palpáveis, que só expendidas, ficam por si mesmas demonstradas.

Julgando, pois, ocioso fazer extensas lamentações sobre o mal, que nos tem resultado, de se não ter prestado attenção á nossa agricultura, a este ramo de industria o mais nobre, e o mais indispensável á vida dos povos, e tanto mais, porque vejo, que reconhecida é hoje esta ommissão, e se começam a empregar meios para a remediar, sendo um delles, e bem interessante, esta Associação, a qual se cumprir o seu fim, muitos serviços lhe pôde prestar; direi que se é um dever de todo o cidadão portuguez promover todos os melhoramentos possíveis da sua pátria, e se um d'estes, e o mais essencial, é o progresso e augmento da cultura, é elle ainda mais altamente reclamado d'uma sociedade, que tem por titulo — Associação Central da Agricultura Portugueza.
Se a todos os seus sócios pois incumbe fazer, quanto caiba em suas forças, para que este titulo não seja vão, claro está, que eu contrahi a mesma obrigação, visto que me coube a honra de ser um d'elles, honra devida á bondade da illuslrada direcção; porque se se não enganou em quanto aos meus bons desejos, assim lhe não aconteceu em respeito aos meus conhecimentos, os quaes são limitadíssimos.
É verdade que promovi a creação da agricultura em Mossamedes; porém foi isso devido mais a uma tenaz vontade, do que ás habilitações, que para tal fim tivesse.
É verdade que creando alli a cultura da cana, e a elaboração do assucar, mereceu este na exposição de Paris em 1886 uma medalha de honrosa menção, que existe no conselho ultramarino; mas ainda isso mesmo foi resultado d'aquella, e não d'estas; c por isso se não poder propor medidas adequadas, para que a agricultura se faça progredir e desenvolver com aperfeiçoamento, quer no reino, quer nas províncias ultramarinas, limilar-me-hei a expor em respeito a estas algumas considerações, ve a referir qual o estado em que ella ali se acha, com o que farei suscitar a génios mais esclarecidos, do que o meu, e que felizmente os vejo n'esta associação, idéas, a fim de que possam indicar os meios conducentes, para que a cultura, já começada naquellas províncias tome o necessário incremento, e chegue ao gráo de prosperidade, de que é susceptível, e de que tantas vantagens devem resultar a mãe pátria.
Ficam entre os trópicos, como por todos é sabido, as nossas quatro provinvias do ultramar, a de Cabo Verde, a de S. Thomé e Príncipe, a de Angola,» e a de Moçambique, e por isso já a sua localidade nos indica, que são ellas próprias, para produzirem os géneros chamados coloriiaes: porém, ainda á sciencia theorica acerescem os factos; porque já na primeira e com bom resultado se cultiva a purgeira, o café, e a cana de que se extrahe o assucar, fazendo-se já exportação d'estés productos; pois o pouco algodão, que ali lambem se cultiva, é manufacturado em tecidos, que se consomem na mesma província.
Na de S. Thomé e Príncipe, que abunda, além dos fructos de espinho, dos mais variados e saborosas de entre os trópicos, cultiva-se o café> o cacau, a cana sacharina, e o tabaco, exportandose já em escala os dois primeiros productos, e que são de boa qualidade, mormente o café.

Na de Angola cultiva-se o café, o algodão, o amendoim, a cana de, assucar e o tabaco, exportando-se já quantidade dos três primeiros géneros.

Na de Moçambique cultiva-se o café, o algodão, a cana sacharina, e o tabaco.

Além das mencionadas culturas, ha ainda n'estas provindas a de grãos, plantas tuberosas, arvores e arbustos fructiferos, de que os seus habitantes tiram o aumento.Já pois se ve, que nas ditas províncias se acha começada a cultura, não só dos géneros, que devem alimentar os seus moradores; mas d'aquelles, que se podem, e muito convém exportar, como são o algodão, o café, o assucar, o cacau, o tabaco, e os óleos de purgueira e amendoim; portanto já n'ellas se não carece de a principiar, mas sim de a fazer desenvolver e aperfeiçoar, afastando, como for possível, todos e quaesquer embaraços; porque na província de Cabo Verde é a elaboração do assucar e aguardente, feita com tal imperfeição, que dois terços da cana sacharina, que já ali se cultiva, se perdem, em razão dos maus apparelhos, com que delia é extrahido o caldo e com que é feita a operação, para este ser levado ao estado de cristalisação; acrescendo ainda o desperdício do mel, que escorre dos pães de assucar, porque são conduzidos para o embarque, sem d'elle serem purgados, e que por isso se não approveita para d'elle fazer aguardente.
É pois de reconhecida utilidade, que naquclla província se fizessem montar dois regulares laboratórios de fazer assucar, e aguardente, a fim de servirem de modelo e escola, para outros se levantarem, com o que não só renderia Vol. rv. mais a cana já ali cultivada; mas se augmentaria a sua plantação.
A purgueira que é um ramo importante do seu commercio, e que quasi espontaneamente se produz, é exportada em grão, e por isso pelo seu volume faz grandes despezas nos fretes, as quaes diminuiriam, se a matéria prima ali fosse reduzida a óleo, pelo que muito conviria que ali se montassem engenhos par ra a expremer.

O café, que em algumas das suas ilhas, mormente na de S. Antão, se produz optimamente, e de boa qualidade, é susceptível de muito se augmentar a sua cultura, animando-acom o emprego dos meios, que se julgarem mais conducentes, como são prémios, isempções, e outros incentivos.

É na província de S. Thome e Príncipe já de grande importância a cultura* e exportação do café, óptimo na quali, dade, sendo para lamentar, que se perca muito na occasião mesmo da colheita, por falta de quem o apanhe. Se d'elr la se removesse a carência de braços, com que lucta, se faria rapidamente desenvolver não só a cultura deste valioso producto, mas a do cacau, a do assucar, e a de varias especiarias. .

A proximidade, em que esta província se acha da d'Angola, onde a abundância de braços é incontestavelmente demonstrada pela grande exportação que d'elles se faz por contrabando, indica a possibilidade de se remediar este inconveniente, o qual se não dá na Província de Mossambique, onde elies abundam, mas faltam os emprehendedores.

A distancia da metrópole, e a insalubridade de seu clima sam obstáculos difficeis de vencer, para que se consiga irem ali estabelecer-se homens, que se dediquem a agricultura; porque os que lá vão, são atrahidos por um lucro rápido e de vulto, o qual não pôde d'ella provir.
Era nesta, que muito conviria o estabelecimento d'uma companhia, e como ultimo remédio somente occorre, o encaminhar-se para lá o maior numero de degradados, fazendo-se a seu respeito regulamentos, a fim de os fazer dedicar á cultura, proporcionando-lhes os meios para isso indispensáveis. A extensa província d'Angola, que além de seus rico6 productos de industria extrativa, como são o azeite de palma, o marfim, a certij a abbada, os dentes de cavallo marinho, urzella, a gomma copal, as pelles, o cobre, o enxofre, o salitre, e outros ainda não conhecidos, nem aproveitados;'apresenta todas as necessárias condições para nella se montarem em ponto grande as já começadas culturas do café, do assucar, do amendoim, do tabaco^ e do algodão, porque tem muitos terrenos, os quaes não só a sua localidade, mas a experiência mostra serem para isso adequados: tem abundância de braços, logo que se lhes dê a competente direcção: e já finalmente tem emprehendedores, e possibilidade de se augmentarem muito; pois que começa a dirigir-se para ali a tendência da emigração de nossos concidadãos, como se vê do numero, que ha seis mezes para lá tem ido nos vapores da companhia União Mercantil, a quem o governo tem pago as passagens. Se a cultura do café já começada em Cazengo, no Golungo Alto, em's. José d'Encoge e no Dande? for animada, pôde ella em poucos annos tomar grande incremento, não só nestes locaes, que a experiência demonstra aptos, mas ainda em todo o norte d'aquella província
Os primeros ensaios sobre a cuttura da cana sacharina feitos com alguma regularidade, em quanto á sua moagem nos engenhos na mesma levantados, fazem conceber as maiores esperanças pelos seus resultados.
O primeiro engenho ali levantado foi o meu, sob o nome de Purificação da Lucta, no valle dos Cavalleiros, limite da villa de Mossamedes, no qual não só a moenda da cana, mas os laboratórios de fazer assucar e aguardente promettiam vantagens, porque se achavam levados a algum gráo de perfeição. Este engenho, que tem soffrido dois incêndios, sendo o ultimo causado por uma correria do gentio do Nano em março do anno passado, e do qual ainda não foi reparado, está soffrendo graves prejuízos, porque se está perdendo a moagem das suas plantações de cana que era agora que haviam chegado a estado de produzirem uma regular colheita.
O segundo engenho, que se levantou foi o Triumpho no Bumbo, e do qual é proprietário Jesé Leite de Albuquerque, e que dista da dita villa umas vinte léguas ao nascente.

O terceiro é o Patriota : fica nos limite da me^ma villa, e é d,elle proprietário José Joaquim da Costa.

Estes três engenhos foram os que acompanharam a colónia na sua vinda de Pernambuco. Já tem plantações" de cana, e obras começadas para um quarto engenho, ainda n'aquelle districto, no Caramjamba, o proprietário Manoel José Corrêa.

É o quinto na Equimina,' districto de Benguella, do qual é proprietário Ignacio Teixeira Xavier.

Ha no Bengo "o 'sexto,' ojqual pertence aos herdeiros de 'D. Anna Joaquina dos Santos.

Eis o estado em que se acha n'esta província a cultura e elaboração da cana sacharina, d'este produeto agrícola, que é sem contestação o mais rendoso e de cujo desenvelvimento resultarão grandes vantagens, não só áquella província, mas ao còmmercio da metrópole.
Em toda ella é cultivado o amendoim, principalmente pelo gentio do norte da mesma, que o vende ou em grão, ou em azeite já extrahido, o qual não é só objecto de grande consumo, mas ainda de notável exportação.
Por toda ella se cultiva também o tabaco, que o gentio reduz a bolas, as quaes migadas fuma em cachimbos, e de que moidas faz tabaco de pó. Já em Ambaca e na cidade de Loanda se fabricam charutos do tabaco, produzido n'esta província.
Havia germinado na minha fazenda o legitimo verginia, semente que foi enviada pelo conselho ultramarino, e do qual fazia os primeiros ensaios na cultura e preparo para a exportação.
Se á actual agricultura de algodão, a mais fácil, menos dispendiosa, e de mais prompto resultado, se desse um bem meditado impulso, podia aquella província ser d'elle, dentro em poucos annos, um importantíssimo mercado.
Existem já na dita província mui adiantados ensaios, como são uma fazenda ao sul da villa de Mossamedes, no Chroque, junto a Cabo Negro, denomina-se ella S. João do Sul, e é seu proprietário João Duarte d'Almeida, morador na dita villa, e que lá tem por Administrador Eugénio Wherlim, filho da França, e homem hábil e trabalhador.

Já começa d'ali a exportar-se o algodão em rama.
A segunda é a minha, no local dos Cavalleiros, limite d'aquella villa. Foi a primeira que se montou n'aquella província, e da qual tem saindo as sementes. Tem os seus laboratórios sofrido dois incêndios; mandei nova- machina de descaroçar para a dita fazenda, que é actualmente administrada por Francisco Marques da Silveira, mancebo Olho da Beira Alta, hábil e incansável no trabalho: tem reedificado parte dos laboratórios, e como não se tem reedificado os do asssucar, ha prestado toda a attençâo ao algodão, cuja -plantação tem augmentado, e por isso começa a ser importante a sua exportação.
A terceira fazenda no mesmo limite, é a de António da Costa Campos e herdeiros de D. Isabel d'Áustria, a qual também soffrcu grandes prejuizos com a invasão do Nano.
A quarta é a de Fernando José Cardoso Guimarães.
A quinta é a de Eugénio Wherlimet, que também soffreu com aquella invasão. 

A sexta é de Manoel Pinto e Silva. 

Existiam ainda no limite, ainda que cabidas em decadência, em rasâo da dificuldade de obter machinas de descaroçar, a sétima de João Moreira, e a oitava de José Francisco de Azevedo.
Ha a nona fazenda, ainda no dito districto, mas do limite de S. Nicolau, pertencente ao dito João Duarte d AImeida, e que se denomina S. João do Norte da qual é administrador Francisco Bastos, filho da província da Beira Alta.
A decima é no mesmo limite, e pertence e é administrada por Manoel Martins.
A decima primeira, é de Manoel José Corrêa, o qual a administra, bem como a decima segunda, que possue no Carumgamba, onde ele reside. É filho do Brasil, laborioso, e muito emprchendedor.
A decima terceira, é começada no Jumlie Grande, districto de Benguella, por Marianno de Faria.
A decima quarta é nas proximidades do Ambriz, e pertence a Francisco António Flores, a qual também sofreu graves damnos o ano passado, causados pelo gentio do Mossullo e Quissembo.
Tem na cidade de Loanda Francisco Barbosa Rodrigues, machinas com que descaroça o algodão, que ali lhe traz o gentio, e que já vem afluindo em alguma quantidade, e que demonstra, que começa a dedicar-se á sua cultura, o que muito convém animar. 
Nas proximidades da mesma cidade havia começado uma fazenda um tal Rego, da qual é hoje proprietário Augusto Guedes Garrido, e uma outra o negociante José Maria do Prado.

Tem pois esta província muitos terrenos para cultivar o algodão, parecendo me que a região mais própria é a do sul, os districtos de Benguella e Mossamedes, em risco de serem ali pouco aturadas as chuvas, como muito convém, para que não appareça a moléstia do mofo. Tem abundância de braços. E já finalmente tem alguns emprehendedores, e bem fundada esperança d'estes se augmentarem. O que pois convém é que estes sejam auxiliados com meios pecuniários, e sobre tudo que se lhes de segurança, sem a qual não se pôde, nem deve esperar, que aquella e outras industrias tomem grande desenvolvimento.
Eu sei, que um nosso distincto sócio elaborou um projecto, sobre o cultura do algodão n'aquella província, no qual me consta, se acha desenvolvido um systema, que prehenche o que é necessário, para que ella ali se faça promptamente desenvolver. Oxalá que se utilise tão interessante trabalho, e o qué sinceramente desejo.
2o de Junho de 1861. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e
Castro. 

FONTE 
O Archivo rural, Volume 4



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