Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

ODISSEIA DE UMA GENTE – A Segunda Colónia de Madeirenses” II parte

Segunda Colónia

Publicada por Ana Paula
in  Sandularteblog

A 19 de Junho de 1885, o barco de guerra “África” lança âncora na baía de Moçâmedes. A bordo um contingente de 336 emigrantes, provenientes da Madeira, com destino, tal-qualmente à primeira colónia, ao planalto da Huíla. Este contingente passa a ser conhecido por “Segunda Colónia de Madeirenses”. Ao desembarcarem, para descrédito e vergonha dos governantes da vilória de Moçâmedes, assiste-se à repetição do episódio ocorrido com a primeira colónia sete meses antes: não foram providenciados atempadamente os meios de transporte para o destino final. Motivo? Porque o governo pagava (quando pagava…) tarde e mal os serviços prestados pelos transportadores. Daí os proprietários dos carros – na maioria bóeres – só aceitarem trabalhos mediante pagamento adiantado.

Sem outra alternativa o governador viu-se obrigado a entrar em negociações com os “temidos” bóeres da Humpata. Ultrapassado o delongo impasse, os carros desceram a Moçâmedes; e a 1 de Agosto, após uma enervante espera de 40 dias, a colónia, em conjunto, enceta viagem em caravana formada por 30 grandes carros-bóer.

O percurso desta segunda colónia, comparado aos dramas da primeira, contados nos capítulos anteriores, pode-se considerar sofrível. Em Moçâmedes, essa gente, embora mal acomodada, ali e até ao sopé da Chela, graças à época de cacimbo, o calor foi suportável. A partir dali, gradualmente, foram sentindo o frio das altitudes; mas, em compensação, livres da chuva e consequentes atoleiros que muito contribuiu para a redução do tempo do trajecto. E o mais importante, a expectativa destes na indescritível consolação do reencontro com os seus patrícios, com tecto preparado para os acolher, cumprido no dia 19 de Agosto de 1885 – Quarta-Feira.

Breve pausa

Vou interromper aqui a história das Colónias Madeirenses para lembrar, em poucas linhas, um pormenor deveras desonroso para os fautores e de meditação e tristeza para todos os huilanos que se prezam.

 

O Lubango – pré Sá da Bandeira

Topografia – Tratava-se de uma colina plana, abraçada a noroeste, oeste e sudoeste pela Cordilheira Marginal; e a norte, este e sul por densa mata de espécies lenhosas, arbustivas e frutíferas. Situava-se entre os rios Mapunda e Mucufi. Estes detalhes poderão ser apreciados num esboço cartográfico de 1890, a anexar.

Toponímia – Existem duas versões sobre a origem do nome: “Caluvango”, nome dum soba dali; e “Lubango”, nome dum rio, afluente do Mucufi. Esta terra, entre altas serras e rios de curso permanente, representava o território real embelezado com a sua “Ombala”, sob frondosas mulembas, residência do soba (Rei) e da sua corte. Em derredor desta habitavam os súbditos do monarca a cuidar dos arimbos e gados. Em 1874, descoberta esta pequena e edénica terra, foi logo cobiçada e eleita para estabelecimento de colonos: madeirenses e outros. Todavia, a zona teria que ser primeiro “desnegrada”!...

O governador de Moçâmedes, sem efectivos militares à altura para expulsar o soba e a sua gente, confia a “obra” ao capitão Nestor da Costa, latifundiário na região da Bibala no cultivo de algodão, para exportação, e cana-doce para produção de aguardente. Este capitão, com a mira no saque e uma oportunidade para a captura de escravos para as suas plantações, com uma força formada por seus serviçais e outros indígenas da zona (impelidos), ataca o temível soba conhecido por “Cabeça Grande”. Os invasores, após breve escaramuça, foram repelidos e perseguidos até grande distância.

O referido soba, ao tomar conhecimento de que estava a ser preparada nova invasão, esta com o auxílio dos aguerridos bóeres, a cavalo, fugiu para a Cuama. Sem o seu rei o povo dispersou-se deixando a região deserta. Asneira semelhante havia sido praticada em 1881 quando, para a instalação dos bóeres na Humpata, muitas famílias indígenas foram dali deslocadas. Mas com uma diferença; “foram gratificadas!”: fazendas no valor de 46.080 réis (o equivalente a 8 vacas) e três ancoretas de aguardente (60 litros) comprada em Capangombe a 160 réis a canada (1,4 l). Muito generoso esse Nunes da Mata, governador de Moçâmedes! Muito mais gastou ele na deslocação para presidir à cerimónia de inauguração da colónia bóer, chamada de “S. Januário”, a 19 de Janeiro de 1881.

Disseminação dos madeirenses

Sob a “direcção” do emproado e prepotente Câmara Leme os 558 colonos, amontoados nos Barracões, foram assim distribuídos: Chibía-44 (director desta nova colónia, o capitão Joaquim Afonso Laje); Humpata-55; sede do concelho da Huila – 32 (não assinalados). Nestas localidades a população branca anterior era: Chibía – 3; Humpata – 44 (além de cerca de 350 bóeres); Huíla – à volta de 100. Após este desmembramento ficaram nos barracões 424 pessoas. Estes números poderão ser apreciados nos mapas a inserir mais adiante.

Nascimento físico da colónia Sá da Bandeira
Ainda em 1885, homens e adolescentes, enquanto uns poucos ficavam de guarda nos barracões, os demais, ao amanhecer, de enxadas e pás aos ombros, calcorreavam os 5km até aos antigos domínios reais, agora “desinfestados”. Face aos perigos de emboscadas da gente do soba “Cabeça Grande” que embora escorraçado não se deu por vencido, o grupo era escoltado por três praças e uma dúzia de colonos (que nunca tinham visto uma arma de fogo) armados com obsoletas e ferrugentas espingardas de “pederneira” do século XVII. A cavalo, chicote na mão e revólver de tambor à cinta, seguia o D. Câmara Leme. Os primeiros trabalhos consistiam no rasgo de levadas a partir dos rios já referidos, na desmatação da área prevista para a abertura das ruas, construção de casas e arroteamento de pequenas parcelas para culturas diversas. Ao entardecer o grupo volta aos barracões. Esse vaivém prolongou-se por alguns meses. Para além dos perigos das emboscadas dos nativos havia também o perigo de ataques de leões que abundavam na zona; daí não serem aconselháveis saídas à noite.

Mais contingentes e seus frutos

De 1888 a 1892 as populações das colónias já citadas foram aumentando com a chegada de mais madeirenses aos Barracões e em seguida deslocados gradualmente até um total de: Chibía – 667; Humpata – 91; Huíla – nada consta! … Os restantes – 823 – ficaram nos Barracões, com destino à colónia Sá da Bandeira e a do Caculuvar. A movimentação e números descritos constam de mapas oficiais a incluir mais adiante.

Em Sá da Bandeira, com os números de homens válidos a aumentar a cada ano, foram abertas novas levadas, distribuídos talhões para a construção de casas de pau-a-pique e capim e alargadas, com arados, as áreas para a cultivo de: cereais, legumes, leguminosas, espécies tuberculosas e bulbosas. Foram também plantadas, para ensaio, algumas espécies de árvores frutíferas.

No primeiro e segundo ano os resultados agrícolas foram desanimadores. Causas: insuficiência de bois de tracção para as charruas; sementeiras efectuadas fora das estações próprias; sementes de má qualidade; e o pior, incompetência e teimosia dos pseudotécnicos agrários importados de Portugal. Graças aos conhecimentos levados da Madeira e as experiências adquiridas no terreno, os proveitos foram melhorando progressivamente. Há que reconhecer, embora pouco amistosos, a utilidade dos bóeres na venda de bois mansos, cangas, peaças, brochas, etc. Artes que, na época, só eles dominavam.

Imperdoável – símbolos perdidos

Lamentavelmente, para nossa vergonha, da “Ombala” nenhuma mulemba foi poupada nem sequer assinalado o seu lugar. O rio “Lubango”, devido ao seu desvio na fonte para as levadas, desapareceu: nem uma simples rocha foi colocada a assinalar o local do seu assoreado leito. Sorte semelhante sofreu o rio “Mucufi”. Não obstante mais caudaloso que o rio “Lubango”, por causa das sucessivas captações na sua cabeceira, o remanescente, ainda no seu curso superior, foi açudado, desviado para a levada que irrigava os campos de trigo do bairro da Machiqueira (de Machico). Esta levada acaba represada para mover os rodízios duma moagem de cereais. A partir dali, às curvas e contracurvas, transforma-se em regato e volta ao leito materno já confluído com o rio Mapunda, originando o Caculuvar que deu nome aos barracões e à maldita colónia. Depois de lhe roubarem toda a água, o Mucufi passou a expressão de mulola e reservatório de lixo. O rio Caculuvar vai engrossando ao receber os rios Nompaca, Tximúcua, Lupolo (ou Huíla) Txipumpunhime e alguns riachos. Depois de oferecer um pouco do seu caudal para regar os grandes campos dum outro Caculuvar, Txahungo e Missão Católica da Txihíta (Quiíta) entrega as suas águas ao rio “Cunene”, cujo nome corrompido de “Inênê”, significa enorme.

Entre a maledicência e a verdade
Pelos fracassos, em todas as áreas, de colonização dirigida, a culpa era sempre assacada aos madeirenses, apodados de: preguiçosos, incompetentes, bêbados, etc. e nunca assumida pelos irresponsáveis mandões. Confirmando-se assim um desabafo do ministro Sá da Bandeira: “Que os fracassos do desenvolvimento de Angola deviam-se aos maus governantes em Portugal e aos péssimos afilhados enviados para Angola”. Sem pretensões a juízos maniqueístas o que descrevi e o que irei acrescentar corresponde à verdade.

Foram esses humildes madeirenses, tão maltratados fisicamente e ridicularizados moralmente pelos “senhores” idos de Portugal e até por um conterrâneo, com todos os defeitos que injustamente lhes têm sido imputados, ninguém, minimamente esclarecido, se atreveria a desacreditar o seu gratificante legado. Foram eles, fustigados pela chuva, sol, vento e frio que desbravaram, aplanaram e – milagre (!) – conquistaram a merecida confiança e aproximação dos dóceis muílas tão hostis – com sobejos motivos – aquando da usurpação das suas terras.

Foi graças ao labor desses “analfabetos”, que em 1889 a colónia Sá da Bandeira foi elevada a concelho. Lamentavelmente como primeiro administrador o famigerado Câmara Leme. Foi ainda por mercê das obras dos colonos que se “abriram as portas” da Chela para a entrada de emigrantes portugueses europeus – entre eles gente de qualidade – que, com capitais próprios, diversificaram os ramos de actividades: Indústria, pecuária, agricultura e, por inerência, o comércio. Foi pelas mãos calejadas e assisadas iniciativas que essa gente, antes separada pelo Atlântico, agora lado a lado, degrau em degrau, imprimiram, económica e demograficamente, mais vitalidade justificando, em 1901, a criação do distrito da Huíla com capital e nome de Vila Sá da Bandeira, com 1248 habitantes (contra os 1020 de Moçâmedes).

Após 18 anos (obras públicas à portuguesa) desde o início do assentamento da mini linha-férrea (bitola 0,60m) em Moçâmedes, esta atinge o Lubango em 18 de Maio de 1923 e, sobre os seus carris, chega e apita o primeiro mini comboio, e a vila Sá da Bandeira categorizada a cidade. (Em 1939 foram iniciados os trabalhos do seu alargamento para bitola 1,067m).

Figura4

Figura2

“Colónia do Caculuvar”–colónia ou campo correcional?

Em 1890, a uns 4km a sueste dos barracões, foi constituída a colónia do Caculuvar orientada por um subdirector (anónimo!...) subordinado ao director da colónia Sá da Bandeira, Câmara Leme. Nesta “sucursal” foram colocados 247 colonos dos 701 chegados ao Lubango nesse ano. O tempo de vida (omitido) desta colónia foi de curta duração. Motivo? Péssima administração e os inconcebíveis abusos do repugnante subdirector, de conivência com Câmara Leme. João de Almeida, no seu livro Sul de Angola, pagina 296, sobre os desmandos cometidos pelo referido subdirector, deixou-nos o seguinte testemunho:

Tendo este, uma loja por sua conta, obrigava todos os colonos a comprar-lhe os géneros por preços excessivos, não permitindo que fossem adquiri-los a outra qualquer parte, antes prendendo e castigando corporalmente, duma forma bárbara, aqueles que transgrediam a proibição, correctivo que também aplicava àqueles que se permitiam à liberdade de fazerem observações quanto ao verdadeiro rumo a tomar na abertura das levadas ou direcção dos trabalhos. Este Director da Colónia foi degredado para Moçambique”. Grande castigo, louvável justiça!...

Consequências – A colónia foi extinta, posto termo à imigração por contrato, regresso de alguns colonos à Madeira, enquanto os outros, voluntariamente, transferiram-se para novos lugares menos opressivos.

Figura2

Figura6

“O Cavalo-marinho e cascos d´aço

Ao trazer à tona os “feitos” do carrasco da colónia do Caculuvar, não devemos olvidar o cruel Câmara Leme (alcunhado de “navio” por andar sempre de proa empinada, possuir câmara e leme), sempre de “cavalo-marinho” na mão aplicando-o com frequência sobre o “lombo” dos seus concidadãos. Conta-se que na origem dos elevados impostos e outras exigências incomportáveis face ao baixo rendimento dos colonos, estes, encabeçados por Manuel Henriques, marcharam até à administração em sinal de protesto contra os referidos excessos. A resposta do administrador do concelho, Câmara Leme, foi rápida e “satisfatória”, (para ele!). De chicote nas patas e biqueira d’aço nos cascos flagelou e escoiceou o indefeso e pacífico Manuel Henriques, abandonando-o num estado lastimoso. Esta barbaridade pode ser confirmada pelos seus numerosos descendentes.

Admite-se que não foi por acaso a transferência de Câmara Leme para a Ilha de S. Tomé no final do século XIX.

Figura5

Recompensa
Cerca de meio século após o enunciado nos capítulos anteriores, foi colocado, no liceu Diogo Cão, como professor, o Dr. Mendonça, mais conhecido, devido à sua compleição atlética, por “Mendonça das Forças”, natural da Madeira. À sua estatura física sobrepunha-se o saber e competência na profissão que abraçara. Admirável qualidade, mas excedida pelo seu nobre carácter e sentimentos filantrópicos, em especial para com os seus conterrâneos no Lubango, já na ordem dos vinte mil.

A este homem, culto mas em contrapartida humilde, (discípulo de Baco), se ficou a dever uma louvável acção jamais pensada pelas gentes do Lubango. Foi este homem que proporcionou grande alegria a um grupo de colonos, alguns octogenários, entre eles o citado Manuel Henriques, organizando e acompanhando esse grupo até à Madeira numa romagem de saudades aos cantinhos que os viu nascer. BEM-HAJAS, “MENDONÇA DAS FORÇAS”! E que o lugar no cemitério dos Barracões, onde dormes, seja honrado de harmonia com a tua conduta nessa terra que tanto amaste e onde viveste, feliz, a maior parte da tua vida.

Os porquês da emigração dos madeirenses para Angola

Afinal qual a política que animou os madeirenses a emigrar para a longínqua Angola quando outros mundos havia, mais convidativos? Este capítulo, que deveria constituir o exórdio deste meu escrito preferi inseri-lo aqui. Mais, porque ficaria truncado sem uma pitada relativa à história da Madeira, aqui fica o essencial da intenção em mente.

O arquipélago, nomeado de Madeira, já havia sido avistado pelos navegadores espanhóis que colonizaram as ilhas Canárias, no século XIV. Todavia foi João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, em 1418, e Zarco e Bartolomeu Perestrelo, em 1419, os primeiros a pisar, respectivamente, as inabitadas ilhas de Porto Santo e da Madeira. Como recompensa, pelo achado, estas ilhas foram divididas em três capitanias: Funchal, para Gonçalves Zarco; Machico, para Tristão Teixeira; Porto Santo, para Bartolomeu Perestrelo.

Estes senhores, endinheirados, inteligentes e bons empreendedores, com homens recrutados em Portugal e noutros pontos da Europa, lançam mãos aos trabalhos primordiais: abertura de canais de rega (levadas), construção de paredões em pedra para nivelamento dos poios (socalcos), desmatação e arroteamentos. À medida que os trabalhos avançavam iam sendo ensaiadas diversas culturas: gramíneas, leguminosas, vinhas, cana-doce, árvores de frutos tropicais, mediterrânicos, etc. Foi também introduzido gado, principalmente bovino e suíno. Os resultados foram satisfatórios. Em poucos anos a ilha goza de auto-suficiência alimentar. Zarco e Tristão não chegaram a saborear os frutos dos seus empreendimentos, conquanto os seus herdeiros empenharam-se, com determinação, na continuidade da obra.

Mais tarde o povoamento foi alargado em donatarias a favor dos servidores do rei (D. Manuel I), como recompensa de serviços prestados à Coroa ou à ordem de Cristo. No século XVI foi intensificado o seu povoamento (entre eles um pequeno número de escravos negros e das Canárias) para a preservar de cobiças estranhas. Todavia, em 1801 – 1802, por alguma justificação, foi ocupada pela Inglaterra, e novamente em 1807 – 1814, como prevenção a uma possível investida de Napoleão Bonaparte. Estas ocupações vieram a revelar-se proveitosas, traduzidas no alargamento das relações comerciais entre as duas partes.

A partir dos finais do século XV até meados de XVII, a Madeira viveu períodos de apreciável prosperidade resultante das exportações de trigo, açúcar de qualidade, vinhos afamados, manteiga, pescado, etc., etc. Porém, abandonado o cultivo de trigo a juntar as abundantes produções de açúcar do Brasil e outras partes da América obtidas com o vergonhoso trabalho de escravos – mais barato, portanto – os produtos da Madeira, à excepção do vinho, perdem competitividade. Em consequência instala-se a carestia e a ilha entra em declínio. Para pioria da momentosa situação, a “guerra” entre os irmãos D. Miguel, absolutista, e o fanático e ganancioso D. Pedro IV, liberal, contagiou também a Madeira provocando agitações e, como aconteceu em Portugal, a política foi roubar os bens da Igreja, e dos vencidos miguelistas, em benefício dos oportunistas liberais.

Com o declínio da economia à vista, parte da população – já numerosa – envereda pela emigração para as Américas e África do Sul. Mas, para efectivar o objectivo, tinham que dispor de dinheiro para as passagens. Como nem todos, com o desejo de emigrar, possuíam qualquer pecúlio, os menos capacitados profissionalmente, tiveram que sujeitar-se a trabalhar para os donatários em regime parciário: uma parte para o senhor das terras e quatro para os trabalhadores, alojados em sanzalas. Os proveitos obtidos, mal davam para a sua alimentação.

Ora, com tal modo de vida e sem esperanças de melhores dias, aquela gente, para se libertar do jugo dos seus senhores, facilmente concordou emigrar para Angola aceitando as condições dos contratos que consistiam no seguinte: transporte da Madeira ao Lubango; fornecimento de sementes; alfaias agrícolas; objectos para uso pessoal e para defesa; gado bovino e suíno; atribuição de 2ha de terreno; abono de 30.000 réis no acto do contrato na Madeira; subsídio diário, durante um ano, de 300, 200 e 100 réis para, respectivamente, homens, mulheres e aos menores de 18 anos. Metade destas importâncias nos seis meses seguintes. Como argumentos convincentes os contratadores fizeram-lhes a imagem paradisíaca do Lubango, encobrindo quão difícil seria lá chegar. Sobre o abono de 30.000 réis desconheço se foi por pessoa ou por agregado. Para aquela gente, literalmente carente, confiante na oportunidade oferecida, decerto com um “seja o que Deus quiser”, rumaram ao seu destino. Mas, pelo o que descrevi e o que irei acrescentar, a aventura dos primeiros tempos foi-lhes bem adversa.

Destes subsídios – nem sempre pagos pontualmente – era descontada certa percentagem para a construção do palácio de Câmara Leme!

Para se compreender o valor da moeda réis, vou dar os preços de alguns artigos, por quilo e litro e, entre parêntesis, o custo na Metrópole: açúcar, 600 réis (260); azeite, 800 (360); vinho, 400 (100). O preço médio de um boi bravo (não preparado para tracção) era de 12.000 – 15.000 réis; um boi de carro (de canga), 20.000 – 30.000; um carro bóer, 700.000. Para comparação, os preços de alguns frutos produzidos pelos agricultores, conforme as leis de abundância e escassez, em réis e por quilo eram: trigo 60-100; milho, variedade dente de cavalo (branco) e catete (amarelo), 30-60; batata, 30-50; batata-doce (cinco bicos), alimentação predilecta dos madeirenses, 15-20 réis.

Esclarecimento

Nomes, factos e datas desde o primeiro recrutamento – 1884 – na Madeira até ao último parágrafo, servi-me de apontamentos extraídos das obras “Sul de Angola” e “Terras Altas da Huíla” da autoria de João de Almeida e Carlos Medeiros, respectivamente. Lamentavelmente com lapsos imperdoáveis: Citam nomes e feitos de gente originária de Portugal mas dos madeirenses, mesmo com as consultas aos arquivos com os registos dos colonos, nenhum nome nem local de nascimento foi mencionado. Encontrei apenas números!...

Quanto às peripécias e desenganos sofridos pelos “anónimos” madeirenses, foram-me transmitidos, há 26 anos, por meus primos José e Ricardo, nascidos nos princípios do século XX, que lhes foi contado por seus pais Maria e João Ladeira, que os viveram ou ouviram de quem os viveu.

Ainda e por oportuno, eis algumas passagens do livro “OS MADEIRENSES NA COLONIZAÇÃO DO BRASIL”, de Maria Licínia Fernandes dos Santos: “Na história da Madeira, a problemática da sua participação na colonização do Brasil tem permanecido à margem das dominantes preocupações dos estudiosos. De facto, desconhecemos estudos aprofundados sobre a emigração de madeirenses para o Brasil nos séculos, XVI, XVII e XVIII. Dada a função crucial da emigração em todos os planos (económico, social, demográfico e cultural), esta situação não pode deixar de surpreender. Simultaneamente, sabemos que as condições técnicas da produção de açúcar, (…) depois de testadas na ilha da Madeira, foram transplantadas (…) para o Brasil, assim como as primeiras socas de cana.

Esta singular realidade e a insólita situação, constatada no decurso das nossas pesquisas, de os historiadores se referirem frequentemente ao fluxo emigratório de açorianos para o Brasil (…) quase esquecendo o importante contributo dos madeirenses nesse processo, constituíram para nós um estímulo acrescido na realização deste trabalho.

As nossas pesquisas começaram na Universidade de Coimbra, Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, prosseguindo no Funchal e no Recife, terminando no Rio de Janeiro. Note-se que também Santa Catarina, região que não tivemos oportunidade de visitar, deverá ter documentação de suma importância para melhor conhecimento da presença madeirense, no Brasil. (…) Quantos pormenores não poderíamos revelar se conseguíssemos encontrar alguns desses documentos?

Filhos da diáspora no período áureo da História Portuguesa, os madeirenses manifestam no decurso dos séculos uma tendência bem marcada para a emigração e, de entre os seus destinos, o Brasil. Particularmente significativo foi o fluxo madeirense para o Brasil não só de soldados e agentes da burocracia régia, como também de colonos para o arroteamento das terras e de operários especializados que construíram os engenhos e os colocaram em movimento.

De referir ainda que o embarque clandestino, a partir de 1779, levou muitos madeirenses para o Brasil. A porta mais segura de saída clandestina para aqueles emigrantes eram, então as ilhas Desertas. (…) De preferência a Deserta Grande, onde os deixavam na véspera de passagem de um veleiro que navegava periodicamente entre a Madeira e o Brasil.

Acrescente-se ainda a fuga à justiça por parte de muitos madeirenses que partiram para o Brasil como homiziados.

Finalmente, a intolerância religiosa vai ela, também fomentar a emigração madeirense para o Brasil. Com efeito, observa-se a fixação de muitos cristãos-novos da Madeira na área de Pernambuco, assim como outras famílias, que se transferem para a nova colónia, principalmente ao longo da segunda metade do século XVI, a que não é alheia a decadência da produção açucareira madeirense.

A Madeira foi entreposto, estação de passagem para o Brasil (…). Canas-de-açúcar, espécies vegetativas, gado, tudo foi daí … Que documentos haverá disso? Foram daí as vinte primeiras famílias que fizeram sementeiras de brasileiros … Haverá documentos disso? Até o nome lhe não sabemos …

Infelizmente, continuamos a desconhecer os registos sobre estas famílias. No entanto, estamos certos da presença madeirense no Brasil desde o início da colonização (…). Assim e como os documentos nos indicam, D. João III, em 1530, enviou Martim Afonso de Sousa num navio que, segundo alguns Historiadores, levava cana-de-açúcar da Madeira, para um determinado local do litoral do Brasil (…). Que na ilha da Madeira um cristão-novo pediu licença para embarcar com a esposa e quatro filhos menores (…). A este propósito, parece-nos perfeitamente plausível a hipótese (…) de que terão sido os ocupantes da armada de Martim Afonso que baptizaram o hoje bem conhecido morro Pão de Açúcar, possivelmente porque este morro tem a forma do conhecido Pão de Açúcar Madeirense.

Outro aspecto interessante a realçar e a reforçar a ideia de madeirenses nesta armada é o facto de, na mesma época, ter sido dado o nome de Ilha da Madeira a uma ilha de Guanabara, depois ilha das Cobras. Por outro lado, sabemos que o rei, por alvará de 1515, ordenou ao feitor e oficiais da Casa da Índia que “procurassem e elegessem um homem prático capaz de ir ao Brasil dar princípio a um engenho de açúcar; e que se desse uma ajuda de custo e também todo o cobre e ferro e mais coisas necessárias.

Quem melhor que um madeirense para levar a cabo esta tarefa?

(…) E, nessa época, um quase monopólio desse conhecimento estava nas mãos dos madeirenses. Aliás, o padre João António Andreone publicou uma espécie de manual de agricultura colonial, onde tratava também do açúcar, livro que foi apreendido e destruído, logo após a sua publicação, para que não se divulgasse conhecimentos considerados um exclusivo madeirense”.

Esta breve transcrição – da extensa dissertação do citado livro – vem confirmar o efeito duma reportagem, do grande profissional Brandão Lucas, para a Televisão Portuguesa, nos lugares pertinentes. Lato, claro e despretensioso na narração, valendo-se de documentação histórica e da preciosa colaboração da gente local, mostra os primeiros engenhos de tracção animal (em desenho); os movidos a energia hidráulica (conservados); e as enormes usinas a vapor (ultrapassadas, mas conservadas). E mais imagens sobre feitos militares, cultura e tradições madeirenses.


Texto de Jorge da Conceição Rodrigues

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